A preservação das condições de vida na Terra

A terra, o ar e o mar que nos cercam configuram uma delicada teia que dá sustentação à vida. Ela é orgânica e desconsidera fronteiras geográficas, políticas e econômicas que nós, artificialmente, criamos. A maior obra humana é a estrutura que dá sustentação à nossa existência e seus tentáculos que se alastram, invadindo o mundo natural. Em seu meio, vigora uma mentalidade antropocêntrica que situa a vida humana, e não a vida do planeta, como sagrada. Em Gênesis, o firmamento, os ciclos dia-noite e manhã-tarde foram criados no primeiro e no segundo dia; continentes e oceanos, seres com semente e fruto foram criados no terceiro dia; animais que voam, que vivem na água, que rastejam, que vivem na selva, o homem, a mulher e animais domésticos foram criados no sexto dia. Esse enredo ilustra o quanto nossa vida e a nossa saúde dependem da vitalidade do meio que nos cerca e posiciona a vida do planeta também como sagrada. O garimpo em terra Yanomami é uma chocante evidência do impacto das atividades econômicas na saúde do território, do curso do rio, da floresta, da biodiversidade, da vida humana e de outras espécies. O garimpo, a exemplo da lógica de outras atividades econômicas, ocorre em escala industrial na qual a tecnologia é um braço artificial que amplifica o alcance da atuação humana, por vezes perversa, sobre o planeta. Em um contexto marcado pelo antropoceno, capitaloceno ou qualquer outro nome que se queira dar, a interação entre o sistema econômico e o meio ambiente está registrada nas pegadas que nosso modelo de vida deixa sobre a terra. Os vestígios estão tanto na degradação que acompanha o uso de recursos naturais quanto nos resíduos que ocupam espaço na terra e no mar, que contaminam o ar e circulam em nosso corpo e de outras espécies, a exemplo das partículas plásticas. Os desafios de nosso tempo e do futuro são complexos, contraditórios, inacabados. Muitas de nossas decisões carecem de certezas e estão fundamentadas em informação incompleta, especialmente quando consideramos as consequências, a responsabilidade da atuação humana sobre a terra e a importância da preservação de suas condições de vida. Mais importante do que a formulação limitada de respostas é a problematização adequada das ações políticas e do design do futuro. O que envolve avaliar se a meta de contínuo crescimento econômico deve continuar sendo o santo cálice da economia. Também diz respeito a analisar corretamente o valor da preservação da biodiversidade, do clima, de fontes de energia, dos minerais, assim como os ciclos das águas e do solo. O compromisso com a sacralidade do planeta e a preservação de suas condições de vida é, essencialmente, uma reafirmação do extraordinário de nossa existência e de reverência ao Criador. _________________________________ ReferênciasANDRADE, D. Economia e meio ambiente: aspectos teóricos e metodológicos nas visões neoclássica e da economia ecológica. In: Leituras de economia política. Campinas: 14, 2008. p. 1-32.BÍBLIA SAGRADA. Gênesis. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50.BUCHANAN, R. Wicked problems in design thinking. In: Design Issues, v. 8, p. 5-21, primavera, 1992.COLTRO, F.; BORINELLI, B. Antropoceno e Capitaloceno: novas perspectivas, velhos combates. In: Estado e sustentabilidade: múltiplas e contestadas faces. Palhoça: Ed. Unisul, 2020, v. 1, p. 157-176.CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 2006.CARSON, R. Sob o mar-vento. São Paulo: Gaia, 2013.CARSON, R. O mar que nos cerca. São Paulo: Gaia, 2013.IBAMA. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Disponível em https://www.gov.br/ibama/pt-br. Acesso em 12 fev. 2023.CAPUCCI, R. O testemunho de Sônia Bridi e Paulo Zero sobre a tragédia Yanomami. In: podcast Isso é Fantástico. Disponível em https://open.spotify.com/episode/6GbHCEdFJFgLWaC98XqZYO?si=jin0I2lbTcavsFBT0r97PA. Acesso em 12 fev. 2023JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: PUC Rio, 2006.PONTES, N. “O Ibama voltou”, diz chefe da proteção ambiental do órgão. Deutsche Welle, 11 fev. 2023. Disponível em https://www.dw.com/pt-br/o-ibama-voltou-diz-chefe-da-prote%C3%A7%C3%A3o-ambiental-do-%C3%B3rg%C3%A3o/a-64673286. Acesso em 12 fev. 2023 Marli Teresinha EverlingProfessora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille. Coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica. Colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
A mansidão é a plenitude da força

“Vós ouvistes o que foi dito: ‘olho por olho e dente por dente!’ Eu, porém, vos digo…” (Mt 5,38) Não é preciso ser um especialista em análise da realidade para perceber e sentir que está se difundindo na nossa sociedade uma linguagem que deixa transparecer o crescimento da agressividade e do ódio. Cada vez, com mais frequência, ouvimos e lemos nas “redes sociais” insultos agressivos, intolerantes, preconceituosos, proferidos só para humilhar, desprezar e ferir a dignidade do outro. São “palavras ácidas” nascidas da rejeição, do ressentimento, da vingança…; palavras proferidas sem amor e sem respeito, que envenenam a convivência e causam profundas rupturas nas relações interpessoais; palavras que emergem de interioridades mesquinhas, vazias, baixas… As conversações, nos espaços públicos e privados, estão sendo tecidas de expressões injustas que espalham condenações e semeiam suspeitas. Assim, vai sendo gestado, lenta, mas implacavelmente, um espírito de combate, de linchamento, uma guerra de mentiras, um fogo cruzado carregado de desprezos, revanches e incompreensões frente àqueles que pensam diferente, creem diferente, amam diferente. A virtude da mansidão está cada vez mais distante das esferas públicas e das relações