A paciência que nos faz criativos

“Deixai crescer um e outro até a colheita!” (Mt 13,29) A impressão que temos é que a paciência deixou de ser a virtude de nosso tempo; parece estar ameaçada de extinção. Aumenta a ansiedade que não espera, a angústia de não ter ainda o que se busca e a inquietude que parece não ter fim. Vivemos o tempo do imediatismo, da instantaneidade e da urgência. A pressa é a marca do nosso ritmo de vida, e, por isso, nossas ações, decisões e a construção de nós mesmos são tão efêmeras e sem raízes. O impaciente se afoga em sua instabilidade, atropela tudo e rompe a harmonia, a beleza e a relação com os outros. No entanto, a paciência é a atitude que faz vir à tona um conjunto de qualidades que nos fazem crescer como pessoas: saber esperar o ritmo das coisas e pessoas, tolerar o novo e diferente, aprender a conviver com aquilo que nos é próprio e respeitar o dos demais, firmeza na adversidade, levar adiante nossas próprias convicções, deixar-nos tocar pela crítica construtiva, olhar a realidade com uma visão mais ampla, crer naquilo que podemos chegar a ser, guardar no coração aquilo que ainda não está resolvido, não atropelar as pretensões dos outros, entrar em harmonia com a natureza, sonhar com uma realidade nova, trabalhar e confiar, respeitar o tempo de maturação das pessoas… A paciência não é um controle absoluto de tudo, senão impedir que a urgência das coisas nos arraste para o turbilhão de pressas que nos impede respirar, pensar, decidir e agir com criatividade. Em hebraico, a expressão “ser paciente”, significa “ter grandes narinas”.Isso quer dizer: respirar profundamente. De fato, ser paciente é ter uma respiração larga, uma respiração profunda. Observemos a maneira como respiramos, quando estamos impacientes; a respiração se torna curta quando estamos ansiosos. Ativar em nós a paciência é entrar no fluxo do ritmo tranquilo da respiração. Ser paciente é voltar sobre nossos próprios pés, enraizar-nos, aterrissar, estar aí, não nos deixar arrastar pela emoção. Após ter expirado profundamente, alguém é capaz de escutar o outro, é capaz de ser paciente. A paciência é tecida na espera, mas também é uma virtude que se ativa no esforço constante, muitas vezes rotineiro e pouco heroico. A paciência abre a possibilidade do novo futuro, mantém acesa a busca e movimenta valores como a perseverança, o discernimento, a confiança, a resistência, a contemplação… Segundo o evangelho deste domingo, o mistério escondido numa semente e as potencialidades presentes no ser humano merecem de todos nós o sagrado respeito pelo ritmo de crescimento, suscitando em nós uma atitude de admiração e encantamento. A sementeira já foi realizada com êxito, as forças de Deus continuam agindo, mesmo ocultas e desenvolvendo-se de uma forma silenciosa. Ainda não chegou a colheita, mas, com certeza ela virá. Enquanto isso, convém esperar pacientes e tranquilos e confiar na ação providente de Deus. O ativismo, a pressa e a inquietação não nos farão atingir os objetivos que almejamos; não são as pessoas que realizam o Reino de Deus por suas forças; o Reino chega pela força de Deus e vai crescendo silenciosamente, “por si só”, sem que se perceba a sua expansão. As três pequenas e inspiradas parábolas deste domingo nos falam de espera paciente, de respeito aos ritmos e processos, de confiança no dinamismo da vida… Jesus, em diferentes intervenções, faz referência a todo o processo agrícola, desde o plantio da semente até a colheita dos frutos. Semear, cuidar do crescimento, colher… tem seu ritmo próprio, o ritmo da natureza. As três parábolas têm uma mensagem comum. Nas três, o Reino de Deus se compara com algo pequeno e, ao mesmo tempo, carregado de vida, que cresce e se manifesta pouco a pouco, a partir de dentro, sem ruídos nem aparências. Não se impõe como uma superestrutura na qual vivemos ou temos, mas que perpassa e transforma tudo, como uma força silenciosa, mas potente, que vem da natureza, não de nós mesmos. Infelizmente, estamos perdendo o ritmo da natureza e queremos que tudo aconteça com a mesma rapidez quando nos comunicamos através dos meios eletrônicos. Temos “entranhas de impaciência”. Desistimos facilmente diante da falta de frutos ou as más ervas que crescem no campo da vida; queremos que as coisas sejam como imaginamos que devem ser; queremos plantar hoje e encher os celeiros amanhã. É preciso voltar a aprender com a mãe natureza. Um olhar repousado e paciente supõe capacidade contemplativa e vida interior, aprender a diminuir a velocidade de nossas vidas, ações e pensamentos, e preparar-nos para a serenidade e para a espera criativa. “A idolatria começa com um gesto de impaciência” (Onaknin). Na parábola do trigo e joio, a impaciência dos empregados leva-os a querer ter o controle do campo, onde fora semeada boa semente. A paciência, pelo contrário, está na entranha mesma da Vontade de Deus, que quer que cada coisa se desenvolva em liberdade, com seu tempo e seu espaço, sem que ninguém se sinta ameaçado. A paciência é mão estendida para Deus e para o outro, enquanto a impaciência é um punho que ameaça e arrebata. O “apressado” coloca-se em estado de revolta contra o que ainda está inacabado, sufocando seu amadurecer e impedindo o ritmo normal de desenvolvimento. A “pressa” tende a mostrar-se raivosa e impor-se, cega, à realidade. Prisioneiro de suas limitações, o impaciente julga absurda toda demora e mostra-se incapaz de ter interesse por tudo o que o cerca. Impaciente e irado, caracteriza-se pela intolerância que é destruidora. A paciência, por sua vez, nos dispõe a olhar ao nosso redor e sermos surpreendidos por tanta beleza; ela nos possibilita aguardar e deixar-nos “tocar” por algo surpreendente. Cada um de nós recebeu milhões de boas sementes ao longo de nossa vida. Também nos foram oferecidos todos os nutrientes que precisamos para crescer em meio às más ervas, misturadas em nossa realidade interior. Será que somos conscientes de que germinar e dar frutos, fermentar e mudar nosso ambiente é um processo lento que requer

