A família é indispensável no processo de formação integral do ser humano

Que a família é o pilar da sociedade nós já sabemos. Que ela é a base e a primeira escola na vida de qualquer ser humano, também. Mas por que a família é tão importante para a formação de crianças e adolescentes? A família é a cellula mater responsável pela educação das crianças. Assim, assume relevante função na formação integral do ser humano, pois é seu primeiro espaço de convivência. É a primeira escola que proporciona grandes aprendizados, sendo um referencial de extrema importância para as crianças, na qual são experimentadas as afetividades, juízos e esperança. No mundo em que vivemos, família e escola são os dois pilares na formação do ser humano. Desse modo, a família favorece a educação informal (não sistematizada), também conhecida como socialização primária, que forma a base do indivíduo, que se inicia no nascimento, no lar. A educação formal (secundária) é a ofertada pela escola, onde se aprendem outras culturas e conhecimentos. Ao compreendermos que a criança está apta a aprender a todo instante, nos distintos âmbitos que a vida lhe oportuniza, percebemos que a família desempenha função primordial de mostrar os caminhos da vida, dar suporte nos momentos de necessidade, orientando sobre vivência no mundo, que, a cada instante, muda, renova-se. As conexões familiares são razões significativas para o aprimoramento da criança. Porém a inclusão da criança no universo escolar, com a socialização com outras crianças, professores, demais pessoas que compõem a comunidade escolar e acesso aos conteúdos acadêmicos, focados no aprimoramento das variadas áreas de conhecimento, consiste numa causa para a formação global da criança. Desse modo, tanto a família quanto a escola desempenham papéis fundamentais nos aspectos cognitivos, afetivos e sociais dos indivíduos. Assim, são necessários e fundamentais, na educação integral, a cooperação, a divisão de responsabilidades e o compartilhamento de experiências nas ações educativas e formativas dos educandos. Conforme é explicitado na introdução da BNCC (Base Nacional Comum Curricular): Este documento normativo aplica-se exclusivamente à educação escolar, tal como a define o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), e está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. No momento em que essa parceria é fortalecida, alcança-se o significado de que, juntas, escola e família, formarão indivíduos mais responsáveis, sensatos, espiritualizados e conscientes de sua missão no mundo. O Papa Francisco, de uma forma bem clara, valida esse pensamento: Uma das formas fundamentais para melhorar a qualidade da educação a nível escolar é alcançar uma maior participação das famílias e das comunidades locais nos projetos educativos. Elas fazem parte desta educação integral, oportuna e universal (discurso do Papa Francisco aos participantes do seminário com o tema “Education: The Global Compact”, promovido pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em 7 de fevereiro de 2020). Durante o lançamento do “Pacto Educativo”, o Papa Francisco fez a seguinte assertiva: “Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla aliança educativa”. Diante dessa afirmação do Pontífice, é imperioso que se restaure o “Pacto Educativo” entre a família e a escola. Ao implementar essa ação, tendo a efetiva participação da família na rotina escolar, respeitadas todas as possibilidades de ensino ofertadas pela escola, fica claro o importante papel desempenhado pela família na formação integral do indivíduo. Compreende-se como essencial, portanto, o papel da família e da escola na estruturação educacional do ser humano. Para que isso ocorra de fato, é necessário que as duas instituições se complementem, priorizando sempre o aluno. Ambas têm seu dever no processo educativo, cada uma com suas atribuições, observado suas particularidades, contudo carecem uma da outra. Desse modo, a família desempenha um papel intransferível de formação, pois no seio da família é que crianças e adolescentes realizam suas primeiras conexões e continuam a fortalecê-las, o que definirá seu desenvolvimento no futuro. Adriane Gonçalves GuedesPedagoga, psicopedagoga e coordenadora pedagógica do ensino fundamental, anos finais, no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG.
Que fogo nos consome? Que paz buscamos?

“Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!”(Lucas 12,49-53) À primeira vista, o evangelho deste domingo pode provocar um certo mal-estar e nos deixar com um sabor amargo; dá a sensação de que Jesus veio para trazer fogo (um incêndio provocado) e divisão. Isso seria incoerente com seu modo de viver e sua mensagem. Em primeiro lugar, é preciso nos conectar com o evangelho do domingo anterior, onde Jesus afirmava que “foi do agrado do Pai nos confiar o Reino”. Se compreendemos bem tal afirmação, que implicações e exigências têm para nós, seus(suas) seguidores(as)? Fazer caminho com Jesus não é para as pessoas “frias” ou “mornas” em seu modo de viver. Seguimento implica calor humano, paixão, emoção…; seguir é ser fogo, reavivar o fogo interior, iluminar, dar calor… Jesus não veio provocar um incêndio destruidor. Ele nos fala da imagem do fogo como elemento que limpa e purifica, usado tanto pelos camponeses (“limpará completamente sua eira; recolherá seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” – Mt 3,12), como por aquele que busca purificar o ouro, “que é provado no fogo” (1Pd 1,7). Em qualquer caso, a imagem do fogo era muito eloquente para os primeiros cristãos, também provados no fogo da perseguição, que deixava a descoberto a pureza e solidez de sua fé. João Batista também fala de Jesus como aquele que “batizará com Espírito Santo e fogo” (Mt 3,11). E essa promessa se cumpre em Pentecostes: “Apareceram línguas como de fogo… Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,3). Também