Um instante de silêncio…

No apagar das luzes de 2021… silêncio. Onde estiver, nestes últimos dias do ano, seja na companhia de quem for, proponha um instante de silêncio. Tempo precioso que vai valer uma eternidade, pois vai nos colocar diante das marcas do que se foi. Um silencioso suspiro para fazer memória aos amores e às dores. Uma fração de tempo para se encontrar com Deus e sorrir, mesmo diante das adversidades. Nada a dizer, nada a ver, apenas um gélido e refrescante vácuo neste mundo tão agitado. Instante para fazer memória aos que estão distantes e para celebrar a vida de tantos que estão diante de nós. Uma sinergia muda e duradoura com tudo o que nos move, nos agiganta, nos encoraja e nos dá sentido para romper mais um ciclo. Um instante de silêncio pelos gritos de gol engasgados na garganta, pelas lágrimas contidas e pelos abraços dados. Muita mudez para os momentos de nudez. Calmaria para enfrentar a indignação. Um instante de silêncio crítico e acolhedor diante do que a vida reserva a cada um de nós. Um instante de fé irmanada, de mãos dadas em missão. Na calada da noite ou do dia, um encontro com o inaudível. A sensação de levitar, em que o silêncio milagrosamente nos coloca no colo e baila conosco. A beleza dos fogos de artifício sem estampidos. Aquele instante de silêncio que nos faz encontrar o caminho do perdão. Instante para escutar o coração pulsando. A quietude do silêncio que eleva nossas preces e desejos aos céus e ao infinito. Um gesto coletivo de silêncio edificante para construir pontes e novos caminhos. Um instante de silêncio indignado para as vítimas da covid-19 e um silêncio esperançoso em homenagem a cada criança que nasceu para renovar nossas esperanças. Onde estiver, nestes últimos dias do ano, seja na companhia de quem for, ou mesmo em sua própria companhia, deixe o silêncio passar e levar você para mais um ano que se inicia. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

O presente de Isaías para este Natal

Os últimos anos têm sido muito difíceis em vários aspectos. Mesmo antes da famigerada pandemia de covid-19, nosso país já passava por instabilidades importantes na política, na economia, na segurança pública, na saúde, na educação, nos gestos de gentileza, na religião, nas ideias. Reconheço ser estranho começar um texto de Natal recordando essas mazelas, mas elas vêm ao encontro de um trecho de Isaías que pulsa em meu coração nestes dias. É o início da primeira leitura da liturgia da noite de Natal: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam na sombra da morte, uma luz resplandeceu” (Isaías 9,1). Que grande presente esse o de Isaías! Um profeta, uma profetisa de verdade costuma nos tirar do lugar, nos incomodar, seja “puxando nossa orelha”, seja nos animando. Parece que estamos aceitando a vitória das trevas e da morte! Ainda hoje, há pessoas comemorando “apenas” dezenas de mortes diárias causadas pelo covarde coronavírus e seus aliados. Verdadeiramente, andamos à sombra de muitas mortes. Perdemos milhares de nossos irmãos e irmãs devido à pandemia, ao descaso, à violência, à fome e muitos outros males, as também perdemos a esperança, as águas, os animais e as matas. Não deveríamos chegar a esta particular solenidade do Natal do Senhor apenas mandando, via redes sociais, figurinhas pré-fabricadas, quase sempre com as cafoníssimas neve, renas, frases feitas, estrelinhas piscando… Este Natal precisa ser o marco para a ressurreição de muitos vivos e de virtudes como a esperança e a verdade, o valor a trabalhadores, aos pobres e “lascados”, à ciência, a toda a Criação. Jesus já veio como um sofredor. Veio sem as mínimas condições, num curral, e foi colocado num comedouro (eis os verdadeiros termos!), porque não havia lugar para seus pais na hospedaria (Lucas 2,7c). Nessa escuridão experimentada por ele próprio, também foi consolado pela luz do cuidado de Maria, que o enrolou em faixas e o colocou na manjedoura (Lucas 2,7b), talvez o lugar menos inseguro no cenário. Foi visitado por pastores e estrangeiros. Naquelas trevas, a luz da ternura e do amor venceram. Eis a Boa-Nova! Na noite de Natal (dulcíssima, apesar de tudo), não podemos cochilar diante dessas leituras carregadas de vida, santa subversão e ternura, particularmente a esse versículo do profeta. Ele não diz “verá uma grande luz”, mas com a convicção dos grandes na fé, usa outro tempo verbal: o pretérito perfeito. Um fato passado bem delimitado no tempo. Vimos o brilho, mas ouso dizer: continua a surgir diante de nós uma grande luz. Não fechemos nosso coração, nosso olhar para esse resplendor. Deveríamos repetir o trecho como um mantra, a começar de agora até quando julgarmos termos o mínimo de estabilidade e paz. Apesar de tudo, vamos nos permitir um santo e esperançoso Natal. Que as luzes e a vida vençam! Abramos nossos olhos para a glória do Senhor! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Esconder-se de Deus

