Viver a “santa astúcia” no serviço do Reino

“Os filhos deste mundo são mais astutos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8) O Evangelho deste domingo nos situa diante de mais uma parábola “escandalosa” de Jesus, ou seja, um relato impactante e provocativo, que ajuda a “despertar” o ouvinte ou o leitor. Mas o que se trata na parábola não é da injustiça cometida nem da desonestidade do administrador, senão de sua astúcia. O objeto de louvor por parte de Jesus é a esperteza, a audácia e o empenho com que o administrador tira partido de uma situação presente tendo em vista garantir o futuro; Jesus elogia o admi-nistrador não porque roubou, mas porque teve presença de espírito, soube calcular bem as coisas e encon-trar uma saída honrosa, enquanto havia tempo. E a “saída” do administrador, ameaçado de desemprego, foi fazer “amigos” para depois. A parábola, apesar das aparências, não está centrada no dinheiro, mas na “astúcia” do administrador. E é então quando a parábola dá o salto “dos filhos das trevas” aos “filhos da luz”, tomando forma de denúncia ou alerta: todos somos “astutos” quando manejamos os assuntos do nosso ego, naquilo que tem a ver com seus interesses. Não aplicamos a mesma inteligência para aquilo que tem a ver com nossa verdade profunda. Precisamos estar atentos para viver coerentemente com o que realmente somos. Em uma palavra: vivemos nas “trevas” ou na “luz”? Quanto investimos no mal e como somos preguiçosos e sem criatividade na vivência do bem! Não podemos continuar lamentando o mau que os outros fazem; devemos lamentar o bem que deixamos de fazer; não queixemos do mal que está no mundo; lamentemos daquilo que nós, seguidores(as) de Jesus, não fazemos para que nosso mundo esteja melhor. Não lamentemos dos maus, mas dos inúteis que os bons costumam ser. A comunidade cristã não anda mal pelos pecados que há nela. Anda mal pelo fato de sermos poucos criativos e o pouco que os bons fazem por ela. Jesus reconhece a esperteza dos filhos deste mundo utilizada para cometer delitos, enganar, roubar ou levar uma vida corrupta, e realça o modo de proceder daqueles que o seguem, ou seja, a necessidade de serem também astutos para fazer o bem e lutar pela justiça. Ele quer que os “filhos da luz” sejam criativos em favor do Reino: estejam atentos, sejam hábeis e permaneçam despertos e ativos para livrar-se do complicado e sutil combate contra os mecanismos do mal; neste caso, o que gera a ambição do dinheiro. Não devemos imitar a injustiça que o administrador infiel está cometendo, mas utilizar a astúcia e a prontidão com que atua; ele é um filho deste mundo; é sagaz porque, em meio à situação desesperada de ser despedido do emprego, soube aproveitar da situação para preservar seus interesses. Com esperteza, com decisão e sem escrúpulos, aproveita o que lhe pode proporcionar vantagem para garantir sua vida futura. E é aqui onde encontramos a chave de compreensão do relato: como “filhos da luz” precisamos agir de um modo inteligente, utilizando todos os recursos em favor da vida. Quem são nossos “amigos para depois”? São os cegos, os excluídos, os pobres em geral. Temos amplas oportunidades de usar o “vil dinheiro” para conquistar estes amigos. Essa Vida não é outra coisa que as “moradas eternas” de que fala o texto. A mensagem do Evangelho deste domingo não só nos instiga a sermos mais astutos com os valores do Reino, mas também nos alerta para o perigo de afeição desordenada com relação ao ídolo dinheiro. O dinheiro pode ser mediação para ajudar às pessoas, mas também pode se tornar o “absoluto” da existência. No fundo, o evangelho de hoje nos situa diante do maior dilema de nossa vida, diante da única pergunta na qual investimos tudo: quem é o “senhor” que determina nossa vida? Na prática, segundo a resposta que lhe demos, viveremos “para o dinheiro” (nas “trevas”) ou “para Deus” (na “luz). Na perspectiva bíblica, há uma incompatibilidade radical entre a paixão pelo dinheiro (e outros afetos desordenados) e a paixão pelo Reino. “Ninguém pode servir a dois senhores”. Há uma incompatibilidade de ordem religiosa, porque a fé no Deus único impede a idolatria; uma incompatibilidade de ordem moral: não se pode servir, ao mesmo tempo, ao amor e ao egoísmo; e também uma incompatibilidade de ordem psíquica, porque não é possível experimentar a paixão pelo Reino e pelo dinheiro, ao mesmo tempo, sem divisão para o indivíduo. Para os seguidores de Jesus, o amor não é apenas um preceito, é uma atitude de vida, que pede um total investimento afetivo. Por isso, o “afeto desordenado” ao dinheiro, como fonte de desamor, se apresenta não somente como problema ético, mas também como problema de crença, de fé. A fidelidade ao Deus único fica interditada. E o caráter idolátrico que o dinheiro possui é ressaltado nos Evangelhos mediante o uso do termo “mamon” – a etimologia desta palavra parece referir-se à idéia de “depósito”, “provisão; mas na boca de Jesus parece adquirir um caráter de idolatria, na medida em que remete a um lugar que fornece “segurança” à existência. Como todo ídolo, o dinheiro provoca o fascínio, a adoração e as identificações mais perniciosas. De fato, a tentação do dinheiro tem suas raízes fundadas no pânico produzido pela insegurança. O dinheiro, os bens, as posses apresentam-se, então, como solo firme sob nossos pés. Mais ainda: o dinheiro é algo mais do que solo firme e apoio; é carapaça protetora, é um objeto interno, corpo do corpo, ou coisa com a “qualidade do eu”. A dinâmica acumulativa, retentiva, própria da posse do dinheiro, possui toda a força do narcisismo e da autoafirmação infantil. Sabemos da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como “verdade” – de solucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Há coisas que são mentira, mas que aparecem como verdade; aí se enraíza seuatrativo. Temos medo de “perder pé”; por