os discípulos de Emaús sentiram arder seus corações quando escutavam as palavras do Ressuscitado, que caminhava junto deles. Santa Teresa de Jesus entendeu isso bem quando fala da “alma” como uma mariposa que se aproxima do Fogo, até ficar transformada, ela mesma, em fogo. A imagem do “fogo” nos desafia a nos aproximar da pessoa de Jesus e viver o seguimento de maneira mais ardente e apaixonada. Pois seguir Jesus não é questão de razão, mas de afeto, de atração, de sedução… O fogo que ardia no interior de Jesus era a paixão pelo Reinado do Pai e a compaixão pelos que sofriam. Jamais poderá ser desvelado esse amor insondável que o animava e o fazia arder em seu compromisso com a vida. O mistério de sua vida nunca poderá ficar contido em fórmulas dogmáticas nem em livros de sábios teólogos. Jesus atraía e queimava, perturbava e purificava. Ninguém podia segui-lo com o coração apagado ou com uma piedade estéril. Sua palavra, sua liberdade, seu estilo de vida… fez arder os corações de todos aqueles que dele se aproximaram: revelou sua presença amistosa junto aos mais excluídos, despertou a esperança e a confiança nos pecadores mais desprezados, lutou contra tudo aquilo que violentava o ser humano, combateu os formalismos religiosos, os rigorismos desumanos e as interpretações estreitas da lei. Nada nem ninguém podia bloquear sua liberdade e impedi-lo de fazer o bem. Nunca poderemos segui-lo vivendo na rotina das práticas religiosas ou no convencionalismo do “politicamente correto”. Nenhuma religião nos protegerá de seu olhar provocante. Nenhuma doutrina nos livrará de seu desafio. Jesus está nos chamando a viver na verdade e amar sem reservas. Isso queima! A maneira livre de Jesus viver, junto com a fidelidade à missão confiada pelo Pai, fez com que sua vida se tornasse questionadora, inclusive provocativa, para aqueles que se encontravam instalados em posições de poder e que não estavam dispostos a modificar. Por esse motivo, a atitude e o comportamento de Jesus sempre foram fonte de tensão, conflito ou divisão. E assim deve ser entendida toda sua vida. Jesus, com o seu modo original de ser e viver, acendia os conflitos, não os apagava. Não veio trazer falsa tranquilidade, mas tensões, enfrentamentos e divisões. Na realidade, Ele introduziu o conflito no próprio coração do ser humano. E isso comprometia inclusive a vida e a unidade das famílias. Até ali chegou a radicalidade da mensagem de Jesus, pois Ele mesmo foi incompreendido pelos seus próprios familiares, foi desprezado, traído e crucificado pelo seu povo. Há um traço na personalidade de Jesus que os Evangelhos destacam: Ele era um “transgressor”. Sua transgressão decorria da percepção de situações extremamente injustas vigentes na sociedade e das quais as primeiras vítimas eram os excluídos. Jesus optou por ficar do lado das vítimas. Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai, e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho. Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de amor e fraternidade), mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana. Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da sua fidelidade. O que tem valor em sua vida é seu Amor fiel e não os conflitos em si mesmos. A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus é o resultado do confronto entre sua missão (que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças) e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. A conflituosidade na vida de Jesus proveio do choque entre as exigências do Amor e a realidade injusta e pecadora. Jesus não cria conflitos; Ele os constata ao dar testemunho das exigências do Amor. Evidentemente, as palavras e a vida de Jesus nos mostram que Ele foi portador de paz, mas não uma paz sem conflito. Muitas vezes, Ele nos recorda que trabalhar pelo Reino é um processo transformador que exige passar pela porta estreita, deixar-nos refazer até nascer de novo; nesse caso, a paz não é comodidade, não é deixar as coisas como estão, mas viver um processo de transformação profunda, que costuma incluir despojamento e sofrimento. O conflito também perpassa nossa vida pessoal, familiar e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente: conflitos no interior da Igreja, no interior das comunidades; conflitos de
Ser estudante em meio a diversidade

O dia 11 de agosto, no Brasil, é considerado o Dia Nacional do Estudante. Foi a partir de 1927 que essa data passou a ser significativa por comemorar dois cursos implantados por D. Pedro II, cem anos antes. O que seria de um país se não tivesse estudantes? Ser estudante, naquela época, era para poucos. Hoje é uma forma de comemorar o direito e a importância da formação do cidadão. Nessa mesma data, dez anos depois, em 1937, foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade que serve para proteger e garantir os direitos dos estudantes. Em 20 de novembro de 1959, a UNICEF promulgou a Declaração Universal dos Direitos da Criança, em que destaca a necessidade da Educação, independentemente da cor, da raça, do sexo, da religião, e os cuidados com sua capacidade intelectual (princípios V e VII). No Brasil, em 13 de julho de 1990, entrou em vigor a Lei nº 8.069, conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cujo artigo 4º estabelece a prioridade à educação, além de outros direitos fundamentais. Em 2013, a Lei de nº 12.852, o Estatuto da Juventude, reforça os direitos e as condições necessárias para o estudante continuar seus estudos. Documentos que priorizam a educação. Ser estudante hoje, portanto, é uma conquista relevante para uma sociedade democrática, de direitos, para ambos os sexos, pois em épocas remotas, esse direito era somente para o sexo masculino. Em tempos normais, não é fácil estudar. Com a pandemia, esse ato tão valoroso ficou mais complicado para os estudantes de baixa