Das cinzas à vida

Semana Santa. Semana em que os cristãos celebram os últimos acontecimentos em memória da vida de Jesus. Convite ao recolhimento para reflexão e à prática do bem aos mais necessitados.Das cinzas recebidas após o carnaval, na quarta-feira, até a Sexta-Feira da Paixão, todos somos convidados a reviver a semana mais significativa de nossa história cristã. Podemos relacionar as cinzas com a etapa em que se vivem tempos sombrios, nebulosos, cinzentos; período de águas turvas, quando a humanidade vive em meio a choro, lamentações e súplicas, lembrando que do pó viemos e ao pó voltaremos. Nesse sentido, a Semana Santa retrata a angústia, a dor, o sofrimento, o julgamento, o silêncio diante da injustiça humana. Por que será que Jesus teve, mesmo sendo Filho de Deus, de passar por tudo isso? O exemplo serve como ideal de ser humano, que, resiliente, mantém-se sereno. Ademais, durante a Ceia do Senhor, as virtudes presentes são a simplicidade, a amizade, o diálogo, a fidelidade e a humildade, apresentados como ideais a serem seguidos. A reunião eucarística, inaugurada pelo Cristo e celebrada às vésperas da Páscoa, reafirma a fraternidade e o diálogo como compromissos de amor, que têm como objetivo almejar a unidade em meio à diversidade. “A paz é oferecida para todas as pessoas a fim de se construir uma nova humanidade, que não esteja dividida nem orientada pela violência”, conforme afirma o texto-base da Campanha da Fraternidade (item 136; pág. 53). Como está sua prática para a santidade? A busca é apenas durante uma semana? Procure começar já a “lavar os pés” uns dos outros e deixar-se lavar. Purificar seus pensamentos, fortalecer não só sua fé, mas também sua prática no bem. Estamos em tempos mais exigentes de coerências com o ensinamento do Mestre Jesus. Das cinzas pode nascer a vida, de onde uma fagulha pode acender e aquecer muitos corações desanimados. Um simples encontro, como aconteceu na ceia eucarística, pode fortalecer laços de fé, de fraternidade, promover ações afirmativas entre mulheres, jovens, crianças, idosos(as), negros(as) e indígenas, enfim, a todos os homens de boa vontade. Ide e anunciai a Boa-Nova de Jesus! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC e APROFFIB, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC e na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis-SC.

Resta-nos (o) olhar

São muitos pontos de vistas pandêmicos… Eu escolhi um: o olhar. Em meio a tantas restrições, máscaras e distanciamento físico, o olhar nos aproxima. A sutileza da acolhida é percebida no sorriso que o olhar escancara. As preces são elevadas aos céus sob o emissário olhar de fé. O jeito de olhar não nos permite ser indiferentes. O olhar sempre chega antes. A maneira de enxergar pode alcançar o inimaginável. O olhar é uma força generosa que inspira amor e cuidado. A luz que o olhar captura tem a ver com a íris. A luz que o olhar emana dialoga com nossos desejos, concepções e receios. O olhar que se apaga vai ser esperança de vida eterna. É próprio do olhar criar uma imagem invertida que é convertida para a posição correta. Nem tudo o que se vê é o que parece ser. O olhar sempre chega antes. O olhar tem pressa e, às vezes, pode ser apressado. O olhar também pode ter a força de uma metralhadora que fuzila. Pode constranger, condenar e julgar. Um olhar generoso e solidário move pedras e planta flores. Um olhar sábio entende o valor do perdão, mesmo quando não correspondido. Um olhar lúdico se diverte com as cenas espontâneas capturadas. Os olhos lacrimejam e são vertedouros de emoções. A impossibilidade de enxergar de alguns nos ensina a ver de olhos fechados. Moram nos olhos abertos que relutam no silêncio da noite a desesperança e o medo. Os olhos cansados pelo tempo se nutrem de memórias. O descanso merecido tem no olhar sua melhor morada. Que ao abrir os olhos a cada novo dia, nosso olhar esteja impregnado de esperança, disponibilidade, empatia e alteridade. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

