Boletim Congregacional – Julho de 2023 – Nº 199

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Aprofundando a complexidade divina

Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, foi um dos mais influentes teólogos e filósofos cristãos da história. Sua contribuição para a compreensão da doutrina da Trindade é inestimável, trazendo uma perspectiva rica e profunda sobre a natureza de Deus. A doutrina da Trindade é central para a teologia cristã e busca compreender a natureza de Deus como um Deus “triuno”: um único Deus que existe em três Pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Agostinho abordou essa complexidade divina com uma mente analítica e um coração cheio de devoção, com base nos textos sagrados e refletindo sobre sua experiência de fé. Em sua obra De Trinitate (Sobre a Trindade), Agostinho empreendeu a tarefa desafiadora de desvendar o mistério da Trindade, reconhecendo a limitação da mente humana diante da grandeza de Deus. Ele destacou a importância da revelação divina e da fé na busca por compreender a Trindade, ressaltando nossa compreensão intelectual limitada e incompleta, e ressaltando a capacidade humana de conhecer a Deus pela experiência do amor. Agostinho enfatizou que a Trindade é um mistério a ser vivido, mais do que apenas compreendido intelectualmente, destacando a importância da relação entre as Pessoas divinas e descrevendo o Pai como fonte eterna, o Filho como a Palavra encarnada e o Espírito Santo como amor mútuo entre o Pai e o Filho. Três Pessoas divinas distintas, inseparáveis e coeternas. Ao abordar a relação entre as Pessoas da Trindade, também destacou a ideia de que o amor é o vínculo que une as três Pessoas, entendendo o amor como o princípio dinâmico e vivificante da Trindade, um amor que transborda para a criação e para a vida de cada ser humano. Agostinho enfatizou que somos chamados a participar desse amor divino, por meio da comunhão com Deus e de uns com os outros. Para Agostinho, a doutrina da Trindade não é apenas uma especulação teórica, mas uma verdade com implicações práticas em nossas vidas. Enfatizou a importância de buscar a unidade na diversidade, refletindo a natureza da Trindade, apresentando-a como um modelo à comunidade cristã, na qual as diferenças individuais são honradas e celebradas, e o amor mútuo é cultivado. Embora tenha feito grandes contribuições à compreensão da Trindade, ele mesmo admitiu que seu conhecimento era limitado, reconhecendo que o mistério trinitário está além da compreensão plena da mente humana e que, diante de tal grandeza, devemos abordá-la com humildade e reverência. Assim, a abordagem do pensador de Hipona nos ensina que devemos nos engajar com mente aberta e coração adorador diante da grandeza do mistério. Embora possamos nos esforçar para compreender melhor a Trindade, devemos sempre nos lembrar de que Ela permanecerá um mistério divino, que nos desafia a buscar um relacionamento mais profundo com Deus, vivendo em amor e comunhão com os outros e com tudo que nos envolve. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Rede de Educação SSpS.
Somos Petra/rocha sobre a qual construímos nossa vida

“Tu és pedra, e sobre esta rocha eu construirei minha Igreja” (Mt 16,18) O evangelho deste domingo nos situa num destes momentos em que Pedro, com sua habitual ousadia e rapidez, responde à pergunta que Jesus lhes dirige sobre sua identidade: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Diante da pronta confissão, Jesus o chamou, em hebraico, “Kephas”. O texto grego usa duas expressões: “petros” e “petra”. Simão é por si mesmo um “petros” (pedregulho, cascalho), mas, através de sua confissão messiânica, afirmando que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele realizou uma missão essencial no princípio da Igreja; assim, o mesmo Jesus acolheu esta profissão de fé e lhe chamou bem-aventurado (“makarios”), acrescentando que sobre a rocha da confissão de Pedro (“petra”) edificará sua Igreja. Por ter recebido uma revelação muito alta de Deus, o próprio Simão que em si mesmo é “petros” (pedra movediça, incapaz de ser alicerce) se converte, de maneira muito profunda, em Petra/rocha firme, revelando-se o alicerce da nova comunidade. O texto distingue e vincula assim duas palavras fundamentais: a) Petros (Pedro masculino), pedra-cascalho do caminho; b) Petra (rocha, feminino), na qual se expressa a revelação do Pai (“não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”). A realidade de Pedro está vinculada à sua história familiar, ao mundo conhecido ao qual pertence, à sua personalidade: é Simão (“petros”). No entanto, o olhar intenso e profundo de Jesus vai mais além, “perfura” essa realidade, descobrindo em Pedro a sua verdadeira identidade para o qual foi chamado a ser, ao se abrir à Graça: é “Petra” (Cefas). A missão para a qual foi chamado a ser, Pedro ainda não a conhece, mas é um dom que lhe foi dado já desde antes de nascer. A acolhida de Jesus se expressa na palavra de verdade oferecida e não imposta, uma palavra que o leva a dialogar consigo mesmo e a aprofundar: “Tu és ‘petros’ e sobre esta ‘Petra’ construirei a minha Igreja”. Pedro aparece, então, como o primeiro discípulo que manifesta sua fé pessoal em Jesus. E o evangelho faz um convite para que cada pessoa, cada seguidor(a), expresse para si mesmo qual é sua fé em Jesus. Como consequência, essa mesma fé, que aflorou na primeira comunidade cristã, é a que emerge e se prolonga, ao longo dos séculos, em cada seguidor(a) de Jesus, com sua fortaleza (petra-rocha) e, ao mesmo tempo, com sua fragilidade (petros-pedra); sem dogmatismos nem doutrinas, mas com a modesta manifestação de alguém que se sente interpelado e animado pelo modo como Jesus viveu e pelos estímulos que Ele lhe deu para caminhar na direção da nova humanidade. Por isso, continua sendo decisiva a pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. No entanto, não basta ter uma ideia clara sobre Ele ou um conceito teológico apurado, mas viver uma relação que se expressa como adesão a um estilo de vida cristificado. O seguimento de Jesus não é questão de razão ou um profundo conhecimento da cristologia; é questão de sedução, de atração, de paixão… Só podemos responder à sua pergunta com o coração. Se a pessoa de Jesus – seu modo de ser e viver – não provoca um impacto afetivo em nosso interior, o seguimento vai se tornando estéril e sem maiores implicações na vida. A pergunta sobre “quem é Jesus para nós” é fundamental para radicalizar nosso seguimento, e é fundamental para entendermos a nós mesmos; cada um precisa se situar de maneira única e original diante da mesma pergunta feita a todos. Em muitas ocasiões as perguntas nos ajudam a avançar mais que as nossas próprias respostas. As “perguntas existenciais” são provocativas e mobilizadoras, pois sacodem nossas vidas e despertam os recursos mais nobres que carregamos em nossa interioridade. Por isso, a pergunta por Jesus se volta a nós mesmos; perguntar por Jesus é perguntar por nós mesmos. Nesta rede de perguntas e respostas o que está em jogo não é tanto a identidade de Jesus, mas a nossa identidade de seguidores(as) seus(suas). No centro das perguntas que nos fazemos na vida vão surgindo respostas com as quais vamos configurando nossa existência, identificada com a vida de Jesus. Mas hoje, talvez num gesto de ousadia e atrevimento, poderíamos inverter as perguntas. No Evangelho, é Jesus quem pergunta e nós respondemos; agora somos nós que fazemos as perguntas a Jesus. Se Ele está interessado em saber o que os outros pensam dele, também nós estamos interessados em saber o que ele pensa de nós: “Senhor, que dizes, que pensas de mim?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como batizado(a) e teu(tua) seguidor(a)?” “Sou realmente essa imagem do(a) homem/mulher novo(a) nascido(a) de tua Páscoa?” “Senhor, que pensas e dizes de mim como: jovem? adulto? cristão/ã? trabalhador(a)…?” “Senhor, Tu, que pensas de mim como pessoa? Porque tu me deste a vida não para que a conserve atrofiada, mas para que me realize humanamente e chegue a ser uma pessoa livre, madura e comprometida. Tenho amadurecido no amor, chegando a ser essa pessoa que Tu esperas de mim?” Talvez, de início, possamos sentir um pouco de medo da verdade que Ele dirá sobre nós. Mas, pensando bem, podemos concluir que Jesus pensa melhor sobre nós que nós sobre Ele. E se nos dá vergonha responder às suas perguntas, certamente que Jesus não sentirá vergonha alguma em responder às nossas. Ao responder nossas perguntas, Jesus nos faz ter acesso àquilo que é o fundamento, a rocha sobre a qual construímos nossa vida. Assim como Ele respondeu, afirmando a verdadeira identidade de Pedro, podemos afirmar que “petros” é o que em nós é fragilidade, incoerência, vulnerabilidade, limitação… “Petra”, ao contrário, é o que é sólido, firme, consistente, sobre o qual fundamentamos a vida. “Carregamos um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4,7). Como seres humanos, vivemos a integração de “petros” e “petra”. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos,
Tempo Novo: a influência do ciclo da natureza na vida do Povo Guarani

O mês de agosto apresenta uma série de datas ambientais comemorativas. Entre elas, destacamos o aniversário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) (dia 28), o Dia do Patrimônio Histórico Nacional (17), o Dia Nacional dos Direitos Humanos (12) e o Dia Internacional dos Povos Indígenas (9). Por conta da convergência de temas deste mês, apresentamos o relato de uma experiência que deu visibilidade ao cotidiano indígena. A iniciativa foi uma ação conjunta entre a aldeia Ka’aguy Mirim Porã, localizada na Terra Indígena Tarumã, em Araquari-SC, e a Universidade da Região de Joinville (Univille). Trata-se da exposição fotográfica Ara Pyau, que, na língua guarani, significa “Tempo Novo”. As fotografias foram produzidas na aldeia Ka’aguy Mirim Porã, com base em duas perspectivas: a indígena, pelo olhar de Mari Djachuka, importante liderança do Povo Guarani, que vive na aldeia Ka’aguy Mirim Porã; e a não indígena, pelo olhar de Miguel Cañas Martins, arquiteto e criativo, que frequenta a aldeia e convive com a comunidade indígena. A