Somos luz e sabor

“Vós sois a luz, vós sois o sal…” O evangelho deste domingo é a conclusão das bem-aventuranças, proclamadas no domingo passado. Jesus faz uma afirmação lapidar: “vós sois o sal, sois a luz”. O artigo determinado nos adverte que não há outro sal, que não há outra luz. Todos têm direito a esperar algo de nós. O mundo dos cristãos não é um mundo fechado e à parte. A salvação que Jesus propõe é a salvação para todos. É preciso que a única história, o único mundo fique temperado e iluminado pela vida daqueles(as) que seguem a Jesus. Mateus nos traz uma mensagem de muita transcendência para o discipulado. Este texto pertence ao Sermão da Montanha no qual transparece a intenção de Jesus de construir uma nova comunidade, aquela que decide pertencer ao movimento de vida iniciado por Ele, identificando-se com o modo de ser e viver do Mestre da Galiléia. Aqui está a verdadeira identidade dos seguidores(as): ser presença que ilumina e dá sabor à realidade carregada de tantos conflitos e divisões. A originalidade desta nova comunidade não está centrada na pertença a uma nova religião, com seus ritos, leis, doutrinas, hierarquias…, mas no fato de prolongar o movimento humanizador iniciado por Jesus. Movimento de inclusão de todos, movimento que põe em questão toda forma de submissão, movimento que abre um horizonte de esperança e de vida. É importante destacar que as palavras de Jesus dirigidas ao discipulado não são uma promessa, mas uma realidade existencial, porque lhes diz que já são “sal da terra” e já são “luz do mundo”. Ele utiliza estas duas imagens para que todos compreendam que estão equipados de sabedoria e luz para iniciar este caminho. O sal não tem valor para si mesmo, mas para conservar e dar sabor, para diluir-se no processo da vida da terra. Não somos sal para nós, para um pequeno grupo, mas sal para a terra inteira. Ser luz… Tampouco a luz tem valor em si mesma, mas para iluminar os outros. Devemos cair na conta de que Jesus não pede para salgar ou iluminar, mas ser sal, ser luz. O matiz tem sua importância. A missão fundamental de cada um está dentro dele mesmo, não fora. A preocupação de cada um deve ser alcançar a plenitude humana. Se é sal, tudo o que ele toca ficará temperado. Se é luz, tudo ficará iluminado ao seu redor. Com demasiada frequência o cristã acredita ser sal e luz, mas sem dar-se conta de que perdeu toda capacidade de dar sabor e iluminar a vida, porque é sal insosso e luz tímida. O simbolismo do sal aqui é extraordinário: ele não pode salgar a si mesmo. Sua capacidade não lhe é útil para nada. Mas é imprescindível para os outros. É para ser acrescentado a outro alimento, é para ressaltar seu sabor. O humilde sal é feito para os outros, para que os outros sejam eles mesmos. Ele garante o sabor, com a condição de que se dissolva. O sal serve para ativar o sabor dos alimentos; não é o sal que “dá sabor”, mas é ele que realça o sabor de cada alimento. As palavras “sabor” e “sabedoria” tem a mesma raiz do verbo latino: “sapere”, que significa, ao mesmo tempo, tanto “saber” quanto “ter sabor”. Assim como está o sabor para os alimentos, também está o sabor da vida. Sabedoria rica e nova: o coração é “sábio” quando sabe “saborear a verdade”, quando é livre, quando intui a direção da própria existência, quando se sente “seduzido” pelo que é verdadeiro, bom e belo. Saber é experimentar o gosto das coisas. Saber é sentir o sabor. “Sapiencia” quer dizer conhecimento que tem sabor. Segundo a Anotação 2 dos EE, “não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente”. Portanto, sabedoria é a arte de degustar, distinguir, discernir… O sábio é aquele que conhece, não com a razão, mas sente o gosto daquilo que já está dentro dele. Sábia é a pessoa que sintoniza atentamente seus ouvidos aos desejos do coração. “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?” (T.S. Eliot). A verdadeira sabedoria, portanto, nos ajuda a descobrir a profunda raiz da vida e como investir, da melhor maneira e em sua justa medida, nossas energias vitais. Mas, há um forte alerta: “se o sal perde seu sabor, com que se salgará?” Esta frase é um provérbio usado na literatura rabínica pois se refere a um sal extraído do mar Morto e que perdia seu sabor muito rapidamente. Agora, Jesus situa o discipulado diante de uma grande responsabilidade: a