Olhares sobre a floresta

Ao buscar bem-estar e conexão com o natural e o sagrado, estar em meio à floresta sempre me vem à mente. As suas trilhas, a temperatura, o jogo de luz e sombra, a sinfonia de vento e pássaros criam uma experiência estética indescritível. Não deixa de ser um templo, e há inclusive quem defenda que a arquitetura das catedrais góticas é inspirada na sensação de êxtase e enlevo produzida pela combinação da verticalidade dos troncos, da luminosidade filtrada por abóbadas formadas de copas. A floresta é muito mais que misteriosa, essencial e concreta; sua existência não pode ser reduzida à produção de encantamentos. Em uma visão sistêmica de mundo, uma árvore não é compreendida apenas pela subdivisão de suas partes em raiz, caule, folha, flor, fruto e semente. Sua importância está na relação que a fotossíntese estabelece entre a água do solo e a umidade do ar, na vida que habita sua sombra, na copa que abriga outros seres, na alimentação concedida a outras criaturas e nas conexões com a floresta; também está na serrapilheira, habitat de micro-organismos e fundamental para adubação do solo. Já em uma perspectiva mais econômica, que situa o capital e a lógica do lucro como justificativa para quase tudo que orienta nossas ações, as partes das árvores, assim como as propriedades medicinais, muitas vezes, são reduzidos a commodities. A mesma razão se aplica à vida e à riqueza que se esconde na floresta e em seus rios, em suas entranhas e no solo cuja extorsão fundamenta contínuas violações, algumas que se tornam notícia e outras que avançam oculta(da)s, sem que lhes seja dada importância. Construímos um reino para nossa sobrevivência em um recorte feito no mundo natural. Nós nos apartamos da floresta, embora os tentáculos desse reino já não respeitam seus limites e, com o poder de nossa ação sobre a terra ampliado pelo braço tecnológico, nós a usurpamos em escala industrial e nos tornamos risco à sua saúde. A cobiça estimulada pela publicidade, estratégias de comunicação e de design (aqui considerado em sua dimensão estética), ao mesmo tempo em que estimula tal processo, abstrai-nos do que realmente é valioso e imprescindível em nossas vidas: ar puro, água limpa, alimentos não processados e vida comunitária. Os povos da floresta, que vivem uma relação de sensibilidade mais aguda com o meio, parecem ter uma percepção mais clara e mais concreta de sua dependência em relação a ela e da importância do cuidado para preservação de suas condições de vida. Muito temos a aprender com eles; inclusive a considerar que a importância das florestas não pode ser reduzida à celebração de um dia no calendário de datas comemorativas, mas que a mudança deve iniciar-se em nós, com a construção de outra mentalidade que situe a preservação de condições de vida na terra acima da satisfação de necessidades artificiais e de nossa vaidade. Referências BRUM, Eliane. Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. CAPRA, Bernt Amadeus. O ponto de mutação. Filme produzido pela Atlas Company e Mindwalk Production. 110 min. 1991. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=iUkSmjXfEO8 CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1986. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006. VIVAT INTERNATIONAL. Disponível em https://www.vivatinternational.org/. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