“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”

O provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” é bem conhecido. O que realmente, no entanto, pode se aplicar dessa afirmação em nosso contexto educacional? Faz parte do senso comum a afirmação de que a formação das crianças e jovens é extremamente importante para a sociedade e que, por isso, a educação deve ser valorizada. Porém as práticas escolares pedagógicas dentro dos “muros” da escola e a educação que “vem de casa”, ou seja, o que é compartilhado no ambiente familiar, bastam para o processo de formação integral de nossas crianças? Para responder a essas questões, precisamos entender as transformações pelas quais a sociedade passou e como ela se encontra, hoje, no século XXI. As exigências econômicas e de trabalho carecem, cada vez mais, da força de trabalho dos adultos das famílias, e, com isso, o envolvimento entre família, escola e comunidade se torna cada vez mais urgente. O ambiente da sala de aula já é, hoje, insuficiente para dar conta das demandas das crianças e adolescentes que já têm acesso ao mundo a partir de um clique. Educar no mundo contemporâneo é uma tarefa que deve ser abordada de modo amplo e irrestrito. O entendimento de maneira fragmentada do ser humano é ultrapassado, e a escola não pode ser apenas o espaço para ensinar os conteúdos pedagógicos. Dessa forma, entendemos e nos posicionamos, como escola viva, como espaço que, em parceria com a família e com a comunidade, favoreça experiências que contribuam com a forma como nossos alunos vão se posicionar no mundo. Assumir a responsabilidade de garantir às nossas crianças ambientes acolhedores, que permitam, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da autonomia e facilitem vínculos afetivos é imprescindível para formar indivíduos que sabem se colocar no mundo, conscientes de suas responsabilidades sociais. Para as crianças e adolescentes, é fundamental a convivência com seus pares e também com adultos, e a escola favorece esses relacionamentos. Além disso, é importante que a escola favoreça e estimule o contato e envolvimento social para além de seu espaço físico. Em nossas escolas, incentivamos momentos que possibilitam o contato de nossos alunos com pessoas diferentes de seu convívio familiar e escolar, tais como estudos do meio, palestras com profissionais de diferentes áreas para conversar sobre as relações de trabalho e diferentes carreiras a serem seguidas para os alunos do terceiro ano do ensino médio; trabalho da pastoral com a participação dos alunos em serviço às pessoas em situação de vulnerabilidade; entre tantas outras ações. Entendemos que expandir as trocas sociais e fornecer experiências como as citadas acima traz sentido para o provérbio que mencionamos no início deste texto e permite um olhar sensível para a educação e, principalmente, para os educandos. Sim, somos seres relacionais, e a alteridade nos é intrínseca. Portanto, hoje, mais do que nunca, é preciso de uma aldeia inteira para educarmos nossas crianças e fazemos isso em parceria: escola, família e comunidade. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
Os “perdidos” em nosso interior

O cap. 15 do evangelho de Lucas é conhecido como o “Evangelho dos perdidos”. A experiência de perda marca a nossa existência de várias formas. Perdemo-nos do Pai e da casa paterna; perdemo-nos na fraternidade; perdemo-nos no tempo e nas decisões da vida… As parábolas dos perdidos colocam nossa vida em questão. Na verdade, dentro de nós não existem só coisas belas, harmoniosas e resolvidas. Dentro de nós há sentimentos sufocados, muita matéria por esclarecer, patologias, repressões…; há feridas para serem curadas, dimensões por reconciliar, memórias dolorosas que precisam ser relidas sob outra luz; fracassos que pesam e alimentam culpas… Uma multidão de “perdidos” nos habita, esperando uma ocasião para serem acolhidos e integrados. As parábolas do evangelho deste dia nos colocam diante desta pergunta: “o que está perdido em mim?” É preciso tomar consciência da ovelha, da moeda e do filho perdidos em nosso interior. São símbolos de nossa fragilidade, vulnerabilidade, pobreza…, enfim, expressão de nossa condição humana. Cada um dos perdidos pode revelar recursos, dons… que não foram valorizados. A moeda significa riqueza, mas que está perdida em nossa própria casa; o filho, revela a continuidade da descendência, mas que está afastado. É preciso redescobrir (desvelar), no próprio interior, a presença do pastor, da mulher e do pai. Eles são como que os pontos nutrientes, iluminantes e