Construir relações de amizade na família

“Em toda ocasião, ama o amigo…” (Provérbios 17,17) O objetivo mais importante na construção das relações familiares é o cultivo da amizade. Trata-se de levar os filhos a compreenderem o que vem a ser a amizade e a distinguir os amigos autênticos, dos falsos, principalmente neste momento de avanço de novas tecnologias, da era das redes sociais, das amizades virtuais. O cultivo da amizade está em aprender a querer bem outras pessoas e, ao mesmo tempo, aprender a conviver com e na família. Essa capacidade de bons relacionamentos vai se desenvolvendo de modo natural na família conforme se aprende que esse é espaço de amor e escola das virtudes da convivência. A amizade no ambiente familiar costuma ser decisiva para o desenvolvimento humano-afetivo, primeiro do comportamento social e dos hábitos de amizade para com outras pessoas. As primeiras experiências sociais, na família, ajudam a desenvolver atitudes de abertura para com os outros e hábitos de convivência harmoniosa, facilitam a socialização e ajudam, fortemente, os filhos a serem ativos, extrovertidos, independentes e curiosos. Vemos, portanto, que uma família é formada não somente pela relação de sangue, mas sim pelos laços de amor, carinho e amizade que se pode estabelecer entre eles. Pois as relações que se constroem entre pais, filhos, irmãos, irmãs, no ambiente familiar, serão pautadas na confiança e, mais ainda, estabelecidas por meio do diálogo, do encontro, do toque, do abraço, das demonstrações de afeto, da troca de experiências, fortalecidas na oração em família. Essa aprendizagem ocorre de forma natural, mútua e espontânea. Percebemos, cada dia mais, a importância de se desenvolver relações saudáveis entre pais, filhos e irmãos, que, consequentemente, vão aparecendo como valor essencial no ambiente familiar. Por isso, é importante a preocupação dos pais em desenvolver relações de verdadeira amizade com seus filhos, de tornarem-se amigos e, com isso, despertar a admiração entre ambos. Precisamos de pais que despertem encantamento em seus filhos e, assim, consigam estabelecer relações de respeito e deixar uma marca profunda e para sempre em seus filhos. A presença em momentos importantes, o acompanhamento no cotidiano escolar, os passeios, as brincadeiras são todas atitudes que nutrem a amizade na família e que são parte das tarefas diárias dos pais, ídolos de seus filhos. É com e na família que aprendemos que a amizade é um vínculo compartilhado em que existe comunicação, ação, sentimentos e interesses. Os amigos de verdade perdoam e, também, ensinam a sermos amigos melhores. A família é o berço do amor, da compreensão, do afeto, é o lugar onde as pessoas devem encontrar apoio, lições e aprendizados, porém, acima de tudo, com a preocupação de construir relações saudáveis e de convivência harmônica no espaço familiar, onde todos se sintam bem com todos. Os nossos melhores amigos devem estar dentro de nossa casa. Nossos amigos mais achegados deveriam ser os membros da nossa própria família. Judith LibanioGraduada em Ciências Contábeis pela UEPG, graduada em Teologia pela PUC, enfermeira especializada em Saúde Pública, agente da Pastoral Familiar Paroquial e na Arquidiocese de Londrina, ministra extraordinária da sagrada comunhão eucarística.

Um tesouro chamado amizade

A amizade é como um abrigo seguro em meio às tempestades da vida. Encontrar alguém em quem confiar plenamente e que entenda a importância da presença, independentemente das circunstâncias, é verdadeiramente valioso. Os amigos são como pilares que sustentam nossa existência, oferecendo apoio emocional e encorajamento nos momentos mais delicados. Sua presença nos proporciona a sensação de que nunca estamos sozinhos nesta jornada chamada vida. A base fundamental da amizade é a confiança. Confiança que se constrói ao longo do tempo, com sinceridade, lealdade e compreensão mútua. Confidenciar nossos medos, alegrias e desafios a um amigo verdadeiro é libertador, pois sabemos que suas palavras serão cuidadosamente ponderadas e que nossos segredos serão guardados com zelo. A confiança mútua fortalece os laços de amizade e possibilita um ambiente de crescimento pessoal, em que podemos ser autênticos e genuínos. Quem tem bons amigos possui um tesouro inestimável que ilumina os dias, assim como o Sol que ilumina o mundo. As experiências compartilhadas com amigos são como raios de luz que aquecem nossos corações e nos enchem de alegria. Na companhia de amigos verdadeiros, as risadas são mais sonoras, as lágrimas são mais consoladas, e as conquistas, mais celebradas. A amizade floresce em momentos de conexão, nos quais as almas se encontram e os corações se entrelaçam, criando um vínculo duradouro que transcende as adversidades da vida. Assim como o bom tempo é capaz de transformar os dias mais cinzentos em dias prazerosos, a amizade traz um brilho especial à nossa existência. Ela nos ensina a valorizar a simplicidade dos gestos, a importância dos detalhes e a beleza das relações humanas. Uma amizade verdadeira é capaz de atravessar fronteiras e superar obstáculos, mostrando que a proximidade não está necessariamente ligada à distância física, mas sim à conexão de corações e mentes. Ter amigos é uma dádiva que devemos cultivar e proteger, pois eles enriquecem nossas vidas de maneira única e preciosa como nos diz a letra da canção do clipe a seguir. Gostou? Compartilhe e marque seus melhores amigos neste dia especial. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Rede de Educação SSpS.

