Sexta-Feira da Semana Santa: as mulheres junto ao Crucificado

“Junto à Cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena” (Jo 19,25) Na vida e missão de Jesus encontramos duas paixões: a primeira é a paixão pela vida, pelo Reino, pelo compromisso em favor dos mais pobres e excluídos. Esta paixão é expressão de uma opção, assumida fielmente por Jesus até o fim. A segunda paixão é a da cruz, imposta pelos poderes religiosos e civis. Ela não é fruto da opção de Jesus e nem faz parte da vontade do Pai. Ela é a visibilização da violência, do ódio, do fechamento frente à proposta de vida revelada por Jesus. No grego, “cruz” é “staurós” e tem dois significados: de um lado, é patíbulo, instrumento de tortura imposta pelos romanos aos rebeldes do império; de outro, significa prontidão, preparado, mobilizado, firme, sólido, estar de pé, ser fiel até o fim… Jesus não buscou a cruz do sofrimento, o patíbulo, a morte violenta… Ele buscou a cruz da fidelidade, da vida comprometida. Nesse sentido, a “staurós-cruz” é vida aberta, expansiva, oblativa, vida descentrada em favor dos outros. Ela não é um evento, mas um modo de viver, pois perpassa toda a vida de Jesus. “Cruz-staurós” é vivida a partir de uma causa: o Reino. Assim entendemos a afirmação de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua ‘cruz-staurós’ cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Significa esvaziamento do próprio “ego” para viver em sintonia com os outros, sobretudo com os mais sofredores. Infelizmente, a história da espiritualidade cristã confundiu “cruz-patíbulo” com “cruz-fidelidade” e acabou gerando uma espiritualidade do sofrimento, da mortificação, da renúncia… como se isso fosse agradável a Deus. A Paixão e Morte de Jesus foi “desconectada” de sua vida comprometida em favor dos pobres e sofredores, dando a impressão que só a “paixão de Jesus” é salvífica. Toda a vida de Jesus é salvação porque é vida que destrava vidas e abre para elas um novo sentido. Com isso, privilegiou-se a “cruz da dor” desligada da “cruz da vida”, do compromisso com o Reino. Tal concepção desembocou numa vivência cristã intimista, farisaica, alienada, descompromissada… Sabemos que o(a) seguidor(a) de Jesus quando vive a fidelidade à “cruz-staurós”, por causa do Reino, pode encontrar a perseguição, oposição e morte, como o próprio Jesus (a cruz patíbulo). Mas Jesus integra a “cruz patíbulo” e revela sua máxima solidariedade com todos os crucificados da história. Por isso, esta Cruz assumida é também visibilização da salvação. Nos relatos da Paixão de Jesus encontramos a presença das mulheres que vivem a “cruz-staurós”, ou seja, vivem a fidelidade ao seguimento de Jesus desde a Galileia. Enquanto os discípulos fogem, elas permanecem “de pé junto à Cruz”, numa atitude solidária e comprometida. A presença delas, certamente, foi um alívio para Jesus no momento trágico de sua vida: sentiu que não estava sozinho, pois suas amigas caminhavam com Ele, sofriam com Ele, morriam com Ele… Os evangelistas nos falam das mulheres muitas vezes; o relato da crucificação revela suas presenças como testemunhas, mediadoras e verdadeiras discípulas. Os relatos de Mateus, Marcos e Lucas coincidem em indicar que as mulheres “contemplavam a cena de longe”. João, “que vê por dentro”, as coloca junto à cruz. Estão ali, precedendo-nos no caminho, e não dizem nada. É seu corpo, são seus gestos, suas mãos, seus olhos, seu silêncio… que falam por elas. A linguagem delas é a linguagem da relação. Se elas podem permanecer nessas circunstâncias, é porque amaram muito. Elas nos falam de resistência e de fidelidade, de uma presença comovedora. Estão juntas, expostas a outros olhares, como comunidade de discípulas em torno a seu Mestre, que lhes ensina, agora sem palavras, uma sabedoria muito maior. Em meio à impotência, não se afastam da dor experimentada ao ver sofrer a quem mais se ama, senão que se expõem ao olhar d’Aquele cujo rosto foi desfigurado. * Quem são elas? De onde tiraram forças para permanecer ali quando outros se afastaram? * Onde estas mulheres encontraram a força para segui-Lo por este caminho do Calvário? Que faziam elas ali, junto à cruz? Realizam alguma ação eficaz? Vão poder impedir a morte de um inocente? Algumas destas mulheres são chamadas por seu nome próprio, ou são identificadas por vínculos de parentesco, ou ainda por ter gerado e acompanhado outras vidas. São as mesmas mulheres que haviam seguido e servido a Jesus na Galileia, e agora o farão também na sua morte. Sobem com Ele ao lugar do abandono e da ingratidão, levantando uma ponte de proximidade e de solidariedade que cruza a totalidade da vida de Jesus. Nem um só instante afastaram seus olhares d’Ele. E o que para uns é escândalo e para outros é loucura, para estas mulheres é uma força de Deus impressionante. Elas têm a coragem de permanecer ali, acolhendo o acontecimento em toda sua crueldade e profundidade; elas estão de pé, enquanto outros desistiram ou se afastaram assustados. A partir deste momento elas vão aprendendo a conviver com a morte, com a d’Ele, com a sua e com a dos outros. Vão aprendendo, precisamente em meio à morte, a “celebrar a vida”, mesmo intuindo que uma lança também as atravessará. Estas mulheres nos ensinam que “subir a Jerusalém” é assumir o conflito e a rejeição por defender os pobres e pequenos; é encontrar a perseguição devido ao compromisso em favor da vida; é saber que os grãos que caem em terra precisam morrer para germinar e multiplicar a vida. E é, também, subir animando a outros. Neste dia, a presença silenciosa das mulheres junto à Cruz nos ensina a compadecer, a abrir o coração e a despertar a sensibilidade solidária diante do sofrimento e da dor humanas. Nós nos humanizamos quando nos deixamos configurar pela compaixão, afetar por ela, ser tocados por ela. E deixar que a compaixão comande nossos atos e decisões. Compaixão, padecer com: esse é o segredo da vida, vivida em plenitude. Solidarizar-nos com o outro naquela situação
