“Chamado-seguimento” com a marca da compaixão

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas…” (Mt 9,36) O atributo primeiro do Deus de Jesus não é o poder, a majestade, o senhorio…, mas a compaixão. Ele não vem para impor-se e dominar o ser humano. Aproxima-se para tornar nossa vida mais digna e ditosa. Esta é a experiência que Jesus comunica em suas parábolas mais comovedoras e a que inspira toda sua trajetória a serviço do Reino de Deus. De fato, na sua vida pública, Jesus deixa transparecer o rosto do Pai compassivo na sua relação com a humanidade, sobretudo com os sofredores, vítimas de violência e exclusão. A imagem do Deus revelado por Ele não está acima ou à margem do sofrimento humano. Jesus é a primeira testemunha da compaixão do Pai; Ele foi o primeiro a viver totalmente a partir deste sentimento tão divino e tão humano, desafiando claramente o sistema de santidade e pureza que predominava naquela sociedade. Ele quer que, a partir de então, os enfermos, os famintos, os excluídos… experimentem em sua própria vida a compaixão de Deus. A atuação de Jesus era diferente das autoridades religiosas, pois Ele via tudo a partir da compaixão de Deus. O que lhe preocupava, antes de mais nada, era o sofrimento que destruía, humilhava e marginalizava tantas pessoas. Jesus não caminhava pela Galileia buscando pecadores para convertê-los de seus pecados, mas aproximava-se dos enfermos, famintos e endemoninhados para libertá-los de seu sofrimento. É precisamente esta compaixão de Deus que faz Jesus tão sensível ao sofrimento e à humilhação das pessoas, que o atrai para as vítimas inocentes: os maltratados pela vida ou pelas injustiças dos poderosos. Sua paixão pelo Deus do Reino se traduz em compaixão pelo ser humano. O Deus do templo, o Deus da lei e da ordem, do culto e do sábado, não poderia alimentar sua entrega a todos os sofredores. Por isso, a compaixão, é a opção e atitude fundamental de Jesus diante dos sofredores, famintos e excluídos. Diante deles, Ele não permanece impassível, mas sente remover suas entranhas. A palavra hebraica que se traduz por compaixão é “rahamim”, derivada de “rahem”, ventre, entranhas. Na antropologia bíblica, ventre é o lugar da compaixão e é aplicado a Deus, pois só Ele é capaz de atuar compassivamente a partir de suas entranhas. A tradição bíblica do Êxodo apresenta Javé movido pela compaixão diante dos sofrimentos do povo hebreu; Ele escuta os gritos que chegam ao céu e compromete-se com a libertação da escravidão do Egito (Ex 3,7-12). A compaixão também está na base da legislação hebraica que defende os direitos dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros, os mais vulneráveis entre o povo. É o centro da mensagem e a prática dos profetas de Israel, para quem a religião verdadeira não consiste em oferecer sacrifícios, mas em fazer o bem, estabelecer o direito e praticar a justiça. A compaixão expressa, portanto, uma reação visceral, o estremecimento mais íntimo e humano que uma pessoa pode experimentar. Nesse sentido, a compaixão é o motor da vida e da conduta do ser humano. A partir de sua experiência radical da compaixão, Jesus introduz na história um princípio decisivo de ação: “Sede compassivos como vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36). A compaixão é a força que pode mover a história para um futuro mais humano. A compaixão ativa e solidária é a grande lei da dinâmica do Reino, aquela que faz reagir diante do clamor daqueles que sofrem e mobiliza a todos para construir um mundo mais justo e fraterno. Esta é a grande herança que os cristãos precisam mantê-la sempre ativa. Afinal, eles são seguidores do Compassivo. A compaixão é a virtude por excelência proclamada no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os compassivos…”. Felicidade e compaixão são inseparáveis. Uma pessoa é feliz partilhando e aliviando a dor das pessoas que sofrem. A falta de entranhas de misericórdia torna infelizes aqueles que não praticam tal virtude e aqueles que sofrem. Por isso, pode-se dizer que se trata de um princípio ético universal, que transcende todas as culturas e religiões, de maneira que, precisamente por isso, está presente onde há humanidade. A compaixão é comum a todos e é anterior a toda instituição religiosa. Ela está inscrita no mais profundo de todo ser humano, independentemente de sua opção religiosa. Fomos criados à imagem e semelhança do Deus Compassivo e trazemos “tatuado” em nossas entranhas a marca da compaixão, que é continuamente ativada diante dos dramas da vida humana. Este sentimento, tão humano e tão divino, constitui a essência do nosso “eu” verdadeiro e revelador da nossa identidade mais original e profunda. No entanto, quando nos deixamos seduzir pelo “ego inflado”, a compaixão se atrofia, a sensibilidade se petrifica, os afetos se esvaziam… Consequências: agravamento da cultura do ódio, da intolerância, do preconceito e da indiferença frente à realidade marcada pela violência, miséria e exploração. Compaixão bloqueada dá margem ao processo de desumanização. O eu entrincheirado em seu “bunker” necessita passar por um processo de higiene e saúde, respirar novos ares, não viciados ou contaminados; precisa abrir suas portas e janelas ao outro, sair às ruas, fazer-se presente junto às situações desumanizadoras. Viver fechado em si e para si termina por afogar-se nas águas poluídas do narcisismo. Só a compaixão vem a ser o melhor antídoto contra o egoísmo tão enraizado no ser humano. Impulsionado pelo sentimento da compaixão ele quebra as paredes de seu “bunker”, sai ao encontro do outro e se compromete com ele. Escreve E. Levinás: “a partir do momento em que o outro me olha, eu sou responsável por ele”. No evangelho deste domingo, Mateus nos deixa claro que foi no contexto da compaixão de Jesus diante da multidão faminta e sem pastor que o “chamado e o envio” acontecem. O chamado de Jesus emerge do calor da compaixão; só este sentimento tão nobre dará inspiração e sentido ao seu seguimento. Sem se deixar guiar pela compaixão, o seguimento de Jesus “passa pelo outro lado” diante do sofrimento humano e se torna cúmplice dele. A alternativa

