Páscoa: da estrada para a casa, da casa para a mesa

“Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía” (Lc 24,30) Todos temos experiência que o passado carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, decepções, rejeições, erros, pecados… Os desencontros, quebras e rupturas… costumam deixar feridas. Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente.  Com isso, ela se torna “memória mórbida, doentia”: depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades…; ao se fixar no passado, a “memória mórbida” alimenta remorsos, sentimentos de culpa, desânimo, angústia…, embotando a vida, queimando energias, paralisando a pessoa e não abrindo futuro de sentido. Pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos… Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia. Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória. Somente através da “memória redentora”, a pessoa será capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberto, dando-lhe um novo significado. A memória sadia não muda o passado, mas “re-corda” (visita com o coração) de modo novo e inspirador. A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado; ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e possibilita ter acesso às recordações não neutras, mas aquelas que têm um significado para o presente. Ela é capaz de tirar proveito de todas as vivências pessoais (nada é descartado, tudo é integrado); abre possibilidade para rever a própria história e lê-la como História de Salvação. A cena do encontro de Jesus Ressuscitado no caminho de Emaús nos revela um longo diálogo amigável, que certamente ficou marcado na memória dos dois discípulos que fugiam de Jerusalém, após o evento da Paixão. Tudo o que havia acontecido com Jesus continuava presente na memória e no coração dos dois discípulos. Conversavam sobre o que significou para eles o encontro com Jesus, a convivência com Ele, o fascínio exercido sobre eles pelo anúncio do Evangelho e pela esperança da libertação de Israel. Conversavam e discutiam também sobre a crucifixão e a morte de Jesus. No fundo do coração dos discípulos, havia um grande vazio que, inconscientemente, queriam preencher “conversando”. Estavam confusos e desorientados, mas não se separaram; não conseguiam entender-se, mas continuavam a caminhar lado a lado e a conversar; uma conversa carregada detristeza, sem sentido, um diálogo de fracassados que não levava a lugar nenhum. Foi justamente no meio desta “conversação”, triste e sem esperança, que o Ressuscitado se fez presente. O Forasteiro, ao juntar-se a eles no caminho, ajudou-os a recontar a história, gentil e gradualmente. Partindo dos relatos bíblicos, o Ressuscitado foi aquecendo o coração dos dois discípulos para que eles pudessem reinterpretar e ressignificar os fatos que tinham “acontecido em Jerusalém” até surgir uma nova perspectiva. Lentamente, eles foram fazendo a “travessia” de uma memória pesada, triste, doentia… a uma memória saudável, curativa e aberta ao futuro. As viagens que fazemos em direção à reconciliação com nosso passado, muitas vezes, se parecem com a viagem dos discípulos de Emaús. Na maioria das vezes, procuramos fugir da dor do passado e não sabemos para onde nos dirigimos. A viagem torna-se tediosa e pesada, marcada pelo fracasso e carregada de culpa, pois parece que não chegamos a lugar algum, embora nos movimentemos o tempo todo. É como estar preso a um moinho que nos mantém em movimento, mas não nos faz sair do lugar. Reler o passado à luz de um horizonte maior de sentido é altamente libertador; novos recursos internos são mobilizados e a vida começa se movimentar, saindo do “fatal ponto morto”. As lembranças e os pesadelos dos relatos traumáticos sempre reaparecem e, apesar da passagem do tempo, permanecem tão nítidos e incontroláveis. No entanto, é preciso iluminá-los e situá-los no contexto dos relatos da História da Salvação. Só assim tudo adquire novo sentido, a história pessoal deixa de ser inimiga que alimenta culpa e torna-se companheira de estrada. Quando alcançamos uma nova perspectiva sobre determinada experiência traumática ou frustrante, a esperança e o entusiasmo por viver vem habitar nosso interior. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremecemos reverentes diante do que vemos. A narrativa de Emaús é um dos melhores exemplos de como podemos colocar nossas histórias dentro da História maior da paixão, morte e ressurreição de Jesus. “A Páscoa ocorre quando encontramos em Jesus não um amigo morto, mas um forasteiro vivo” (Rowan William).  Na narrativa de Emaús, o Forasteiro cria um círculo de amor em que os discípulos contam sua história em segurança e começam a reconstruir a confiança. Foi criado um ambiente de hospitalidade e acolhida. Nesse círculo, a memória manifesta-se paulatinamente e revela suas feridas; lentamente, acontece uma “passagem” da memória mórbida à memória redentora. A experiência do encontro com o Senhor e de seu reconhecimento transforma radicalmente a vida dos dois discípulos. O itinerário da fé pascal é longo e penoso, mas realiza uma verdadeira reviravolta nos pensamentos e sentimentos, nos ideais e na conduta daqueles que o percorrem até o fim. Por meio da benção e do ato de partir e compartilhar o pão, os discípulos fazem a ligação com o passado. Chega o momento do reconhecimento, e eles se transformam. Cheios de estímulo e esperança, e também de um novo propósito, apressam-se a voltar para Jerusalém, a fim de partilhar a nova descoberta. Que representa para nós a experiência de Emaús?  É na estrada que essa história começa a se desenrolar. O nó do problema não é a situação de fracasso de Jesus, como os discípulos pensam; o que está verdadeiramente em foco é a situação deles. Não é Jesus que desaparecera, eles é que ainda não conseguem vê-Lo e reconhecê-Lo, prisioneiros de uma tristeza e de uma cegueira tal que os impediam de aceitar a condição pascal de Jesus. Também eles precisam passar pela experiência de