terapêuticos encontrados em nosso “eu profundo”. Cada um deles revela uma presença diferenciada em relação ao que está perdido. O pastor deixa transparecer o seu cuidado e a iniciativa de sair do próprio redil para ir em busca da ovelha perdida. A mulher revela desvelo no cuidado da própria casa para encontrar a moeda. O pai misericordioso revela paciência e espera o retorno do filho que se perdera, acolhendo-o e integrando-o à família. Por outro lado, habitam também no nosso interior os fariseus e mestres da lei que, tendo a lei na mão, emitem juízos, não acolhem as ovelhas, as moedas e o filho perdido de nossas vidas. Não abrem espaço para a misericórdia. São inquisidores porque perfeccionistas, e não conseguem integrar os limites e fragilidades de nossa vida. Isso requer “humildade” para sair da segurança do redil e ir atrás de tudo aquilo que foi excluído de nossa vida, devido a uma cobrança interior de perfeição. Quando alguém desce em direção à sua “condição humana”, tudo acolhe e tudo integra, vive um processo de humanização plenificante. Nesta perspectiva, o desgarrado e o perdido desvelam a realidade onde Deus atua e revela seu rosto misericordioso. Exatamente onde existe fraqueza, perda, vulnerabilidade, talvez seja o “lugar mais sagrado”, aquele que exige mais acolhida e cuidado, para ser transformado pela misericórdia. A tradição moralista e legalista nos ensinou a alimentar um conflito entre o pastor e a ovelha que se perdera; do mesmo modo, conflito entre a mulher e a moeda; ou, conflito entre o pai e o filho que se afastara. Tal tradição moralista deu peso maior às limitações e fragilidades, alimentando culpa, remorso…, esquecendo-se de despertar nossa atenção para as dimensões mais ricas do nosso interior: o pastor cuidadoso, a mulher zelosa, o pai festeiro. Nesse contexto, queremos dar um destaque às duas pequenas parábolas do evangelho de hoje, pois elas têm um sabor todo especial. Diferentemente das outras, elas falam de uma perda interior, quase íntima: há uma parte do tesouro que se perde dentro da própria casa. Prestemos atenção: a mulher não perdeu tudo, nem a maior parte sequer; de dez moedas, ela perdeu uma; o pastor não perdeu tudo, apenas uma ovelha. Mas quem vive essa perda percebe o que isso representa: um esfriamento, um abrandamento, uma quebra na inteireza de vida, na unidade ampla do sim de amor que nos constitui. Tendo perdido uma ovelha, uma moeda, a vida continua, mas não da mesma maneira. A mulher que perdera uma moeda, no entanto, não se acomodou, pensando que ainda ficaria com nove moedas: decidiu procurar a parte perdida do seu tesouro. Ela não culpou ninguém pela perda, não ficou de mau humor, nem deprimida…, mas também não se deixou ficar de braços cruzados. Não se lamentou pelo acontecido, mas tomou a iniciativa de acender a luz, varrer, limpar, aclarar… “Buscar cuidadosamente”, ensina a mulher da parábola. Nós também temos de ir ao fundo e procurar a raiz daquilo que tira nossa vitalidade espiritual; talvez um medo terrível, uma insegurança fundamental, uma falta de confiança, uma perda de sentido… A mulher e o pastor das parábolas não ficam lamentando a “perda” da moeda ou da ovelha. A perda pode ser ocasião para um novo movimento, para conhecer outras dimensões da casa ou dos prados. O Evangelho deixa claro: é “proibido queixar-se”. A vida não é lamento, é expressão de nossas melhores qualidades, de nossos recursos internos. A queixa bloqueia nossa potencialidade e não deixa emergir o melhor que há em nós. A atitude é rebaixada durante a queixa, o tórax se comprime e o coração se encolhe. Isso é morte, não é vida. A vida, no entanto, é abertura, aventura, encontro, é possibilidade, é vontade de estar bem. A queixa torna a vida pesada e difícil; ela é inútil pois trava os melhores recursos vitais. É preciso passar da queixa à solução, do lamento à busca de uma nova possibilidade. Cada dia, a vida traz sua surpresa; cada dia amanhece um novo sol. A espiritualidade cristã alimenta uma integração entre as duas dimensões: pastor e ovelha, mulher e moeda, pai e filho. São dimensões encontradas em nosso próprio interior. A espiritualidade não significa alimentar um combate que desgasta, mas possibilitar um encontro entre as duas realidades. Nada se perde, tudo se pacifica e tudo desemboca na alegria festiva. Há sempre uma nova aprendizagem que brota do encontro com o que está mais frágil. O pastor também aprende ao acolher a ovelha perdida, pois é no encontro com ela que desperta o seu ser cuidadoso. A mulher aprende ao encontrar a moeda perdida, pois passa a tomar consciência mais profunda da sua própria casa; ao varrê-la, vai conhecendo
Emerson Pataxó – Os povos originários e a ecologia

Emerson Pataxó, da comunidade dos pataxós do Sul da Bahia, fala sobre a importância da proteção do meio ambiente. Denuncia políticas que levam a devastação à Amazônia, mas recorda que, no Brasil, há outras áreas que também merecem nossa atenção. Assista!
Emerson Pataxó – Conto indígena

Emerson Pataxó, um jovem indígena da comunidade dos pataxós do Sul da Bahia, narra um dos contos da rica cultura de seu povo. Ele fala de Txopai, o protetor das águas, e a criação do ser humano segundo a visão desses brasileiros. Assista!
