Santos e santas nos altares da vida

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“… a santidade é um passeio no cotidiano” (Adélia Prado)

 

No próximo domingo, celebraremos a festa de Todos os Santos e Santas, ou seja, todos aqueles(as) que, sem exceção, estão na Memória, na Entranha, no Consolo de Deus, na eterna Compaixão que regenera, na Grande Comunhão que é o coração do próprio Deus.

Tal festa nos recorda também que essa é a vocação fundamental à qual somos todos chamados, enquanto seguidores(as) de Jesus Cristo. Nossa vocação é a santidade da Vida para além de todo sistema moral, para além de toda crença, para além de toda religião, porque fora da Igreja há salvação ou santidade.

Mais ainda. A santidade é nossa verdade mais íntima e universal.

“Somos santos(as).” Não somos santos porque somos irrepreensíveis, senão simplesmente porque somos, e vivemos, nos movemos e somos sempre em Deus e Deus em nós; também quando nos sentimos medíocres e inclusive fracassados. Ainda não temos encontrado nossa plenitude, não temos realizado nosso ser verdadeiro, mas para esse horizonte caminhamos na santa comunhão de tudo quanto é. Somos um tesouro em vasos de argila em formação, e Deus é o paciente oleiro na sombra mais profunda de nosso barro.

Nós, cristãos, honramos a santidade universal sem fronteiras de raça, de credo, de cultura…

Todos os santos e santas estão no coração do mundo, pois são plenamente em Deus. Todos são santos(as), porque já vivem a Vida Eterna e dão alento ao coração do nosso tempo e do nosso mundo.

A festa deste domingo não só recorda os santos e santas proclamados pela Igreja, mas também todos os nossos entes queridos que já estão na plenitude de Deus. Em outras palavras, eles e elas não são estátuas inertes nos oratórios de nossos templos, mas vivem inseridos no coração de Deus e encantados em nossa memória.

Também nós que continuamos comprometidos em favor da vida, somos merecedores desta homenagem, mas não por nossos méritos ou pela heroicidade de nossa própria conduta, mas porque em nós continua refletindo o rosto santo de Deus.

O Papa Francisco já nos convidava a olhar ao nosso redor e descobrir aqueles e aquelas que já são santos(as), “santos e santas da porta ao lado”, que são os homens e mulheres do povo de Deus: os pais que criam os filhos com tanto carinho, os homens e mulheres que trabalham para levar o pão à sua casa, os enfermos, as religiosas anciãs que continuam sorrido (…), são aqueles(as) que vivem perto de nós e são pura transparência da presença santa de Deus.

Portanto, a festa de “Todos os santos e santas” realça uma maneira original de viver a santidade, muitas vezes esquecida: a santidade da vida comum, da resposta à Providência divina em meio às rotinas do tempo, da caridade tecida nos pequenos gestos…

Diante de uma realidade que ameaça o ser humano pelo anonimato, pelo artificialismo, pela massificação, o(a) santo(a) injeta no interior das “veias” deste mundo a Graça transfiguradora do Amor.

O chamado universal à santidade nos faz confiar profundamente na vida cotidiana, ou seja, no dia a dia da vida familiar, no exercício da profissão, nas relações da vida social, nas decisões éticas, na ação cidadã, no campo dos direitos humanos, no campo da economia, na presença ativa da política, no mundo da cultura, no diálogo com os meios de comunicação, na navegação pela internet… como “lugares agraciados” de encontro com Deus e manifestações explícitas de compromisso cristão.

Como evangelho inspirador para a festa de “Todos os Santos(as)”, a liturgia nos propõe “saborear” as bem-aventuranças. Deformaríamos o sentido delas se não acrescentássemos algo que se destaca em cada uma. Com belas expressões, Jesus põe diante de seus olhos a Deus como garantidor último da felicidade humana. Aqueles que vivem inspirando-se neste programa de vida, um dia, “serão consolados”, “ficarão saciados de justiça”, “alcançarão misericórdia”, “verão a Deus” e desfrutarão eternamente em seu Reino.

As nove bem-aventuranças apresentam nove promessas de felicidade plena, nove situações que conduzem a essa felicidade, já a partir desta vida. São nove promessas de esperança. O que está em nossas mãos são as situações de fato, as nove condições para viver o Reino de Deus.

Trata-se, com efeito, de uma felicidade que transcende este mundo. E que, por isso, é para sempre e sem limitação alguma. É essa a condição daqueles que a Igreja considera e venera como santos(as).

