Solenidade de Todos os Santos

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”Mateus 5,1-12a Esses primeiros versículos do capítulo 5 servem, ao mesmo tempo, como introdução e resumo do Sermão da Montanha. Eles nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo, discípula, daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente; tanto a do tempo de Jesus como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (cf. Lucas 6,20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical em nossa maneira de pensar e viver. Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente (o Reino “já é” dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça). Na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois somente com ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido, e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”. As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de ser passivo, mas porque não é movido pelo ódio e pela violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos. Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (cf. João 14,27), mas o shalom, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome da paz!”. Mas Jesus deixa claro qual é a consequência de assumir esse projeto de vida: a perseguição. Pois um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires de nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem-aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisaria se questionar sobre sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (que, em sua raiz, significa “testemunho”) é a pedra de toque dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física, mas, muitas vezes, pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de dominação, em uma vivência fiel da luta pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mateus 16,24). A solenidade de hoje não é tanto para recordamos os nomes e façanhas dos grandes santos e santas conhecidos, mas mais para que nos lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões, que viviam a santidade no anonimato de suas vidas diárias, vivendo-a na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência dele. Se examinarmos nossas vidas, veremos que já conhecíamos muitas pessoas santas, cujos nomes jamais serão conhecidos mundialmente, mas que serviram como exemplo dos verdadeiros valores evangélicos para nós. Que a celebração nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes milagres, mas no dia a dia de nossa vocação, seja Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.ela a que for.
Solenidade de todos os Santos

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”Mt 5,1-12 Esses primeiros versículos de capítulo 5 servem, ao mesmo tempo, como introdução e como resumo do Sermão da Montanha. Apresentam-nos um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo, discípula, daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente, tanto a do tempo de Jesus como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (Lc 6,20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical em nossa maneira de pensar e viver. Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no tempo presente (o Reino “já é” dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça), na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça verdadeira são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido, e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”. As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. Podemos lembrar os sentimentos expressados pelo Papa Francisco na ocasião do naufrágio do barco carregando 500 refugiados da África, perto da Ilha de Lampedusa, na Itália. Em Assis, ele falou que sentiu uma sensação de “vergonha” diante da situação que não era somente daquele grupo, mas de milhões de nossos irmãos e irmãs. É manso, não no sentido de passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos. Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14,27), mas o shalom, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Mas Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida: a perseguição. Pois um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires de nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem-aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisa se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (= testemunho, na língua grega) é pedra de toque dessa fidelidade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD
À luz do Evangelho Dominical

A Igreja dedica este domingo à Solenidade de Todos os Santos, transferida, no Brasil, do dia 1º de novembro. O Evangelho proclamado na liturgia é a versão de Mateus (5,1-12a) sobre as “Bem-Aventuranças”. O padre Raimundo da Silva, CRL, explica que o texto apresenta o ideal de santidade. A primeira bem-aventurança, “Feliz os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu” (v. 3), é a principal, inspirada na profecia de Sofonias (3,11-13), falando do resto de Israel que busca refúgio no nome do Senhor. As outras, segundo o Pe. Raimundo, derivam desta. Não basta ser pobre, é preciso humildade para entrar na dinâmica do Reino. Os aflitos, mencionados por Jesus, representam os sofredores, os injustiçados, os que choram o mal causado a si e a outros. Jesus lhes dá esperança, dizendo que serão consolados. Já no contexto do Salmo 37, a palavra “manso” refere-se ao impotente, ao humilhado. Essas pessoas são exortadas a confiar em Deus e a não fazer justiça com as próprias mãos. As bem-aventuranças ainda falam daqueles que têm fome e sede de justiça, dos que praticam a misericórdia, de quem é puro de coração, dos promotores da paz e dos perseguidos por seguir o Senhor. Em hebraico, “bem-aventurança” significa “colocar-se em movimento”. A infelicidade é estar imobilizado, parado no tempo, estático diante das injustiças. Por isso, segundo Pe. Raimundo, o trecho bíblico é um convite a colocar-se em marcha. Assista ao vídeo produzido pela Verbo Filmes e veja o conteúdo completo.