inutilidade de uma fé centrada na razão e não vivida a partir da profundidade humana. Viver o seguimento a partir de uma fé focada na doutrina gera ideologia; mas, quando é vivida como raiz existencial gera sentido para chegar a ser o que somos em potencialidade. O tema da luz é muito frequente na Bíblia. Partindo de um dado experimental, descobre-se sua importância para o desenvolvimento da vida. Não só porque a luz é imprescindível para a vida, mas porque o ser humano não pode desenvolver-se na escuridão. Daí que a luz tenha se convertido no símbolo da vida mesma e de tudo o que a rodeia. Assim como a escuridão se converteu no símbolo da morte e de tudo o que a provoca. A escuridão nos paralisa; tudo está aí, mas não podemos nem nos mover. A pequena luz põe as coisas em seu devido lugar, nos faz capaz de contemplar a beleza presente em tudo. É como o primeiro momento da Criação: “Faça-se a luz”, e a partir daí o caos foi se transformando em cosmos. Quem segue Aquele que é a Luz, reacende a faísca de luz dentro de si e se torna reflexo da Luz de Cristo. A vida inspirada pelo seguimento é um “caminhar na Luz”. “Deus é luz e nele não há treva alguma” (1Jo 1,5). Deus revela, potencializa, ilumina, dá sabor. A
Sobre andar com fé…

Já se foram mais de sete décadas, e essa “senhora” de 74 anos ainda tem muito o que nos ensinar. E diria mais, segue inspirando, e seu conteúdo se torna cada vez mais atualizado e essencial. Para encarar retrocessos por aqui e pelo mundo afora, nunca foi tão urgente revisitar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, essa sábia “senhora”, nascida em 1948. Eu destacaria seu artigo inicial: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência, e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.” Uma mistura de liberdade, dignidade, igualdade, razão, consciência e fraternidade em defesa da vida. Uma poderosa seta que indica caminhos e não permite atalhos nem arranjos que coloquem vidas em risco, que tem potência para reescrever nossa realidade mundial. Sigo escrevendo, com a permissão de quem pretende destacar a liberdade de crença nesse cenário de retrocesso, trazendo a discussão de uma maneira simplificada e que possa implicar a muitos. Agora, desatacaria o artigo 18 da Declaração: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença, e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.” Também trago para o diálogo a nossa jovem Constituição Federal de 1988, que, em seu artigo 5º, inciso VI, estabelece: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.” Diante de fatos que se acumulam, faço coro à indignação do Papa Francisco: “Como é possível que hoje muitas minorias religiosas sejam discriminadas? Como permitimos que as pessoas sejam perseguidas simplesmente por professar publicamente sua fé?”. Uma mistura de intolerância, discriminação, perseguição se opõe à liberdade de religião ou de crença, coloca em risco a coexistência pacífica e nos afasta da fraternidade. Supondo que, numa dimensão transcendental, na rota da fé e da livre expressão religiosa, iríamos nos tornar mais fraternos e complacentes com as diferentes concepções e visões de mundo, o que se vê é a intolerância e a discriminação ganhando força. Ao que parece, ao ferir a liberdade religiosa, colocamos em risco toda a humanidade e enfraquecemos os pilares da cultura de paz, da diversidade e da preservação da dignidade humana. Há de se encontrar e alargar os campos de intercessão que existem entre as mais diversas expressões religiosas, de crença, de culto e de fé. O que nos diferencia deve ser mediado pelo diálogo respeitoso e construtivo. De mãos dadas com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, vamos seguir construindo pontes e estradas que levem ao caminho do diálogo, do respeito, da paz no mundo e da dignidade humana. Como brasileiros, frutos da terra rica em diversidade de tradições e doutrinas, podemos mostrar ao mundo que andar com fé tem muitos caminhos. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
As três grandes missões dos batizados e o papel da comunidade