curadoria da exposição Ara Pyau ocorreu de forma coletiva e colaborativa. Contou com a participação de Alessandra Mansur, do campo do Design e do Patrimônio Cultural, e Cauê Boeing, do Design. A realização também recebeu suporte do Comitê de Educação em Direitos Humanos (CEDH) e de dois programas de pós-graduação: em Design e em Patrimônio Cultural e Sociedade. O texto que acompanha a exposição, elaborado por Alessandra Mansur, e alguns registros fotográficos realizados por Mari Djachuka e Miguel Cañas Martins, são apresentados a seguir. Ara Pyau – Tempo Novo Para o Povo Guarani, o mês de agosto marca o início do Ara Pyau (Tempo Novo). Diferentemente dos não indígenas, essa data não é marcada por um único dia, mas por um longo período de seis meses. O Ara Pyau é uma celebração ancestral, em que se conta e canta o renascimento do corpo e do espírito. É o tempo de renovação e de muitas atividades. É o momento de construir as casas, de fazer a roça e de plantar as sementes sagradas do Povo Guarani. É o tempo de consagração dos alimentos e batismo, tempo no qual as crianças guaranis recebem o “nome-alma” dado pelo Xeramõi (liderança espiritual). A concepção de tempo é percebida pelos guaranis em dois momentos: Tempo Novo e Tempo Antigo. No Ara Pyau (Tempo Novo), de agosto a janeiro, dedica-se ao trabalho. O Ara Ymã (Tempo Antigo), de fevereiro a julho, é o tempo do descanso físico e espiritual. No Ara Ymã, a natureza também descansa, perde as folhas, por isso os Guarani descansam junto com ela. A sabedoria guarani acompanha o ciclo da natureza. A exposição Ara Pyau pretende aproximar a sociedade não indígena de alguns elementos do Tekoá Guarani (modo de ser e estar no mundo). Agricultura, Arquitetura, Educação Indígena, Espiritualidade e Corpo-Território são temáticas que perpassam essa exposição. Os Guarani habitam o bioma Mata Atlântica, mais conhecido por eles como Nhe’ê ry (onde os espíritos se banham). Nhe’ê ry é uma floresta viva. Nela se encontram os remédios que curam, e nela estão os saberes e fazeres ancestrais. É na floresta que reside a verdadeira escola! É na floresta que os conhecimentos são transformados na prática do bem-viver. Por fim, é importante ressaltar que, embora a ONU (Organização das Nações Unidas) tenha “criado”, por decreto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas, essa ação é resultado de muita luta, resistência e atuação de representantes dos mais diversos povos indígenas de todo o mundo. Alessandra MansurDoutora em Patrimônio Cultural e Sociedade (Univille), mestra em Saúde e Meio Ambiente (Univille), especialista em Poéticas Contemporâneas no Ensino da Arte (UTP), graduada em Design de Produtos (Univille). Pesquisa na Literatura Indígena Contemporânea a Paisagem Cultural das Comunidades Indígenas, com ênfase no Patrimônio Ambiental e no Patrimônio Alimentar. Experiência com Projetos Interdisciplinares na área de Arte-Educação-Ambiental, Direitos Humanos, Meio Ambiente, Questões Étnico-Raciais, Responsabilidade Socioambiental.
Escuta, fala, pensamento na prática educativa e pastoral

Como articular pensamento, escuta e fala na prática educativa e pastoral? Vamos tecer algumas ideias e considerações que, certamente, terão como destinatárias aquelas pessoas que orbitam os ambientes formais da educação: a escola com seus educadores e estudantes. Iniciamos, contudo, propondo o tema do “silenciar”. Ponto de partida para o exercício do conhecimento de si mesmo, fonte de todo o conhecimento, segundo antiga tradição filosófica. Silenciar é uma autêntica sabedoria, atestada no tesouro herdado de culturas milenares e tradições religiosas: silenciar é uma via que nos permite, mesmo quando ainda é algo simples e superficial, dar-nos conta de nós mesmos. Não há oração (pessoal ou comunitária), prática espiritual ou de meditação e contemplação (e, por que não dizer, não há aula ou produção e aquisição de conhecimentos) que se iniciem sem um gesto e convite ao silêncio interior. Pelo silenciar a si mesmo, as sensações que transitam por nosso corpo, concatenadas ao ritmo da respiração e aos numerosos pensamentos que nos habitam e passeiam pela mente são percebidos, possibilitando uma acolhida serena dessas moções e movimentações interiores, aceitando-as e mesmo as serenando. Não à toa, no espaço educativo da sala de aula, professores e estudantes sabem com clareza: a aula só começa, o conhecer só se torna viável de ser partilhado com o ambiente adequado para tal, com corações e mentes minimamente atentos, com o pensamento e a vontade situados no momento e espaço presentes, corpos relativamente confortáveis, ocupando espaços apropriados e geralmente assentados. Com essas condições preenchidas, a aula começa, os saberes são partilhados e geram-se novos pensamentos, conexões e reflexões. Caso contrário, restam os barulhos, ruídos, distrações, conversas paralelas e resultados aquém das expectativas, além de muita energia despendida sem uma direção acertada. É útil a todo estudante começar o dia de estudos verificando sua agenda, colocando-se de modo consciente em relação às matérias, conteúdos, aulas