Viver na verdade do Espírito de Jesus

“… e Ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da verdade” (Jo 14,16-17a) Jesus está se despedindo de seus discípulos; Ele os vê tristes e abatidos, pois logo não o terão presente entre eles. Quem poderá preencher este vazio da ausência? Até agora, foi Jesus quem cuidou deles, defendendo-os dos escribas e fariseus, sustentando-os na fé frágil e vacilante deles, ajudando-os a descobrir a verdade de Deus e iniciando-os em seu projeto humanizador. Nesta conversação Jesus não só verbaliza o que pensa, senão que também expressa o que sente. O grau de autorrevelação e transparência aumenta. Esta longa conversa é uma oportunidade única para os discípulos conhecerem mais profundamente o Mestre; ao mesmo tempo lhes é dada a chance de se conectarem com o significado nem sempre consciente daquilo que Jesus quer dizer. A conversação deixa, então, transparecer as convicções, os sonhos, os sentimentos… de Jesus. “As palavras me escondem sem cuidado” (Manoel de Barros). Nesta maneira de conversar, Jesus se manifesta tal e como é, verbalizando aspectos de si mesmo muito íntimos e pessoais. A experiência do “nós” revela um significado especial de comunhão e entrega. Jesus lhes fala apaixonadamente do seu Espírito; não os quer deixar órfãos. Ele mesmo pedirá ao Pai que não os abandone, que lhe dê “outro defensor” para que “esteja sempre com eles”. Jesus o chama “Espírito da verdade”. Que se esconde nestas palavras de Jesus? Para o quarto evangelho, o Espírito é “outro Paráclito” porque aquelas comunidades do final do século I tem claro que o “primeiro Paráclito” é o próprio Jesus. O termo grego “Parakletos”, que se costuma traduzir como “Defensor”, significa literalmente “aquele que está ao lado”, para defender, apoiar, consolar, sustentar… Por esse motivo, alguém já insinuou que a tradução mais de acordo seria tanto de “advogado defensor” como de “assistente social”. Uma coisa é muito clara para o evangelista João. O mundo não vai poder “ver” nem “conhecer” a verdade que se esconde em Jesus. Para muitos, Jesus terá passado por este mundo como se nada tivesse acontecido; não deixará rastro algum em suas vidas. Para conhecer Jesus é preciso ter olhos novos. Só aqueles que o amam poderão experimentar que Ele está vivo, faz viver e chama ao seguimento. “Conhecimento interno para mais amá-lo e segui-lo” (S. Inácio). Este “Espírito da verdade” não deve ser confundido com doutrina, dogmas… Não se encontra nos livros dos teólogos nem nos documentos do magistério da Igreja. Segundo a promessa de Jesus, “o Espírito permanece junto de nós e está dentro de nós”. Nós o escutamos em nosso interior e resplandece na vida de quem segue os passos de Jesus de maneira humilde, confiada e fiel. É o “Espírito da verdade” que desperta em nós os sentimentos mais elevados, os desejos mais nobres, os recursos inspiradores… Ele tem a capacidade de fazer sintonizar nosso coração com os sentimentos do coração do próprio Jesus. Talvez seja esta a conversão que mais precisamos hoje como seguidores(as): passar de uma adesão verbal, rotineira e pouco real a Jesus para a experiência de viver enraizados em seu “Espírito da verdade”. Afinal, somos seguidores de uma Pessoa e não de uma religião ou doutrina. Este “Espírito da verdade” não nos converte em “proprietários” da verdade; não vem para que imponhamos a outros nossa fé nem para que controlemos sua ortodoxia. Vem para não nos deixar órfãos de Jesus, e nos convida a abrir-nos à sua verdade, escutando, acolhendo e vivendo seu Evangelho. Este “Espírito da verdade” também não nos faz “guardiães” da verdade, mas testemunhas. Nossa missão não é disputar, combater nem derrotar adversários, mas viver a verdade do Evangelho e “amar a Jesus guardando seus mandamentos”. O “Espírito da verdade” é Aquele que nos desvela como verdadeiros; Ele nos sintoniza com a “verdade de Jesus” e faz emergir nossa verdadeira identidade de pessoas originais, únicas, sagradas… Quem se deixa conduzir pelo “Espírito da verdade” torna-se testemunho da verdade contra todo tipo de calúnias, mentiras, intolerâncias, fanatismos. É extremamente incoerente quem afirma se deixar conduzir pelo Espírito e atua como canal transmissor de “fake news”, julgamentos preconceituosos… A “verdade” se expressa assim como “testemunho” de vida interior. Temos ao nosso lado o Grande Testemunho de Deus, que é Jesus. Podemos ser e somos testemunhas de Deus uns para com os outros. O Deus de Jesus está presente no mais profundo de nosso ser, identificado com nossa essência. Sendo