Nativos digitais: se as crianças não passarem tempo com os pais, teremos consequências?

O termo “nativos digitais” foi criado por Marc Prensky, em seu artigo Digital natives, digital immigrants, de 2001, publicado com a intenção de se referir à geração que nasce e cresce imersa na tecnologia, e a algumas das implicações dessa mudança no processo de ensino-aprendizagem. De tal forma, podemos observar um marco de mudança significativa entre gerações que nos coloca diante de uma nova realidade: as atuais novas gerações e próximas estão conectadas, desde a infância, no digital. A problemática surge quando refletimos, de forma crítica, sobre a função que se direciona hoje aos eletrônicos em contato com a criança, cada vez mais cedo e sem limite de uso. Estamos, nos últimos anos, recebendo nos consultórios as primeiras gerações de bebês e pequenas crianças que, desde o nascimento, convivem com a existência desses gadgets eletrônicos e que recolhem as consequências disso não só diretamente, na medida em que eles passam a ser oferecidos no lugar dos brinquedos (não à toa, têm sido fabricados menos brinquedos e mais jogos eletrônicos), mas também indiretamente, na medida em que convivem com adultos que não têm mais tempo, porque os eletrônicos bugaram, desconfiguraram a borda entre o espaço de lazer e de trabalho, e que não têm mais lugar, afinal se vive olhando para janelas virtuais, de corpo presente, mas psiquicamente ausente (BAPTISTA; JERUSALINSKY, 2017, p. 35). Quando pensamos no surgimento de um termo utilizado para definir as gerações conectadas e começamos a repensar nossa forma de atuação para mediar um acesso que se apresenta quase intrínseco às crianças, faz-se válido destacar alguns pontos de consequência acerca dos limites de uso dessas ferramentas digitais, de uma conexão wi-fi que não pode substituir a conexão humana, principalmente em tempos fundamentais como do desenvolvimento e estimulação inicial de uma criança, considerando que, nos anos iniciais, ocorre a instauração da linguagem bem como seus efeitos, mediados por um adulto que efetua essa inscrição na criança. Este é o problema: os aparelhos emitem sequências sonoras, mas não conversam […] eles oferecem fragmentariamente uma linguagem, mas não sustentam sua função. Emitir sequências sonoras é bem diferente do que dar lugar a que o sujeito possa se representar na linguagem (BAPTISTA; JERUSALINSKY, 2017, p. 41) Podemos visualizar, entre vários aspectos, algumas consequências desse afastamento dos responsáveis pela criança, que acabam, muitas vezes, por colocar em seu lugar aparelhos eletrônicos para obter algum tempo de descanso, por exemplo (nem sempre cientes dos malefícios) como o prejuízo na linguagem e dos estímulos, conforme nos apontam Baptista e Jerusalinsky (2017, p. 42): “Não são poucos os bebês e pequenas crianças de um ano e meio a três anos que chegam ao consultório […] que não respondem quando chamados”. De tal forma, essas crianças respondem a sequências sonoras emitidas por serviços de entretenimento digital, mas não localizam o olhar do outro nem se localizam em um espaço, apenas buscando as telas e passando o dedo por elas (BAPTISTA; JERUSALINSKY, 2017). Emitir frequências sonoras, observar entonação da voz e a musicalidade desta se dá pela chamada prosódia, que seria, nesse caso, a comunicação entre bebê e quem realiza a função materna, “o modo como cada um se apropria da língua materna ao aprender a falar” (MAURANO, 2015, p. 92). Sendo as telas uma crescente inserção da infância, já observamos crianças como espectadoras do que os brinquedos fazem, e não mais como protagonistas de criar e imaginar, o que deve ser considerado quanto aos prejuízos que isso pode causar em um tempo em que as crianças ainda estão constituindo-se em seu desenvolvimento corporal e psíquico Podemos, assim, caminhar para a conclusão e seguir ampliando as reflexões de que vários fatores nos apontam sobre ser fundamental o tempo de qualidade (e, com esse termo, queremos dizer adultos presentes de corpo e mente, brincando, interagindo e não apenas sentados ao lado dos filhos, dividindo telas e rolando um feed) que os pais/responsáveis passem com essa criança. “Jogar é muito diferente de brincar, atividade constitutiva que permite e favorece a elaboração psíquica, estimula a imaginação e permite criar recursos anímicos para lidar com as angústias e os conflitos próprios da vida” (GUELLER, 2017, p. 66). Vale destacar que um bebê chega ao mundo já nomeado por um outro que escolhe como se chamará ao longo da vida, que foi desejada como filho, filha e que ocupará um lugar nessa família, necessitará, por mais algum tempo, de várias nomeações vindas desse outro a que se refere como pai e mãe, visto que é quem faz essa função inicial nos primeiros anos de vida com a criança, que nomeará quando sente fome, frio, sono… Isso é tão importante quanto o tempo de nomear e colocar significados, o tempo que a criança aprenderá nomear e dizer de si, imaginar e criar a partir da subjetivação da vivência dos anos iniciais e os vínculos que estabeleceu. Dessa forma, haverá o tempo de observar esse bebê tornando-se criança, adolescente e um adulto, atravessado pelas experiências iniciais de sua família e dos demais afetos de sua vida. Por fim, podemos então finalizar este pequeno artigo com o mesmo título que nos convocou a escrevê-lo: se os pais não passarem tempo com as crianças, quais consequências poderemos ter? Referências BAPTISTA, Angela; JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Salvador: Ágalma, 2017. GUELLER, Adela. Droga de celular! Reflexões psicanalíticas sobre o uso de eletrônicos. In: BAPTISTA, Angela, JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Salvador: Ágalma, 2017. p. 63-75. MAURANO, Denise. A perspectiva “musicante” da voz na Psicanálise ou notas sobre o ditirambo psicanalítico. In: DIAS, M. M. (Org.). A voz na experiência psicanalítica: III Jornada Seminário Fundamentos da clínica do psicanalista pelas psicoses. São Paulo: Zagodoni, 2015. p. 87-106. PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants. On the Horizon, v. 9, n. 5, out. 2001. Disponível em: https://www.marcprensky.com/writing/Prensky%20-%20Digital%20Natives,%20Digital%20Immigrants%20-%20Part1.pdf. Acesso em: 10 jun. 2023. Amanda Monteiro FaedoPsicóloga educacional no Colégio Santa Maria de Cascavel-PR, psicóloga clínica (CRP 08/28509), especialista em Psicanálise Clínica – Freud a Lacan pela PUCPR, Campus