Cego de nascença: “passagem” da margem à iluminação

“Enquanto estou no mundo, Sou a Luz do mundo” (Jo 9,5) A cura do cego de nascença (Jo 9) revela-se como uma instigante narrativa que requer ser lida em seu contexto imediatamente anterior; ali encontramos uma discussão de Jesus com os judeus e que começa com esta afirmação: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Frente à cegueira cultural-religiosa, Jesus se mostra como Luz na vida. O relato deste domingo nos põe em contato com Jesus que traz Luz-Vida. Ele não só se revela como Luz, mas, através de seu “toque”, ativa a luz presente naquele que não podia ver a luz do dia. Como no caso da samaritana, é Jesus quem toma a iniciativa, mas o interessado deve responder pessoalmente. Todo o relato é simbólico; as alusões ao batismo são constantes. A Igreja primitiva chamava o batismo “photismós”, que significa “iluminação”. Trata-se de indicar aos catecúmenos o caminho que precisam percorrer antes do batismo. Este cego de nascença representa toda a humanidade, porque, em certo sentido, todos somos cegos enquanto não acolhamos Aquele que é Luz. Esta cegueira é a que impede ver a verdade que nos fará livres. Somos cegos quando nos fechamos em nossa mentalidade, critérios, ideologias… Somos cegos quando nos petrificamos no fanatismo, na intolerância e na resistência em perceber a luz que habita naquele que pensa e sente de maneira diferente. “Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença.” O “passar” é uma evocação do caminho do Êxodo, caminho de liberdade. No deserto, Deus é o “clarão” que orienta e move o povo de Israel a fazer a travessia da terra da escuridão para a terra da liberdade. Jesus é Luz que “passa” em meio ao mundo da marginalidade e da exclusão, reacendendo a luz da esperança e da vida em cada pessoa. Jesus é a “Luz que toca”;aqui aparece, com muita força, o símbolo do contato físico.O contato nos faz despertar. Existe a idade da palavra, a do ouvido, a do olhar…, mas neste momento Jesus se detém na idade do contato; é a idade da comunhão, a idade da ternura materna. O caminho do tato é o da mais profunda comunhão. Jesus tocava pessoas feridas, quebradas… e sua gestualidade prolongava o sexto dia da Criação. Sabemos pouco da riqueza de nosso contato. O contato nos cura. É um caminho de comunicação maravilhoso. Na enfermidade, muitas pessoas não buscam mais que o contato. Um verdadeiro contato nos envia sempre para dentro. Não é o contato da pele, mas o que nos põe em marcha para nosso interior. Existem forças reconstrutoras presentes em todos nós. Através de suas palavras e do seu toque, o Mestre da Galileia restabelece o contato do cego com a fonte, com os seus recursos interiores. Esses recursos existem em cada pessoa, e cada um pode aproveitá-los. Através do encontro com Jesus e do seu toque, as pessoas descobrem os recursos interiores que devem ser mobilizados. Ele confia nas forças de autocura do ser humano; não precisa fazer tudo sozinho. No encontro com Jesus, o doente entra em contato consigo mesmo, com as fontes interiores que o Pai lhe deu: estas são as fontes das forças de autocura, de dons e habilidades, de força e de esperança. Jesus não explica, não faz uma teoria sobre a origem da cegueira (quem pecou?). Realiza algo muito maior: ajuda o cego, afasta-o da cidade alta (dominada por sacerdotes e escribas) e o convida a descer à fonte da vida, abaixo, no manancial de Siloé, que é sinal profético de abundância e de iluminação futura. Este cego é o homem que não consegue ver desde o nascimento; não se trata de pecado, mas da própria situação vital, da cegueira humana que se expressa, de um modo claro, neste ser humano. Há muitos que o querem ensinar a ver (os mestres da lei), mas o deixam na cegueira. É uma cegueira que começa sendo externa (não ver as coisas, não compreender o sentido da vida) e que termina sendo interior (não saber quem é, em quem pode confiar, viver sendo manipulado por outros). Podemos, então, afirmar que o relato de João é um “texto de rebelião”, um texto que denuncia toda religião que aprisiona as pessoas nas trevas do sentimento de culpa, de medo e de impotência. É o testemunho de Jesus que se rebela contra aqueles que querem manter as pessoas cegas, travando a verdadeira identidade delas que se revela como participação na luz divina, presente no interior de cada uma. Contra tal situação Jesus diz ao cego de Siloé que se rebele, que não permaneça cego à beira do caminho, que veja por si mesmo, que decida, que confesse sua nova liberdade mesmo que isto lhe custe a rejeição das autoridades religiosas, inclusive de seus próprios familiares. Junto ao cego de nascença se faz visível o pecado de todas as pessoas que não o ajudam, que não querem entendê-lo, que o submetem às suas leis e conveniências. Pois bem, Jesus não consola o cego (em sentido superficial), mas lhe diz para ser ele mesmo, que assuma sua própria vida, que desça à água, que se purifique… Jesus mesmo põe barro nos olhos do cego (terra com saliva, alento vital) e lhe diz que vá, que veja, que não tenha medo, que assuma seu destino… Jesus não cria dependência; ativa no cego sua autonomia para que ele seja autor de sua própria vida, inclusive correndo riscos de ser rejeitado. No fundo, Jesus pede ao cego que se rebele contra uma lei de cegueira, que o obriga a mendigar, sob a “caridade” dos mestres cegos que vivem à custa da cegueira dos outros. Pede-lhe que se rebele, que deixe seu lugar de mendigo, que saia da margem e que recupere sua verdadeira identidade. Trata-se de uma rebelião para a liberdade, para a vida. É uma rebelião que conduz ao encontro com Jesus que é simplesmente “filho do homem”, o homem em plenitude. O cego passa a crer em Jesus como “filho do homem”,

Ter compaixão

Ter compaixão é um indicativo para quem tem o desejo de sintonizar-se com outro. A compaixão abre as portas para uma saída em direção ao coração de quem sofre e precisa de solidariedade. A palavra traduz, mais ou menos, o significado de pôr-se na pele do outro e sentir o que sua vida pede quando está em sofrimento. Para tanto, é necessário treinar-se na sensibilidade para perceber o que se passa na vida do outro. Em nós, existem duas tendências: uma de ficar encarcerado em si, pensando apenas nas próprias necessidades, indiferentes ao sofrimento alheio; e a outra tendência que se abre para o convívio solidário com o outro. Jesus viveu a compaixão ao extremo. Ele treinou seus discípulos, muitas vezes, para serem compassivos. Por exemplo, quando eles queriam que Jesus dispersasse a multidão que foi até ele em busca de saúde e alívio dos sofrimentos. Jesus teve compaixão da multidão e disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? Só tinham cinco pães e dois peixes! Era tudo o que tinham de provisão para si próprios. Jesus lhes disse que colocassem à disposição aquela pequena reserva. Multiplicados os pães e os peixes, saciada a multidão e com sobras de sete cestos, a compaixão de Jesus se tornou gesto educativo. Os discípulos estavam no aprendizado de como serem compassivos. A compaixão está associada à misericórdia; ambas se tornam um sinônimo de soerguimento do outro que está fragilizado. A compaixão aproxima, e a misericórdia compreende e salva. É uma fórmula concreta do amor ativo em ação. É uma linguagem compreensível para todos, porque visa, em primeiro lugar, a salvar a vida e a reconhece como dom acima de qualquer outro. Ter compaixão é ser humano, lá onde a dor desumana está presente, debilitando as forças e ameaçando as resistências da sobrevivência. No fundo, todos, em algum momento da vida, precisam da compaixão de alguém. Ninguém se basta a si mesmo. Por isso a compaixão é tão natural que devia estar presente nas ações humanas, sempre! Contudo a experiência nos diz que não é assim. Como explicar que possa haver tanta gente, por exemplo, morrendo de fome? Cadê a compaixão? Se estivesse ativa, isso não aconteceria. Ela deve estar adormecida ou inebriada por outras coisas, deu lugar à indiferença e à insensibilidade, e assim essa força tão humana se torna tão desumana que não vê o outro necessitado, que fica ignorado em sua fome. Todos aprovamos gestos compassivos porque eles mexem com a sensibilidade e nos aproximam uns dos outros, e resgatam em nós o desejo de fraternidade impresso em nossa alma. Nascemos para isso, pena que, frequentemente, adormecemos em relação a ela e ficamos absortos, olhando para o próprio umbigo, desviando o olhar dos que gritam por compaixão. Ter compaixão, eis um exercício altruísta para o Tempo da Quaresma e um treino para sermos mais humanos e solidários. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

A samaritana: de que temos sede?