2º Domingo do Tempo Comum

“O que estais procurando?”Jo 1,35-42 O autor do Quarto Evangelho organizou o material dos versículos de 1,19-2,12 em um esquema de sete dias, culminando com o primeiro sinal de Jesus (as Bodas de Caná), cuja consequência foi que “os seus discípulos creram nele” (2,11). Assim fez lembrar os sete dias da Criação, pois, com e em Jesus, acontece a nova criação. Mas Jesus não quis agir sozinho e, desde o início, chamou para si um grupo de seguidores. Embora seja mais conhecido o relato dos Sinóticos, que descreve o chamado dos primeiros discípulos à beira do mar de Galileia (Mc 1,16-20), talvez o relato do Quarto Evangelho guarde uma tradição mais histórica, os primeiros discípulos de Jesus eram seguidores de João, o Batista. O texto de hoje relata a vocação dos primeiros discípulos: André, um discípulo anônimo (o Discípulo Amado?) e Simão Pedro. O chamado dos primeiros discípulos nos apresenta um retrato de vocação válido para todos os tempos e todas as pessoas. A primeira pergunta que Jesus fez é fundamental: “O que vocês procuram?”. Essas são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de João. Uma pergunta muito importante para todos nós hoje: o que é que nós procuramos na vida? O que é o mais importante para nós? Onde procuramos nossa felicidade e realização? Não é uma pergunta meramente teórica, é a base de nossa vivência. Essa pergunta nos interroga, como interrogou os primeiros discípulos, sobre a busca que dá sentido à nossa vida. A resposta dos dois, “Mestre, onde moras?”, mostra que eles queriam criar comunhão com Jesus, pois a frase não significa descobrir seu endereço, mas sua proposta de vida. Ele lança a eles um desafio com o convite: “Venham e vejam”. Em João, “ver” tem o sentido de “crer” (Jo 6,40). Não se trata simplesmente de conhecer a moradia dele, mas algo muito mais profundo: descobrir quem é Jesus, descobrir que Ele veio do Pai e volta para o Pai. Ambos escolhem unir suas vidas e seus destinos a Jesus, pois “ficaram com ele”. Não é possível ser discípulo de Jesus sem que demos tempo para ficarmos com ele: na oração, na reflexão, na leitura de sua Palavra. Mas, para que sejamos discípulos, discípulas, não basta conhecer Jesus de uma maneira intimista e individualista. Logo, André procura partilhar sua descoberta, fazendo com que o próprio irmão chegue a conhecer Jesus. Hoje também é fundamental que os cristãos testemunhem Jesus, para que outros possam crer nele; e esse testemunho é dado muito mais por nossa maneira de viver e agir do que com nossas palavras. O terceiro discípulo do texto é Simão, que ganha o novo nome de “Pedro”: mudar o nome de uma pessoa na Bíblia, muitas vezes, significa uma nova identidade, uma nova vocação (Abrão, Jacó, Sarai, etc.). Pedro vai dar muitas cabeçadas antes de descobrir sua verdadeira identidade. Aliás, somente a encontra no fim do Evangelho, no capítulo 21, quando confessa seu amor incondicional por Jesus e pela comunidade, e ouve o convite definitivo do Mestre: “Siga-me”. Pedro simboliza a experiência de todo discípulo. O seguimento de Jesus é uma caminhada de uma vida toda, com muitos erros e desvios. Mas o amor incondicional de Deus é capaz de vencer todas as fraquezas e pecados. Ser discípulo é um aprendizado permanente. Para que façamos essa caminhada, é necessário que sigamos os passos dos primeiros discípulos. Que saibamos com clareza o que procuramos na vida, que busquemos criar comunhão com Jesus e com a sua comunidade, e que gastemos tempo com ele. Assim teremos a alegria imensa de fazer a grande descoberta da vida e, como os discípulos, chegarmos a realmente “crer nele”, não de uma maneira teórica e difusa, mas por uma experiência real do Deus da vida, encarnado em Jesus de Nazaré. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Festa do Batismo do Senhor

