Páscoa: acontecimento iluminado e sempre novo

Celebramos novamente a Páscoa, nossa principal festa cristã. Celebramos a ressurreição de Cristo. Esse é o fato mais importante da história da humanidade, embora muitos não o reconheçam. Na verdade, trata-se de um mistério de nossa fé. O fato de ser mistério não significa ser incompreensível. Nós conseguimos entender até onde nossa inteligência é capaz e nossa fé alcança. O mistério sempre ultrapassa os horizontes humanos e se insere na esfera do divino. A ressurreição de Jesus é um fato histórico testemunhado não apenas pelos discípulos de Jesus, mas por muita gente; como São Paulo diz, mais de quinhentos. Não somente as aparições do Ressuscitado são testemunhas de sua ressurreição, mas também o que ocorreu depois dela na vida dos apóstolos e de outros seguidores. Prova ainda da ressurreição de Cristo é o fato de ela ter acontecido há mais de 2 mil anos e continuar presente nos corações dos milhões que hoje creem sem ter visto. Não podemos imaginar que tantas pessoas que acreditam na ressurreição sejam tolas ou ignorantes, com mentalidade arcaica. Pelo contrário, há pessoas, desde as mais simples até as mais cultas, que professam a fé na ressurreição e pautam suas vidas por essa verdade. A ressurreição de Cristo trouxe uma esperança de que a vida não termina no cemitério. Sua palavra transmitida pelos evangelhos e cartas dos apóstolos nos falam que “quem com Cristo morre com ele ressuscita”. Nós professamos na oração do creio “Creio na ressurreição da carne…”. Diante disso, faz sentido rezar pelos nossos falecidos, recomendando-os à misericórdia de Deus; caso contrário, seria vã e mesquinha nossa crença e esperança. Quando celebramos a festa da Páscoa a cada ano, não é apenas uma recordação do fato histórico. Celebramos um acontecimento novo que irradia luz nova, renova nossa vida e estimula a vivermos de acordo com o que professamos. Nós costumamos desejar uns aos outros “feliz Páscoa”. Nesse desejo, está implícita a alegria de nos sentirmos salvos pela morte e ressurreição de Cristo. Esse desejo proclama a certeza da vida eterna no ressuscitado. A Páscoa, simbolizada no círio pascal, aceso e presente nos batismos de novos cristãos, lembra-nos de que ela é luz para nossa vida e, em sua luz, somos convidados a ser também luz no mundo. Celebremos a Páscoa com a mente e o coração. A mente que nos faz aceitar o mistério que nela está presente, o coração que nos faz experimentá-la como realidade profunda que preenche nossos espaços íntimos e direciona nosso agir cotidiano. Que tenhamos todos uma “feliz Páscoa” permanente e jubilosa, reacendendo nossa fé e esperança. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Ter compaixão

