Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

“Você é bendita entre as mulheres”Lucas 1,39-56 Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e ao nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo de sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, mesmo que haja também continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista, e tem seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus.  Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada, deu o que era para dar. Seus símbolos são Isabel, estéril e idosa; Zacarias, sacerdote que duvida do anúncio do anjo; e o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a jovem virgem de Nazaré, que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza esse contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo (Lucas 2,25-38), especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2,29).  Por isso não devemos reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar de sua parenta idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse essa, não teria colocado o versículo 56, que a mostra deixando Isabel antes do nascimento de João: “Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”. É só depois que Lucas trata do nascimento de João. Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos 14 anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galileia à Judeia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus por sua ação nas suas vidas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro, Maria, José e Jesus. O fato de que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no ventre dela, na tradução da Septuaginta de Gênesis 25,22. O contexto, especialmente o versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João: é porque Maria está carregando o Senhor. As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (vers. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo: Jael (Juízes 5,24) e Judite (Judite 13,18). Aqui Isabel louva a Maria que traz em seu ventre o libertador definitivo de seu povo. Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (vers. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita em primeiro lugar, não por sua maternidade, mas pela fé; em contraste com Zacarias, que duvidou. Aqui Maria é principalmente modelo de fé. Podemos também acrescentar que, nesse primeiro capítulo, encontramos as frases da primeira parte da oração da Ave-Maria: “Ave, Maria” (1,28); “Cheia de graça” (1,28); “O Senhor é convosco” (1,28); “Bendita sois vós entre as mulheres” (1,42); “Bendito o fruto do vosso ventre” (1,42). Juntos com Isabel, saibamos honrar Maria, a mãe do Senhor, modelo de fé para todos nós!  Mas a fé de Maria (como, aliás, sempre é na Bíblia) não foi uma adesão somente intelectual a Deus. Era o assumir do projeto de Deus (justiça, libertação, solidariedade e salvação integral). Por isso Lucas põe na boca de Maria o grande Cântico do Magnificat, atualizando o Canto de Ana (1 Samuel 2,1-10), cantando a grandeza de nosso Deus, que se põe ao lado dos humilhados e sofridos, e derruba os poderosos e prepotentes! O texto de hoje nos lembra que Maria era uma mulher lutadora, totalmente comprometida com o projeto de Deus para um mundo fraterno. Se Ela estivesse entre nós hoje, sem dúvida (como também Jesus), estaria nos movimentos e pastorais sociais, lutando pela vida digna de todos e celebrando com os irmãos e irmãs a fé no Deus de justiça, libertação e salvação. Dia das Vocações à Vida ConsagradaHoje também é o Dia da Vida Consagrada, na diversidade de suas formas: vida religiosa apostólica, vida contemplativa e monástica, institutos seculares, leigos e leigas consagrados, etc. A vida consagrada, assim entendida, baseia-se numa experiência profunda de Deus, vivida em comunidade, no seguimento de Jesus que era pobre, casto e obediente. Essa experiência leva a um engajamento, dentro do carisma próprio do cada grupo, na continuidade da missão do Mestre, na paixão pelo Reino. Rezemos pelos consagrados e consagradas para que firmem cada vez mais os elementos essenciais da sua vocação específica. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

19º Domingo do Tempo Comum

“Quem come deste pão viverá para sempre”João 6,41-51  Nesse texto, nós nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”. O gancho que João usa para pendurar a fala é o pedido dos judeus no versículo 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Em resposta, Jesus começa sua grande alocução. Divide-se em duas partes. Na primeira (vers. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o tema sapiencial); na segunda parte (vers. 51-58), será a Eucaristia (tema sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do céu” com o material eucarístico da Última Ceia, e assim formou a segunda parte do discurso como texto paralelo à primeira. Isso explica a ausência de um relato da instituição da Eucaristia nos textos da Ceia em João, pois seu conteúdo básico foi colocado aqui. Como seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus mandava (o maná), agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo aparece uma característica do João, a ironia. Os judeus (aqui se entendem as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem a origem de Jesus, pois só pensam em sua família de origem. Jesus mostra que, na verdade, não a conhecem, pois eles não viram o Pai, sua verdadeira origem. Aqui também aparece, no versículo 47, mais uma característica joanina, a “escatologia realizada”. Enquanto, para os Sinóticos, o juízo é algo que se dá no último dia, para João, frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada já, por sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus. Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da Eucaristia: “O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (vers. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado sua carne como alimento da vida eterna. O texto não é fácil, pois é extraído de um discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas está ligado, no capítulo 6, à multiplicação dos pães. A participação eucarística no Corpo e Sangue de Jesus exige uma vivência de partilha e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado em sua Primeira Carta. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