Terra, vida e o extraordinário de nossa própria existência

A existência do planeta, assim como a nossa, é extraordinária. Se apenas uma das variáveis que sustentam o equilíbrio do sistema Terra entrasse em colapso, a vida, como a conhecemos, não existiria. O maravilhamento é ainda maior quando consideramos que o planeta orbita em torno do Sol e que o Sistema Solar do qual fazemos parte viaja em torno da Via Láctea. Enquanto o globo gira pelo Universo, dedicamos nossos dias a acumular sem compartilhar, numa sociedade que, por cobiça, flerta com o desequilíbrio do sistema e das condições de vida. Só tardiamente, na metade do século XX, com a evidente degradação do planeta e dos consequentes riscos para nossa espécie, começamos a reconhecer nossa pegada ecológica sobre o planeta. Rachel Carson fez do meio ambiente e da interconexão com a vida seu tema de literatura. Publicada entre 1941 e 1962, a talentosa escritora é creditada como uma das raízes do movimento ambientalista. Seus primeiros títulos Sob mar-vento e Mar que nos cerca, com graça, traduzem para leigos o conhecimento produzido por cientistas. Primavera silenciosa, seu último livro, mantém a escrita elegante, mas denuncia a destruição e os riscos decorrentes da imprudente ação humana sobre o solo, o ar, o mar e a vida ali abrigada. Na década de 1970, o surgimento de organismos e movimentos mundiais pela defesa do planeta foi mais expressivo. James Lovelock, uma das referências de Leonardo Boff para a ética do cuidado com a Mãe Terra, idealizou a teoria de Gaia, concebendo o planeta como um organismo vivo e autorregulador. Ao apresentar sua teoria, Lovelock recorreu às imagens espaciais que retratavam o globo azul flutuando na imensidão do Universo, revelando uma fragilidade que também é nossa. Na mesma década, a criatividade a serviço do mercado e dos processos industriais sofreu duras críticas por Victor Papanek, defensor de tecnologias de projeto atentas aos desafios ambientais e sociais. O tom crítico também está nas imagens em preto e branco do economista e fotógrafo Sebastião Salgado, que, com sua companheira e produtora Lélia Wanick Salgado, deu à luz o projeto mais consagrado: Êxodos. Entre as imagens, estava a mina de Serra Pelada, mostrando a ocupação humana à semelhança de um formigueiro mobilizado pelo ouro. Adoecido pelo registro da crise ecológica e da desigualdade humana, Salgado buscou restabelecimento fotografando a natureza e comunidades humanas em recantos intocados da Terra. A esse projeto nomeou Gênesis. Os livros bíblicos Gênesis e Êxodo, os projetos de Salgado, assim como as ideias dos ambientalistas entrelaçadas no texto, desvendam a fragilidade da vida e o quanto ela é dependente do planeta, das criaturas, da relação de carestia e fartura, e das condições climáticas. Comparando nosso tempo de vida com a duração da existência do Universo e da Terra, nossa passagem é efêmera: um piscar de olhos! Mas, a partir de um olhar de espiritualidade e solidariedade para além de nossa individualidade, somos um dos elos entre os que vieram antes e virão depois de nós. Tal consciência nos leva a uma decisão: aqui, na Terra, queremos existir apenas o tempo que nos foi concedido individualmente ou ter em perspectiva a pluralidade e as futuras gerações? Honrar condições de vida para quem vem depois de nós também é uma forma de escolher a eternidade e compreender o clamor da Terra.____________________ ReferênciasBOFF, Leonardo. O cuidado necessário. Petrópolis: Vozes, 2012. CARSON, Rachel. O mar que nos cerca. São Paulo: Gaia, 2013a. CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2013b. CARSON, Rachel. Sob o mar-vento. São Paulo: Gaia, 2013c. GÊNESIS. In: Bíblia sagrada. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50. GEOGRAFIA E ENSINO DE GEOGRAFIA. Lisboa. Disponível em: https://www.geografia-ensino.com/. Acesso em: 27 mar. 2023. LOVELOCK, J. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979. OS OBJETIVOS LAUDATO SI’. Disponível em: https://plataformadeacaolaudatosi.org/objetivos-laudato-si/. Acesso em: 27 mar. 2023. PAPANEK, V. Designing for the real word: human ecology and social change. Chicago: The University of Chicago Press, 1971. PAPANEK, V. The green imperative: ecology and ethics in design and architecture. London: Thames and Hudson, 1995. SALGADO, S. Sebastião Salgado quase desistiu da fotografia depois do projeto Êxodos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1coxzr_gdQ8 Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e Relações de Uso em Contexto de Crise Ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

