Conectando caminhos: o câncer e a sua interface psicológica e espiritual

“Um buraco sob meus pés.” Foi assim que, por incontáveis vezes, ouvi pacientes descreverem o momento exato em que receberam a notícia de diagnóstico de um câncer. De imediato, o indivíduo rompe com suas convicções até então consolidadas e automaticamente se conecta a uma série de tabus e estigmas que o câncer carrega consigo, principalmente a de estar sentenciado à morte. O medo da morte se apresenta em diferentes facetas. O medo da morte pode conter o medo da solidão, da separação de quem se ama; o medo do desconhecido, da interrupção de planos e sonhos; o medo do que pode acontecer aos que ficam; e, numa visão espiritual, medo do julgamento de seus atos em vida, dependendo de suas concepções religiosas. Cada pessoa teme mais de um aspecto da morte, e isso depende de características intrínsecas ao indivíduo que a enfrenta, seja ele quem esteja morrendo ou uma pessoa a quem estima (Kovács, 1992). Apesar de a notícia carregar o luto pela perda da condição do eu saudável expresso em um intenso sofrimento, a vivência do diagnóstico e tratamento implica em representações totalmente diferentes para cada indivíduo. O impacto não será exclusivo de quem a recebe, mas para todo o seu sistema familiar, exigindo uma reestruturação de planos de todos os envolvidos. É um momento permeado por muito medo da dor, insegurança e muita incerteza. Sentimentos estes, e tantos outros, que raras vezes abandonarão o indivíduo no decorrer de todo o tratamento. A Psicologia, diante da complexidade das demandas emocionais de um paciente oncológico, terá como prioridade a qualidade de vida deste, mas não a terá como exclusividade. É preciso participar ativamente do processo de aceitação e entendimento de todo o caminho que se percorrerá ao longo do tratamento, ajudar para que tenha a percepção acerca de seus recursos internos e estratégias para atenuar o sofrimento, favorecendo o desenvolvimento do conhecimento de suas dimensões psicológicas, sociais e espirituais. É preciso buscar o equilíbrio entre sua condição vulnerável e o gerenciamento de suas emoções adquirindo novas habilidades por meio do estímulo de autonomia e participação ativa diante do tratamento, tornando o indivíduo participativo e apropriado de todo o percurso. Embora o câncer tenha uma forte relação com a ideia de iminência de morte, é preciso favorecer o desenvolvimento de novos significados para o processo mais importante que ocorre no momento: o de viver. Falar sobre a relação e a perspectiva de vida não significa negligenciar a tomada de consciência da proximidade de morte, ao contrário, ao deparar-se com a possibilidade real de finitude, o indivíduo, muitas vezes, é levado a uma reflexão existencial, revendo suas prioridades e ressignificando os valores de sua existência, despertando, em alguns momentos, para o seu desenvolvimento e fortalecimento espiritual. Quando percebemos um indivíduo doente, ele está adoecido em sua totalidade. Não é possível presenciar apenas um corpo doente. É preciso desfocar da doença que tem e considerar toda a sua história de vida, possibilitando uma melhor compreensão da manifestação dos sentimentos relacionados à representação da doença para aquele indivíduo. Ao buscar o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento da doença em conjunto com o indivíduo, a abordagem espiritual passa a exercer um papel importante no tratamento. Embora existam fases em que ocorram sentimentos de revolta, tristeza e até mesmo uma sensação de desamparo, os indivíduos tendem a buscar uma aproximação com seus valores e crenças para alívio de dores, perdas e enfrentamento de situações inesperadas. A espiritualidade relaciona a busca por significado e sentido para o adoecimento e sofrimento. Percebe-se a força para a superação, permeada por uma sensação de alívio, coragem e maior aceitação diante das adversidades. Boa parte dos pacientes que vivenciam o câncer demonstram acreditar que sua espiritualidade alimenta a motivação para o enfrentamento ao longo do tratamento. Assim como a espiritualidade, a fé se mostra uma fonte de apoio para conseguir encarar os desafios provocados pelos tratamentos ou até mesmo na possibilidade de conforto diante da proximidade de morte. A fé passa a ser um instrumento não somente para o paciente, mas para a sua família, mantendo uma postura mais positiva diante de todo o sofrimento implicado pela condição da doença. Busca-se, então, não somente o desenvolvimento da espiritualidade do paciente, mas um cuidado pautado naquilo que caracteriza a espiritualidade: humanizar, ouvir, fazer-se presente na dor, sofrimento ou solidão. É acalentar, consolar, flexibilizar e apoiar. Cuidar espiritualmente significa trabalhar com a esperança de cura física, mas se isso não for possível, de reestruturação e resiliência emocional. Cuidar não deve ser um ato técnico e objetivo, estruturado em etapas, procedimentos e técnicas, mas sim uma oportunidade de conduzir seres humanos para melhores direções existenciais. Valorizar constantemente o processo do outro no encontro consigo mesmo e com sua própria finitude. A experiência do adoecer pode se configurar como um acontecimento repleto de sentido, bem como um ganho existencial, pois, quando o homem encontra um sentido para seguir adiante, apesar dos obstáculos inerentes à vida, pode transcender as dificuldades imediatas impostas pelas circunstâncias adversas. Até mesmo na morte o sentido da vida se satisfaz, mobilizado pela ameaça da morte iminente e, consequentemente, pela luta desencadeada em prol da afirmação da vida ao se buscar o sentido da morte e do morrer, contribuindo para enriquecer esse processo com um sentido pleno ante a existência humana (Viktor Frankl). ReferênciasFrankl, V. E. (2003). Psicoterapia e sentido da vida. Quadrante.Kovács, M. J. (1992). Morte e desenvolvimento humano. Casa do Psicólogo. Fernanda Heming Souza MonteiroPsicóloga Clínica e da Saúde, especialista em Oncologia e Hematologia, Porto Alegre-RS.