“E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14) Nestes próximos três domingos da Quaresma, a liturgia nos apresenta três grandes relatos do evangelho de João: a samaritana, o cego de nascimento e a revivificação de Lázaro. A expressão “Eu sou”, característico do quarto evangelho, se encontra nestas três cenas: “eu sou a Água viva”, “eu sou a Luz”, “eu sou a Vida”. São imagens-símbolo que desvelam e nos ajudam a compreender a verdadeira identidade de Jesus; ao mesmo tempo, são imagens que também revelam nossa identidade. É no encontro destas duas identidades que se fundamenta o sentido profundo do seguimento de Jesus. A Quaresma se apresenta como momento oportuno para enraizar nossa vida n’Aquele que “morreu de tanto viver”; afinal, somos seguidores de uma Pessoa e não de uma religião, de uma doutrina… Seguir Jesus implica tornar visível em nossa vida o modo de ser e viver d’Aquele que foi o “biófilo”: amigo da vida. O relato deste domingo – encontro de Jesus com a samaritana – é uma verdadeira catequese, que nos convida ao seguimento d’Aquele que é a Fonte da Vida. Nem no templo, nem em Jerusalém, nem em nenhum outro lugar se pode viver o verdadeiro culto, que se revela como encontro e identificação com Jesus. Muitas vezes, o que entendemos por prestar culto é apenas idolatria: a tentativa de domesticar e manipular Deus segundo os nossos interesses. Uma mulher da Samaria chega a um poço para tirar água, alheia a tudo o que ali a espera e distraída na trivialidade de sua vida cotidiana que não se abre ao imprevisível: vai só buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele cheio. Não há mais expectativas, nem mais planos, nem mais desejos. Mas o imprevisível está lhe esperando na pessoa daquele galileu sentado na beira do poço e que inicia uma conversação com ela sobre coisas banais, talvez para não a assustar: falam de água e de sede, de poços e de velhas rixas entre os povos vizinhos, coisas de todos os dias. Repentinamente, irrompe a linguagem “das coisas do alto”, o dom, uma água que se converte em manancial vivo, a promessa de uma sede pacificada para sempre, um Deus em busca do ser humano, fora dos espaços estreitos de templos e santuários. E, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está disposta a oferecer, fica esquecido junto ao poço, agora já inútil, pois não pode conter uma água viva. A sede da samaritana – e a de Jesus – é a mesma sede de todo ser humano: é insatisfação radical que não pode ser saciada por nada humano. A sede representa as necessidades e aspirações fundamentais do ser humano: sede de sentido e de plenitude, sede de comunhão e de encontro, sede de vida… Somos pessoas-sede! A sede é uma água que nos habita e nos dá vida. A sede é fundamental, essencial. O nosso coração é um “interminável reservatório de sede. Sede de amor. Sede de verdade. Sede de reconhecimento. Sede de razões de viver. Sede de um refúgio. Sede de novas palavras e de novas formas. Sede de justiça. Sede de humanidade autêntica. Sede de infinito” (José Tolentino Mendonça, Elogio da Sede). Como um bom pedagogo, Jesus acompanha a samaritana a descobrir o desejo de água fresca, a saudade humana de amor e felicidade. Em termos orantes, o ser humano, todos nós, temos “sede do Deus vivo” (Sl 42,3), que brota de nossa terra ressequida, rachada, sem água: suspiramos como a corça suspira pelas torrentes de água, por Deus. Só o Senhor nos conduz para as fontes tranquilas (Sl 22). Neste precioso e profundo relato do evangelho de João são tantos os temas que o autor vai alinhavando, a partir de diferentes níveis (histórico, simbólico, espiritual), que se torna impossível aprofundá-los em um breve comentário. A imagem da sede remete à nossa aspiração profunda, incapaz de ser saciada por nenhum objeto. A imagem da água, por sua vez, nos remete à nossa identidade original, que está brotando constantemente em nosso interior. Jesus aparece como o mestre que nos liberta de enganos e de falsas identificações, para que possamos entrar em contato com a “água viva” que Ele mesmo já saboreia, a única que torna possível “nunca mais ter sede”. Essa água não é “algo” – algum objeto que possa nos preencher – nem se encontra longe de nós. Constitui nosso núcleo mais profundo. O que normalmente acontece é que – como a samaritana – estamos longe dela. Ao viver “fora” de nós, desconectados da fonte, nos acontece aquilo que S. Agostinho lamentava: “Tarde te amei, beleza sempre antiga e sempre nova, tarde te amei! No entanto, Tu estavas dentro de mim e era eu quem estava fora”. O importante é saber que a “beleza sempre antiga e sempre nova” não é “algo” (ou “alguém”) separado de nós, embora possamos nos dirigir a ela em chave relacional, nomeando-a como um “Tu”. É outro nome da “água” de que falava Jesus, e constitui nossa identidade última, aquela na qual nos reconhecemos quando nossa mente se silencia; aquela que saboreamos quando, simplesmente, nos deixamos ser; aquela que está sempre a salvo e que, para além das aparências mentais, partilhamos com todos os seres. O encontro com Jesus move a samaritana, e nos convida também, a descobrir o manancial de água viva que flui em nossas entranhas em lugar de continuar sendo buscadores de “poços no deserto”. Jesus espera a samaritana, como espera cada um de nós, ali onde está a trama de nossa vida. Ele inicia sempre o encontro pedindo-nos daquilo que já recebemos, do que já temos… Junto a Sicar ou ao lado de nossos próprios poços… Não é preciso percorrer um caminho diferente, não pede a ela, nem a nós, ir a nenhum templo, nem lugar sagrado; nossa própria vida, com as circunstâncias nas quais vivemos, é o