“Tu és o meu Filho amado, em ti eu ponho meu bem-querer”Mc 1,7-11 Neste domingo que comemora o batismo de Jesus, mais uma vez, encontramos a figura do Precursor, João Batista, que foi uma das principais personagens das liturgias do Advento. Mas, na leitura de hoje, a ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele: literalmente, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade, como em um cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem, pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda dele, inaugura-se o tempo de salvação esperado por muitas pessoas e grupos (como os essênios) somente para o fim dos tempos. Nesse texto de Marcos, o interesse volta-se menos para o batismo de Jesus como tal e mais para a revelação divina que se lhe seguiu. Sendo batizado por João, Jesus coloca-se dentro da humanidade caída e publicamente assume o compromisso com a vontade do Pai. A frase “Viu os céus rasgarem-se, e o Espírito como uma pomba descer sobre si” enfatiza que Deus intervém para realizar suas promessas (cf. Is 63,19) pelo envio do Espírito Santo. Descendo sobre Jesus, o Espírito o designa como sendo o Salvador prometido e esperado. A voz do Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início de seu ministério público, como seu Filho (cf. Sl 2,7), seu bem-amado, objeto da sua predileção. Um dos sentidos mais importantes de nosso batismo também é nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus. Cada um, cada uma de nós também é verdadeiramente filho, filha do Pai celeste (cf. 1Jo 3,1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode nos separar desse amor divino, nem nossa fraqueza nem o pecado (cf. Rm 8,39). O que é importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder a esse amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (cf. 1Jo 4,10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências: uma vida de fidelidade, que o levaria até a Cruz e a Ressurreição (cf. Fl 2,6-11). Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso de nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. Nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino dele, que “já está no meio de nós” (cf. Mc 1,14). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Vá, 2020

Vá, 2020! Vá e leve com você a dor e o luto dos que ficaram, sentindo a morte de entes queridos e amados… Mas deixe a saudade e nos encha de memórias! Vá, 2020! Leve a insensatez de governantes no poder, mas deixe nossa esperança na boa política! Vá, 2020! Leve o silêncio das escolas vazias, mas deixe as novas possibilidades potentes de aprendizado! Vá, 2020! Leve nossa falta de fé, mas nos deixe plenos de espírito e espiritualidade! Vá, 2020! Leve os dramas vividos em cada família, mas deixe as novas formas de experienciar afetos e conexões! Vá, 2020! Leve o desemprego, mas deixe nossa capacidade de não desistir, jamais! Vá, 2020! Leve as palavras mal ditas, mas deixe um arsenal de motivos para refazer elos desfeitos! Vá, 2020! Leve o peso de relações tóxicas, mas nos deixe acreditando na leveza da humanidade! Vá, 2020! Leve a fome e o racismo… Vá, 2020! Leve os abraços não dados, mas deixe nosso olhar impregnado de acolhida e afeto! Vá, 2020! Leve a correria, mas deixe nossa atitude e compromisso de desacelerar a vida do planeta! Vá, 2020! Leve a solidão de tantos lares e pessoas, mas deixe-nos atentos para sermos presença na vida de tantas pessoas a nosso novo redor! Vá, 2020! Leve as “balas perdidas”, mas deixe nossa indignação e sede por justiça! Vá, 2020! Leve o adoecimento, mas deixe a incansável energia dos profissionais da saúde a nos curar! Vá, 2020! Leve o distanciamento social, mas deixe as novas formas de sermos uns pelos outros! Vá, 2020! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Sou devoto… Sou de voto

Dia 15 de novembro, serão realizadas as eleições municipais em todo o Brasil. Hora de nossa devoção virar voto. Momento de elevar nossas preces para que sejam ouvidas nas urnas. Sou devoto, acredito que podemos melhorar. Sou de voto, penso que, para melhorar, tem-se de escolher, com muito zelo, a candidatura. Sou devoto, acredito na vida em missão. Sou de voto, creio que não pode haver omissão. Sou devoto, acredito que há gente comprometida com o bem comum atuando na política. Sou de voto, consigo enxergar esperança em algumas candidaturas. Sou devoto, acredito na força do coletivo. Sou de voto, desejo uma vida comunitária digna, com garantia de políticas públicas. Sou devoto, acredito no Executivo e no Legislativo. Sou de voto, almejo candidaturas às prefeituras e câmaras municipais que pensem uma cidade inclusiva e de oportunidades. Sou devoto, acredito que religião e política não se misturam. Sou de voto, penso que ser religioso é um atributo que não basta para merecer um mandato. Sou devoto, acredito que uma cidade, para ser boa de se viver, tem de ser boa para todos. Sou de voto, vislumbro parques, escolas, postos de saúde, espetáculos de rua, mobilidade urbana e zelo. Sou devoto, acredito nas coisas miúdas feitas para alcançar o infinito. Sou de voto, porque o infinito, no dia das eleições, vai estar habitando a ponta dos nossos dedos! Seja de voto… Seja devoto! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

“Não tenham medo!” (Mt 10,26-33)