Em 2023, a Festa do Batismo do Senhor, uma data móvel, é celebrada em 9 de janeiro. Normalmente, essa liturgia ocorre no domingo, mas, por variações do calendário litúrgico no Brasil, neste ano, cairá numa segunda-feira. Com ela, encerra-se o Ciclo do Natal. No dia seguinte, começa o Tempo Comum (eis uma dica para quem quer saber quando guardar a árvore de Natal e o presépio). Como ocorre com datas importantes da Igreja, sobretudo as que comemoram eventos da vida de Jesus, os ritos são belíssimos. Em muitas comunidades mundo afora, o povo costuma ser aspergido com água benta, e crianças são batizadas. Considero a celebração do batismo uma obra de arte. Se conduzida com o devido esmero, mergulhamos bem na beleza de muitas das bases de nossa fé, na graça de um Deus a nos tocar e a nos confiar algumas nobilíssimas incumbências, visto que somos configurados a quem veio para servir (cf. Marcos 10,45). Eu gostaria de destacar a unção com o crisma, feita logo após o banho na água sagrada. O gesto sinaliza três preciosas missões a emanarem de Jesus: “Que Ele (Deus Pai) as consagre com o óleo santo para que, inseridas em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continuem no seu povo até a vida eterna”, diz um trecho da prece recitada nessa hora. Eu gostaria, portanto, de sublinhar, de modo resumido, cada um desses três pontos. 1. Sacerdotes em Cristo Todos os batizados, batizadas, porquanto “enxertados” no Mestre, ganham a dignidade do chamado sacerdócio comum dos fiéis, este que nos une a todos: leigos, ordenados ou consagrados. Pela vocação batismal, somos igualmente filhos e filhas de Deus, mesmo com diferentes responsabilidades. Em Jesus, podemos nos ofertar ao Pai, à Igreja, orar em favor do próximo, assumir o Templo-Cristo. No Senhor, não há mais o véu a nos separar (cf. Marcos 15,38), pelo qual passavam apenas alguns “privilegiados”. 2. Profetas em Cristo As palavras “profeta” e “profecia” andam muito mal-usadas, inclusive entre os cristãos católicos. O termo significa “porta-voz”. O profeta, a profetisa não age ou fala por si, mas como Deus deseja. Exercer a profecia, por atos e palavras, costuma dar trabalho. Muitas vezes, percorrer nos caminhos de Deus significa andar na contramão de várias coisas do mundo, sendo um “incômodo” para os injustos e perseguidores. O profeta anuncia o reinado do Senhor, por ser sábio, sabe falar e se calar na hora certa, também busca antes ouvir e falar com Deus, pede ao Mestre coragem para denunciar as trevas que apequenam o ser humano. 3. Reis em Cristo A terceira missão dos recém-admitidos ao Corpo de Cristo é a de reinar, mas não em trono dourado, e sim na cruz, tal como o Senhor. Os batizados e as batizadas precisam ser os reis, as rainhas do serviço. Esse é o motivo pelo qual os cristãos devem, sim, construir uma sociedade melhor, cuidar do ser humano, da natureza, devem colaborar para uma Igreja melhor, para ela ser, de fato, um sacramento de Deus para o mundo, como deseja o Concílio Vaticano II. O reinado e a profecia em Cristo jogam por terra a famigerada ideia, defendida por opressores do povo e da natureza, de que a Igreja deve se preocupar apenas com temas de sacristia. Apoio da comunidade Como esperar tarefas tão grandiosas de um neófito (palavra de origem grega cujo sentido é “brotinho”)? A própria liturgia batismal dá essa resposta. Ao longo da celebração, pais, padrinhos e outras pessoas são convocados a ajudar os pequenos a crescer na fé, pela observância dos mandamentos e pelo exemplo de vida na Igreja, a família dos seguidores de Jesus. As crianças aprenderão a ser sacerdotes, profetas e reis pelo testemunho dos outros batizados e batizadas. Reforço: estes, solenemente, prometem ser uma comunidade de fé e de amor para os recém-chegados, renunciam ao pecado, a tudo o que causa desunião, ao próprio demônio. Como todos nós perdemos quando essas promessas se tornam apenas palavras soltas, ditas no “piloto automático” ou sem a mínima consciência! O dia do mergulho em Cristo não é uma formatura, mas o início de uma caminhada sem fim. Essa liturgia é uma ótima oportunidade de conversão para os já iniciados. Humildes e frágeis, as crianças, a seu modo, nos questionam sobre como assumimos nosso estado indelével de verdadeiros filhos e filhas de Deus. Volto ao próprio ritual, desta vez a um doce, mas exigente trecho do rito da luz: “Queridas crianças, vocês foram iluminadas por Cristo para se tornarem luz do mundo. Com a ajuda de seus pais e padrinhos (e de todo o povo, eu acrescentaria), caminhem como filhos e filhas da luz”. Alessandro Faleiro Marques
Querido diário!