Roraima: irmãs SSpS relatam como foi a 52ª Assembleia-Geral dos Povos Indígenas

“Onde uma ou mais SSpS estiverem reunidas, aí estarão as SSpS do mundo inteiro” Foi com esse sentimento de pertença à Congregação, que nós, irmãs Aurélia e Madalena, estivemos presentes na 52ª Assembleia-Geral dos Povos Indígenas de Roraima, realizada entre os dias 11 e 14 de março deste ano, no Centro Regional Lago Caracaranã, Terra Indígena Raposa Serra do Sol, tendo como tema “Proteção territorial, meio ambiente e sustentabilidade”. Para nós, missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) atuando na missão aqui em Roraima, é de fundamental importância participar, ativa e integralmente, de todas as atividades e eventos dos povos indígenas, desde as instâncias comunitárias, regionais, estaduais e, quando possível, também a nacional. A Assembleia contou com a participação dos povos Macuxi, Wapichana, Sapará, Taurepang, Patamona, Wai-Wai, Ye’kwana, Yanomami e Ingaricó. Também teve, como sempre, a presença dos parceiros e parceiras, entre eles, a Diocese de Roraima, a Pastoral Indigenista, o CIMI Regional e Nacional, e representantes de organizações indígenas (OMIR – Organização das Mulheres Indígenas de Roraima; OPIR – Organização dos Professores Indígenas de Roraima; APITSM – Associação dos Povos Indígenas da Terra São Marcos; Hutukara – Associação Yanomami e Ye’kwana; APIW – Associação dos Povos Indígenas Wai-Wai; Coping – Conselho dos Povos Indígenas Ingaricó; e CIR – Conselho Indígena de Roraima), totalizando mais de 2 mil pessoas. Participaram ainda a Funai Nacional e Estadual, e o Ministério Público Federal em Roraima. Cada povo indígena teve a oportunidade de informar-se sobre suas atividades e planos de vida, bem como avaliar sua caminhada como organização diante dos cenários federal, estadual e municipal, durante os últimos quatro anos. Percebe-se que há vários pontos comuns entre as diferentes regiões, tais como a medicina tradicional, os PGTA (Planos de Gestão Territorial Ambiental) e a proteção territorial, por meio dos GPVTI (Grupo de Proteção e Vigilância Territorial Indígena). As lideranças Yanomami ressaltaram a atual situação, cruel e desumana, pela qual estão passando, destacando a morte dos rios, das florestas, da terra e o grande número de mortes, especialmente de crianças. Disseram que é preciso salvar o Povo Yanomami, que passou pelo processo de extinção durante os últimos anos. A esperança deles é a atuação do atual governo, que instalou uma grande força-tarefa nacional para reverter essa situação de morte que se agravou com a liberação geral do garimpo e do desmatamento descontrolado. É consenso de todo o movimento indígena e de todos os movimentos sociais que sejam retirados todos os invasores, especialmente os garimpeiros que já causaram tantas tragédias à Mãe Terra. Um momento muito forte e importante aconteceu no terceiro dia da assembleia, tendo como pauta principal a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado de Janja, primeira-dama, de alguns ministros e outras autoridades: José Múcio Monteiro (Defesa), Nísia Trindade (Saúde), Sônia Guajajara (Povos Originários), Márcio Macedo (Secretaria-Geral da Presidência), Paulo Pimenta (Secretaria de Comunicação Social), Ricardo Weibe Tapeba (Secretaria Especial de Saúde Indígena – Sesai), Joênia Wapixana (presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas). Foi a primeira vez que um presidente participou de uma Assembleia Indígena de Roraima. Em seu discurso, o presidente reafirmou o compromisso de retirar todos os garimpeiros e invasores da Terra Indígena Yanomami e de todas as terras indígenas do Brasil. Ele ressaltou que apenas 14% do Brasil está ocupado por indígenas, sendo que 100% do território brasileiro já foi dos povos originários. Lula visitou e prestigiou também a feira agrícola realizada durante a 52ª Assembleia, onde ele pôde constatar a riqueza da produção 100% orgânica e sustentável. Ele se comprometeu em liberar investimentos para as produções dentro das terras indígenas. Toda a segurança do presidente e da comitiva foi feita pelo Grupo de Proteção e Vigilância Territorial Indígena. O movimento indígena não aceitou o aparato de segurança oferecido pelo governo do Estado de Roraima. Pelas mãos de uma jovem e uma criança indígenas, foi entregue nas mãos do presidente uma carta com as demandas dos povos indígenas de Roraima, referentes à saúde, educação, medicina tradicional, proteção territorial, retirada de garimpeiros, valorização da cultura, tradição, território e sustentabilidade indígena. Outro momento marcante da Assembleia foi a tomada de posse simbólica do novo coordenador do Distrito Sanitário Leste, órgão que até então sempre esteve nas mãos de apadrinhados de grupos políticos do Estado. Desta vez, foi o próprio movimento indígena que indicou Zelandes Patamona como primeiro coordenador indígena do DSEI Leste. Outra vitória foi a posse simbólica de Marizete de Souza Macuxi como coordenadora da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai-RR), cargo que também sempre esteve nas mãos de apadrinhados políticos. Para nós, missionárias servas do Espírito Santo, participar da Assembleia-Geral dos Povos Indígenas de Roraima constitui um momento forte de aprendizado, experiências, parceria, espiritualidade e fortalecimento na opção pela causa indígena, que é de todas nós. A luta continua, unidas venceremos! Sangue indígena, nenhuma gota a mais! Povo unido jamais será vencido! Diga ao povo que avance, avançaremos! Se Deus é por nós, quem será contra nós? Demarcação já! Irmãs Aurélia Prihodová e Maria Madalena HoffmannMissionárias servas do Espírito Santo, Alto Alegre-RR