Quinta-Feira da Semana Santa: a refeição de despedida

“Estavam tomando a ceia”; “e começou a lavar os pés dos discípulos…” (Jo 13,2.5) Esta foi a prática de Jesus que mais causou espanto e escândalo: a partilha nas mesas com pobres e pecadores. Literalmente, Jesus foi aquele que “virou mesas” de muitas pessoas e fundou uma outra mesa: mesa da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais… Mesa da vida. Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda… que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude… Sair da própria mesa e caminhar em direção à mesa dos outros. Comendo e bebendo com todos os excluídos, Jesus estava transgredindo e desafiando as formalidades do comportamento social e das regras que estabeleciam a desigualdade, a divisão, a exclusão… Jesus revelava uma grande liberdade ao transitar por diferentes mesas; mesas escandalosas que o faziam próximo dos pecadores, pobres e excluídos… Ele não só transitou por outras mesas, mas instituiu a grande Mesa para a festa, a intimidade, a memória: a “mesa do Lava-pés e da Última Ceia”. Ali, Ele “despoja-se do manto” (sinal de dignidade de “senhor”) e pega o avental (toalha, “ferramenta” de servidor). Jesus está no meio dos homens como Aquele que serve. “Despojar-se do manto” significa “dar a vida” sob a forma de serviço. Jesus coloca toda a sua pessoa aos pés dos seus discípulos. O Criador põe-se aos pés da criatura para revelar como ela é amada e como deve amar. O texto joanino nos diz que Jesus realizou o “lava-pés” durante a última Ceia. Todas as refeições tinham o “lava-mãos”. Algumas ceias especiais tinham o “lava-pés” no início como sinal de acolhida e de hospitalidade. Jesus realiza seu gesto enquanto a refeição está acontecendo. Certamente Ele estabeleceu uma relação muito estreita entre o comer e o servir, melhor dizendo, entre a refeição e o serviço solidário. Até Jesus, os convidados para a refeição eram servidos e saíam satisfeitos. A partir de Jesus, os convidados para a refeição servem-se uns aos outros e saem da refeição para servir os outros. O dom recebido é partilhado entre os seus; mas isso não basta, ele precisa ser colocado à disposição de todos, a começar pelos mais carentes. O dom é, ao mesmo tempo, graça e missão. O Evangelho de João, portanto, substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés. Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: o poder do Senhor se converte em capacidade para servir; a autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja”. Com este gesto Jesus desvela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de poder e submissão entre os humanos. Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés, amando até o fim. Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura. Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher. Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as). O “descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor” – Jo 15,15) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos” – Jo 15,15). Deste modo, aqui se revela o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor(a) o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação. A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos(ãs) e amigos(as). O Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaça seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais nos desumaniza, pois alimenta divisão, submissão, obediência infantil… Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável entre seus seguidores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus. O gesto do lava-pés é repleto da “espiritualidade do cuidado”. O cuidado é um diálogo de presenças, não só de palavras. São seres “vulneráveis” que se encontram. O cuidado é expressão de ternura e delicadeza. É atenção às pessoas; é gesto de inclusão. O cuidado é gesto amoroso para com o outro, gesto que protege e traz serenidade e paz. O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que amamos cuidamos. E tudo o que cuidamos é um sinal de que também amamos. Cuidar é envolver-se com o outro ou com a comunidade de vida, mostrando zelo e preocupação. Mas é sempre uma atitude de benevolência que quer estar junto, acompanhar e proteger; é ter espírito de gentileza e ternura para captar e sentir o outro como outro, como original, e acolhê-lo na sua diferença. Lava-pés não é teatro, mas modo habitual de proceder e de estar no mundo. “Tal Cristo, tal cristão”: na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado… O que é “tirar o manto?” Para nós o “manto” poderia ser nossa máscara, nossa redoma, nossa capa de proteção que nos distancia dos outros…; é tudo aquilo que impede a agilidade e a prontidão no serviço… “Tirar o manto” é a atitude firme de quem se
Rede de Educação SSpS realiza encontro de lideranças

