30º Domingo do Tempo Comum

“E seguia Jesus pelo caminho”Marcos 10,46-52 Estamos no fim da caminhada de Jesus, de Cesareia de Felipe até sua morte e ressurreição, em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre de Jesus que ele relata: a cura do cego Bartimeu. O texto começa com um senso de urgência: chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que Jesus tem pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho. Enquanto Jesus está “a caminho” com os discípulos, o cego está à beira do caminho, sentado. Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado e estão parados, à beira do caminho do seguimento de Jesus. Esse texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”. É de novo um dos temas centrais da Bíblia: o grito do pobre e sofrido. Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas a reação dos transeuntes é típica: mandam que Bartimeu se cale. O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído. Isso não mudou até os dias de hoje. É só verificar o pouco-caso que nossa sociedade faz diante da opressão e massacre dos povos indígenas, diante de sofrimento dos excluídos e marginalizados pela sociedade de consumo. Até nas Igrejas, existe quem não queira ouvir o grito e faz de tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas Deus o ouve! Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm de convidá-lo a falar com Jesus. Porém, para isso, Bartimeu tem de lançar fora o manto (a única coisa que ele possuía, a sua única segurança). É sua roupa, seu cobertor à noite, o que ele usa para recolher as esmolas. Ele o joga fora, embora seja cego, e não tem certeza de que vai ser curado. Como os primeiros discípulos no lago (Marcos 1,18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus. É bom notar que Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “O que queres que eu te faça?” (vers. 51). Pois Jesus não obriga ninguém a se libertar; há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, no seu comodismo, quem não opte pela libertação. Mas Bartimeu quer ver de novo. Diferente do cego de João, capítulo 9 (cego de nascença), ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé e que precisava do toque de Jesus para que voltasse a ver claramente. Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir sua vida. Mas ele faz outra opção: “No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (vers. 52). Ele usava para Jesus um título não muito adequado “filho de Davi”, pois em Marcos 12,35-37, Jesus fez muitas restrições a esse título messiânico, mas ele tem a prática certa: segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo, “Tu és o Messias” (Marcos 8,29), mas a prática errada. Não quis que Jesus caminhasse para a doação total de sua vida, na Cruz. Aqui, o modelo de discípulo não é Pedro, mas Bartimeu. Pois, mais importante do que os títulos e expressões teológicas, sem negar sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus. Um alerta a todos nós, para que nossa prática seja coerente com nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus e seus valores! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
29º Domingo do Tempo Comum

“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.”Marcos 10,35-45 No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje se situa quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a missão do Mestre. Pela terceira vez, Ele tem dado a seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus, mas que não surte efeito. Os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo dele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus, numa tentativa de impor a própria agenda. Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse em sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido (Mateus 10,20). A queixa de Deus no Antigo Testamento, de que seu povo era um povo de “cabeça dura”, atualiza-se nos Doze. Não devemos pensar que eram somente os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (vers. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder. O vírus de dominação é mais do que contagioso. Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade de seus discípulos: “Entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (vers. 43 e 44). E deixa bem claro o motivo: não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida como resgate para muitos” (vers. 45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática que ele. O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, nos últimos anos, de modo mais acentuado, uma busca de status e do poder dentro do seio das igrejas, talvez especialmente entre o clero mais jovem. O Papa Francisco não cansa de combater essa tendência. Mas ninguém pode se achar imune diante dessa tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstre que “entre vocês não deve ser assim”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
28º Domingo do Tempo Comum

“Como é difícil entrar no Reino Deus!”Marcos 10,17-30 Nosso texto inicia-se com a frase: “Quando Jesus saiu a caminhar”. Novamente estamos na caminhada com Jesus, uma caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva a cada vez mais perto de Jerusalém, lugar da crise definitiva de sua vida. Ao longo dessa caminhada, Jesus luta com a incompreensão de seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a reviravolta de valores que Jesus e sua mensagem significavam. Nos domingos anteriores, vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. Em nosso texto de hoje, Jesus põe em xeque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza. A cena é muito conhecida: um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Em um primeiro momento, Jesus coloca diante dele a exigência conhecida por todo judeu piedoso e ensinada pelas escolas rabínicas: o cumprimento dos