Seguimento de Jesus = Esvaziamento do “ego”

“Quem não se desapega de sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26) Para poder entender o sentido do evangelho de hoje é preciso recordar que Jesus está a caminho de Jerusalém. Ele adverte à multidão que o acompanhava sobre as exigências próprias de um autêntico seguimento; para Ele não basta o entusiasmo passageiro e o fervor momentâneo. No fundo, Jesus quer verificar as reais motivações e a sinceridade de atitude daqueles que estão fazendo caminho com Ele. É preciso ter somente um “foco” no caminho do seguimento; há sempre o risco de caminhar em diferentes direções, desviando-se da atenção primeira no caminho de Jesus. Daí a radicalidade das exigências de Jesus: “desapegar-se da família”, “carregar a cruz”, “renunciar a tudo que tem”. As três se resumem numa só: disponibilidade total. Sem ela não pode haver seguimento. O seguimento de Jesus é questão de sedução, de atração, de paixão…; exige um “investimento afetivo” total. O(a) discípulo(a) pela metade não pode fazer caminho com Jesus; não servem as entregas pela metade. Tudo se decide nos afetos. Os afetos podem nos situar no horizonte maior (seguimento) ou podem nos fixar nas mediações (família, apego a si mesmo, às coisas…) atrofiando e esvaziando o impulso do seguimento, travando a liberdade. A afetividade ordenada nos faz livres para viver o seguimento de Jesus com mais leveza. Por isso, é preciso detectar as aderências e fixações afetivas (apegos) que limitam a liberdade e que podem minar o seguimento. Seguir Jesus é deixar de viver para o “eu”, é descentrar-nos, não ser mais o centro de nosso próprio projeto. O seguimento brota, pois, de uma “sintonia profunda” com Ele, esvaziando nosso “eu inflado” para entrar em comunhão com seu modo de viver e com seu Projeto. Jesus é presença sem mescla de “ego”: o centro de sua vida não está em si mesmo, mas na comunhão com a vontade do Pai e na solidariedade com os últimos e sofredores. Diante d’Ele, brota em nós uma “ressonância interior”, absolutamente iluminadora e motivadora, que desperta, ativa e mobiliza a segui-lo, descentrando-nos de nós mesmos. Esta nova experiência modifica a maneira de perceber toda a realidade: a família, os outros, os bens, o nosso próprio eu… A vida mesma é percebida de um modo novo. Este é o caminho do Seguimento. Jesus quer seguidores(as) com liberdade, com decisão e responsabilidade. Para isso é preciso “renunciar a tudo” para ser pessoas, em amor e partilha. “Renunciar a tudo” para que todos possam ter, para que todos possam compartilhar fraternalmente tudo. O que significa “renunciar a tudo” e desapegar-se dos seres mais queridos? Significa sair da visão egocentrada, nascida da crença errônea de que somos o ego. Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado (e fechado na torre) e descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; não vejas nem sequer a tua família a partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contempla-os a partir de tua verdadeira identidade, onde todos sois um, mas sem apego nem comparações”. Não é a renúncia em si que nos salva, mas o desenvolvimento e a expansão da vida em direção à plenitude. A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando se faz por algo melhor. O apego às coisas ou às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o fluxo da vida e o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. Os ensinamentos de Jesus, no evangelho deste domingo, são um chamado ao realismo. Para além das imagens que Ele usa, poderíamos sintetizá-las assim: Até onde estou disposto a ir no seguimento? Estou motivado e decidido a manter o “sim” até o final? Estou pronto para viver a fidelidade à causa do Reino, mesmo correndo o risco de encontrar cruzes? Sabemos que a cruz só tem sentido quando é consequência de uma opção autêntica em favor da vida ou de uma verdade assumida: por exemplo, se sofremos por levar adiante uma causa justa, por defender pessoas, por evitar um mal ou denunciar uma injustiça… Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser fiel até o final à sua mensagem: o amor incondicional de Deus e o compromisso com os excluídos. Cruz, (“staurós” no grego) não significa simplesmente patíbulo, instrumento de tortura imposta pelos romanos àqueles que consideravam transgressores da ordem ou subversivos; significa prontidão, estar preparado, estar de pé, mobilizado, firme, fiel até o fim… Nesse sentido, a “cruz-staurós” é vida aberta, expansiva, oblativa, vida descentrada em favor dos outros; ela é vivida a partir de uma causa: o Reino. A cruz não é um “peso morto” a ser suportado; ela é consequência de uma opção radical em favor da vida; a cruz não significa passividade e resignação, pois ela brota de uma vida plena e transbordante; a cruz resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida na fidelidade ao Pai, que quer que todos vivam intensamente. Existem cruzes que são vazias, sem sentido, insensatas…, pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida. São cruzes que brotam dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes… e que não foram integradas Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de sentido; elas se fixam no passado, na mortificação, no ritualismo vazio… com a intenção de agradar a Deus. Fazer o caminho com Jesus, que carrega a cruz da fidelidade, ajuda a romper com as cruzes que afundam no desespero e no fracasso. Assim entendemos a afirmação de Jesus no evangelho deste domingo: “quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Carregar a cruz significa esvaziamento do próprio “ego” para viver em sintonia com a causa de Jesus e a fidelidade no compromisso com os outros. É gratificante trazer à memória tantos homens e mulheres que são presença compassiva e, à maneira de Jesus, arriscam suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas
Revitalizando a Vida Religiosa Consagrada através do Autoconhecimento