Entre os dias 23 e 25 de março, o Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, acolheu mais um encontro das lideranças da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). A abertura, na quinta-feira, foi marcada pela celebração e posse do novo diretor-geral da Rede de Educação, João Carlos Martins. A oração, conduzida pelas irmãs, foi linda e emocionante, um momento de acolher o novo, mas também de relembrar e agradecer por tudo o que foi conquistado até agora. No jantar, também recebemos o novo diretor do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora-MG), Edgard Humberto, e rezamos pela recuperação de nossa querida Clarice, diretora do Colégio Espírito Santo (São Paulo-SP), que esperamos estar conosco novamente, em breve. Na sexta-feira, 24 de março, iniciamos o dia na nova sala de reunião. Apresentamos os dados de sustentabilidade das escolas da Rede. A frase de abertura de João Carlos foi: “Sustentabilidade é uma forma de realizar os sonhos e se constrói com muitas mãos”. Essa foi a primeira vez que contamos com a presença das diretoras dos centros educacionais, e como isso engrandeceu nosso encontro! Nesse momento de discussões e partilhas, percebemos que, apesar das diferentes cidades e realidades, escolas, centros educacionais, nós temos em comum muito trabalho. No sábado, 25 de março, último dia de encontro, a meu ver, foi a “cereja do bolo”. Foi um dia que encheu meu coração ao conhecer o trabalho no Centro de Integração do Migrante (CIM), tendo à frente a irmã Malgarete. Foi uma emoção sem tamanho ver de perto o trabalho missionário incrível com os migrantes que chegam a São Paulo. Experiência oportuna que nos enche de gratidão, certeza e sentimento de um novo olhar para a vida, compartilhado por todos do grupo. Finalizamos nosso encontro em uma visita ao Colégio Espírito Santo, com um belo acolhimento de toda a equipe da escola, preparado por Priscila, gestora administrativa da unidade. Foi muito bonito ver o cuidado em cada canto, em cada detalhe da escola. Assim, o encontro teve seu fim com um olhar para o futuro, traçando metas claras e objetivas, e estudando temas pertinentes, atuais, que serão discutidos ao longo do ano, como a excelência pedagógica, a multiculturalidade e currículo missionário como base de nosso fazer educativo. Tudo isso para mostrar que nossas escolas permanecem mais vivas que nunca. Natalia Oliveira MendesGestora administrativa do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Semana Santa: os grandes momentos de Deus em nossa história

A cada Semana Santa que celebramos, revivemos os maiores mistérios de nossa fé. Na Quinta-Feira Santa, entramos no mistério eucarístico. Jesus institui o sacerdócio e a Eucaristia. Como entender em profundidade o mistério que aí se esconde? Jesus toma pão e vinho, e sem mudar suas aparências e características físicas e químicas, transformam-nos em seu corpo e sangue. Quem deles comunga, come e bebe o corpo e o sangue de Cristo, com gosto de pão e de vinho. Se dissesse a uma criança que ali está Jesus, ela talvez não entenderia, porque ela ainda não consegue “ver” com os olhos da fé. Ela poderia dizer que comeu apenas um pãozinho e nada mais. É preciso estar imbuído da Palavra de Jesus, que afirma que ali é Ele quem está presente, em sua realidade plena. Após a consagração, ao ouvir “isto é mistério da fé”, respondemos, com convicção, que nós reconhecemos, afirmando que ali se realiza a morte e a ressurreição, e aguardamos ansiosamente a vinda de Jesus. O celebrante (padre, bispo, Papa) o faz não em seu nome, mas em nome de Cristo. Jesus conferiu esse poder ao sacerdote pelo sacramento da ordem por Ele instituído na Quinta-Feira Santa. “Todas as vezes que o fizerdes, fazei-o em memória de mim” (1 Coríntios 11,24). Eis aí os mistérios da Quinta-Feira Santa. Na Sexta-Feira Santa, celebramos a paixão e morte de Jesus. Também aí se esconde outro mistério de nossa fé. Quem poderia imaginar que o próprio Deus tomasse corpo humano e o oferecesse livremente à morte de cruz, como prova definitiva de amor por nós, num gesto salvífico que atingiu a todos os que vieram antes de dele e os que nasceram depois ou ainda virão enquanto o mundo existir? Não haverá outra redenção; a de Cristo foi definitiva. A força desse gesto ultrapassa séculos e gerações. É todo o Universo redimido nessa cruz salvadora. No Sábado Santo, celebramos o grande mistério da ressurreição. Cristo ressuscita dos mortos. O crucificado se manifesta vivo diante de testemunhas, que se tornam portadoras de sua mensagem para todos os povos, tempos e recantos do mundo. O “aleluia” proclamado manifesta a alegria do mistério aceito, no qual se coloca todo o sentido da vida e da morte. É um eco que ressoa no universo e canta o hino eterno junto com o coro dos anjos e santos. O “Exultet” (exultem) proclama a grande Páscoa, que não é mais uma passagem por águas oceânicas, mas a que vai para além dos níveis terrenos, alçando-se nos albores eternos. No Domingo da Páscoa, a grande festa cristã se estende para um perpétuo “Dia do Senhor”, recordado em cada Eucaristia celebrada em milhares de igrejas, templos, capelas e outros recantos sagrados. Resplandece, nesse dia de Páscoa, o mistério da ressurreição, que selou para sempre a redenção e a salvação. A Semana Santa, que ocorre cada ano, revive esses grandes mistérios que dão sentido à fé cristã e razão de viver para e dos cristãos. Que os mistérios de nossa fé celebrados na Semana Santa encham sua vida de um “aleluia” alegre e festivo, porque, mais uma vez, podem-se viver os grandes momentos de Deus em nossa história humana. Feliz será você quando vivenciá-la nas celebrações de que participar, celebrando os mistérios de nossa fé! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Jerusalém: uma “praça da alimentação”