Boletim Congregacional – Junho de 2023 – Nº 198

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Perdão em tempos de fragmentação

O que fazer diante do contexto de fragmentação em que vivemos? Sentir-nos afetados por essa situação pode ser um chamado a estar atentos. Isaías nos convida a alargar a tenda de nossa vida, afundando as estacas, para que possam segurar bem a tenda (Is 54,2) Há uma epidemia que silenciosamente se espalha e nos coloca uns contra os outros, criando inimigos e culpados para as crises que vivemos hoje, como humanidade. Essas crises podem chegar a nós como uma ameaça e despertar forças ocultas de violência, movidas pelo medo e instinto de defesa. Por outro lado, temos hoje movimentos que vivem e anunciam o perdão e que também se percebem como uma irradiação que leva cura e transformação ao mundo. O perdão é um deles. Antes de tratar do perdão, olhamos para a vitimização como raiva, ressentimento sedimentado principalmente em nosso inconsciente. No estado de vitimização, a pessoa fica desconectada dos sentimentos da dor e das perdas que sofreu; fica no medo, na baixa autoestima e na repetição de comportamentos compulsivos. Esse ressentimento pode ser projetado para fora de si como vingança em pensamentos, palavras, ações e omissões, achando que isso resolve. Mas a dor reprimida continua pulsando para dentro e para fora de si. A dor não curada atua como um véu através do qual avaliamos, de maneira distorcida, a realidade que nos rodeia e, assim, ficamos projetando condicionamentos de nossa mente, acreditando ter razão e agindo em consequência. É sobre essa energia violenta, alojada em nosso consciente e principalmente em nosso inconsciente, ativada pela manipulação das fake news, dos medos e insegurança de nosso tempo, que pode vir uma das causas das divisões e polarizações que vivemos atualmente. O ressentimento dificulta também aceitar os diferentes modos de ser e viver; dificulta lidar com a pluralidade o que explica a intolerância presente em nossos dias. Estamos ante um chamado a tomar consciência e discernir nossas escolhas. Perdão é uma escolha que pode resgatar nossa profunda dignidade e conduzir-nos ao que realmente somos em nossa essência. Perdão, para Robin Casarjian,1 é uma decisão, um processo e um modo de vida. A palavra “per-dão” significa doar, doar a dor que pede passagem para ser liberada; desapego do que nos prende ao ressentimento. Nas Escolas de Perdão e Reconciliação,2 é oferecida a possibilidade de fazer um exercício sobre esse processo que permite olhar-se como vítima, num espaço seguro onde a dor é reconhecida, acolhida e compreendida. Temos dificuldade de entrar em relação com a dor causada pelas ofensas e expressá-la pela necessidade de aparecer bem, não parecer fraco; por medo, vergonha, pelo viver no automático e na inconsciência. O processo do perdão passa pela expressão da dor e pede a habilidade de olhar para dentro de nós, conhecer-nos, perdoar-nos e amar-nos; um processo que nos leva à autocompaixão conosco e, ao mesmo tempo, com as outras pessoas; um caminho que nos conduz a descobrir quem somos. Essa é uma possibilidade de alargar nossa tenda e fincar mais profundamente as estacas na imagem que nos apresenta o profeta Isaías. É um chamado fundamental diante da ameaça de nos considerarmos bons e projetar no outro, no diferente, o que escondemos de nós mesmos e atribuir aos outros a causa dos males do mundo, e, assim, justificar a violência até em nome de Deus, como estamos vendo em nosso tempo. Perdoar nos permite avançar como humanidade, viver com mais saúde, liberdade e felicidade; permite ser criadores da história no momento presente, único em que podemos escolher a vida e o amor. Recentemente celebramos a Páscoa, passagem da morte para a vida, festa do perdão; grande convite a olhar-nos como Deus nos olha. Notas1 Casarjian, Robin. O livro do perdão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.2 Escolas de Perdão e Reconciliação (Espere). Há vinte anos, nasceram na Colômbia e logo se espalharam por vários países da América Latina, chegando também ao Brasil. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS
Comunicadores SSpS Brasil têm primeiro encontro presencial

As palavras corpo, presença e conexão ganharam novo sentido durante o primeiro encontro da equipe de comunicação SSpS Brasil, realizado de 19 a 22 de maio, no Convento Espírito Santo, em Ponta Grossa-PR. É que, para os integrantes deste grupo de trabalho, consolidado em 2022, esta foi a primeira oportunidade de estarem juntos sem depender de ambientes de reunião on-line. “Quando propuseram que disséssemos uma palavra sobre o encontro, logo me veio ao peito a palavra ‘encarnação’. Até então, nós nos conhecíamos apenas pelas janelinhas das reuniões virtuais ou pelos textos recebidos por e-mail. Ao nos encontrar pessoalmente, percebemos até a diversidade física da equipe. Definitivamente, nada substitui o contato face a face”, comenta o diácono Alessandro Faleiro Marques, revisor da equipe SSpS Brasil. E corpo, presença e conexão também seguiram como uma constante ao longo de toda a programação, não somente como tema nos momentos de formação, mas também em dinâmicas de espiritualidade e nas visitas realizadas nas comunidades missionárias da cidade paranaense. O corpo e a mídia em estudo A participação