Introdução O presente artigo visa refletir sobre a temática do autoconhecimento na Vida Religiosa Consagrada aprofundando elementos que constituem um percurso de entrega radical no serviço ao Reino, isto é, como o consagrado conhece a si mesmo, se aceita e se reconcilia com a sua própria história, reconhecendo o dom de si e orientando-o para à humanidade. Partimos da premissa de que o caminho do conhecimento de si, nem sempre é fácil, e isto é verdade, pois, é um percurso que exige ruptura com uma falsa imagem de si mesmo, no intuito de olhar-se com realismo, o qual, diante de tantos desafios apresentados pelo mundo atual, se faz necessário para todas as pessoas, e mais ainda, se faz imprescindível para aqueles que se sentem chamados à consagração total no seguimento de Cristo[1]. O autoconhecimento é uma passagem basilar para a maturação da própria vocação, para a autoaceitação das próprias emoções e a integração do indivíduo na sua totalidade, sobretudo para se configurar Àquele a quem se segue. Na realidade, a vida consagrada precisa de pessoas que tenham atingido um nível de autoconsciência madura e uma transparência que lhes permitam administrar suas relações interpessoais com uma certa liberdade, de modo a gerar vida e liberdade ao seu redor, como afirma Rulla: “Deus chama a profundidade de nosso ser, nosso coração, à liberdade para a autotranscendência do amor” (1985, p. 256). O autoconhecimento objetivo, coloca cada indivíduo em contato com o profundo mistério de si, com suas lutas, dores, necessidades, suas resistências que dificultam seu crescimento e os desejos que habitam no coração humano. Conhecê-los, aceitá-los e orientá-los para o que se escolheu é um dos principais desafios na formação[2] à vida religiosa consagrada a fim de acolher e compreender a vontade de Deus na própria vida, sem negar a realidade. Comprometer-se com a proposta de Deus requer tempo, vida de oração assídua, discernimento, corresponsabilidade, abertura as mediações, porque esta enfatiza os elementos a serem amadurecidos e purificados no caminho de crescimento vocacional. Sem um verdadeiro e sincero conhecimento de si, a ser desenvolvido face ao ideal e, portanto, aos critérios objetivos do crescimento da própria vocação cristã, seria quase impossível compreender o que há realmente para ser purificado, revitalizado e amadurecido. Portanto, faz-se indispensável cultivar um profundo e gradual percurso de acompanhamento psicoespiritual. 1 Autoconhecimento como percurso de autoaceitação Amedeo Cencini[3] em seus escritos, destaca que o conhecimento verdadeiro e realista, leva cada indivíduo ao contato com o que se vive no eu atual: limites e valores. Permite com que reconheça os dons e talentos recebidos de Deus e os seus pontos a serem melhorados; faz com que reconheça a sua própria realidade e negatividade dando-lhe um nome preciso; ajudá-o a compreender onde se é particularmente frágil, para identificar as áreas da própria escravidão e vulnerabilidades. Finalmente, levá-o a conhecer as suas incoerências e as áreas da personalidade que estão fechadas à ação do Espírito, num nível consciente e inconsciente. A partir daí, quanto mais precisa a identificação, mais eficaz pode ser então o trabalho de purificação, conversão, integração para alcançar essa consciência em viver a verdade, a sinceridade de uma forma autêntica, sem exaltação ou degradação. Conforme o autor, o autoconhecimento requer outro passo importante que é a autoaceitação, em outras palavras, olhar para si próprio com um olhar benevolente, sem a autocondenação. Aceitar-se como se é, com falhas e qualidades, para que a autoaceitação o ajude a administrar as suas necessidades, a superar seus limites, e acima de tudo não pretendendo eliminar o seu componente negativo, mas reconhecendo-o como um sinal inerente de humanidade. Atualmente, é comum encontrar consagrados incertos da própria identidade, de quem realmente são, ou com a sensação de que a parte mais profunda de si está submersa por uma autoimagem plena de convicções, regras, preconceitos, medos, ansiedades que, realmente nem sequer o conseguem reconhecer. Muitos, às vezes, por falta de tempo, de instrumentos ou até mesmo por desinteresse nunca tiveram a oportunidade para descobrí-lo. Com o intuito de superar desconfortos, falta de sentido, insatisfações, perda do encanto inicial da própria vocação e bloqueios interiores, faz-se necessário aventurar-se em um percurso sistemático e perseverante de conhecimento de si, a fim de compreenderem suas limitações e fragilidades, bem como, redescobrir seus talentos e potenciais inexpressivos. Desta forma, e, graças à exploração de sua verdadeira identidade como pessoa, será possível construir uma boa autoestima e sentirem-se realizados, integrados e sobretudo livres nas relações consigo mesmo, com os outros e com Deus. 2 Cultura do acompanhamento psicoespiritual A cultura do acompanhamento psicoespiritual ainda é muito escassa ou quase inexistente na vida religiosa consagrada e comunitária, de um modo geral. Muitos, ainda vivenciam a mentalidade de que um processo psicoterapêutico seria apenas para pessoas “problemáticas” ou que possuem um determinado nível de “patologia”, resultando por viver uma vida medíocre, como fotocópias, inconsistente ou sem uma identidade estruturada no total desconhecimento de si. Certamente, somente após revisitar um passado por vezes desconhecido, mas, que continua muito vivo dentro de cada indivíduo, que desperta a cada vivência de suas memórias afetivas, será possível uma resposta responsável, livre e autêntica em sua opção fundamental. No que diz respeito ao consagrado, além de entrar em um mundo interior para conhecer as suas incongruências, bem como suas potencialidades, o percurso de autoconhecimento faz-se crucial para assimilar os dons recebidos de Cristo, para identificar-se com Sua vida e ser configurado com Ele. Para além das mãos humanas, o acompanhador com uma particular preparação, embora conduzido pelo Espírito, caminha junto, mas não alcança, pela pessoa, um verdadeiro e transformante “entrar no próprio mundo interior” sem as mãos de Deus, pois Deus que habita em cada ser, o conhece em profundidade. Neste árduo itinerário, cada passo, cada descoberta, sentimento, incoerência revelada, ferida aberta, são integralmente envolvidos no manto de amor e misericórdia d’Aquele que conhece cada pessoa como nenhum outro e a acolhe, conforta, ilumina, cuida, cura, fortalece, ressignifica, revitaliza e finalmente, faz nova todas as coisas (cf. Ap 21,25). Através de um percurso sistemático poderão dizer como o salmista, que se maravilhou com o mistério da origem humana e louvou
