“Eu não me preparo para um fim, mas para um encontro” (Papa Bento)
Um dia após celebrar a festa de “Todos os santos(as)”, a liturgia nos convida a fazer memória de nossos entes queridos que cumpriram sua missão nesta vida, deixaram sinais de sua presença e continuam “encantados” em nossas memórias e corações.
É muito significativa a identificação que o Povo de Deus faz da festa de “Todos os Santos(as)” com a festa de “todos os Defuntos”; para muitos, inclusive, se trata de uma só festa.
A celebração eucarística neste dia torna-se uma ocasião privilegiada para nos ajudar a encontrar o verdadeiro sentido da celebração de Finados. A Eucaristia é o sacramento da unidade, do amor, da comunhão. Nela podemos experimentar que “algo” nos une a Deus e aos outros, vivos ou mortos. Assim, a melhor maneira de nos sentirmos unidos aos nossos falecidos é sentir-nos unidos a Deus, até que a morte nos una a todos.
Alguém já afirmou que “amar é dizer ao outro: não morrerás”. Se aquele que ama é Deus, então permaneceremos vivos para sempre. O amor pelo qual nos conectamos com Deus nos faz eternos.
É curioso que, diante do fato da morte, as várias culturas e religiões reajam de maneiras tão diferentes. Nos países de cultura cristã, predomina o sentimento de tristeza, saudade, dor, medo… Dá a impressão de que a nossa fé cristã na Ressurreição não consegue nos ajudar a superar o compreensível luto frente à partida deste mundo dos parentes e amigos que amamos com tanta sinceridade, ou com quem compartilhamos longos períodos de nossa existência.
Por que a morte, “a irmã da vida”, é tão perturbadora, sempre estranha e, com frequência, incômoda?
De fato, essa é a realidade que afeta a todos nestes tempos pós-modernos: a incapacidade cultural de abordar os limites, perdas, fracassos, mortes… Vive-se uma cultura na qual a dor e a morte são expulsas da experiência humana. A morte é distante e virtual: procura-se negá-la, escondê-la, dissimulá-la. É algo feio, de mau gosto, algo a ser eliminado da vida cotidiana. Vive-se como se tivesse que ser imortal. Quando a morte está perto, as pessoas se afastam dela, ou então, ela é afastada para locais específicos.
A vida marcada pelo medo da morte é uma vida “em terra de sombras”, que contradiz nossa vocação de ser filhos do dia e da luz.
O medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a escravizar-nos e angustiar-nos a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer. Ela nos golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de nossa experiência humana.
A negação da morte sempre cobra um preço – o encolhimento da nossa vida interior, o embaçamento da visão, o achatamento da racionalidade, a atrofia dos sonhos. No final, o autoengano toma conta de nós.
Uma das expressões mais belas, profundas e místicas de S. Teresa de Lisieux é expressa em uma carta quando ela estava chegando ao final de sua vida, mergulhada numa profunda crise existencial; sabendo que sua vida se apagava, ela nasce para uma nova consciência na qual percebe que a morte não existe: “não morro, entro na Vida”.
Efetivamente seremos todos “aspirados” e atraídos ao mais íntimo do coração de Deus, numa existência eterna. A vida começa, mas não termina nunca. A vida eterna, a vida ressuscitada não é algo que começa com nosso morrer. A morte é a que torna possível que a vida eterna que trazemos dentro de nós floresça em plenitude, na Vida de Deus.
Leonardo Boff afirma: “Não considero a morte como o fim da vida. Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. Por isso meu livro sobre o tema não se intitula: ‘Vida depois da morte’, mas ‘Vida para além da morte’”. Um dia, a vida começa a nascer e vai nascendo ao longo do tempo, aprendendo a caminhar, a falar, a pensar, a se comunicar e a se autoconstruir até acabar de nascer. É o momento da morte. Do “acabar de nascer” ao “acabar de morrer”, acontece a travessia para outro nível de vida que os cristãos chamam de ressurreição: é a vida que chega, na morte, à plena realização de suas potencialidades e irrompe para dentro de Deus.
Portanto, não vivemos para morrer; morremos para ressuscitar. Para José Marti, escritor e poeta cubano, “morrer é fechar os olhos para ver melhor”: para ver melhor o coração do universo, nosso lugar dentro dele e a Presença Providente que tudo faz existir e persistir.