renda. Antes, dependendo de onde moram, é preciso tomar uma condução ou andar muito a pé. Se tiverem um dinheirinho, comprarão um lanche; caso contrário, levam-no de casa. E quando não têm nada em casa, passam vontade. Há alguns privilegiados que os pais transportam de carro ou pagam para uma van pegar e levar, e têm dinheiro para gastar na cantina. Os jovens universitários têm de gastar muito com transporte ou combustível. Enfim, ser estudante em um país cheio de desigualdades é desafiador. Além das dificuldades pessoais e financeiras, há vários tipos de situação que os estudantes enfrentam, como o preconceito racial ou de gênero, ou social, entre outros. É preciso saber lidar com a diversidade de sotaques, de etnias, de estilos, de crenças e costumes. As diferenças somente enriquecem nossa cultura e nossa humanidade. A questão das cotas é uma das ações afirmativas que buscam reparar a desigualdade que ainda existe na educação brasileira, entre escolas públicas e privadas, urbanas e rurais. Ser estudante é aprender, é ser atento, é ser curioso, além de ser empático com os demais colegas. O que une todo estudante é o conhecimento. A educação autêntica tem como objetivo fazer todos se autoconhecerem e transformarem o mundo a seu redor, para percebermos que somos essencialmente iguais. Talvez por isso há grupos na sociedade que não investem na qualidade do ensino para todos, como se deveria, mas criam mecanismos meramente tecnicistas, sem a preocupação de uma educação realmente integrada do ser com o fazer. Assim, o desafio do estudante é ser perseverante, ser criativo, solidário, além de disciplinado. Ser estudante é ocupar seu espaço mental, social e profissional, demonstrando suas habilidades e capacidade de servir a sociedade e transformar o mundo para melhor, renovando ideias e desenvolvendo uma nova forma de se viver. Sejamos todos eternos aprendizes. Ser estudante é sempre aprofundar o que se sabe e buscar novos conhecimentos. Feliz Dia do Estudante! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia pelo Mater Ecclesiae; filiada à ABA, APEOESP e SBPC; atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura, pela ALESC; voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
Amor-doação: o testemunho de dois pais

A experiência da paternidade é dom e talento ao mesmo tempo. Nela se encontram as alegrias e os desafios de uma missão que é necessariamente vocação e doação. Ao nos aproximarmos do dia dedicado aos pais, trazemos aqui o depoimento de dois “super-homens” que abraçaram essa missão. É na fala de Eduardo Villalpando, pai de Antônio, e de Anderson Raiça Silva, pai de Miguel, Maria Clara e Mateus, que sentiremos a emoção dessa dádiva. Amor através dos tempos “Uma impressão digital cujos veios vão sendo desenhados pelo amor que nasce e cresce em dois corações, a cada instante em que interagimos ao longo da vida. Não há definição mais próxima que consigo imaginar agora que procuro traduzir em palavras o que é ser pai para mim. Uma emoção indescritível me invade a cada vez que olho para meu filho e reflito sobre o sentimento que nos une. É como se nele se realizasse o milagre de eu me propagar; além de mim mesmo, além do tempo em que ainda estarei por aqui. Ao mesmo tempo em que vejo muito de mim nele, sinto muito dele em mim… Observo seus gestos, suas preocupações, seu modo de falar, suas dúvidas, anseios, desejos, curiosidades, mudanças… Viajo no tempo lembrando coisas que vivi e sentindo preocupação sobre que escolhas ele fará, de que forma ele vai encarar os desafios, superar as dificuldades, relacionar-se com as pessoas… Ser pai é educar, aconselhar, oferecer oportunidades de crescimento, diversão, lazer, aprendizado, convivência com família e amigos, incentivar a lutar por seus sonhos, a ajudar e respeitar as outras pessoas, mas, acima de tudo, ser exemplo e referência; grande responsabilidade. Ser pai é também saber pedir desculpas quando errar, ensinar que ninguém é perfeito, mas que sempre podemos melhorar. Sei que, além de parecenças, temos diferenças, e elas possibilitam que eu também aprenda muito com ele. Vivendo essa emoção da troca e superando os conflitos, assim vamos construindo uma parceria de vida e aprendendo com as adversidades, pois são elas que nos inspiram a buscar e encontrar nosso ponto de equilíbrio. Que meu filho se lembre de mim como eu me lembro de meu pai, e que seus filhos possam se lembrar da mesma forma dele, sinal de que o amor prosseguirá através dos tempos, através da vida. E que o amor do Pai nos envolva em toda sua plenitude.” Eduardo Villalpando é pai do aluno Antônio Carlos Villalpando, estudante do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. “Mostrar o caminho” “Ser pai é deixar a zona de conforto. Levantar à noite quando o filho chora, segurar a mão quando ele cai, mostrar o caminho quando estiver perdido, puxar conversa quando estiver calado, ouvir quando quiser falar. Ser pai é mostrar os valores e princípios em que acreditamos, orientar, educar, falhar e aprender com erros, mostrar que, na vida, somos eternos aprendizes. Ser pai é, acima de tudo, amar; muitas vezes, agir contra suas vontades, parecer irracional, superar suas barreiras em razão dos filhos, tendo como recompensa simplesmente um sorriso, um abraço, um papai, um ‘eu te amo’. Criar e educar três filhos é desafiador, ainda mais quando se tem a surpresa de ter gêmeos. Digo sempre que é intenso. São idas e vindas, altos e baixos, muitas responsabilidades e, no fim do dia, exausto e satisfeito, agradecer a Deus a dádiva e a alegria de ser pai. Como ser pai? Não há uma regra, não há uma graduação. Ser pai é uma missão, uma responsabilidade, uma realização pessoal em deixar um legado para as próximas gerações.” Anderson Raiça Silva é pai de Miguel e dos gêmeos Maria Clara e Mateus, estudantes do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Feliz Dia dos Pais!