Grupo MLDUT de Cascavel-PR apoia núcleo de apoio a ostomizados

As missionárias leigas do Deus Uno e Trino (MLDUT) de Cascavel-PR, Andreia, Irene, Loiva e Maria Tereza, visitaram o Renascer – Núcleo dos Ostomizados, localizado no Município. O centro é referência para as pessoas ostomizadas de 24 Municípios paranaenses, mas recebe também pacientes de outras regiões do Estado e do Brasil. A ação foi realizada no dia 1º de fevereiro. Segundo informações do Ministério da Saúde, a pessoa ostomizada é aquela que precisou passar por uma intervenção cirúrgica para fazer no corpo (geralmente na região abdominal) uma abertura ou caminho alternativo de comunicação com o meio exterior, para a saída de fezes ou urina, assim como auxiliar na respiração ou na alimentação. Essa abertura se chama estoma. Muitos procedimentos cirúrgicos necessários para tratamento do câncer acabam gerando estomas. As MLDUT conheceram Wilse, presidente do Renascer. Na adolescência, ela descobriu que precisaria passar o resto da vida com uma bolsa colada ao corpo, para servir como coletora de fezes. Na época, não havia um suporte especializado para isso em Cascavel. Foi a história dela que despertou em um médico a ideia de fundar um núcleo que pudesse dar mais informação e qualidade de vida aos ostomizados, como são chamadas as pessoas que precisam do recurso. O atendimento é multidisciplinar. O que também faz diferença é o paciente poder escolher o tipo de bolsa com a qual mais se adapta. A bolsa é um saco coletor que recebe as fezes ou a urina. Há vários tipos e são indicados conforme a localização do estoma, idade da pessoa e tipo de material a receber. Essas bolsas coletoras podem ser drenáveis ou não, opacas ou transparentes e em uma ou duas peças. O material é fornecido pelo CISOP (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Oeste do Paraná), mas, para as demais despesas, o núcleo depende de doações, inclusive de ajuda financeira. A luta do Renascer é para que haja mais garantia dos direitos dos ostomizados, com mais informação sobre o assunto. Numa visita ao núcleo, realizada meses antes, as MLDUT participaram de uma reunião e ficaram sabendo das dificuldades. Na ocasião, Wilse relatou que o local havia sido invadido por ladrões. Foram furtados o ar-condicionado e outros objetos importantes para o funcionamento da casa. A diretora também informou sobre as despesas cotidianas do espaço. Após conhecerem o Núcleo, as missionárias, coordenadas pela Ir. Rosinda, SSpS, decidiram destinar um valor à entidade, como um gesto concreto. “Entregamos a eles o valor de mil reais em dinheiro, arrecadado pelo grupo ao longo do ano de 2022, com rifas e pequenas contribuições mensais das missionárias”, conta a professora Simone Lazzarotto e integrante das MLDUT de Cascavel. O contato com o Renascer – Núcleo de Ostomizados se deu porque uma das MLDUT precisou submeter-se ao procedimento há três anos. Como o trabalho é pouco divulgado, muitas das missionárias nem sabiam que o problema poderia acontecer com qualquer um. “Assim foi com nossa missionária. De um dia para o outro, ela precisou adaptar-se a essa nova vida, viver com uma bolsa coletora das fezes colada ao corpo”, declara Simone. O Renascer – Núcleo dos Ostomizados fica na Rua Carijós, 294 – Bairro Santo Onofre, em Cascavel-PR. Quem desejar obter mais informações e contribuir com o trabalho pode ligar para o número (45) 3326-5884 ou entrar em contato pelo e-mail ostomizadosoestedoparana@gmail.com. Para saber mais Atenção à Saúde das Pessoas Ostomizadas – Ministério da Saúde[Link: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/atencao_saude_pessoas_ostomizadas.pdf] Simone LazzarottoProfessora de Biologia no Colégio Santa Maria, Cascavel-PR.

Mulher, pedaço do mundo

Sou um pedaço do mundo O mundo é um pedaço de mim Sou braço, colo e abraço Sigo intuição e metas Sou vazio e solidão De repente, sou lágrima e dor, alegria e rancor, compaixão e paixão A paz e a guerra habitam em mim A esperança e a força bruta correm nas minhas veias Acredito no que não vejo e não creio em muita coisa que insisto em enxergar Escuto pássaros nos locais menos improváveis Aprecio o choro de quem se banha de lágrimas para (re)nascer A vida pulsa em mim e, para seguir viva, também pulsa no Universo A fé me cobre nos caminhos mais íngremes Eu nunca estou só Sou filha, mãe, neta, bisneta, irmã, prima, amiga Somos muitas Sei ser pá, terra e semente Sei ser paz e compaixão, e indignação Aprendo a ser cerca e me afasto Sou mulher, sou “humananidade” Enxergo o mundo pela lente do amor, vejo dores, sinto sabores, dissabores e odores. Devolvo conchas para o mar e deixo as pedras rolarem Sou corrente elétrica, tenho correntes em mim Abro portas e janelas para a vida me levar, e para (tentar) ir aonde quiser Aprendi a atirar pedras no leito do rio, para formar círculos infinitos Nasço mulher, acordo mulher, durmo mulher Há mulher em mim que se cala e tem medo Tem mulheres caladas para sempre, na ironia de quem se acha mais e é menos Sou mulher, realizo, destruo, construo e desconstruo o que querem de mim Na matemática da vida, lido com equações, divisões, somas, subtrações e multiplicações, em possibilidades infinitas Sou o que quiser, somos os quereres de muitas mulheres Somos mulheres Sou mulher Sou um pedaço do mundo O mundo é um pedaço de mim Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