Reflexão do Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum “Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Esse tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia. Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza tanto a mesma coisa quando é para combater um perigo na vida de uma comunidade. Então parece que o medo era um problema para os membros das comunidades mateanas. Medo de quê? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos 16 a 25, Jesus fala das perseguições que seus discípulos terão de enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil (“Entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela autoridade religiosa judaica (“Açoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das próprias famílias (“Irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, esse cenário já era conhecido no meio de suas comunidades. Pois, enquanto nos primeiros anos da Igreja, os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, aceitos pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos seguintes a 85, tudo mudou. Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan ben Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém e dar-lhes uma nova identidade. Para isso, aparecia-lhes necessário insistir na Lei, em sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio” cristão parecia algo que poderia minar esse projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados em sua identidade religiosa, familiar e cultural, e vistos como traidores por sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam, e os judeus-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como então não entrar em crise, ter medo? Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus. Por isso não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado. Hoje, em geral, não somos perseguidos por causa de nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada (na verdade, há mais cristãos perseguidos no mundo hoje do que nos tempos do Império Romano; outra realidade do que a do Brasil). O mundo nosso até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha consequências sociais e econômicas. Mas persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Temos presenciado isso nas ameaças sofridas por líderes nossos, bispos, padres religiosos, religiosas, e leigos e leigas, especialmente no Norte do País. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião dentro do templo, sim, mas ai de quem procura concretizá-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos, etc. Por isso devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências duma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com seu “corpo” (templos, festas, honras, prédios, etc.), mas matando sua “alma” (a prática da opção evangélica pelos oprimidos). O Brasil também tem os seus mártires (e a lista é comprida), que deram a vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários e elites. É sinal duma Igreja viva. Mas não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim soa atual a última advertência do trecho: “Quem me renegar diante dos homens, eu também renegarei diante do meu Pai”. Mas também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “Quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação normalmente não se fazem com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial. Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Sobre respirar…

Na primeira respirada de cada um, choro de vida.Entre a primeira e a última respiração, a vida se faz.O direito à vida pode ser traduzido pelo direito de respirar.Direito de crescer respirando proteção da família e da comunidade.Direito de respirar o ar do conhecimento que sopra nas escolas. Possibilidade permanente de encher os pulmões de ar puro e, para os afortunados, até sentir o Espírito que sopra. Há que se ter um planeta sustentável, com justiça social. Há que se ter justiça social para o planeta se sustentar. O direito de respirar ganha forma, conteúdo, cadência e intensidade.A alguns nem o direito de respirar é assegurado.Entre a primeira e a última respiração, a vida se (des)faz.Nas estatísticas, o direito de respirar ganha cor e contornos inaceitáveis.Nos territórios de vulnerabilidade, a desproteção afeta. Nos tiram o fôlego:a morte súbita, o tiro que cala;a mortalidade precoce da juventude;a violência policial que assassina;o feminicídio;o massacre e da população LGBT+ e da população indígena;1 a infância perdida;negros na mira: a desigualdade na letalidade racial;a fome. Tempos de respiração dolorida.Tempos de respiração protegida em contexto de pandemia. Quando você estiver usando máscaras para se proteger e proteger a vida em comunidade, e sentir falta de ar, lembre:esta é a única falta de ar que salva vidas!Use máscaras e vamos seguir desmascarando essa falta de cidadaniAR. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. _______ Referências_________________________________[1] LGBTI+ é a sigla para “lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros e intersexuais”. Doravante incluiremos ainda o “+”, utilizado pelo movimento gay para fazer alusão à visibilidade de casos de assassinatos de heterossexuais sob motivações homofóbicas, tendo sido a vítima confundida com gays ou lésbicas. https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/

O encontro que rompeu minhas correntes (Lc 13,10-17)