O Salmo 139 reflete as tentativas do salmista de esconder-se de Deus. A cada refúgio em que se metia, era encontrado! Se descia ao sheol, lá Deus o achava, se subia às nuvens, lá Deus o esperava. Quando parava para pensar, Deus se antecipava e conhecia seus pensamentos. Por todas as veredas em que procurava se esconder, essas eram conhecidas por Deus. Tentava se revestir de asas e fugir para o mar, mas também não adiantava, lá também Deus o via. Todas as suas tentativas foram em vão. Parecia brincadeira de “pega-pega”, tentando escapar, mas sem êxito. Por fim, deu-se conta de que até seus ossos, quando estavam sendo formados em segredo, eram apenas um esboço, os olhos de Deus já os tinham visto. Somente lhe restou render-se perante a presença onisciente e onipresente. Boquiaberto diante de tais mistérios, restava silenciar-se! Mergulhado em sua confusão, reconheceu sua pequenez: “Ó Deus, como são difíceis para mim os teus projetos, como é grande a soma deles. Gostaria de contá-los, mas são mais numerosos que os grãos de areia!”. Rendido diante de tão grande mistério, pediu que Deus o prescrutasse e conhecesse seu coração. “Prova-me e conheça meus pensamentos.” Eis aí uma história de relação com Deus de um fiel que põe Deus à prova, embora, de antemão, intui qual será o desfecho. O Salmo acaba sendo uma parábola. Por um lado, a percepção que nada escapa do “controle” de Deus e, diante disso, não há saída senão reconhecer sua onipresença; por outro, as tentativas de esconder-se, de ignorá-lo acabam sempre em fracasso. No Salmo, nenhuma vez Deus amedronta ou ameaça o salmista, apenas se deixa perceber em todas as situações. É uma presença que abre cada vez mais horizontes, mostra sua grandeza escondida na imensidão do universo, mas também nas coisas menores, como grão de areia. Há um espaço sem medidas, infinito, onde sua grandeza se manifesta. Diante disso, o salmista apenas pode silenciar-se. Hoje os astrônomos, cada vez mais, descobrem a infinitude do Universo. A cada nova galáxia captada pelos telescópios, mais mistérios se apresentam. Busca-se uma explicação para o Universo, mas nenhuma é conclusiva. Quando se aproxima de uma, outras mil se apresentam sem solução, e os mistérios se multiplicam. Daí é de se admirar que muita gente se declare ateia ou agnóstica. Conformando-se que tudo acaba com a morte. Para isso se contente com a possibilidade de, um dia, a ciência dar explicação para tudo o que existe. Enquanto esta não chega, basta viver como se Deus não existisse ou “escondido”, conformando-se com um sentido para a vida num horizonte pequeno, que cabe em seus raciocínios e explicações. Diga-se de passagem, não convencem o próprio coração que, ansioso, espera por algo mais. Uma ilusão enganosa para quem tenta esconder-se de Deus, não o reconhecendo nas pequenas e grandes coisas. A experiência do salmista, pressionado por tribulações, meditando, percebe que Deus o conhece melhor do que a si próprio, não adianta esconder-se. Pois a tudo Deus conhece! Nada lhe pode escapar. Compenetrado diante de tal mistério, volta-se para dentro de si mesmo e se interroga: o que é o ser humano diante de Deus? Conclui: Ele se mostra presente desde o início de sua vida, ainda em sua formação óssea. Aceita, então, que é aquilo que é, e nada mais. Não há como esconder-se de Deus! Como o salmista, somos convidados a meditar sobre nossa vida, nossas tribulações e na experiência de sua busca. Percebê-lo como participante de nossa história desde seu início, em cada momento já vivido. Constatar sua presença que nos acompanha desde nossas origens. Onde quer que estejamos, sua presença já se antecipou e nos conhece mesmo nos malabarismos que inventamos para nos esconder dele. Mais sábio parece ser, render-se, como o salmista, e dizer “Sonda-me, ó Deus, e conhece meu coração! Prova-me e conhece minhas preocupações. Vê se ando por um caminho de desgraça, e guia-me pelo caminho eterno” (leia e medite o Salmo 139). Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