Interculturalidade: uma dimensão contemplativa

A contemplação diária do Divino perpassa pelas diferentes expressões culturais, as quais nos conduzem à abertura ao novo, a uma dimensão sinodal. Quando refletimos sobre a interculturalidade, logo pensamos que esse processo pode resultar em significativos benefícios sócio-histórico-religiosos; ou, pelo contrário, pode deixar marcas negativas, que, muitas vezes, tornam-se questões inconciliáveis. Ao trabalhar em uma escola de ensino médio, na cidade de Tocantínia-TO, na qual quase 50% dos estudantes eram da etnia Xerente (Akwẽ), percebi que existe uma via de mão dupla na dimensão intercultural. A começar pela comunicação visual, linguística e comportamental. Para esse processo, existe a necessidade de acolhida e abertura de ambas as partes. Como todo grupo humano, boa parte dos povos indígenas está mergulhada na influência do consumismo, mercantilismo, tecnologia e mudanças drásticas de costumes e valores originários, o que altera significativamente as raízes culturais. Porém, é importante, para quem tem a missão e deseja “con-viver” com outra cultura (neste caso, indígena), dispor-se à prática do respeito, da humildade, da abertura para o aprendizado, livre de preconceitos. Dispor-se à compreensão da humanidade presente em cada uma dessas pessoas-cidadãs-filhas de Deus. Segundo o professor indígena Valteir Tpêkru Xerente (licenciatura intercultural e mestre em Letras – Ensino de Língua e Literatura), para quem quer se aproximar do indígena, é necessário ter interesse em conviver com esse povo. “É preciso conhecer a cultura por meio de pesquisas, ouvindo as histórias dos antigos, aproximando-se da realidade, convivendo dia a dia. E isso começa pelo aprendizado da língua, que é a identidade de um povo.” Por mais justo que seja o argumento linguístico, isso nem sempre é possível, por inúmeros motivos: estrutura física, financeira, recursos humanos e tempo, o aprendizado de uma nova língua para se criar laços de interculturalidade. Por isso, contemplar e valorizar, com a alma, os olhos e as mãos, uma nova cultura poderá tornar-se a linguagem que mais aproximará seres de uma única espécie e destino. Miriam de SouzaProfessora de Linguagem e missionária leiga.

Ressurreição: uma alegria com cicatrizes

“… e mostrou-lhes as mãos e o lado; então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (Jo 20,20) Este 2º Domingo de Páscoa revela-se como o domingo dos dons pascais: o dom da paz, como reconciliação do Ressuscitado com os seus discípulos; o dom do Espírito Santo que os recria como seres humanos novos; o dom da missão que os faz continuadores da obra de Jesus; o dom do perdão como expressão do amor pascal da e na comunidade; o dom da fé como adesão Àquele que é Vida; o dom da comunidade como lugar visível da presença do Ressuscitado. Durante a paixão e morte de Jesus quase todos falharam: uns fugiram ou se esconderam, outro o traiu, um outro o negou abertamente, afirmando não ser seu discípulo ou conhecê-lo. Por isso, no encontro com o Ressuscitado, eles se sentem envergonhados e temerosos. E a primeira coisa que o Ressuscitado faz é devolver-lhes a alegria da reconciliação, ativando neles o dom da paz e do consolo. Além disso, era preciso reconstruí-los por dentro; por isso, “soprou sobre eles” o dom do Espírito Santo, recriando-os. Se na criação Deus soprou nas narinas de Adão tornando-o um ser vivente, agora o Ressuscitado sopra sobre eles e não só comunica o dom da vida, mas seu próprio Espírito, tornando-os “homens novos da Páscoa”. E lhes confia a continuidade da missão que o Pai lhe havia encomendado. Jesus também é consciente de que, apesar de tudo, seus amigos continuam sendo homens limitados e frágeis e lhes deixa o maravilhoso dom do perdão, capaz de reconstruí-los e de reforçar os vínculos comunitários. Jesus ressuscitado não criou algumas estruturas nas quais a nova comunidade pudesse se mover e se organizar. Ele despertou um dinamismo interno capaz de mobilizar a nova comunidade dos seus seguidores. Por isso, o primeiro dia da semana é o “domingo da comunidade”. Quase todas as aparições pascais têm lugar na comunidade. Jesus começa por curar e pacificar sua comunidade; uma comunidade enferma por sua infidelidade, seus medos e covardias; agora, uma comunidade curada e reconciliada já na primeira aparição. Mas alguém está ausente da comunidade: “Tomé não estava com eles”. Continua ferido e enfermo. E a comunidade se dá conta; não o exclui, pelo contrário, o protege. A comunidade procura integrá-lo, levantando-lhe o ânimo: “vimos o Senhor!”. “Está vivo; alegra-te conosco!”. Mas Tomé não acredita neles; também ele quer ver o Senhor como os outros. Também ele quer ser curado pelo Ressuscitado. Com suas “feridas”, o Ressuscitado cura as feridas de cada um da comunidade. Na segunda aparição destaca-se a presença de Tomé. Também ele vê; e o que os outros não fizeram, ele consegue tocar aquelas mãos chagadas. É o único que consegue pôr o dedo na chaga do lado. Mas terá que estar presente na comunidade. Tomé não pecou contra Jesus; ele pecou contra a comunidade, pois não acreditou no testemunho dos seus companheiros de discipulado. Por isso Jesus o resgata e o faz proclamar publicamente, na comunidade, sua fé n’Ele, o Vivente. A comunidade agora curada pela presença do Ressuscitado torna-se comunidade pascal; é a comunidade do Ressuscitado; é a comunidade do Espírito Santo; é a comunidade da missão e do perdão; é a comunidade onde o Ressuscitado se faz visível. Mas, esta nova comunidade ressuscitada não tem fim nela mesma. O evangelista João cuidou muito da cena em que Jesus vai confiar sua missão aos discípulos. Ele quer deixar bem claro o que é o essencial. Jesus está no centro da comunidade, como fator de unidade e transmitindo a todos sua paz e alegria, quebrando os medos, consolando-os e confirmando-os como continuadores da missão que Ele tinha iniciado na Galileia. Agora, como Ressuscitado, Jesus os “envia”; concretamente não lhes diz a quem devem se dirigir, o que deverão fazer ou como deverão agir. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. A missão é a mesma que Jesus recebera do Pai: ser presença humanizadora no mundo, comprometendo-se com os enfermos e chagados, vítimas da situação social e religiosa de seu tempo. Os discípulos já tinham visto de quem Jesus se aproximou, como cuidou dos mais desvalidos, como levou adiante seu projeto de humanizar a vida, como semeou gestos de libertação e de perdão. As feridas de suas mãos e seu lado lhes recordam sua entrega radical, evidenciando que é o mesmo que morreu na cruz. Ninguém pode tirar a verdadeira Vida que se revela em Jesus. A permanência dos sinais de morte, indica a permanência de seu amor. Além disso, garante a identificação do Ressuscitado com o Jesus Crucificado. Assim como durante sua vida pública Jesus se fizera presente junto aos feridos, aliviando o sofrimento humano, agora, como Ressuscitado, continua solidário com todos os crucificados e chagados da história. Ao mostrar suas chagas para os discípulos, Ele está dizendo onde eles devem encontrá-Lo: no compromisso com os sofredores e excluídos, vítimas das estruturas sociais injustas que desumanizam. Há uma tradição ancestral entre os japoneses que se refere à arte de recompor vasos quebrados. Quando uma peça de cerâmica se quebra, os mestres desta arte recompõem-na com ouro, deixando a cicatriz da reconstrução completamente à vista e sem ocultar as marcas da quebra; para eles, a peça reconstruída é um símbolo perfeito que alia fortaleza, fragilidade e beleza. Os primeiros cristãos também decidiram conservar e transmitir a história de Jesus sem ocultar as muitas rupturas, feridas e traições que lhe acompanharam durante sua vida. Podiam ter adocicado, suavizado ou omitido diretamente os aspectos mais polêmicos ou os elementos mais humilhantes de seu dramático fim. Com certeza, teriam evitado controvérsias e facilitado a aceitação da mensagem cristã. No entanto, não fizeram isso. Pelo contrário, deixaram as cicatrizes de suas feridas completamente à vista de todos e sem nenhuma dissimulação. Mas, fizeram isso não só para serem fiéis à história de Jesus, mas, sobretudo, para mostrar a fortaleza, a fragilidade e a beleza da reconstrução realizada por Deus na sua ressurreição. Convinha mostrar o ouro precioso que preenche