Olhares que destravam vidas

“Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus…” É curioso: nossa identidade também se revela no modo de olhar; somos o que olhamos; somos como olhamos. Alguns dizem: “Dize-me como olhas e te direi quem és”. Trata-se de uma linguagem universal, para além das palavras. Diariamente vivemos de olhares, imersos neles, amando ou condenando, acolhendo ou rejeitando. Quem não experimentou alguma vez sentir-se especial diante do olhar do(a) outro(a)? Quem não provou o peso de um olhar julgador que, como um dardo venenoso, atravessou as entranhas? O olhar diz muito mais do que pensamos. Há olhares que ocultam um poder imenso: maliciosos, sensuais, provocativos, inocentes… Há olhares intensos e penetrantes que conseguem despertar nosso lado mais selvagem e passional, e que ultrapassam a barreira de nosso ser, permanecendo gravados em nossa mente. Há olhares que falam por si sós, sem necessidade de nenhuma palavra, que transmitem sentimentos, desejos e afetos. Igualmente há olhares que deixam transparecer uma personalidade venenosa, destrutiva e daninha e que, muitas vezes, nos fazem afastar dessas pessoas pelas más sensações que nos causam. Não nos enganemos; os olhares não são neutros. Eles desvelam (tiram o véu) o mais profundo da pessoa. A maneira com que olhamos uma pessoa, a forma com que respondemos a um olhar, muitas vezes vai determinar a diferença entre um encontro memorável e grandioso ou um encontro repulsivo e constrangedor. Corações petrificados e insensíveis se expressam nos olhares que matam, que fecham as portas e condenam aqueles que são diferentes; há olhares que delatam, que invejam e que não suportam o bem alheio; olhares de morte, impessoais e indiferentes, superficiais e interesseiros; olhares embriagados de soberba, calculistas, gélidos. Olhares sem luz e sem Deus. Mas também sabemos que há olhares que curam e reconfortam; olhares que são oásis e sombra acolhedora, que protegem e bendizem; olhares que são bálsamos que aliviam feridas, derramam consolo e compreensão. Olhares cheios de amor para com o outro, que tornam a vida mais fácil. Olhares tolerantes, que não levam em conta o mal, mas tudo suportam e tudo esperam. Olhares que transmitem o bem e que embelezam seus destinatários, fazendo-os melhores e extraindo o melhor deles. A Revelação vem nos ensinar que Deus “olhou” para a humanidade, e seu olhar de amor foi tal que desceu até o mais profundo da condição humana. A Encarnação do Filho foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração da Trindade, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração, estremecendo-a de compaixão e movendo-a à ação redentora. Assim também nossa presença no mundo deve ter sua origem no olhar misericordioso e compassivo, amoroso e esperançoso… Precisamos reaprender a olhar as pessoas nos olhos para despertar em nós a consciência da bondade humana, cujas raízes foram plantadas por Deus no coração de cada uma delas. E quando somos capazes de olhar nos olhos, com simplicidade, podemos encontrar no coração do outro uma imagem do nosso próprio coração. Quem é a referência e o modelo na arte de olhar? O Mestre da Galileia que, passando pelos lugares cotidianos, olhou a todos como ninguém nunca olhou, extraindo o melhor de cada pessoa em cada circunstância, ativando possibilidades inimagináveis, mobilizando todos os seus recursos vitais… Seu olhar transformava as pessoas em maravilhosas obras de arte. Durante sua vida, Jesus passou entre nós com um olhar profundo e que chegou a comover muitas e diferentes pessoas: os discípulos, convidando-os a segui-lo; os pecadores, oferecendo seu perdão; os enfermos, oferecendo cura; os excluídos, oferecendo sua acolhida… Seu olhar nos inspira a olhar o mundo e as pessoas de maneira diferente; olhar que recupera e vibra frente à novidade, que capta a verdade, a beleza e o bem presente em tudo e em todos; olhar que recolhe das margens os olhares perdidos, distraídos ou derrotados de tantos irmãos caídos que necessitam, com urgência de um “olhar cristificado” que os salve. O que salva é o olhar. O evangelho deste domingo nos situa diante do olhar arrebatador e transformador de Jesus. O sujeito do primeiro verbo é Jesus: “viu um homem chamado Mateus”. Jesus estava em movimento, e Mateus, pelo contrário, estava parado, passivo, “sentado junto à banca”, apegado à sua condição de cobrador de impostos, preso a uma profissão que o tornava desprezível aos olhos de todos. Mas os olhos de Jesus souberam ver além das aparências: viram no publicano um discípulo, um seguidor. Para esse olhar ninguém está sentenciado nem qualificado definitivamente, mas tem o futuro diante de si. Pela primeira vez, Mateus sentiu-se olhado de outra maneira: alguém acreditou nele e o chamou, e por isso ele se transformou em alguém dinâmico que deixou para trás seu passado, assumiu o protagonismo de sua própria vida e se pôs a caminho atrás d’Aquele que foi capaz de olhá-lo assim. No olhar de Jesus não há, nesse primeiro momento, nem exigência, nem correção, nem sequer chamado à conversão; tão somente um apelo para entrar em outro nível de relação com Ele. Com seu olhar provocativo Jesus arrancou Mateus de sua mesa (mesa que o distanciava dos outros, mesa da traição do seu povo e que o fazia colaborador do império romano, mesa que o fazia sentir-se inimigo do povo, mesa da exploração, da solidão, da acomodação, da fixação… mesa da morte). Em casa de Mateus, Jesus funda uma outra mesa: mesa da comunhão, da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais… Mesa da vida. Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda… que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude… transformação interior. “Virar a mesa”, eis a questão! Porém, a aventura de “troca de mesa” requer uma troca de “senhor”. Para Mateus, a troca de mesa só foi possível a partir da troca de “senhor”: deixou a mesa da dependência ao imperador romano e abriu espaço interior para a presença de Jesus e dos outros. Ele correu o risco de assumir a mesa da liberdade e da comunhão. Mateus não tem mais mesa fixa (deixa de