TRANSFIGURAÇÃO: ser presença iluminante

“O seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz…” (Mt 17,2) O evangelho deste segundo domingo da Quaresma nos apresenta um acontecimento muito profundo e transcendente da vida de Jesus, na presença de seus discípulos. O contexto desta passagem é a subida de Jesus a Jerusalém, antes de sua morte. O Mestre leva consigo três discípulos com os quais já tivera dificuldades devido à falta de compreensão deles com relação à sua missão. Pedro tentara desviar Jesus de seu caminho de Cruz e os outros dois, João e Tiago, disputavam os primeiros lugares no Reino. Jesus deseja revelar a eles, e a nós, que há uma dimensão muito mais profunda neste seguimento e que o impulso egóico deve se esvaziar diante da transcendência de uma vida que se faz entrega. Ali, no Monte Tabor, também aparecem dois personagens que são referenciais na tradição judaica: Elias e Moisés. Elias é aquele que lhes revela que a Divindade é uma presença única como brisa suave e que se comunica como sussurro interior no mais profundo do ser humano, algo inesgotável. Moisés, em outra dimensão, revela que a Divindade atua na história como ação libertadora de toda opressão. Na transfiguração, Jesus vai além destes dois personagens e revela que não é um profeta eleito para nos ensinar quem é e como é Deus; Ele mesmo deixa transparecer sua divindade e revela que toda a humanidade é chamada a visibilizar a presença divina em cada um. Deus é Luz que envolve a realidade humana na pessoa de Jesus, e é Palavra dirigida agora aos discípulos para lhes comunicar que Ele é o Filho Amado. Já vimos no Batismo que essa voz foi dirigida somente a Jesus; mas a revelação continua avançando e essa Voz agora é dirigida aos discípulos e a cada um de nós. Na verdade, todos(as) somos “filhos e filhas amados(as)”; todos somos um pequeno “sol”, conectados com o Grande Sol que tudo ilumina. Somos criaturas profundamente amadas, para além de nossos medos e inseguranças, para além das imagens que temos ou que outros têm de nós. A nossa condição humana se “transfigura” na “filiação divina”: aqui está a nobreza e a grandeza de cada um de nós. A Transfiguração de Jesus nos mobiliza a ultrapassar a superficialidade da realidade e nos impulsiona a ir além das aparências: é a profundidade de um rosto, de um acontecimento ou de um ato que pode chegar a transfigurar nossas vidas. É questão de ativar um novo olhar que vai se aprofundando, um olhar contemplativo que que vai além do imediato e faz captar o sentido de tudo e de todos; um olhar que nos revela nossa verdade mais profunda; um olhar que percebe a luz escondida em meio às sombras da vida. É o olhar de um amor não condicionado que transfigura nossa vida e irrompe em nosso corpo e em nossos olhos em forma de uma luz suave e intensa que nos impacta. Esse é o olhar verdadeiro sobre nossas vidas, aquele que desperta as fontes de amor adormecidas em nós. Esse é o olhar que nos pacifica, elimina toda inquietação e nos faz dizer com Pedro: “Senhor, é bom estarmos aqui”. A Transfiguração de Jesus põe em evidência nossa condição humana; de um lado, ela deixa transparecer que, como humanos, somos frágeis e vulneráveis, carentes de necessidades, e que buscamos nos apegar àquilo que nos promete segurança; no entanto, de outro lado, ela manifesta que, na nossa essência, somos partícipes da Luz divina, plenitude de presença, em profunda unidade com tudo e com todos. O “relato das tentações” de domingo passado nos situou frente à nossa condição de vulnerabilidade e carências (busca de poder, prestígio, riqueza…); o “relato da transfiguração” deste domingo des-vela (tira o véu) a luminosidade que somos. Ambos os relatos revelam nossa natureza contraditória: somos Plenitude que se expressa na vulnerabilidade, somos luzes e sombras, seres enraizados, mas abertos ao horizonte, carregados de “bem-aventuranças” e de “mal-aventuranças, vida que se expande e vida que se retrai… A sabedoria cristã integra estes dois polos de nossa vida: o absoluto e o temporal, o oculto e o manifesto, a identidade e o ego inflado, interioridade e exterioridade… É do encontro dos polos contrários que brota a energia, a criatividade, o espírito de busca… O tempo quaresmal, inspirado pela pessoa de Jesus Cristo, nos faz “descer” ao chão de nossa vida e nos colocar diante da nossa realidade contraditória: justa e injusta, pacífica e violenta, amorosa e odiosa, sincera e falsa, fiel e infiel… É preciso ser sábio o bastante para crescer na consciência da nossa identidade profunda e não ficarmos presos e fechados na ignorância sobre aquilo que “somos”. Na essência, somos “luz” e, no entanto, vivemos perdidos nas sombras da culpa, preocupação, competição, ativismo, perfeccionismo… É preciso avançar na compreensão e na consciência do que pensamos, do que sentimos, do que fazemos, do que vemos e ouvimos… a partir do nosso ser profundo. E isso é luminosidade, transparência, trans-figu- ração, plenitude de presença. Na realidade, isso que somos não tem, e nem pode ter, um nome adequado, porque escapa e vai além do sentido das palavras. Dizia José Saramago que “em nós há algo que não tem nome. Esse algo é o que somos”. Isso que somos só pode ser percebido quando calamos nossa mente, nossas concepções estreitas, nossas visões atrofiadas… O monte da transfiguração nos desafia a contemplar nossa interioridade sem o filtro dos pre-conceitos, ideias, percepções… Celebrar a “transfiguração de Jesus” é despertar nosso ser, nossa essência, nossa originalidade… No encontro com o Jesus transfigurado, também nos trans-figuramos. Já somos “seres transfigurados” e não sabíamos disso. A transfiguração não é algo externo, uma mudança de disfarces como no carnaval, mas significa uma abertura à realidade cotidiana e tomar consciência de que a vida e a história estão cheias de sentido. A realidade torna-se “diáfana” (transparência) e nos impulsiona a ir além da pura materialidade. A transfiguração é mistério de mão