do cronograma ou, numa linguagem mais atualizada, passando a limpo o check-in daquilo que está previsto para o dia. Isso já introduz certa sintonia com os afazeres, trazendo foco e atenção, favorecendo a presença atenciosa aos temas, conceitos, atividades propostas, predispondo a vontade e a determinação em tomar parte ativamente do momento presente, com suas informações novas e conhecimentos construídos e adquiridos no conjunto das atividades em aula. Estudar é um ato da vontade! Criando as condições favoráveis para essa vontade autodeterminada, o pensamento se orienta melhor e adere com mais ênfase aos objetivos do conhecimento, evitando ficar à deriva de distrações diversas que sempre se apresentam ao longo das atividades escolares e são, de certo modo, algo normal e comum, com os quais lidamos diariamente. O exercício e a prática do silêncio interior, como fonte de conhecimento de si mesmo, ampliam e favorecem, de algum modo, a capacidade de escuta do outro. Fala-se muito em “comunicação não violenta” ou comunicação empática, entendendo-se, com isso, que há modos de nos comunicarmos, utilizando palavras, expressões, tons de voz e atitudes que favorecem a comunicação entre as pessoas e salvaguardam o respeito e até mesmo a compreensão e sensibilidade necessárias entre os interlocutores. Mais que uma técnica ou escolha de palavras, a comunicação tem empatia quando considera que as pessoas afetam umas às outras e elas estão, portanto, inseridas num círculo ético e afetuoso. Podemos dizer tudo, considerando a necessidade de compreender que aquilo que foi dito seja comunicado com responsabilidade própria (sem culpabilizar o outro), considerando o interlocutor como um agente da comunicação, transmitindo as ideias com respeito, honestidade e verdade. Promover a escuta e a comunicação com empatia constitui prática imensamente valiosa no âmbito da educação e das ações pastorais. Aliás, pode-se afirmar que escutar e se comunicar com empatia são práticas, em si mesmas, de teor pastoral, pois se situam e seguem a inspiração de Jesus, que falava às multidões e a cada um utilizando-se de uma comunicação que fazia “arder os corações”. Suas palavras eram ditas com autoridade, reconhecidas e atestadas por sua prática e seu jeito de ser. Jesus se colocava voluntariamente à disposição e atitude de escuta de quem se aproximava dele, quer seja para pedir por saúde e bem-estar, ou a partir de um gesto de conversão. Igualmente escutava aqueles que se aproximavam por curiosidade em vista dos chamados milagres realizados por ele, ou até mesmo quando o interrogavam apenas para testar seus conhecimentos e sua fidelidade à Lei de Moisés e aos costumes do Templo. Invariavelmente, Jesus ouvia/escutava as pessoas, dedicando-lhes tempo e atenção. Por diversas vezes, é dito sobre ele nos evangelhos: sentia compaixão dessas pessoas, alegrava-se com elas por acolherem o evangelho e as exortava, procurando e até encontrando nelas algo de melhor, alguma abertura para acolherem a si mesmas, o outro e à própria experiência de Deus por ele revelada. Por fim, ainda vale dizer: saímos há pouco de uma pandemia global de covid-19, cujos efeitos continuam sendo estudados e compreendidos. Ela nos afetou a todos, de modos diferentes. Passamos por medos, dúvidas, perdas, restrições e muitas sensações e sentimentos contundentes e confusos. A pandemia, como fenômeno biológico, passou, mas seus efeitos ainda são sentidos nos espaços de convivência e aprendizagens (famílias, escolas, igrejas, grupos de amizades e interações sociais). Pais e mães, crianças, adolescentes e jovens, professores e demais profissionais das escolas, agentes de pastoral nas comunidades e igrejas ainda lidam com esses efeitos. Temos ansiedades e fragilidades diversas ainda atuantes nas vidas de tantas pessoas. Dificuldades econômicas, emocionais e até mesmo correlacionadas à saúde do corpo e da mente. Um tempo que nos convida ao cuidado com a vida e com o bem-estar de si mesmo e do outro. Um tempo, portanto, de escuta redobrada das palavras que são ditas e que saem das bocas vindas diretamente dos corações, como um pedido de solidariedade, e até mesmo daquelas que não são proferidas, mas se manifestam nos sinais, comportamentos, lacunas e vazios que esperam ser preenchidos com afeto, empatia, solidariedade e compaixão. Que nossas palavras e escutas, que nossos pensamentos nos movam na mesma direção, fazendo-nos aptos a acolher os que
Maria, mulher da “memória agradecida”