Agroecologia no centro do debate em Santarém

“Roda de conversa sobre homeopatia popular.” Esse é o tema do encontro promovido pela Associação de Defesa dos Direitos Humanos e Meio Ambiente na Amazônia (ADHMA), realizado de 13 a 16 de julho, no Centro de Formação Emaús, localizado na Rodovia Curuaúna, em Santarém-PA. O evento reuniu cerca de cem pessoas, entre agricultores, comunitários e ribeirinhos que praticam a agroecologia e utilizam a homeopatia no solo, no cuidado com o meio ambiente e com os animais. “Tivemos representantes desde Altamira até a Cachoeira do Aruã”, afirma a coordenadora do Projeto Beth Bruno, a irmã Marialva Oliveira da Costa, SSpS, também integrante da comissão organizadora do encontro. O Projeto Beth Bruno foi criado em 2010, com a finalidade de capacitar lideranças comunitárias e agentes multiplicadores de saúde para que atuassem no cuidado de quem vive em comunidades, utilizando as práticas integrativas e complementares. Irmã Marinalva relata que, nos quatro dias, houve debates, troca de experiências acerca do uso da homeopatia na agroecologia. “Quando falamos de agroecologia, temos que pensar na totalidade. Não tem como fazer agroecologia sem pensar na ‘casa comum’ em que nós vivemos: com todos os seres vivos que nela habitam: terra, água, animais e as pessoas. A homeopatia tem essa visão do todo”, explica. O encontro contou com a participação de diversas entidades ligadas a movimentos sociais, entre elas a Associação Brasileira de Homeopatia Popular (ABHP), cuja missão é proporcionar aos agentes populares espaços de formação de educadores em saúde, com o objetivo de apoiar a troca do conhecimento técnico e do produzido no meio popular, para criar novas relações com a natureza, gerando mudanças na sociedade. Além dos debates e das trocas de experiências, os participantes também puderam apreciar apresentações culturais e celebrações religiosas. Lenne SantosDoutora em Jornalismo e Estudos Mediáticos pela Universidade Fernando Pessoa (UFP), jornalista da Universidade Federal do Oeste do Pará (Santarém), colaboradora no Projeto Beth Bruno.