Ter compaixão é um indicativo para quem tem o desejo de sintonizar-se com outro. A compaixão abre as portas para uma saída em direção ao coração de quem sofre e precisa de solidariedade. A palavra traduz, mais ou menos, o significado de pôr-se na pele do outro e sentir o que sua vida pede quando está em sofrimento. Para tanto, é necessário treinar-se na sensibilidade para perceber o que se passa na vida do outro. Em nós, existem duas tendências: uma de ficar encarcerado em si, pensando apenas nas próprias necessidades, indiferentes ao sofrimento alheio; e a outra tendência que se abre para o convívio solidário com o outro. Jesus viveu a compaixão ao extremo. Ele treinou seus discípulos, muitas vezes, para serem compassivos. Por exemplo, quando eles queriam que Jesus dispersasse a multidão que foi até ele em busca de saúde e alívio dos sofrimentos. Jesus teve compaixão da multidão e disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? Só tinham cinco pães e dois peixes! Era tudo o que tinham de provisão para si próprios. Jesus lhes disse que colocassem à disposição aquela pequena reserva. Multiplicados os pães e os peixes, saciada a multidão e com sobras de sete cestos, a compaixão de Jesus se tornou gesto educativo. Os discípulos estavam no aprendizado de como serem compassivos. A compaixão está associada à misericórdia; ambas se tornam um sinônimo de soerguimento do outro que está fragilizado. A compaixão aproxima, e a misericórdia compreende e salva. É uma fórmula concreta do amor ativo em ação. É uma linguagem compreensível para todos, porque visa, em primeiro lugar, a salvar a vida e a reconhece como dom acima de qualquer outro. Ter compaixão é ser humano, lá onde a dor desumana está presente, debilitando as forças e ameaçando as resistências da sobrevivência. No fundo, todos, em algum momento da vida, precisam da compaixão de alguém. Ninguém se basta a si mesmo. Por isso a compaixão é tão natural que devia estar presente nas ações humanas, sempre! Contudo a experiência nos diz que não é assim. Como explicar que possa haver tanta gente, por exemplo, morrendo de fome? Cadê a compaixão? Se estivesse ativa, isso não aconteceria. Ela deve estar adormecida ou inebriada por outras coisas, deu lugar à indiferença e à insensibilidade, e assim essa força tão humana se torna tão desumana que não vê o outro necessitado, que fica ignorado em sua fome. Todos aprovamos gestos compassivos porque eles mexem com a sensibilidade e nos aproximam uns dos outros, e resgatam em nós o desejo de fraternidade impresso em nossa alma. Nascemos para isso, pena que, frequentemente, adormecemos em relação a ela e ficamos absortos, olhando para o próprio umbigo, desviando o olhar dos que gritam por compaixão. Ter compaixão, eis um exercício altruísta para o Tempo da Quaresma e um treino para sermos mais humanos e solidários. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Querido diário!

Passando aqui, rapidinho, no primeiro dia do ano de 2024, para conversar sobre a vida em 2023. Hora de fazer o balanço das promessas e atitudes, dos desejos e dos planos para esse ano ímpar. Primeiramente agradecer porque 2023 chegou ao fim e virou páginas que desejaríamos apagar. Lembra-se daquela promessa de ir para academia? Até tentei, mas ainda não deu! Aquela minha tia, para quem eu disse que ligaria toda semana, não conheceu meu afeto virtual. Está com Alzheimer e não se lembra mais de mim. Deu para se aproximar de Deus, nas orações diárias, nas presenças na vida comunitária da igreja de meu bairro. As árvores que desejei plantar, ainda não o fiz! Agora não gasto tudo o que ganho. Não comprei tudo o que gostaria e, a cada dia, quero menos coisas. Do bacon ainda não me despedi… Aquele trabalho voluntário até foi retomado, mas não com a disponibilidade que deveria. Respirei fundo e renovei meu olhar todas as vezes em que aquela pessoa que me fazia revirar os olhos chegou perto de mim. Lembra-se de uma amiga que me rondava feito urubu? Eu a tirei de minha vida. Coloquei pontualidade em minha correria. Passei a acordar mais cedo, para conseguir ser gentil no trânsito. Rezo toda noite, todo dia! Estou aprendendo a rezar o terço… Checkup médico em dia! Cada vez menos, eu deixo a pia adormecer com louças sujas. Ainda não aprendi a fazer pão caseiro e a produzi-lo toda semana. Meu coração segue batendo forte sempre que sigo vendo as crianças crescendo com dignidade. Existe vida virtual, mas o abraço presencial foi resgatado com sucesso. A saudade virou motivo de orgulho, pois só a tem quem amou! Ops! Era para eu dar boas-vindas para 2023! E saiba que foi o que eu fiz! Vamos vislumbrar 2023 construindo, a cada dia, a história que desejaremos contar na próxima virada. Que seja um ano de encontros, e que a fé na vida seja renovada, seja lá quantas e quais forem as linhas escritas pelo Criador neste ano que virá! Que nos encontre disponíveis e encantados! (Esse texto contém licença poética e brinca com o tempo! Que venha 2023!) Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

A política da paz é uma decisão.