pessoais. E isso não é um fato que acontece só na convivência social. É também um grave problema no interior da Igreja. São divisões, conflitos e enfrentamentos de “cristãos em guerra contra outros cristãos”. Trata-se de uma situação tão contrária ao Evangelho que o Papa Francisco sentiu a necessidade de nos dirigir um apelo urgente: “não à guerra entre nós!” Assim fala o Papa: “Dói-me comprovar como em algumas comunidades cristãs consentimos diversas formas de ódios, calúnias, difamações, vinganças, ciúmes, desejos de impor as próprias ideias à custa que qualquer coisa, e até perseguições que parecem uma implacável caça às bruxas. A quem vamos evangelizar com esses comportamentos?” Diante desse contexto, onde imperam a prepotência, a agressividade e os radicalismos, ressoa estranho as palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem”. Parece um grito ingênuo, proferido no deserto da desumanização. No entanto, talvez sejam as palavras que mais precisamos escutar nestes momentos em que, submersos na podridão do ódio e da intolerância, não sabemos o que fazer de concreto para ir arrancando a violência do nosso mundo e do nosso coração. E é precisamente aqui onde o evangelho de Jesus tem muito a iluminar, não para oferecer técnicas para resolver conflitos, mas sim para nos ajudar a descobrir com que atitudes devemos abordá-los. Há uma convicção profunda em Jesus: não se pode vencer o mal apelando à espiral do ódio e da violência. Já dizia Martin Luther King que “o último defeito da violência é que gera uma espiral descendente que destrói tudo o que engendra. Em vez de diminuir o mal, aumenta-o”. Sempre há tentativas de justificar, em algumas circunstâncias, a legitimidade da violência. No entanto, Jesus nos convida a trabalhar e lutar sempre para que ela não seja nunca justificada. Por isso, é decisivo buscar sempre caminhos que nos conduzam à convivência fraterna e não ao fratricídio. “Amar os inimigos” não significa tolerar as injustiças e retirar-se comodamente da luta contra o mal. O que Jesus viu com claridade é que não se luta contra o mal quando se destrói as pessoas. É preciso combater o mal, mas sem buscar a destruição do adversário. A dificuldade maior para compreender o “amor aos inimigos” está no fato de que confundimos “amor” com sentimento. O amor evangélico (ágape) não é instinto, nem sentimento. Portanto, não podemos esperar que seja algo espontâneo. O verdadeiro amor, seja ao inimigo ou a um filho, não é o instinto que nasce de nosso ser biológico. O amor ágape é algo muito mais profundo e humano. Nem sequer nossa razão pode nos conduzir a este nível. Amar o inimigo não é questão de voluntarismo, mas atitude de vida. Um exemplo: no mar sempre haverá ondas, de maior ou menor tamanho, mas sempre estarão aí. Ao chegar no litoral, a mesma onda pode encontrar-se com a rocha ou encontrar-se com a areia. Contra a rocha, quebra-se em mil pedaços; contra a areia, ela se desfaz suavemente. Os inimigos sempre vão aparecer em nossas vidas; mas a maneira de encontrar com eles dependerá de cada um de nós. Se somos rocha, o encontro se manifestará com estrondo e todos sofrerão danos. Se somos praia, todo seu potencial de violência ficará anulado e chegará até nós com a maior suavidade. Um detalhe, a rocha e a areia são constituídas da mesma matéria, só muda seu aspecto exterior. “Assim seremos filhos de nosso Pai…” Um Deus que ama a todos de maneira igual, porque seu amor não é a resposta às atitudes ou às ações, mas é anterior a toda ação humana. Deus nos ama não porque somos bons, mas porque Ele é bom e ama infinitamente a todos. É da essência de Deus: “Deus é amor” permanen-temente. Da mesma maneira, o amor que temos para com os outros não tem sua origem nem é condicionado pelo que eles são ou fazem, mas pela qualidade de nosso próprio ser. O amor não é resposta às ações de alguém; sua origem está em cada um de nós, pois, na essência, fomos criados à imagem e semelhança do Deus que é amor. “Amar os inimigos”, portanto, é entrar no fluxo do amor que brota do coração de Deus e faz morada no nosso coração. Por isso, hoje, mais do que nunca, é preciso ativar toda nossa reserva de amor e bondade em favor de uma resistência firme, mas lúcida, para aplacar o rufar dos tambores do ódio; não entremos na barca dos furiosos pois a cólera nos fará naufragar a todos! Nascemos para voar; deixemos voar a ternura e despertemos a mansidão que se encontram na essência do nosso ser profundo. São atributos humanos que tornam a nossa vida mais leve, flexível, aberta, acolhedora… E não nos deixemos envolver por aqueles que, carregados de ódio ou preconceito, não querem alçar o vôo. Quem sabe, algum dia consigamos que ninguém mais decida
“O governo não pode ter medo de enfrentar os monstros da Amazônia”

A expressão é da irmã Madalena Hoffmann, missionária serva do Espírito Santo (SSpS) e membro do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) do Município de Alto Alegre, Roraima. Presente na Assembleia do Regional Norte 1 do Cimi, realizada de 11 a 14 de fevereiro, Ir. Madalena, que atua também na Pastoral Paroquial, com foco na pastoral indigenista, afirmou que terra, território e água serão o foco principal das atividades do Cimi, no Regional. Entre outras prioridades igualmente importantes, está a atuação, em rede, na região do rio Abacaxis, para garantir direitos; o apoio ao povo Yanomami em suas terras invadidas pelos garimpeiros e demais áreas; e as ações de proteção aos povos indígenas livres. O Cimi se propõe também a avançar na articulação e incidência política, e a fortalecer a aliança com outras entidades (entre elas, a Comissão Pastoral da Terra, universidades, Sares, Repam) que atuam no campo da luta contra a mineração e grandes empreendimentos em terras indígenas (BR-319, Bacia Sedimentar do Solimões)e promover estratégias de diálogo com o governo atual. Irmã Madalena falou ainda sobre a atuação do governo atual na proteção e cuidado dos Yanomami e sobre os desafios que os indígenas enfrentam para viver no mundo urbano. Veja a íntegra da entrevista. A Assembleia teve como tema “Cimi: 50 anos de existência, reafirmando a caminhada na mística, memória, resistência e esperança” e, como lema, “E diga ao povo que avance! Avançaremos!”