Crescimento sustentável pede também justiça social

Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a necessidade de um crescimento sustentável para a manutenção da biodiversidade de nosso planeta. Todavia, para que isso aconteça, é necessário que uma série de fatores se desenvolva de forma equilibrada e equidistante. Explico. Não há crescimento sustentável se as populações mais vulneráveis não têm acesso à educação e saúde de qualidade; se diariamente aumenta o número de pessoas em situação de rua, e a miséria, fome e a pobreza atingem níveis volumosos; se os povos originários e as comunidades quilombolas têm suas terras invadidas e devastadas a fim de atender aos interesses de madeireiros e garimpeiros ilegais, movidos pela ganância desmedida; se permanecem as desigualdades de gênero. De que adianta a economia de um país apresentar dados de crescimento vultosos se, por trás desse crescimento, está o aumento da concentração de riqueza nas mãos dos mais ricos? Se a miséria e a desigualdade social se avolumam? Se a biodiversidade do planeta está sob risco de extinção? As pessoas precisam compreender que crescimento sustentável envolve ações que vão muito além de medidas que visam a proteger o meio ambiente; elas precisam promover o bem-estar social de todos. Assim, os povos do mundo têm compromisso muito importante. Devem eleger governantes preocupados em fomentar políticas públicas que visem a proteger o meio ambiente, os mais vulneráveis e a combater qualquer tipo de discriminação e desigualdade. Não há futuro para o planeta Terra se o progresso econômico e material estiver associado a ações que continuem a contribuir para a devastação climática e ambiental, bem como não há sociedade civil justa e pacífica se a riqueza produzida no planeta continua concentrada na mão de tão poucos. Como pode os 10% mais ricos do planeta controlarem 76% da riqueza global? E que 50% dos mais pobres fiquem com apenas 2%? Esses dados que apresento são de 2021 e produzidos pelo Relatório de Desigualdade Mundial, que reúne mais de cem pesquisadores em todo o mundo, fruto de mais de quatro anos de pesquisas. Os especialistas destacaram ainda que a fortuna dos mais ricos cresceu na pandemia, enquanto milhões de pessoas entraram na pobreza. Consequentemente, se continuarmos a mover nossas ações apenas baseados em interesses financeiros, infelizmente, estaremos comprometendo a existência das futuras gerações no planeta. Em 2022, em recepção a 1500 peregrinos das dioceses italianas de Alessandria e Spoleto-Núrcia, o Papa Francisco destacou que o amor se expressa por meio de ações de partilha: “Esta busca, através do discernimento, leva a comunidade a crescer com um conhecimento cada vez mais íntimo de Jesus Cristo. Dessa forma, o Senhor da Verdade torna-se fundamento da vida comunitária, entrelaçado por laços de amor. O amor expressa-se por meio de ações de partilha, da dimensão física à espiritual, que dão visibilidade ao segredo que carregamos em nossos ‘vasos de argila’.” O Papa nos recorda que a construção de uma comunidade cristã passa por uma ação pastoral que procure promover sempre a justiça social. Portanto, a economia, a política, o crescimento e o progresso devem estar a serviço do ser humano e do planeta Terra. Rafael Cupello PeixotoGraduado em História pela Universidade Federal Fluminense (2009), mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (2013), doutor em História Política (2018) pela UERJ, Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa 2019 pela pesquisa de tese de doutoramento intitulada “O marquês de Barbacena: política e sociedade no Brasil Imperial (1796-1841)”. Professor Substituto na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), auxiliar no curso de História da Escola de Formação de Professores no Centro Universitário Celso Lisboa e professor de História para os ensinos médio e fundamental II no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.

Quaresma: de que temos fome?

“Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4) O primeiro domingo da Quaresma nos des-loca até o “deserto das tentações”; ali Jesus se deparou com as grandes “fomes que desumanizam”: “pão do ego”, “poder auto-centrado”, “vaidade estéril”. Jesus foi conduzido ao deserto imediatamente depois do seu batismo, com a palavra do Pai ressoando em seu coração: “Tu és meu filho amado…”; mas agora, no deserto, vai escutar outras palavras que “tentam” convencê-lo para que não ponha o centro de sua vida nesse amor, mas no poder, na vida fácil, na fama, nas posses… O relato das tentações resume simbolicamente outros momentos da vida de Jesus nos quais esteve submetido à alternativa entre “a maneira de pensar de Deus” ou “a maneira humana”. As tentações foram uma ocasião privilegiada para Jesus ativar as “grandes fomes que humanizam”: fome de vida doada, fome do Reino, fome de comunhão, de pão partilhado, de compromisso solidário… Conduzido pela força do Espírito, Ele viveu uma integração a partir de seu coração e não se deixou levar pelas aparências enganosas. Sua vocação à messianidade ficou clara no batismo; agora, tratava-se de buscar os meios para viver sua missão. No seu discernimento, Jesus sentiu que o poder, a riqueza, o prestígio não são “meios” para realizar a Vontade do Pai; pelo contrário, inspirado pelo Espírito, elegeu o caminho do esvaziamento de si, da pobreza e do compromisso solidário com os mais pobres e excluídos. Sua missão como Messias devia começar nas periferias, junto aos abandonados pelo poder religioso e civil da época. À luz do discernimento de Jesus, também nós, durante esta Quaresma, seremos conduzidos pelo Espírito ao deserto interior para o despertar das “fomes” que nos tornam mais sensíveis, abertos à realidade, comprometidos na partilha do “pão”, que é dom e deve chegar a todos. A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano nos alerta para o drama da fome, escândalo e incoerência na vivência do seguimento de Jesus. Sabemos que a fome e a sede são mecanismos fundamentais dos seres vivos. Todo ser vivente necessita nutrição e hidratação, mas, nos seres humanos, estas necessidades biológicas têm caráter social. Em muitas culturas humanas, compartilhar o alimento e a bebida revela-se como gesto de socialização e de integração. Na experiência cristã, esta necessidade vital é transladada ao campo da fé: o alimento é dom do Criador para todos. O problema crônico da atualidade não é unicamente a satisfação das necessidades básicas, mas também o despertar de uma consciência que exija a justa distribuição dos recursos naturais, para que a humanidade cultive o melhor de si mesma e viva a solidariedade e a justiça como um projeto social alternativo frente às políticas egoístas e concentradoras de bens. A CF nos revela que a fome tem várias raízes (escassez de recursos, alterações climáticas, subdesenvol-vimento de alguns povos…); no entanto, em sentido mais profundo, ela provém de duas causas principais: a) o egoísmo de grupos e indivíduos, que se apropriam dos recursos de todos e não partilham seus produtos; b) a injustiça de um sistema político e econômico que não se preocupa com o bem comum. Ter alimento faz parte dos direitos fundamentais de toda pessoa, um direito que deve ser garantido pelo Estado. A pedagogia quaresmal, portanto,nos sacode e nos desnuda, porque desmascara nossas falsas seguranças, centradas na riqueza, no poder, na vaidade.  Inspirados pelo “discernimento” de Jesus no deserto, somos também movidos a buscar nossas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido de maneira intensa, o Espírito nos conduzirá ao fundo estável e sereno, nos conduzirá à “casa”, à nossa verdadeira identidade, à “Terra prometida” onde há fartura de pão. Por isso, é preciso ampliar nosso interior para despertar outras fomes. O lema da CF – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de “alimentos humanizadores”: compaixão, desejos nobres, dons originais, criatividade, espírito de busca… São alimentos que plenificam e dão sabor à nossa vida. É preciso extraí-los e multiplicá-los para que a fome de sentido e de esperança das pessoas seja saciada. Ninguém tem o direito de armazenar nos seus celeiros o “trigo” doado por Aquele que é fonte de todo “alimento salutar”. Afinal, alimento guardado é alimento que apodrece. Vida partilhada é vida abundante. Com frequência, nossa existência humana parece uma corrida em busca daquilo que nos sacia de um modo definitivo. Nesta corrida, aparecem muitos elementos que nos são familiares: necessidades, ansiedade, insegurança, vazio, insatisfação… Todos eles, à primeira vista, nos fazem tomar consciência que somos seres carentes. Seria, pois, essa carência aquela que nos movimenta na busca de algo para preencher nosso vazio? De fato, o ser humano é um ser insaciável, insatisfeito… vive eternamente buscando, muitas vezes sem saber o quê. Em contato com o seu interior, sente a necessidade de preenchê-lo a qualquer preço; na maioria das vezes, preenche-o com “coisas”: busca de poder, posses, prestígio, pão que se perde… e sente-se frustrado, porque nada  lhe satisfaz. Não são as “coisas exteriores” que nos tentam. O que nos tenta é a maneira injusta, perversa com o qual utilizamos as coisas, o espírito com o qual vivemos a nossa vida. Só o Pão da Palavra pode preencher nosso interior; só um alimento nos plenifica: “fazer a Vontade do Pai”. Aqui, também é preciso nos perguntar: – qual é a nossa tentação? O que é que nos seduz? Nossa liberdade sente-se movida e atraída em duas direções. A cena das “tentações de Jesus” des-vela (distingue, põe às claras…) os dois dinamismos, duas tendências, dois impulsos… que se fazem presentes em nosso interior (um de alargamento ou expansão de nós mesmos em direção aos outros e de Deus; e outro de fechamento, auto-centramento, resistência e medo). A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos alimentamos; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-nos conduzir pelo Espírito. O centro é o Espírito. “Dai-lhes vós mesmos de comer”: este apelo nos inquieta, ativa nossa sensibilidade

QUARESMA:  jejum que desperta “outras fomes”