A violência, a polarização ou mesmo a intolerância que pode ser observada em alguns acontecimentos atuais podem ser vistas como o reflexo exterior de uma desordem interna bem maior. Um dos grandes exemplos está na radicalização da opção política. O foco da opção política foi deslocado do bem comum [1] para a sedimentação cada vez mais refinada daqueles que compartilham das mesmas ideias. As ideias políticas sobrepuseram-se inclusive aos valores religiosos, como foi atestado pelo pregador apostólico, cardeal Raniero Cantalamessa, em 2021 [2]. Os efeitos de uma polarização intensa é a autodestruição dos laços de proximidade (cf. Mateus 12,25), religiosos e familiares, até chegar o momento em que a tolerância perde seu fundamento, pois a diferença sempre é ameaçadora. O Dicionário Online de Português define o verbete “paz” como “Estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de tranquilidade; calma” [3]. Definições como essa podem trazer um risco de entender a paz como fruto de um comportamento passivo, em que qualquer proatividade ou iniciativa pode destruir esse estado de calmaria. A paz pode ser entendida como virtude quando envolve a liberdade, a vontade e a consciência. Portanto, somente opta pela paz quem tem motivos para fazer guerra. Essa compreensão pode ser vista no Cântico do Irmão Sol, no qual Francisco de Assis afirma: “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam (cf. Mateus 6,12) pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados” [4]. A ofensa é o lugar teológico de onde nasce a misericórdia. A proposta não é romantizar as feridas causadas pelas atitudes humanas, mas retomar o fundamento trinitário da paz e do perdão. Ao longo da Sagrada Escritura, Deus teve diversos motivos justos para punir a humanidade, mas sua misericórdia ultrapassou a justiça. O auge da misericórdia está na encarnação, eucaristia e paixão em que Cristo assinala, de forma permanente, a escolha de Deus pela humanidade. A contemplação do Evangelho levou Francisco a dar o seguinte conselho a um superior: “Não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia […]. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, para trazê-lo ao Senhor” [5]. Deus opera, por mediações, o bem que Ele quer [6]. Quando a graça de Deus precisa se submeter ao julgamento humano, o ser humano deixa de ser instrumento do bem para tornar-se alfândega da graça divina [7]. A paz é uma opção dolorida, pois, necessariamente, envolve um processo de perdão (ou autoperdão); é um processo de mudança de mentalidade e, ou, conversão. Referências [1] Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/politica/politica-definicao.htm. Acesso em: 19 dez. 2022. [2] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-04/raniero-cantalamessa-sexta-feira-santa-pregacao-texto-integral.html. Acesso em: 19 dez. 2022. [3] “Paz”. In: Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/paz/. Acesso em: 21 dez. 2022. [4] SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Cântico do Irmão Sol (cnt. 10). In: Fontes franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004. [5] SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Carta a um ministro (mn 9-11). In: Fontes franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004. [6] MORESCO, Kleber; SANTANA, João Henrique. A minoridade como opção pelo seguimento a Cristo. Thaumazein, v. 15, n. 30, p. 98, 2022. [7] PAPA FRANCISCO. Evangelii gaudium (n. 47). Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium_po.pdf. Acesso em: 21 dez. 2022. Frei Kleber Moresco, OFM Cap