Passando aqui, rapidinho, no primeiro dia do ano de 2024, para conversar sobre a vida em 2023. Hora de fazer o balanço das promessas e atitudes, dos desejos e dos planos para esse ano ímpar. Primeiramente agradecer porque 2023 chegou ao fim e virou páginas que desejaríamos apagar. Lembra-se daquela promessa de ir para academia? Até tentei, mas ainda não deu! Aquela minha tia, para quem eu disse que ligaria toda semana, não conheceu meu afeto virtual. Está com Alzheimer e não se lembra mais de mim. Deu para se aproximar de Deus, nas orações diárias, nas presenças na vida comunitária da igreja de meu bairro. As árvores que desejei plantar, ainda não o fiz! Agora não gasto tudo o que ganho. Não comprei tudo o que gostaria e, a cada dia, quero menos coisas. Do bacon ainda não me despedi… Aquele trabalho voluntário até foi retomado, mas não com a disponibilidade que deveria. Respirei fundo e renovei meu olhar todas as vezes em que aquela pessoa que me fazia revirar os olhos chegou perto de mim. Lembra-se de uma amiga que me rondava feito urubu? Eu a tirei de minha vida. Coloquei pontualidade em minha correria. Passei a acordar mais cedo, para conseguir ser gentil no trânsito. Rezo toda noite, todo dia! Estou aprendendo a rezar o terço… Checkup médico em dia! Cada vez menos, eu deixo a pia adormecer com louças sujas. Ainda não aprendi a fazer pão caseiro e a produzi-lo toda semana. Meu coração segue batendo forte sempre que sigo vendo as crianças crescendo com dignidade. Existe vida virtual, mas o abraço presencial foi resgatado com sucesso. A saudade virou motivo de orgulho, pois só a tem quem amou! Ops! Era para eu dar boas-vindas para 2023! E saiba que foi o que eu fiz! Vamos vislumbrar 2023 construindo, a cada dia, a história que desejaremos contar na próxima virada. Que seja um ano de encontros, e que a fé na vida seja renovada, seja lá quantas e quais forem as linhas escritas pelo Criador neste ano que virá! Que nos encontre disponíveis e encantados! (Esse texto contém licença poética e brinca com o tempo! Que venha 2023!) Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Fim de ano e início de ano

Na história de cada um e na universal, todos os anos, celebramos um fim de ano e um ano novo. Cada vez, renovam-se as esperanças de que algo novo aconteça no ano novo. Ninguém quer celebrar a vida com tristeza e desesperança. Muito embora haja pessoas que, devido a doenças ou outros fatores, temem que o próximo ano seja o último de sua vida que durou os anos que tem. Mesmo assim, espera-se que o ano novo renove as esperanças e dias promissores apareçam. A contagem do tempo é assim. Medimos em dias, meses e anos. O mundo existe há milhões de anos, ninguém sabe ao certo. A história humana tem várias hipóteses que apontam para números calculados pela matemática especializada. Recentemente (!) nossa história mudou a contagem dos anos a partir da data do nascimento de Jesus. Ficou estabelecido em “antes” e “depois”. É daí que dizemos que o ano novo será 2023. A história assim mudada marcou um fim e iniciou um novo começo. Um fim do tempo de espera do Messias e um começo de sua presença salvadora no meio de nós. Se a data assim mudada se revestiu de sentido novo, então, ao celebrarmos um ano novo, temos como referência esse acontecimento, que, para nós, cristãos, é histórico. Deus se encarnou no meio de nós. Jamais houve fato assim e nunca mais haverá outro a não ser por ocasião de sua segunda vinda. Esse fato histórico abriu uma história nova que nos permitiu restabelecer contato com Deus e fazer com ele comunhão, e vivermos com esperança de que a vida não acaba nunca. A morte é apenas uma despedida deste mundo para uma mudança para outro nível, o da eternidade. Lá não celebraremos mais ano novo, porque tudo será novo e eterno. Enquanto nossa vez não chega, e ninguém tem pressa quanto a isso, vamos celebrando um novo ano, desejando uns aos outros o feliz Ano Novo, com festa e alegria. Afinal, celebrar a vida é sempre bom, melhor ainda quando ela está em paz, limpa de ódios e rancores. Ano novo é para ser novo mesmo, não apenas mudança de data no calendário. Para que isso aconteça, é necessária uma atitude interior, que brote do coração, sem fingimento, acreditando de verdade em dias melhores, começando com a melhora de si e com a contribuição de cada um. O mundo se renova conforme nós agimos com positividade, reconhecendo os próprios limites, mas também acreditando que podemos pôr o nosso lado bom a serviço dos outros, construindo uma convivência mais sadia. Então, que venha o novo ano, trazendo felicidade e assim vamos desejando uns aos outros FELIZ ANO NOVO! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
ANO NOVO: exercer o “ofício da pacificação”