Sobre enamorar e enamorar-se

Entre tantas datas celebrativas, religiosas, comemorativas e até de apelo comercial, o amor pede passagem no mês de junho, que, tradicionalmente, nos lembra a defesa do meio ambiente. Fica inaugurado um tempo de celebrar o amor em sua fase inicial de aprendizagem, de experimentações afetivas, de mudança de fase, de novos laços, de ampliação das escolhas e desejos. Tempo de renovar juras de amor e de escolher nunca desistir do amor e da partilha. Nestes tempos de celebrar o amor, será preciso não pensar no namoro em si, mas no enamorar, no enamorar-se… Cada um de nós experimenta esses ciclos continuados de encantamento que são a base para as escolhas que fazemos na vida, muito além do amor entre pares. Se eu me enamoro, antes de tudo, crio as defesas para não permitir que nem um ato sequer me faça sentir desrespeitado, desrespeitada nessa proximidade. Se eu me enamoro e enamoro o milagre da vida, minhas escolhas serão balizadas pela defesa intransigente da dignidade da pessoa humana. Na simplicidade, no “enamoramento” e no encantamento, escolhas vão se desenhando diante dos nossos olhos, mãos, corpo e mente. A vida vira um discernimento permanente. Vira namoro, vira vocação, vira devoção, vira meta, vira casamento, vira separação, vira transformação, vira sonhos… A vida, (in)finitamente, apresenta-se em forma de broto e, se cuidada e protegida, vai crescer, alongar-se, achar seu lugar ao sol. Enamorar-se, enamorar e namorar são faces da mesma mirada. É permanecer onde existe a mansidão, a paz interna, a paixão, a devoção, a partilha, a partida, o descanso no colo de alguém, a esperança traduzida em gestos e atitudes. Enamorar-se, enamorar e namorar é “querer permanecer, mesmo podendo voar”. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Conheça o “Dia sem Sapatos”, promovido pela Rede de Educação SSpS

As unidades da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo promoveram o “Dia sem Sapatos”. O projeto foi uma forma de festejar uma das principais datas da Congregação, a Solenidade de Pentecostes; em 2023, celebrada em 28 de maio. Várias ações foram realizadas com base no simples gesto de “descalçar-se”. A Rede preparou um boletim, mostrando como foi a iniciativa. Veja! [dflip id=”10596″ ][/dflip]