Conservação e preservação de nossa casa comum

As Ciências da Vida diferenciam “conservação” e “preservação” quando associadas à natureza ou discussões ambientais. O primeiro termo está ligado à conservação da biodiversidade e da ecologia. Em tal abordagem, os ecossistemas incluem espécies naturais, permitindo, entretanto, o uso sustentável e a participação humana, desde que orientada para a proteção, o uso racional e as gerações futuras. Já a segunda visão abrange a preservação das espécies, ecossistemas, biomas, diversidade genética, em uma perspectiva na qual o mundo natural não está à disposição dos humanos. Concebe a proteção da natureza para além do valor utilitário e econômico e visa à perenidade e à proteção integral. Ambos os significados são relevantes e pertinentes. Conservação, por possibilitar o uso sustentável, por considerar a participação humana; e preservação, por causa do valor atribuído à biodiversidade para além do utilitário, pelo compromisso com a proteção integral. Para que o cuidado com a conservação e a preservação de condições de vida na terra extrapolasse o campo das Ciências da Vida, foi percorrido um longo caminho. No trajeto, foram publicadas várias obras centradas no tema, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, quando nossa pegada ecológica já se fazia evidente. A hipótese de “Gaia”, tão presente nos textos de Leonardo Boff, foi formulada por Lovelock em 1969 e publicada em 1979. Para ilustrar a delicadeza, a beleza e a fragilidade do planeta, Lovelock valeu-se de uma imagem produzida um pouco antes: o planeta azul imerso no cosmos, registrado do espaço em sua primeira fotografia colorida. A partir de suas investigações sobre a biosfera, o cientista intuiu que todos os seres vivos e elementos materiais da superfície da terra constituíam uma comunidade, um megaorganismo, que, “inconscientemente”, afinava-se para manter o planeta como um sistema viável para a vida. Em sua percepção, nós, humanos, não teríamos direitos especiais, mas obrigações para com a preservação do equilíbrio do sistema, uma vez que nosso destino está conectado com o impacto de nossas ações sobre a terra. O cuidado requerido pela terra, presente em “Gaia”, também foi abordado em conferências sobre o desenvolvimento e meio ambiente, como aquelas sediadas em Estocolmo (1972), Belgrado (1975), Tbilisi (1977), Moscou (1987), Rio de Janeiro (1992 e 2012), além de orientar as conferências climáticas anuais e documentos como a Agenda 21 e a Agenda 2030. Em tais ações, nem sempre a dimensão social e ambiental consegue sobreposição à agenda econômica, o que traz ainda mais relevância à Segunda Encíclica do Papa Francisco (2015), “Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum”. A Organização das Nações Unidas instituiu 28 de julho como Dia Mundial de Conservação da Natureza. É mais uma oportunidade para que a Equipe de Comunicação das SSpS Brasil reafirme seu compromisso de missionariedade com o uso sustentável de recursos, a valorização da biodiversidade em uma dimensão não utilitária e o cuidado integral com o planeta e a vida. ReferênciasAGENDA 2030. Plataforma agenda 2030. Disponível em: http://www.agenda2030.com.br. Acesso em: 6 jan. 2021.BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.EVERLING, Marli; KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. Design, educação ambiental e ser-no-mundo: elementos para uma hermenêutica da complexidade e da sustentabilidade. In: Confluências Culturais; Dossier Nossa vida, nosso planeta, nossa saúde, Joinville, v. 11, n. 2. P. 58-71, 2022. Disponível em: http://periodicos.univille.br/index.php/RCC/article/view/1809/1524. Acesso em: 17 jul. 2023.FRANCO, José Luiz de Andrade. O conceito de biodiversidade e a história da biologia da conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História, Franca, v. 32, n. 2, p. 21-48, jul./dez. 2013. Acesso em: 8 jan. 2021.LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979.MOREIRA, Catarina. Biosfera. In: Revista de Ciência Elementar,Porto, v. 3, n. 2, jun. 2015. Disponível em: https://rce.casadasciencias.org/rceapp/pdf/2015/113/. Acesso em: 17 jul. 2023.PADUA, Suzana. Afinal, qual a diferença entre conservação e preservação? In: Jornal Eco, 2 fev. 2006. Disponível em: https://www.oeco.org.br/colunas/18246-oeco-15564/#:~:text=Conserva%C3%A7%C3%A3o%2C%20nas%20leis%20brasileiras%2C%20significa,integral%2C%20a%20%E2%80%9Cintocabilidade%E2%80%9D. Acesso em: 15 abr. 2021.PAPA FRANCISCO. Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. In: Vatican.va, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf&ved=2ahUKEwjXkvHWspOAAxXKIbkGHTF6ATQQFnoECDoQAQ&usg=AOvVaw2u7wRcx62LzwHk1PDCrwCY. Acesso em: 15 abr. 2021. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br), colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (blog.ssps.org.br), colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais. Instagram: @designuniville

Ser missionária serva do Espírito Santo: saiba como é o acompanhamento das jovens vocacionadas