“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47) Maria foi assunta ao céu porque desceu ao mais profundo de sua humanidade e da humanidade dos outros. A Assunção nos revela que ela foi humana por excelência; toda a sua humanidade foi atravessada pelo divino: nela não havia resquícios de ego inflado, de vaidade, de busca de prestígio e poder. Reconheceu-se como “humilde serva” porque desceu ao “húmus” de sua vida e aí deixou-se conduzir por Aquele que entra na história de cada um pelo lado da fragilidade, limitação, pobreza… Ela viveu a assunção em todos os momentos de sua vida, porque se sentia envolvida pela presença misericordiosa e providente de Deus. Toda a vida de Maria foi “assumida” por Deus porque ela cuidou da vida, colocou sua vida a serviço da vida, ativou todos os seus recursos de vida… Vida aberta, comprometida, vida que se fez visita e se deixou visitar. Maria “desapareceu” no divino porque mergulhou no humano. Sua humanidade foi plenificada. Por isso, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos seremos “assumidos por Deus”. Esta é uma realidade que não acontecerá apenas no fim dos tempos; é realidade sempre atual: já vivemos em Deus, n’Ele nos movemos e existimos; Ele nos envolve continuamente com sua providência, misericórdia e cuidado. Vivemos, então, em contínuo “estado de assunção”. Portanto, a Assunção de Maria diz respeito a todos nós; todos estamos implicados neste mistério; experimentamos a assunção através de dois movimentos: No primeiro, vivemos a assunção quando descemos ao mais profundo de nossa humanidade, às raízes de nossa existência. Há muitos recursos, dons, potencialidades, desejos nobres, inspirações, beatitudes originais, presentes em nosso interior e que querem emergir, elevar-se… A assunção começa em nosso interior quando o “que há de divino em nós” se expande, plenificando e dando sentido à nossa existência. Deus assume tudo o que é humano em nós e ilumina, plenifica… Nada do que é humano lhe escapa; Ele nos eleva, nos faz planar sobre suas asas de águia, para ampliarmos nossos horizontes, nossa visão da realidade… Com sua Graça, desperta e ativa todos os nossos dinamismos e potencialidades internas. Quem vive a assunção sonha alto, deseja grande, torna-se criativo e um eterno buscador. Sua vida torna-se oblativa, descentrada, é movimento de saída de si… A assunção o faz viver com os pés plantados no chão da vida e da história e, ao mesmo tempo, o faz transcender, romper fronteiras, ir além de si mesmo… Quem não se deixa inspirar pelo mistério da assunção limita-se a uma vida “normótica”, repetitiva, mecânica, estreita, atrofiada… Perde o sabor da vida, trava sua criatividade e mata sua capacidade de sonhar. O segundo movimento despertado pelo mistério da Assunção é este: a partir de uma interioridade expandida a pessoa se eleva na direção do outro, através do serviço solidário, da presença compassiva e do compromisso eficaz na transformação da história. A assunção move a pessoa a reforçar os laços, alimentar a comunhão, mobilizar a viver a cultura do encontro; a assunção faz romper fronteiras geográficas, sociais, culturais, religiosas… conclamando à vivência da fraternidade universal. Ela abarca a humanidade inteira. Porque parte do chão da humanidade, a assunção nos humaniza e nos capacita a criar mediações humanizadoras. Não é possível crer na assunção da humanidade se nos deixamos levar pela cultura da aparência, do ódio, da intolerância, da violência… Quem entra no fluxo desses dois movimentos da Assunção sente despertar em si uma profunda gratidão; brota de seu coração e de seus lábios um novo “magníficat”, onde reconhece a ação criativa de Deus, em si mesmo, nos outros e na criação… Proclama que Deus fez, faz e fará maravilhas nele(a), por ele(a), através dele(a)… Vive com vibração e intensidade porque sente que tudo é Graça, de graça, envolvido pela graça… Assim, celebrar a Assunção é entrar no fluxo da gratidão que Maria canta no seu “magnificat”. É modo de ser e viver inspirado na vida de Maria; é preciso nos situar de “maneira mariana” diante de nossa história. “O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor”, é uma exclamação que Lucas põe nos lábios de Maria para fazê-la nossa e repeti-la com frequência. Quando algo ou alguém nos emociona, não podemos evitar expressar esse sentimento. O regozijo não é completo se não o compartilhamos. A experiência prazerosa de um Deus que é Misericórdia e Santo fez brotar os mais belos salmos e orações que nos foram legados, cheios de benção e assombro agradecido. A gratidão perpassa o Magnificat e é o sentimento mais nobre que brota das profundezas do coração do ser humano, ao se sentir cumulado de tantos dons. Todos temos experiência que a nossa história carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, rejeições, erros, pecados… Os desencontros, quebras e rupturas… costumam deixar feridas. Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente. Com isso, ela se torna “memória mórbida, doentia”: depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades…; ao se fixar no passado, a “memória mórbida” alimenta remorsos, sentimentos de culpa, desânimo, angústia…, embotando a vida, queimando energias, paralisando a pessoa e não abrindo futuro de sentido. Pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos… Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia. Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória. Somente através da “memória redentora”, a pessoa é capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberto, dando-lhe um novo significado. A memória sadia não muda o passado, mas o “re-corda” (coloca de novo o coração) de modo novo e inspirador. A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado; ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e possibilita ter acesso às recordações não neutras,