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou, e diziam: ‘Quem é este homem?’” (Mt 21,10) Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar da acolhida, ambiente fecundo onde ninguém passaria fome, pois todos teriam o direito de participar da “grande mesa do pão”. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão e justiça, e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar da inclusão e da partilha, onde se cumpririam as esperanças dos povos. Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade…, desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade. Jesus entrou em Jerusalém rodeado pelo povo simples. Este povo, escravo e oprimido, o aclamou porque viu n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação; escutou seus ensinamentos e viu seus feitos durante alguns anos; sentiu-se tocado pelas palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz… Também viu seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de oferta de alimento aos famintos, de reabilitação dos desprezados, de acolhimento dos marginalizados, de denúncia dos opressores… Jesus quis continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galileia; quis também humanizar esta cidade para que ela fosse sol de justiça e paz para todos os povos. Esta é a cidade que Deus deseja: uma praça da alimentação, uma mesa celebrativa para todos. A praça é de todos e todos podem ter acesso a ela, todos podem circular livremente, criar relações e convivência, fazendo a experiência de serem aceitos e reconhecidos como humanos. A mesa, no centro da praça, é lugar de hospitalidade, de festa e de memória, lugar da partilha do pão e dos frutos da terra. Ali ninguém passa fome. Compartilhar a mesa é o grande símbolo da convivialidade, da reconciliação e da inclusão. O ritual da mesa rompe as distâncias e garante a proximidade, estabelece o estreitamento dos vínculos com o diferente. Junto à mesa, cada um se coloca diante do outro, não importando as diferenças de vida, de opções. A comunhão acontece por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem, que distribuem… A mesa da refeição se torna lugar de humanização do ser humano. Espaço de verdadeira reserva de humanidade. Muitos são aqueles que sabem abrir as mãos, partir o pão, saciar a fome do irmão. Com o gesto do “re-partir” se estabelece uma rede de relações entre as pessoas que aceitam conspirar, co-inspirar,o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma causa. E nada fica como estava… encantamento que faz ressuscitar a vida que já estava morta; refeição que transforma os desertos em mananciais de água. Fazer memória da entrada de Jesus em Jerusalém pode ser uma ocasião privilegiada para transitarmos por nossa Jerusalém interior, um bom espaço onde encontrar a nós mesmos, identificar-nos com os diferentes personagens e sentir-nos parte daquela história. O relato da Paixão de Jesus revela ser também a história de cada um de nós. Porque, afinal de contas, é uma história que aconteceu no passado e continua acontecendo também hoje, em nossa interioridade. E é a partir do hoje que nós temos de vivê-la, numa atitude contemplativa. E é a partir de nós, e não a partir daqueles personagens de então, que teremos de assumi-la. Vamos, então, com Jesus montado num jumentinho, transitar pelas ruas de nossa Jerusalém interna, reconhecendo os diferentes personagens que ali atuam e que significam diferentes atitudes vividas por cada um de nós. Cada personagem do evangelho é um espelho onde nos vemos. Jerusalém não é só uma cidade geográfica, situada na Palestina. Domingo de Ramos nos motiva a fazer o percurso em direção à nossa Jerusalém interior. Mas, para descer em direção a esta cidade, é preciso despojar-nos da vaidade, do prestígio e do poder, montado no jumentinho da simplicidade. Nossa Jerusalém interior é também lugar das contradições e ambiguidades; ali dentro experimentamos a trama de relações conflitivas, ali nos deparamos com as angústias, carências e dúvidas… É preciso cuidar o coração da nossa “Jerusalém interior”, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo, transformá-lo em humilde e acolhedor espaço, para que o Espírito do Senhor possa aí descer e habitar, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura… É preciso voltar a pôr o “coração de Deus no coração de nossa Jerusalém”. Faz-se necessária uma opção corajosa, como Jesus, para entrar e estar no interior de nossa Jerusalém, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus, que pulsa no ritmo dos excluídos, dos sofredores, dos sedentos. A Campanha da Fraternidade deste ano quer despertar em nós uma sensibilidade solidária com aqueles que são vítimas de uma estrutura social e política que concentra os bens nas mãos de poucos, de maneira especial os alimentos. “Fraternidade e fome” denuncia a vergonhosa chaga social dos famintos em um país que é grande produtor de alimentos. A fome clama aos céus e ressoa em nosso coração; ela é expressão de uma profunda incoerência dos cristãos que se dizem seguidores d’Aquele que veio multiplicar os alimentos. Estamos muito distantes das primitivas comunidades cristãs que “tinham tudo em comum, partiam o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). Nosso coração deve se revelar como “praça da alimentação”. O lema da Campanha da Fraternidade deste ano – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de