. Por que esse tema e esse lema? O que eles querem dizer nas entrelinhas para a Igreja, a sociedade e os povos originários? Irmã Madalena: Diante de uma realidade vivida no País, onde era negado aos povos a vivência e o cultivo de seus costumes, crenças, saberes e tradições, pode-se dizer, com certeza e esperança, que o nascimento e a organização do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) foi o acontecimento por excelência, tanto na vida eclesial quanto na vida dos próprios povos originários. Aqui na Amazônia, se ainda existe preservação da natureza, floresta em pé, é inegável que isso se dá graças à luta, resistência, teimosia e valentia dos povos originários e de tantos missionários e tantas missionárias que, ao longo desses 50 anos, dedicaram-se incansavelmente a essa grande missão de estar junto a esses guerreiros e guerreiras, somando forças, enfrentando perigos. Muitos, até com seu próprio sangue, testemunharam essa paixão pela causa indígena, que é de todos nós. Portanto, voltar atrás, jamais! Avançar, sempre! Diga ao povo que avance! Avançaremos! Como a senhora avalia a atuação do atual governo ante a tragédia que se instaurou no mundo Yanomami? Irmã Madalena: É como um oásis no deserto! Um ressurgir da vida e da esperança no meio de tanto descaso praticado pelo governo anterior. Onde podemos dizer e repetir com toda a certeza: nunca mais um Brasil sem os povos originários! No momento, o governo foca no cuidado com os povos originários onde a vida está mais ameaçada, o que parece justo. Mas a Amazônia, como um todo, clama por atenção. O grande desafio do atual governo, em relação à Amazônia, é não ter medo de enfrentar os monstros que sempre sugaram as riquezas naturais às custas de tantas vidas machucadas, marginalizadas, ameaçadas e pisoteadas por esse sistema que gera morte, em nome de um falso progresso e desenvolvimento. Sabemos que não será uma tarefa simples e vai exigir do governo um pulso firme e destemido. E vai precisar, mais do que nunca, de uma sociedade civil organizada e forte, através dos movimentos sociais, igrejas e tantas outras instituições promotoras do bem viver. Os povos indígenas livres precisam de proteção, e essa é uma das prioridades abraçadas pelo Cimi na Assembleia do Regional Norte 1, que acabou de acontecer. Na prática, quais são as reais ameaças à vida dos povos indígenas livres? Irmã Madalena: Os povos livres sofrem constantemente o assédio de pessoas; e pasme, muitas vezes, pessoas religiosas das igrejas pentecostais. Recordemos que, durante o desgoverno passado, inúmeras vezes, pastores, “gente do bem e de Deus…”, em nome de uma fé esvaziada, entravam nos espaços dos povos, os quais eles chamavam de isolados, cuja alma tentavam salvar. Também a Igreja Católica teve atitude semelhante durante a primeira colonização. Mas, por trás dessa “boa” intenção, vieram também grandes interesses pelas riquezas naturais das florestas. Com isso, entram as doenças, os vícios dos brancos, o aliciamento de pessoas. Isso continua muito forte nos dias de hoje. O Cimi tem o projeto de trabalhar essas questões nos lugares onde já houve ou está havendo esses estragos, para que, justamente, possam existir mecanismos de proteção e denúncia dessas situações. Poderia falar sobre os principais desafios que os indígenas que vivem em contexto urbano, como os Yawaripë/Yanomami, enfrentam? Que tipo de acompanhamento seria eficaz? Irmã Madalena: Em relação aos povos da cidade, falando da situação concreta de Boa Vista, com a invasão dos garimpeiros, muitos foram aliciados através de “migalhas” a irem para a cidade. Ao chegar, sofrem as piores e atrozes consequências. Por exemplo, não têm onde ficar, ficam muito doentes, são atropelados e mortos pelas ruas de Boa Vista, são tidos como indigentes e assim são sepultados. Os filhos de quem morre se negam a voltar para o território, pois dizem “A mãe morreu aqui, e aqui eu quero morrer também”. Já existe uma equipe em Boa Vista acompanhando essas situações. É uma realidade também do Amazonas. Por isso, foi acrescentada como uma forte prioridade essa questão. Há algum desafio em ser mulher, missionária nessa luta? E alegrias? Irmã Madalena: Muitos desafios, mas muito mais alegrias, mesmo em tempos sombrios que passamos, pois só o fato de saber que estamos do lado da vida, especialmente lá onde ela é mais ameaçada, já é motivo de nos alegrarmos por nos sentirmos no lado certo. O misto de desafios e alegrias na vida missionária é o que nos impulsiona a avançar sempre nessa caminhada. Poderia falar um pouco sobre a atuação da mulher e mulher consagrada no Conselho Indigenista? O que faz a diferença com a presença delas? Irmã Madalena: Na verdade,
A conquista do voto feminino no Brasil