O evangelho dos não convidados

“Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”(Lucas 14,1.7-14) Jesus é um profundo conhecedor da interioridade humana. Sabe que ali dois dinamismos estão em contínuo conflito: de um lado, o ego farisaico, que aproveita todas as ocasiões para brilhar diante dos outros (cultura da aparência), ser o centro, chamar a atenção sobre si…; do outro, o eu profundo, sábio que, na sua liberdade e espontaneidade, deixa transparecer sua luz no encontro com o diferente. As imagens e as palavras de Jesus no evangelho deste domingo são tremendas. A motivação daqueles que buscam ocupar os “primeiros lugares” é expressão de uma interioridade vazia e estéril; ela é reveladora de uma das necessidades características do ego, que busca “aparecer” diante dos outros, como um modo de autoafirmar-se, de se sentir superior aos outros, humilhando-os e desprezando-os. Quando uma pessoa é escrava de seu próprio ego, não lhe importa que o outro desapareça ou se sinta marginalizado e privado de seus direitos. Vive tão a fundo sua “autoidolatria” que até lhe parece normal continuar agindo assim. A pessoa sábia, no entanto, compreende que tudo o que os outros pensam ou digam a respeito dela não lhe acrescenta nem lhe tira nada de seu valor. Ela não se move a partir da necessidade de agradar ou de “ficar bem” diante dos outros. Vive, simplesmente, na coerência com o que é mais verdadeiro em seu interior, onde o ego não tem predomínio. Da mesma maneira que não busca reconhecimentos nem bajulações, tampouco lhe interessa perseguir os primeiros lugares. Vive com liberdade interior, a partir de sua própria consciência de plenitude. Flui em cada momento com o que é em sua essência; fluidez que brota da compreensão de si mesma, aquela que lhe faz consciente de sua “irmandade” com todos os humanos e todos os seres. Portanto, o sábio não atende aos necessitados – “pobres, aleijados, coxos e cegos” – para receber uma “retribuição” futura, senão porque sabe que são de sua mesma “família”. O comportamento dele – como foi do próprio Jesus – se caracteriza pela gratuidade. Não busca alimentar o interesse egoico, porque não se deixa determinar pela carência. Sua ação é fim em si mesma, porque nasce de uma consciência de plenitude que se transborda. O evangelho deste domingo nos convida a estar com Jesus numa refeição, em casa de um dos chefes dos fariseus. Ele era consciente de que muitos desse grupo religioso estavam contrariados com sua forma de proceder e vigiavam seu modo de falar e agir. Por isso, ali, nessa refeição, Jesus não se sentia à vontade, pois faltava a presença de seus amigos prediletos: os pobres, aleijados, coxos, cegos… A conduta dos convidados e do chefe fariseu são, para Jesus, uma ocasião privilegiada para propor os valores do Reino. Para Ele, no banquete da vida, não basta dar e receber generosamente, mas acolher com gratuidade todo aquele que não pode oferecer nada em troca. A honra não se fundamenta mais no poder e no prestígio, mas na bondade, humildade e hospitalidade. A nova comunidade do Reino é esse banquete no qual todos têm lugar, seja qual for sua origem, crença, situação pessoal; ali todos se sentem convidados, sem merecimentos exclusivos nem dignidades adquiridas. O relato deste dia não só recorda o modo original de Jesus agir, senão que é um chamado à comunidade cristã para que seja comunidade inclusiva e aberta, na qual se respeitem as diferenças, se construam espaços de igualdade, onde se proclame um Deus gratuito e cheio de amor e perdão. Nela não haverá estrangeiros nem imigrantes, não haverá primeiros nem últimos, não haverá resquícios de gênero nem poderes que excluem. Se não nos assentamos à mesa com o outro, estamos perdendo a possibilidade de saborear os alimentos humanizadores: encontro, alegria, partilha, hospitalidade, festa, vida… Tudo aquilo que acontece na alegria, tudo aquilo que é distribuído com vida, com sentido e sentimento, alimenta algo em nós, ou alguém fora de nós. Multiplica-se, triplicam-se os cestos de pão. Na mesa, “cristificamos” e “sacralizamos” os frutos da terra e do trabalho humano. Por isso, os alimentos fornecidos pela natureza e dela extraídos pelo trabalho do ser humano vêm carregados de tão rico simbolismo: quando postos à mesa, significam a mãe natureza dadivosa e boa, criada por Deus, e o trabalho do ser humano, que na mesa vem se alimentar para continuar a viver. A relação de alteridade à mesa tem o poder de reconstruir laços quebrados, perdidos em nosso passado (mesa, lugar da memória); ela tem a força de reavivar os sentimentos soterrados pelos afazeres diários. A presença provocante do encontro com o outro desperta em nós o “dinamismo conspiratório”, ou seja, respiramos juntos o mesmo ar, compartilhamos o mesmo sonho, a mesma missão… Um caminho “mistagógico”, que é pura acolhida do Mistério revelado na mística da mesa. Esse caminho é busca, encontro e acolhida. Podemos ler o evangelho deste domingo também em chave de interioridade: no nosso eu mais profundo, há uma mesa pronta para a refeição; geralmente é o “fariseu” que nos habita o controlador desta mesa; é o nosso ego inflado, perfeccionista, legalista, dominador que não admite a presença de nossos pobres, aleijados, coxos, cegos, enfim, todas as dimensões de nossa vida que foram excluídas, reprimidas e marginalizadas. O evangelho nos revela que, em nossa interioridade, há muitas vivências, experiências, feridas, fragilidades, fracassos, crises… que não foram acolhidas nem integradas, e que clamam por um lugar à mesa do coração; “multidões” nos habitam e querem compartilhar a mesa da vida. O nosso fariseu interior também convida Jesus para participar da sua ceia; e Jesus é aquele que acolhe o convite, mas não se sente bem à mesa do fariseu, pois nota a falta dos seus amigos pobres. Ele tem liberdade de transitar pelo nosso interior e de acolher tudo o que foi reprimido e excluído. São justamente nossas feridas as portas e janelas abertas por onde entra a mensagem inovadora de Jesus. O “fariseu” já está formatado, petrificado, refratário