Eucaristia: enfeitar as ruas também com nosso testemunho

A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida também como Corpus Christi, é celebrada com muito carinho pelos cristãos mundo afora. Data móvel, normalmente ocorre na primeira quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, ou, dependendo do costume, no domingo seguinte. Essa liturgia foi instituída pelo Papa Urbano IV, em 8 de setembro de 1264. O objetivo era valorizar e celebrar a presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados, uma verdade de fé cultivada com esmero desde o início da Igreja. Devido à importância do tema, o próprio Urbano IV encarregou o grande Santo Tomás de Aquino de elaborar os textos que até hoje são recitados ou cantados na festa. Nesse contexto celebrativo, é importante ampliar a reflexão sobre a Eucaristia, expandindo o tema para além da devoção às espécies consagradas (o que não é pouco). É uma oportunidade de redescobrirmos esse sacramento como ceia pascal, ou seja, sinal instituído por Jesus para marcar a passagem da morte para vida, das trevas para as luzes. É um valiosíssimo bendizer a Deus, ofertar-se ao Pai, partir o pão, acolher e curar. A famigerada pandemia, entre muitas coisas, escancarou uma falha enorme na catequese do povo e mesmo na formação do clero. Infelizmente, constatou-se certa redução da Eucaristia à presença real no pão e no vinho, esquecendo-se do aspecto pascal. Apenas para citar dois “exemplos”, o drive-thru de comunhão e a mal interpretada “comunhão espiritual” (compreendida, sem o devido questionamento, como a vista pela mídia) demonstraram um olhar restrito do que Jesus desejou em favor de seu povo. A ceia eucarística é o sentar-se à mesa, partilhando com o próximo e com, por e no Senhor as conquistas e os desafios da vida. É a hora de alimentar-se das palavras do Mestre (nas quais Ele também está presente de forma real), do pão que dá vida e do vinho que enche de alegria, agradecendo a Deus pelo triunfo da misericórdia, da graça e da justiça. A sagrada refeição é a fonte e o ápice do lava-pés, sinal de serviço. Nunca é demais recordar que tanto o trigo quanto a uva que deram origem às espécies sagradas, frutos da bênção de Deus e do trabalho humano, precisaram ser moídos, esmagados para se tornarem Eucaristia. No serviço, na doação, Deus quis estar entre nós. Corpus Christi nos questiona se o divino dom do qual comungamos nos transforma em Eucaristia em nossa casa, no trabalho, na Igreja, na escola, na política, no trânsito… Caso contrário, nós nos “alimentamos” sem nos “nutrir”. Novamente, temos uma preciosa chance de recuperar um lugar mais amplo desse alicerce que sustenta nossa fé, nossa caminhada de seguidores de Jesus, o Mestre da partilha do pão. Ao viver a Eucaristia, podemos adornar ruas com os tapetes coloridos (admirável gesto, diga-se) e com nosso testemunho, o ano inteiro. Que Jesus nos inspire e siga nos acolhendo no generoso banquete da Palavra, do Pão e do Vinho. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Corpus Christi: “Eu sou o pão descido do céu”