Conhece alguma senhora de 91 anos que foi votar nas últimas eleições? Já reparou que, ultimamente, no Brasil, quando chegam as eleições, durante a campanha eleitoral, há uma preocupação com o voto das mulheres e candidatas nas chapas? Mas nem sempre foi assim. Faz 91 anos que o voto feminino passou a ser um direito das mulheres no Brasil. O Estado do Rio Grande do Norte teve a professora Celina Guimarães Viana (1890-1972), com 29 anos, como a primeira eleitora, em 5 de abril de 1928, quando foi publicado o nome dela na lista das eleições. Em Mossoró-RN, o objeto de lutas sociais durante a década de 1920 passou a ser seguido não apenas no Brasil, mas também na América do Sul. Outra professora, de Natal, Júlia Alves Barbosa, também teve a sentença do juiz autorizando seu nome na lista eleitoral. Depois disso, mais 19 mulheres passaram a ter o mesmo direito de votar, como Joana Cacilda de Bessa, que teve apoio do marido. Alzira Soriano de Souza, em 1928, foi a primeira mulher a ocupar um cargo eletivo. Assim, em 24 de fevereiro de 1932, essa conquista passou a ser para todas as brasileiras alfabetizadas, conforme a então Constituição Federal. O feito de Celina Guimarães abriu espaço em toda a América do Sul, sendo exemplo para outros países, em outros continentes. A representatividade das mulheres na política brasileira, contudo, ainda é insignificante, considerando que a maioria da população é do sexo feminino. Observe quantas eleitas nas câmaras municipais, assembleias legislativas e Congresso Nacional. Quantas vezes tivemos eleitas para prefeitura, governo do Estado e Presidência? O artigo 10º da Lei n.º 9.504/1997 estabelece 30% da representatividade do sexo feminino nos partidos, o que ainda não ocorre, visto que essa porcentagem não representa a maioria da população brasileira, que tem 53% de mulheres. Conforme as mulheres ocupam seu espaço na sociedade, a consciência cidadã também vai crescendo. Pensadora como Simone de Beauvoir contribuiu para que o movimento feminista influenciasse em outros tantos direitos sociais e políticos. No Brasil, a bióloga Bertha Lutz e a professora Lacerda de Moura fundaram a Liga para a Emancipação Internacional da Mulher, um grupo de estudos que buscava a igualdade política das mulheres. Mais tarde, Lutz criou também a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com o objetivo de promover o nível de educação da mulher, estimulando o espírito de sociabilidade e interesse pelas questões sociais, bem como de proteger as mães e a infância. A partir da conquista do voto feminino, outras vitórias foram alcançadas graças à luta das mulheres. Em 2006, foi criada a Lei Maria da Penha; em 2015, sancionada a Lei do Feminicídio; em 2018, a importunação sexual contra as mulheres passou a ser considerada crime; e, em 2019, houve um aumento de mulheres eleitas na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Há, contudo, muitos desafios ainda a serem superados pelas mulheres no Brasil em relação aos direitos, à igualdade e ao respeito que merecem. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, SITRAN, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Aproffib e da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC), voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
Luto “saudável” e desenvolvimento humano

Estamos vivendo um mês de euforia para milhares de brasileiros, devido às expectativas para a festa do carnaval. Para outros milhares, há a expectativa para o início do grande retiro espiritual da Igreja Católica: a Quaresma. Para muitos, o tema deste artigo não seja apropriado para o momento. No entanto, ele é relevante, porque perpassa todas as fases de nossa vida. Até mesmo porque luto não tem a ver somente com a morte física de uma pessoa. Por esse motivo, é importante pensar no assunto antes que ele se torne realidade em nossa vida, pois é quase impossível pensar numa pessoa que não vivenciou tal momento. Quando pensamos em luto, a primeira memória que temos é a do luto pela perda física de uma pessoa. Imagens antigas nos vêm à mente, principalmente aquela do ritual após a morte de um ente querido: o de vestir-se de preto e respeitar a memória do falecido, nos primeiros dias e até meses. Isso varia de acordo com cada cultura. Embora o ritual faça parte de todo tipo de luto, nem todo luto é igual ou se limita somente à perda física de uma pessoa. Para a psicanálise, “O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante” (Freud, 1915/1917). Com base nessa conceituação psicanalítica, podemos constatar que várias situações que já vivemos tiveram a característica de um luto, sem termos necessariamente vivenciado uma morte física de uma pessoa querida. Outras situações de luto: o término de um relacionamento amoroso, o rompimento de uma amizade, uma separação matrimonial, uma mudança para outro país ou outra cultura. Até mesmo uma transferência de um local de trabalho, uma mudança de faixa etária, uma demissão do emprego, uma aposentadoria, etc., podem ser vividas como um luto. O luto “saudável” nos ajuda no desenvolvimento humano. Ele deveria ser superado sempre. É o curso normal da vida. Para isso precisa de elementos internos e externos. Por elementos internos, subentende-se nossa bagagem histórica, nossos valores, nossas crenças, nossos projetos de vida, nossa educação familiar e intelectual. Por elementos externos compreende-se a cultura e o ambiente em que vivemos; o meio externo. As amizades, a família e a comunidade social na qual estamos inseridos são essenciais. Às vezes, com a melhor “das intenções”, podemos atrapalhar o processo de elaboração do luto de uma pessoa querida por nós. Muitas vezes, apressamos o processo, exigindo que a pessoa se apresse a “voltar ao normal”. Frases como “você é uma pessoa jovem, alegre, bonita, tem um bom emprego…” mais atrapalham do ajudam. Isso porque a pessoa se sente mais culpada ainda por estar vivendo esse período. É preciso lembrar que cada um tem seu processo particular. “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar. Tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar” (Eclesiastes 3,1-4). Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.