“O Senhor volte para ti o seu rosto e de dê a paz!” (Nm 6,26) O relato do Nascimento de Jesus nos desafia a superar a rotina acostumada e romper as estreitezas da vida para poder acolher a admirável profundidade que se esconde e se revela na simplicidade da cena, que em seu nível mais profundo ou espiritual, fala de todos nós. Ali fala-se de alguns pastores, de um presépio, de um recém-nascido, de uma mulher que “guarda” um segredo, de um homem silencioso… Toda a cena quer introduzir-nos em um Silêncio admirado e agradecido, pleno de luz, de paz e de gratidão. A simplicidade do relato nos convida a mergulhar no Mistério que aí se expressa. Tudo está aí. E, da mesma maneira, tudo é agora. Pastores, presépio, recém-nascido, um casal silencioso…: quando sabemos olhar, descobrimos que tudo está cheio da Presença que pacifica. A Presença ou o Mistério não é uma realidade separada da nossa vida, nem à margem da realidade e da criação. Por esse motivo, os personagens presentes na Gruta de Belém representam a realidade inteira: somos nós mesmos, é tudo o que nos rodeia neste preciso momento, são todos os seres. E diante dessa manifestação, o que nos resta? A atitude de Maria: acolher todas as coisas, “guardá-las”, “meditando-as no coração”. Ir mais além dos conceitos e das palavras e, desse modo, descansar – admirados, agradecidos, irmanados, pacificados – no Mistério e deixar-nos conduzir por Ele. “Meditar as coisas no coração” significa ativar o “olhar contemplativo” que se encontra em todos nós e que se manifesta quando cessamos nosso palavreado crônico. Serenados interiormente, somos presenteados com o dom de permanecer no presente, onde tudo está bem, onde tudo flui mansamente e na santa paz. Este é o desafio diante do Novo Ano que se inicia: devemos primar por construir “ambientes de paz”: paz que vem do alto, que aquece nossos corações, plenifica nossas relações e se expande, tal como perfume, em todas as direções. Paz é aspiração congênita do ser humano. Nosso coração humano foi feito para a paz e anseia a convivência harmoniosa com Deus, com o cosmos, com os nossos semelhantes. É processo interminável. Na raiz bíblica do termo “shalom”, (em latim “pax”)está a ideia de “algo completo, inteiro”. A paz pertence à plenitude, à completude, enquanto a violência está do lado da falta, da carência, do incompleto. Paz reflete harmonia consigo, boas relações com os outros, aliança com Deus, enquanto a violência infecciona os relacionamentos, contamina a convivência, rompe os vínculos, exclui os mais fracos… Paz: há milênios esta palavra ressoa e ecoa na história dos povos. Inúmeros homens e mulheres a cultivam secretamente no coração. Todos a invocam. Muitos dão a vida, defendendo-a… A paz autêntica contém densidade humana. É paz de consciência inocente dos justos que fazem o bem, dos profetas que se arriscam em favor dos outros. Paz é humanidade alegre, espontânea, confiante. Paz não é sossego, não é alienação, nem cumplicidade. Paz requer bravura. Somente o ser humano amante da paz é realmente “perigoso”, não o violento. Mas, a paz ainda não encontrou espaço para ser a companheira de estrada em nosso cotidiano. O contexto social-político-religioso no qual vivemos está carregado de profundas divisões, ódios, intolerâncias, mentiras, preconceitos, violências… Há um “cheiro de morte” que nos paralisa e nos impede viver relações mais sadias e respeitosas para com os outros. No entanto, permanece a promessa profética de que ela habitará na nossa terra. Assim, o sonho impossível, que reina desde sempre no coração do Senhor, amante da Paz, se realizará, graças àquelas pessoas revolucionárias, que acreditam, desejam e realizam a paz. Na Gruta de Belém tudo exala paz e o encontro com Aquele que é o “príncipe da paz” nos inspira a sermos presenças pacificadoras. Paz “solidária” que abraça os excluídos; paz “resistência” que não se acovarda; paz “audácia” que não se amedronta; paz “limpa” que não corrompe a ética; paz “profética” que encarna a justiça; paz “rebelada” que não se dobra; paz “estética” que revela a face bela da nova humanidade… (cf. Juvenal Arduini). Na carta de S. Paulo aos Efésios, Cristo é chamado “a nossa paz” (Ef. 2,14). A paz é característica do reino messiânico que Jesus inaugurou. Ele revela que a paz é um trabalho muito paciente, de artesanato. Ele era um artesão, um carpinteiro. Ele sabia que para ser mestre na arte de fazer móveis era preciso saber aplainar muito bem. A paz começa nesta arte de aplainar o que em cada um de nós é áspero e duro; há divisões e conflitos em nosso interior…, mas nós podemos, pacientemente, construir a paz do coração. Quem tem paz irradia luz; quem vive na luz constrói a paz. Paz expansiva, paz que é respiração da vida, paz marcada pela esperança. “Que a Paz de Cristo reine em vossos corações” (Col. 3,15) No início deste Novo ano confessamos: apareceu um Menino; fizeram-se visíveis a ternura, a paz e a doçura do Deus que salva. A ternura pobre do presépio ajuda a dizer “sim” ao que importa e a recuperar nosso centro em Deus. Por isso, a paz é carregada de ternura. Só a ternura de uma criança pode nos tirar de nossos lugares atrofiados. A ternura de Deus continua fazendo-se alternativa original. Quando expandimos nosso espaço interior e a acolhemos, a ternura nos move a fazer visitas inesperadas a enfermos, presentear tempo e não objetos, investir a “fundo perdido” em quietude, oração e reconciliação e substituir as felicitações impessoais dos celulares por palavras de vida, que ajudem a curar feridas do caminho. A ternura alternativa acolhe solidões, sofrimentos familiares e enfrenta os contratempos da vida tal como aparecem, anunciando que Deus nasce para todas e cada uma de nossas histórias. Depende de nós abrir-lhe a porta e deixar que ela faça morada em nós. Na Gruta de Belém todos são acolhidos e a paz brota da hospitalidade. Se queremos a paz, preparemos as boas-vindas, aprendamos a ver os outros não como inimigos, mas como
A política da paz é uma decisão.