Também é preciso levar em conta que as bem-aventuranças falam da felicidade, não no singular, mas no plural. Ou seja, Jesus não fala da felicidade do indivíduo, mas da felicidade relativa à comunidade.

A felicidade não é uma questão meramente individual, mas essencialmente social; a felicidade não se consegue isoladamente, mas comunitariamente. Em outras palavras, o que Jesus afirma é que a felicidade de cada um está em íntima relação com a felicidade dos outros, com quem cada um convive.

Aqueles que se deixam conduzir pela dinâmica das bem-aventuranças nesta vida têm garantida a promessa de felicidade sem fim, à qual denominamos vida eterna. É, em definitiva, a Vida de todos os santos(as). Ser santo(a) é fazer das bem-aventuranças a pauta de seu viver.

Por isso, ser santo(a) é ser humano por excelência, é ter a audácia de reinventar o humano; é resgatar a paixão por um ideal de vida e por um sonho; paixão pela vitória da esperança; paixão pela humanidade, paixão pelo mundo, paixão pelo Reino… enfim, paixão por Deus.

É uma incoerência extrema inspirar-se nas bem-aventuranças e, ao mesmo tempo, ser canais de ódio, de intolerância, de preconceito, de violência… Dói profundamente quando vemos cristãos coniventes com a cultura das “fake news”, dos julgamentos desumanos, do racismo, da xenofobia, etc.

Temos a sensação de que a mensagem das bem-aventuranças não é clara, ou não consegue conectar-se com as pessoas de nossos ambientes. A quem lhes interessa falar hoje de santidade? Será que essa busca de felicidade tem algo a ver com a santidade ou é totalmente alheia a ela?

Tudo depende de como concebemos a santidade. Se ser santo é separar-se deste mundo e buscar uma perfeição pessoal, através de renúncias e mortificações, fazendo coisas mais ou menos “raras”, o mais seguro é que as bem-aventuranças não interessam a quase ninguém. Mas, se nos apropriamos do chamado à santidade que é feito a todos, a proposta pode ir ao encontro de quem busca a felicidade e o sentido de sua vida.

Não tem por que a santidade ser aquela que só é acompanhada de virtudes heroicas, mas aquela que se expressa numa vida cotidianamente heroica; os santos vivem intensamente e colocam em prática o chamado de Deus para viver e dar vida a outros. Quer-se dizer, com isso, que santa é a vida e santo é defendê-la; fascinante é ver enormes esforços para propiciá-la.

O santo(a) sente-se cativado, envolvido, amado, entusiasmado, sintonizado, habitado por Deus de tal maneira que seus olhos, gestos, suas atitudes, palavras, seu coração, sua existência transbordam Deus.

Para humanizar nosso tempo, os(as) santos(as) revelam atitudes e critérios que nos fazem mergulhar de cheio nos desafios e problemas que afligem grande parte da humanidade. Os santos, de hoje e de sempre, não são encontrados nos pacíficos ambientes dos templos ou dentro dos limites da instituição eclesial, mas nas encruzilhadas da pobreza e da injustiça, nas “periferias existenciais”, em perigosa proximidade com o mundo da violência e da marginalidade, em situações de risco, onde a luz do amor ainda não brilha com tanta intensidade.

As bem-aventuranças nos esperam no pequeno, no cotidiano, no próximo mais próximo, e nos impulsiona a proclamar: a paz é possível, a alegria é uma realidade, a justiça não é um luxo, a mansidão está ao alcance da mão… Elas nos dizem que nascemos para a bondade, a beleza, a compaixão…

Num mundo em que nem todos são capazes de grandes façanhas ou de alcançar sucessos, Deus nos deu a aptidão de encontrar a grandeza no dia a dia. Temos apenas que ser santos o bastante para que possamos reconhecer o milagre no ritmo da vida.

“Os santos são muito corriqueiros, eles são absolutamente encardidos nas suas vidas.

O que às vezes chama a atenção são dons especiais, de milagres, de levitação, mas fora disso a santidade é um passeio no cotidiano” (Adélia Prado).

 

Texto bíblico: Mt 5,1-12

 

Na oração: o santo(a) é, na essência, uma presença transgressora, subversiva e inesperada, que denuncia e interpela as barreiras e fronteiras impostas pela sociedade.

– A sua vivência da santidade faz “diferença” em sua realidade cotidiana? Ela deixa transparecer as “marcas” das bem-aventuranças?

 

 

Padre Adroaldo Palaoro, SJ

Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).

 

 

 

Imagem principal: Kuarmungadd (Istock).

 

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