Para a fome do corpo, o pão. Para a fome do saber, a educação

A cada ano, recebemos um convite para viver, em espírito de mudança pessoal, comunitária e social, o tema transversal nas escolas da Rede de Educação Missionárias SSpS. É ele que, ao ser incluído nos projetos pedagógicos, ajuda na compreensão e na construção de outra realidade social, dos direitos e responsabilidades relacionados com a vida pessoal e coletiva, e da afirmação do princípio da participação política. Ao nascer do tema da Campanha da Fraternidade, que, em 2023, traz ao centro a questão da fome, o tema transversal aponta para a necessidade da busca de ações conjuntas capazes de mudar essa realidade, garantindo a dignidade humana como direito básico. Em um país onde o mapa da fome revela que mais de 33% de sua população experimenta a triste e humilhante situação de não poder se alimentar nem de dar a seus filhos e filhas o sustento indispensável a cada dia, igualdade e fraternidade não podem continuar a ser as palavras mais temidas se, de fato, queremos construir e deixar para as futuras gerações o mundo desejado sobre o qual tanto falamos; afinal, onde aperta a fome, a fraternidade clama. Essa é a razão por que o Papa Francisco, sem rodeios, afirma não haver democracia se existe a fome, pois esta é um dos resultados mais cruéis da desigualdade e afeta inicialmente os mais necessitados, e atinge a sociedade por inteiro. Fome de pão, de paz, de fraternidade, de verdade, de cultura e de tantas outras “fomes” que somente o conhecimento, fruto de uma educação de qualidade para todos, será capaz de contribuir com soluções mais sustentáveis, garantindo a todos o acesso à alimentação e à educação. Que o tema transversal, “Para a fome do corpo, o pão. Para a fome do saber, a educação”, ajude a intensificar a vivência da solidariedade em nossos espaços escolares, ilumine nossos estudantes para que apliquem o conhecimento adquirido na busca de soluções criativas para a superação das grandes causas humanitárias, e que a cidadania solidária ajude a cobrar efetivamente de nossos governantes a realização de políticas públicas que garantam plenamente os direitos sociais de nossa Constituição. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias SSpS.
Viver a lei interior da caridade

“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20) A liturgia deste domingo nos apresenta um longo texto do evangelho de Mateus. É importante que descubramos a mensagem central, essencial e sumamente importante ali presente, se não quisermos correr o risco de nos enredar em cada detalhe, perdendo aquilo que, de verdade, Jesus desejava para as comunidades cristãs. O primeiro parágrafo já nos dá a chave de leitura de todo o texto. Mateus explicita a atitude de Jesus frente à Lei: “Vim para dar-lhe plenitude”; ou seja, Ele não se limita a analisar os detalhes da Lei, nem criticar alguns preceitos, mas dar plenitude e sentido profundo. E esta plenitude não significa melhorar a lei com novas normas que Jesus confrontaria com as antigas, por considerá-las mais perfeitas. A plenitude que o evangelho nos apresenta não vai na direção de “maior perfeição” da lei, mas de uma mudança radical: Jesus mesmo é a plenitude da Lei. Sua pessoa, sua identidade, sua mensagem, sua maneira de viver é a Lei mesma em sua plenitude. Por isso, acolhê-Lo, crer n’Ele, identificar-nos com Ele, vivendo como discípulos seus, nos torna “grandes no Reino dos céus”. Os evangelistas deixam claro que Jesus não vive centrado na Lei; não se dedica a estudá-la nem a explicá-la a seus discípulos. Nunca o vemos preocupado por observá-la de maneira escrupulosa. Certamente, não põe em marcha uma campanha contra a Lei, mas esta não ocupa um lugar central em seu coração. Jesus não foi contra a Lei, mas foi além da Lei. Quis dizer-nos que sempre temos que ir mais além da letra, da pura formulação, até descobrir o espírito da lei. “A lei mata, o espírito vivifica” (S. Paulo). Jesus busca a Vontade de Deus a partir de outra experiência diferente, ou seja, procurando abrir caminho entre os homens para construir com eles um mundo mais justo e fraterno. Isto muda tudo. A Lei já não é o decisivo para saber o que Deus espera de nós. O primeiro é “buscar o reino de Deus e sua justiça”. “Justiça” é um termo particularmente especial para Mateus, e que poderia ser traduzido como “ajustar-se ao modo de agir Deus” “sintonizar-se à sua vontade” – uma justiça que é infinitamente superior à Lei. Para ressaltar a “novidade” da mensagem de Jesus, o evangelista Mateus realça que “se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”. O texto aponta para algo de grande profundidade e que toca uma questão básica do caminho espiritual: “a partir de onde eu vivo? vivo a partir da lei externa ou a partir do coração?” Os códigos morais insistem nas ações: “não matar”, “não cometer adultério”, “não jurar”. Mas, provavelmente, todos temos experiência de que é possível não ter cometido nada disso