CF 2023: aprendizados práticos sobre o aproveitamento dos alimentos

A Campanha da Fraternidade de 2023 leva para a sala de aula diferentes possibilidades de abordagem do tema “Fraternidade e Fome”. No Colégio Espírito Santo (CES), de Canoas-RS, por exemplo, as professoras do 4º ano do ensino fundamental aproveitaram para relacionar a temática da campanha ao conteúdo trabalhado neste primeiro trimestre, além de sensibilizar os estudantes para a doação de alimentos para famílias e comunidades em vulnerabilidade social, por meio dos projetos desenvolvidos pela escola. Com o livro didático, os alunos aprenderam sobre os nutrientes dos alimentos e a importância do consumo dos diferentes grupos alimentares para o desenvolvimento saudável. “Depois realizamos conversas sobre o reaproveitamento dos alimentos, a fome no Brasil e no mundo, além de situações em que as pessoas não têm como comprar o que comer”, conta a professora Marcia Cardoso dos Santos. Uma estimativa global, elaborada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2011, apontou que cerca 30% dos alimentos produzidos do mundo são perdidos ou desperdiçados a cada ano, desde o cultivo até a comercialização. “No Brasil, toneladas de alimentos, que poderiam ser aproveitados por famílias carentes, são jogadas fora todos os dias”, cita a professora Roberta Estivanin Ferreira. Em casa, o desperdício de alimentos ocorre quando se preparam refeições que não são totalmente consumidas e quando se esquecem alimentos guardados na geladeira e no armário até que estraguem ou que o prazo de validade expire. Além de falar a respeito, os alunos participaram de uma atividade prática com a nutricionista do CES, Vânia Pagliarini Alves. Ela ensinou o preparo de suco com a casca do abacaxi e de batatas assadas com casca, salientando a importância de aproveitar bem os nutrientes. “A cozinha é um lugar de muita criatividade”, afirma. Para o melhor aproveitamento dos alimentos, Vânia salienta que é importante observar as sazonalidades. “Alimentos da estação têm maior disponibilidade de nutrientes e são mais saborosos. Frutas e tubérculos que podem ser consumidas com casca também são uma boa medida, como a maçã e a batata. No caso do abacaxi, laranja, bergamota (tangerina ou mexerica), podemos fazer chá ou suco com a casca”, exemplifica. As sobras de legumes de uma refeição podem ser reaproveitadas como parte de sopas ou de tortas salgadas. “Todo o alimento que não for consumido na primeira preparação e que tiver controle de temperatura e de exposição poderá agregar sabor e valor nutricional em outras preparações, como suflês, tortas, sopas e purês”, diz a nutricionista. As turmas também colaboraram com donativos para o projeto Páscoa Solidária, que entregará cestas básicas para as famílias de pessoas com deficiência atendidas pela Acadef, no bairro Nossa Senhora das Graças, em Canoas. Outras doações também serão distribuídas pelo projeto CES Mãos em Ação em comunidades carentes e pessoas em situação de rua. Conheça, no vídeo a seguir, mais detalhes da atividade. Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.
Missionárias servas do Espírito Santo falam sobre os dez anos do pontificado do Papa Francisco

“Conduzido pelo Espírito Santo, Papa Francisco é um profeta, capaz de chorar por seu povo e também de falar com firmeza quando necessário. Sua coragem e sua autenticidade são virtudes que os cristãos e o mundo apreciam”, afirma a irmã Adriana da Silva, SSpS. Por ocasião dos dez anos do pontificado do Papa Francisco, celebrados em 13 de março de 2023, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) manifestaram suas impressões sobre a missão de Francisco como líder da Igreja Católica. “Desde que assumiu seu pontificado, embora num contexto desafiador, mostrou ao mundo a importância da solidariedade, da esperança e do amor, por meio de documentos, cartas, discursos, catequeses e homilias”, acrescenta Ir. Adriana. De acordo com a conselheira-geral, a indiana Ir. Tressa Sebastian Nayathuda, Francisco tem marcado seu pontificado pelas virtudes da humildade, da simplicidade e da abertura. “Esses valores se tornaram visíveis quando lavou e beijou os pés de 12 pessoas, tanto mulheres como homens, na prisão, pouco depois da sua eleição como Papa”, afirmou. Irmã Hermelinda Ruschel ressalta, ainda, a grande capacidade de Francisco de se comover com o sofrimento humano causado pela guerra, pela pobreza. Ela também destaca a preocupação dele com o cuidado da natureza e enfatiza seu esforço em favorecer que as mulheres ocupem seu espaço na Igreja. “Aprecio muito a sua iniciativa de fazer ouvir a voz das mulheres na Igreja e seus esforços para realçar as contribuições delas”, declara. Para a irmã Maria Inês Aragão, o caminho da sinodalidade proposto pelo Papa Francisco é um convite a responder, de forma mais adequada, aos desafios de uma época turbulenta e conflitiva: “Como bom pastor, orienta-nos dia a dia, com lucidez”. Nascida na Indonésia, missionária no Brasil há mais de dez anos, a Ir. Theodora Illi sublinha: “Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem se mostrado sempre ao lado dos