“Tu, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto…” (Mt 6,17) Mais uma vez a Quaresma vem ao nosso encontro e nos convida a recomeçar um caminho novo; talvez seja necessário refazer nossa rota de vida pois nos desviamos por caminhos que levaram a um auto-centramento, à superficialidade, à frieza nas relações com os outros, ao consumismo, ao afastamento da presença de Deus. A vivência quaresmal nos convida a descer até à raiz da vida, à fonte germinal, porque só a partir dali é que podemos construir o fundamento de uma nova vida centrada no seguimento de Jesus. Diante do novo que a Quaresma nos propõe viver, na realidade o que importa não é tanto o caminho pessoal que devemos percorrer (podemos cair num intimismo e numa vivência piedosa sem atitude compassiva diante dos outros). O decisivo são os encontros surpreendentes que acontecem ao longo da travessia do deserto existencial, sobretudo na relação com os pobres, excluídos, aqueles que estão à margem da vida… A Campanha da Fraternidade deste ano quer despertar em nós uma sensibilidade solidária com aqueles que são vítimas de uma estrutura social e política que concentra os bens nas mãos de poucos, de maneira especial os alimentos. “Fraternidade e fome” denuncia a vergonhosa chaga social dos famintos em um país que é grande produtor de alimentos. A fome clama aos céus e ressoa em nosso coração; ela é expressão de uma profunda incoerência dos cristãos que se dizem seguidores d’Aquele que veio multiplicar os alimen-tos. Estamos muito distantes das primitivas comunidades cristãs que “tinham tudo em comum, partiam o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). “Convertei-vos e crede no Evangelho”: este apelo ressoará em todas as igrejas ecomunidades cristãs nesta Quarta-Feira de Cinzas; certamente terá uma ressonância especial em nosso interior, pois irá direto ao mais profundo em nós, ao coração, onde é gerada a confiança que afasta os medos, a aliança que gera relações verdadeiras, a meta que dá sentido à nossa vida. É ali, nas profundezas de nosso ser onde nasce o amor maior, capaz de expandir nossa vida; é ali onde aprendemos a amar ao Tu que nos habita; ali onde aprende-mos que em cada um está presente um desejo de infinito que só o Tu divino pode preencher. É também ali, justamente ali, onde nascem o jejum, a esmola e a oração, ou seja, as atitudes vitais que nos afastam do superficial e nos fazem descobrir o essencial: vida que se faz partilha, amor que se doa, sensibilidade que se compromete. A vivência quaresmal nos faz descer em direção à nossa própria humanidade; ao mesmo tempo, somos também impulsionados a descer em direção à humanidade dos outros; ela visa colocar “ordem” nos nossos afetos, esvazia nosso ego e desperta nossa solidariedade para com tantos irmãos nossos que carecem do mais essencial, em parte, pelo mau uso que fazemos dos recursos da natureza, em parte devido à nossa acumulação e monopolização desmedida deles. Assim, o Tempo Quaresmal nos sensibiliza a viver o verdadeiro sentido das conhecidas “práticas quares-mais”: jejum, esmola e oração.  Tais práticas nos movem a sair do nosso “ego inflado” e entrar em sintonia com os outros, com a natureza e com o Criador; tal experiência ativa em nós a generosidade, o despoja-mento, o verdadeiro sentido da pobreza evangélica e, sobretudo, o sentir-nos irmão com o irmão. Quem sabe partilhar nunca se empobrece, pelo contrário, se enriquece infinitamente. Para que isto aconteça, a liturgia da Quarta-feira de Cinzas nos convida a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, conosco, com os outros e com o mundo. À luz da Campanha da Fraternidade deste ano, o jejum adquire um novo sentido; em primeiro lugar, porque nos associa ao jejum de Jesus; e, em segundo lugar, porque nos inspira a viver uma relação justa e harmoniosa com os alimentos, não nos deixando possuir por eles e nem querendo possuí-los (afeição desordenada). A justa relação com as coisas e os alimentos consiste em reconhecer com gratidão o valor destes dons que Deus criou para suprir as necessidades básicas de todos. Com o jejum aprendemos a conhecer e a ordenar nossos diferentes apetites mediante a moderação do apetite fundamental e vital: a fome. Aprendemos, desta maneira, a regular nossas relações com os outros, com a realidade exterior e com Deus, relações muitas vezes motivadas pela voracidade. Ao mesmo tempo, o jejum nos desperta a “fome essencial”: fome de sentido, fome do Reino, fome em favor da vida. No sentido bíblico, o jejum vai além de um ato voluntário: significa uma “atitude de vida”; ele nos humaniza, nos faz descer do pedestal e nos torna mais sensíveis e solidários; fazer jejum tem sentido quando brota da sensibilidade que evita o desperdício, o consumo desenfreado, o esbanjamento. Na linguagem inaciana, jejuar é “sair do próprio amor, querer e interesse”, ou seja, viver na simplicidade de quem renuncia a um “eu inflado” em favor de um “mundo diferente”, onde predomina a partilha. Jejuamos para crescer; jejuamos para recordar que as “coisas” não são um fim, mas um meio; jejuamos como forma de olhar ao redor e recordar que a realidade é muito mais ampla que nossa própria situação. Jejuar não é “deixar de comer”. É aceitar de maneira consciente que nossos desejos, nossas necessidades, nossos interesses, nossas preocupações não são o centro do mundo. Por isso, jejuar pode ser um convite a ordenar a mente, a pacificar o coração, a serenar os olhos, a guardar a língua…; purificar a tendência ao imediatismo, ao falso moralismo, puritanismo e perfeccionismo. Por lembrar-nos de nossa precariedade, o jejum pode nos tornar sensíveis ao próprio mistério da vida que somos; é colocar em questão a razão de ser da vida. Para quê vivemos? A esmola (“elemosyne”) sempre esteve ligada à compaixão e piedade. Quem partilha “o ser e o ter” revela-se compassivo e misericordioso. Trata-se, fundamentalmente, da inclinação para com os desfavorecidos. A misericórdia (qualidade da esmola) é a atitude própria de quem tem um

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