A violência, a polarização ou mesmo a intolerância que pode ser observada em alguns acontecimentos atuais podem ser vistas como o reflexo exterior de uma desordem interna bem maior. Um dos grandes exemplos está na radicalização da opção política. O foco da opção política foi deslocado do bem comum [1] para a sedimentação cada vez mais refinada daqueles que compartilham das mesmas ideias. As ideias políticas sobrepuseram-se inclusive aos valores religiosos, como foi atestado pelo pregador apostólico, cardeal Raniero Cantalamessa, em 2021 [2]. Os efeitos de uma polarização intensa é a autodestruição dos laços de proximidade (cf. Mateus 12,25), religiosos e familiares, até chegar o momento em que a tolerância perde seu fundamento, pois a diferença sempre é ameaçadora. O Dicionário Online de Português define o verbete “paz” como “Estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de tranquilidade; calma” [3]. Definições como essa podem trazer um risco de entender a paz como fruto de um comportamento passivo, em que qualquer proatividade ou iniciativa pode destruir esse estado de calmaria. A paz pode ser entendida como virtude quando envolve a liberdade, a vontade e a consciência. Portanto, somente opta pela paz quem tem motivos para fazer guerra. Essa compreensão pode ser vista no Cântico do Irmão Sol, no qual Francisco de Assis afirma: “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam (cf. Mateus 6,12) pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados” [4]. A ofensa é o lugar teológico de onde nasce a misericórdia. A proposta não é romantizar as feridas causadas pelas atitudes humanas, mas retomar o fundamento trinitário da paz e do perdão. Ao longo da Sagrada Escritura, Deus teve diversos motivos justos para punir a humanidade, mas sua misericórdia ultrapassou a justiça. O auge da misericórdia está na encarnação, eucaristia e paixão em que Cristo assinala, de forma permanente, a escolha de Deus pela humanidade. A contemplação do Evangelho levou Francisco a dar o seguinte conselho a um superior: “Não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia […]. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, para trazê-lo ao Senhor” [5]. Deus opera, por mediações, o bem que Ele quer [6]. Quando a graça de Deus precisa se submeter ao julgamento humano, o ser humano deixa de ser instrumento do bem para tornar-se alfândega da graça divina [7]. A paz é uma opção dolorida, pois, necessariamente, envolve um processo de perdão (ou autoperdão); é um processo de mudança de mentalidade e, ou, conversão. Referências [1] Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/politica/politica-definicao.htm. Acesso em: 19 dez. 2022. [2] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-04/raniero-cantalamessa-sexta-feira-santa-pregacao-texto-integral.html. Acesso em: 19 dez. 2022. [3] “Paz”. In: Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/paz/. Acesso em: 21 dez. 2022. [4] SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Cântico do Irmão Sol (cnt. 10). In: Fontes franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004. [5] SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Carta a um ministro (mn 9-11). In: Fontes franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004. [6] MORESCO, Kleber; SANTANA, João Henrique. A minoridade como opção pelo seguimento a Cristo. Thaumazein, v. 15, n. 30, p. 98, 2022. [7] PAPA FRANCISCO. Evangelii gaudium (n. 47). Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium_po.pdf. Acesso em: 21 dez. 2022. Frei Kleber Moresco, OFM Cap
Celebrar o Natal

De ano em ano, no dia 25 de dezembro, celebramos a festa do Natal. Parece automático: todo mundo planeja fazer festa em família, preparar uma ceia apetitosa ou um almoço festivo. Há até certos produtos que, por tradição, entram no cardápio, como peru, chester; isso vale para quem tem condições de comprar tais ingredientes. Nem todos podem. Alguns se contentam com um franguinho e uma farofinha. São coisas de se fazer na celebração do Natal. Embora seja legítimo e desejável, isso não é celebração do Natal cristão se não vier acompanhado do verdadeiro sentido da festa. Natal cristão, em primeiro lugar, é celebrar a presença de Emanuel, Deus conosco, que se fez pessoa humana em nosso mundo. Armou sua tenda no meio de nós. É a presença inédita de Jesus, o enviado do Pai, que tomou corpo humano. Celebrar seu nascimento significa reconhecê-lo homem-Deus que veio para salvar. Seu nascimento mudou a história em antes e depois. As promessas feitas pelos profetas se cumpriram, e as expectativas foram contempladas. Todos se beneficiaram de seu nascimento, até os que não acreditavam. Ele veio para todos, sem exclusão. A vida, desde então, passa por ele. Tudo se fez novo com