Amor em nós não pode admitir intermediários. Isto não é útil para nenhum poder ou instituição. Mas esse é o Deus de Jesus. Esse é o Deus que, sendo Espírito, tem como único objetivo conduzir-nos à plenitude da verdade, a sermos verdade, verdadeiros, autênticos. E aqui “Verdade”, ao contrário do que muitas vezes pensamos, não é conhecimento, mas Vida. Enquanto haja Espírito há alento e enquanto haja alento há vida. O Espírito é o alento, a respiração do mundo. O Espírito enche a face da terra, penetra até o mais íntimo dos nossos corações. O Santo Espírito da verdade nos faz respirar, viver, sonhar, amar, criar… O Espírito, no aperto nos dá largueza, na enfermidade nos convida a crer na cura, no caos nos torna criadores. O Espírito nos foi enviado para que seja o Alento do mundo; Ele é como rios de água viva para que haja vida e vida em abundância; como labaredas de fogo, para que a energia se multiplique e tudo funcione. “Creio no Espírito Santo, Senhor e doador de vida!” Essa confissão de fé não é uma mera fórmula teológica. É o testemunho de uma experiência permanente, histórica. Sem o “Espírito de Vida” a trama da história se revela inquietante e deprimente. Sob o olhar do Espírito o diagnóstico é decididamente positivo. Quando nos deixamos acender com as chamas do Espírito, quando nos deixamos arejar pelo vento impetuoso do Espírito, ou refrescar pelos rios de água viva, experimentamos, em nós e nos demais, um florescimento inusitado de carismas, de dons, que tornam possível o impossível; confiamos mais
Paz e Guerras: O Dilema da Convivência Humana

Em dezembro de 2017, a Assembleia-Geral das Nações Unidas declarou 16 de maio como o Dia Internacional da Convivência em Paz. A UNESCO ressalta que a cultura de paz elimina todas as formas de discriminação e intolerância, permitindo assim o desenvolvimento dos seres humanos de acordo com suas habilidades e capacidades. Não há dúvidas de que a paz é um dos sentimentos mais desejados pelos seres humanos. Paradoxalmente, seu estabelecimento nas relações humanas e institucionais ainda é um desafio colossal que enfrentamos. No início de 2022, todas as nações acompanharam apreensivas a entrada das forças armadas russas no território ucraniano. Diariamente, nos noticiários, vemos o que o interesse por regiões estratégicas e as disputas de poder têm ocasionado nas vidas de milhares de pessoas de ambas as nacionalidades. Outros conflitos paralelos, com consequências equiparáveis às populações locais, mas sem destaque nas lentes da grande mídia, ocorrem em vários pontos do globo, principalmente nos países mais empobrecidos. No Brasil, no mesmo ano em que a ONU declarou o Dia Internacional da Convivência em Paz, as estatísticas mostravam que, a cada 23 minutos, um jovem negro era assassinado. Outro dado alarmante vem da Fundação Oswaldo Cruz. O Mapa de Conflitos Ambientais, elaborado por ela, mostra que o Brasil contabiliza 615 conflitos ambientais em 12 anos. Essas realidades, entre inúmeras outras, tanto no nível macrossocial quanto no micro, desafiam-nos constantemente na construção da cultura da paz. Imersos na sociedade pós-moderna, com uma lógica cada vez mais competitiva e individualista, muitas vezes, passamos do sentimento da impotência à indiferença, naturalizando os fatos. O que fazer diante desses fatos? Hannah Arendt, filósofa que viveu em meio aos horrores do nazismo, deixa-nos uma lição importante. Para ela, a conciliação das diferenças, capaz de garantir uma boa convivência humana, evitando os conflitos, é possível pela ação comunicativa. Isso pressupõe um diálogo enraizado na ética e no respeito ao outro, evitando qualquer forma de mentira e manipulação. Quando o espaço do debate e do respeito é ameaçado, surgem a violência e a guerra, afirma Arendt. Esse pensamento de Hannah Arendt é fonte de inspiração para nossas relações humanas, em todos os espaços. A paz é uma construção, e todos temos responsabilidade nessa empreitada. Isso significa que, mais do que um desejo abstrato, a paz pressupõe uma ação consciente, um esforço pessoal e coletivo. Cabe-nos, portanto, perguntar: estou disposta(o) a dialogar com o diferente em busca do bem comum ou prefiro o uso da força (do autoritarismo) para impor minhas vontades e satisfazer a meus interesses? Enfim, como minhas atitudes estão impactando o mundo: estou alimentando a cultura da paz ou os conflitos e guerras? Como percebemos, a paz está ao alcance de todos. Que tenhamos a ousadia de sempre optar por ela! Irmã Stela Martins, SSpS, graduanda no curso de Ciências Sociais.