18º Domingo do Tempo Comum

“Eu Sou o Pão da Vida”João 6,24-35 Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto capítulo de João. Esse capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o tema central versa sobre Jesus como “O pão da vida”. No Antigo Testamento, muitas vezes, o termo “pão” é usado como símbolo da Palavra de Deus; por exemplo, em Isaías (55,10-11); Amós (8,11-12) fala de fome, mas não fome de pão nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de Deus; A Sabedoria convida os simples a comerem de seu pão e beberem de seu vinho (Provérbios 9,5); Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água de sabedoria (Eclesiástico 15,4). Até o maná no deserto chegou a ser usado como símbolo da Torá ou Lei (Deuteronômio 8,2-3). Podemos ligar essas ideias com capítulo 6 de João. Divisão do capítulo:  1-15: multiplicação e partilha dos pães; 16-21: Jesus anda sobre as águas; 22-24: situa o discurso;  25-29: introdução ao discurso; 30-40: discurso; 30-34: 1ª parte;  35-40: 2ª parte;  41-51: 2ª parte; 52-58: 3ª parte; 50: aparte; 60-61: reação e opção dos discípulos. O início do relato deixa claro que a multidão reconhece o poder de Jesus, mas é incapaz de entrar mais profundamente no sentido de seus sinais. Lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre” para as sete ações principais de Jesus (água transformada em vinho, em 2,1-12; a cura do filho do funcionário real, em 4,46-54; a cura de um paralítico na piscina, em 5,1-18; a partilha dos pães, em 6,1-15; o caminhar sobre as águas, em 6,16-21; a cura do cego de nascença, em 9,1-41; e a ressurreição de Lázaro, em 11,1-44), mas “sinais”, embora haja ainda edições da Bíblia que traduzem erradamente o termo. Com certeza, são “milagres”, mas João quer enfatizar o fato de serem sinais, ou seja, que devemos aprofundar o que eles querem nos ensinar sobre a identidade e missão de Jesus. O povo busca as vantagens imediatas que pode receber de Jesus, corre atrás dos milagres, mas não entende o sentido do sinal que cada milagre mostra. Jesus insiste que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras dele como sinais que demonstram uma verdade mais profunda, que Ele é o alimento que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu, e os sinais que Jesus opera garantem sua origem e sua missão. Ele quer que creiam e recebam o que Deus lhes oferece nele. A turba quer saber de um sinal para que possa “ver” e “crer” em Jesus. Mas, na visão de João, o “ver” real é conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não parar somente nos sinais externos. No fundo, a multidão quer que Jesus confirme suas expectativas messiânicas, realizando milagres, e não entende a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas. Os próprios judeus começam a falar da história do maná no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo maná do céu, insistindo que o verdadeiro pão da vida é dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”, não “deu”, e que o pão que o Pai dá é aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão da vida” porque crer nele é participar da verdadeira vida. Nesse trecho, encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou”, o que soava aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êxodo 3,14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato de que a verdadeira vida só se acha nele. Hoje esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos os limites de uma religião superficial e para que nos mergulhemos no mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários, apaixonados por ele e por seu projeto, o projeto daquele que veio para que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