Jesus “chamou os que Ele quis” (Marcos 3,13b) Desejo ser religiosa e consagrar minha vida ao serviço na Igreja. Sinto que Jesus me chama a ser missionária serva do Espírito Santo (SSpS). Quais são os passos e como ocorre o processo inicial? “Jesus subiu a um monte, chamou os que ele quis, e eles foram para perto dele. Então escolheu doze homens para ficarem com Ele e serem enviados para anunciar o evangelho. A esses doze Ele chamou apóstolos. Eles receberam autoridade para curar enfermidades e expulsar demônios” (Marcos 3,13-15). Eles deixaram tudo e o seguiram. Jesus chamou aqueles a quem Ele quis para subirem o monte e lhe fazerem companhia, vivenciando intimidade com ele, dando a conhecer sua missão e depois vivê-la, anunciando a Boa Notícia do Reino. Os Apóstolos não foram enviados logo para a missão, mas somente depois de um bom tempo de convivência e de formação. Mesmo após enviados, Jesus os chamava para novas instruções, para o descanso, confraternização e oração juntos. Jesus sabia que, em sua missão, Ele enfrentaria dificuldades com seus escolhidos. O Senhor conhecia a fragilidade de seus amigos, porém não desistiu e foi com eles até o fim. Quando Deus chama, Ele nos capacita para que possamos cumprir a missão a nós confiada, concede-nos os meios e os recursos necessários. Precisamos descobrir com Jesus, em sua Palavra e em oração, o que Deus quer fazer em nossa vida. Como missionárias servas do Espírito Santo, somos chamadas a servir na missão da Igreja, sobretudo em situações nas quais a vida é fragilizada e ameaçada, dentro ou fora do País. Realizamos nossa missão em comunidades, no Brasil ou em outros países, onde procuramos vivenciar o diálogo, a comunhão e o acolhimento. Nossa vocação missionária depende do compromisso com o seguimento de Jesus Cristo, buscando, como mulheres consagradas, testemunhar e tornar “Conhecido e amado o amor de Deus Uno e Trino por todas as pessoas”, conforme desejava Santo Arnaldo Janssen. Dedicamos nossa vida a Deus por meio da oração e das mais variadas atividades e apostolados, segundo as necessidades mais urgentes do povo ao qual somos enviadas. Quais são os passos para a jovem que deseja ser missionária serva do Espírito Santo? Primeiramente, a jovem que sente “inquietude vocacional”, com interesse e desejo de seguir Jesus, e um profundo anseio de ajudar o próximo, procura conversar com uma irmã SSpS. Isso pode ser pelas redes sociais ou pessoalmente. Manifesta-lhe seu desejo de conhecer algo mais sobre a vida religiosa, a Congregação. A partir de então, será encaminhada e acompanhada pela irmã responsável pelo Serviço de Animação Vocacional. Então iniciará seu processo de discernimento por meio de contato virtual ou presencial, visitas à família, retiros de convivência com outras jovens em nossas comunidades. Como é o processo de formação na Congregação? 1º – Ingresso na comunidade vocacional Tempo de experiência para maior clareza da vocação e descobrir em si os sinais do caminho de seguimento nos passos de Jesus. Nessa primeira experiência, a jovem vai conhecer o carisma, a vida e a missão das irmãs SSpS, e fazer seu processo de crescimento pessoal, comunitário, grupal. A jovem aspirante é acompanhada em seu desenvolvimento humano, autoconhecimento, vida cristã e no chamado pessoal de Deus. Também é acompanhada, de forma pessoal, pela irmã formadora, em sua opção de vida, vivência dos valores humanos, cristãos, experiência comunitária e missão. Nessa etapa de formação, a jovem permanecerá um ano, se já tiver concluído o ensino médio, ou o tempo necessário para terminar esse grau de escolaridade. 2ª – Pré-noviciado A jovem, após maior clareza do chamado de Jesus, continua o processo de discernimento, pelo qual vai aprofundando os temas relacionados ao carisma e à espiritualidade da Congregação, sua de formação humana e espiritual, e experiência de vida comunitária. 3ª – Noviciado Dois anos de intensa preparação para professar os votos de castidade, pobreza e obediência. Um tempo para conhecer Jesus Cristo e uma profunda intimidade e amizade com o Senhor. Começa, então, o seguimento incondicional a Cristo, como missionária serva do Espírito Santo. Período em que são colocados os alicerces para toda a sua vida, como religiosa consagrada. Terminado o período de dois anos a dois anos e meio, a jovem vai se encontrar apta a professar seus votos na Congregação e a viver como religiosa consagrada SSpS, com todas as suas alegrias e desafios. Para entrar em contato A jovem que desejar participar da experiência vocacional na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo ou na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua (ramo contemplativo da Família Arnaldina) basta entrar em contato com qualquer irmã dessas Congregações. Assim, será direcionada para as irmãs que acompanham as jovens vocacionadas. Caso deseje falar diretamente com o Serviço de Animação Vocacional, os contatos estão a seguir: Missionárias Servas do Espírito SantoIrmã Lusia Sakunab: animacaovocacionalbrn@ssps.org.comIrmã Yohana: (42) 99848-3772Missionárias Servas do Espírito Santo da Adoração PerpétuaIrmã Trindade Maria: (42) 99835-9535 Irmã Maria Cristina Krupek, SSpSFormada em Teologia, pós-graduação em Missiologia, terapeuta holística em constelação sistêmico-familiar, formadora na comunidade do Noviciado PANAM, em San Lorenzo, Paraguai. Irmã Ashrita Soreng, SSpSIndiana, missionária no Brasil.

