Quando ouvimos falar de santidade, muitas vezes, pensamos nos santos que conhecemos pela história da Igreja, nas pessoas que fizeram grandes coisas ou que tiveram uma vida inteiramente dedicada a Deus. Mas será que a santidade está tão distante de nossa realidade? Será que precisamos fazer coisas extraordinárias para sermos santos?
Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa Francisco nos lembra de que todos somos chamados à santidade. Esse chamado não é apenas para algumas pessoas, mas para cada um de nós, em qualquer lugar e nas diferentes situações da vida.
Acredito que precisamos olhar para a santidade de uma maneira mais simples e próxima de nossa realidade. Ser santo não significa ser uma pessoa perfeita, que nunca erra ou que não enfrenta dificuldades. Somos humanos, temos limites, ficamos cansados, às vezes, perdemos a paciência e nem sempre conseguimos agir da melhor maneira. O importante é reconhecer nossas limitações e continuar tentando viver de acordo com o Evangelho.
A santidade na vida de todos os dias
Vivemos em um mundo cheio de compromissos, preocupações e muitas informações. Temos trabalho, estudos, responsabilidades familiares e comunitárias. Às vezes, estamos tão ocupados, tentando dar conta de tudo, que nos esquecemos de olhar para as pessoas que estão a nosso lado.
Nesse contexto, podemos pensar que a santidade depende de grandes gestos ou de momentos especiais de oração. No entanto, ela também pode ser vivida nas pequenas atitudes do dia a dia: escutar alguém com atenção, oferecer ajuda a quem precisa, tratar as pessoas com respeito, ter paciência com as diferenças e reconhecer quando erramos.
Quantas vezes uma palavra de carinho pode melhorar o dia de alguém? Quantas vezes um pequeno gesto de atenção pode fazer uma pessoa se sentir acolhida? São atitudes simples, mas que demonstram o amor de Deus presente em nossa vida.
O Papa Francisco nos convida a reconhecer a santidade nas pessoas que encontramos todos os dias. São pessoas que trabalham com dedicação, cuidam de suas famílias, ajudam quem está passando por dificuldades e continuam fazendo o bem mesmo quando a vida não é fácil. Muitas delas talvez nunca sejam reconhecidas por aquilo que fazem, mas seu testemunho nos ensina muito sobre o amor e a fidelidade a Deus.
Ser cristão no mundo de hoje
Ser cristão hoje também é um desafio. Vivemos em uma sociedade marcada pela pressa, pela busca de resultados imediatos e, muitas vezes, pela preocupação com a aparência e com aquilo que os outros pensam de nós. As redes sociais nos permitem estar conectados com muitas pessoas, mas nem sempre nos ajudam a estar verdadeiramente próximos de quem convive conosco.
Podemos passar muito tempo olhando para a vida dos outros e nos esquecer de cuidar de nossas próprias relações. Podemos falar de amor, paz e fraternidade, mas encontrar dificuldades para viver esses valores dentro de casa, no trabalho ou na comunidade.
Por isso, a vida cristã nos convida a olhar para nossas atitudes e perguntar: como estamos tratando as pessoas? Temos tempo para escutar quem precisa conversar? Conseguimos respeitar quem pensa diferente de nós? Nossas palavras e ações demonstram aquilo em que acreditamos?
Essas perguntas não servem para nos julgar, mas para nos ajudar a crescer. A fé não deve ficar apenas nas palavras ou nas celebrações. Ela precisa aparecer também na maneira como vivemos, fazemos nossas escolhas e nos relacionamos com os outros.
Seguir Jesus significa aprender com ele a amar, acolher, perdoar e cuidar, especialmente daqueles que mais precisam. Nem sempre é fácil, mas é nesse esforço diário que nossa fé vai se tornando mais concreta.
A santidade também é vivida em comunidade
Na vida comunitária, temos muitas oportunidades de viver a santidade, mas também encontramos desafios. Cada pessoa tem sua história, seu jeito de pensar, suas qualidades e limitações. Conviver com as diferenças exige diálogo, paciência, respeito e capacidade de reconhecer que não temos sempre razão.
Às vezes, podemos pensar que servir é apenas realizar grandes tarefas ou assumir responsabilidades importantes. Entretanto, o serviço também ocorre nas coisas que parecem pequenas: ajudar sem esperar reconhecimento, cumprir nossas responsabilidades, dividir as tarefas, acolher uma irmã que está passando por um momento difícil e saber pedir desculpas quando magoamos alguém.