17º Domingo do Tempo Comum

“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”João 6,1-15 A liturgia de hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere um trecho tirado do capítulo sexto de João, o que comumente chamamos o milagre da “multiplicação dos pães”. Logo, vale lembrar que esse é o único milagre contado pelos quatro evangelhos, tanto pela tradição sinótica como da comunidade do Discípulo Amado. Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs de diversas tradições, a história hoje relatada tinha um grande valor e uma mensagem muito importante. Os quatro relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências próprias a cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental” ou “eucarístico” é de João, mostrando, mais uma vez, uma das características da comunidade do Discípulo Amado: a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida. Embora seja um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar um elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos refiramos ao milagre da “multiplicação dos pães”, em nenhum dos quatro relatos, usa-se o verbo “multiplicar”. Usam-se outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”, “benzer”, “distribuir”, “partilhar”. Não é o caso de discutir aqui o que foi que Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque é outro. Se os evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o “multiplicar”, ou seja, sobre o estritamente milagroso, então a história não teria grandes consequências para nós hoje, pois nós não temos o poder de fazer milagres. Mas, colocando a ênfase sobre o “partilhar” e o “distribuir”, os evangelistas nos desafiam hoje. Pois as ações de partilhar e distribuir estão a nosso alcance. No Brasil, com tanta gente assolada pela injustiça e miséria, não precisamos multiplicar nada. O Brasil não precisa multiplicar terras (somos um dos maiores países do mundo) nem precisa multiplicar a renda (somos uma das maiores potências econômicas do mundo). Não! O que precisamos é de uma partilha e uma redistribuição das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de mentalidade, de coração e das estruturas, e não milagres paliativos. A história de João e dos outros evangelistas insiste que a solução para a carência se acha na solidariedade, na partilha e na redistribuição, a partir de nossa fé no Deus da Vida. Outro elemento importante no relato joanino do evento é a atuação do menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, era seu lanche. Mesmo sendo suficiente somente para ele, o jovem dispõe dos pães e peixes, por meio de André. Esse gesto de partilha, abençoado por Jesus, faz com que todos se fartem. O relato ressalta que foram pães de cevada, a comida do pobre. Também aqui há uma releitura de um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou” pães de cevada (2 Reis 4,42-44). Sem a colaboração desse rapaz simples, oferecendo o pouco que tinha, Jesus não poderia ter alimentado essas pessoas. Assim, o texto nos desafia a descobrirmos quais são os “cinco pães de cevada” que cada um tem e a colocá-los a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que têm, sobrará. Quando cada um que tem algo o segura para si, falta para muitos. Já mencionamos que João, colocando o relato no capítulo sexto, no qual há o discurso do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico. Participar da Eucaristia é comprometermo-nos com o mundo de solidariedade e partilha, onde os bens materiais (mais do que suficientes) serão distribuídos e partilhados, criando, assim, de uma maneira real entre nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de comunhão, “Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da “multiplicação” dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências da nossa participação na Eucaristia. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

16º Domingo do Tempo Comum

“Jesus teve compaixão”Marcos 6,30-34 Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um tema muito central: o da “compaixão” de Jesus. Os evangelhos todos (especialmente Lucas) enfatizam esse aspecto da pessoa e missão de Jesus. Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus: de ter compaixão por todos os que sofrem. Os versículos de hoje demonstram esse traço de Jesus em seu relacionamento com os discípulos e com as multidões. Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão, a primeira reação do Mestre é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer as forças. Jesus tem critérios que não correspondem ao grande critério da nossa sociedade: o da eficácia. Para Ele, os apóstolos não eram máquinas, mas pessoas humanas que necessitavam de serem tratadas como tal. O trabalho (mesmo o trabalho missionário) não é o absoluto. Jesus reconhece a necessidade de um equilíbrio entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição para muitos cristãos engajados hoje: embora precisemos nos dedicar ao máximo pelo apostolado, não devemos descuidar de nossas vidas particulares, do cultivo de valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo com os outros, especialmente no seio da família. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco tempo, meras máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao mundo o rosto compassivo do Pai. Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido. Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes político-religiosos de então que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se retirava, o povo ia atrás dele. O que atraía tanta gente? Com certeza, não foi em primeiro lugar a doutrina nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão, de demonstrar concretamente o amor compassivo de Deus. Jesus não teve “pena” do povo, não teve “dó” dos sofridos. Teve “compaixão”. Literalmente, entrava no sofrimento deles e tinha uma empatia pelos sofredores, que se transformava numa solidariedade afetiva e efetiva. Esse traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores da compaixão do Pai. Não é sem motivo que o Papa Francisco nunca se cansa de enfatizar a misericórdia e a compaixão, pois a fidelidade ao Mestre exige isso. Infelizmente, a frieza humana frequentemente marca nossas atitudes, pregações e cuidado pastoral. Em um mundo que exclui, que marginaliza e que só valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões, hoje, como 2 mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