“Quem consome a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna…” (Jo 6,54) Com a afirmação “eu sou o pão vivo que desceu do céu”, Jesus manifesta o sentido de sua Encarnação. Ele não usa como sinal o legado poderoso, os atributos régios, os resplendores, as armas, os tronos, as vestes nobres: usa como sinal o pão, ou seja, vida que se desfaz em favor dos outros. Vida expansiva para que outros vivam. Jesus compreendeu-se a si mesmo no pão, ou seja, ser para os outros alimento e alegria. Grãos e espigas moídos para alimentar. Jesus é reconhecido no pãoque “desce” e desaparece nos outros, dissolvendo-se no mais íntimo de cada um, despertando alento, dando calor, força e sentido a partir de dentro. Jesus Cristo, ao fazer-se pão, acolheu tudo quanto é humano e desta maneira tudo redimiu. Em sua humanidade, Ele alimentou e saciou nossas carências mais profundas; ao mesmo tempo, ativou e despertou outras grandes “fomes”: comunhão, compaixão, solidariedade… Assim, no gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho de Jesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha). Celebrar o “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus(suas) seguidores(as). “Descer” e “subir”, portanto, são imagens para descrever o processo de transformação realizado por Jesus no interior de cada um de nós. Não podemos “subir” se não estivermos dispostos a “descer” com Ele ao nosso “húmus”, às nossas sombras, à condição terrena, ao inconsciente, à nossa fraqueza humana. Assim como na Encarnação o Verbo “desce” e se faz visível através das fendas e feridas da humanidade, Ele continua “descendo” e se fazendo “pão” nas profundezas de nosso ser, integrando e pacificando tudo. “Assim novamente encarnado” (EE 109), nos diz S. Inácio. A Encarnação, portanto, não é um evento ou um ato isolado da história; a Encarnação é atitude eterna de Deus. Ele “é” Encarnação contínua, desde toda eternidade. Esta é a verdade, a revelação emocionante, a grande novidade do evangelho, que recolhe o que há de mais profundo da mensagem e da vida de Jesus: para dar alimento é preciso fazer-se alimento. Jesus não só ensina e dá o alimento, mas Ele mesmo “desce” e se converte em alimento. Esta é a sua novidade “teológica”, sua novidade humana, a verdade mais profunda da Eucaristia: compartilhando o pão de Jesus (em memória de sua Encarnação, de sua vida e de sua morte), seus discípulos descobrem que Jesus mesmo é alimento e que eles devem se fazer alimento uns para os outros. Jesus, ao se “humanizar”, se faz “pão”, humanidade convertida em alimento para os outros. A Vida Eterna não se revela num gesto de pura interioridade, mas no encontro e comunhão de uns com outros… Quem crê nos demais, quem compartilha com eles a vida tem a vida eterna, porque entra no fluxo do “Pão Eterno” que se manifestou na Encarnação. Nesse contexto é preciso dizer que o verdadeiro alimento é a vida mesma do ser humano: Jesus se fez alimento para os outros, saciou a fome de justiça e amor. Ele é o alimento que gera vida nova no mundo, vida oferecida e compartilhada. Um alimento “subversivo” porque subverte a tradicional “ordem” das coisas. “Eu sou o pão da vida.” Antes de partir o pão, Jesus parte-se a si mesmo, faz-se alimento. Toda sua vida foi entrega, desde sua Encarnação. Sua vida inteira dá significado ao partir, compartilhar e repartir o pão da vida. Porque Jesus é “pão descido do céu” e porque compartilhamos sua vida, também nós podemos e devemos “descer” e sermos comunhão de vida. Neste sentido, todos somos “pão no Pão”. Cada ser humano é “pão vivo, descido do céu” para outro ser humano; cada homem, cada mulher é revelação de Deus, pão de vida eterna para os outros. Por viver neste nível, por entregar-se e compartilhar a vida neste plano, os homens e mulheres “não morrem”, tem vida eterna. E é isso que, no nível mais profundo, somos todos. Todos somos Vida, todos somos “pão de vida”. Somos pão quando alimentamos o outro na esperança, no perdão, na acolhida, na compaixão, no compromisso… Sim, podemos multiplicar o pão da festa, da alegria, o pão da justiça, o pão da ajuda fraterna… Quanto pão para ser dividido! “Tornar-nos pão” significa “descer” à nossa própria condição humana para expandi-la em atitudes de serviço, partilha, solidariedade… Jesus, ao se encarnar, quis resgatar a vida humana, fazendo-se gente, sentimento, fome, alimento…, na realidade humana. Seu caminho? A vida a partir da mesa, do pão e da festa da partilha. Uma das chaves de compreensão da pessoa de Jesus é a relação d’Ele com a “mesa do pão”, pois Ele passou de mesa em mesa, até se deixar fazer pão na grande mesa da Ceia Pascal. Em todos os encontros de Jesus com os excluídos do Reino, Ele sempre os incluiu em suas refeições. Se para nós, a mesa já era bendita, sagrada…, depois da Encarnação e da Vida de Jesus, ela se tornou mais ainda um lugar de encontro no sacramento do pão partilhado. Desde então, cada vez que dela nos aproximamos, o “Verbo feito carne” continua sua ação salvífica, recriando cada vez mais a vida em expansão. De fato, depois do Verbo fazer-se “carne” e “pão”, a mesa eucarística tornou-se lugar de transformação, de evolução humana e cósmica, o lugar de comunhão por excelência com o Criador. Na pregação de Jesus e, mais tarde, na experiência das primeiras comunidades, deu-se um salto qualitativo: do pão se passou ao pão vivo; da água aos rios de água viva que emanam nas entranhas; do vinho ao sangue que é expressão da vida. Jesus pediu “ir mais além” daquilo que os cinco sentidos podem captar, para abrir-nos ao mistério da vida partilhada e entregue. Simbolicamente,