Nossa Senhora Aparecida: presença que toca o coração

Doze de outubro é um dia especial para nós, cristãos brasileiros. É a data em que comemoramos a festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Sob esse título, cultuamos e veneramos a Mãe de Deus, Maria. Ela foi a escolhida para ser a Mãe de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador. Por que Deus a escolheu, não nos cabe especular sobre os critérios do Senhor, mas aceitar o mistério de Deus que se revelou na encarnação de Jesus. Nós, no Brasil, veneramos Maria sob o título de Aparecida. Todos sabemos o porquê desse “aparecida”. Ela apareceu sob forma de uma imagem quebrada, pescada no rio Paraíba do Sul. Primeiro o corpo, depois a cabeça. Juntados, tornaram-se o ícone mais importante para o culto mariano no Brasil. Uma pequena imagem que mostrou o rosto de uma “mãe morena” que, no início, tocou o coração dos pescadores e seus familiares, depois foi tocando o coração dos vizinhos e se alastrando, e atraindo mais e mais gente até se tornar a padroeira do Brasil. Que fato extraordinário foi esse que atingiu o Brasil do sul ao norte, do leste ao oeste? A devoção à Aparecida está presente em milhares de igrejas e capitéis dedicados a ela, e em milhões de imagens nas casas de famílias. A presença da imagem nas casas não é um enfeite, mas uma presença “misteriosa” que toca o coração das pessoas. Diante dela, fazem suas orações e práticas piedosas. Maria se torna presente e participante (“membro”) da família que a acolhe. Desperta confiança, proteção e fé. Ela mexe com o íntimo das pessoas que rezam diante dela suas “Ave-Marias”, em que a saúdam com a saudação do Anjo, ao anunciá-la como a agraciada de Deus; bendizem-na como Isabel, agradecida por sua visita; reconhecem-na como Santa Maria e a ela pedem que rogue por eles, agora, por suas necessidades diárias, mas também a querem na hora final, na hora da morte. Maria é esperança, é confiança, é companheira, é mãe, é amor carinhoso. É presença que traz segurança. Nós queremos bem a ela, nós a amamos. Ela é e sempre será nosso modelo de seguidora fiel de seu Filho. Por ela, vamos a ele, e Ele nos confirma que Ela é nossa Mãe: “Filho, eis tua Mãe” (João 19,27)! Ave Maria, cheia de graça… Será sempre nossa padroeira. Rogue por nós e por nosso Brasil, hoje e sempre, Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Amém. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

“Primaverize-se”

Aqui em Minas Gerais, a gente nasce e cresce embalada por esta convicção, escrita por Beto Guedes e Ronaldo Bastos, e cantada por Milton Nascimento: “Tudo que move é sagrado…”. O imperceptível se faz mistério e poesia. Algumas pessoas vivem o divino mistério cotidiano de conviver com pássaros a cantarolar, gatos pelos telhados, frutas no pé, flores no caminho, sol batendo à porta, água limpa da mina, lua iluminando o caminho, comida sem agrotóxicos à mesa, chuva que faz germinar, abelhas, joaninhas, hortas, pomares, criações de animais, compotas, colheitas, plantios, fogão a lenha… Para essas pessoas, a primavera chega sem avisar, sem fazer alarde; devagarzinho, vai dando sinais de que o inverno está indo embora. É um movimento sagrado, como nos canta Milton, esse carioca que se fez mineiro. Na cena urbana, essa cadência de mudança de estação salta aos olhos só de quem se deixa contagiar pelos pequenos sinais espalhados pelo caminho. Flores caídas no chão… Dias mais claros para quem madruga… Ventos e chuva anunciando a mudança da estação… Feito mistério e poesia, brota uma calmaria para os que se deixam abraçar pelos ipês-amarelos, e nosso coração se alegra ao ouvirmos a cantoria dos pássaros. O dom da espiritualidade nos enche de fé, mas a magia da natureza nos aproxima de Deus, do divino. A primavera profetiza, anuncia que é possível renovar a vida, fazer novas moradas, construir ninhos, reproduzir, buscar florescer em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Feito profecia, a primavera anuncia tempos mais amenos e férteis. Primavera também é efervescência, ruptura e transformação ao longo da história. Esta estação que vem nos anunciar que outros verões virão está magistralmente a serviço do que virá, explodindo em cores, sabores, biodiversidade, polinização e fertilidade. É tempo de reconhecer luzes e sombras em nossas vidas, como nos ensina o equinócio da primavera. Tempo de transformar o que precisa ser transformado, de abandonar o que vem nos fazendo mal, de aprofundar raízes, de expandir, de florir, de colorir nossos caminhos. Ande descalço… Nade num rio… Colha frutas… Beba água fresca… Passeie numa praça… Visite um parque… Leve flores para uma pessoa que anda sumida… Plante árvores… Primaverize-se! Em tempo: vote pensando no que queremos (vi)ver no verão que virá! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Abriu… Apenas abrir