A comunidade se torna um lugar de crescimento quando aprendemos a caminhar juntas, apoiando-nos mutuamente. Não precisamos ser perfeitas para testemunhar o amor de Deus. Precisamos estar dispostas a aprender, recomeçar e permitir que o Evangelho transforme nossas atitudes.
A oração também tem um lugar importante nesse caminho. É na relação com Deus que encontramos força para continuar, luz para fazer nossas escolhas e coragem para mudar aquilo que precisa ser transformado em nós. Rezar não significa fugir da realidade, mas encontrar em Deus a força para viver essa realidade com mais amor e esperança.
Há uma frase em minha língua materna, o tétum, que sempre me motiva e me ajuda a refletir sobre a vida: “Monu ba sala nee hahalok ita ema nian, maibe hamrik husi sala nee mak hahalok santu”. Em português, podemos expressar essa ideia assim: “Cair no pecado faz parte da nossa condição humana, mas levantar-se e recomeçar é também um caminho de santidade”.
Essa frase me faz lembrar que somos humanos e temos nossas fraquezas. Às vezes, erramos nas palavras, nas atitudes e nas decisões. Podemos magoar alguém, perder a paciência ou nos afastar daquilo em que acreditamos. Quando isso acontece, podemos sentir tristeza ou desânimo. Mas não podemos deixar que nossos erros sejam o fim de nosso caminho.
Deus conhece nossas fraquezas e continua nos chamando para perto dele. O importante é reconhecer nossos erros, ter humildade para pedir perdão, buscar mudar nossas atitudes e encontrar forças para começar novamente.
Isso não significa que podemos fazer qualquer coisa sem nos preocupar com as consequências. Pelo contrário, significa assumir a responsabilidade por nossas escolhas e ter coragem de mudar. A santidade também se manifesta quando reconhecemos que precisamos melhorar e nos esforçamos para não repetir os mesmos erros.
Às vezes, pensamos que ser santo é nunca cair. Mas talvez precisemos compreender que também existe santidade na coragem de nos levantar após uma queda. Cada recomeço pode se tornar uma oportunidade de amadurecer na fé, aprender a amar melhor e compreender também as fraquezas dos outros.
Essa reflexão nos ajuda a olhar com mais misericórdia para nós mesmos e para as outras pessoas. Assim como precisamos de compreensão quando erramos, também somos chamados a ter paciência com quem está tentando mudar. Isso não significa ignorar os erros, mas ajudar uns aos outros a crescer no amor e na fé.
Um caminho que se constrói a cada dia
A santidade não acontece de uma hora para outra. É um caminho que construímos diariamente, por meio de nossas escolhas, atitudes e relações. Haverá dias em que conseguiremos viver o amor com mais facilidade e outros em que perceberemos nossas fragilidades. Mesmo assim, podemos sempre recomeçar.
O mais importante não é parecer santo diante dos outros, mas buscar viver com sinceridade nossa relação com Deus e com as pessoas. Não se trata de fazer tudo perfeitamente, mas de permitir que Deus transforme, pouco a pouco, nosso modo de pensar, sentir e agir.
A mensagem do Papa Francisco nos ajuda a compreender que a santidade não está distante da vida real. Ela pode estar presente no trabalho bem feito, no cuidado com quem sofre, na paciência diante das dificuldades e na alegria de servir. Está também na humildade de reconhecer nossos erros e na disposição de tentar novamente.
Diante disso, fica uma pergunta para nossa reflexão: o que podemos fazer hoje, em nossa realidade, para tornar o amor de Deus mais presente na vida das pessoas?
Talvez a resposta esteja em algo muito simples, que podemos começar a fazer agora: um gesto de cuidado, uma palavra de esperança, uma atitude de perdão ou um pouco mais de atenção a quem está ao nosso lado.
Que possamos compreender cada vez mais que a santidade não é um caminho reservado a poucas pessoas, mas um chamado para todos nós. Mesmo com nossas limitações, que possamos continuar caminhando com Jesus, aprendendo com nossos erros, levantando-nos após cada queda e recomeçando sempre que for necessário.
Afinal, a santidade não significa nunca ter falhado, mas continuar buscando a Deus e permitindo que seu amor transforme nossa vida, um dia de cada vez.
Para saber mais
FRANCISCO, Papa. Gaudete et Exsultate: Exortação Apostólica sobre a chamada à santidade no mundo atual. Cidade do Vaticano, 19 mar. 2018. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html
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Irmã Eduarda Gracilda Saldanha Soares
Missionária serva do Espírito Santo, membro da Equipe de Comunicação SSpS Brasil.
Foto principal: Halfpoint (Istock).