Saúde e nutrição começam na infância

O cuidado com o corpo e uma boa alimentação devem ser ensinados às crianças desde cedo. Com uma abordagem lúdica, é possível mostrar a importância do cuidado com o corpo, tornando a vida mais saudável e aumenta nossa autoestima. Corpo e mente sã. Na educação infantil, valorizamos, por meio do campo de experiência “corpo, gestos e movimentos”, a vivência e a interação das crianças com o meio e o outro. As atividades ampliam seus conhecimentos, fazendo com que reconheçam as sensações e funções do seu corpo e seus limites. Com isso, elas desenvolvem, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que oferece risco à sua integridade física, comunicando-se e aprendendo mais sobre si e seu universo social e cultural. Como ressalta a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), é possível formular objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para as crianças pequenas, os quais nos permitem, como educadores, fazer com que a aprendizagem ocorra de forma significativa, pois assumimos a função de mediador, ao disponibilizar atividades que despertem a alegria no experimentar e no descobrir. Consideramos, assim, seus saberes, experiências, desejos, interesses, curiosidades, necessidades e ritmos de desenvolvimento em contextos que favoreçam brincadeiras, interações, investigações e explorações. Com as atividades desenvolvidas baseadas nos objetivos desse campo, entrelaçamos corpo, emoções e linguagem. É durante a fase da educação infantil que a criança está construindo sua identidade. A criança utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo. Esse é um processo natural que deve ser estimulado e incentivado desde a primeira infância. Esse movimento corporal saudável é uma prática que deveria ser mantida e incentivada por toda a vida escolar. Você sabia que cuidar do corpo é um ato de amor? E que, quando colocamos em prática hábitos que contribuirão decisivamente no cuidado com o corpo, de uma forma lúdica, tudo fica ainda mais divertido e prazeroso? Com uma simples brincadeira de “faz de conta”, foi criado um cenário no qual as crianças puderam vivenciar um dia no posto de saúde, dramatizando experiências como vacinação, atendimento, medicação… Verdadeiros doutores e doutoras mirins. E o que vimos foi uma turma interessada, curiosa, desfrutando de cada minuto da atividade proposta. Atividades educativas e divertidas tornam crianças mais participativas e felizes, fazendo com que coloquem em prática, com mais naturalidade, esses hábitos que as ajudam a viver melhor. Passam também a compreender que nosso corpo merece um carinho especial e que ir ao pediatra, por exemplo, é um momento que proporcionará descobertas e benefícios. Aquela tão famosa e “assustadora” injeção, aquele “geladinho” do termômetro, o curativo, o remédio que arde, entre outras ferramentas utilizadas por médicos e enfermeiros, passam a ser vistos pelas crianças com um pouco mais de leveza. Quem sabe sem medo, sem choro. Só sorrisos! Com esse olhar cuidadoso e a liberdade do brincar, a criança vai valorizando e adotando cada vez mais hábitos saudáveis. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes para se ter uma qualidade de vida, assumindo responsabilidades com seu corpo e sua saúde, tanto de forma individual como coletiva. Márcia Zochio, Suzi Gomes e Beatriz Floresta Professoras do Pré I no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.

Etarismo, como combater?