Assim, a morte não divide a vida em duas metades, mas é passagem de uma margem da vida para a outra margem. É a mesma e única vida. Deus quer vida para todos e para sempre, para aqui, e a partir daqui, para sempre.
À luz disso, o dia “2 de novembro” não deve ser recordado como o “Dia de Finados”, mas como o “dia dos eternamente vivos”, porque a vida começa, mas não termina nunca. Desde o ventre materno, passamos por diferentes maneiras de viver a vida; mas é a mesma vida. Nada desaparece, nada volta ao nada.
A ideia de imortalidade e a ânsia de viver para sempre atravessa toda a história da humanidade. Responde à aspiração mais profunda de todo ser humano, e mais ainda daqueles que são vítimas da violência, das injustiças, da miséria e dos males deste mundo…
- Agostinho escreveu que “é apenas perante a morte que o caráter de um homem nasce”.
Muitos monges medievais mantinham uma caveira humana em suas celas para concentrar os pensamentos na mortalidade e para servir de lição à condução da vida. Montaigne sugeriu que a mesa de trabalho de um escritor deve oferecer uma boa visão do cemitério, para estimular o pensamento.
Morrer é “dar lugar” aos que virão depois, um último exercício de amor (K. Rahner).
Para terminar, podemos dizer com André Myre: “Morrer não é perder tudo, mas encontrar tudo”.
Essa abordagem da morte nos leva a um compromisso maior para com a vida. Sentimos nossa existência de uma maneira profunda e nova e que, a partir dessa perspectiva, tudo acontece de modo admirável, tudo tem seu sentido e tudo, no final, desemboca na plenitude.
Um dos riscos que nos ameaçam hoje é justamente cair numa vida superficial, mecânica, rotineira, massificada, sem sentido. Como manter viva a esperança? Como não cair na frustração, no cansaço ou no desânimo? Onde encontrar um princípio humanizador, capaz de nos libertar da superficialidade, da desesperança e do vazio interior?
No evangelho indicado para este dia, as palavras de Jesus são também um chamado a viver com lucidez e responsabilidade, sem cair na passividade ou na letargia. Vivemos tempos densos, carregados de presença e que pedem de nós uma prontidão. Tempo para tomar consciência dos medos, receios e resistências despertados pela “travessia” da vida; tempo para tirar de dentro de nós aquelas amarras que impedem o fluir da vida.
Não é a hora de apagar as luzes e irmos dormir. É a hora de reagir, despertar nossa fé e seguir caminhando para o futuro, projetando e promovendo caminhos novos de fidelidade ao projeto de Jesus.
É surpreendente a insistência com que Jesus fala da vigilância, de estar com os rins cingidos e com as velas acesas. Só uma atitude vigilante quebra a falta de sentido da vida que domina muitos homens e mulheres que caminham pela vida sem meta nem objetivo algum.
O chamado de Jesus à vigilância nos move a despertar da indiferença, da passividade ou do descuido com que vivemos, com frequência, nossa vida.
O espaço e tempo de silêncio do dia “dois de novembro” não é de morte, senão de vida germinal, é noite que aponta para aurora, são as noites escuras da vida cristã que desembocam na alegria da manhã pascal; é tempo de fé e de esperança, é momento de semear ainda que não vejamos os resultados, é tempo de crer que o Espírito do Senhor, criador e doador de vida, está fecundando a história e a terra para seu amadurecimento pleno, para a Nova Terra e os Novos Céus.
Texto bíblico: Lc 12,35-40
Na oração: silencie e ore; faça memória de todos os seus entes queridos que já entraram na Vida, e, a partir dela, envolvem você de luz, fortaleza e proteção. Repouse. Recorde.
– Diga-lhes o que não soube dizer, ou não pôde dizer, ou o que diria hoje, com sua maturidade e realidade humana.
– Quem sabe, você precisa perdoar ou pedir perdão. Se não o fez, hoje pode fazê-lo; talvez seja mais real porque o tempo lhe deu um toque de objetividade.
– Às vezes é preciso explicar ou contar algo para que se entenda o que aconteceu. É tempo de estar em paz, já que, para eles e elas, a paz é um fato; porém, você, a partir deste momento, precisa verbalizar para resolver conflitos emocionais que o continuam arrastando para a tristeza, o vazio, frutos de lutos não processados internamente.
– Manifeste gratidão pelas presenças inspiradoras de tantas pessoas em sua vida e que, agora, saboreiam a plenitude no coração de Deus.
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
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