on-line do missionário verbita irmão Paulo de Lima colocou em prática todos os três tipos de mídia abordados por ele no momento formativo intitulado: “E o verbo se fez mídia”. Com base na teoria das mídias, irmão Paulinho explicou que a mídia primária exige a presença de emissores e receptores em um mesmo espaço físico e em um mesmo tempo. Nesse sentido, a possibilidade de diálogo entre os integrantes da equipe de comunicação SSpS Brasil frente a frente é uma amostra disso. “O corpo é a primeira forma de comunicação entre as pessoas”, afirmou. Já na mídia secundária, a mensagem se desgarra do emissor e fixa-se em um suporte que permite a interação do receptor sem a presença do emissor. No encontro, isso se evidenciou em textos formativos impressos em papel e nas pinturas dos fundadores SSpS e escultura representando a Trindade que decoravam o ambiente. E a presença remota do irmão Paulinho, exibida em telão, ilustrou a grande mídia terciária de nosso tempo, caracterizada pela eletricidade e que abre outras possibilidades de geração, transmissão e conservação de mensagens. Além da teoria das mídias, ele apresentou um resgate histórico das publicações das congregações da Família Arnaldina, evidenciando o papel de Santo Arnaldo Janssen na produção e na divulgação da atividade missionária no mundo. Com isso, provocou a equipe de comunicação SSpS Brasil a articular o testemunho e o anúncio do Evangelho nas mídias digitais, buscando valorizar a interatividade com os públicos e o uso de novos meios. Missão On-line Diretamente de Roma, a irmã Ana Elídia participou remotamente do encontro SSpS Brasil, falando sobre o Manual de Comunicação da Congregação SSpS e o projeto Missão On-line. Ela destacou que o uso de ferramentas comunicacionais melhora a expressão missionária, tendo papel importante na vida da Congregação em todo o mundo. “O Manual de Comunicação SSpS nos convida a estar presentes e a tornar todas as vivências missionárias acessíveis às pessoas”, afirmou. Segundo ela, a comunicação institucional SSpS tem avançado para se consolidar em missão on-line, a fim de provocar uma transformação na prática missionária. “Todo o trabalho de relações humanas traz o testemunho dos valores da Missão. Tudo o que se faz na missão é parte do Evangelho. Por isso, devemos mostrar o sentido de tudo isso por meio dos meios de comunicação”, justificou. A irmã Ana Elídia ainda convidou os comunicadores SSpS Brasil a colocarem em prática quatro palavras-chave: 1) refletir: reservando tempo para pensar o fazer missionário; 2) descobrir: buscando saber como usar novas ferramentas comunicacionais; 3) partilhar: distribuindo a informação de forma consciente e criteriosa; 4) publicar: utilizando-se dos meios de comunicação disponíveis. Planejamento estratégico Uma das atividades realizadas em conjunto, durante o encontro em Ponta Grossa, foi a revisão do Planejamento Estratégico de Comunicação SSpS Brasil. Conduzida pela irmã Fátima Marques, a tarefa buscou avaliar a clareza do texto final formulado com base nos planos originais das províncias Brasil Sul e Brasil Norte. A tônica desse documento único é orientar a forma como a atividade missionária será comunicada aos diferentes públicos com os quais as irmãs SSpS interagem em todo o País. Ainda no encontro, foram revisitados os itens do planejamento já colocados em prática. Um deles é a unificação da identidade visual das províncias Brasil Sul e Brasil Norte como SSpS Brasil, que teve o conceito desenvolvido em conjunto pela irmã Zélia Cordeiro, Agostinho Travençolo Júnior e Gabriel Grecco. “A nova logomarca foi criada usando elementos visuais dos ícones das duas províncias, traduzindo muito bem essa unificação”, avalia Gabriel Grecco, responsável pela criação da arte. As redes sociais de cada Província também já foram consolidadas como SSpS Brasil no Facebook, Instagram e Youtube. A fusão fez com que todos os que seguiam a rede de uma província ou de outra formassem um só público, consumindo o mesmo conteúdo em contexto de Brasil. Isso ampliou o número de seguidores e, consequentemente, também aumentou o engajamento. O blog SSpS Brasil (blog.ssps.org.br) é outro exemplo positivo da unificação da equipe de comunicação e da publicação em um canal único na internet. “O blog reúne vozes diferentes e temas diversos. Hoje temos uma estrutura muito mais sólida, com a colaboração de várias pessoas, que escrevem artigos sobre temas diversos e comentários dos evangelhos. Os acessos ao blog aumentaram cinco vezes em relação aos números antes da fusão”, assinala Gabriel. A formação da equipe de comunicação SSpS Brasil, em abril de 2022, também foi relembrada como um passo importante dentro do planejamento estratégico. Antes disso, cada Província tinha a própria estrutura. “Quando assumi como coordenadora do serviço de comunicação das duas províncias, passamos a ter uma única equipe representada por irmãs e leigos das duas Províncias”, comenta irmã Zélia Cordeiro. Pertencimento e direcionamento O encontro teve a presença de três colunistas do blog SSpS Brasil: Maria Terezinha Corrêa, Marli Teresinha Everling e Maria José Brant, conhecida por Deka. Para elas, o convite para participar dos momentos de formação e de revisão do Planejamento Estratégico de Comunicação SSpS
Como integrar “Pedro e Paulo” em nossas vidas?