O olhar da “Lei Maria da Penha” sobre as crianças e adolescentes

No dia 7 de agosto de 2022, a “Lei Maria da Penha” (Lei nº 11.340/2006) completa 16 anos. A norma é um marco importante e histórico para nós, brasileiras e brasileiros. Até sua instituição, em 2006, o Brasil não dispunha de uma legislação específica que coibisse a violência doméstica. As ocorrências eram encaminhadas para o famigerado “Juizado de Pequenas Causas”, local não apropriado para a reconhecida gravidade de muitos episódios, além da falta de um tratamento humanizado e específico para a questão. A lei é fruto de uma denúncia feita contra o Brasil nos órgãos internacionais: OEA (Organização dos Estados Americanos) e, depois, no CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), com base no descaso, “omissão, negligência e tolerância” aos fatos sofridos contra a farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes. A mulher, que sofreu mais de 20 anos de violência doméstica e tentativa de homicídio, deu nome à lei. Infelizmente, ela é uma entre as muitas vítimas brasileiras. Após a condenação do Brasil nos órgãos internacionais, e tão somente após esta, foi organizada uma comissão interministerial pelo governo federal. Várias audiências ocorreram nas cinco regiões do País e analisaram o projeto que criaria uma legislação específica sobre o assunto. Após mais de um ano de discussões, a lei foi aprovada, tendo como objetivo precípuo a “criação de mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher”, promovendo a alteração das leis penais e propondo a criação de um órgão específico para o tratamento dos casos. É importante perceber que se trata de uma lei de gênero, ou seja, a norma busca proteger a mulher. No tocante aos adolescentes e às crianças, que, muitas vezes, são o elo ainda mais frágil desses problemas e transtornos domésticos e, ou, familiares, a lei é bem sucinta. Os artigos 29 e 30, contudo, deixam claro que os atendimentos serão feitos por profissionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e da saúde, de forma que a abordagem seja multidisciplinar e sanadas as demandas. Além disso, nos casos envolvendo violência doméstica e familiar, normalmente se estabelece uma “rede de apoio” que envolve as polícias civil, militar e o braço PDV (patrulha da violência doméstica), que realiza visitas apaziguadoras e acompanhamento de alguns casos específicos. Também estão nessa rede o Conselho Tutelar, o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), a Defensoria Pública, o Ministério Público e o Poder Judiciário. A verdade é que a “Lei Maria da Penha” apenas tangencia quando o assunto é crianças e mulheres adolescentes. Essa não é uma lei voltada para elas especificamente, mas isso não quer dizer que não haja aporte legal para as demandas das crianças, mas estas são geralmente supridas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei nº 8.069/1990) ou mesmo pelo Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940). No caso dos adolescentes, o mesmo se verifica, mas em relação às mulheres adolescentes vítimas de violência física, sexual, patrimonial, moral, etc., haverá respaldo legal em razão do gênero mulher e não pelo fato de serem adolescentes. Todos os esforços são feitos para tentar minimizar um processo dolorido e traumático que é “colocar a colher em relação de marido e mulher” e relações afetivas, incorporadas de múltiplos vínculos. A lei é, de certa forma, recente, mas esperamos que haja o amadurecimento da população e o fortalecimento, a cada dia, da legislação para que os seus objetivos sejam cada vez mais efetivados. Tânia Cecília Cardoso de Oliveira MarquesBacharela em Direito e servidora no Ministério Público de Minas Gerais.
Buscar o tesouro entre os “cascalhos” da vida

“Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração”Lucas 12,32-48 (ou 12,35-40) O evangelho deste domingo nos apresenta um texto cheio de mensagens importantes sobre o seguimento de Jesus. O contexto desse relato é a compreensão do Reinado de Deus e as atitudes que são favoráveis para percebê-lo e acolhê-lo. Encontramo-nos no caminho, junto com Jesus, subindo em direção a Jerusalém; o texto evangélico nos mostra o Mestre da Galileia liderando um novo movimento de vida e onde devemos investir para que a nossa vida tenha sentido e inspiração. Por isso, a alegoria do “tesouro” revela a busca do essencial e não se perder no que é supérfluo e caduco. Um antigo relato oriental nos ajuda a compreender a alegoria do tesouro, usada por Jesus: quando os deuses criaram o homem, puseram nele algo de sua divindade; mas o homem fez um mal uso dessa divindade, e os deuses decidiram tirá-la. Reuniram-se em grande assembleia para ver onde podiam esconder esse tesouro que lhe haviam dado. Um disse: “Vamos colocá-lo no pico da montanha mais alta”. Um outro, porém, retrucou: “Não, o homem acabará escalando a montanha e encontrará o tesouro”. Um outro disse: “Vamos escondê-lo no fundo do oceano”. Mas alguém respondeu: “Não, o homem poderá descer às profundezas e descobrir o tesouro”. Por fim, um terceiro disse: “Já sei onde vamos esconder esse tesouro: no mais profundo do coração do homem! Ali, ele nunca o buscará”. A metáfora do tesouro, presente em diferentes tradições sapienciais, constitui um convite a encontrar ou descobrir aquilo que, mesmo sem saber, mais aspiramos: o que realmente somos, nossa identidade original. E esta imagem contém várias indicações valiosas: o tesouro está aí, no nosso interior, todo o tempo; trata-se simplesmente de descobri-lo; não é algo separado de nós nem algo daquilo que carecemos, mas justamente aquilo que somos. Quando o descobrimos, tudo o mais começa a ser visto como algo secundário; e essa descoberta se traduz em perene alegria. Só podemos encontrar o tesouro dentro de nós se descermos ao chão de nossa vida. É normal que nós nos surpreendamos frente a frente