O sangue dos mártires, os pobres da rua, as crianças carentes…

No mês de outubro celebramos o mártir São Calisto I, Papa que cuidava das catacumbas dos mártires, na Via Ápia, em Roma. Em seu dia (14), o Evangelho (Lucas 11,47-54) nos fala do sangue dos mártires. Como comunidade verbita de Teologia, temos Dom Paulo Evaristo Arns como patrono e o estamos recordando no dia 14 de cada mês, por ocasião de seu centenário de vida. A figura dele representa alguém que lutou incansavelmente pelos mártires injustiçados da vida cotidiana. O sangue é, para os judeus, o lugar onde reside a vida, essa vida que, ao ser derramada na terra, clama a Deus, como ocorreu com o sangue de Abel. De fato, desde que houve esse primeiro homicídio injusto, que simboliza milhões de mortes em nome da cobiça, da ganância, da exploração e do poder, não deixam de acontecer, em nosso mundo, mortes e mais mortes. O sangue dos inocentes continua clamando do ventre da terra, onde foi derramado. Jesus diz aos fariseus e mestres da Lei: seus pais derramaram sangue, tiraram a vida dos profetas, até no lugar mais sagrado para um judeu: entre o altar e o santuário. E tudo em nome do poder, da cobiça, da ganância e da exploração. E Jesus menciona o profeta Zacarias, o último da tradição profética do povo. Em outra passagem, Ele fala de João Batista, assim como a Carta aos Romanos (3,24-25) nos fala do sangue de Jesus Cristo que nos salva. Embora eu sempre diga que a história nunca se repete, às vezes, tenho a impressão de que continua a repetir-se hoje: muitos dos que sustentam esse sistema econômico de morte estão derramando o sangue e a vida de profetas que gritam com seus testemunhos, com suas palavras, mas também daqueles que vivem o dia a dia no silêncio. “Ai de vós” que matais os homens e mulheres aos poucos, sem lhes tirar a vida de maneira imediata, mas em parcelas e com juros… Como disse o Papa Francisco: “Estamos vivendo uma guerra mundial em pedaços, aos poucos”, e o sangue do povo continua sendo derramado. Para concluir esta reflexão, eu gostaria de partilhar dois testemunhos que resgato de minha experiência na Pastoral de Rua, no projeto “Alimentar Direitos”, que distribui diariamente mil marmitas à população em situação de rua, na Quadra dos Bancários, à Rua Tabatinguera, 192, Centro de São Paulo. O primeiro deles não aconteceu comigo, mas o ouvi de alguém que trabalha conosco na Associação Rede Rua. Ela disse que, depois de uma visita à Prefeitura de São Paulo, feita por alguns membros da equipe de trabalho e alguns dos nossos conviventes, eles voltaram para almoçar no lugar de atendimento, na Quadra dos Bancários. Ali, todos se sentaram ao redor da mesa para almoçar, enquanto um dos conviventes falava emocionado: “Estou agradecido, porque faz cinco anos que eu não me sentava à mesa para comer com alguém”. Um gesto que, para nós, é tão corriqueiro, cotidiano, esvaziado de sentido, para outros, torna-se um grande sinal de humanidade. O segundo testemunho é de um fato ocorrido na comemoração do Dia das Crianças, na ocupação Nova Jerusalém, perto da represa de Guarapiranga. Um menino, depois de uma linda manhã de atividades, brincadeiras, sorrisos e presentes, disse a mim e a uma voluntária: “Vocês são muito bacanas! Quero ir junto com vocês”. Ele sabia que, apesar de tudo, estava vivendo uma vida com muitas carências… Já como criança, vivia uma vida doída, dilacerada, injustiçada, quase que derramada na terra. Enquanto tivermos líderes e autoridades que não vejam isso, que não tenham um olhar que enxergue a vida, que não sejam humanizadores, seguiremos matando os profetas, seguiremos martirizando nosso povo. Que São Calisto, todos os mártires e Dom Paulo Evaristo Arns intercedam por nós, para que sejamos profetas da justiça, dispostos a derramar até nosso sangue se for necessário. Juan Contreras Tapia, SVDNatural do Chile, é seminarista da Congregação do Verbo Divino. Iniciou seus estudos no Chile, fez seu noviciado em Juquiá-SP. Atualmente está cursando o segundo ano de Teologia no ITESP (Instituto Teológico São Paulo). Desde o início de 2021, realiza trabalhos na Pastoral da Rua, no projeto Rede Rua.