Deus é “semente fecunda” em nosso interior

“O semeador saiu para semear” (Mt 13,3) O ser humano é surpreendente, inesperado, imprevisível… é pulsação original, é interpelação inquietante; é existência peregrina, é identidade dinâmica…; é uma mina de significados e riquezas. Com inesgotável potencialidade, ele recria a natureza e tem a possibilidade de inventar a sua própria vida. Onde há ser humano há espírito inteligente, impulso de liberdade e manifestação de tenacidade. Tratar com o ser humano é tratar com o imponderável, o misterioso… Ele é seduzido pela liberdade que lhe apresenta horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele é “espaço à vida aberta”, “vida que se expande”. Com seu pensamento e seu sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços. Essa capacidade é o que nós chamamos transcendência, isto é, “transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado”. Numa palavra, o ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência, projeta-se em muitas direções. O ser humano é mais do que parece ser. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais criativo, mais arrojado, mais responsável… “Desejando e elegendo aquilo que mais nos conduz…” (S. Inácio). Jesus expressa toda essa originalidade e riqueza do ser humano através da parábola do camponês que, com suas mãos abertas, espalha as “sementes” em diferentes terrenos. A parábola começa afirmando: “Saiu o semeador a semear”. Ele faz isso com uma confiança surpreendente. Semeia de maneira abundante. A semente cai em todas as partes, inclusive ali onde parece difícil que ela possa germinar. De fato, na semente encontra-se presente uma grande força de crescimento… A força da vida, contida no interior da semente, envelhecerá e se extinguirá se não houver quem confie nela, e arrisque a sua terra, seu tempo e seu trabalho. Quando a semente é enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho; ela avança passo a passo, seja durante as horas em que as circunstâncias lhe são mais favoráveis, porque é de dia e existe luz e calor em abundância, seja porque é de noite, e o ambiente para seu crescimento já não é tão propício. Escondida ali, debaixo da terra, envolvida pelo absoluto silêncio, a semente germina e vai crescendo. O talo, a espiga e os frutos conduzem toda a vitalidade da minúscula semente até a maturidade da planta. E cada árvore vive intensamente o tempo que lhe cabe viver, o tempo suficiente para produzir frutos em abundância. Ao terminar o relato da parábola do semeador, Jesus faz este apelo: “Quem tem ouvidos, ouça!”. Ele nos pede que prestemos muita atenção à parábola. Mas, em que deve estar focada nossa atenção: no semeador? na semente? nos diferentes terrenos? Tradicionalmente, nós cristãos nos fixamos quase exclusivamente nos “terremos” onde cai a semente, para revisar qual é nossa atitude ao escutar o Evangelho. No entanto, é importante dirigir nossa atenção ao semeador e a seu modo de semear. Para nós que crescemos em um contexto religioso desde a infância, a leitura literal desta parábola condicionou nossa visão da realidade em dois aspectos determinantes: o dualismo e o moralismo. Em tal leitura aparecia a imagem do Deus semeador como um alguém separado e, portanto, distante. Essa crença de separação não só alimentava um dualismo religioso – Deus frente ao mundo – de nefastas consequências, mas que era a fonte de outras ideias igualmente perigosas em suas consequências: o pecado, a culpa, a alienação, o infantilismo religioso… Com frequência, o dualismo religioso era acompanhado de moralismo. Se a semente não dava fruto numa pessoa, devia-se simplesmente à sua própria maldade, já que não havia preparado adequadamente seu “terreno”. Assim se fazia presente a culpa em quem acreditava ser um terreno improdutivo ou caía-se no farisaísmo, passando a vida limitando-se somente a cumprir normas e leis. A verdadeira “semente” é o que há de Deus em nós. “O semeador saiu.” Para semear nos campos, na terra, é preciso sair de casa. Deus é, ao mesmo tempo, “semeador e semente”. Ele “desce”, faz um Êxodo, um deslocamento em direção à humanidade, onde encontra diferentes terrenos. Em nossa terra interior já está semeada a presença de Deus; é como a semente enterrada que permanece fértil debaixo da terra desértica pela seca prolongada, e o olhar de Deus é como a chuva que ao cair desperta a vida presente na semente. Também gerará novidades em nós, convertendo-nos em vidas germinais. Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira, não como produto elaborado, mas como semente, que cada deve acolher e deixar-se fecundar por ela, para poder frutificar. O decisivo é tomar consciência do divino que nos habita e viver em harmonia com essa realidade. O fruto seria uma nova maneira de nos relacionar com Deus, conosco mesmo, com os outros e com as criaturas. A semente é o mesmo Deus-Vida germinando em cada um de nós; sua presença é sempre fecunda. Deus habita em suas criaturas e se manifesta em todas elas como algo tão íntimo que se constitui como semente de tudo o que é. Não devemos dar a entender que nós os cristãos somos os privilegiados que temos recebido a semente (Escritura). Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira (a mão-aberta). Somente aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e fantasias que envenenam sua existência. Entrar no fluxo da ação do Semeador divino é preciso sair de nossos espaços seguros, de nossas ideias e convicções atrofiadas, de nossos próprios esquemas fechados e abrir-nos aos diferentes terrenos. Semear é uma tarefa nobre na vida: semear trigo, trabalho, cultura, educação, semear ética, valores, esperança, respeito, dignidade, sentido da vida… Ao mesmo tempo que nobre, semear é uma tarefa de grande responsabilidade. Pais, mestres, escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas, etc., todos temos a nobre e bela tarefa de semear. Ao nos