e, no entanto, vivemos com o coração endurecido, desconectado daquilo que é realmente importante. A mensagem de Jesus é radical pois quer chegar à raiz. E por isso nos confronta com nossa própria verdade interior. O evangelho deste domingo nos revela um Jesus que vem para dar plenitude à lei. Mas essa plenitude está muito distante do mero cumprimento externo: não matar, não cometer adultério, não jurar falso… Supõe ir mais adentro, mais a fundo, examinando nossas atitudes, nossas razões, nossos sentimentos e tudo aquilo que nos constrói e define como pessoas. É aí, no centro de nossa humanidade, onde conectamos com o espírito e o divino em nós; onde todos somos uno e nossas ações são um fluir dessa unidade interior. Viver a partir do “coração” significa viver a partir do amor que nasce da compreensão da unidade que somos, e que se modela na “regra de outro”: “faça aos outros o que gostaria que eles fizessem a você”. A nova situação que se instaurou a partir da vinda do Messias não é como a antiga aliança, a aliança da lei exterior ao homem; é, pelo contrário, a aliança da interioridade, a situação que se define pelas atitudes que brotam do coração. Há uma frase que se repete três vezes no texto deste domingo, e que, ao mesmo tempo, é novidade e ruptura. Certamente, ela se revelou escandalosa para muitos contemporâneos de Jesus, judeus fiéis à lei de Moisés, à qual consideravam-na como voz de Deus: “Vós ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo”. A novidade e a ruptura estão na afirmação: “Eu, porém, vos digo”. A força da expressão é o “eu”. Sua autoridade reside em sua pessoa. Sua maneira de ser e viver é nossa “lei” e referência. A partir de agora, cumprir a lei é crer n’Ele e segui-lo. A coerência de Jesus é a origem de sua autoridade; não é a dos escribas e fariseus que dizem, mas não fazem. O evangelho pede de todos nós uma mudança absoluta. É como se Jesus nos dissesse: “não fiques só em tuas ações, a lei está dirigida ao coração, ao interior de tua pessoa, às tuas atitudes profundas, às tuas razões para agir, aos teus sentimentos, àquilo que te constrói e te define como pessoa. Tu não podes te limitar em não atacar teu irmão; és chamado a amá-lo, compreendê-lo, perdoá-lo…” Com a novidade do anúncio e da prática de Jesus, realizou-se uma transformação radical nas relações do ser humano com Deus e com os outros. Esta transformação consiste em que o regime da observância da lei foi sucedido por outro regime, o regime filial, que comporta uma situação muito diferente. Por conseguinte, a nova situação consiste em que não só fomos libertados da lei, senão que, além disso – e sobretudo – Deus nos fez verdadeiros(as) filhos(as) seus(suas). Nesse sentido, as relações de intimidade familiar não se fundamentam a partir de um regulamento ou de uma codificação legal. Seria simplesmente absurdo que duas pessoas, que se amam, se pusessem a redigir um regulamento no
Na corrida frenética pelo ouro, quem paga o preço são os indígenas e a natureza

Desde os anos 1970, a Terra Indígena Yanomami (TIY) é cobiçada para a exploração do ouro não obstante a demarcação realizada em 1992. Com quase 10 milhões de hectares, a reserva em Roraima, com uma população de cerca de 20 mil indígenas vive uma crise sem precedentes que traz à tona o descaso do governo federal nos períodos de 2019 a 2022, de acordo com testemunhas que há anos vivem e labutam na defesa dos direitos dos Povos e da floresta. Se em 2014 os dados de adoecimento não superavam 2 mil, em 2022, esse número teve uma alteração de 10 vezes mais. A extração de recursos minerais, – como o ouro -, dos solos ou cursos d’água em escala ilimitada, – associado a organizações criminosas -, por meio de técnicas manuais ou de maquinários como retroescavadeiras e dragas tem sido a maior causa da crise humanitária que se instalou entre os Yanomami. Estudo conduzido por pesquisadores pelos Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Universidade do sul do Alabama, EUA, revela que quase todo o garimpo ilegal (95%), se se dá em três terras indígenas, Kayapó, Munduruku e a Yanomami, a mais afeta pela ilegalidade. Rica em depósitos de ouro, soma uma população de 26 mil Yanomami e Ye’kwana, distribuídos em 321 aldeias. Não é um cálculo difícil de se fazer para este problema matemático, social, político e ambiental. Nesse meio de campo quem tem mais recursos e forças na disputa, sai na frente. Os garimpeiros, por sua vez, contam com uma megaestrutura favorecida por poderes econômicos, elites locais e o aumento do preço do ouro no mercado internacional, e ainda teve garantido o apoio do governo anterior que durante o mandato favoreceu o transito no parlamento de um projeto de lei para regulamentar, abrir as terras indígenas ao garimpo, o que é inconstitucional. O missionário da Consolata ugandês, no Catrimani desde 2019, padre Bob Mulega, 34, enfatiza que os garimpeiros, também eles, são vítimas de um sistema de exploração dos povos