pobres e marginalizados, cheio de ternura para com os que sofrem”. Acrescenta que “embora respeite os dogmas e as doutrinas, é pela vivência do amor que ele tem chegado ao coração do povo”. “O Francisco da misericórdia e da compaixão, acolhedor e atento aos sofrimentos da pessoa. Como pastor zeloso, ensina e orienta o povo de Deus de como vier a sua fé, no concreto da vida”, diz a Ir. Hermelinda Ruschel, de Ponta Grossa-PR. Papa Francisco carrega, em seu nome, o amor pelos pobres e pela criação de Deus, segundo Ir. Juliana de Andrade. “Apesar de estar longe fisicamente, ele se faz tão próximo de nós e nos convida a sermos Igreja em saída que toca o seu povo com misericórdia.” Assista, a seguir, ao depoimento de Ir. Juliana. Dez anos de pontificado Em 2023, a Igreja Católica celebra os dez anos do pontificado do Papa Francisco, o 266º Sumo Pontífice da maior instituição de caridade do mundo, somando 1,2 bilhão de fiéis. Natural de Buenos Aires (Argentina) e eleito Papa em 13 de março de 2013, Jorge Mario Bergoglio é o primeiro Papa não europeu em mais de 1.200 anos. O Papa, ao recordar sua eleição, sempre fala, com reconhecimento e admiração, sobre o amigo brasileiro, Dom Cláudio Hummes, OFM como a inspiração primeira para o nome Francisco. “Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E, quando os votos chegaram a dois terços, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. Ele me abraçou, me beijou e disse: ‘Não se esqueça dos pobres’. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei-me de São Francisco de Assis.” É o primeiro Papa que ousa tomar para si o nome de Francisco de Assis. Assumindo sua identidade espiritual, eclesial, teológica e pastoral, torna-se reconhecido por suas encíclicas que convocam o mundo à fraternidade universal e ao cuidado da Casa Comum, e por desafiar a Igreja à saída de si para uma evangelização ampla, fundada na simplicidade, na pobreza na misericórdia. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.
Os sinais de Páscoa no horizonte da vida

“Eu Sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11,25) O tempo quaresmal caminha para o ponto culminante: a vivência do Mistério Pascal, a celebração da Vida plena, sem as amarras e os condicionamentos que travam o fluir de nossa vida. Tal como um sentinela, situado numa posição estratégica, já estamos vislumbrando no horizonte os sinais da Páscoa. Por isso, a liturgia deste domingo nos traz um relato inspirador, onde Jesus se revela como a Porta da Vida. Cruzar essa porta é apelo Seu, mas é decisão nossa empurrá-la suavemente para dentro e avançar em direção à vida que, a partir do mais íntimo, deseja ser despertada e vivenciada em plenitude. No contexto anterior à ressurreição de Lázaro, aparece de novo o tema das obras, desta vez em relação com o verbo crer: “Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheceis que o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10,37-38). Na cena deste domingo, Jesus vai realizar a obra por excelência do Pai que é comunicar Vida, destravando-a das faixas e tirando-a do túmulo da morte. A beleza e a sabedoria do relato deste 5º Domingo da Quaresma consistem em integrar, na pessoa mesma de Jesus, uma dupla afirmação: “Jesus chorou” e “Eu sou a ressurreição e a vida”. Essa é, justamente, nossa condição humana: somos seres frágeis, sensíveis, a quem nos afeta o que acontece e, ao mesmo tempo, somos Vida que se encontra sempre a salvo. Nós nos percebemos como pura necessidade e carência – portanto, vulneráveis -, mas, ao mesmo tempo, somos plenitude à qual nada lhe falta. Como Jesus, somos, ao mesmo tempo, sensibilidade – por isso choramos -, e somos Vida. E isto é o que na tradição cristã se expressou com o termo “ressurreição”. Assim fez Jesus em Betânia: mostrou sua vulnerabilidade humana frente o amigo “que dorme”. A morte será sempre uma história de dor e lágrimas. Quem não experimentou dor diante do sofrimento e morte de um ser querido? Quem não se sentiu, como Marta e Maria, em muitos momentos? Também Ele sente os golpes da vida, sente a dor de quem perde um irmão e se faz solidário. O sofrimento pode nos despertar para a dimensão de profundidade da realidade e de nós mesmos. Mas necessitamos passar por um processo de transformação para que o sofrimento e a dor nos abram ao Mistério e não nos afundem no desespero. Jesus vai ajudar Marta e Maria a passar por este processo. Voltar à casa de seus amigos, num momento em que eles estão tão feridos, supõe também a Jesus deixar-se ferir. Algo terá Ele que perder para dar-lhe ao amigo. A amizade nos faz vulneráveis: “Mestre, ainda há pouco, os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”. Jesus vai abraçar a perda de seu amigo até o fundo; e quando a dor e a perda se abraçam, deixam de ser nossos inimigos. “Ficou interiormente comovido e se aproximou do túmulo”, que um dia acolherá também seu corpo. Percorreu assim o caminho que depois percorreriam as mulheres depois de sua morte. As perdas, a dor, a morte, aproximam uns dos outros. Marta e Maria já não estão numa relação de competição nem de rivalidade, e enviam, juntas, uma mensagem a Jesus. Mensagem que revela uma confiança profunda nas possibilidades do amor: “Senhor, aquele que amas está doente”. Não lhe dizem “nosso irmão”, porque querem vinculá-lo a Jesus. A amizade leva-as a crer nas possibilidades latentes no amigo, em seu potencial ilimitado, em sua capacidade