O aumento das desigualdades no universo da saúde pública

Quem procura atendimento médico em uma unidade básica de saúde (UBS), conhecida como “posto de saúde”, passa por muitos percalços até chegar à consulta. Geralmente, a fila é grande ou falta o profissional especializado para determinada enfermidade. E quando este existe, levam-se semanas ou meses para chegar o dia do agendamento, o que obriga algumas pessoas a buscarem hospitais particulares. Dependendo da gravidade, a pessoa vai a óbito. O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado para atender todos da população brasileira, tendo em vista que é um direito estabelecido pela Constituição Federal de 1988, conforme o Capítulo II – Dos Direitos Sociais – Art. 6º: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Desde 1994, houve uma estruturação da saúde da família, com equipes multidisciplinares atuando nas UBS e outros atendimentos específicos para a população em geral, como o Disque Saúde, o combate à dengue. A partir de 1998, agentes de saúde passaram a visitar os domicílios, e o Ministério da Saúde começou a fazer campanha de conscientização em relação à prevenção. Em 1999, foi criada a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para fiscalização de medicamentos e alimentos, após denúncias e verificação de casos de produtos vencidos e causadores de problemas sérios na saúde do povo. Na mesma época, surgiram os medicamentos genéricos, com o intuito de baixar o custo. A bioética, que tem preocupação com a saúde pública, passou a alertar sobre certas indústrias alimentícias e farmacêuticas, para proteção e diminuição dos danos à saúde. A partir de 2001, a Lei 10.216/01 passou a amparar pessoas com doenças mentais. Em 2002, esse direito ampliou-se para as pessoas com deficiências, para o atendimento a indígenas e para a redução da morbimortalidade por acidentes e violências. Em 2003, foi criado o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, conhecido como SAMU. Muitas campanhas em prol da saúde têm sido feitas como política nacional, por exemplo, sobre o uso abusivo do álcool (2007), a saúde do homem (2009), estudos para a produção de células-troncos, enfrentamento a diversas doenças crônicas não transmissíveis, a regularização do Cartão Nacional de Saúde (2011). Embora muitos avanços ocorreram na área da saúde, pelo Ministério da Saúde, infelizmente, muita verba foi desviada e outras políticas públicas deixaram de contemplar prioridades para a população. Como vimos durante a pandemia, respiradores, kits necessários para os profissionais da saúde e até vacina foram superfaturados por empresas mercenárias. As vacinas têm sido grandes aliadas para salvar muitas vidas. A saúde pública tem combatido a diversidade de vírus e suas mutações graças aos cientistas da área epidemiológica e de infecção, que estão constantemente em busca de novas fórmulas para deter os micro-organismos nocivos ao ser humano. E para a camada da população que tem plano de saúde? Com promessas de resolverem o problema de falta de atendimento nos postos públicos, muitas pessoas fazem plano de saúde, pelos quais pagam uma quantia por mês para terem o direito de serem atendidas com mais rapidez. Todavia os planos buscam cobrar, além das mensalidades, cada exame que tiver de ser feito. As mensalidades aumentam conforme a idade do cliente, o que tem levado muitos a abandonarem o sistema privado e serem atendidos pelo SUS. Essa realidade tem aumentado mais ainda o problema das filas e a demora no agendamento para as especialidades médicas. O que fazer, então? Como diz a Constituição Federal de 1988, a saúde é para todos os brasileiros, por isso é necessário que todos os postos de saúde tenham mais médicos e enfermeiros. Daí o Programa Mais Médicos, idealizado pelo Ministério da Saúde. O Ministério da Educação deveria incentivar que, no início da carreira, os novos médicos e médicas atendessem as populações menos favorecidas. Infelizmente, encontramos consultórios particulares cobrando 400 ou 500 reais por uns minutos de orientação ou pedidos de exames que, também, serão cobrados à parte. A população brasileira anda muito doente, pois não tem uma alimentação adequada, muitos já têm a idade avançada, sem falar nas localidades distantes, nas quais não chega profissional especializado, por causa da falta de condições para atendimento. Muitos lugares no Brasil carecem de qualquer assistência médica, ficando por conta das benzedeiras locais o paliativo de cura. Cuidemos do corpo e da saúde mental diante de tanta desigualdade e falta de cuidado com a população. Temos esperança de que dias melhores virão, mas, para isso, exige-se união de todos em cobrar dos representantes do povo e da Nação (deputados, senadores, vereadores) melhorias no quesito saúde pública. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintran e membro da APROFFIB. Atualmente, é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis e, recentemente, da Associação de Voluntários de Combate ao Câncer (AVCC), de Jales-SP.
Caminho-Verdade-Vida: três fomes que nos humanizam