e da natureza. “Os que atuam nos garimpos ilegais são os mais pobres que não tem outra opção, pois sabemos que no garimpo as condições de vida são péssimas”, conta. Como uma ferida aberta no coração da floresta, uma estrada de 10 km que adentra o território Yanomami para o desmatamento e as grandes crateras abertas que desnudam a terra na busca de fortuna, tem consequência drástica na vida, na cultura e na espiritualidade e na saúde física dos povos indígenas e, por outro lado, uma contaminação sem precedentes que devasta a natureza na sua limpidez. “Os postos de saúde ficaram desabastecidos de remédios básicos como dipirona, paracetamol, remédios para tratamento da malária. Mais de 500 crianças morreram por patologias que são curáveis. Abandono completo do posto de saúde usado como posto de combustível pelos garimpeiros”, desabafa em entrevista o padre Corrado Dalmonego, IMC, que realiza pesquisa de doutorado sobre os impactos do garimpo no território. Como uma rede de violação dos direitos humanos, o garimpo além de prejudicar a saúde por transmissão de doenças e por favorecer a negação dos devidos cuidados, impedindo a entrada de recursos, da presença dos missionários, desestrutura a vida familiar, quando se trata das questões de prostituição imposta às mulheres em troca de benesses. Quem adentra a floresta tem uma visão de ambição pelas riquezas naturais com o objetivo de obter lucro em detrimento do bem-viver da floresta e das pessoas que ali convivem em harmonia com ela. O garimpo afeta esse modo de vida. Para o padre Mulega, “a vida do povo tem piorado por causa do contato com as doenças que vêm de fora, a extração ilegal que destrói o meio ambiente, falta de assistência e atendimento adequado à saúde”. Uma séria consequência disso é a migração dos jovens indígenas para a cidade que, segundo o missionário os atrai para o mundo das drogas e outros contra valores. “Os empresários e políticos precisam ser responsabilizados pela tragédia do garimpo” Vale recordar que juntamente com os povos originários e a natureza, as pessoas que estão com a mão na massa extraindo o ouro, pobres, marginalizadas, também elas pagam e pagarão alto preço por suas ações, porque como dizem os antigos, “a corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco”. Mas para a liderança católica, membro do Conselho Indigenista de Roraima, Gilmara Fernandes, os verdadeiros responsáveis pela tragédia do garimpo precisam ser responsabilizados e, do outro lado, o governo precisa dar atenção aos pobres garimpeiros que estão saindo das terras Yanomami. “Os que estão lá embaixo, trabalhando no garimpo, os mineiros, são a ponta do iceberg. Aqueles que dão a logística, a manutenção, a alimentação, que financiam, – que são os empresários e os políticos -, eles é que precisam ser responsabilizados, investigados”. Sem essa infraestruta os garimpeiros não conseguem viver dentro do território. Ainda, segundo Fernandes, é preciso se perguntar sobre a vida desses garimpeiros pós- saída deste trabalho financiado. Em 1993, garimpeiros foram tirados da terra indígena, porém, se tornaram agricultores, conseguiram acesso à terra, entraram em projetos de reforma agrária, mas hoje, com a chegada da soja, os valores da terra aumentaram significativamente. “A maioria das terras em Roraima está concentrada nas mãos de políticos, empresários, grandes produtores de soja, sendo impossível compra-la. Para onde eles irão, como manterão suas famílias? O governo precisa pensar nessas pessoas que saem do garimpo e vão para os municípios, que voltam para as suas casas ou vão para outras áreas de garimpo”, enfatiza. A vida yanomani por trás das Câmeras Daquilo que as câmeras não captam, tem conhecimento de causa os missionários da Igreja Católica que há mais de 50 anos convivem com os Yanomami, no Catrimani. Para Mulega os Yanomami são uma sociedade bem estruturada à sua maneira, a partir das suas crenças, do seu modo de conceber a vida e a criação. A forma e os horários de alimentação, as regras para bem-vive em sociedade, o cuidado com a natureza, o lugar das mulheres e das crianças, o papel
Missionários e missionárias indonésios participam de encontro em Brasília

A convite do embaixador da Indonésia no Brasil, Eddy Yusuf, missionários e missionárias, católicos e muçulmanos, provenientes do país asiático se encontraram para partilhar experiências. A reunião foi realizada entre os dias 30 de janeiro e 3 de fevereiro, em Brasília-DF, e ressaltou a unidade na diversidade. Os dias foram de muitas atividades e partilhas entre os missionários e o embaixador. Estiveram presentes 49 missionários e missionárias que trabalham em todas as regiões do Brasil. No caso dos católicos, havia representantes de dez congregações: missionários do Verbo Divino (SVD), irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), irmãs da Divina Providência (SDP), passionistas (CP), servas de Maria de Galeazza (SMG), irmãs discípulas de Jesus