mandamentos. Mas o homem (sem dúvida, um praticante piedoso da Lei) sente que isso não é o suficiente, pois é o mínimo. Assim, Jesus põe diante dele as exigências do Reino: o seguimento dele, o despojamento dos bens, a partilha e a solidariedade. Isso o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado a seus bens, pois era muito rico (versículo 22). Fez sua opção: escolheu uma vida “regular”, que não exigisse partilha nem despojamento, e, como consequência, foi embora “muito abatido”, pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior. O centro do relato está no debate entre Jesus e seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (vers. 25). Muitas vezes, gastamos muita energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir seu impacto!) e deixamos de lado o aspecto mais importante: a reação dos discípulos. Eles ficaram “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “Então, quem pode ser salvo?”. Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão. O espanto dos discípulos (todos eles também judeus praticantes e piedosos) era causado pelo fato de que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerada sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma ideia presente em certas seitas hoje e que, às vezes, infiltra em certas pregações sobre o dízimo na própria Igreja Católica). Para eles, quem não se salvaria era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, o que não é sinônimo de salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus e, diante de tal mistério, só cabe à gente calar-se. O Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nessa dinâmica porque normalmente é autossuficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade para partilhar e de sentir sua dependência de Deus. A proposta de Jesus desafia as ideologias, disfarçadas de teologia e espiritualidade, que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta dele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver essa proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição; porém já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (vers. 29 a 31). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
27º Domingo do Tempo Comum

“O que Deus uniu, o homem não separe”Marcos 10,2-16 Durante a caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa dele, mas com seu projeto, o Senhor, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de muito prestígio diante da população mais simples, outorgavam-se o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus, por meio de sua interpretação da Lei. Por isso entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto, “para tentá-lo” (versículo 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Deuteronômio (24,1-4), no qual não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa ocorrer. O Evangelho de Mateus, no capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (veja Mateus 19,1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar-se de sua mulher (nem se cogitava a mulher pudesse divorciar do marido, pois ela era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus, havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar da mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. A escola mais rigorosa (do Shammai) apenas permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mateus 19,4). Em ambos os evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate de casuística que cercava a questão e se limita a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem separe”. Jesus reafirma, com toda a firmeza, o ideal do casamento cristão: uma união permanente, baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar nesse trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal. Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada na igreja, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados, como reconhece claramente o Papa Francisco, bem como qualquer pessoa com coração pastoral. O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com elas vivem essa situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que se ab-rogar de todo poder dominador, tornando-se como criança. Recusando-se a aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo em uma sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contramão dos valores da sociedade de seu tempo (e de hoje). Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação. Realmente, uma proposta no contrafluxo da sociedade pós-moderna, que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador. O texto de hoje nos convida para que entremos com Jesus na “contramão” e criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os que estão hoje em vigor, às vezes, até no seio das próprias igrejas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
26º Domingo do Tempo Comum

“Quem não está contra nós está a nosso favor”Marcos 9,38-43.45.47-48 O texto de hoje nos coloca, mais uma vez, no contexto do ensinamento de Jesus a seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que, a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa de seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava. A primeira atitude a ser corrigida, conforme vemos nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o poder divino. Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das igrejas, ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas de suas definições dogmáticas. Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um discípulo: “Não lhe proíbam, pois… quem não está contra nós está a nosso favor” (versículo 40). Temos de aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não o escondamos ou deturpemos. Discernimento deve ser uma atitude permanente de vida. A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos” nesse texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. É bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”, isto é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o discurso eclesiológico (isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mateus 18,6-14). Usa imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé e o olho” que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse; por exemplo, Orígenes. “Mão” significa nossa maneira de agir; “pé”, o modo de caminhar na vida; e “olho”, o jeito de ver e julgar as coisas, ou até nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros, etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora”, ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus, a vivência dos valores do Evangelho, por que Jesus deu a vida para estabelecer. A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus. O Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado como está no espírito de Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a coragem de praticar o que ele nos ensina. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
25º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos” Marcos 9,30-37 Na estrutura do Evangelho de Marcos, depois da chamada “crise galilaica”, manifestada no episódio da estada de Cesareia de Felipe, Jesus muda totalmente de tática, de estratégia. Ele não anda mais com as multidões, quase não faz mais milagres (dos 19 milagres em Marcos, somente 2 ocorrem depois do acontecimento de Cesareia). Em lugar disso, Ele se dedica à formação dos seus discípulos, tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos, ensinando-os que o caminho dele é o da Cruz, da entrega, da doação, e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos demonstra isso de uma maneira bem organizada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a sua futura paixão (8,81; 9,31; 10,33-34). Em cada uma, os discípulos não compreendem (8,32; 8,34; 10,35-37), e a partir dessas incompreensões, Jesus dá um ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro seguimento dele (8,34-38; 9,35-37; 10,38-45). O trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento dele é uma vida de entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem entre si qual deles era a maior. O poder é tentação permanente em todas as comunidades, não isentando as igrejas. Podemos até dizer, com certa dose de humor, que a busca de poder está no DNA das pessoas humanas. Talvez mais do que outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas igrejas, mais ainda do que a imoralidade ou a ganância financeira. No século XIX, o estadista e historiador católico inglês Lord Acton falou que “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, e não há poder mais perigoso do que o religioso, exercido em nome de Deus! Quantos sofrimentos e males são causados por essa sede do poder, disfarçada como mandato de Deus. Desde o fundamentalismo fanático do Talibã, no Afeganistão, até a ufania de certos padres (mormente recém-ordenados), que se ostentam com roupas finas e carros do ano e, de uma maneira opressora, dominam religiosas e leigos de muito mais experiência e sabedoria do que eles… A sede do poder e da dominação, sempre em nome de Deus ou de Jesus, continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro e fora do cristianismo. No fundo, é por isso que certos setores da Igreja se colocam, frontalmente ou veladamente, contra o Papa Francisco. Como escreveu o teólogo sul-africano Alberto Nolan, dominicano, “Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que Ele não significou, do que por aquilo que Ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais Ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome”. O poder-dominação é frequentemente um desses elementos. Diante da recusa de seus discípulos em entender seu ensinamento, Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem deve segui-lo. Não porque criança é sempre santa nem inocente, mas porque é sem-poder, dependente dos adultos em tudo. No tempo de Jesus, criança não tinha direitos e era entre os últimos da sociedade. Seus discípulos são convidados a despojar-se do poder para serem servos, da mesma maneira do que o Mestre, Ele que “não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Filipenses 2,6-8). O poder em si é um bem para ser usado a serviço dos outros. Todos nós (clero, religiosos, leigos) somos vulneráveis diante da tentação do poder. Levemos a sério o ensinamento de hoje, pois somente pode ser discípulo de Jesus quem procura ser o servo de todos. Evitemos títulos, privilégios e comportamentos que tão facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o nosso modelo seja sempre Ele e não a sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza, acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante” (1 Coríntios 1,28). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
24º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga” Marcos 8,27-35 Como Evangelho de hoje, temos a história do caminho de Cesareia de Filipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas, o relato mais original está no Evangelho de Marcos, capítulo 8, o qual se torna o pivô de todo o Evangelho. A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que eu sou?”. Assim, chovem respostas, pois essa pergunta não compromete (é o “diz que…”). Mas a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, compromete-se. Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias”. Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que proclamou. Afirmou que foi por uma revelação do Pai que Pedro fez sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até o versículo 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer. Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo e as expectativas do povo de seu tempo, inclusive os discípulos. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, que teria como consequência ser preso, torturado e assassinado, e dar a vida em favor de muitos. Usando o título messiânico “Filho de Homem”, que vem de Daniel (7,13ss), Jesus confirmou que era o Messias, mas não do jeito que Pedro esperava. Este, conforme as expectativas correntes em seu tempo, esperava um messias forte e dominador, não um que pudesse ir e levar com ele seus seguidores até a Cruz. Por isso Pedro contesta Jesus, pedindo que nada daquilo acontecesse. E, como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afaste-se de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (vers. 33). Pedro, cuja proclamação de fé parecia ser tão acertada, é agora chamado de Satanás, o Tentador por excelência. Pedro tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática errada. Usando nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis. Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor dele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (vers. 34). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, uma adesão à sua pessoa e missão, que leva ao seguimento dele na construção de seu projeto, até as últimas consequências. Hoje, 2 mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte; a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o bispo, mas para cada um de nós, pessoalmente. No fundo, a resposta se dá não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus, Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (João 10,10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos doutrina e teoria certas, mas a prática errada. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
23º Domingo do Tempo Comum

“Jesus faz bem a todas as coisas”Marcos 7,31-37 Os eventos relatados no texto de hoje se situam no território pagão de Tiro e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de sublinhar o contexto geográfico, talvez para enfatizar a missão aos gentios (pagãos) que marcava sua Igreja. Mais uma vez, estamos diante de um milagre de Jesus que manifesta o poder de Deus que age nele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território. Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros: uma pessoa sofrida (neste caso, sofrendo de surdez e incapaz de falar corretamente), a compaixão da parte de Jesus, que o leva a atender ao pedido de uma cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia (o chamado “segredo messiânico”) e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo. A violação da proibição por parte da multidão traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que Ele é muito mais do que um simples curador. As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante dele (versículo 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente. Mais uma vez, o segredo messiânico em Marcos nos faz perguntar sobre seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos, de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que sua verdadeira identidade somente se revelará em sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana, o oficial que exclamou, ao pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (Marcos 15,39). Para Marcos, uma fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos, interesseiros e duvidosos. Para corrigir essa tendência em sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico “Filho de Deus” ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que a força humana (1 Coríntios 1,25). Um alerta para muitos cristãos hoje. A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos ouvir e os mudos falar” alude a Isaías (35,5-6), que faz parte da visão apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Isaías, capítulos 34 e 35, relacionado com Isaías, capítulos 40 a 66). O uso aqui desse texto veterotestamentário indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente no ministério de Jesus. Podemos ver um sentido mais simbólico para nossos dias na cura relatada: o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois o sistema hegemônico de hoje e os meios de comunicação, frequentemente atrelados e coniventes, procuram, em geral, tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos; pois fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões, escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários de televisão. Também as forças dominantes deixam cada vez mais os excluídos sem voz: em nossa sociedade materialista e consumista, só pode ter voz ativa quem produz e consome. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus cura. O Evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem lhes foi tirada. Sete de Setembro é o dia do “Grito dos Excluídos”, uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade assinalarem que nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos, e que essa atividade não se limita a uma passeata nesse dia somente, mas que é a tônica de nossa ação evangelizadora, retomada com muita força no Documento de Aparecida e em tantos outros documentos do Magistério e da CNBB, e sempre enfatizada nos pronunciamentos e escritos do Papa Francisco. “Jesus fez bem todas as coisas: fez os surdos ouvirem e os mudos falarem!” (vers. 37). Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais. Que ajudemos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante e que ajudemos os sem voz a recuperarem a voz ativa nas decisões das Igrejas e da sociedade em geral. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
22º Domingo do Tempo Comum