Abril e a questão indígena precisam ser ressignificados.Necessário é abrir o debate de forma permanente.Por isso, nada de respostas velhas e absolutas.No Brasil, mais de 200 povos, mais de 200 línguas.Fica o convite para que cada um se abra para repensar.Ofereço provocações em conta-gotas, para refazer perguntas,Estereótipos…Povos indígenas…Diversidade…Riquezas étnicas…Espiritualidades…Demarcação…Violência…Colonização…Rituais…Genocídio…Etnocídio…Racismo histórico…Patrimônio cultural…Terra…Modos de vida…Povos originários…Invasão…Ancestralidade…Que sigamos abertas e atentas aos desafios atuais, sem nos fechar ao debate. Das palavras inspiradoras de lideranças e pensadores dessa questão, uma última provocAÇÃO: se não houver espaço para os povos indígenas, não caberá ninguém. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Movidos a álcool

Eram 6h15min da manhã, e eu já estava correndo para pegar o ônibus. Estava indo, pela primeira vez, a um município vizinho, resolver assuntos de família. Custou a passar, mas o ônibus chegou… Logo reparei uma pessoa dormindo, ocupando duas cadeiras e com marcas de vômito no rosto. Logo atrás de mim, um jovem começou a falar alto: “Joaquim, você não sabe beber! Toda segunda-feira, é isso… Vou lhe ensinar!”. Dito isso, seu colega já retrucou: “Bebendo do jeito que você anda bebendo, não sei o que você vai poder ensinar para ele!”. A viagem era um pouco longa e, conforme mais passageiros subiam, um comentário a mais surgia a respeito da cena que me estranhara. Dessa vez, foi uma senhora de mais idade, que pegou seu terço e pôs-se a rezar. Até que tentou um contato, mas foi em vão. O tal do sr. Joaquim seguia “apagado”. Ele parecia popular por ali. Cada um que chegava tinha algo a lhe falar. Fechei meu livro e segui escutando discretamente o que cada um dizia, visto que o ônibus, àquela hora do dia, era vazio e quase silencioso. A resenha do que eu ouvi é mais ou menos esta: Parecia que o pai, o Joaquinzão, também era dado ao excesso de álcool. Já seu filho mais velho não bebia. Trabalhava no Posto de Saúde, indo de casa em casa e, com sua vivência, ajudando muita gente. Ele sabia que o pai estava doente, precisando se tratar da dependência. A esposa de Joaquim estava, havia seis meses, morando com irmãs na roça. Parecia que, de tanto enfrentar aquela realidade, ela fora descansar de tanta exaustão. Diziam que iria separar-se dele. Levara com ela uma filha de 6 anos. Disseram que aquela situação do sr. Joaquim com o álcool foi acontecendo aos poucos e, quando perceberam, ele já não parava mais de beber. Era beber para acordar, para trabalhar, para dormir, para tudo… O sr. Joaquim já tinha sido muito preocupado com a vida, família, com a comunidade, atuando na associação. Parece que o álcool era um amortecedor, um relaxante para ele aguentar tanta pressão. Um senhor da mesma idade e de uma aparência semelhante disse, em tom de tristeza, que não sabia o que era pior, se era ele dormindo daquele jeito ou criando confusões, quando bebia, perto de casa. Olhando um pouco de longe, já dava para ver sua pele, na altura do olho direito, “roxeando” e ficando inchada. De tudo que escutei, uma frase me chamou muita atenção. Existem frases lidas, escutadas, memorizadas que são mais que palavras, são bússolas, são faróis: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma” (1 Coríntios 6,12). Nem sei se eu alcanço a profundidade, a complexidade e a autonomia que essa citação bíblica nos implica. Fato é que a vida é tomada de decisões, até mesmo quando a gente opta por não decidir. O que me convém? O que lhe convém? O que seria conveniente ao sr. Joaquim? O que está por trás da cena que eu via no ônibus que seguia viagem? Qual a intensidade da condição do uso do álcool do sr. Joaquim para saber o que fazer? Como sobreviver a tantos apelos de consumo de álcool em tantas lives sertanejas e em tantos realities? Cada um de nós tem sempre um “sr. Joaquim” por perto e sabe da tensão permanente que é lidar com tramas, dramas e teias de esperança que cercam essa situação. Estava chegando meu destino. Eu sabia que, no ponto seguinte, que era o final, seria o destino do sr. Joaquim. Desci, mas fiquei acompanhando, de longe, a cena final. E lá foi ele. Desceu cambaleando e foi recebido aos pulos e latidos por um grande cachorro, que fez “festa” por sua chegada e acompanhou o sr. Joaquim no trajeto, fazendo rodeios e pulando de alegria… Segui olhando até os dois sumirem de meu campo de visão. A partir dali, não enxergava mais nada. Aliás, temo que eu já não estava enxergando muito bem desde que vira o sr. Joaquim pela primeira vez. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Simão Cireneu, os enfermos e a gratidão de Deus