Impactos do desmatamento da Amazônia nas chuvas e no clima do Brasil e do mundo

Abordar sobre os impactos do desmatamento da Amazônia não é uma tarefa fácil. É um tema que deve ser analisado com muita atenção, pois, nos últimos 20 anos, tivemos um aumento considerável desse processo de devastação do bioma. Os responsáveis e as forças que conduzem essa prática variam entre partes diferentes da região e ao longo dos tempos. Pode-se resumir, em geral, que são os grandes e médios fazendeiros, mas os pequenos agricultores também têm papel de destaque nesses processos. Se analisarmos desde o fim do século XIX, pode-se identificar alguns elementos que ajudam a entender as ocupações do território da Amazônia, como a grande influência da exploração e a produção da borracha no mercado internacional no passado, atualmente o grande número de áreas de extração ilegal de minérios. A Floresta Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e se encontra situada em vários países sul-americanos. Tem grande papel no que se refere à regulação do clima, no ciclo das chuvas da América do Sul e de algumas outras partes do planeta. Quando ela sofre com o desmatamento, ela perde sua capacidade de atrair umidade e reciclar a água da chuva, além de redução no processo hidrológico. Isso torna o clima mais seco e quente, afetando a economia, a geração de energia hidrelétrica e a biodiversidade. Alguns modelos sugerem que, até o ano de 2060, as temperaturas da região terão um aumento de 2 ºC a 3 ºC, sendo a floresta responsável por levar chuvas para outras regiões do Brasil através dos rios voadores (cursos d’água atmosféricos que carregam a umidade gerada na floresta e depois viram chuva). Se tivermos a manutenção do processo de desmatamento, as consequências serão alarmantes, como a diminuição das chuvas e períodos de seca maiores nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Nessa análise, precisamos indicar mais um dado agravante. A NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Americana), em suas previsões no mês de maio de 2023, indicou 90% de chance de ocorrer o fenômeno climático chamado El Niño (aquecimento do Oceano Pacífico) no segundo semestre deste ano, podendo intensificar a temporada de incêndios, com perspectivas devastadoras. A ocorrência do desmatamento contínuo da Floresta Amazônica nos últimos anos e o aquecimento global evidenciam que a floresta deixou de absorver para emitir dióxido de carbono (CO2), influenciando diretamente no clima do planeta. Assim, o desmatamento da Amazônia não afeta somente a biodiversidade da região, e sim o clima global, aumentando a emissão de gases do efeito estufa e auxiliando na perda da biodiversidade. Precisamos de medidas práticas e efetivas para zerar o desmatamento da Amazônia, como o aumento da fiscalização ambiental, a criação de mais unidades de conservação, demarcação de terras indígenas, entre tantas medidas que se fazem necessárias. Como falamos no início, o tema é complexo, contudo precisamos dialogar com a sociedade, buscando soluções emergenciais. Michael Nascimento CostaDocente titular das disciplinas de Geografia e História no Colégio Espírito Santo, em Canoas-RS.

“Se tu vês a caridade, vês a Trindade” (Santo Agostinho)

“Deus amou tanto o mundo…” (Jo 3,16) Com a festa da Santíssima Trindade, chegamos ao cume do tempo litúrgico pascal. A revelação nos diz que nosso Deus não é solidão, mas comunhão de Pessoas: Pai-Filho-Espírito Santo. A Trindade não é um problema numérico (três em um), mas um mistério de amor, de salvação e de vida. Deus-Trindade é, portanto, a relacionalidade por excelência; total relacionalidade de cada uma das pessoas divinas com respeito às outras, de tal forma que se implicam e incluem reciprocamente sempre e em cada momento, sem que uma seja a outra. Deus só existe como ser em relação. A grande novidade cristã é que a divindade só existe comunicada, partilhada. Deus é relação. Deus é só relação. Deus é só amor. “No princípio está a relação” (G. Bachelard). Deus é essencialmente relação; e essa relação, “num belo dia”, transbordando de vida, transbordando de gratuidade, pôde abrir-se a nós para nos fazer existir, concedendo-nos o ser e convidando-nos a entrar no fluxo dessa mesma relação trinitária. Jesus não pregou sobre a Trindade, mas abriu o caminho que conduz ao Pai e enviou seu Espírito. A partir de sua própria experiência de Deus, Jesus convida seus seguidores a se relacionarem de maneira confiada com Deus Pai, a seguirem fielmente seus passos de Filho de Deus encarnado e a se deixarem guiar e alentar pelo Espírito Santo. Ele os ensina, assim, a se abrirem ao mistério santo de Deus. Também os primeiros cristãos não elaboraram argumentos sobre a Trindade (nem Pedro, nem Paulo, nem os evangelhos, nem mesmo os chamados Padres apostólicos), mas todos falaram sem cessar do Pai, do Filho Jesus e do Espírito Santo. Só no final do séc. II e princípio do séc. III alguns teólogos audazes começaram a falar da Trindade e descobriram que esse nome era mais cômodo para referir-se, ao mesmo tempo, ao Pai, a Jesus e ao Espírito, de maneira que começaram a empregá-la com certa frequência. A Trindade não é um dogma separado da Bíblia ou da Igreja; no centro da Bíblia e da vida cristã se encontra o mistério de Deus-Pai, que conhecemos por Jesus e compartilhamos pelo Espírito Santo, em sua união e diferenças. Esses Três, que são Um, em amor e vida, constituem o que, com palavra imperfeita, mas talvez imprescindível, chamamos Trindade, para confessar por ela que o Deus dos homens é dinamismo de vida e impulso de amor na mesma história dos homens. Entendida assim, a Trindade constitui, com a Encarnação, o centro do mistério cristão: por ela sentimos e sabemos que Deus é fonte inesgotável e comunhão criadora de amor que anima e sustenta a história dos homens. Conta-se que, certa vez, um homem provocou S. Agostinho dizendo que não podia ver a Trindade. Este lhe respondeu: “Tu vês a Trindade quando vês a caridade” (De Trinitate VIII, 8,2). Esta resposta, tão fulgurante como esclarecedora, nos situa no coração do mistério de Amor que presidiu a Criação, centrou-se na Encarnação e alcançará sua plenitude na Ressurreição. A partir desse Amor vivemos a fé e a comunhão trinitária como a expressão mais adequada da vida única, radiante, irradiadora, do Pai, do Filho e do Espírito Santo que, contemplando-se um ao outro, se revelam como fonte e origem de tudo o que existe. A criação inteira procede das entranhas amorosas das Três Pessoas divinas; não só isso, a Criação é também morada da Trindade; em tudo encontramos “marcas” da ação trinitária e, de maneira especial, onde a caridade é vivida. Assim, à luz da afirmação de S. Agostinho, podemos sentir e “ver” a Presença da Trindade lá onde o amor se expande e se externaliza na prática da caridade. Esta é a nossa credencial como seguidor(a) de Jesus: a vivência do amor, desse amor que contempla a vida e sente o pulsar da Trindade na beleza da criação e na dignidade de cada ser humano. Portanto, o mistério da Trindade não é uma verdade a ser pensada, mas uma presença a ser vivida; presença que perpassa tudo e se faz visível em toda realidade; presença que ultrapassa tudo o que pensamos e refletimos sobre ela. Só quem tem olhos contemplativos vê as “marcas” da presença do Deus Uno e Trino em tudo e em todos. É da essência da Trindade ser “amor em movimento”; por isso, onde há amor e caridade, aí está a Trindade; e só corações solidários são capazes de entrar no fluxo desse amor e adorar o Deus trinitário. Sabemos que “caridade” provém de “cháris” = Graça. Caridade é Graça em ação, é amor incondicional, é dom gratuito, é favor concedido a alguém, é generosidade radical. A caridade é a visibilização da ação trinitária. O ser humano entra no movimento amoroso da Trindade quando sai de si e se revela presença solidária juntos aos mais necessitados; ali ele deixa transparecer o rosto amoroso da Trindade. Aqui está a grandeza do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos dar e receber vida…, estamos saboreando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte. Por isso, quem vive o amor a partir da Trindade aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, é capaz de compadecer-se dos mais pobres e excluídos, pode entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno de Deus. Nesse sentido, o melhor caminho para aproximar-nos do mistério da Trindade não são os tratados teológicos que falam dela, mas as experiências amorosas que compartilhamos na vida. Só encontramos e “vemos” a Trindade com o coração. Quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o