ele. É com ele, por ele e nele que tudo recebe sua marca. Nenhuma obra da criação ficou de fora. Tudo foi redimido por Cristo, em sua morte e ressurreição. Seu Natal foi o começo dessa obra realizada em três anos de atividades como Messias entre nós, mas sua ação se perpetuou para sempre. Não virá outro Messias; é Ele e somente Ele por toda a eternidade. Viver o Natal nos reporta aos fundamentos de nossa fé e de nossa esperança. Nas tradições natalinas, relembram-se costumes, repetem-se desejos de feliz Natal, armam-se presépios, enfeitam-se pinheirinhos, dão-se presentes, iluminam-se as ruas e as casas com luzes cintilantes. Há um clima que pervade tudo e todos. Existem diferentes sentimentos e objetivos, mas não se pode negar que tudo indica um tempo novo que convida à convivência familiar, com salutares encontros. Que o espírito de Natal seja o da alegria de celebrar a vinda do Filho de Deus entre nós. Ele veio, morou conosco. Viveu nosso cotidiano, salvou-nos, dando sua vida, e continua conosco, não mais em carne e osso, mas numa presença misteriosa que alimenta a vida cristã, na Eucaristia que celebramos em seu nome. Feliz Natal, dizemos uns aos outros. Que esse desejo se traduza na vida prática, numa convivência sadia, solidária e fraterna, eliminando tudo aquilo que nos afasta uns dos outros. Boas festas e FELIZ NATAL! AMÉM! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Deus “é” Encarnação

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) Nenhuma palavra consegue expressar com profundidade o mistério do Natal que estamos celebrando. Talvez o melhor seria aplicar o provérbio oriental: Se tua palavra não é melhor que o silêncio, cala-te. Só em chave de silêncio podemos compreender a Encarnação e o Nascimento de Jesus. O que devemos descobrir não pode vir de fora, mas deve surgir do mais profundo de nós mesmos. As leituras dos evangelhos indicados pela liturgia para o tempo do Natal certamente farão transbordar em nosso interior os sentimentos mais nobres e elevados. Mas isto não basta para nos situar diante do Mistério e vivê-lo com intensidade. Falamos de uma noite surpreendente, mas para a contemplação. Sem esta contemplação, permanecerá um vazio interior, sem nenhum sentido religioso. O valor desta festa depende de nossa atitude. Nada substituirá o itinerário para o centro de nós mesmo. Só ali acontece o mistério; só no mais profundo de nós mesmos descobriremos a presença de Deus. Celebrar a Encarnação-Nascimento de Jesus pode nos ajudar a encontrar a Deus dentro de nós e no coração dos outros. Jesus nasceu, viveu e morreu em um lugar e um tempo determinado, mas não estamos celebrando um aniversário. Os dados históricos não têm maior relevância: não sabemos onde Jesus nasceu, não sabemos quando, nem em que dia ou mês. Tudo o que digamos d’Ele, a partir do ponto de vista histórico, aponta para o desconcerto. Não se trata de recordar e celebrar o que aconteceu faz dois mil anos, mas de descobrir o que está acontecendo hoje em cada um de nós. Devemos descobrir, celebrar e viver conscientemente essa realidade sublime. Este é o sentido do Natal. O que celebramos, na noite de Natal, é precisamente isso: o sublime Mistério da Encarnação de Deus em cada coração humano e em todo o Universo. Como costuma ocorrer com os grandes mistérios da fé, acabamos adocicando e esvaziando o conceito original de Encarnação. Preferimos dizer natal ou natividade, fazendo referência a um termo latino relacionado com o nascimento. Por isso, nos fixamos em um nascimento – o de Jesus – e colocamos à margem o que realmente significa encarnação. Talvez, no fundo, essa coisa de carne não nos convence muito: é como se fosse algo muito vulgar, material, prosaico…, que se conecta com nossa dimensão corporal-sexual. Afirmar que Deus se fez carne é quase uma heresia. Segundo a mentalidade que foi se propagando no cristianismo Deus é o Absoluto e não pode ser contagiado com a matéria corporal. No entanto, a partir da Revelação bíblica, a Encarnação é Deus dentro de nós e dentro de toda a Realidade existente, sem se confundir ou desaparecer no que é perecível, no transitório. Este é o grande milagre de Deus. O Verbo se faz carne na pessoa de um Menino que, dentro de sua corporeidade e sua realidade como ser humano verdadeiro interioriza Deus na Humanidade. Tão humano, tão humano… só podia ser Deus (L. Boff). Assim, a moral cristã, durante muitos séculos, alimentou uma espiritualidade desencarnada, piegas, cheia de culpas, angústias e remorsos. No fundo, negou-se uma dimensão humana tão nobre: o ser humano é carne. É da sua essência. O mistério da Encarnação-Nascimento vem iluminar e dignificar esta dimensão carnal que foi tão desprezada e gerou tantos conflitos morais. Na Encarnação do Filho, Deus se