com um “eu” desconhecido e pleno de recursos. O caminho para o nosso tesouro passa pelo diálogo com as dimensões não integradas, com nossas paixões, com nossos problemas e fragilidades, nossas angústias e nossas feridas, com tudo quanto clama dentro de nós e consome nossa energia. A espiritualidade cristã nos mostra que, exatamente nos “cascalhos” de nossa existência, descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu”, escondido no fundo de nosso coração. Podemos, então, afirmar que o verdadeiro “tesouro” é o que há de Deus em nós. Isto é o que somos: plenitude à qual nada nos falta, como cantava S. Teresa de Jesus: “Quem a Deus tem, nada lhe falta; só Deus basta”. Deus não é uma Presença separada que nos completaria a partir de fora, mas o “estado de presença” que constitui nossa identidade. E quando descobrimos o tesouro que é Deus, não há lugar para o medo (“Não tenhais medo”). “Foi do agrado do Pai nos confiar o Reino.” Esse é o ponto de partida. “Não tenhais medo, estai preparados, etc.” depende dessa verdade. O Reino não é lugar ao qual iremos depois da morte; Jesus já havia dito em outro momento: “O Reino está dentro de vós”; portanto, é um espaço que já trazemos em nossa identidade profunda. Sem acolher esta realidade, não é fácil dispor-nos para conectar com o nosso eu verdadeiro. Se o Reino é o tesouro encontrado, nada nem ninguém poderá nos afastar dele. O sentido da nossa existência está em descobrir o tesouro, tudo o mais virá espontaneamente. O Reino é o mesmo Deus escondido no mais profundo de nosso ser. Ele é a maior riqueza para todo ser humano. Todos os demais valores que podemos encontrar em nossa vida devem estar subordinados ao valor supremo que é o Reino. Este tesouro pode se expressar como “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição, um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu,a imagem que Deus faz de cada um de nós…”. O caminho para um novo sentido na vida passa pelo acesso ao nosso próprio coração. Aqui está o desafio que nos assusta, pois vivemos mergulhados numa cultura da superficialidade e da exterioridade. “Descer” para as profundezas de nosso interior é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos recursos, para ativar novas potencialidades, para encontrar aquele tesouro que facilitará uma contínua transformação na vida. Isso requer coragem para passar por todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida nos possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que tínhamos perdido. É preciso, portanto, “descer” até o chão de nossa humanidade para descobrirmos uma nova riqueza que iluminará a nossa vida; é “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida. O apelo de Jesus é para despertarmos, escavarmos, avançarmos na direção ao “veio de ouro” e de sabermos que este não é nossa propriedade; ele nos é oferecido como dom. Mas não basta falar de “tesouro precioso”; é também necessário “escavar” nosso “chão interior”, alargar nosso coração, garimpar em direção às riquezas que estão no eu mais profundo, assim como o “fio de ouro” no meio dos cascalhos. Nosso interior é o campo que é preciso cavar (às vezes, profundamente) para fazer vir à tona aquilo que é mais nobre em cada um de nós. O “tesouro no céu” não é algo que nós alcançamos graças ao esforço nem é computado como mérito; é uma nova maneira de ser e de viver que emerge quando nos esvaziamos do “ego”, inflado e prepotente. Quando acessamos a nossa nobreza interior, descobrimos o tesouro que seduz nosso coração; só assim a vida terá mais inspiração, criatividade e sentido. Sabemos que o coração se enraíza ali onde está o bem mais valioso de nossa vida; a partir daqui, inicia-se um impulso em direção à plenitude que tanto almejamos; o seguimento de Jesus adquire
“Vocação: graça e missão”

A 58ª Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por unanimidade, aprovou a realização do terceiro Ano Vocacional da Igreja no Brasil, que deverá ser celebrado de 20 de novembro de 2022 a 26 de novembro de 2023, com a temática “Vocação: graça e missão”. A ideia é celebrar os 40 anos do primeiro ano dedicado à reflexão, oração e promoção das vocações no Brasil. O objetivo é promover a cultura vocacional em todas as instâncias, isto é, nas comunidades eclesiais, nas famílias e na sociedade, para que sejam ambientes favoráveis ao despertar das vocações, como graça e missão, a serviço do Reino de Deus. O texto-base do Ano Vocacional intui aprofundar o tema e o lema, respectivamente, “Vocação: graça e missão”, “Corações ardentes, pés a caminho” (Lc 24,32-33). É uma motivação para cada pessoa acolher o chamado de Jesus Cristo como graça, para que, assim, mais corações ardentes e pés se coloquem a caminho, assumindo e se comprometendo com a missionariedade na Igreja, que vive esse processo contínuo de “estar em saída”. A iniciativa almeja refletir que toda a comunidade cristã é responsável pela animação, cultivo e formações das vocações. Ressaltando os inúmeros esforços e frutos que surgiram com a dinamização dos serviços de animação vocacional, da Pastoral Vocacional e produção de subsídios. Também evidencia o forte anseio de uma Igreja sinodal, missionária, mais próxima e fraterna das realidades em seu entorno. Deus continua a passar pelos diversos caminhos e realidades, e chama, pelo nome, à vocação pessoal e de ser Igreja, vivendo uma vida de fé atuante e comprometida com o projeto salvífico de seu Filho. Nesse sentido, a “vocação: graça e missão” se fundamenta na afirmação de que “a vocação aparece realmente como um dom de graça e de aliança, como o mais belo e precioso segredo de nossa liberdade”, conforme o Documento Final de nº 78. Jesus chamou e enviou os que Ele mesmo quis (cf. Mc 3,13-19), portanto esta é a centralidade e a meta de toda a vocação e missão: a pessoa de Jesus Cristo. Queremos fazer memória aqui dos principais eventos vocacionais da Igreja do Brasil e do continente, para que nos inspire e nos motive neste momento histórico e celebrativo: – 1983: 1º Ano Vocacional do Brasil, com o tema e lema “Vem e segue-me” (Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22).