Arco e flecha para o Sete de Setembro

Sempre haverá um grito a ser escutado. Em contraponto ao “Grito da Independência”, desde 1995, ecoa o “Grito dos Excluídos”. Um grito que é fruto de um processo, de uma articulação de muitas pessoas e movimentos, de muita mística e simbolismo, marcado pela proximidade do cotidiano de quem vivencia as lutas populares. É a tentativa de superar um patriotismo passivo e dar lugar a uma cidadania ativa Desde sempre, foi assim: questionando os padrões de independência do povo brasileiro e sonhando com um Brasil mais justo para todos os cidadãos e cidadãs. Um passeio pelos lemas e temáticas dos Gritos dos Excluídos e Excluídas é uma aula de História contada à base de uma participação ampla, aberta e plural. Não é um evento isolado, mas a culminância de um processo de discussões coletivas. 1995 – A vida em primeiro lugar 1996 – Trabalho e terra para viver 1997 – Queremos justiça e dignidade 1998 – Aqui é o meu país 1999 – Brasil: um filho teu não foge à luta 2000 – Progresso e vida, Pátria sem dívida$ 2001 – Por amor a essa Pátria Brasil 2002 – Soberania não se negocia 2003 – Tirem as mãos… O Brasil é nosso chão 2004 – Brasil: mudança pra valer o povo faz acontecer 2005 – Brasil: em nossas mãos a mudança 2006 – Brasil: na força da indignação, sementes de transformação 2007 – Isto não Vale! Queremos participação no destino da Nação 2008 – Direitos e participação popular 2009 – A força da transformação está na organização popular 2010 – Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir um projeto popular 2011 – Pela vida grita a TERRA… Por direitos, todos nós! 2012 – Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população! 2013 – Juventude que ousa lutar constrói o projeto popular 2014 – Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos 2015 – Que país é este, que mata gente, que a mídia mente e nos consome? 2016 – Este sistema é insuportável. Exclui, degrada, mata! 2017 – Por direitos e democracia, a luta é todo dia 2018 – Desigualdade gera violência: basta de privilégios! 2019 – Este sistema não Vale! Lutamos por justiça, direitos e liberdade 2020 – Basta de miséria, preconceito e repressão! E, em 2021, “Vida em primeiro lugar! Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já!” Como podem ver, ir para as ruas em Sete de Setembro, desde muito tempo, faz parte da agenda transformadora dos que desejam, permanentemente, avanços, conquistas e justiça social. Feita uma “metodologia do arco e flecha”, cada “Grito” tem a força de uma construção coletiva. Duas pontas unidas por uma linha, a qual é flexionada para trás por uma haste longa e fina, com uma seta na ponta que, ao ser solta, projeta-se adiante e revela nossa energia potencial. Olhar o que passou, analisar o vivido e prospectar, foi assim que capturei a metodologia desse movimento que há 27 anos denuncia, anuncia e busca trazer ânimo diante dos desafios de cenários de adversidades, conquistas e retrocessos. Olhando para o alto e adiante, trazendo a flecha para trás para acolher a força do vivido, a trajetória desse movimento passa pela cabeça e pelo coração, busca forças e se projeta com vistas à conquista dos avanços pretendidos. Arco e flecha para o Sete de Setembro… Porque é tempo de nos armar de cidadania! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. Referênciahttps://www.gritodosexcluidos.com/historia