15º Domingo do Tempo Comum

“Dava-lhes poder sobre os espíritos maus”Marcos 6,7-13 Esses versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos (6,6b-8,21) à qual podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus. Nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa. O primeiro elemento é que a missão de Jesus, a de construir o Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está em nosso batismo. Todos somos discípulos-missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos, é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente e variar, mas a missão é fundamentalmente igual. Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é comunitária. Não existe um cristianismo individualista. Nossa fé tem consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum em nosso mundo de competitividade e Pós-Modernidade. Jesus lhes dava poder sobre os espíritos imundos. Claro, aqui se expressa uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam tudo o que pudesse se opor ao Reino. Tudo aquilo cujos valores fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje, muitos interpretam essas palavras ao pé da letra e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos (mas sempre no nível intimista e individual). Devemos nos perguntar: quais os espíritos imundos em nós, em nossas comunidades, em nossa sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo o que se opõe à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade, de exclusão, que é característica de nossa sociedade neoliberal, nossa sociedade de morte. O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com suas estruturas. Nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos no esforço da criação de um mundo novo, diferente, pela utopia de Jesus. Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham de se libertar do espírito de acúmulo: não levar coisas, como sinal da chegada do Reino. Em nosso caso, teríamos de examinar se, mesmo sem notar, não estamos vivendo o espírito de consumismo e materialismo, e acumulação e supérfluo, que marca a ideologia na sociedade hoje. Jesus os adverte que nem todos iriam acolher sua mensagem, pois a mensagem de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na sociedade. Vale para nossos tempos: uma Igreja comprometida com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes deste mundo. Quando somos bem-aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos nossa voz profética. A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e não acomodados. Que alegria celebrar a beatificação de Dom Oscar Romero e testemunhar o início dos processos de beatificação de Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida, arautos e testemunhas da vida que Deus almeja! Nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” de nossa vida. Minha vida, a de minha comunidade se resumem na vivência interna das estruturas da Igreja ou nos levam a ser testemunha no meio da sociedade, profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos de que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários, missionárias, continuadores da missão de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos

“E vocês, quem dizem que eu sou?”(Mateus 16,13-20) O texto é a versão mateana da profissão de fé de Pedro, que Marcos (8,27-35) coloca como pivô de todo o seu Evangelho. O trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo, discípula dele? São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira de meu seguimento dele. Depois de Jesus interrogar duas vezes os discípulos, o texto de Mateus acrescenta os versículos 17 a 19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por conseguinte, dos líderes de sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que, nos Evangelhos, somente aqui e no capítulo 18, é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se referem aqui ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos. O fundamento, o alicerce, a pedra fundamental dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “quem é Jesus?” e “o que significa segui-lo?”, pois os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude aparentemente estranha: “Ele ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias!”. Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele! Como é que ele espera atrair discípulos desse jeito? O assunto merece mais atenção.Realmente Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender esse termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias”, para ele, é ser o “Servo do Senhor”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas e econômicas, enfim, com a classe dominante de seu tempo, e não o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então. Pedro teve de aprender essa exigência do discipulado, de uma maneira lenta e dolorosa, passando até pela negação de Jesus na noite de sua prisão. Aprendeu tão bem que chegou a dar a sua vida como mártir, também morrendo, conforme a tradição, em uma cruz, no Circo de Nero, em Roma, onde atualmente se localiza a Basílica que traz o seu nome. Aprendeu, a duras penas, ser discípulo de verdade e cumprir a missão que recebeu de Jesus na Última Ceia: “Eu rezei por você, para que a sua fé não desfaleça. E você, quando tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos”(Lucas 22,32). Aqui temos o essencial do ministério petrino, continuado no Papa: confirmar e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs. A Igreja sempre deve zelar que acréscimos históricos, mais adequados a monarcas do que a discípulos, não escondam essa missão essencial. Hoje, de maneira especial, devemos rezar por nosso querido Papa Francisco, que continua essa missão petrina, testemunhando à Igreja e ao mundo a misericórdia de Deus, e a missão da Igreja de ser também uma Igreja Serva, seguindo o exemplo do Mestre. Por isso, como o próprio Senhor, ele enfrenta grave oposição dentro e fora da comunidade eclesial, quando desafia todos a seguirem o exemplo de Jesus e doarem a vida em favor de um mundo fraterno e justo. Os detentores do “poder-dominação” nunca aceitam uma visão do “poder-serviço” que Jesus pregou e que o Papa Francisco encarna. Paulo, que, durante os seus primeiros anos da vida adulta, perseguia os discípulos, também teve a graça da conversão, chegando a afirmar que não queria saber nada a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1 Coríntios 1,2). Ele também pagou com a vida essa decisão pelo discipulado. Em nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus light, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia para que clarifiquemos em que Jesus acreditamos. O Jesus quebra-galho, que existe para resolver os meus problemas pessoais, tão propagado por setores da mídia e por diversos movimentos e pregadores, ou o Jesus bíblico, o Servo do Senhor, que veio para dar a vida em favor de todos? Como sucessor de Pedro, o Papa Francisco nos demonstra, em palavras e gestos, que seguir Jesus exige opções reais em favor dos que mais sofrem. Que a celebração de hoje não seja de um triunfalismo sectário anacrônico, mas de uma renovação do nosso compromisso como discípulos-missionários de Jesus de Nazaré, ao exemplo de Pedro e Paulo. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

