10º Domingo do Tempo Comum

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”Marcos 3,20-35 Esta segunda parte do terceiro capítulo de Marcos nos apresenta uma característica bastante usada neste Evangelho. O autor intercala uma discussão com os escribas (versículos 22-30) em uma cena em que Jesus se defronta com a incompreensão de sua família (vers. 20-21.31-35). Ele usa o mesmo procedimento nos capítulos 5 (21-43), 6 (7-33), 11 (11-21) e 14 (1-11). A finalidade é para que o leitor interprete um evento à luz do outro. Assim, no texto de hoje, devemos nos perguntar como os versículos que tratam dos familiares de Jesus e o trecho referente à discussão com os escribas lançam luz um sobre o outro. Na verdade, em ambos os casos, Jesus é objeto de acusações falsas e é incompreendido, ou até rejeitado, pelos seus familiares bem como pelas autoridades de Jerusalém. Não há dúvida de que a atividade de Jesus causa espanto e choque. Trabalhando até a noite em prol dos excluídos e sofridos, misturando-se com gente considerada impura pela religião oficial, e, portanto, com essa ideia introjetada na visão do povo comum, e criticando fortemente as lideranças religiosas de seu tempo, Jesus parecia para muitos “louco” ou possuído por um demônio, ou algo semelhante. Numa cultura na qual “honra” e “vergonha” eram conceitos-chave para qualquer família, os familiares de Jesus resolveram conter o problema, indo “segurá-lo” e levá-lo para a casa da família. O confronto com a família continua nos versículos 31 a 35. É interessante como Marcos constrói a cena. Quando os parentes chegam ao local onde ele está pregando, eles nem tentam entrar para escutá-lo ou para conversar com ele. Eles deliberadamente ficam do lado de fora e mandam chamá-lo. Isso contrasta muito com a cena de dentro, na qual uma multidão está sentada ao redor de Jesus, a atitude de discípulo. Quando é informado da presença de seus parentes fora, Jesus olha para os que estão ao redor dele e faz uma declaração espantosa e contundente: “Aqui está minha mãe e meus irmãos!”. O texto logo explica o sentido dessa afirmação: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Na verdade, Jesus não está denegrindo sua família, mas insistindo nas novas relações que nascem do discipulado dele. Parentesco não traz qualquer privilégio, o importante é ser discípulo e cumprir a vontade de Deus. Assim, Jesus afirma que, conforme nós nos tornamos discípulos, discípulas, temos a mesma dignidade que sua mãe e parentes. Tudo se relativiza diante das exigências do Reino e do seguimento. Embora não seja uma questão de grande importância, talvez umas palavras sobre o sentido da frase “irmãos e irmãs de Jesus”. É bom lembrar que, na tradição do Oriente Médio, não se define a família como o pequeno núcleo de pai, mãe e filhos, mas inclui parentes próximos e distantes. A versão grega do Antigo Testamento usa a palavra “adelfos” (irmão) nos dois sentidos: restrito e amplo (Gênesis 29,12 e 24,48). Podemos dizer que, na tradição cristã, existem três tipos de interpretação para essa questão. Primeiro, entende-se o termo “irmão” no sentido do uso oriental. Segundo, usando um documento apócrifo (não canônico) do século IV, chamado Protoevangelho de Tiago, conta-se que Maria casou-se com José, um viúvo idoso que já tinha seis filhos e filhas: Judas, Tiago, Joset, Simão, Lídia, Lísia. Assim, os “irmãos” seriam só da parte de José e não de Maria. Terceiro, seguindo São Jerônimo, afirma-se que são primos de Jesus em primeiro grau. O importante é saber que a concepção virginal de Jesus está claramente ensinada na Bíblia e faz parte do Credo Apostólico. Mas a questão da virgindade perpétua de Maria não é tocada nos Evangelhos, e não adianta buscar argumentos neles em favor ou contra. Essa doutrina faz parte da fé católica desde os primórdios. A disputa com os escribas também intriga umas pessoas quando fala do “pecado contra o Espírito Santo” que não tem perdão. Em que consiste? Segundo a nota do rodapé da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), “Esse pecado consiste em negar-se a reconhecer o poder que atua por meio de Jesus, atribuindo a Satanás as obras que ele realiza pelo Espírito Santo. Tal recusa à conversão contraria o perdão”. Mas as palavras fortes referentes a esse pecado não devem tirar nossa atenção de algo muito mais importante: que todos os outros pecados, por tão “pesados” que possam ter, têm perdão. Esse fato é um grande “Evangelho”, ou “Boa Notícia”, e deve nos animar que para que sejamos portadores dessa mensagem de perdão e reconciliação a todos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Solenidade da Santíssima Trindade

“Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”Mateus 28,16-20 Hoje celebramos o mistério insondável de Deus: a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus no qual acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano, no qual celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que, no fundo, não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,28). Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas desde que vivamos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, visto que fomos criados à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré, a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Conforme criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático (como se fosse possível explicar “três em um”), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente à sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo, celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Solenidade de Pentecostes

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”Atos 2,1-11; João 20,19-23 A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições: a de Lucas (Atos dos Apóstolos) e a da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da Bíblia (infelizmente ainda muito comum entre nós) leva-nos a um beco sem saída, pois, no Evangelho de João, a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de 50 dias. Por isso devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores. Os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lucas 4,1) e se lançou em sua missão “com a força do Espírito” (Lucas 4,14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período e, na festa judaica de Pentecostes, também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (Atos 2,4). Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso, mas isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos versículos 1 a 4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos versículos 5 a 11, mais profética e missionária. Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração” (Atos 1,14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus. O primeiro relato (versículos 1 a 4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus (o som de um vendaval e as línguas de fogo). A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” – glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neopentecostal). A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público – provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (Atos 1,6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Por três vezes, o relato destaca o fato de os presentes poderem “ouvir” em sua própria língua (versículos 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético, o de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas, ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus. A lista dos presentes tem um sentido especial. Estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, esse fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, em que a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu), que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o Evangelho com a própria expressão cultural. Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica a uma comunidade universal, missionária, mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento. É uma experiência contínua, por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (Atos 4,31), sobre os samaritanos (Atos 8,17) e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos, na casa de Cornélio (Atos 10,4). Pois o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos e celebremos nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas a de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias. João 20,19-23 No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que Jesus tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir, embora de uma maneira inadequada, o termo hebraico “shalom!”, que é muito mais do que “paz”, conforme nosso mundo a compreende. O shalom é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Na proclamação do saudoso Papa São Paulo VI, “A justiça é o novo nome da paz!”. Jesus não promete a paz do comodismo, mas, pelo contrário, envia seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas promete o shalom, pois ele
Solenidade da Ascensão do Senhor

“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”Marcos 16,15-20 O texto de Marcos (16,9-20), que contém o fim desse Evangelho, interrompe o fio da narração precedente. É muito diferente em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice”, provavelmente escrito no segundo século e baseado sobretudo no capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências de fatos narrados nos Atos dos Apóstolos. Embora não acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje. Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus, o de levar a Boa-Nova para toda a humanidade (Mateus 28,18-20). A Igreja é, por sua natureza, missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandado estaria traindo sua identidade. Porém se faz necessário distinguir entre “missão” e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar para si fiéis de outras igrejas. Giram ao redor de si mesmas, identificando sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade a descobrirem a presença do Reino (e do antirreino) em suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandado vai nos fazer lembrar que nós não somos donos da missão. A missão é do próprio Deus, cujo Filho Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou uma comunidade de discípulos e discípulas para continuar sua missão da implantação do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. A serviço dela existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Mas ninguém está dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se em sua própria comunidade, movimento ou Igreja; pelo contrário, devemos sentir-nos unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo, e comprometidos com a construção da sociedade justa e solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão, a longo prazo, é reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Nós o fazemos pela proclamação explícita da Boa-Nova e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições religiosas, convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço, e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação integral. O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana os sinais do mal, do antirreino, que escraviza e oprime milhões de pessoas, por meio de estruturas econômicas, sociais e até religiosas de exclusão; “falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma língua do diálogo e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”: superando tanto o veneno semeado durante milênios na convivência humana, expressado pelo racismo, machismo, clericalismo e todos os “ismos” que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando, na prática, para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (João 10,10), como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas restaurando a saúde integral, das pessoas e da Criação, mediante a vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágica se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres” duvidosos, à falação de supostas “línguas dos anjos” e à satanização de tudo, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a presença diabólica. Durante séculos, muitas vezes, os cristãos do Brasil (e de muitas outras regiões) têm se acomodado com a vivência de uma religião individualista, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a transformação social. O mandado de semearmos a Boa-Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus, não somente à sua pessoa, mas também à sua prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
6º Domingo da Páscoa