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6) A conversação de Jesus com os discípulos no evangelho deste domingo faz parte do chamado “discurso de despedida”, antes de sua morte. Quando ela acontece, o clima entre os discípulos era de máxima tensão e de espera incerta do desenlace. No final da última Ceia começam a intuir que Jesus já não estará muito tempo com eles. A saída precipitada de Judas, o anúncio de que Pedro o negará em breve, as palavras de Jesus falando de sua próxima partida deixaram a todos desconcertados e abatidos. O que vai acontecer com eles? Jesus capta a tristeza e a perturbação deles. Seu coração se comove. Esquecendo-se de si mesmo e daquilo que o espera, Jesus procura animá-los: “Que não se perturbe vosso coração; crede em Deus e crede também em mim”. E, no curso dessa conversação, Jesus faz esta confissão: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai, senão por mim”. Não devem nunca esquecer isso. É nesse contexto de despedida que Jesus se atreve a dizer “eu sou”, mas não um eu isolado em si (um eu sem Deus, um eu sem os outros), mas um eu aberto ao Pai (um eu-caminho) e dirigido a todos que queiram acolhê-lo (um eu-expansivo, que se faz verdade e vida para todos). O “eu” de Jesus se faz caminho, um caminho para o Pai, um caminho no qual a verdade se revela e a vida se abre. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Estamos diante da afirmação mais densa referida à identidade e à essência de Jesus. Não se conhece na história das religiões uma afirmação tão audaz. Jesus se oferece como o caminho que podemos percorrer para entrar no mistério de um Deus Pai. Ele nos faz descobrir o segredo último da existência. Ele pode nos comunicar a vida plena que todo coração humano aspira. O conceito de “caminho” supõe um destino, o Pai. O conceito de “verdade” pressupõe um conteúdo, o mesmo Jesus. Dos três termos, o único absoluto é “Vida”. Porque possui a Vida, Jesus é verdade e é caminho. Hoje reina, em quase todos os ambientes, a confusão, a dispersão, o medo. Há muitos que buscam um caminho para sobreviver: os imigrantes, os refugiados, os famintos, os que não têm um horizonte de sentido… Outros, em meio a uma solidão de um mundo hiperconectado, sentem a desorientação da multiplicidade de mensagens portadoras de mentiras e “fake news”. Outros ainda esvaziam suas vidas investindo no poder, na vaidade, no acúmulo de riquezas… e acabam caindo na maior frustração e vazio interior. “Eu sou o caminho.” O problema de muitos não é que vivem extraviados ou perdidos. Simplesmente vivem sem direção, envolvidos numa espécie de labirinto: andando e girando por mil caminhos que, a partir de fora, não os levam a lugar nenhum. E o que pode fazer um homem ou uma mulher quando se encontra sem caminho? A quem dirigir-se? Onde acudir? Se se aproxima de Jesus, o que encontrará não é uma religião, mas um caminho. Às vezes, avançará com fé; outras vezes, encontrará dificuldades; poderá até retroceder, mas está no caminho certo que conduz ao Pai. Esta é a promessa de Jesus. Jesus não diz “eu sou o templo, o edifício, a plataforma, o porto”. Diz “eu sou o caminho”. É como dizer: “eu sou a maneira de andar, de dirigir-se ao horizonte, de navegar”. Ele não é um ser-refúgio entre nuvens, mas que “se faz caminho ao andar”, vive inserido na realidade do dia a dia, presente nos sonhos, nos problemas e desafios dos seus seguidores. “Eu sou a verdade.” Estas palavras soam como convite escandaloso aos ouvidos pós-modernos. Nem tudo se reduz à razão. A teoria científica não contém toda a verdade. O mistério último da realidade não se deixa prender pelas análises mais sofisticadas. O ser humano é chamado a viver diante do mistério último da realidade. “Verdade” que não se reduz a teorias, a dogmas, doutrinas…, mas transparência da nossa essência, do nosso ser verdadeiro. Jesus não diz: “eu tenho a verdade”, mas “eu sou a verdade”, “sou verdadeiro”, coerente com o seu modo de ser e viver. “Eu sou a vida.” Jesus pode transformar nossa vida. Não como o mestre distante que deixou um legado de sabedoria admirável à humanidade, mas como alguém vivo que, a partir do mais profundo de nosso ser, nos infunde um germe de vida nova. Esta ação de Jesus em nós acontece quase sempre de forma discreta e silenciosa. O seguidor d’Ele só intui uma presença imperceptível. Às vezes, no entanto, nos invade a certeza, a alegria transbordante, a confiança total: Deus existe, nos ama, tudo é possível, inclusive a vida eterna. Nunca entenderemos a fé cristã se não acolhemos Jesus como o Caminho, a Verdade e a Vida. Caminho, Verdade e Vida: três grandes “fomes humanizadoras”; elas apontam para o sentido da nossa existência; expressam as três grandes buscas do ser humano. Três dimensões que nos fazem mais humanos. Não são necessidades periféricas, imediatas. Jesus se apresenta como resposta a estas buscas. O ser humano é ser de travessia: é peregrino por natureza, busca um horizonte, desloca-se em direção a uma plenitude. Jesus se faz o centro deste Caminho. Ali onde alguém faz o caminho como Jesus fez (peregrino entre os mais pobres e excluídos) está deixando transparecer em sua vida o rosto do Pai. Por isso, quem o vê, quem vive como Ele (em amor aberto à vida) vê o Pai da vida. Trata-se de “ver a Jesus” (esta é a experiência pascal), de vernos caminhando com Ele, assumindo Sua verdade, vivendo na dinâmica de Sua vida. Nós somos a verdade, em um nós aberto, como Jesus, aberto a todos os que vão e vem, de um modo especial os mais pobres, os excluídos de todos os sistemas de “verdade” do mundo. Somos “verdade” na medida que somos verdadeiros, transparentes, sem segundas intenções… O ser humano
Espiritualidade da Geração Fundante: Madre Maria