SSpS recebem Moção de Aplausos por Projeto “Escola da Inteligência”

As missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) receberam, no último dia 25 de maio, a Moção de Aplausos da Câmara Municipal de Porto União-SC. O reconhecimento foi motivado pela implantação do Projeto “Escola da Inteligência” no Colégio Santos Anjos. A moção foi uma indicação do vereador Vanderlei Werle, em exercício no Poder Legislativo até abril deste ano. O presidente da Casa, o vereador Neilor Grabovski, entregou o certificado à irmã Ilária Matte, diretora da escola. “Esta Moção significou uma benção, uma alegria enorme por sermos reconhecidas por nossos trabalhos e missão ao longo dos 106 anos, na pessoa da Ir. Ilária Matte, atual diretora. Como rezam as nossas Constituições de 1891, ‘a alegria de uma irmã seja a alegria de todas, e regozijem-se as irmãs se podem proporcionar alegria a uma outra irmã’”, afirma a vice-diretora, Ir. Gerci Lopes dos Santos. “A Congregação se orgulha de Ir. Ilária pelos serviços prestados, pela dedicação e empenho em levar a educação em frente, com tanto brilho e competência, prezando pelos valores humanos, cristãos, tecnológicos e científicos, contribuindo para que estes jovens se tornem cidadãos honrados, respeitados, missionários e capazes de transformar o mundo”, disse a Ir. Ilca Maria Hendges, superiora provincial do Sul. Além das SSpS, participaram da cerimônia pais de alunos; a secretária municipal de Educação, Aldair Wengerkiewicz Muncinelli; o bispo da Diocese de Caçador, Dom Cleocir Bonetti; e o pároco da Paróquia Nossa Senhora das Vitórias, Pe. Valmor José de Deus. “A vida é feita de surpresas e, dentro delas, os reconhecimentos e gestos, atitudes de gratidão e de reconhecimento. Esta Menção de Aplausos para a Ir. Ilária foi merecida, justa. Para mim, este momento foi uma experiência forte, sinodal, de um caminhar juntos, pois se encontravam ali o Poder Público e a vida religiosa. As sementes lançadas com dedicação, amor, um dia, a seu tempo, florescerão e os frutos virão”, declarou Ir. Ilca. Sobre o Programa Escola da Inteligência O Programa Escola da Inteligência tem como fundamento a “teoria da inteligência multifocal”, de autoria do psiquiatra e pesquisador Augusto Cury, com o apoio de outras teorias, como a das “inteligências múltiplas”, de Howard Gardner, e a “sociointeracionista”, de Lev Vygotsky. Fundada em 2010, busca desenvolver as habilidades emocionais e de consciência social de jovens estudantes, com o auxílio de materiais audiovisuais, impressos e digitais, bem como a formação de professores e apoio para as famílias. A iniciativa está alinhada às mais atuais descobertas nas áreas de desenvolvimento aprendizagem e da educação socioemocional, tais com as dos campos da neurociência e da neuroeducação. A Ir. Gerci conta que o Programa Escola da Inteligência, realizado no Colégio Santos Anjos desde 2022, requer um espaço adequado para sua viabilização. “Cada turma desenvolve um subtema, como o 6º ano, que trabalha mentes brilhantes e emoções saudáveis; o 7º, ‘Os códigos da inteligência’; o 8º ano, ‘O eu no comando da mente’; e o 9º, ‘O ser humano sem fronteira’, ou seja, a formação de líderes”, explica Ir. Gerci. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021. ______________________________

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