Existe uma idade limite para adquirir conhecimento? Com que idade um indivíduo pode estudar, fazer uma faculdade, aprofundar seus conhecimentos? De uns tempos para cá, é muito comum ver, na educação para jovens e adultos (EJA), senhoras e senhores que, depois da aposentadoria ou de estarem com os filhos já criados, voltam a estudar. Muitos dizem orgulhosamente que retornaram à escola para realizar um sonho. Por que será, então, que, algumas semanas atrás, três jovens estudantes de uma faculdade criaram polêmica com uma colega de curso pelo fato de ela ter mais de 40 anos? O fato é que elas cometeram o chamado “etarismo”. Que é “etarismo”? De acordo com a Sociedade de Geriatria e Gerontologia, é o preconceito contra as pessoas idosas quanto a saúde, capacidade e empenho, idade, fragilidade. A senhora estudante que sofreu o preconceito por causa da idade nem idosa é. No Brasil, geralmente, as mulheres se aposentam depois dos 50 anos e, se for pelo regime do INSS, somente com 62 anos, conforme os anos de contribuição. Dificilmente se aposenta com 40 anos. O etarismo é um tipo de preconceito que deixa muitas pessoas idosas, ainda lúcidas de suas faculdades mentais, indignadas e constrangidas. Logo, para combater o etarismo, precisamos informar as famílias, principalmente os jovens, sobre os direitos da pessoa idosa, inclusive o de ter acesso à educação. Assim, erradica-se o estereótipo de que quem tem certa idade não serve para mais nada, provocando a humilhação social por que muitos têm passado. E o que é humilhação social? O Brasil, em 2021, tinha 215 milhões de habitantes. Destes, 31,23 milhões eram pessoas idosas, representando 14,7% da população, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2031, há uma previsão de 43 milhões. A maioria é de baixa renda e com baixa escolaridade. O País ainda tem 11 milhões de pessoas analfabetas (conforme dados de 2010, do IBGE), e, entre eles, a maioria é de idosos. Devemos incentivar a pessoa idosa a aproveitar melhor o tempo que tem, respeitando suas fragilidades, oferecendo-lhes conforto, conhecimento, dignidade. Por isso, é importante que todos os cidadãos continuem os estudos para, no futuro, diminuir essa situação. Aquela senhora que sofreu preconceito tinha menos de 60 anos. Ela estava buscando realizar seu sonho de ter uma profissão. Segundo a antropóloga Guita G. Debert (Unicamp), a categoria “idoso” é uma “construção social”. Essa construção, discutida por diversos autores, retrata o papel da pessoa idosa na sociedade, antes e depois da Revolução Industrial, na cultura ocidental e nas sociedades milenares, o que varia de uma sociedade para outra. Os tipos de idosos são variados: urbanos, rurais, aposentados, profissionais, desempregados, os que moram pelas ruas, os que estão nos abrigos e nos hospitais, os que vivem com os parentes e os que vivem só. Todos têm a prerrogativa de ter acesso aos direitos fundamentais, como estudar. Alguns filósofos podem auxiliar a refletir sobre a importância do envelhecimento. Por exemplo, Cícero (século I a.C.), filósofo romano, escreve sobre a velhice com otimismo e coragem, aconselhando a refutar quatro aspectos indesejados que costumam rondar o imaginário de anciãos e anciãs: 1) o impedimento das atividades; 2) debilitação do corpo; 3) afastamento dos prazeres; e 4) que está à beira da morte. Outro filósofo, Sêneca (século I d.C.), chama a atenção para a brevidade da vida. Recomenda empregar o tempo da melhor maneira, na prática do bem e das virtudes, pois é a única coisa que levamos desta vida. Com as mudanças culturais no século XX, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, ao dedicar-se sobre o assunto, divide em dois momentos a questão: a visão de fora, da sociedade; e a visão de dentro, do próprio idoso. A vida pelos olhos dos próprios idosos, seja pobre ou rico, apresenta seus sentimentos como jovens. Por isso, respeitar os sonhos das pessoas de idade avançada é uma forma de ter respeito. Em contraponto, há grupos da terceira idade que costumam programar reuniões ou viagens em excursão. Mas, ainda, há aquelas pessoas idosas que não têm condições de sair ou não querem sair, pois preferem ficar em seu cantinho. Ter empatia com todos é um ato de civilidade. Ler o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003), pesquisar os direitos, ter cuidados com a saúde física, mental e espiritual é importante. Devemos combater o etarismo e a humilhação social contra os idosos. Se sofre violência, seja ela física, psicológica, financeira, patrimonial, afetiva, denuncie. Ligue para 180 ou vá direto a uma delegacia da mulher e da pessoa idosa. Sejamos solidários, solidárias com todos. Que Cora Coralina, escritora aos 70 anos, inspire homens e mulheres a viver bem. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, membro da diretoria da APROFFIB, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC.

Domingo de Páscoa: “… e a pedra tinha sido removida”