Palavras para não romantizar…

Eu acredito na força e no poder das palavras. Neste texto, não quero desmerecer a intensidade de palavras, apenas acentuar a banalização, seus usos e desusos no cotidiano. Algumas expressões estão me doendo os ouvidos quando escuto, a depender do contexto. “Birra”, “sustentabilidade”, “guerreira”, “cristão”, “empreendedorismo”, “resiliência” e até mesmo a expressão “mi-mi-mi” vêm me causando estranheza, entre outras tantas palavras. A cena pelas ruas até parece “birra”, mas pode ser um jeito que a criança encontrou de dizer que está esgotada, de mau humor, cansada. Birra é uma expressão cujo uso merece considerar mais nuances e inter-relações. A “sustentabilidade”, descrita nos financiamentos e ações de investimento social de empresas destruidoras do meio ambiente, a que se refere de fato? Ah, o “empreendedorismo”! Tem seu valor transformador sim. Mas também, além de carregar a equivocada culpa de ser pobre porque quer, de não ter tido formação nem oportunidade, carrega agora a culpa de não ser empreendedor, empreendedora no meio do caos e numa sociedade desigual. Sempre haverá aquela que mais assusta. Para mim, “guerreira”, “guerreiro”. Podemos estar, sim, diante de uma pessoa que se agigantou de fato e com uma rede de apoiadores diante de sua guerra particular e pessoal. Mas podemos estar diante de alguém, geralmente uma mulher, que está num processo de esgotamento, precisando de ajuda, desdobrando-se até não conseguir mais… E a tal da “resiliência”? A resistência e a sobrevivência humana ao imponderável e às adversidades podem conter danos evitáveis. Importante sim. Nobre. Mas do que estaríamos exatamente falando? O que deixamos de prevenir? Sobre o “mi-mi-mi”, nem sei o que dizer. Já disseram, não sei a fonte, e vou repetir aqui: “mi-mi-mi” é a dor do outro e que não dói em mim. “Cristão”, então, ganhou contornos de banalidade… Impossível se autoproclamar cristão e não comungar valores evangélicos, a sede de justiça social e aliança com os pequenos. Não são só palavras ao vento. É preciso escutar e contextualizar. Para me ajudar a sair dessa reflexão que iniciei e que não tem fim, faço memória às palavras de Paulo Freire: “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”. Eu acredito na força e no poder das palavras. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Uma pequena maleta é suficiente

Ao ler um texto que publiquei, uma pessoa reagiu com um comentário que dizia no contexto, “Uma pequena maleta é suficiente”, referindo-se ao que é necessário para viver. Isso me provocou pensar no acúmulo de coisas que guardamos sem necessidade. Se olharmos para nosso armário de roupas, há aquelas que não saem do cabide faz mais de ano. Certamente, essa é supérflua, não precisamos dela, mas está lá, guardada, apertando-se entre as outras, ocupando espaço inutilmente. Nesses dias, alguém sugeriu, que, neste tempo de frio, fosse levada no carro uma blusa que estivesse sobrando e a entregasse a alguém que se encontrasse passando frio pelo caminho. Gostei da sugestão e já consegui alocar no ombro de desconhecidos duas blusas que faziam parte de meu “supérfluo”. Tenho outra para o próximo que encontrar. Não me fazem falta, mas estavam fazendo falta para alguém. Assim são camisas, calças e outras bugigangas. Há muito supérfluo em nossa casa que são úteis para quem não tem e precisa dele. Então doe, não fique pensando “ah pode ser que eu venha a precisar…”. Se não precisou até agora, você tem outros recursos para suprir o que vai doar. Como disse o comentarista de meu texto, “Uma pequena maleta é suficiente” para nossa “viagem” nesta vida. Aliás, como disse o Papa Francisco, nunca se viu, atrás de um cortejo fúnebre, algum caminhão de mudança levando seus pertences. Nós temos a mania de guardar tudo e acumular muito. O medo de passar necessidade nos faz guardar até alimentos demais. Ficam lá na prateleira, até vencer o prazo de validade, para depois jogá-los fora, porque não se pode consumi-los. Esquecemo-nos de imitar os pássaros, que não acumulam nada para o dia seguinte e saem cantando de manhã para encontrar o necessário para o novo dia. Nesse sentido, confiamos pouco na Providência. Jesus, numa ocasião, enviou seus discípulos e disse-lhes que não levassem duas túnicas nem sacolas, nem dinheiro… Ele foram. Nenhum voltou reclamando que passou fome. Pelo contrário, voltaram felizes, contando as proezas que haviam feito. Pensando bem, quanto mais presos ficamos às coisas, menos livres para viver. Não estou sugerindo ser leviano, irresponsável ou despejar sobre os outros aquilo que é de nossa responsabilidade. Estou apenas dizendo que, por vezes, guardamos tranqueiras demais (digo por mim). Quando damos algo que é nosso, libertamo-nos um pouco de nosso egoísmo, experimentamos um pouco de alegria diferente daquela que sentimos quando compramos ou ganhamos uma roupa. É uma alegria mais prazerosa e duradoura. Além de tudo, abate um pouco de nossa “dívida”, porque aquilo que está demais em nossa casa é o que está faltando na vida de alguém. Façamos uma vistoria em nossa casa e vejamos quanto supérfluo há por lá. Coloquemos numa caixa para doação o que não precisamos. Enquanto fazemos isso, podemos também examinar nossa vida que, às vezes, está também cheia de coisas inúteis de outra espécie. Refiro-me aqui a bagulhos que não estão em armários, mas que atrapalham a vida mais livre também. São aqueles que sufocam a alma, o psíquico. Por exemplo, nossas lamúrias, nossos ódios, nossos rancores, nossos vícios, nossa mente poluída, nosso olhar cobiçoso, invejoso, ciumento. Esses adereços não enchem gavetas de armários, mas espaços psíquicos dentro de nós. Isso não é para doação, mas para liberar espaço para uma vida mais sadia. Livrar-se deles também é um alívio não somente para a consciência, mas também para o emocional, que se desgasta com esses “infantilismos” alimentadores de nossas imaturidades e apegos que impedem de viver nossas relações com mais amabilidade e solidariedade. Vamos, então, ao trabalho, vasculhar nossas gavetas e armários, tirando o supérfluo para doação e prescrutar o coração, liberando mais espaço nele para viver a solidariedade e a compaixão em nossas relações fraternas. Continuemos nossa “viagem” com “uma maleta menor”, carregando o indispensável, sem ambições que nos levem a acumular demais e nos cansar da vida antes da hora. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Oração dos tempos utópicos