Em 11 de fevereiro, comemora-se o Dia Mundial dos Enfermos. É um momento oportuno para refletir sobre o significado da dor para a espiritualidade cristã. Antes, é bom reforçar: nestes nossos tempos, o tabu já não é mais o sexo, mas a morte, a enfermidade, o luto e tudo o que vai contra o mundo cultuador de aparências. Assim, as limitações e finitudes dos outros estarão em bom lugar se afastadas dos olhos dos “sãos”. No contexto cristão, contudo, a dor tem um sentido mais profundo. Diferentemente da sociedade do produzir, na qual o enfermo é tido como um peso, uma “peça defeituosa”, pelo olhar do cristianismo, aquele que sofre tem uma incumbência singular e, ao mesmo tempo, desafiadora. Para entender um dos olhares cristãos sobre a dor, voltemos a uma célebre sexta-feira de quase dois mil anos atrás, em Jerusalém. Depois de passar por um dos julgamentos mais questionáveis da história, Jesus foi condenado a morrer na cruz. Segundo os evangelhos, durante o caminho do Messias ao Calvário, os soldados obrigaram um homem que voltava do campo a carregar o pesado madeiro, pois tinham receio de o Nazareno não ter condições de chegar ao fim do sinistro itinerário. Mesmo forçado, Simão, da cidade de Cirene, ajudou Cristo a cumprir a Via Dolorosa. Talvez por gratidão dos primeiros discípulos, aquele trabalhador teve o nome imortalizado na história da salvação (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26). É possível fazer um paralelo entre o esforço do Cireneu e o dos doentes. Uma interpretação diz que os sofredores em geral, entre eles os enfermos, são associados à cruz de Cristo. Como Simão, que fez uma “caridade” sem querer, quem pena com a dor não escolhe passar por ela, mas forçosamente tem de cumprir essa tarefa. Numa perspectiva de fé, contudo, é reconhecido com amor por Deus, como o foi com o Cireneu. Poderíamos dizer que, nesse ponto de vista, o “dolente” (ou seja, quem sente dor) seria da “tropa de elite” divina, pois participa do sacrifício do Senhor em uma das horas mais importantes. O legítimo discípulo, discípula de Jesus, no entanto, não é conformista com a dor. Já neste mundo, tenta antecipar, com o próprio testemunho, o esperado reinado de Deus. Na lógica da fé, não há dor no Paraíso. Por isso, quem procura seguir os ensinamentos de Jesus não admite sistemas de saúde precários, deficiência na prevenção, negacionismos e o descaso contra os enfermos e os profissionais que deles cuidam. Lutar em favor dos muitos crucificados e crucificadas é a outra forma de o cristianismo ver a dor. Agir “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10) é uma legítima tarefa cristã. O próprio Cristo tinha grande apreço pelos padecentes, e não é difícil achar trechos dos evangelhos em que o Senhor cura, conforta, alivia a dor tanto física quanto espiritual e social. Ele é o próprio exemplo para seus seguidores, seguidoras fazerem multiplicar, desde hoje, a alegria eterna, numa terra sem males (pelo menos os evitáveis), sem se esquecer da dignidade dos que sofrem. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Começar um novo ano

Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDS É sempre bom começar um novo ano, porque concluímos mais um e vamos iniciar outro! Nossa história pessoal fica mais comprida e cheia de novos dias para viver e realizar tarefas, lidar com as coisas cotidianas, envolver-se com pessoas, com negócios, com desafios, com preocupações, com frustrações e com tudo aquilo que pertence à vida. Teremos um mundo diante de nós que nos apresentará atrativos de todo o tipo e maravilhas que encantarão nossos olhos, exigindo que o coração pulse mais forte. Novas perguntas para a inteligência resolver. Caminhos novos, com suas encruzilhadas e retas, com suas subidas e descidas, vão desfilar diante de nós. No novo ano, a vida vai se envolver com afazeres novos e, ao mesmo tempo, continuará lidando com os velhos. Haverá dias com alegrias nunca experimentadas, outros com tristezas, porque morre alguém ou porque se decepciona com algo. Começar um novo ano é retrilhar os caminhos já conhecidos e estar preparados para as surpresas dos outros que aparecerão. Na dinâmica da vida, ela continuará contando com as próprias capacidades para se autossustentar, mantendo também alguma reserva para suportar os insucessos e limitações diante das coisas desconhecidas. Nossas emoções vão nos submeter a novas sensações. Novas experiências vão mexer com nossos brios e nos angustiar por momentos de indecisões. Nossos valores serão postos diante de novos questionamentos, e nossas convicções passarão pela prova da verdade. Nossas crenças serão confrontadas, e mantê-las firmes exigirá convicções profundas e posturas coerentes. Nosso tempo será cronometrado por nossas responsabilidades a serem desempenhadas dentro do campo de atuação de cada um. Nossos amores sofrerão os impactos das reações de nossos sentimentos diante dos apelos que entram por nossos olhos, e o teste da fidelidade exigirá vigilância constante. Nossas canções preferidas serão recantadas, e nossos ouvidos ouvirão novas músicas com seus arranjos ainda desconhecidos. Para começar um novo ano, é preciso munir-se de esperanças fortes e de otimismo, porque ainda não se sabe como será. Nossas intuições nos dizem que será melhor do que o ano findante. O anúncio do ano novo vem com o pipocar de muitos fogos de artifício enfeitando o céu de muitas cores e estrondos diferentes. É uma contagem regressiva, 10, 9… 1, e se começa o ritual de abraços e um tal de desejar um FELIZ ANO NOVO que vai se misturando com sorrisos e brindes, deixando todo mundo alegre. Estamos preparados! Que venha 2022! Nós o esperamos para o primeiro minuto depois da meia-noite e continuaremos com ele até o próximo ano. A VOCÊ QUE LEU ATÉ AQUI, TENHO A DESEJAR-LHE O MEU E RECEBER O SEU FELIZ ANO NOVO! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

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