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) Neste domingo, a liturgia nos convida a “fazer memória” de S. Pedro e S. Paulo, dois personagens instigantes, inspiradores e motivadores para todos nós cristãos, seguidores(as) d’Aquele que continuamente nos desafia com sua pergunta: “E vós, quem dizeis eu sou?”. Não se trata de dar uma resposta teológica, mas de reforçar nossa adesão e identificação à pessoa de Jesus Cristo. Por isso, cada um responde de maneira diferente, porque não há um seguimento igual para todos. Foi assim que Pedro e Paulo, com suas personalidades tão distintas, deixaram-se impactar pela pergunta de Jesus e souberam responder com a vida; por isso, eles são referências para nós. Há perguntas inofensivas, fáceis de responder e que não nos comprometem. O problema está quando nos fazem perguntas nas quais nos sentimos implicados. Há perguntas que parecem ser de pesquisas; e há perguntas que nos desvelam por dentro. Há perguntas secundárias sobre as quais podemos dizer qualquer coisa. E há perguntas essenciais que nos movem a falar de nós mesmos. E essas perguntas doem porque são perguntas que desnudam o fundo de nosso coração. São perguntas que nos implicam naquilo que somos realmente. O perguntar é ousado, instigante; perguntar contém desafio, provocação; leva dose de irreverência. “Perguntar é mergulhar no abismo” (Exupèry). As perguntas têm uma força que não encontramos nas respostas. Enquanto perguntamos por alguém, palpita em nós um impulso, um interesse que não se apaga enquanto não sacia nossa curiosidade. A pergunta é movimento; é a pergunta que faz emergir a novidade, pois ela ativa a busca por uma resposta criativa. Mais ainda, perguntar põe em crise certas convicções, ideias fechadas, modos arcaicos de viver… e nos mantém em busca permanente. É neste nível que surge a pergunta de Jesus aos discípulos, na região de Cesareia de Filipe. Ele não pergunta aos seus discípulos sobre o que pensam a respeito do Sermão da Montanha ou sobre sua atuação curativa juntos aos doentes da Galileia. Para seguir Jesus, o decisivo é a adesão à sua Pessoa. Por isso quer saber o que eles pensam e sentem, depois de um tempo de convivência com Ele. Jesus propõe a pergunta fundamental, “e vós, quem dizeis que eu sou?”; uma pergunta exigindo que eles se examinem a sério, que tomem consciência do que pretendem, que explicitem as reais motivações que os levam a segui-lo. Responder à pergunta “Quem sou eu para vocês?” é fazê-los comprometer com um novo estilo de vida, é assumir o novo caminho com Ele, é arriscar-se numa aventura. A pergunta é desafiadora, e não simples curiosidade e inquietação, e se dirige a todos. Cada um tem de dar sua resposta. Ela exige uma tomada de posição, um ato de fé. Pedro e Paulo responderam com suas vidas à pergunta feita por Jesus; por isso, eles não são somente duas colunas que sustentam a grande comunidade cristã; eles representam as duas dimensões essenciais para o dinamismo da Igreja. A liturgia intuiu que é preciso integrar as identidades destes dois personagens. Não se pode privilegiar um em detrimento do outro. Nos Evangelhos, Pedro é o pescador que, impactado pela presença e pelo convite de Jesus, vai entrando, aos poucos, em sintonia com Ele. Um encontro que vai crescendo em adesão à proposta do Reino; um caminho de seguimento que tem seus momentos de obscuridade e de crise, sobretudo ao ver o fracasso do Mestre condenado pelas autoridades religiosas e políticas. Pedro é o protótipo do cristão que vai se convertendo, abrindo-se à presença desconcertante de Deus na conduta histórica de Jesus. Em Pentecostes, Pedro fala em nome dos primeiros discípulos, cuja fé vem a ser normativa para todas as gerações que se sucedem na história da igreja. Ele confessa o artigo central e original da fé cristã: “Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo”. E se a Igreja se mantém firme nessa confissão, nada nem ninguém a destruirá. Entre os discípulos de Jesus, Pedro foi, sem dúvida, o mais atirado, o mais impulsivo, com o perigo que isso implica. Era o líder do grupo, o primeiro a falar em qualquer circunstância, sem medo de repreender Jesus quando este anuncia sua paixão, sem medo de levar uma reprimenda quando Jesus quer lavar os pés ou quando anuncia que todos o trairão. O fato de ser tão lançado o situa também no lugar mais perigoso, o da negação de Jesus. Mas, ele mesmo termina confessando depois da ressurreição: “Tu sabes tudo, tu sabes que te amo”. Não é novidade que Jesus o visse como o líder natural do grupo depois de sua morte e ressurreição. Paulo, por sua vez, é o homem universal. Alcançado e convertido pela presença do Ressuscitado, ele abriu a Igreja ao mundo grego e romano, superando os moldes da religião judaica. Com sua itinerância, rompeu as fronteiras geográficas, culturais e religiosas, pois, para ele, o Evangelho de Jesus é anúncio de salvação para todos os povos. O que muitos não conhecem é a revelação que Deus lhe fez e que ele tanto insiste em suas cartas: que a boa notícia de Jesus não era só para os judeus, mas também para toda a humanidade. A expansão da Igreja primitiva é humanamente inconcebível sem a figura de Paulo. Percorreu milhares de quilômetros e se expôs a todo tipo de perigos para levar o anúncio de Jesus “até os confins da terra”. Em chave de interioridade, podemos afirmar que Pedro e Paulo são também dimensões de nosso ser. “Pedro” representa a solidez interior, a certeza, a convicção, os valores… Viver a “dimensão Pedro” é cuidar dos fundamentos de nossa vida, a rocha sobre a qual construímos a maneira de viver o seguimento de Jesus. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar segurança e caminhar no seguimento superando as dificuldades e os inevitáveis golpes na luta pela vida. É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para nos ajudar a
Missão, Mística e Profecia na Amazônia

“Missão, partida de amor por amor, ir ao encontro do irmão com alegrias e dores. Entrega do coração e disso o melhor. Missão, missão a nossa paixão maior”. Nos dias 5 a 16 de julho, realizamos uma missão no distrito de Maracajá, diocese de Cametá, Pará. O evento foi organizado pela equipe da CRB Nacional com as Novas Gerações e Pe. João Paulo, pároco da Paróquia São José, Maracajá. Vindos de diferentes partes do Brasil, formamos um grupo de 65 missionários, entre religiosas e religiosos (20 congregações), formandas, seminaristas, padre e alguns leigos comprometidos. Como Serva do Espírito Santo, este foi um momento único viver a multiplicidade de culturas como Vida Religiosa Consagrada junto a população local, distinta em sua diversidade, formada por paraenses, maranhenses, baianos, goianos e mineiros. Ao viver a inculturalidade, traço marcante da nossa congregação, senti a diversidade como riqueza e dom, pois unimos diferenças culturais, carismas e espiritualidades, para interagir em caminhada sinodal. O objetivo da missão foi inserir os jovens da Vida Consagrada na missão da Igreja e conhecer a realidade do povo da região transamazônica. Visitamos famílias, doentes e necessitados, como presença reveladora do amor de Deus neste solo sagrado carregado de mística e profecia, a Amazônia. Para iniciar nossa missão, tivemos nossa preparação, com momentos de integração, de oração, celebrando a memória e fazer memória dos mártires da região e de hoje, que fizeram e fazem da religião um ato de fé, amor e libertação, causa de vida e morte! Conhecemos o local de missão da Irmã Dorothy Stang, visitando, também, sua sepultura e ficamos impregnados pelo ar de profecia da vida religiosa consagrada e impressionados pelo testemunho da comunidade local pela Irmã Dorothy, que esteve em constante luta e defesa por vida mais digna dos mais empobrecidos e cuidado da natureza: “A morte da floresta é o fim da nossa vida!”. Para iniciar nossa missão, participamos da Santa Missa, momento em que fomos ungidos pelo óleo, recebemos a cruz missionária, fomos enviados/as e partimos para as visitas em 4 diferentes comunidades/paróquias: Maracajá, Gelado, Novo Repartimento e Pacajá. Visitar casa por casa, sentir e comungar da experiência de Deus, em cada pessoa e família, foi gravando em nossos corações a marca do eterno. Missão é sempre partir! Não só geograficamente, mas, principalmente, de si mesmo e ir ao encontro do irmão, do próximo, do pobre, do necessitado. Após a realização das visitas, de porta em porta, percorrendo distâncias, em motos, carros, camionetas ou a pé, por pontes e ladeiras, chegando a todas as família, retornamos para Maracajá para a Missa de encerramento, com a comunidade local. Celebramos e agradecemos a Deus por tantas experiências enriquecedoras vividas, tantos rostos nos quais contemplamos a face de Deus, não só no sorriso e testemunho de vida das pessoas impelidas do Espírito Santo que conhecemos, engajados na igreja, em diferentes pastorais e movimentos, mas, sobretudo e principalmente, na realidade dos nossos irmãos desfavorecidos; nos doentes, nos que sofrem, nos que trabalham duro para ganhar o pão de cada dia, nos pobres, nos mais pequenos, ignorados, explorados, marginalizados, oprimidos, abusados, inocentes e necessitados. Nossos corações, tocados por eles, ajudou-nos a tirar as sandálias e adentrar nos corações destes nossos irmãos/ãs queridos. Feita a avaliação final, os nossos sentimentos eram de alegria e profunda gratidão. Sem dúvida, este foi um grande impulso no ardor missionário para nossas vidas, como jovens religiosos consagrados. Gratidão e apreço a toda equipe de coordenação da missão e CRB Nacional por esta enriquecedora experiência junto aos nossos irmãos e irmãs da região Amazônica. Sem deixar de dizer um Deus lhe pague para a Direção Provincial, que apoiou essa tão rica experiência missionária, em terras amazônicas. Que Deus abençoe a todas e todos. Ir. Patrícia Zeponi, Missionária Serva do Espírito Santo