Santa Dulce dos Pobres: inspiração para a verdadeira caridade

Em 26 de maio de 1914, nasceu o “Anjo Bom da Bahia”, batizada como Maria Rita de Souza Brito Lopes, mais tarde irmã Dulce. Desde cedo, já dava mostras de seu grande amor por Jesus que se revela sobretudo nos marginalizados, excluídos pela sociedade, pois os abrigava e deles cuidava em sua própria casa. Ao encontrar no irmão o rosto do “Cristo sofredor”, ela viveu plenamente o Evangelho em sua plenitude, dedicando sua vida à causa dos pequeninos do Senhor. Para isso, irmã Dulce erigiu escolas, hospitais, asilos. Conta-se que até um galinheiro antigo ela o transformou, por seu amor a Jesus que tudo transforma e renova, em um hospital para atender os desvalidos da sociedade. O amor a Jesus é capaz de mudar muitas realidades. Para isso, contudo, é necessário viver a misericórdia com o outro, e isso se faz no contato com o outro, compadecer-se da dor do outro, sentir junto, ser o próximo do outro; talvez o único evangelho, o evangelho vivo, que alguém possa ter contato… O Papa São João Paulo II recordava o dito “as palavras convencem, mas os exemplos arrastam”. Isso significa que um gesto vale mais que mil palavras. Precisamos acolher mais, sermos mais humanos, menos individualistas, olhar para a dor do outro, ter empatia. Isso vale mais do que mil discursos teóricos… Santa Dulce dos Pobres, como é chamada, é um sinal que indica o caminho seguro para Deus: o próximo. Que seu exemplo de vida e missão inspire nossa sociedade de hoje, cada vez mais materialista e apressada, individualista e competitiva, para que possamos viver o que o Evangelho ensina. Como diz o Papa Francisco, precisamos de mais santos nos dias de hoje, pessoas que ajam com misericórdia e sejam portadoras da “alegria do Evangelho”, Evangelho que, além de ser anunciado, é preciso ser vivido. Santa Dulce dos Pobres, rogai por nós! Diácono Luciano Ferreira SilvaDiocese de Ponta Grossa-PR. _______________________________________ O serviço da caridade “A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros” (Papa Bento XVI, Encíclica Deus caritas est, 25). A caridade é um dever do cristão, uma ação que expressa a experiência da solidariedade em relação ao outro que se encontra impossibilitado de garantir sua condição mínima de sobrevivência e, sobretudo, sua dignidade humana. Muitas pessoas confundem o significado de assistencialismo e caridade, utilizando-as por vezes como sinônimos. Assistencialismo: consiste no conjunto de ações em prol do outro, porém não se preocupa com a erradicação das causas sociais. Como doutrina, defende que não há nada a fazer para resolver os problemas, age somente em ações paliativas, ou seja, no efeito. Caridade: a caridade, por sua vez, identifica-se com o amor de Deus, portanto fazer caridade é ter as mesmas atitudes, as mesmas ações que Deus teria diante da miséria e pobreza. É a prática do Evangelho. O amor a Deus jamais vem desvinculado do amor ao próximo. Não é somente um sentimento de querer bem as pessoas. O amor cristão se manifesta em gestos e atitudes que promovem o bem e a felicidade do outro. Não se pode imaginar um seguidor de Jesus que não se revista dos gestos de amor e de caridade, marcas da vida do Mestre no meio de nós. Ele amou os pobres e os pecadores, acolheu quem era marginalizado pela sociedade da época. Cristo fez-se amigo dos excluídos e cuidou dos famintos. A caridade do Mestre Jesus era presente em cada uma de suas atitudes e ações de promoção da vida e da dignidade da pessoa humana. As obras de caridade estão presentes na Igreja Católica, desde sua fundação. Um exemplo foi o surgimento do diaconato. Para que os apóstolos se dedicassem integralmente à pregação, criou-se a função diaconal para suprir a necessidade de servir as pessoas mais necessitadas da época: as viúvas e os órfãos (cf. Atos dos Apóstolos 6,1-7). Os santos também foram aqueles que dedicaram suas vidas em prol da caridade, como Santa Dulce dos Pobres, Santa Tereza de Calcutá, São Vicente de Paulo, e milhares de outros santos e beatos da Igreja. As pastorais sociais em conjunto com as Cáritas diocesanas são a expressão da caridade e da solicitude da Igreja com as situações nas quais a vida está ameaçada. São atividades pelas quais a Igreja realiza a sua missão de continuar a ação de Jesus Cristo junto a diferentes grupos e realidades. No capítulo 25, versículos 31 a 46, de São Mateus, encontramos o texto conhecido como a “parábola do juízo final”. Para nós, cristãos, deve ser, acima de tudo, assumir a causa dos que mais precisam. Essa foi a escolha de Deus, essa foi a causa nobre de Jesus, que decidirá a participação ou não participação do Reino. A bondade gratuita revela-se quando a gente se dedica aos que não podem retribuir. É na doação ao “último dos filhos de Deus”, o faminto, que damos provas de uma misericórdia evangélica e divina. Façamos da caridade um estilo de vida, uma regra de ouro. Diácono Joanir OliveiraDiocese de Ponta Grossa-PR.