de amar e ser amado, em toda a novidade que quer irromper nele. E é nesta situação de vulnerabilidade onde Marta se deixa ordenar e faz sua aprendizagem de verdadeira discípula. Que foi aprendendo Marta desde aquela vez que pedia ajuda à sua irmã? Agora é uma mulher que cresceu e que se atreve a expressar uma petição maior, não mais para si mesma, mas para seu irmão, e diz a Jesus: “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido… Mesmo assim, eu sei que tudo o que se pede a Deus, Ele te concederá”. Este contato com seu amigo Jesus, num momento em que ambos compartilham a dor pela perda da pessoa querida, vai fazer Marta amadurecer. Daí em diante será uma mulher desperta, capaz de despertar a outros, e por isso pode dizer à sua irmã: “O Mestre está aí e te chama”. Jesus foi “traído” pelo seu afeto. Aquele que é o Senhor da Vida, o vencedor da morte, tem um coração que ama como o coração do irmão mais fiel, do pai mais sensível… Jesus é atingido pela dor, é agitado por uma perturbação que brota de dentro dele mesmo e que não consegue controlar; a causa da sua emoção é a presença trágica da morte nos que o rodeiam, mas também com a sua morte iminente, que será devastadora. Diante da morte, todos sentimos nossa impotência. Queremos que o enfermo fique curado e viva. A ciência médica hoje pode ampliar alguns anos de nossa vida, mas, no final, a morte termina vencendo o enfermo. No texto evangélico deste domingo, Jesus, na força do Espírito, comanda a ação: pede às pessoas que afastem a pedra e que soltem as amarras de Lázaro, para que ele possa andar. A ação de Jesus é expansiva, pois mobiliza as pessoas para que, por meio de sua cooperação, a vida seja destravada. A vida com as amarras da fome, da exclusão, da violência… não pode ser chamada de vida. Diante de uma sociedade que se especializa em impor pesadas pedras e faixas imobilizadoras, defender a vida é caminhar na contramão de tudo que nos diminui como seres humanos. Há ainda aqueles que vivem a resignação do “quarto dia”,o dia da morte da esperança (para o judeu, o 4º dia representava o começo da decomposição do corpo).
Irmã Roselene Ventura terá experiência missionária nas Filipinas

Alunos e professores do 4º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em Canoas-RS, lotaram a Paróquia Nossa Senhora das Graças, na manhã de 23 de março, para participar da missa de envio da irmã Roselene Ventura. Em abril, ela parte para uma experiência missionária de seis anos nas Filipinas. A celebração também promoveu o 3º Ano Vocacional do Brasil, convidando os estudantes a conhecerem mais sobre as quatro vocações: vida religiosa consagrada, ministério ordenado, matrimônio/família e laical. Natural de Rondônia, Ir. Roselene sentiu seu chamado vocacional quando ela tinha por volta de 18 anos. A preparação para ingressar na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo iniciou-se em 2008. Em 2020, ela fez a sua consagração definitiva, com os votos perpétuos. “A experiência missionária ocorreria logo após os meus votos perpétuos, porém, em função da pandemia, acabou sendo adiada”, conta. No Colégio Espírito Santo desde 2021, Ir. Roselene atuou como professora de Ensino Religioso, no programa Escola da Inteligência, na Pastoral Escolar e em outras frentes de trabalho, como o grupo CES Mãos em Ação. “A missa de envio foi um momento emocionante e surpreendente. Tudo o que fiz na escola foi com amor, carinho e dedicação. O afeto tão puro e verdadeiro das crianças e dos jovens são um ânimo a mais para a missão”, afirma a religiosa. O embarque para as Filipinas está previsto para o dia 11 de abril. “Ficarei em Cebu. Os primeiros meses são para aperfeiçoamento dos idiomas inglês e cebuano, que é a língua local”, diz a irmã. Depois disso, ela será enviada para as frentes de missão nas áreas da educação e pastorais. “Será uma oportunidade de aprender com a experiência de lá e de conhecer outras frentes de missão antes de retornar para a Província Brasil”, comenta. Veja o vídeo da missa de envio e assista também ao vídeo com depoimentos das irmãs missionárias servas do Espírito Santo sobre a vocação à vida religiosa. 3º Ano Vocacional O 3º Ano Vocacional se iniciou no dia 20 de novembro de 2022 e terá conclusão em 26 de novembro próximo. Neste período, diferentes iniciativas buscam promover a cultura vocacional nas comunidades, nas famílias e na sociedade, a fim de despertar todas as vocações, como graça e missão, a serviço do Reino de Deus. Com base no tema “Vocação: graça e missão” e no lema “Corações ardentes, pés a caminho”, toda a comunidade escolar do Colégio Espírito Santo é chamada a estar com Jesus e a assumir a missão recebida dele. Edições anteriores O primeiro Ano Vocacional foi realizado em 1983 e mobilizou todo o povo de Deus na reflexão vocacional, aprofundando o tema “Vem e segue-me”, recordando que o chamado de Jesus é personalizado, e a resposta é pessoal. Em 2003, um novo Ano Vocacional foi celebrado. O tema “Batismo, fonte de todas as vocações” desejou avançar na reflexão vocacional na Igreja, compreendida com uma assembleia de vocacionados e vocacionadas. O sonho foi de uma Igreja com fisionomia vocacional, em que todos foram e são convocados pela Trindade ao serviço em favor da vida e da humanidade, e, assim, consciente do chamado à missão, pudessem agir com ânimo e coragem em sua ação evangelizadora. Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.