“Amem-se uns aos outros”João 15,9-17 Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos como o de hoje, pelo menos pelas diversas frases lapidares tecidas dentro dele. Sobressai o tema básico do “amor” como a característica que deve distinguir os discípulos e discípulas de Jesus. O amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram os nossos cantos, poemas e novelas, mesmo que seja mais na fala do que na prática. Por isso, torna-se necessário recuperar o sentido profundo do amor nos evangelhos. Até um estudo rápido mostra que o termo tem outro sentido do que aquele que a nossa sociedade liberal e consumista lhe atribui. Na sociedade atual, o amor não passa de um sentimento agradável, uma emoção, quando não de um egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção, torna-se temporário, volúvel, sem consistência, descartável. Passado o sentimento, termina o amor. Uma das consequências dessa visão pós-moderna é o alto índice de divórcios, de separações, de desistências de tudo que é compromisso, pois a base é como areia movediça, não sustenta o peso do dia a dia. O amor ao qual Jesus nos conclama tem outro sentido: é o amor “como eu os amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando sua vida por nós. O amor se torna uma atitude de vida e não um sentimento. A comunidade dos discípulos e discípulas (a Igreja) deve ser uma comunidade de pessoas comprometidas com o projeto de Jesus, que veio “para que todos tivessem a vida e a vida plenamente” (João 10,10). A comunidade cristã deve ser muito mais do que um grupo de amigos e companheiros (oxalá fosse isso também, pois frequentemente nem isso é!), deve ser uma comunidade enraizada no amor de Jesus, que é a encarnação do Deus da vida, animada pelo seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer. A pedra de toque de uma comunidade cristã então não será o sentimento e a emoção, mas os frutos que ela dá, frutos que devem permanecer (vers. 16) e que não devem evaporar com a instabilidade dos sentimentos. Tal comunidade vai ser comunidade de vida e partilha, da justiça e solidariedade, da verdadeira paz e dedicação. Saberá ultrapassar os limites da mera simpatia e atração para assumir a vida de cada irmão e irmã como expressão do amor do Pai. É interessante que, embora o trecho se situe no contexto da véspera da Paixão, Jesus fala da alegra, e da alegria completa. É impressionante como, em um mundo que propõe a satisfação imediata pessoal e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida. Quantos jovens, mesmo (ou talvez especialmente) nas classes mais abastadas, irrequietos e perdidos na vida! Pois a alegria não vem somente das posses e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre eles vai necessariamente elevar à frustração. Mas também há muita gente, muitas vezes com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira alegria e profunda paz, pois as suas vidas são alicerçadas sobre a rocha: uma vida de amor verdadeira, na doação de si, na busca de uma vida digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta um caminho para a felicidade: sempre ter mais, em uma busca individualista de felicidade, que só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira alegria: uma vida de amor-doação, de busca da justiça e solidariedade, que tem a alegria não como meta, mas que a traz como consequência. Não há nenhum mandamento “simpatizai-vos uns com os outros”, mas há o mandamento do amor. Para isso precisamos de uma vida fortemente fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois, se não a temos, será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como “amigos” e não servos, ou seja, pessoas que livremente assumem seu projeto. Assim assinala que a religião não deve ser simplesmente o cumprimento de uma série de leis e regulamentos, mas o seguimento de um projeto de vida, continuadora de sua missão no mundo atual. Um projeto além de nossas forças humanas, pelo qual precisamos do dom sempre renovado do Espírito Santo, um dom que nos é garantido, pois, como diz o texto: “O Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome” (vers. 16). É um projeto que nos coloca na contramão da sociedade atual, mas que nos garante uma vida realizada e plena, que os falsos ídolos do consumismo são incapazes de nos dar. “O que mando é isto: amem-se uns aos outros” (vers. 17). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
5º Domingo da Páscoa

“Sem mim, vocês não podem fazer nada”João 15,1-8 Esse texto inicia a seção do Quarto Evangelho a qual tem os trechos que mais se aproximam dos discursos da vida pública de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João: a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15,18-16,4) vai tratar do ódio do mundo para com os seus seguidores. No Antigo Testamento, frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele tem cuidado com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, vimos como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do novo Israel. Se ficarem unidos a ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro, o Pai. No Antigo Testamento, muitas vezes, Deus ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do novo Israel não falhe, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados. A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Esse tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Mas os cristãos somente poderão dar esse fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez, volta-se à ideia de que é pelos frutos que se conhece a árvore. Assim, leva-nos a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como fez alguns anos atrás a Conferência de Aparecida e o documento que foi publicado por ela. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha de ser podada pelo Pai para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados não é a verdadeira Igreja do nosso divino Redentor” (Discurso de 4 de dezembro de 1977). Sem dúvida, há muita coisa realmente boa ocorrendo nas comunidades cristãs do Brasil bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade, e não no lucro, competitividade e na lei da selva. Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neoliberalismo, da globalização, das forças do mercado. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta de melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade: com ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas, sem dúvida, como colaboradores dele na construção do Reino de Deus. As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas (às vezes, dentro da própria Igreja), os sofrimentos dos mártires da caminhada e de suas famílias são podas, mas podas que darão mais fruto ainda. Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós, uma vez que fiquemos unidos a ele, e entre nós, pois Jesus mesmo nos disse “Sem mim, nada poderão fazer”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
4º Domingo da Páscoa