Sobre PAI, PAIxão e comPAIxão

Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Travessia existencial para a outra margem

“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar…” (Mt 14,22). Jesus, “homem do mar”. Os evangelhos o apresentam como carpinteiro/operário da construção. Mas tinha amigos pescadores e com eles aparece nos evangelhos, passando, várias vezes, de um lado a outro, pelo mar da Galileia. Jesus não vive só no “terreno sólido”; Ele vive também “no terreno do mar”, sai dos limites conhecidos, aventura-se ao novo, abre-se ao diferente… O evangelho deste domingo nos fala de uma realidade muito humana: somos seres de travessia e vivemos contínuos deslocamentos, desde o ventre materno. Saímos de lugares estreitos em direção a espaços mais amplos, até a travessia definitiva. Toda travessia tem um “para que” (um sentido); ela aponta para algo maior, inspirador. O perigo é deixar-nos determinar pelo medo, bloquear nosso espírito aventureiro e nos “acostumarmos” com a margem conhecida. O relato sobre a travessia do mar em Mateus nos revela que há muitas tormentas e ameaças ao nosso redor. Em meio à tempestade, levantam-se ondas de obscuridades sem sentido, de medos paralisantes, de dúvidas angustiantes… Sopram outros ventos tempestuosos que nos ameaçam, arrastando tantas seguranças que nos sustentaram, quebrando tantos salva-vidas aos quais nos agarrávamos… Mas, em meio às tempestades, urge não perder a calma, ter a coragem de “permanecer na barca” e não permitir que o ruído dos ventos nos vença, que os relâmpagos nos ceguem, que as ondas nos levem… “Permanecer na barca” é a palavra-chave: permanecer firmes nos compromissos assumidos, nos passos que buscam abrir caminhos novos, ainda que seja arriscado; permanecer ancorados na fidelidade a Jesus e a seu Reino e consentir que os ventos levem todos os nossos velhos padrões mentais, ideias fixas e atitudes petrificadas, preconceitos e tudo o que já está caduco e que não nos impulsionam para a outra margem…; permanecer apenas com a pessoa de Jesus e seu sonho como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas existências. Na tempestade também é necessário “soltar amarras e içar velas”, ou seja, atrever-nos a “viver no Vento”. Aproveitar dos “ventos contrários” para transformá-los em “ventos favoráveis” que conduzam nossa vida para a “outra margem”. Soltar as amarras e âncoras de nossos apegos, de nosso consumismo, de nossa prepotência, afã de domínio, fundamentalismos, patriarcalismo, machismo… Precisamos perder o medo dos novos ventos e içar as velas das novas ideias, das visões arrojadas, dos projetos criativos, da riqueza da pluralidade de culturas, religiões, raças, deixar-nos mover pelo vento dos movimentos de libertação (povos em desenvolvimento, negros, indígenas, os sem-terra, os movimentos ecologistas, pacifistas, feministas…), enfim, acolher o vento que nos impulsiona em direção ao novo e diferente… A barca de nossa vida naufragará na estreita calma de mares mortos se não formos capazes de desatar os antigos nós de marinheiros que impedem içar as velas para receber os novos ventos da história. Durante a tormenta, aprender a recordar que, depois da tempestade, vem a calma, para não perder assim o horizonte nem a esperança. Afinal, somos “seres de travessia”. Temos entranhas ardentes de voltar ao alto-mar, a disposição de enfrentar tormentas, o desejo de descobrir terras desconhecidas, a exploração do novo, a paixão por um horizonte de sentido. Tantos anos ancorados em portos seguros, com ritmos e horários prefixados, sem criatividade e sem intuição…; agora é tempo de nos perder no mar, com a proa voltada para a imensidade… Este é o desafio: despojar-nos do medo, romper os limites e confiar no Sopro, sutil ou tormentoso, que continua nos conduzindo para onde não sabemos. Reconhecer o temor nos impulsiona fortemente a atravessá-lo, a abandonar desculpas esfarrapadas, a não nos deixar prender pelos custos previsíveis. Continuar quebrando nossas pobres seguranças, despojar-nos daquilo que nos alivia e sair, sem alforje, nem duas túnicas, sem sandálias… A travessia traz e leva inovação. Deslocar-se, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma alteração do ângulo habitual, uma exposição ao diferente, um amadurecimento do próprio olhar, um reconhecimento de que alguma coisa nos falta, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, ou a descoberta de uma incapacidade para tal; um confronto indispensável, um diálogo tenso ou deslumbrado que nos deixa, necessariamente, com uma tarefa futura (Card. Tolentino). O primeiro desejo de chegar à outra margem nasce de dentro, do coração, que sabe estar longe de seu centro e entende sua missão de busca e peregrinação interior, de colocar-se em movimento… Sair da margem conhecida, “velha”, rotineira… para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade… A outra margem: lugar provocador, incitador e que desperta curiosidade… É aqui que brotam as grandes experiências religiosas, as intuições, os projetos ousados, as ideais vitais. Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação… e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em seu próprio interior… Os poetas, artistas, místicos… são aqueles que fazem a experiência da “outra margem”, vislumbram o outro lado, tocam as raízes mais profundas do próprio ser. O seguidor de Jesus tampouco sabe o que há do outro lado. A ele, como aos demais, lhe custa ver claramente. No entanto, considera que a outra margem é talvez diferente, mas tão apaixonante como esta margem onde ele está; e então, decide animar-se a cruzar a vastidão do mar interior. Em resumo: nessa experiência não se trata tanto de “chegar”, mas de “ser levado”, pois nossos remos não servem para vencer a distância e a correnteza, e precisa do vento benfeitor que sopre, dirija, empurre e persevere, até a outra margem. No nosso processo espiritual, queremos desenvolver esta capacidade de ver quem nós somos e onde estamos, sem o temor de nos defrontarmos com respostas desagradáveis. Somente partindo da realidade de nós mesmos, que é sempre uma realidade rica e original, é que poderemos crescer como