Ponte para que diferentes mundos se encontrem

Juan Tapia Contreras é um jovem chileno, missionário do Verbo Divino (verbita). A congregação, conhecida pela sigla SVD, é um dos ramos da Família Arnaldina, a primeira a ser fundada por Santo Arnaldo Janssen. Atualmente, João, como quis ser chamado no Brasil, estuda filosofia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), em Belo Horizonte-MG. Apoia os trabalhos das Casas do Homem de Nazaré e, nos fins de semana, colabora com a pastoral na Paróquia São Gabriel, no bairro Taquaril, na capital mineira. Na entrevista concedida ao também verbita Pe. Arlindo Pereira Dias, da Rede Rua, o missionário partilha um pouco de sua experiência junto ao povo da rua, em 2021. João participou em um projeto de distribuição de alimentos realizado em São Paulo-SP, durante a pandemia de covid-19, coordenado pela Rede Rua. Rede Rua: Quem é Juan René Tapia Contreras? João: Chegando aqui no Brasil, eu quis ser conhecido como João, para facilitar um pouco a vida de todos e também a minha. Percebi que ajudaria no nosso relacionamento. Eu acredito profundamente que, quanto mais familiar e mais próximo eu estiver das pessoas, mais ajudará minha vida pastoral, minha caminhada. Falo assim porque eu sou um religioso da Congregação do Verbo Divino. Sou chileno e estou aqui no Brasil há quase quatro anos. Cheguei em 2019, para fazer uma etapa que nós chamamos de noviciado. Depois de um ano de experiência muito profunda na oração, na contemplação e no conhecimento da Congregação do Verbo Divino, comecei a estudar Teologia em São Paulo. Nessa caminhada, na Teologia, pude também conhecer as pessoas em situação de rua. Então comecei a fazer uma pastoral muito bonita nessa área. Rede Rua: Por que você decidiu continuar no Brasil? João: Eu fiquei no Brasil, depois do noviciado, por uma razão muito prática, e que também tem raízes bem profundas. Na prática, é que, no Chile, eu não tinha mais a possibilidade de estudar Teologia. A nossa Congregação estava para fechar a casa de Teologia. Portanto eu não teria condições para voltar para o Chile. Diante dessa situação, eu fiquei como “sem-casa”, sem pátria para poder continuar minha formação. Mas aí eu vi também a vontade de Deus em poder decidir livremente o lugar que eu poderia ficar. Na verdade, eu tinha opções, porém eu decidi pelo Brasil devido à necessidade de continuar uma busca que eu tinha iniciado lá no noviciado. A busca de estar ao lado, de estar junto aos menos favorecidos da sociedade. Vi essa possibilidade aqui no Brasil, como poderia ser em qualquer parte do mundo, mas eu tinha tido a experiência aqui no Brasil, a qual era muito mais forte e muito mais dilacerante em relação à realidade do povo. Por isso eu decidi fazer minha formação aqui, transformando em prática o que entendia por Teologia. Rede Rua: Como você foi ao encontro do povo da rua? João: Conhecer as pessoas em situação de rua, o povo da rua, era um anseio bem profundo que começou a surgir na mesma época do noviciado. No Chile, eu morava em Santiago e, durante minha formação, havia muitas pessoas em situação de rua, que sofriam bastante. Mas, para mim, isso era uma realidade paralela, uma realidade que não me tocava. A partir da experiência que eu vivi no meu primeiro ano aqui no Brasil, isso me transformou. Era uma experiência espiritual que tinha que se concretizar. Uma experiência que surgiu da oração e tinha que se fazer ação, que tinha que se fazer vida. Eu me lembro de que a experiência mais marcante para chegar à rua, depois dessa experiência de oração, experiência mística, foi conhecer um casal na rua, que se aproximou de mim. Eu mal falava o português e, pior ainda, não entendia quando eles me falavam. Porém eu tive uma atitude de escuta para com esse casal que encontrei na Chapelaria Social da Rede Rua, em 2019. Eles estavam passando e, por acaso, a mulher começou a contar um pouco da vida dela, das perdas que teve, dos filhos e de como chegou à rua. Isso me tocou tanto que, mesmo não compreendendo tudo o que ela me falou, ficou em minha memória e coração. Quando a gente se despediu, foi com um abraço. Ela falou que iria orar por mim, ele também. Isso me marcou bastante, porque, apesar de não nos conhecermos, não ter entendido muito do que eles me falaram, eu tive uma atitude de abertura para com eles. Eu senti que eles também se entregaram para mim. Isso mudou a minha compreensão das pessoas e do mundo daqueles que vivem em situação de rua. Rede Rua: A pandemia o aproximou da população de rua? Como? João: A pandemia, para todos, foi uma situação bem complexa e bem difícil, que nos levou a entrar em nós mesmos. No meu caso, a pandemia me ajudou a pensar mais em mim, coisa que eu normalmente não fazia. Isso teve um efeito contrário. Eu entrei e comecei a pensar mais em mim, comecei a me preocupar mais comigo. Lá dentro, eu percebi que eu tinha que sair de mim mesmo. É interessante, porque, antes da pandemia, eu fazia muita atividade, muita ação social. Mas hoje, olhando para trás, eu vejo que tudo isso é ativismo, que faz bem para muitas pessoas, que são ajudadas, mas, para mim, não era o melhor. Então, quando veio a pandemia, fiquei muitos meses fechado, trancado em casa. Eu percebi que eu precisava sair de mim mesmo. Então foi um duplo movimento: um de entrada e um de saída de mim. Nesse movimento de saída, eu percebi que muitas pessoas precisavam de alguém que as escutasse, de alguém que estivesse perto. Eu sabia que, entrando na rua, chegando à rua, eu não iria mudar a vida ou a realidade que eles estavam vivendo, e que ainda continuam vivendo. No entanto, eu sabia que, pelo menos, iria tocar ou atingir o coração de uma pessoa, ou de algumas pessoas. Isso me motivou, no contexto da pandemia, a