faz carne, se humaniza; assume e plenifica tudo o que é humano. Nada do humano é considerado como suspeita, fonte de pecado… Afinal, somos obras maravilhosas do Criador. É preciso superar a pobreza do dualismo corpo-alma e retornar à visão antropológica bíblica onde o ser humano não tem corpo nem tem alma. Ele é corpo, é alma, é espírito, é sentimento, é relação, é afeto, é razão… Ele é, nas suas diferentes expressões. A partir da Encarnação do Verbo não dá mais para imaginar um ser humano compartimentado, desintegrado, dividido nas suas dimensões existenciais. Ele é um todo, integrado, unido, pacificado… Quão distante estamos da essência do Mistério da Encarnação! Santo Inácio de Loyola, ao propor a contemplação da Encarnação, nos Exercícios Espirituais, afirma: recordar como as Três Pessoas divinas determinam, em sua eternidade, que a Segunda Pessoa se faça homem, para salvar o gênero humano. A Encarnação é o mistério fundante de nossa fé a ser vivido e não pensado. A Encarnação não é um evento isolado da história. Toda a Criação foi afetada; todos os fatos da história encontram nela seu sentido. A história humana se faz História de Salvação. Assim sendo, Deus não só se encarna; Ele é Encarnação. A Encarnação não é um ato pontual, mas uma atitude eterna de Deus. A Encarnação já começa na criação do mundo: Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada se fez de tudo que foi feito (Jo 1,3); tudo é perpassado pela Sua Presença. Estamos falando do Verbo que tem a ousadia de penetrar as categorias de espaço e tempo, as únicas que nós temos para conhecer em plenitude a realidade de tudo. Deus já veio, está vindo deste sempre; só o esperamos e o celebramos seu Nascimento de um modo simbólico, religioso, fraternal. Por isso, o Natal é tão inspirador e nos enche de paz, por saber que carregamos Deus dentro de nós, embora nem sempre saibamos disso, nem O vejamos. Deus deixa de ser o eterno desconhecido para se tornar Emanuel, Deus conosco. Já estamos salvos porque Deus se encarnou em nós, em todos: sem distinção de credo religioso, raça, língua, época em que se viva, idade que tenhamos, etc. Assim novamente encarnado, nos diz S. Inácio nos EE (n. 109). Encarnação permanente. E por isso nos felicitamos, porque não somos órfãos, nem estamos perdidos em um Universo imenso, mas porque Deus é nosso cúmplice, o melhor avalista de que nossa vida é já Vida n’Ele. Eis o realismo da Encarnação! Cada vez mais nos conscientizamos, com maior evidência, de que a Encarnação do Filho é isto: tomar a carne concreta da humanidade para
Celebração de Natal

Roteiro Leitor 1: Nasceu-nos hoje um menino, Um filho nos foi dado, Grande é este pequenino, Rei da Paz será chamado. Leitor 2: O Natal é a festa da paz e da luz. O mundo e todos nós precisamos de paz. Diz o texto sagrado que “a multidão que andava nas trevas viu uma grande luz” (Isaías 9,1a). Que a luz irradiante do Menino Deus aqueça nosso coração e nos abra para a vivência do amor. [Neste momento, a pessoa responsável pela casa acende uma vela, que pode estar no centro da mesa ou ao lado da árvore de Natal, ou do presépio.] Fazer memória do Nascimento Leitor 3: Vamos agora escutar a narrativa do nascimento de Jesus. A passagem se encontra no Evangelho de Lucas, capítulo 2, versículos 1 a 14. Mais do que uma simples lembrança, a celebração de hoje atualiza esse fato tão marcante da história da humanidade e nos faz testemunhas desse acontecimento. Ouçamos. Leitor 4: Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para se registrar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região, havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura”. De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. Leitor 5: Neste momento, vamos receber a imagem do Menino Jesus. Que Jesus seja a luz para a nossa caminhada, e que ela nos traga a paz. Enquanto ouvimos a música “Anunciação”, cada um eleve até Deus seus louvores e súplicas. Partilha e preces espontâneas 1. Pedimos ao Menino Deus que sejam possíveis a paz e o perdão para toda a gente, seja aqui, seja do outro lado do mundo, seja numa pequena alameda de cada cidade onde há sede de verdade e de infinito. Jesus, Luz do Mundo e Príncipe da Paz, escuta nossa prece. 2. Pedimos, Menino Deus, por nossas famílias. Que a esperança que recebemos de suas mãos de criança alimente nossos corações e nos ajude a ter fé e perseverança no amanhã. Jesus, Luz do Mundo e Príncipe da Paz, escuta nossa prece. Outras orações… Benção Avós ou pais: A bênção final que vamos receber é inspirada no livro dos Números, capítulo 6, versículos 24 a 26. Que Deus Menino nos abençoe e nos guarde. Que Ele nos mostre o seu rosto e nos conceda a paz e o amor. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todos: Amém!