A revolução da inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) tornou-se uma das tecnologias mais importantes e disruptivas de nosso tempo. Desde seu surgimento, a ela evoluiu rapidamente e desempenha um papel importante na transformação de vários setores da sociedade, como educação, saúde, indústria, transporte, comunicação, serviços, entre outros. Essa revolução alavancada pela IA tem o potencial de trazer mudanças significativas na maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos, criando uma série de novas oportunidades e desafios em todo o mundo. Uma das principais características da IA é a capacidade de aprender e adaptar-se com base em um grande volume de dados. Algoritmos avançados, como redes neurais artificiais, machine learning e deep learning, permitem que as ferramentas de IA processem grandes volumes de informações, identifiquem padrões e apresentem soluções baseadas em dados, de maneira semelhante aos humanos. Na área da saúde, por exemplo, a IA está revolucionando diagnósticos médicos. Ferramentas de IA podem analisar exames de imagem, como raios X e ressonâncias magnéticas, contribuindo para o diagnóstico precoce de doenças. Na indústria, robôs e sistemas autônomos são utilizados em fábricas e cadeias de suprimentos para executar tarefas repetitivas e perigosas, aumentando a produtividade e reduzindo o risco para os trabalhadores. Além disso, ferramentas de otimização são aplicadas para melhorar o planejamento da produção, reduzir custos e melhorar o uso de recursos. Ela também é usada para prever falhas de equipamentos, permitir manutenção preditiva e evitar interrupções não planejadas na produção. Essas inovações fazem parte de uma nova onda na industrialização, conhecida como “indústria 4.0”. No transporte, os veículos autônomos já são realidade graças aos avanços nos sistemas computacionais e de tomada de decisão, baseados em IA. Esses veículos são capazes de analisar seus arredores, identificar objetos, tomar decisões de direção e evitar colisões. Além disso, ela é usada para melhorar o gerenciamento de tráfego, reduzir o congestionamento e aperfeiçoar sistemas de transporte público. Nas finanças, algumas ferramentas de IA são utilizadas para analisar dados financeiros, identificar padrões de fraude, decidir sobre investimento e gerenciar riscos. Além disso, algumas instituições financeiras usam assistentes virtuais de atendimento e para detectar tendências de mercado, permitindo que prestem serviços mais personalizados e eficientes. Embora a IA proporcione inúmeras oportunidades, também levanta diversas preocupações e desafios. Questões éticas, como a privacidade dos dados e a manipulação, precisam ser abordadas para garantir que a IA seja utilizada de forma responsável e justa. Além disso, a substituição de empregos por ferramentas de IA levantam preocupações sobre o impacto social e a necessidade de requalificação profissional. Observação: parte deste artigo foi elaborada com a ajuda de ferramenta de inteligência artificial. Júlio César StadlerAdministrador, analista de sistemas, estudante de Engenharia Mecatrônica e professor, 25 anos de experiência em tecnologia da informação.
Erradicação da tortura: hora de educar nossas consciências

O artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada em 10 de dezembro de 1948, estabelece que “ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”, independentemente da cor, do sexo, da religião, do idioma. Mas como identificar a tortura no meio social, ainda hoje? Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “a tortura é a imposição de dor física ou psicológica a uma pessoa para obter confissões”. A prática da tortura tem vários motivos: sexual, racial, político, religioso ou todos esses juntos. Infelizmente, desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, a tortura é usada como prática para obter uma confissão. A exploração dos indígenas ou povos originários e mais a escravidão do povo negro, forçadamente trazido da África como mercadoria, marca a crueldade histórica do País. Muitos outros países têm histórias de guerras sangrentas desde a Antiguidade, as quais se mantêm hoje, fato a que assistimos pelos meios de comunicação. Diversas instituições legais, tanto nacionais quanto internacionais, utilizaram e ainda usam de violência política, insurreições, atos terroristas, guerrilhas… A guerra da Rússia contra a Ucrânia, que submete a população civil a uma situação lamentável, policiais que abusam do poder contra indivíduos já indefesos, maus-tratos, superlotação nas prisões… Até quando veremos essas situações? Dia 26 de junho é a data instituída pela ONU, em 1997, para celebrar o Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, recordando a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. Toda violação e ações contrárias à vida podem ser uma submissão à tortura. Para garantirmos a vida humana, é necessário denunciar ao Ministério Pública e ao Conselho Estadual dos Direitos Humanos e demais grupos de combate à tortura. Procuremos educar nossa consciência para erradicar a tortura das relações pessoais e sociais. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintran e membro da APROFFIB.