Violência e o poder do Estado

Não há um dia em que, ao assistir ou ouvir noticiário, não apareça um caso de violência. Conforme o artigo 5º da Declaração Universal dos Diretos Humanos, “Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradáveis”, e o artigo 9º estabelece: “Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado”. Porém a sociedade brasileira tem assistido a vários casos conhecidos nacionalmente e que têm repercutido internacionalmente, tanto de civis quanto de militares em serviço. Por que tanta violência? O que tem violado os direitos humanos de tantos cidadãos brasileiros? A partir dos estudos feitos sobre o Período Moderno, constata-se que os indivíduos controlados pelo Estado passam a serem vistos como meros objetos “mercadológicos”, gerados por um “biopoder”, ou seja, o econômico prevalece sobre o corpo social e cultural, sendo a violência e a exploração como consequências. Em O mal-estar na civilização, o psicanalista Sigmund Freud já alertava para os problemas psicológicos que os indivíduos da Modernidade enfrentariam devido ao poder tanto do Estado quanto da religião, o que seria constatado, mas, ultimamente, também poderes paralelos ao governo oficial. Said, que escreveu o Imperialismo do Ocidente, critica os desastres não apenas econômicos, mas também culturais, por quererem conceber o mundo como “aldeia global”, sendo que as crenças, os costumes, as economias locais, próprias das famílias, bem como a linguagem não foram respeitados nas aldeias ou comunidades. Também verificamos que o massacre cultural dos povos a partir da globalização gerada pelo capitalismo não é nem sempre pela violência física, mas ideológica que existe por trás da mídia. Esta busca manter uma ideia de “aldeia global” por meio da tecnologia, agora informatizada, causando a violência às crenças dos indivíduos, à sexualidade, desestruturando indivíduos e suas famílias que, por causa da produção, terão as energias direcionadas à satisfação de determinada classe. Como saber e combater tanta violência que atinge nossa sociedade brasileira? De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), violência é definida como “o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação”. A violência física é a que mais atinge diretamente o corpo. A agressão física utiliza a força; a lesão é visível e, por isso, ficam os hematomas, faz-se corpo de delito. Com a tecnologia, a violência psicológica tem sido muito praticada, de modo direto ou indireto. Na violência psicológica direta, o agressor usa palavras de humilhação, por vezes, diretamente à pessoa, com palavras de baixo nível, que baixa a autoestima, como acontece com o preconceito racista, xingamentos. A indireta pode ser por meio de ameaças, imposição de medo à vítima. A violência ideológica pertence a um conjunto de ideias sem fundamentação transmitidas pelos veículos de comunicação midiática; propagandas enganosas que projetam nos indivíduos falsas ideias do que comprar, ter coisas que não são necessárias ou promessas de felicidade, ou de liberdade que não condizem com o mundo real. Outra violência cometida é a financeira, muito comum, praticada por instituições bancárias, estimulando aposentados e, ou, pensionistas a fazer empréstimos consignados ou aplicações desnecessárias, descontando dos salários, que já são mínimos para a sobrevivência, muitas vezes, de uma família inteira. Essa violência também é praticada por familiares quando utilizam o cartão de crédito do parente ou pessoa amiga, “sujando” o nome do titular por faltar com o compromisso de pagar, dentro do prazo, o que deve. Ainda há a violência afetiva, quando a pessoa é privada de ter contato parental. Isso é muito comum em internações arbitrárias de pessoas idosas, que querem viver independentes, mas, por receberem um benefício, são “cobiçadas” por algum ente querido ou instituição, ou após fazerem a doação de propriedades para os filhos, são levadas para casas de repouso, muitas vezes clandestinas. A violência sexual, que ocorre nas relações hétero ou homossexuais e visa a estimular a vítima ou a utilizá-la para obter excitação ou práticas eróticas, pornográficas, impostas por aliciamento. Infelizmente, a violência está em toda parte. A violência doméstica tem aumentado o feminicídio, a violência escolar, como o bullying e outros preconceitos. Esta última gera revolta contra a escola, causando vítimas inocentes, com massacres de crianças e profissionais da educação. A precarização dos professores tem deixado a categoria doente e é cada dia mais desafiadora em relação aos recursos pedagógicos. A Declaração Universal de Direitos Humanos estabelece, em seus artigos, que “toda pessoa tem direito à vida, à liberdade, à segurança”, o que deve garantir formas de estimular uma proteção coletiva para todos. Para isso, devemos educar para a empatia, o respeito, a solidariedade; criarmos coragem para denunciar ameaças e torturas, se for preciso. Discar 100, discar 180 ou 190. Procurar conhecer a Comissão Estadual dos Direitos Humanos, Conselho Estadual da Mulher, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente ou Conselho Tutelar, Ministério Público. Diante de todo poder estabelecido pela globalização, abordar a necessidade de reverter os “monopólios” da monocultura do saber, da produtividade, da mercadoria, da economia, das diversidades e compreender a ecologia do saber, da produtividade, das relações das diferenças, entre outros aprofundamentos, sugere o entendimento de diversas facetas das culturas, do ser humano como uma forma de buscar um convívio social tolerante, fraterno, em que, de fato, todos possam gozar dos direitos, sem violência. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, e Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintram, Aproffib, Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e professora de Filosofia na Rede Pública Municipal de São José-SC.