13º Domingo do Tempo Comum

“Menina, levanta-te!”Marcos 5,21-43 O Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum faz parte de uma sequência de narrativas de Marcos, iniciada com a passagem da tempestade acalmada (Marcos 4,35-41), depois com a libertação do “Possesso de Gerasa” (5,1-20), encerrando-se com dois episódios: a cura da hemorroíssa e o “reerguimento” da filha de Jairo (5,21-43), estes focados pela liturgia deste domingo. Nessa sequência, dá-se destaque à importância da fé, ao resgate da dignidade humana, à vitória da vida. A passagem começa com o clássico “Jesus passou, numa barca, para a outra margem”. Ainda na praia, Jairo, chefe da sinagoga, cai aos pés do Senhor e implora socorro para a filhinha, que “estava nas últimas”. Jesus sai do meio da multidão, esta certamente também carregada de súplicas, e se dirige à casa da menina. A narrativa é interrompida, deixando em suspense o desfecho do socorro à jovem. De súbito, passa-se a descrever o drama da mulher que sofria de hemorragia (vers. 25 a 34). Para a maioria dos exegetas esse excerto parece ser de outra fonte, pois o estilo textual é um pouco diferente do costumeiro em Marcos. Mas é admirável a ligação entre os dois eventos. Fazia doze anos que a mulher sofria com um sangramento. Isso a tornava “impura”, conforme as leis do tempo. Devido à doença, ela não podia participar dos ofícios religiosos e era impedida de ter relações sexuais, não lhe permitindo, assim, ficar grávida. Ademais, a “impureza” a afastava da vida comunitária, visto que não poderia tocar ninguém nem ser tocada, pois “contaminaria” outra pessoa. Mesmo financeiramente, ela estava arruinada, pois havia gastado em vão suas economias com os médicos.Como é costumeiro nos Evangelhos, as curas realizadas por Jesus ultrapassam em muito o aspecto físico. O Senhor devolve ao ser humano não apenas a saúde, mas a dignidade, eliminando o que marginaliza. Um ponto curioso: tanto a mulher quanto Jesus transgridem as leis. Ela se aproxima dele, no meio da multidão, e lhe toca o manto. Ele se deixa tocar e busca, inclusive, saber quem lhe tinha “roubado” um pouco da força. Não à toa, a mulher, embora já curada, apresenta-se “cheia de medo e tremendo”, pois poderia ser punida se fosse aplicada a lei. A frase de Jesus, “Filha a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença” (vers. 34) tem profundo significado. Cristo, como em outras vezes, devolve à Lei o verdadeiro sentido: o amor. E mais: o verbo sesoken pode ser traduzido como “curou” ou “salvou”. O termo aparece mais adiante, também em Marcos (10,46-52), no fim passagem da cura do cego Bartimeu, quando o Senhor diz o mesmo: “Vai, tua fé te salvou”. No versículo 35, volta-se à cena da filha de Jairo. A narrativa retoma no pior contexto possível. Alguém da casa chega e informa que a menina havia morrido. Jesus, contudo, reforça a importância de se ter fé. Aqui reaparece o número doze, desta vez como a idade da adolescente. Tanto a menina quanto a hemorroíssa estavam à sombra da morte. A primeira, por morrer no início de sua maturação como mulher, não podendo se casar; a segunda, por doze anos ser socialmente excluída, devido à enfermidade. Nenhuma delas poderia gerar vida, o que era uma “maldição” para o costume daquele tempo. Jesus é o Senhor da Vida, por isso Ele toma a menina pela mão e a convoca a levantar-se. O verbo egeirein (“levantar-se”) é muito usado no Novo Testamento para expressar a ressurreição de Cristo. No versículo 42, usa-se a palavra anestē, a mesma empregada para designar a ressurreição. Sempre é bom reforçar: os Evangelhos não são livros de reportagem, mas fontes de catequese a ecoar os ensinamentos e a missão de Jesus. Neste caso, poderíamos dizer que os dois episódios são uma catequese pascal, mostrando a vitória da vida sobre a morte. A súplica de Jairo em favor da filhinha, “que ela sare (seja salva) e viva”, resume o projeto do Filho de Deus. Ele nos ergue, tirando-nos de diversas formas de morte. Nos passos de Cristo, tenhamos uma fé robusta, que cura, salva, resgata para a vida os mais necessitados e excluídos. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.