– 1994: 1º Congresso Continental Latino-Americano de Vocações (Brasil), com o tema “A Pastoral Vocacional no Continente da Esperança”.– 1999: 1º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Vocações e ministérios para o Novo Milênio”, e o lema “Coragem! Levanta-te, Ele te chama” (Mc 10,49b).– 2003: 2º Ano Vocacional do Brasil, com o tema “Batismo, fonte de todas as vocações” e o lema “Avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4).– 2005: 2º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Igreja, Povo de Deus a serviço da vida” e o lema “Ide também vós para a minha vinha” (Mt 20,4).– 2010: 3º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Discípulos missionários a serviço das vocações” e o lema “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19).– 2011: 2º Congresso Continental Latino-Americano e Caribenho de Vocações (Costa Rica), com o tema “Chamados a lançar as redes para alcançar a vida plena em Cristo” e o lema “Mestre, em teu nome lançarei as redes” (Lc 5,5).– 2014: Simpósio Vocacional do Brasil, com o tema “Ide e anunciai! Vocações diversas para uma grande missão”.– 2019: 4º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Vocação e Discernimento” e o lema “Mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 25,4). Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-07/ano-vocacional-brasil-cnbb.html Concluímos nossa reflexão convencidas de que este Ano Vocacional será um grande momento de acender e reacender o ardor da entrega vocacional de cada cristão católico em nosso País. Convidamos você, que lê esta postagem, para participar dos eventos deste 3º Ano Vocacional, que serão promovidos, ao longo do ano, pelas redes sociais da CNBB. A seguir, confira algumas datas já estabelecidas:– lançamento do hino, em 31 de agosto de 2022, por meio de uma live promovida pela CNBB;– a abertura nacional do Ano Vocacional será em 19 de novembro de 2022, na missa das 18h, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida;– o encerramento nacional acontecerá em 23 de novembro de 2023. Irmã Adriana Regina da Silva e Irmã Crislaine M. Lopes PereiraServiço de Animação Vocacional, SSpS
“A vida é tão rara!”

“A vida não consiste na abundância de bens”Lucas 12,13-21 Na sua itinerância, Jesus se depara com situações inesperadas e que não têm nada a ver com o sentido de sua missão. Mas, como bom pedagogo, Ele aproveita de todas elas para mover as pessoas na direção do verdadeiro sentido da existência. Como sabemos, as heranças sempre suscitam problemas e conflitos. E alguém, que devia se sentir prejudicado, pede a mediação de Jesus para conseguir uma melhor partilha dos bens. Na sua resposta, destaca-se a liberdade de Jesus frente a esse tipo de questões, não só porque corta a petição pela raiz, mas pela parábola que narra a seguir. Nem Ele se considera “árbitro” em questões de herança, nem está preso pela cobiça. O que escutamos dele é o ensinamento de um mestre livre que quer mostrar o caminho da verdadeira “riqueza”. Todos temos experiência da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como verdade – de solucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Para Jesus Cristo, a primeira e maior tentação do coração humano é a “cobiça de riqueza”.Uma vez presos à cobiça, caminhamos, irremediavelmente, para a solidão, para o autocentramento e desprezo dos outros. Na parábola de hoje, o rico fazendeiro, em seu monólogo, revela o seu ideal de vida: acumular, ter vida longa, vida assegurada… Em seu horizonte de vida, há uma terrível solidão: parece não ter esposa, filhos ou amigos. Não pensa nos camponeses que trabalham em suas terras. Seus verbos preferidos: acumular, armazenar e aumentar seu bem-estar material. Só se preocupa em “amassar riquezas para si”; todo o relato insiste no uso dos pronomes possessivos: minha colheita, meus celeiros, meus bens, minha vida… Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-o de toda dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar. Que há de humano nesse tipo de vida? A vida desse rico é um fracasso e uma insensatez, pois sua falsa segurança na posse dos bens vem abaixo. Quem vive centrado em si mesmo perde a vida; quem vive para o eu não é rico diante de Deus. No percurso da vida humana, surgem oportunidades em que a pessoa abre os olhos e se diz a si mesma, com enorme espanto: “na realidade, não fiz outra coisa que viver para mim mesmo”. Com as riquezas, com os saberes, com os próprios recursos ou o que for, ela se dá conta de que viveu “entesourando para si” e, de repente, essa forma de viver se revela como infecunda e sem sentido. É um momento privilegiado que pode ser muito duro e, ao mesmo tempo, muito fecundo, quando consegue sair dessa “situação viscosa” e centrar sua segurança em deixar-se conduzir pela mão providente de Deus (“ser rico para Deus”). Sentirá a experiência de que foi tirada de sua “pasta egoica” pela mão de Deus e brotará em sua vida uma nova melodia de saída de si em direção à fraternidade, à partilha, ao encontro com o outro… A eterna tentação da cobiça esconde uma necessidade, mais ou menos doentia, de segurança. Dado que o ser humano não pode renunciar à segurança, a questão é saber onde ele coloca sua segurança. Ao longo de nossa existência, é provável que o “lugar” onde a situamos vai se modificando: os pais, os amigos, os grupos, a profissão, a saúde, o dinheiro, as posses, as crenças, o prestígio… O problema não se enraíza no fato de sentir necessidade de segurança, mas na ignorância à hora de querer afirmá-la. Colocar a segurança em qualquer realidade passageira é garantir a decepção, a frustração e o sofrimento. Essa