Ó, Senhor, não permita que eu perca a fé na humanidade.Que meus dons estejam a serviço do bem comum.A Casa Comum, ainda que passageira, seja sustento para a vida de todos.Que cada amanhecer seja pleno de cuidado comigo e com os outros.Que um novo tempo se inaugure todo dia, renovando a face da terra.Nossas mãos sejam expressão inarredável na defesa da dignidade da vida humana.Que sejamos capazes de nos colocar em missão, a serviço da vida.O otimismo, a fé e a esperança não nos deixe cegos diante da dor alheia.A vida em comunidade fortaleça a unidade na diversidade.A beleza e a força da biodiversidade sejam nossa inspiração.Que eu não deseje consumir mais do que o suficiente.Que a forma de produzir não esgote os recursos naturais.Somos UM e, assim sendo, tudo está interligado.Ó, Senhor, que eu tenha a humildade de entender que a vida precisa ser boa para todos.Os problemas socioambientais nos impulsionem a encontrar soluções criativas e sustentáveis.Que o insustentável não permaneça nem seja vitorioso.Que a fé e a ciência nunca desistam uma da outra.Ó Deus, renove nossas forças.Que a justiça reine! Amém! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Quando Deus fala… Onde encontrar os ecos de sua voz?

Nós, cristãos, estamos habituados a refletir sobre o Evangelho e nos referir a ele como Palavra de Deus. O Evangelho é um dos meios privilegiados que temos para discernir sua vontade. Contudo é comum também se dizer que Deus fala pelos “sinais dos tempos”. Em outras palavras, nos acontecimentos do cotidiano. Aqui quero explorar esses “sinais”, tentando vislumbrar “falas” de Deus para nós hoje. No momento, uma questão que se sobressai é a pandemia. Olhando para ela e tudo o que ela tem provocado, podemos acreditar que, por ela, Deus possa estar nos falando. Cabe a nós discernir. Arrisco-me a fazer algumas considerações nessa perspectiva, sem a pretensão de ser porta-voz de Deus, mas apenas apontar para possíveis dicas que Ele esteja dando para nosso mundo. Começo a investigação levantando algumas questões. O fenômeno da pandemia é um fato universal, isto é, atingiu todos os países. O vírus tem uma força tal que todas as bombas atômicas guardadas para guerra e destruição não conseguiriam destruí-lo. A covid-19 não respeita posição social, raça, cor nem idade, embora tenha começado atingindo os mais “velhos”, poupando, no início, as crianças. O vírus tem um poder avassalador. Está mudando, à força, as relações do convívio entre as pessoas, levando à mudança de hábitos no cotidiano. Multiplica-se em novas cepas, pondo em risco a eficiência das vacinas. Está perdurando por um tempo maior do que se conhecia para uma pandemia. Não temos certeza de quando vai acabar. Termina uma onda, surge outra mais forte. Tem afetado não somente a parte econômica em todos os níveis, como também causado sofrimento grande de toda ordem, a começar pelos familiares de acometidos pelo vírus e, de modo especial, para aqueles enlutados. Não permite nem mesmo uma digna despedida dos entes queridos. Tudo tem de ser às pressas, pois há a ameaça do contágio. Impôs um distanciamento entre as pessoas, não permitindo o contato afetivo antes praticado. Abalou o lado psicológico de todos, deixando lastros de insegurança e inquietações, resumidas nas perguntas até quando vai isso? E como será depois? Obrigou-nos a encontrar formas novas de comunicação, de reuniões e de estudos, mesmo que forçadamente. Isso podemos contabilizar como um aprendizado positivo. Nessa perspectiva, poderíamos concordar que há males que vêm para o bem! Depois da pandemia, não seremos mais os mesmos. Com será o novo “normal” ainda não sabemos bem, pois estamos em plena crise. Diante de tudo isso, onde estão as “falas de Deus”? Vamos tentar discernir alguns sinais pictogramáticos escondidos nessas situações ambíguas acima enumeradas. Em primeiro lugar, devo dizer que a pandemia não é obra (iniciativa) de Deus. Alguns poderiam pensar que Ele estivesse enviando a pandemia para nos castigar. O Deus que creio não faria isso, podemos, sim, admitir que Ele possa estar se servindo dela para nos dar um recado. E qual recado? Um deles certamente é um apelo para voltar a sermos mais humanos, mais próximos de seu projeto inicial. O caminho que estávamos (estamos) seguindo, cada vez mais, tornava-nos (ou ainda torna) “máquinas de produção” para gerar lucros. Isso, além de nos estressar ao extremo, vinha (vem) gerando cada vez mais um distanciando entre o “muito para poucos” e as “sobras” para muitos”. Uma divisão injusta e contrária aos desígnios de Deus quando nos deu sua criação para desfrutarmos dela com equidade e sem destruí-la. Deturpamos em demasia os preceitos básicos que indicavam o caminho apontado por Ele em sua Palavra, rumo à felicidade oferecida por Ele e não a de meros momentos “lúdicos e prazerosos”, como muitos definem a felicidade. A maldade, o ódio ultrapassaram os limites da normalidade, afetando as cotas que o coração pode suportar. O descarte de pessoas como coisas inúteis porque não são mais lucrativas. Nossa “torre de Babel”, cada vez mais confusa na construção de vínculos que nos aproximem do projeto de Deus, para nós ligados às verdadeiras origens (somos imagem e semelhança de Deus), apesar dos meios eficientes da era digital que já dominamos. A medida da verdade relativista, feita pelo subjetivismo de cada um, vem negando o espaço para uma verdade objetiva como referência para os julgamentos. Em meio a tudo isso, há os sinais positivos indicando caminhos que nos aproximam do projeto divino, como aqueles demonstrados em tantos gestos de solidariedade e de busca de novos medicamentos para a cura dos doentes, como também na dedicação daqueles que se empenham para salvar vidas e de tantas mudanças havidas na vida de pessoas que se tornaram melhores. Essa realidade ambígua que nos move, pra lá e pra cá, parece nos indicar o que o profeta dizia: “Buscai os caminhos do Senhor enquanto Ele se deixa encontrar” (Isaías 55,6). Discernir as “falas” de Deus nesse meio todo é tarefa para quem crê e desafio também para quem não crê. Continuar vivendo com esperança, sem esmorecer, mesmo que nem tudo esteja claro. De uma coisa estou certo: Deus está no meio de nós e não está indiferente, e nem nos deixando à própria sorte. O Deus que confesso e creio é Senhor do Universo que nasceu de suas mãos e nunca o abandonou. Nosso grito por socorro ecoa em seus ouvidos, e seus ecos de retorno estão, neste tempo de pandemia, ressoando neste meio confuso em que estamos vivendo. É aí que estão as oportunidades de encontrá-lo em nosso hoje. Os sinais que Ele nos dá nem sempre são observáveis com nitidez, talvez estejam nas perguntas novas que nascem em nosso espírito. Fazer-se perguntas novas sobre a situação que estamos vivendo faz parte do discernimento para descobrir as suas “falas”. Então, qual a pergunta nova que a situação suscita em mim, em você? Discernir é ir além daquilo que já sabemos. O eco da fala de Deus pode estar sinalizado pelos questionamentos novos que nos fazemos diante dos sinais que estão presente em nosso mundo de hoje. Atentos a isso, saiamos um pouco de nossos lamentos e procuremos nos meandros de nossa realidade um tanto confusa os ecos da voz de Deus falando para