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”João 10,11-18 Hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A imagem escolhida é a do “pastor”, uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Salmo 40,11; Ezequiel 34,15; 37,24; Eclesiástico 18,13; Zacarias 11,17, etc.). Algumas vezes, é aplicada ao próprio Deus (Salmo 23,1; Isaías 40,11; Jeremias 31,9); outras, ao futuro rei messiânico (Salmo 78,70-72; Ezequiel 37,24); e outras, aos líderes político-religiosos de Israel (Jeremias 2,8; 10,21; 23,1-8; Ezequiel 34). Também os evangelistas sinóticos usaram-na bastante (Marcos 6,34; 14,27; Mateus 9,36; 18,12-13; 25,32; 26,31; Lucas 15,3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre”, e não somente eficiência em sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se de sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho. O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos próprios interesses. Aqui o texto está enraizado na tradição profética de Ezequiel (capítulo 34, o qual vale a pena ler) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus: os líderes religiosos e políticos de seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém, em 587 a.C.), que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o nas horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus pode ser aplicada quase que diretamente a muitos líderes políticos (e, às vezes, religiosos) de nossos tempos. O trecho destaca o verbo “conhecer”: Jesus conhece suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem de seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz (assumida livremente por Jesus) é a expressão suprema desse amor. O amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus”. Aqui, talvez haja uma referência às outras comunidades não joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja: a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela, mas muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso, “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, em que se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus. Como seguidores do Bom Pastor, também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo e a todos os “ismos” que nos dividem, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor. Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,19-31 No texto do Domingo da Páscoa, Maria Madalena trouxe aos discípulos incrédulos a notícia da Ressurreição. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz: “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga ou até com repressão policial. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras da direita e da esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Inclui tudo o que é necessário para uma vida digna: saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego, etc. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele: “Eu venci o mundo” (João 16,33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz, com todas as letras, em Mateus (10,34): “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima de não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente. Por isso, por uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo, cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé, por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus, que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra
Domingo da Páscoa

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do dia da ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo – para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar) e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio (e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado). Ressurreição… Nem pensar! Em nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo) correm até o túmulo. A passagem deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada no fato de um túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas. Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos, discípulas amados e amadas, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos “amantes”? Realmente amamos Jesus e o próximo? Lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força todos os dias de nossa vida, mas especialmente quando a Cruz pesar muito. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Domingo de Ramos

“Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”Marcos 11,1-11 Uma das grandes festas religiosas na tradição popular brasileira é a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos. Organizam-se procissões, o povo abana ramos, e pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns hoje fazem questão de não perder a celebração. Tudo isso tem o potencial de ser muito positivo, mas, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore ou teatro, acredito ser importante aprofundar, com base em textos bíblicos, o que significava esse evento para Jesus e para o evangelista. Talvez nosso entendimento da passagem (como de outros textos) é dificultado pela nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Para que entendamos bem o sentido do gesto profético de Jesus nesse evento, seria bom relembrar um trecho do profeta Zacarias (9,9-10): “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta… Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra”. Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os anawim, na língua hebraica, ou “os pobres de Javé”, que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Herdeiros dessa espiritualidade e esperança seguramente estavam Maria e José, e os discípulos e discípulas de Jesus. O Senhor foi educado dentro dessa espiritualidade. Zacarias traçava as características do verdadeiro messias: seria um rei, mas um rei “justo e pobre”; não um rei de guerra, mas de paz. Estabeleceria uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós), onde poderosos e ricos oprimiam os pobres e pacíficos. Um rei jamais entraria em uma cidade montado em um jumento (o animal do pobre camponês), mas em um cavalo branco, de raça. Então Jesus, fazendo sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos. Por isso, muitas vezes, perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um presidente ou governador dos nossos tempos: de pompa, imponência e demonstração de poder e força. Parece muito mais ligado à prepotência de um déspota ou imperialista do que à figura de Jesus. O contrário do que significava o que Jesus fez. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”, e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor, o triunfo da vida, morte e ressurreição de Jesus. De fato, naquele dia, havia duas procissões entrando em Jerusalém. Primeiro, pelo portão ocidental, a de Pôncio Pilatos, representante do imperador, que chega de Cesareia Marítima com uns cinco mil soldados legionários. Podemos imaginar a impressão causada: milhares de soldados com espadas, elmos e escudos brilhando no sol, trombetas tocando e Pilatos montado num cavalo de raça branco, para demonstrar o poderio de César, o opressor do povo. À tarde, entrou pelo portão oriental uma pequena procissão, de um camponês pobre, Jesus de Nazaré, montado num jumentinho com seu séquito de pobres e estropiados. O anti-Rei, diante do poder opressor de César. Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo (ou especialmente) quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. O texto de hoje convida a todos nós a revermos nossas atitudes. Seguimos Jesus, mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus, poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? É valiosa a advertência contida em um canto muito usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o Salvador”. Realmente, acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou só fazemos um folclore bonito no Dia de Ramos, totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Acreditamos na força do direito (Jesus e seu projeto de vida) ou no direito da força (tantos poderosos do cenário mundial com o seu projeto de morte)? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.