Domingo de Páscoa: “… e a pedra tinha sido removida” “A pedra da entrada do túmulo é removida” e amanhece um novo tempo, uma nova consciência planetária, uma nova espiritualidade, uma nova maneira de viver o mistério de Deus, uma concepção inspiradora do ser humano, uma nova mentalidade, uma nova maneira de ser Igreja… Amanhece um novo mundo, heterogêneo, descentralizado; um novo humanismo, um novo movimento cultural. Brota um novo despertar a partir de uma maior lucidez e consciência dos problemas mundiais e uma escuta afinada diante do clamor unânime de que outro mundo é possível. Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Sua ressurreição traz uma nova maneira de viver que não cabe em nossos esquemas, que não se encaixa em nossos hábitos, sempre limitados e estreitos. O “mistério pascal” é o salto para a novidade, para a beleza, para a transcendência. Imersos na história e na natureza, a Ressurreição nos faz descobrir a verdadeira extensão da Vida. Não encontramos o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontramos o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte, mas livre como a brisa da vida. Não “vemos” a Ressurreição contemplando os restos da morte; só podemos contemplar o Ressuscitado no mistério da vida. E “Jesus ressuscitou de tanto viver”. Aquele que viveu tão intensamente não podia permanecer na morte. Por isso, só no compromisso com a vida é que podemos encontrá-Lo. A Ressurreição nos revela: só existe a Vida; só nos resta viver intensamente. Somos seres visceralmente “pascais”, somos potencialidade de vida. Há um dado constante nos relatos das Aparições do Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da ferida…, e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na Galileia. Os relatos de suas Aparições nos revelam como Ele foi reconstruindo as pessoas, amigas e amigos, quebrados(as) pelo fracasso, pela tristeza, pela decepção… Foram ressuscitados por dentro, despertando a vida bloqueada e abrindo o horizonte da missão. Na ressurreição, a vida emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração…, porque a vida é sempre sagrada. Diante dela ficamos extasiados, boquiabertos, escancarados os olhos e afiados os ouvidos. Ela nos atrai por sua força interna. Portador de uma vida inesgotável, revelada na madrugada pascal, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor. A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e iluminada em plenitude. Amar é romper a casca para que a vida se expanda na doação. A morte do falso eu é a condição para que a vida se liberte. Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). “Viver como ressuscitado” implica esvaziar-se do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino. Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada” e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no seu modo de ser e de viver. Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes passavam desapercebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça. Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas. Creem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente. E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas…, mas seu olhar audacioso desperta as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão. A Ressurreição não só “dá o que pensar”, mas sobretudo, “dá o que fazer”. “Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce” (EE. 224). Santo Inácio utiliza esta expressão quando apresenta, na 4ª Semana dos Exercícios, a contemplação das aparições do Ressuscitado. Consolar é o que define a ação do Ressuscitado, transformando a situação dos seus discípulos e discípulas: a tristeza se converte numa alegria contagiosa, o medo em valentia e audácia, a negação de Jesus em profissão de fé e martírio… Não se trata de um ato pontual, senão de um “ofício” que definirá para sempre a atividade de seu Espírito no mundo. Nas cenas evangélicas das aparições, o efeito da presença do Ressuscitado sobre os discípulos termina sempre em reconhecimento, em chamado e envio, em restauração de uma vocação e missão. Jesus ressuscitado exerce sobre eles um específico “ofício de consolar”, cujo efeito é iluminar o caminho pelo qual, em seu nome e com Ele, eles hão de percorrer. O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles(as) o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção… Essa nova Vida é capacidade de amar como Jesus amou; é “passar pela vida fazendo o bem”. Somos seres ressuscitados quando vivemos os mesmos critérios e valores de Jesus, engajados em seu mesmo projeto. A “vivência pascal” leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”. É o futuro que ainda pode ser convertido em “história nova”; é vida vivida com encantamento. A “pedra pesada” da nossa impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi tirada pelo Mestre, que, diante de nós, chama-nos pelo “nome” e nos desafia a viver como ressuscitados. Nossa vida é uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Rompido o túmulo, removida a pedra, resta caminhar… Deixemo-nos iluminar, levemos a Luz da Ressurreição nas nossas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmulo. Porque o ausente “aqui” está