Helena Stollenwerk, enquanto cuidava do rebanho de ovelhas, da família, nos campos de, lia Revistas Missionárias, que foram despertando nela a Vocação Missionária, com o desejo de ser enviada às missões. Desde muito jovem, fazia parte da Obra da Santa Infância, hoje chamada de Infância Missionária. Foi coordenadora de um grupo da Obra da Santa Infância. O seu grupo se empenhava fazendo muitos sacrifícios para enviar os valores, afim de ajudar na evangelização das crianças na China. Tomava conhecimento sobre as crianças abandonadas, sem batismo e sem educação, através das revistas missionárias que lia, enquanto pastoreava. Seu desejo forte era, sem dúvida, ir para como missionária para China e ajudar os sacerdotes, no batismo e iniciação cristã e educação das crianças. Seu entusiasmo pela salvação das crianças, foi a motivação inspiradora de sua vocação missionária. Na vila onde morava Helena, depois Madre Maria, assistia aos pobres, cuidava dos doentes, rezava pelos moribundos. Desenvolveu atitudes de mansidão, de compaixão, desde pequena, porque teve que cuidar dos seus três irmãos surdos-mudos, atitudes que a ajudaram, ainda mais, na busca da vontade de Deus. Por esse motivo, foi a procura de uma congregação, na qual pudesse ser enviada à China. Ao tomar conhecimento da fundação da Casa Missionária para formação de missionários, pelo Padre Arnaldo. Foi ao seu encontro e se ofereceu para trabalhar como empregada na Casa Missionária. Foi lhe oferecida a oportunidade, desafio que aceitou com muita decisão, embora contrariasse seus pais. Outras jovens se uniram a ela na busca pelo ideal missionário. Helena (Madre Maria) foi a primeira formadora e superiora do pequeno grupo de jovens, na nova congregação. Não foi fácil, perceber que os anos iam passando e seu sonho ia ficando para traz. As primeiras Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo, foram enviadas, e ela continuava na espera confiante, a sua vez. Muitas vezes, sentiu-se triste, frustrada, mas na oração encontrava forças para compreender que seu lugar de missão era preparar outras irmãs para serem enviadas. Mais tarde, o seu sonho missionário pelas missões foi se desvaindo, pois, Pe. Arnaldo Janssen pediu a Madre Maria, para que passasse ao ramo contemplativo, a recém fundada Congregação Missionárias Servas do Espírito Santo das Irmãs da Adoração Perpetua (MSSpSAP). Este, sem dúvida, foi o desafio muito difícil, talvez o mais difícil, porém o seu grande amor pela Eucaristia, a ajudou a aceitar o pedido do fundador e, depois, de muita oração, diálogo e discernimento, deu o passo, sem, contudo, poder realizar seu forte desejo de ir, pessoalmente, para as missões da China. Madre Maria morreu muito jovem, com apenas 48 anos de idade. O que a guiou e nutriu, em toda sua vida, foi sua união com o Senhor Jesus na Eucaristia e sua entrega total a Ele, no cumprimento da Vontade de Deus Pai. Madre Maria é, ainda hoje, uma grande inspiração para as mulheres missionárias/consagradas, também, para mim. Em anos passados, iniciei a Infância Missionária na Diocese de Ponta Grossa, motivada por Maria Helena, que participava com muito amor desse movimento. Nos lugares por onde andei, sempre iniciei grupos da IAM e me empenhei em formar Agentes para acompanhar esses grupos de crianças e adolescentes. Tenho a firme convicção de que a Criança Missionária, evangeliza as crianças, a família, e, também, adultos. Oração à Bem-Aventurada Madre Maria Ó Deus Trindade, são muitos os clamores dos pobres e as situações de miséria e violência que destroem a beleza da vida dos teus filhos e filhas. Porém, maior é Teu amor e infinita a tua misericórdia. Só Teu Espírito, presente na humanidade é capaz de quebrar o egoísmo, o orgulho e recriar a fraternidade universal, gerando vida. Foi Teu amor, Senhor, que inspirou a bem-aventurada Madre Maria a abraçar o ideal missionário de colocar-se a serviço do Teu Reino, dando inicio à Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo. Amém. Fonte de Consulta – FIDELIDADE NA CAMINHADA, nº 93 NA Coleção Munsterschwartzach Kleinschriften- Publicado pelos Monges da Abadia Minsterschwartzach – 1995. Publicação conjunta das MSSpS Norte e sul – 1996. – A NOSSA HISTÓRIA CONTINUA: Junho – Julho de 2014. I. Ágada Brand – Apostilas diversas. Irmã Matilde Sacardo, Missionária Serva do Espírito SantoEspecialista em Espiritualidade
Boletim Congregacional – Abril de 2023 – Nº 197

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Violência nas escolas: o ponto de vista da psicanálise

Neste artigo refletiremos sobre esta triste realidade e buscaremos luzes, na linha da psicanálise, para amenizar e ajudar a lidar com os impactos das notícias e imagens veiculadas exaustivamente pela mídia. Nos últimos 21 anos, calcula-se que aconteceram em torno de 25 ataques a escolas, ceifando a vida de cerca de 30 alunos, 6 professoras, 2 outros profissionais da educação. Cinco agressores foram mortos. O que podemos encontrar, nos escritos da psicanálise, que tenha relação com esses tristes fatos? No volume 13 das Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, ao falar sobre o interesse educacional da psicanálise, Freud comenta, em 1913, que “somente alguém que possa sondar a mente das crianças será capaz de educá-las, e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças, não entendemos nossa própria infância” (p. 132). Nós não entendemos, pois há uma espécie de amnésia em nós, adultos, que nos torna estranhos à nossa infância, segundo Freud. Para ele, somente a psicanálise pode trazer à luz detalhes dessa primeira fase de nosso desenvolvimento. Quanto ao universo escolar, podemos relacionar a repressão escolar com a seguinte afirmação do Pai da Psicanálise: “A supressão forçada dos fortes instintos por meios externos […] conduz à repressão, que cria uma predisposição a doenças nervosas no futuro” (p. 132). O autor descreve ainda o que ele chama de ambivalência. Isso seria o sentimento de amor e ódio, de críticas e de respeito em relação ao professor. Segundo ele, podemos cortejá-lo ou virar-lhe as costas, vê-lo como simpático ou como antipático. Ainda, ter prazer em encontrar nele suas fraquezas e, ao mesmo tempo, orgulhar-nos de sua excelência, competência e sabedoria. Freud explica que isso tudo tem base nos seis primeiros anos de vida da criança, na relação com os pais, irmãos, irmãs e até babás. Mais tarde, todos os que substituírem essas pessoas serão os “imagos” dessas figuras paternas e maternas. Segundo Freud, na mesma obra de 1913, todas as escolhas posteriores de amizade e amor