é a primeira ignorância, porque nos faz tomar como “seguro” o que é transitório. No Evangelho deste domingo, Jesus usa a palavra “néscio” para referir-se a quem atua assim. Tal termo vem do verbo latino “nescio”, que significa literalmente “não sei”. “Néscio” é quem confunde o ter com o ser. “Néscio” é aquele que não sabe o que faz, aquele que vive perdido e ofuscado na ignorância e, em último termo, na inconsciência. Isso é viver identificado com o “ego”, na falsa ilusão de que essa é sua verdadeira identidade. Agimos mal, a partir da cobiça, dos apegos a coisas e bens, da segurança em acumular… porque desconhecemos nossa riqueza interior, nossos recursos mais nobres, nossos dons mais originais… Perdemos o caminho do coração e “ajuntamos tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem…”. No fundo, o Evangelho deste domingo nos situa diante do grande dilema do “sentido de nossa existência”: para que vivemos? Sobre que valores queremos construir nossa vida?… O ser humano não é só um “animal racional”,ou um “animal afetivo”,mas é também um “animal de sentido”,o que é uma definição muito mais profunda. Ele precisa de um “sentido” para viver. E precisa disso tanto ou mais que os bens materiais necessários para sua vida. Sem sentido, sua vida se torna simplesmente sofrível, insuportável. Uma pessoa espiritualmente anêmica enche sua existência com coisas e posses, mas isso não faz mais que aumentar sua sensação de vazio existencial. De fato, para viver uma existência verdadeiramente humana, é preciso cumulá-la de sentido,evitando que ela caia no vazio ou no absurdo. O ser humano tem necessidade de uma causa pela qual viver, de canalizar todas as suas forças, seus desejos, energias, impulsos vitais e recursos internos e externos em direção a um horizonte de sentido, no qual acredita intensamente (“ser rico para Deus”), e nele investir tudo o que é e possui, com intensa paixão. Aqueles que são movidos por uma forte paixão, apostam que o ser humano tem potencial criador e foi feito para voar alto, para tentar, mil e uma vezes, alcançar cumes distantes. Todo o percurso dos Evangelhos visa a despertar em nós o “espírito de
Sete considerações sobre o dom da acolhida

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (Lucas 9,11b). Assim começa a passagem da “multiplicação” dos pães, uma das mais notáveis catequeses eucarísticas do Evangelho. Tudo começa com o Mestre a receber as pessoas, um gesto sacramental a ser praticado também em nosso tempo. A pandemia de covid-19 acabou dando destaque a duas pastorais que, em muitas comunidades, tiveram de ser criadas ou reforçadas às pressas. No isolamento sanitário mais rígido, a Pastoral da Comunicação (a querida “Pascom”) fez chegar a muitos lares as celebrações ou, pelo menos, uma palavra dos evangelizadores a seus irmãos e irmãs. Quando a participação do povo começou aos poucos a ser permitida, foi a vez de a “Pastoral” da Acolhida agir para receber bem e dar segurança a quem chegava, seguindo os protocolos sanitários. Como ocorreu em outros contextos da Igreja, a pandemia revelou algumas coisas soterradas pela poeira da rotina. Em minhas andanças pelas comunidades de fé, noto deficiências importantes quanto à acolhida. Isso tanto da equipe responsável por receber aqueles que se constituirão em assembleia litúrgica, o Corpo Místico de Cristo, quanto de outros servidores e servidoras. Proponho sete considerações sobre esse essencial gesto cristão. 1 – Quem acolhe também celebra Vez ou outra, ouço alguém reclamar não se sentir presente de fato na liturgia logo porque exerceu nela alguma função. Participa, sim, quem fica responsável por higienizar, distribuir algum subsídio, providenciar assentos aos idosos, anotar os pedidos de oração, cantar, organizar o som, a luz e as flores, e muito mais. A palavra “liturgia” indica algo semelhante a “serviço público”, “mutirão”. Pressupõe ação de cada um, conforme o que lhe couber. Assim, não é necessário ir a outra celebração “para valer”. 2 – Acolher é missão de todos A responsabilidade pela acolhida não é apenas dos ministros e ministras encarregados de receber as pessoas. Todos os que se unem para celebrar são sinais do Cristo acolhedor das multidões. Como é incoerente estar de cara fechada logo na hora de celebrar a vitória da vida sobre a morte! Não é preciso ficar “mostrando os dentes” em sorrisos falsos, mas, pelo menos, dar e responder, com delicadeza, a um simples cumprimento. 3 – Curar feridas Tempos atrás, antes de uma celebração dominical, um coroinha advertiu-me que uma senhora, sentada no fundo da igreja, estava em prantos, muito abalada. Recomendou-me ir ver aquela irmã. Assim o fiz. Fiquei muito impressionado ao saber que ela estava ali com seu resto de ânimo. A mulher se culpava dolorosamente, pois, por ter desrespeitado regras sanitárias, afirmava ter contaminado e matado de covid-19 os tios e irmãos. Mesmo com o pouco tempo para o início da liturgia, consegui ouvi-la. Prometi rezarmos por ela e, com convicção, com base no bom exemplo do coroinha, disse-lhe que ela poderia contar conosco. Aquele servidor adolescente teve grande sensibilidade e bendigo a Deus por ele. Aqui também lastimo não existir um serviço de escuta sistematizado (e, se necessário, aconselhamento) em todas as paróquias (todas!). 4 – Contar até dez Um cristão acolhe porque Jesus o fazia. Não é para ganhar, satisfazer ou “fidelizar clientes”, mas porque todo ser humano é precioso. Cada irmão ou irmã é membro importante do Corpo de Cristo. Neles, pelo batismo, há o divino e o humano do Senhor. Isso vale para os mais assíduos, os visitantes, os “fichas-sujas” e mal-afamados, os curiosos, os profissionais que atuam em cerimônias, os pseudoiniciados, os frequentadores eventuais de sétimo dia, formatura, casamento e batismo, etc. Acolher dá trabalho e exige muitas contagens até dez antes de reagir a qualquer coisa. Às vezes, pede inclusive alguma misericordiosa “vista grossa” para os mascadores de chicletes e trajados com deficiente decoro. Com certeza, a rispidez não resolverá esses problemas. Vale a correção fraternal e discreta na hora oportuna. 