Sábado Santo: o Crucificado é depositado no ventre da Mãe-Terra

“José de Arimateia, tomando o corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se” (Mt 27,59-60) Normalmente o Sábado Santo não merece maior atenção de nossa parte; acabada a vivência litúrgica da Sexta-feira Santa, já pensamos no Domingo da Ressurreição. No entanto, o Sábado Santo reivindica uma reflexão e um lugar na nossa vida espiritual. O Sábado Santo é um dia de penumbra: entre a sombra da Sexta-Feira e a luz do Domingo. É o dia da ambiguidade, do luto e da possível boa notícia, da espera e da esperança. É o dia dedicado à solidão de Maria, o “dia não litúrgico”. É o dia em que Jesus “desce” à morada dos mortos, na obscuridade mais absoluta. Ali não há visão de Deus; por isso, a Escritura a chama “inferno”. É o dia do ocultamento de Deus, do silêncio de Deus Pai, da grande solidão de Jesus, do Filho perdido na obscuridade, na “terra de ninguém”. Jesus no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçando a solidão sem se sentir solitário. Sábado Santo é o dia da impotência, da injustiça, da desolação, da solidão; dia em que nos situamos diante da morte injusta imposta pelos “podres poderes”; dia precedido por traições, fugas, gritaria ameaçante, linchamento cruel e mentiroso; dia das esperanças rompidas, do medo que paralisa, do fechar de portas mentais e emocionais; dia incompreensível do silêncio, da “ausência” de Deus. Sábado Santo é também um dia obscuro onde nos custa ver saídas ou futuro, um dia ameaçante carregado de dor e morte; dia das perguntas sem resposta: “por que isso? Como pode estar acontecendo isto? Onde está Deus? Portanto, dia de uma crise radical porque afeta e põe em questão nossas falsas esperanças, nossa onipotência e prepotência, nosso individualismo independente… Podemos expressar três atitudes no Sábado Santo: a) Jerusalém volta à normalidade, nada mudou; b) permanecer no “por quê” isso aconteceu?; c) despertar o “para quê” isso aconteceu? É tempo de deixar-nos abalar pelas perguntas que não suportam respostas fáceis. “O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. Trata-se da solidariedade mais radical” (Bento XVI). A virtude teologal da esperança nos convida a mergulhar no sentido profundo do Sábado Santo: foi o dia do silêncio de Deus Pai e o dia da descida de Jesus, morto e sepultado, “aos infernos da condição humana”. Foi o dia do Espírito Santo que não tinha “onde repousar” e fica como sem alento. O inferno ao qual Jesus desceu é, em primeiro lugar, a morte eterna, a destruição sem saída, o frio cósmico… Mas é, em segundo lugar, a morte histórica que tende a dominar tudo, a morte que vem da injustiça, da indiferença, da prepotência e violência de muitos. Essa morte aparece mais claramente nos ambientes dominados pela cultura do ódio, da intolerância, do preconceito; faz-se visível nos traficantes da vida, na miséria e nos rostos famintos, vítimas de uma estrutura social e política injusta. É a morte dos fabricantes de armas, dos violadores e assassinos…; a morte nos cárceres, nas casas sem pão, nos caminhos sem saída, nos hospitais… O “inferno” está em todos os lugares onde a vida é massacrada pelos prepotentes, onde a Terra é destruída pela ganância de alguns, onde a “lei do mercado” se alimenta do sangue dos mais pobres… Sem a “descida” de Jesus aos infernos da história humana, não existe redenção cristã, não se pode falar de autêntica páscoa. Se não nos comprometemos com os “condenados ao inferno” de nosso mundo, não poderemos entender o mistério do Sábado Santo. Ao longo de toda sua vida, e de um modo especial através de sua morte na Cruz (solidário com os expulsos e condenados da humanidade), Jesus “desceu aos infernos” da pobreza, da exclusão, da violência… Neste “dia de silêncio”, o Crucificado se faz solidário universal; nenhuma situação humana, por mais extrema que seja, ficou excluída dessa presença compassiva. Indo mais além, a vivência do Sábado Santo também nos move a “descer” aos nossos “infernos interiores”, carregados de feridas, sentimentos negativos, traumas, fracassos… e experimentar a redenção no mais profundo de nosso ser. “Nossa época se converteu sempre mais em um Sábado Santo: a obscuridade deste dia interpela a todos aqueles que se perguntam pelo sentido da vida, e de maneira especial nos interpela a nós que cremos. Também a nós nos afeta esta obscuridade” (Bento XVI). O Sábado Santo parece um sábado vazio: cala a liturgia, cala a Igreja, calam os corações. O vazio provocado pela morte de Jesus nos deixa sem alento; sua ausência nos deixa sem palavras. Quando Aquele que é Palavra está ausente, que podem nos dizer as palavras? Mas há um silêncio que está vivo; é o silêncio de quem nos criou no silêncio. Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus. Deus se revela não só na Palavra, também em seu Silêncio, em seu ocultamento. Quando Deus cala e faz calar, fecham-se os lábios, entra-se no mistério, na mística. O silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar… O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? * Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? * Que Deus não tem direito de guardar silêncio? * Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Além disso, através da passagem do Sábado Santo, realiza-se uma transformação radical de nossa imagem de Deus: não como um Ser Onipotente insensível, que desconhece a dor, senão como Amor vulnerável e vulnerado, que assume como Seu o sofrimento da humanidade. Para que haja uma

Páscoa: acontecimento iluminado e sempre novo

Celebramos novamente a Páscoa, nossa principal festa cristã. Celebramos a ressurreição de Cristo. Esse é o fato mais importante da história da humanidade, embora muitos não o reconheçam. Na verdade, trata-se de um mistério de nossa fé. O fato de ser mistério não significa ser incompreensível. Nós conseguimos entender até onde nossa inteligência é capaz e nossa fé alcança. O mistério sempre ultrapassa os horizontes humanos e se insere na esfera do divino. A ressurreição de Jesus é um fato histórico testemunhado não apenas pelos discípulos de Jesus, mas por muita gente; como São Paulo diz, mais de quinhentos. Não somente as aparições do Ressuscitado são testemunhas de sua ressurreição, mas também o que ocorreu depois dela na vida dos apóstolos e de outros seguidores. Prova ainda da ressurreição de Cristo é o fato de ela ter acontecido há mais de 2 mil anos e continuar presente nos corações dos milhões que hoje creem sem ter visto. Não podemos imaginar que tantas pessoas que acreditam na ressurreição sejam tolas ou ignorantes, com mentalidade arcaica. Pelo contrário, há pessoas, desde as mais simples até as mais cultas, que professam a fé na ressurreição e pautam suas vidas por essa verdade. A ressurreição de Cristo trouxe uma esperança de que a vida não termina no cemitério. Sua palavra transmitida pelos evangelhos e cartas dos apóstolos nos falam que “quem com Cristo morre com ele ressuscita”. Nós professamos na oração do creio “Creio na ressurreição da carne…”. Diante disso, faz sentido rezar pelos nossos falecidos, recomendando-os à misericórdia de Deus; caso contrário, seria vã e mesquinha nossa crença e esperança. Quando celebramos a festa da Páscoa a cada ano, não é apenas uma recordação do fato histórico. Celebramos um acontecimento novo que irradia luz nova, renova nossa vida e estimula a vivermos de acordo com o que professamos. Nós costumamos desejar uns aos outros “feliz Páscoa”. Nesse desejo, está implícita a alegria de nos sentirmos salvos pela morte e ressurreição de Cristo. Esse desejo proclama a certeza da vida eterna no ressuscitado. A Páscoa, simbolizada no círio pascal, aceso e presente nos batismos de novos cristãos, lembra-nos de que ela é luz para nossa vida e, em sua luz, somos convidados a ser também luz no mundo. Celebremos a Páscoa com a mente e o coração. A mente que nos faz aceitar o mistério que nela está presente, o coração que nos faz experimentá-la como realidade profunda que preenche nossos espaços íntimos e direciona nosso agir cotidiano. Que tenhamos todos uma “feliz Páscoa” permanente e jubilosa, reacendendo nossa fé e esperança. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

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