A narrativa do encontro entre Jesus e a mulher encurvada se insere na sequência das curas realizadas por Jesus, em dia de sábado. Porém as narrativas trazem suas próprias peculiaridades. Neste pequeno escrito, nós nos deteremos especificamente nas características particulares do episódio da mulher encurvada. “Ora, Ele estava ensinando numa das sinagogas em dia de sábado. E eis que se encontrava lá uma mulher possuída, havia dezoito anos, por um espírito que a tornara enferma; estava inteiramente encurvada e não podia, de modo algum, endireitar-se. Vendo-a, Jesus a chamou e disse ‘Mulher estás livre de tua doença’” (vv. 10-12). É interessante percebermos a estrutura da narração, pois detalha cuidadosamente o contexto e as condições em que se encontrava a mulher à qual Jesus se dirige. Ela estava possuída havia dezoito anos. O número é simbólico e indica muito tempo. É possível, portanto, que ela estivesse por quase toda sua vida sofrendo desse mal. Aliás, ela estava “inteiramente encurvada”. No Antigo Testamento, o estar encurvado é considerado como uma atitude de humilhação (cf. Gn 4,5-6; Sl 57,7). Mas também encontramos vários textos nos quais o mesmo Deus se ocupa dos cegos, dos encurvados, das viúvas e dos órfãos (cf. Sl 146). Deus tem o poder de erguer o ser humano da prostração: “Mulher, estás livre de tua doença”. Entretanto, Ele conta conosco para romper as correntes e libertar da opressão cultural, social e religiosa. Não é por acaso que Jesus exerça sua atividade libertadora justamente no dia do shabbát (sábado). Jesus segue a tradição profética e lembra ao povo de Israel e a nós que o mandamento da assistência vem antes do mandamento do sábado. Salvar e promover a vida tem prioridade sobre a observância (cf. Mc 3,4). Quando queremos controlar e resguardar, acima da vida, as “leis”, caímos na total desumanização. Consequentemente teremos sociedades doentes e encurvadas. Nesse quadro, a degradação do ser humano se reforça. O exemplo claro é a sobre-exploração da vida em todas as suas formas: mortes violentas; fome massiva; deslocamentos forçados; o aquecimento global causando mudanças climáticas que ameaçam a existência de toda a humanidade. E o mais grave é que, diante desse cenário, os acordos comerciais têm prioridade em relação à vida. No entanto, Deus não nos abandona, segue confiando em nós. Ele, em seu Filho Jesus, aproxima-nos, olha-nos com compaixão e nos atrai, endireitando-nos. A mulher estava possuída por um espírito que a tornava enferma. Ou seja, há uma causa da decomposição, e é fundamental reconhecê-la. Observemos que Jesus é quem toma a iniciativa. Ele vê a mulher, a chama e, com sua palavra e seu toque, a cura. A palavra “chamou-a” é usada somente quando Jesus chama os discípulos (cf. Lc 6,13). Será que Jesus a chama como discípula? Mesmo a imposição das mãos, por parte Jesus, é crucial no texto, pois, mais do que um toque de cura, trata-se de um gesto simbólico. Lucas, no Evangelho, somente narra outra imposição em 4,40. Isso reforça a peculiaridade da imposição de mãos além do sanar. Na obra lucana, esse gesto é feito ao se eleger alguém para um cargo (At 6,5-6; 9,10-18). Será que a imposição de mãos na mulher significa que ela foi eleita? A mulher reage, louvando e glorificando a Deus. O verbo (louvar-glorificar) está em gerúndio, o que remete a uma atuação duradoura. Isso significa que a mulher não apenas expressou um breve louvor pela maravilha recebida, mas, com toda a sua vida, glorificava-servia a Deus na comunidade. Além do mais, seguindo as narrativas de Lucas, percebemos que ele usa elementos estilísticos dos duplicados. Portanto o episódio em questão encontra seu paralelo na cura do homem da mão atrofiada (Lc 6,6-11). Conclui-se que o duplicado “homem-mulher” traz a intenção de realçar a igualdade que mulheres e homens têm no Reino de Deus. O evangelista também nos chama a atenção para as reações dos personagens. A mulher reagiu, louvando a Deus por sua vida, por sua Palavra e por suas ações. A fé que demonstra é exemplar e, por isso, mostra-se como verdadeira filha de Abraão. Os dirigentes religiosos reagem aborrecidos. O povo dos “filhos de Abraão” se mostra cheio de assombro por ver realizarem-se as maravilhas de Deus no meio dele. Com a mulher e seu povo, reconheçamos que a salvação de Deus não está condicionada a atos pessoais. Nem a Lei ou o pecado podem coagir sua ação libertadora. Ergamo-nos! Pois o Reino de Deus já está no meio de nós, eis nossa alegria!   Irmã Juana OrtegaMissionária serva do Espírito Santo, teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na animação vocacional.

Convite pascal

Nesta Páscoa, que a menor faísca de fé que nos habita seja fagulha suficiente para fazer arder em nós o fogo da solidariedade, o ardor da construção de um mundo fraterno. Veja a reflexão de Maria José Brant (Deka), celebrando a principal festa cristã!

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