seguem a base das lembranças deixadas por esses primeiros protótipos. Com o desenvolvimento natural, já na segunda infância, o menino (especialmente) começa a se desligar da imagem perfeita dos pais e começa a transferir para o professor esse papel. “Descobre que o pai não é o mais poderoso, sábio e rico dos seres, fica insatisfeito com ele, aprende a criticá-lo, a avaliar o seu lugar na sociedade; e então, em regra, faz com que ele pague pesadamente pelo desapontamento que lhe causou […], é nessa fase do desenvolvimento de um jovem que ele entra em contato com os professores, de maneira que agora podemos entender nosso relacionamento com eles. Estes homens, nem todos pais, na realidade, tornaram-se nossos pais substitutos […] começamos a tratá-los como tratávamos nossos pais em casa” (Freud, 1913, p. 164). Motivações complexas Que relação podemos estabelecer entre esse estudo da psicanálise com os fatos que aconteceram, nestes tempos, mais de cem anos depois dos escritos de Freud? Muito se especula sobre as causas dos ataques, o que teria influenciado os adultos e os adolescentes a serem os autores de tais tragédias. Alguns afirmam que isso é resultado dos jogos violentos da internet. Como sabemos, não há sustentação segura para essa afirmação, tendo em vista que os jogos sempre existiram e nem todos os que tiveram acesso a eles se tornaram violentos. No entanto, convenhamos, alguns dos ataques filmados por câmeras de segurança reproduzem a ação, a vestimenta, os gestos e os armamentos presentes em alguns personagens de jogos atuais viciantes. Há afirmações que transferem totalmente a responsabilidade para o ambiente familiar. Outros ainda, ao ambiente escolar. O fato é que não há um único cenário responsável. O artigo de Freud menciona o desenvolvimento saudável de uma criança. No entanto, ao falar da transferência da figura paterna, materna e fraterna, cita a possibilidade de um desenvolvimento patológico. Este, hoje, encontra suporte na internet, em alguns grupos on-line de apologia ao crime. Há incentivo, por parte de influencers, ao armamento, ao racismo, à misoginia, à xenofobia, à homofobia e a outras formas de preconceito. Soma-se a isso o bullying praticado pelo agressor e pela vítima no ambiente escolar. Trabalho multidisciplinar O governo de Porto Alegre-RS publicou um protocolo de prevenção à violência nas escolas (Previne). No documento, é apresentado um estudo feito pela Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), revelando que, em seis cidades do Brasil, 84% dos estudantes consideram a escola violenta; 70% reportaram serem vítimas de violência escolar (física, discriminatória e de exclusão social). Em se tratando de Porto Alegre, 7% são vítimas de crimes convencionais; 18% revelaram ser maltratados; e 32% sofrem agressão familiar. Apesar de aversivos, esses números servem de base para uma correlação com alguns pensamentos da psicanálise, segundo o pensamento de Freud em 1913. Embora o Pai da Psicanálise não tenha abordado o tema violência nas escolas, alguns pensamentos dele nos dão luzes para compreender o universo escolar cem anos depois. A família, a escola e a sociedade brasileira estão pedindo socorro. A escola sozinha se torna impotente diante dessa insegurança. Um aluno convive somente quatro horas, em média, no ambiente escolar. As outras 20 horas são divididas entre a família, a rua e a internet. Por isso é necessário um trabalho multidisciplinar envolvendo o Estado, a sociedade, profissionais da Psicologia, da Assistência Social, da Pedagogia e da Segurança Pública. Como apoiar pessoas afetadas por uma tragédia em escola • Ofereça apoio incondicional à criança ou outra pessoa atingida pelos acontecimentos. • Deixe a pessoa afetada expressar os sentimentos, emoções, medos, inseguranças. • Use a linguagem adequada para falar com a pessoa afetada. • Não negue os fatos, mas também não dramatize com detalhes. • Informe a pessoa sobre as medidas de segurança que estão sendo tomadas na escola. • Monitore as redes sociais frequentadas por seu filho ou aluno. • Se for necessário, procure um profissional de saúde mental. Referências Freud, S. O interesse científico da psicanálise. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Totem e tabu e outros trabalhos (vol. 13). Rio de Janeiro:
A instigante missão de “ser porta” para os outros

“Eu sou a porta. Quem entrar por mim será salvo; entrará e sairá, e encontrará pastagem” (Jo 10,9) A liturgia deste quarto domingo de Páscoa nos traz, em primeiro lugar, a imagem de Jesus-Pastor que conduz e guarda, anima e protege aqueles(as) que o seguem; a segunda imagem pascal é a “porta da liberdade” pela qual saem e entram as ovelhas, ou seja, todos nós, sem que ninguém nos persiga nem domine. O próprio Cristo Ressuscitado é a porta da liberdade. A terceira imagem refere-se a todos nós, transformados pelo Ressuscitado em pastores e porta de liberdade em um mundo onde impera a escravidão da violência, da indiferença e do ódio. “Eu sou a porta”: Jesus não se refere à peça de madeira ou ferro que gira para abrir ou fechar o curral das ovelhas, mas o espaço por onde se pode ter acesso ao recinto. Por isso, Jesus afirma que é a porta das ovelhas, não do redil. “Passar por Ele” é “entrar” na Vida, é deixar-se revestir pelo seu modo de ser e viver. Todos os que vieram antes são ladrões ou bandidos porque não facilitaram a liberdade e a vida às ovelhas. Entrar pela porta que é Jesus é o mesmo que “aproximar-se dele”, “identificar-se com Ele”, “aderir a Ele”; isso implica assemelhar-se a Ele, ou seja, caminhar com Ele na busca do bem das pessoas. Ele dá a vida definitiva, e aquele que possui essa Vida ficará a salvo da exploração. Ele é a alternativa à ordem injusta. Em Jesus, o ser humano pode alcançar a verdadeira salvação. “Poderá