Narcisismo em tempo de Quaresma

Refletindo sobre a proposta da Igreja Católica para a Quaresma, a de viver um tempo de sobriedade por meio da oração, do silêncio e da abstinência, e olhando a dificuldade das cidades, inclusive onde moro (que tem 14 mil habitantes somente), indiferente diante desta proposta; olhando perplexo (sempre) aos apelos da mídia em tempo de carnaval, pré-carnaval e pós-carnaval, achei oportuno refletir sobre este tema da Psicologia: o narcisismo. Esse conceito foi mencionado por Freud em 1910. A Psicologia define o narcisismo quanto às duas fases: conforme o desenvolvimento saudável e o patológico. O desenvolvimento saudável é descrito como narcisismo primário. Este é identificado nos primeiros meses do desenvolvimento do bebê, no relacionamento com os pais, especialmente com a mãe. É elemento constitutivo do amor-próprio e da autoestima; portanto, destinado à autopreservação do sujeito e formação dos laços sociais. Já o narcisismo patológico, é encontrado no estudo das neuroses, perversão e psicose (Araújo, 2010). Assim, o que vemos na mídia, nos tempos atuais, é a manifestação de um narcisismo patológico, marcado pela necessidade de ser visto, notado e curtido. Nas redes sociais, cresce o número de digital influencers, cujo pesadelo é a possibilidade de perder seguidores ou serem cancelados. No carnaval, há uma neurose em relação ao corpo que vai ser exibido nas ruas, praças, avenidas e programas de tevê, tanto em pequenas cidades como em metrópoles. Gastam-se uma fortuna para realizar cirurgias plásticas, para mudar o formato do corpo. Absurdamente, faz-se harmonização facial em adolescentes de 15 anos, que ainda nem têm o corpo definido pela natureza. Num certo programa de tevê, um jovem brasileiro, que naturalmente corresponde ao padrão de beleza europeu, gastou mais de 100 mil reais para ficar parecido com um boneco chamado Ken. Outra “celebridade” aplicou substâncias gelatinosas nos glúteos para ficar famosa por ter os maiores glúteos do mundo. Outras não aguentam mais o peso dos seios aumentados, têm dores de coluna. Todos estão cientes do risco de morte que correm, mas, mesmo assim, atribuem a Deus a proteção que esperam. Nem percebem que estão brincando de serem Deus, assim como a Eva e o Adão da Bíblia. Os narcisistas patológicos estão entre nós. Eles estão na sociedade, na política, na religião, na vida consagrada, na vida sacerdotal, no trabalho e dentro de casa, na família. Uma ou outra destas características podem servir para identificá-los: insegurança, sentimento de superioridade, falta de empatia, necessidade constante de admiração e atenção, sensação de ser o centro de tudo e de todos, notável superficialidade, manipulação, grandiosidade, papel de vítima, agressividade, etc. O período da Quaresma é um tempo que inevitavelmente nos faz refletir sobre esse conceito. Para os cristãos católicos, este é um momento de nos converter, nos fortalecer espiritualmente contra essa patologia que chamamos de uma das tentações de Jesus no deserto: a tentação do ser. Para os nãos católicos ou não cristãos, este momento pode ser chamado de vacina contra esse mal, ou mesmo como antídoto. O fato é que a pedagogia que a Igreja usa, celebrar este tempo litúrgico logo após o carnaval, ajuda-nos a refletir sobre o sentido de nossa vida aqui neste mundo. Para se fortalecer contra a tentação que, na Bíblia, venceu o primeiro homem e a primeira mulher, a tentação de dispensar Deus, sendo igual a ele ou pondo-o a serviço da humanidade, Jesus se fortalece pelo esvaziamento, pela oração e pela penitência. É oportuno destacar também o fato de a tentação ter se manifestado justamente no momento em que Jesus sentia fome. Podemos associar esse momento, hoje em dia, ao vazio existencial, à fome de ser amado, de encontrar sentido na vida, que leva muitas pessoas a tentar preenchê-lo com o exibicionismo ou egocentrismo, com elementos externos e até mesmo pondo Deus a seu serviço. Isso nos leva a outro conceito filosófico, o hedonismo, que merece um artigo à parte. Como lidar com um narcisista neurótico? A primeira sugestão é convencê-lo a procurar ajuda terapêutica para ser diagnosticado quanto ao grau de seu narcisismo. Embora se acredite não haver cura para essa patologia, ela pode ser amenizada, buscando-se o autocontrole das ações para evitar danos a terceiros. Quando se trata de amigos, namorados ou namoradas, colegas de trabalho ou de estudo, o afastamento pode ser uma maneira de se autopreservar e preservar de danos à sua autoestima. No entanto, quando se trata de parentes, como pai, mãe, filhos ou irmãos, é preciso buscar até mesmo a ajuda terapêutica para se conscientizar de que o problema não está com você, como o próprio narcisista sugerirá quando confrontado. Para os religiosos, busque na espiritualidade, especialmente no estilo de vida de Jesus Cristo, o “antídoto” para esse mal, essa tentação. ReferênciaAraújo, M. G. (2010). Considerações sobre o narcisismo. Estudos Psicanalíticos, 34, 79-82. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.