Medo ou confiança: quem determina nossa vida?

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31) Uma das grandes insistências de Jesus no Evangelho é, sem dúvida, esta: “não tenhais medo!”. Jesus sempre se revelou um profundo conhecedor da condição humana; percebeu claramente que muitas pessoas eram marcadas por tremendos medos, impedindo-as de viver com sentido e plenitude. Ele tinha plena consciência de que os maiores medos eram alimentados pela religião, centrada nas leis, nos ritos, nas doutrinas… gerando sentimentos de culpa e angústia diante do futuro. Pior ainda, eram os controladores da religião que manipulavam os medos, tendo o controle sobre as pessoas e impondo a imagem de um Deus que ameaça e castiga. É o chamado “poder de consciência” exercido pelas autoridades religiosas que tem feito e continua fazendo tantos “estragos” nas consciências dos indivíduos. Diante dessa dura realidade, Jesus sempre procurou despertar a esperança nas pessoas, alimentando um clima de confiança no Pai e da busca de vida plena: “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”. Medo e confiança são duas emoções fortes presentes no desenvolvimento do ser humano; dependendo de como alimentamos uma ou outra, assim será nossa vida: carregada de medo (atrofia, paralisia existencial…) ou de confiança (criatividade, mobilização dos melhores recursos internos, busca, inspiração…). O medo é o oposto da confiança. Os neurocientíficos confirmam que ambas as emoções usam as mesmas redes neuronais. Isso quer dizer que, alimentar o medo, consciente ou inconscientemente, significa solapar a possibilidade de confiar. O medo nos incapacita para a confiança, que é a atitude humana sobre a qual se assenta o dom da fé; o medo seca as fontes da esperança, impedindo-nos viver com prazer e alegria. Sabemos que o medo é uma emoção importante que nos permite detectar as ameaças e proteger-nos diante delas. Faz parte, portanto, de nosso equipamento biológico. Seu objetivo primeiro é defender-nos, seja fugindo, seja ativando energias para enfrentar a ameaça. O problema surge quando a ameaça não é real, mas fabricada e alimentada por nossa mente, como consequência de medos “herdados” através de gerações, de experiências infantis mais ou menos traumáticas ou da ignorância de quem realmente somos. O medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. A intensidade do medo pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo. O medo nos acovarda e nos constrange, nos isola e nos obriga a viver na defensiva, em permanente estado de alerta. O medo é paralisante; o medo nos impede ser nós mesmos; o medo nos acovarda diante daqueles que não pensam como nós; o medo impede afirmar nossa identidade de seguidores(as) de Jesus. O medo nos mimetiza como alguns insetos que, diante do perigo, mudam de cor para não serem vistos e reconhecidos. O medo pode minar nossas esperanças, esvaziar a capacidade de amar, atrofiar a força de nossas ideias… Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor, nos bloqueia e nos enterra na acomodação mesquinha. O medo não só é explorado por empresas que se dedicam a todo tipo de seguros, mas também pelas religiões, que exploram seus seguidores, vendendo-lhes o “paraíso”, depois de ter-lhes infundido um medo irracional ao sagrado. Somos bombardeados constantemente por uma “pastoral do medo”, que continua tendo uma influência nefasta. Geralmente, os controladores das religiões tentam manipular a “divindade” para colocá-la a serviço de seus interesses egoístas. O medo induzido é o instrumento mais eficaz para dominar os outros. Historicamente, as autoridades religiosas utilizaram sempre desse expediente para conseguir a docilidade de seus súditos. Evangelicamente falando, o medo é sinal de que ainda não entramos na dinâmica do Reino, no caminho de Jesus; o medo nos faz refugiar numa fé alienante, que não arrisca nada, que não se compromete com nada, que não vai mais além de nossa autorrealização narcisista, fechados numa prática devocional estéril. Os medos não costumam apresentar-se de rosto descoberto; mascaram-se, porque são sintomas de debilidade; tornam-se vergonhosos para nós. Eles se disfarçam para se tornarem mais aceitáveis. Existem muitos medos escondidos por trás das atitudes tirânicas de rigidez, de legalismo, de intransigência ou de intolerância. Recorremos a eles para ocultar-nos e defender-nos contra o novo e o diferente. O Papa Francisco afirma que por detrás das atitudes intolerantes está o frio hálito do medo. O medo empurra na direção dos individualismos, dos fanatismos e das soluções que contemplam simplesmente os próprios interesses. O medo enche de sombras o horizonte, tornando impossível uma decisão clarividente e ordenada. O medo cega, agita a imaginação e precipita juízos e decisões, criando impedimentos sérios para a vivência da fraternidade e para a coragem de compreender a vida como doação de si para o bem dos outros. Quem é capaz de sentir compaixão, bondade, mansidão… não se deixa afetar pelo medo e nunca será fanático nem intolerante, nem intransigente… Frente a tais medos-fantasmas, criados e alimentados por uma mente temerosa e ignorante, a mensagem das pessoas sábias aparece marcada pela confiança. É o que percebemos em Jesus de Nazaré, quem, de maneira constante, insiste: “Não tenhais medo”! Confiai! A confiança brota da compreensão, da certeza de que aquilo que somos se encontra sempre a salvo. Nas palavras do próprio Jesus: “podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. A confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas da experiência profunda de quem é Deus para nós. Aceitar e acolher nossas limitações e descobrir nossas verdadeiras possibilidades é o único caminho para chegar à total confiança. Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um ser que está fora de nós