Santa Maria do Céu e da Terra

“… conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência para sempre”(Lucas 1,39-56) Neste domingo celebramos a festa da Assunção de Maria. Normalmente, quando pensamos na Assunção, vêm à nossa mente muitas imagens de Maria olhando para o alto, com as mãos juntas, rodeada de anjos, sobre nuvens que indicam que é elevada ao céu. É uma festa que nos fala da santidade e da plenitude daquela que mais amou, conheceu e seguiu seu Filho. Mas, se ficarmos só com as imagens tradicionais da elevação de Maria, não dizem muito para nós, porque nossa própria experiência tem pouco a ver com elas. O próprio Evangelho deste domingo nos ajuda a tomar distância das imagens tradicionais da Assunção e nos apresenta Maria com os pés na terra. Ela foi “assumida” por Deus porque “desceu” ao mais profundo da história humana, fazendo-se solidária e servidora em favor de seus filhos e filhas. É na vivência de “saídas” e “encontros” que Maria se revela próxima de todos nós; continuamente, somos chamados a viver a “cultura do encontro” e do deslocamento solidário, sobretudo com os mais pobres e excluídos. O evangelho da Visitação nos revela o encontro de duas mulheres grávidas. Maria e Isabel são o ícone do verdadeiro “encontro”, carregado de hospitalidade, alegria e serviço; ambas, em idades diferentes, se acolhem, se entendem e se ajudam mutuamente, pois compartilham o mistério da vida que cada uma carrega em seu ventre. É como se uma dissesse à outra: “isto que está acontecendo em seu ventre é coisa de Deus, os homens não compreendem!”. Segundo Lucas, Maria, depois de receber a notícia de que seria a mãe do Messias, “pôs-se a caminho” com “prontidão”, que também pode ser traduzido “com diligência, com empenho, com cuidado…”. Trata-se de uma decisão que brotou de sua nova condição de futura mãe, de sentir que em suas entranhas crescia a nova Vida que vem de Deus. Deus saiu ao encontro de Maria e esta vai ao encontro de Isabel. São duas gestações que nos convidam a contemplá-las à luz da fé, porque acontecem em circunstâncias que humanamente são impossíveis. No caso de Maria, porque “não conhece homem algum” e, no de Isabel, porque é anciã, “concebeu na velhice”.A vida que nasce de Deus rompe todas as normas, supera nossos cálculos, nos surpreende, irrompendo com força ali onde nós não vemos possibilidades. Essa experiência de que para Deus “nada é impossível”, de que Ele sai ao encontro e faz surgir vida em duas mulheres simples, como entre tantos pobres e humildes, é uma realidade vivida pelas primeiras comunidades cristãs, pobres, pequenas e perseguidas. É também a experiência nossa, tanto no nível pessoal como comunitário. São muitos(as) que, às vezes, se sentem como Isabel: idosas e cansadas para algo novo, ou muito sós e cheios(as) de dificuldades para acolher as surpresas de Deus. Duas mulheres grávidas, que se encontram; de que falam? Sem dúvida, da “novidade” de seus ventres, de sua alegria, do futuro… Nesse caso, nos diz o evangelho, que a alegria é transbordante e contagiosa, tão profunda e intensa que “o menino salta no ventre de Isabel” e esta se enche do Espírito de Deus. E a partir desse Espírito, falam de um futuro que as transcende, que não é só o futuro de seus filhos, é o futuro de todo o povo, de toda a humanidade. A profundidade da alegria e da fé faz com que este encontro adquira outra dimensão: do encontro de duas mulheres passa a ser o encontro definitivo e permanente de Deus e nosso mundo, seu mundo. Assim, Maria se põe a cantar ao Deus da vida e ao mundo novo que Ele torna possível; ela, consciente do que está vivendo, deixa jorrar de seu interior um ousado cântico que expressa uma das imagens de Deus mais inspiradoras e carregadas de esperança do Novo Testamento. Maria expande sua consciência, maravilhada da ação de Deus nela e para além dela; em Deus, ela se sente em sintonia com a história de seu povo e da humanidade inteira. Descobre que Deus é grande porque entra na história a partir dos últimos, dos pobres e deslocados. E afirma com contundência que é a ela, humilde mulher nazarena, a quem todas as gerações chamarão bem-aventurada. E essa experiência de que Deus “faz maravilhas nela” é a razão pela qual afirma que Ele é misericordioso e que esta misericórdia, realizada nela, se estende, de geração em geração, sobre aqueles que o temem, sobre aqueles que creem nele e o amam. Sua experiência pessoal é a que lhe faz descobrir como Deus atua no mundo e como está disposto a fazer novo nosso futuro, com ações desestabilizadoras em favor dos pequenos, dos necessitados. Aclamar e celebrar hoje Maria, que é levada ao encontro definitivo com Deus, nos compromete a viver, como ela, os outros encontros transformadores nos quais partilhamos e cantamos a vida que Deus, por sua misericórdia, derrama em nós, em nossa pobre realidade. No Magnificat, Maria canta a sua própria história e “faz memória” da história de seu povo. E isso nos desafia a fazer o mesmo. Ninguém vive uma vida espiritual fecunda enquanto não for capaz de assumir aquilo que “é” na sua originalidade, se não for capaz de construir a relação com Deus como um diálogo vivo entre um “eu” e um “tu”. A oração de Maria não é feita de fórmulas. Ela expõe a sua vida naquilo que diz. À luz do Magnificat, a história não se reduz a eventos opacos, vazios, tristes… Com o cântico de Maria, a história se ilumina, se transfigura e nos desafia. A ação providente de Deus na história plenifica, dá sentido e costura os eventos, constituindo-se em “História de Salvação”. O Magnificat nos faz ver o que todo mundo vê, mas de um “modo” diferente: vemos mais longe, vemos além, vemos mais fundo… O encontro com a História Sagrada nos ajuda a ler nossa história sob nova perspectiva: a da salvação. Deus desce à