Missão sem Fronteiras 2023 incentiva estudantes a práticas sociais

O protagonismo juvenil como agente de transformação e de esperança na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Essa foi a proposta da quarta edição do projeto Missão sem Fronteiras, realizada entre os dias 30 de junho e 2 de julho, no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ. Além de estudantes da escola sede, a iniciativa reuniu alunos de outros sete colégios da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo Brasil, localizados em Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ao todo, foram 147 pessoas envolvidas, sendo 108 jovens missionários e 39 educadores. Esta foi a primeira vez que todas as escolas SSpS do Brasil participaram da ação. Inspirados no tema “Pão partilhado, amor multiplicado”, os missionários foram imersos em diversas atividades, desde ações de solidariedade até de reflexão e aprendizado. Um dos momentos de espiritualidade, por exemplo, iluminado pela passagem da multiplicação dos pães, enfatizou que pequenas ações individuais de solidariedade podem modificar o coletivo. O Rio de Janeiro, com sua rica cultura, paisagens deslumbrantes e diversidade, foi o cenário perfeito para essa experiência transformadora, permitindo aos estudantes anfitriões do evento compartilharem com os jovens das outras escolas a realidade da capital fluminense. “Mudar nossa mente” “A vivência que tive nestes dias de missão marcou minha vida e meu coração para sempre. Vi pessoas com tão pouco fazendo de tudo para se manter, crianças em situações de extrema pobreza, mas com um sorriso no rosto sem igual. A humanidade parece que se esqueceu de ser humana, e precisamos resgatar esses valores, enxergando mais o nosso próximo. Saí desta missão com a vontade de ajudar muito mais e ser uma pessoa de transformação. Agradeço imensamente todos os educadores por me proporcionar esse crescimento humano e espiritual. Pude vivenciar, nestes três dias, estilos de vida diferentes e conhecer pessoas incríveis, responsáveis, com certeza, por deixar essa missão inesquecível. Pude me relacionar com outros Estados e culturas, e me divertir. Mas o principal objetivo, que era mudar nossa mente em relação ao mundo, foi alcançado. Nada faltou nesta missão. Agradeço a todos os envolvidos por me proporcionar tamanha experiência.” Lucas Madureira, aluno do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ. Na visita ao aterro sanitário de Gramacho, os participantes levaram 2082 garrafas de água, além de roupas e calçados para distribuir aos moradores da comunidade. Lá, puderam ouvir relatos de quem vive no local, em meio a adversidades. Sair da zona de conforto “Visitamos pessoas que moram em condições humildes, sem água, sem ter onde estudar e com vários problemas todos os dias, mas que demonstravam muita gratidão. Nesses momentos, percebi o quanto eu já fui ingrata por coisas pequenas que aconteceram na minha vida. Participei desta missão disposta a sair da minha zona de conforto e com muita vontade de estar lá para ajudar de qualquer maneira possível.” Alessa Pinzon, aluna do Colégio Espírito Santo, Canoas-RS. Por meio dessas experiências, os jovens tiveram a oportunidade de refletir sobre como o trabalho missionário pode impactar positivamente a vida daqueles que se encontram à margem da sociedade, além de se tornarem agentes ativos na prática especial realizada durante o evento. Valendo-se da união desses estudantes comprometidos com o bem-estar e com a inclusão social, o projeto Missão sem Fronteiras busca despertar a consciência coletiva para a importância de ajudar o próximo e promover mudanças significativas no retorno às próprias comunidades. Ao longo dos anos, a iniciativa tem se mostrado uma poderosa ferramenta para sensibilizar os jovens sobre as realidades sociais e estimular a empatia, a compaixão e a vontade de fazer a diferença. “Os dias na missão foram especiais e muito intensos. Foi tudo tão impactante na minha vida que influenciou até a profissão que escolhi para mim”, conta Clara Maia, que participou do Missão sem Fronteiras em 2019, em Brumadinho-MG, e que hoje é estudante de Medicina. O projeto tem se consolidado como um marco na jornada dos participantes, proporcionando momentos inesquecíveis, ampliando horizontes e estreitando laços de amizade e solidariedade. “Poder da solidariedade” “Esta quarta edição da Missão sem Fronteiras foi marcada pelo engajamento dos jovens missionários, pelo despertar de novas vocações a serviço da vida e pelo impacto positivo nas vidas daqueles que mais precisam. Que a esperança e a vontade de fazer a diferença inspirem não apenas os participantes, mas também todos os que acompanharam essa importante iniciativa em cada escola. Somos testemunhas do poder da solidariedade e do potencial transformador dos jovens comprometidos com um mundo melhor.” Agostinho Travençolo Junior, assessor-geral do evento. Saudade, gratidão, amor “Fazer parte da quarta edição do Missão sem Fronteiras foi uma experiência única. Foi um momento marcante, acredito que não só na minha vida, mas na de todos os que ajudaram e foram ajudados pelo projeto. Estar cercada de pessoas com o mesmo objetivo de fazer o bem ao próximo foi incrível. Ser acolhida por todos e mudar o mundo com eles, o mundo de algumas pessoas, foi muito gratificante. A Missão sem Fronteiras foi uma oportunidade maravilhosa de conhecer novas culturas, trocar experiências e vivenciar novas, fazer novos amigos e, principalmente, ajudar as pessoas. Os únicos sentimentos que restam após o fim da quarta edição são a saudade, a gratidão e o amor. Obrigada, Missão sem Fronteiras!” Heloísa Baldus Gromann, aluna do Colégio Santos Anjos, Porto União-SC. Partilha da experiência A Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS incentiva que cada delegação compartilhe, nas respectivas unidades escolares, o que viu, ouviu e sentiu. Para isso, propõe a realização de plenários, debates e celebrações, concluindo o projeto em grande estilo. Em momento oportuno, cada estudante que viveu a experiência do Missão sem Fronteiras 2023 receberá o certificado de participação. Agradecimento da Rede de Educação SSpS Em uma mensagem enviada aos participantes do Missão sem Fronteiras, a Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS agradeceu a escola anfitriã e a todos os que contribuíram para a atividade. Houve uma menção especial às unidades da Província Brasil Sul, estreantes no projeto. Palavras