Bocas famintas

Eu que escrevo, você que me lê, diariamente, temos três ou mais refeições para saciar nosso apetite. Assim acontece com 90% dos brasileiros; somos a maioria! Contudo os outros 10%, segundo noticiários, não têm o que comer. Passam fome. As sobras de nós, os 90%, amenizariam certamente boa parte dos 10%. O Brasil é o maior produtor de alimentos de origem agrícola e de proteína animal. Exportamos milhões de toneladas que rendem milhões de dólares. Pois é, e sobram 20 milhões de pessoas que passam fome! Fico estarrecido diante dessa realidade. E me incomoda que eu faça tão pouco para ajudar a saciar essa gente. Sei que uma ação solitária resolve pouco, embora possa amenizar a fome de algumas pessoas. E as outras? O que dizer para uma mãe que tem três ou quatro filhos e acordar sem ter o que dar de comer para eles? Há gente que se sensibiliza e ajuda como pode, há gente insensível que até critica essas pessoas, dizendo que não trabalham e querem viver às custas do governo. Pode ser até verdade em alguns poucos casos, mas não se aplica à maioria. O pobre é frequentemente pobre em tudo. Não tem escolaridade, vive num ambiente pobre, não tem perspectiva de futuro, vive na esperança de ganhar alguma cesta básica. Não tem qualificação profissional, seu salário é baixo; em muitos casos, nem carteira de trabalho tem. Catam latinhas e plásticos descartados de nossas casas. Tentam sobreviver assim. No meio deles, às vezes, há os malandros que viciam as crianças na droga e, depois, elas se tornam dependentes. Em muitas famílias, muitas delas desestruturadas, reina um ambiente nocivo e frequentemente agressivo; a fome é apenas um dos problemas. Nós, os 90%, acostumamo-nos a esquecer essa realidade ou estamos “vacinados”, já “imunes”, achamos “normal” essa situação. De vez em quando, lamentamos a situação quando vemos casos desesperados de mães que imploram. Passada a comoção, voltamos a nosso cotidiano, tendo boas intensões, desejando que tenham boa sorte. Enquanto nossa mente e coração ficarem presos ao lucro a qualquer preço, ao acúmulo sem medida em nossas mesas, enquanto não recuperarmos a sensibilidade humana para com os humanos, essa situação vai persistir. Para resolver o problema da fome, bastaria distribuir melhor um pouco do que produzimos em alimentos, contudo somente isso não resolve a situação da pobreza. É preciso uma atitude que vá desde nós, que comemos todas as refeições que queremos diariamente, até aqueles que têm a responsabilidade política e administrativa para mudar essa ideologia capitalista que não vê o outro como pessoa, mas apenas como crachá que produz. Como podemos ficar com a consciência tranquila quando vemos que cachorros e gatos são mais bem tratados do que pessoas? Uma cena inusitada diante de um pobre que pede comida e a ração de primeira para o cachorro de estimação. Gasta-se o que for necessário pela ração, mas não tem um troquinho para um pão para o faminto. Ao cachorrinho se dá todo o conforto e carinho; ao pobre, o olhar de desprezo e pede-se que não volte mais a bater à porta. Não estou dizendo que os animais devam ser maltratados, mas que se tivesse com o ser humano um pouco mais de compaixão e solidariedade, que o tratamento ao humano fosse próximo àquele que dispensado aos animais. Quem sabe, assim, a fila das bocas famintas diminuiria um pouco? Na consciência dos “humanos”, os 10% dos brasileiros famintos pesam mais do que os 90% de saciados. Esse escrito é só uma reflexão, constatação! Deus nos ajude e nos mova a alguma ação em favor de pão para as bocas famintas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

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