12º Domingo do Tempo Comum

“Quem é este homem?”Marcos 4,35-41 Esse texto está situado na primeira parte do Evangelho, na qual Marcos procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e seus discípulos não o compreendiam, apesar de verem suas obras e milagres (Marcos 1,19-8,21). Toda essa primeira parte do Evangelho prepara o chão para a pergunta fundamental do Evangelho: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Por isso a história hoje relatada leva os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”. A história do evento no mar de Galileia retrata simbolicamente a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o Evangelho foi escrito. A comunidade está vacilando na fé, assolada por dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e, mesmo assim, não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta do Senhor. O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como consequência, vacilavam na sua fé. Mas Jesus acalmou o mar e ainda questionou a pouca fé dos Doze: “Por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?” (versículo 3). Assim Marcos quis mostrar aos leitores de seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando. Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana ou ainda como o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição de sua influência, para muitos, a Igreja está se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam em uma religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós. Até diante da pessoa e da mensagem do Papa Francisco, muitos simpatizam com ele como pessoa, mas permanecem surdos a seus apelos em favor de um seguimento autêntico do Salvador. Marcos vem corrigir essa ideologia triunfalista de suas comunidades e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos e para o mundo “quem é este homem”, e a segui-lo no dia a dia. Pois Jesus não está alheio às nossas dificuldades. Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé nele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar nossa cruz e segui-lo, na certeza de que Ele não nos abandonará. Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

11º Domingo do Tempo Comum

“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”Marcos 4,26-34 O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos Evangelhos: “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos. Existe um consenso entre os estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, de que há dois termos nos textos evangélicos que provêm do próprio Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades, ou seja, “Reino” e “Abbá”. Estamos tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da pregação que esquecemos que Ele não pregou a si mesmo, mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus como o “Reino dos Céus”, para evitar o uso do nome de Deus). Toda a vida de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que Ele nunca o define, pois é uma realidade dinâmica, mas que Ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes e que os leva a tirar as próprias conclusões (de fato, por várias vezes, temos a explicação de uma parábola nos evangelhos, mas esta nasceu da catequese da comunidade e não teria feito parte da parábola original). O capítulo 13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a natureza do Reino (ou Reinado) de Deus. No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam apressar sua chegada; os fariseus mediante a observância da Lei, os essênios pela pureza ritual, os zelotes por meio de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível, nem preciso, tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele tem uma dinâmica interna de crescimento própria. Como a semente semeada cresce independentemente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade. Assim o texto nos mostra o que Paulo vai ensinar de uma maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros missionários e missionárias, afirma: “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (1Cor 3,6). Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que relembremos que é importante começar com ações pequenas e singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes. Essa parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa. Nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade de semear o Reinado de Deus, ou seja, criar situações nas quais realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não por nosso esforço, mas pela graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que abriga muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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