Fardos pesados X fardos leves

A psicologia e a religião, historicamente, sempre tiverem embates. O pai da psicologia, Freud, considerava a religião como uma muleta para o ser humano lidar com o medo. Há preconceito dos dois lados. Parte também de religiosos, em geral, em relação à psicologia. No entanto, na história, houve psicólogos cristãos que contrariaram Freud e provaram que é possível usar a espiritualidade como ferramenta de cura. O mais conhecido deles é o neuropsicólogo Victor Frankl, o fundador da logoterapia, contemporâneo de Freud. Ele nasceu em 1905 e faleceu em 1997. Como ele, muitos outros reconhecem, nos ensinamentos de Cristo, elementos da psicologia. O escritor e religioso americano Mark W. Baker tornou-se muito conhecido ao publicar uma obra na qual reconhece a psicologia na atuação de Jesus. A obra, muito conhecida pelos brasileiros, chama-se Jesus, o maior psicólogo que existiu, publicado no País pela Editora Sextante, em 2005. Como psicólogo cristão, eu também encontro, em minhas reflexões dominicais dos evangelhos, elementos que podem ser usados como psicoterapia na busca da cura da alma. Tenho sempre a preocupação de não relativizar nem uma, nem outra: religião e psicologia. Assim, neste artigo, eu gostaria de apresentar minha reflexão sobre uma passagem bíblica que se encontra no Evangelho de Mateus (11,25-30). Esse texto narra que Jesus louva o Pai, Deus, por ter revelado (tirado o véu dos olhos) algumas coisas aos pequeninos, aquilo que os intelectuais da época não puderam compreender, pois estavam cheios da ciência da Lei antiga. Em seguida, Jesus faz um convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados pelo peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Que fardos seriam esses? Sabemos que um fardo de materiais, principalmente cereais e alimentos, conforme os carregamos, tornam-se pesados. Por exemplo, um fardo de algodão ou de arroz, ou de feijão, ou de farinha pode começar pesando 60 quilos, mas, enquanto o carregamos, ele pode dar a sensação de pesar muito mais. Quanto mais tempo o carregarmos, mais pesado pode parecer. Olhando os sofrimentos da alma que as pessoas trazem até ao atendimento de psicoterapia, assim como ao atendimento do confessionário, posso associá-los metaforicamente a esses fardos mencionados por Jesus. Um fardo muito comum que as pessoas carregam por anos é o fardo da mágoa. A falta de perdão e a falta de ser perdoada pesam em tudo o que a pessoa faz. Alguns persistem por anos, até décadas. A doença da alma então se transforma em doenças físicas, somáticas, neuróticas. Tais pessoas se queixam de doenças, no entanto os exames laboratoriais não confirmam os lamentos. Há ainda outro fardo muito presente nos pacientes hoje. Trata-se da ansiedade. Essas pessoas vivem focadas no medo do futuro, do que de ruim possa acontecer. É difícil convencê-las de que o “perigo” é imaginário. Esse fardo se torna tão pesado que se transforma em alergias, quedas de cabelo, taquicardia, tremores, insônias, falta de apetite. Muitas vezes, desencadeiam uma depressão leve, moderada ou grave. Um terceiro fardo que gostaria de mencionar é o fardo da necessidade de visibilidade. Alguns pacientes têm medo de perder admiradores, seguidores, curtidores, etc. Por esse motivo, perdem o sono, perdem a paz. É uma mistura de vaidade, narcisismo e vazio interior. Isso pode evoluir a um quadro de arrogância, prepotência. Alternativa oferecida por Jesus E qual seria o fardo leve que Jesus oferece com alternativa a esses fardos pesados? Para o primeiro fardo, o das feridas produzidas pela mágoa, pela falta de perdão, Jesus propõe o oposto: o perdão. Um perdão sem limites. Ele afirma: “Não perdoe só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes” (Mateus 18,21-22). Ensina ainda: “Se seu irmão tiver alguma coisa contra você, deixe a tua oferta e vá se reconciliar com ele enquanto ainda há tempo”. Quem já perdoou sabe a verdade dessas palavras. Após uma reconciliação, um reconhecimento de suas falhas, as pessoas sentem certa leveza. Após uma confissão, por meio do sacramento da reconciliação, a alegria se torna contagiante. Para o fardo da ansiedade, o Mestre propõe o fardo leve: “Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida maior que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? A cada dia basta a sua preocupação” (Mateus 6,25-34). Para o terceiro fardo mencionado, o do desejo de visibilidade, Jesus adverte: “Sabeis que os chefes das nações a dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós, não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o maior entre vós seja o vosso escravo” (Mateus 20,20-28). “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11,29). Com esta reflexão, penso que se pode desvelar, revelar, tirar o véu a respeito da importância da espiritualidade e da religião como aliada da psicologia. Revela que a religião não é cafona, antiga, retrógrada, alienada, como muitos críticos o afirmam. Há muitas outras passagens bíblicas em que Jesus convida o ser humano a olhar para dentro de si mesmo, deixando-o livre para segui-lo ou não. Para aceitar sua ajuda ou não. Muitas vezes, ao afirmar “A tua fé te salvou”, ou “O que você quer que eu faça?”, Ele atua como um psicoterapeuta que leva o paciente a elaborar seus conteúdos. Como Ele próprio afirmava sempre, “Não tenha medo”. Faça uma sessão de terapia com o maior psicólogo que existiu. Não custa nada. Pe. Aparecido Luiz de SouzaMissionário do Verbo Divino e psicólogo.

A gratidão dá “sabor e calor” à vida

“Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra!” (Mt 11,25) Sabemos, através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos… Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude (solidão habitada). No Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade, através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração…; trata-se de um louvor, um canto à vida. Estes versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue. Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado, que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras. Mateus reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é descanso… A gratidão parece brotar aos borbotões das entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão. Quando tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo. Mas isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato, ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade – algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de nosso ser original: “somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos vivendo o que somos. A gratidão é, ao mesmo tempo, um sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo. Na medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que ela expande o nosso próprio coração, favorece a alegria de viver e facilita poderosamente a convivência. Por pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”, não temos saído ainda de nosso egocentrismo. A gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem obstáculos. Pelo contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo. A gratidão, como força que nos “des-egocentra”, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça… Somos seres agraciados, “cheios de graça”. Como o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças por tudo. Assim compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu, agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim! Ao entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de valorizar tudo o que desfrutamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários como tomar um café em boa companhia. Nosso contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta repassar o olhar sobre diferentes realidades – político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas. Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde, convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades de nosso ser… “Dar graças”, “agradecer”, “louvar”… é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com frequência de “memória agradecida”. Só a “memória agradecida” está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve…, pois temos de adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos sob nova luz para serem ressignificados. Só a “memória redentora” mobiliza nossos melhores

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