5 – Acolher quem acolhe Quem não gosta de gente não deveria se candidatar a qualquer ministério eclesial, seja laico, seja consagrado ou ordenado. A palavra Igreja já pressupõe plural. É impossível ser cristão sozinho. Se Deus quisesse que as coisas fossem quase perfeitas, Ele chamaria seus próprios anjos para servir. O Senhor, contudo, entende que temos nossas limitações, e nós já deveríamos saber disso. Como é constrangedor (no mínimo) ver algum servidor, servidora chorando porque tomaram um “pito” de alguma liderança! É preciso acolher a humanidade do outro, corrigindo fraternalmente. Numa celebração da vida, não há espaço para diminuir seja lá quem for. 6 – “Mais água no feijão” Podemos cair na tentação de praticar a “falsa acolhida”, aquela que, no fundo, impede o Espírito Santo de agir. Por exemplo, uma paróquia organiza um almoço na festa do padroeiro vende todos os convites, mas não deixa uma “reserva de coração” para quem não frequenta a comunidade. Ou um evento para jovens ou casais o qual tem regras engessadas e não prevê a chegada “de surpresa” dos tocados e enviados de última hora pelo Senhor. “Pôr mais água no feijão” faz parte do acolher em Cristo. 7 – Coração aberto Para se falar em acolhida, o primeiro requisito, claro, é ter o coração aberto. E isso vale para todos os contextos. Diante de tanta intolerância, “bolhas” sociais e desconhecimento da riqueza da diversidade humana, é preciso aqui reafirmar o óbvio: não somos iguais. Quando nos abrimos a conhecer, a dialogar, a buscar compreender respeitosamente diferentes culturas, jeitos de lidar como o Sagrado, de conviver, começamos a praticar a acolhida. Em troca, crescemos como seres humanos, cidadãos, batizados e batizadas. Isso compõe a legítima evangelização. Ouvir mais do que falar é um bom começo. Admitir o próximo é um valor humano-divino muito prezado por Jesus, a quem seguimos. Acolher, portanto, é mais do que jogar álcool na mão de quem chega ou aferir temperatura. Possam nossas comunidades de fé de fato abraçar, iluminar a vida e curar as feridas de irmãos e irmãs. Receber bem, em todos os sentidos, é um dom, e este já nos foi dado pelo Mestre. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de
A pessoa e a educação, uma relação profundamente cristã

Ao refletirmos sobre o processo educativo, nossa mente será levada a lembranças de nosso tempo escolar, amizades e tantas aventuras vividas. Não há problema algum em trazer à memória essas lembranças. Estas podem apresentar-se como brecha para refletirmos sobre a relação entre educação e pessoa. Somos seres de relação e construção de cultura, somos seres dependentes e independentes em nossa forma de pensar e existir, e, para que tudo isso tenha sentido, a “educação” tem papel fundamental. Segundo o dicionário Michaelis, educação define-se por ato ou processo de educar(-se), e no caso de uma escola missionária, afirmamos que educar é um ato ou processo de educar a partir de três palavras: escuta, mediação e compreensão. Somos uma instituição que “educa”, não de modo aleatório, mas a partir do Evangelho e de um projeto que tem a pessoa humana no centro. Valorizamos tanto suas potencialidades como suas fragilidades. Nesse processo educativo, faz-se importante “ir além dos muros da instituição de ensino e experienciar as diversas oportunidades presentes no desenho dos territórios educativos em um contexto de crescente singularidade de grupos populacionais de convivência, acelerado pelos processos de globalização, das mobilidades e geridos pelo diálogo multicultural” (Texto-Base da CF 2022, n. 137). Buscamos ensinar de modo a libertar a mente a uma reflexão humanizada, crítica e responsável. O ensino de Jesus é libertador. […] De alguma forma, ele libertou a todos com sua sabedoria e seu amor. Libertou os acusadores de matar aquela mulher e, ao lhes tocar a consciência, ocasionou a consequente revisão da própria vida. Libertou a mulher de ser apedrejada e abriu-lhe nova oportunidade de vida. Partindo de perguntas ao redor de um fato, Jesus ilumina também, com a verdade da misericórdia e do valor da pessoa humana, os membros do povo que ali estavam e assistiam à cena. Tudo nos leva a concluir que ensinar é libertar o ser humano das muitas amarras impostas pelo pecado, pelo legalismo, pela insensatez, pelo ódio, pela falta da fraternidade (Dom João Justino Silva, 2022). Portanto, nós nos perguntamos: como, porém, pensar a humanidade? Pensar a humanidade a partir da educação, a partir da experiência, a partir da solidariedade. Pensar uma nova humanidade que educa olhando para o outro, que estabelece parâmetros de justiça, paz e fraternidade. “Essa é a chave. O novo humanismo deve principiar na ‘relação’, no ‘jogo’ do ser humano com seus iguais, com a natureza e com Deus” (Ercilia Magaldi, 2022). Referências CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2022: Fraternidade e Educação: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26): texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2022. MAGALDI, Ercilia Simone D. A pandemia e um novo humanismo. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 345, p. 36-43, maio/jun. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/a-pandemia-e-um-novo-humanismo/. Acesso em 13 jun. 2022. SILVA, João Justino de Medeiros. Fraternidade e educação. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 344, p. 4-11, mar./abr. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/fraternidade-e-educacao/. Acesso em 13 jun. 2022. Lucas Fortunato Carneiro é professor de Ensino Religioso e coordenador da Dimensão Missionária no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.