“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”Marcos 7,1-8.14-15.21-23 Para entendermos o alcance do nosso Evangelho de hoje, é necessário compreender o contexto religioso do tempo de Jesus. Entre os elementos-chave na prática religiosa do judaísmo daquela época, estavam os conceitos de “puro” e “impuro”. Em nossa teologia, não é possível cometer um pecado inconscientemente, mas, para o povo do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras, isto é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos ritos de purificação. A seita dos essênios levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos. Também os fariseus (cujo nome vem de uma palavra que significa “separados”) davam suma importância à pureza ritual; assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao culto ao Deus da vida. Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente libertadora. Sem se recusar a participar nos ritos tradicionais, pois era judeu piedoso e praticante, Ele entendeu que nada vindo de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura. Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para que vivesse a justiça e a prática da vontade de Deus, em lugar de se preocupar primariamente com rituais externos. Jesus reintegrava, assim, as massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria. Ele voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “As más intenções, a imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (vers. 21 e 22). Assim, Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías (Isaías 56-66), que, diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam seus irmãos e ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar à sua própria gente” (Isaías 58,6-7). É um desafio hoje examinarmos a realidade de nossa prática religiosa. Sem negar a importância e o papel de celebrações, ritos, rituais e devoções, nosso texto exige de nós, seguidores de Jesus, um sério exame de consciência, para que verifiquemos se a nossa prática religiosa não está frequentemente semelhante à dos fariseus (perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro) ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem, uma religião de prática de solidariedade e justiça, brotando da fé, e coerente com nossa fé no Deus da vida, em que os ritos têm seu lugar, mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (vers. 6). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
21º Domingo do Tempo Comum

“Tu tens palavras de vida eterna”João 6,60-69 Aqui temos a conclusão do grande discurso sobre o Pão da Vida. Mais uma vez, O Evangelho de João deixa claro que, diante de Jesus e de suas palavras, o ouvinte tem de tomar uma decisão radical. Os versículos de nosso texto não escondem o fato de que nem todos conseguem optar por Jesus. As primeiras palavras de hoje, “depois de ter ouvido isso”, demonstram que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus, sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias dos versículos anteriores, a afirmação de Jesus, de que Ele dá seu corpo como pão da vida, e o fato de que o texto se dirige aos discípulos indicam que provavelmente foi o discurso eucarístico a fonte de divisão. Porém a afirmação de Jesus, de que Ele “dá a vida” (o que causou já uma divisão em 5,19-47) e a identificação de sua palavra reveladora com “o pão vindo do céu”, na primeira parte do discurso, talvez tenham criado a controvérsia. De qualquer maneira, é importante notar que a divisão não se dá entre “os judeus”, no sentido das autoridades judaicas, mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus nesse momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência da comunidade do Discípulo Amado na década de 90 do primeiro século, quando estava sentindo na pele as dores de divisão, pois muitos de seus membros a estavam abandonando (essa divisão é o pano do fundo das três cartas joaninas). É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono da maioria de seus discípulos. Ele não arreda o pé, mas, com toda a calma, até convida os Doze para saírem se não podem aceitar sua Palavra. Jesus não se preocupa com números, mas com a fidelidade ao Pai. Talvez até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo importante para nós, pois, muitas vezes, caímos na tentação de julgar o êxito pelos números: igrejas cheias indicam sucesso. Mas nem sempre é assim. É mais importante ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que “fazer média” com a sociedade, às vezes, por uma pregação tão insossa que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem consequências sociais. Devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de Jesus no versículo 63, quando diz que “É o Espírito que vivifica, a carne para nada serve”. Às vezes, usa-se essa frase (e outras de João) para justificar uma religião dualista, na qual tudo o que é “espírito” é bom e tudo o que é material é do mal. Aqui João não distingue duas partes do ser humano, mas duas maneiras de viver. A “carne” é a pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus; o “espírito” é a força que ilumina as pessoas e abre seus olhos para que possam entender a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus. Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem no Senhor algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Só Jesus tem as palavras de vida eterna. Declaração atual, pois é moda na nossa sociedade (até entre muitos católicos praticantes) de correr atrás de tudo o que é novidade: supostas aparições, videntes, esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de Deus nas Escrituras. O texto nos convida a nos examinarmos, a verificarmos se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra, ou se a deixamos de lado, achando (como a multidão no texto) que o seguimento de Jesus “é duro demais”. No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrar a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus “tem palavras de vida eterna”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.