Eucarístico (DJE), salesianos de Dom Bosco (SDB), xaverianos (SX), scalabrinianas (MSCS) e carmelitas (O.Carm.). O grupo recebeu uma saudação especial do Pe. Budi Kleden (Superior-Geral da SVD). Por meio de videoconferência, ele conduziu uma reflexão sobre como estar numa missão sem perder a identidade da terra natal. “Durante esses dias, parecia que estávamos na Indonésia. A equipe da embaixada ofereceu as refeições com comidas típicas. Tudo foi preparado com muito carinho”, conta a irmã Yustina Sri Ratna Giri, SSpS. Yusuf ressaltou a persistência de cada missionário e missionária. “Somos os embaixadores da nação. Para deixar a Indonésia orgulhosa, precisamos dessa colaboração e reunião como o primeiro passo para nossa colaboração de criar unidade e fazer a maior contribuição para deixar orgulhosa a Indonésia.” Também estiveram presentes o secretário-geral da CNBB, Dom Joel Portella Amado; a presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB), irmã Eliane Cordeiro de Souza; e o diretor do Centro Cultural Missionário (CCM), Pe. Djalma Antônio da Silva, SVD. “A presença deles nos motivou e nos animou. Esperamos que, onde quer que estejamos, tenhamos sempre esperança e a paciência para obter e espalhar essa paz aos que dela necessitem. Nosso dever é continuar o sonho de Deus. Somos missionários que vêm de diferentes culturas e origens, mas têm um coração para servir”, diz Ir. Yustina. Vida e missão no Brasil Para motivar os missionários e missionárias que chegaram recentemente ao Brasil, aqueles com mais tempo no País partilharam suas experiências de conquistas e dificuldades. Segundo Pe. Ferdinand Doren, coordenador das atividades, o grupo refletiu sobre como os missionários, com a própria bagagem cultural, podem contribuir com a Igreja e a sociedade, e se aproximar dos diferentes “Brasis”. No dia 2 de fevereiro, a missa pela Festa da Apresentação do Senhor foi marcada com danças e cantos indonésios. A celebração contou com a participação dos missionários, da equipe da Embaixada e dos fiéis da Paróquia São Sebastião, localizada no Gama-DF. Em seguida, houve uma noite cultural. Segundo o embaixador, 360 cidadãos indonésios estão registrados no Brasil, e 35% deles são missionários católicos. “A Indonésia é a minha amada pátria, uma herança eterna e gloriosa. Seu nome viverá sempre em nossos corações”, declarou Ir. Yustina. Equipe de Comunicação SSpS Brasil.
O que em nós precisa ser evangelizado?

Há algo em nós que precisa ser evangelizado? Façamos uma breve “pesquisa” honesta e tenhamos a coragem de olhar-nos de frente, sem subterfúgios. A seguir, um breve roteiro. Todos temos consciência de nossas finitudes e fragilidades que se manifestam em nossas atitudes e comportamentos. Por exemplo: em nossas mazelas; em nossos apegos; em nossos egoísmos; em nossas manias de julgamentos apressados sobre os outros; em nossos humores alterados; em nossas mágoas carregadas de rancores; em nossas malícias sensuais; em nossos preconceitos; em nossas percepções distorcidas da realidade interpretadas como reais; em nossa avidez por prestígio; em nossas prepotências em relação aos outros; em nossos apegos exagerados aos bens materiais; em nossas relutâncias em sermos solidários; em nossa indiferença diante do sofrimento alheio; em nossa preguiça em discernir à luz da Palavra de Deus; em nossa autossuficiência; enfim, em nossos pecados. Eis aí uma pequena lista de aspectos que precisam ser mais bem evangelizados em nós. Nosso discurso religioso de cristãos nos remete sempre ao Evangelho. É ele o referencial para uma vida realmente digna, ele nos mostra o caminho da verdade. Se olharmos os itens apontados acima, veremos que, em muitos deles, estamos com notas vermelhas, reprovados, precisando de recuperação. Cada um sabe onde sua fraqueza predomina, seu “espinho na carne”, em que precisa melhorar, ser mais autêntico e transparente. O caminho para a santidade é exigente. Ninguém está dispensado do esforço de conversão. Cotidianamente, nós nos deparamos com nossas fraquezas, e elas sugerem que temos caminho pela frente que exige empenho e compromisso. A vivência do Evangelho está ao alcance de todos, mas é preciso assumi-lo com convicção e seriedade. Muitos de nós cristãos o somos somente em palavras, sem comprometimento de coração. Salvam-se as aparências com algumas rezas ou ações beneficentes, mas a vida mesma está longe do compromisso fiel e perseverante com as exigências evangélicas. Fazendo um pequeno teste, podemos nos expor, por exemplo, ao Evangelho, quando nos diz: ame seus inimigos e reze por eles. Perdoe até setenta vezes sete. Vista o desnudo, dê de comer a quem tem fome. Não julgue. Visite o doente. Quem quer ser o maior seja o que mais serve! Diante do Evangelho, não temos aposentadoria, isto é, permitirmo-nos à indiferença porque já rezamos tanto e fizemos tanta caridade. Como se vê, temos muito a evangelizar em nós mesmos! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.