Junho e as vozes da ecologia e do meio ambiente

O mês de junho vem acompanhado de várias notas para reverenciar e cuidar da nossa casa comum, a Terra. Além de temas como educação ambiental, meio ambiente, ecologia, oceanos, vida no mar, mudanças climáticas como seca e desertificação, é o mês que demarca o início do inverno, com o dia mais curto do ano, demonstrando delicada relação de equilíbrio como Cosmos que afeta a organização de nosso dia a dia, do vestuário e alimentação até nossas horas de sono. Ao prestigiar o Dia Mundial do Meio Ambiente, dias depois de o Congresso Nacional mutilar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a ministra Marina Silva destacou: Hoje é dia de termos consciência de que nosso tempo para agir está se esgotando e assumirmos definitivamente o que a ciência nos diz: ou respeitamos a natureza, e fazemos dela uma aliada, ou inviabilizaremos nosso futuro. Por tudo isso, faço desta data um convite para nos unirmos numa inadiável missão: a de tratar a natureza da forma correta, num esforço em benefício da nossa e das futuras gerações. A voz de Marina não ecoa solitária nesse cenário de crise ecológica. À sua convocação somam-se a sabedoria indígena, representada por Ailton Krenak; a tese do cuidado, defendida escritor e teólogo Leonardo Boff; e as orientações da Encíclica do Papa Francisco (2015), Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. Nesse documento, o Papa convoca: Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental que vivemos e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. Como disseram os bispos da África do Sul, “são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus”. Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades. É importante destacar, não só no mês de junho, que a Laudato si’ passa por questões urgentes, como poluição, resíduos e cultura do descarte; clima como bem comum; água; perda da biodiversidade; desigualdade planetária; deterioração da qualidade de vida humana e degradação social. Além disso, o Pontífice chama a atenção para a relação tecnologia, criatividade e poder; a fraqueza das reações; a globalização do paradigma tecnocrático; as consequências decorrentes da crise gerada pelo antropocentrismo moderno. A Encíclica situa a ecologia como tema central, relacionando-a com questões ambientais, econômicas, sociais, culturais e a vida cotidiana; defende o princípio do bem comum e da justiça intergeracional. O Papa Francisco apresenta orientações para ação fundamentadas no diálogo e na educação. O diálogo é considerado estratégia para desafios ambientais, política internacional, novas políticas nacionais e locais, transparência nos processos decisórios, interação entre política e economia para a plenitude humana, e relação entre religiões e ciências. Educação e espiritualidade ecológicas, por sua vez, devem guiar para outro estilo de vida, para a conversão ecológica, para a aliança entre a humanidade e o ambiente. O Papa finaliza propondo duas orações: a primeira pela nossa Terra, a segunda pela criação, fechando a Encíclica com as palavras: Deus de amor,mostrai-nos o nosso lugar neste mundocomo instrumentos do vosso carinhopor todos os seres desta terra,porque nem um deles sequeré esquecido por Vós.Iluminai os donos do poder e do dinheiropara que não caiam no pecado da indiferença,amem o bem comum, promovam os fracos,e cuidem deste mundo que habitamos.Os pobres e a terra estão bradando:Senhor, tomai-nossob o vosso poder e a vossa luz,para proteger cada vida,para preparar um futuro melhor,para que venha o vosso Reinode justiça, paz, amor e beleza.Louvado sejais!Amém. ___________________________________ ReferênciasSILVA, M. Pronunciamento da ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva, em rede de rádio e televisão, por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho de 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/noticias/nosso-tempo-para-agir-esta-se-esgotando-diz-marina-silva-em-pronunciamento-do-dia-mundial-do-meio-ambiente. Acesso em: 13 jun. 2023. DICASTÉRIO PARA O SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL; STOCKHOLM ENVIRONMENTAL INSTITUTE. A nossa casa comum: um guia para cuidar do nosso planeta vivo. Disponível em: https://www.sei.org/wp-content/uploads/2022/11/a-nossa-casa-comum-sei-vatican-20221128.pdf. Acesso em: 14 jun. 2023. __________________________________ Marli Teresinha EverlingProfessora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS para temas ambientais; colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram (@designuniville).