entrar e sair”, ou seja, terá liberdade de movimento. “Encontrará pastagem” é o mesmo que dizer: “não passará fome nem sede”. O Bom Pastor inaugura um movimento de vida; Ele não vem fundar novas instituições que travam a liberdade das pessoas, nem vem trazer novas leis que se tornam peso nas costas dos seus seguidores. Seu jugo é suave e seu peso é leve (cf. Mt 11,30). Por isso Ele se define como “Porta da Vida” que está sempre aberta. Por ela temos acesso ao seu coração carregado de bondade e compaixão. Aqueles que escutam sua voz deixam o ambiente opressor e vivem em liberdade. Jesus não vem substituir uma instituição por outra; não tira as ovelhas de um curral para prendê-las em outro. “Entrar” e “sair” pela porta: aí está a experiência de viver a vida ressuscitada em toda a sua plenitude e de “saborear” a existência em toda a sua promessa. A porta é uma realidade e é um símbolo. “Entrar” e “sair” pela Porta, que é o próprio Cristo Ressuscitado, desata em nós a consciência de sermos “portas abertas em nossa interioridade”. Passar pela “Porta” do Ressuscitado é destravar a porta de nossa interioridade para que a vida possa se expandir e receber novos ares; passar pela “Porta” do Vivente é ter acesso à nossa verdadeira identidade. Quando a experiência de encontro com Aquele que é a “Porta da Vida” abre a porta de nosso redil interior, ela faz emergir à nossa consciência as profundidades desconhecidas do nosso ser, reacende nossa vida e libera em nós as melhores possibilidades, recursos, capacidades, intuições…; ao mesmo tempo nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais profunda de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis… Assim, de portas abertas, nossa vida se expande em direção aos outros e à Criação, possibilitando uma conexão livre com toda a realidade, através da íntima solidariedade e do compromisso ativo. No atual contexto social e religioso tudo contribui para vivermos a cultura das “portas fechadas” que excluem, dividem, marginalizam…; isso provoca a contaminação de nosso coração: ódio, intolerância, indiferença, preconceito… Muitos de nós continuamos presos dentro de um medo neurótico, sem nos atrever a ser o que somos, sem abrir a porta do coração de nossa vida. Frente à realidade que insiste para que fechemos as portas, construamos muros, o evangelho deste domingo nos inspira a viver uma atitude de permanente abertura, de não ter medo frente à nova vida que nos chega através do Ressuscitado. Ele vem para abrir as portas, enviar-nos ao mundo com uma palavra de perdão, com um testemunho de vida, com uma presença libertadora… Segundo a tradição bíblica, o que mais nos desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de crer. Quem vive “fechado em si mesmo” não pode acolher o Espírito de Deus, não pode deixar-se guiar pelo Espírito de Jesus. Quando nosso coração está “fechado”, nossos olhos não veem, nossos ouvidos não ouvem, nossos braços e pés se atrofiam e não se movimentam em direção ao outro; passamos a viver voltados sobre nós mesmos, insensíveis à admiração e à ação de graças. Quando nosso coração está “fechado”, em nossa vida já não há mais compaixão e passamos a viver indiferentes à violência e injustiça que destroem a felicidade de tantas pessoas. Vivemos separados da vida, desconectados. Uma fronteira invisível nos separa do Espírito de Deus que tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia. Em meio às mudanças e às transformações de nosso tempo, somos chamados, como seguidores(as) do Bom Pastor, a ser pessoas de interioridade. E interioridade é um caminho sempre inacabado. Frente aos desafios que a vida hoje nos apresenta, é decisivo favorecer um espaço interior livre, ou seja, liberado de tudo aquilo que possa entorpecê-lo inutilmente, para “sentir e saborear as coisas internamente” (S. Inácio). Não é possível “ajudar os outros” a viver interiormente se nós mesmos não vivemos nesse redil de silêncio, de gratuidade e de interioridade, onde buscamos as motivações e as inspirações de nossa missão (família, trabalho, relações…). Sem buscar e encontrar os caminhos da interioridade, corremos o risco de secar nossa generosidade cotidiana e de atrofiar o sentido de nossa existência e dos nossos mais fortes compromissos. Para reavivar a graça pascal precisamos: – “Ser” a porta da caridade e da misericórdia, revelando-nos agentes transmissores da bondade e da ternura de Deus; ser porta
A escola e a cultura de paz

A cultura de paz na escola é um conceito que tem ganhado cada vez mais importância nos dias atuais. Trata-se de um conjunto de valores, práticas e atitudes que visam a fomentar a convivência pacífica entre os indivíduos e a promoção da igualdade, da justiça e do respeito mútuo. Na escola, a cultura de paz se manifesta de diversas maneiras, como na promoção de atividades de cooperação entre os alunos, no incentivo à resolução, de forma pacífica, de conflitos e na valorização do diálogo como forma de comunicação. Uma das principais formas de cultivar a cultura de paz na escola é a educação para os valores. Isso significa que, além do ensino das disciplinas convencionais, a escola deve se empenhar em desenvolver nos alunos habilidades e atitudes que contribuam para a formação de cidadãos pacíficos e responsáveis. Essa educação pode ser promovida por meio de palestras, debates, jogos educativos, entre outras atividades que estimulem a reflexão sobre a importância da convivência harmoniosa. Nesse sentido, as escolas e centros educativos da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo vivenciaram, em abril, muitos momentos de atividades pela paz. De pés descalços, os alunos das escolas montaram um quebra-cabeça gigante para expressar o compromisso com a solidariedade, a cidadania e a empatia. Direcionar o olhar e as ações para a paz e para o outro, a fim de construir uma sociedade mais humana, torna-se o grande desejo que brota da sola dos pés e chega a nossos corações. Além disso, a cultura de paz na escola também depende do engajamento de toda a comunidade escolar, incluindo professores, funcionários e pais de alunos. Todos devem estar alinhados em relação aos valores que a escola deseja transmitir e trabalhar em conjunto para criar um ambiente de respeito e harmonia. Dessa forma, é possível transformar a escola em um espaço de convivência pacífica e de aprendizado para a vida toda, contribuindo para a formação de indivíduos mais conscientes e comprometidos com a construção de um mundo mais justo e solidário. Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS
Formação permanente: servas do Espírito Santo discutem as práticas de justiça e paz

“Desenvolvimento e prática da justiça e paz e integridade da Criação” foi o tema da formação permanente das missionárias servas do Espírito Santo, realizada, no formato on-line, no dia 18 de março. O tema é uma proposição do Governo-Geral para que as práticas de justiça e paz, legado dos fundadores, permaneçam como premissa para a missão. Como rezam as normas constitucionais da Congregação,a promoção da justiça, paz, integridade da Criação (Jupic) e defesa da vida humana é parte integrante do chamado religioso-missionário. O evento reuniu cerca de 150 irmãs representantes das missões nos Estados Unidos, Colômbia, Equador, México, Cuba, Paraguai, Chile, Bolívia, Argentina e Brasil. A assessoria foi das irmãs Petronella Maria Boonen e Maria Inês Aragão. Com base nos capítulos-gerais, Ir. Maria Inês aprofundou as práticas de justiça e paz na instituição. A expressão “justiça e paz” apareceu, pela primeira vez, em 1990, no 8º Capítulo-Geral, como desafio de servir à libertação integral da pessoa humana. “A missão justiça e paz, e integridade da Criação é vivida desde a fundação, pois os fundadores sempre tiveram um olhar para as populações mais pobres, o que vale dizer, faz parte do nosso carisma”, acrescenta. Ainda segundo Ir. Maria Inês, nos documentos capitulares, a justiça não se refere a uma justiça corretiva, vingativa, mas a uma justiça evangélica. “Ou seja, construção de comunidades e sociedade de justiça evangélica, reconciliação e cura, onde não haja lugar para qualquer violência pessoal e social, e exista a promoção da integridade da Criação, favorecendo a passagem do consumismo ao uso consciente de recursos, da exploração à ecorresponsabilidade, de uma consciência passiva a um envolvimento ativo nas mudanças sistêmicas.” As práticas de justiça e paz no dia a dia das servas do Espírito Santo Durante o encontro, algumas irmãs puderam testemunhar como se dão, no concreto, as práticas de justiça e paz e integridade da Criação. Irmã Mariel Clapassón, educadora da Escola de Diamante, na Argentina, falou sobre o Projeto Cuidado da Casa Comum, por meio do qual alunos e professores semearam árvores autóctones da zona costeira e limparam espaços públicos, como praças, ruas e a orla do rio Paraná. Quando prontas para o transplante, os alunos do ensino secundário plantaram as árvores nesses espaços, em acordo com a Câmara Municipal da Cidade de Diamante e com a ajuda e orientação dos Parques Nacionais. “A fitoterapia nos permite usufruir respeitosamente as plantas, tirando delas as essências que beneficiam o ser humano, sem danificar a própria natureza. Isso resulta em bem-estar para mim mesma, pois a natureza é minha sobrevivência”, explicou Ir. Maria Aparecida Ricardo Ribeira, de Três Passos, Rio Grande do Sul, que atua nessa área, no Brasil. Irmã Carolina Gonzalez, que trabalha junto às comunidades indígenas no México, afirma que, dentro da pastoral indígena, promove a Jupic, acompanhando os processos de defesa e fortalecimento da identidade cultural dos povos originários Zapotecas, Mixtecas e Chatinos. “Fazemos isso por meio da revitalização de sua língua materna, que se opõe à cultura homogênea, bem como tornando visível sua luta por sua terra e território, a partir da Remam” (Rede Ecológica Eclesial da Mesoamérica). “Trabalhamos com reflorestamento, enriquecimento de bosques com árvores frutíferas, cuidando da cobertura vegetal, cultivo associado de três plantas, em três tempos, no mesmo terreno. Essas plantas crescem e convivem juntas, uma dando força à outra (mandioca, milho e amendoim ou abóbora). Reforçamos, valorizamos e resgatamos o estilo de vida, de trabalhar e plantar dos povos que, muitas vezes, é depreciado”, contou a Ir. Angela Balbuena, que trabalha no projeto de produção agroecológica com as comunidades indígenas Ava Guarani, Mwya Guarani e Paî Tavy Terá (Kaiowá), no Paraguai. Vivat: presença religiosa nas Nações Unidas pela justiça e pela paz Ao ser questionada sobre a origem da Vivat, uma organização que traz em seu bojo a luta pela justiça e pela paz, Ir. Petronella Maria Boonen explicou que é uma fundação das congregações das Missionárias Servas do Espírito Santo e Missionários do Verbo Divino. “A proposta da Vivat é ser presença, diante das Nações Unidas, da vida religiosa, para levar as vozes dos povos e comunidades vulneráveis, seus problemas e preocupações com o cuidado da Casa Comum, a superação da desigualdade e a violação dos direitos humanos. Isso demanda um profetismo inspirado no Evangelho, que escuta e responde aos gritos dos pobres e da terra.” Ainda conforme Ir. Petronella, é preciso fomentar nos membros da Vivat a ação local em rede, conjugada com uma incidência global. “Articular a defesa de direitos humanos com instituições internacionais e pressionar governos locais significa trabalhar em um campo de missão que demanda investir na formação inicial e continuada.” Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.