A educação deve conduzir ao acolhimento, à solidariedade e ao compromisso social

Sempre que pensamos na formação básica de nossos jovens e crianças, automaticamente projetamos em nossa imaginação esse momento dentro de uma sala de aula. O fato é que, atualmente, com as necessidades cada vez mais emergentes em nossa sociedade tão fragilizada, a educação precisa sair, e sobretudo agir, para além dos muros da escola. Essa ação, muitas vezes, deve acontecer em ambientes bem diferentes daqueles cenários clássicos com carteira, giz e apagador. Proporcionar ao estudante a sensação de ser um verdadeiro agente de transformação no mundo é também uma responsabilidade dos educadores e da escola do futuro. O problema é que esse futuro já bate à porta, com cenas bem reais e atuais, nos cobrando ações rápidas e eficazes. Como então levar a escola a enxergar os problemas que nos cercam fora dela? Mesmo que esse educador de um futuro tão presente ensine matemática, é possível trazer para perto realidades que aos estudantes sejam distantes, por exemplo, a má distribuição de alimentos ou até mesmo o desperdício desordenado desses alimentos. E por que não visitar uma feira livre com a intenção de conscientizar as pessoas de uma economia doméstica que não abra espaço ao desperdício e possa, de várias maneiras, colaborar com a alimentação de centenas de pessoas que vivem, à própria sorte, nas ruas dos grandes centros urbanos? A educação tem a grandeza de transformar vidas pelo conhecimento ou pelo simples fato de nos mostrar que, sozinhos, não há a possibilidade de aprender e de ensinar nada; esse movimento precisa ser coletivo. Particularmente, tenho tido a experiência de acompanhar os alunos do nono ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, a visitas semanais ao Centro de Integração do Migrante (CIM), também na capital paulista. Essa experiência tem sido enriquecedora aos estudantes, sobretudo por terem a oportunidade de vivenciar realidades tão distintas daquelas que estão acostumados em seu dia a dia. No contato com as crianças atendidas diariamente no CIM, os estudantes estão desenvolvendo, junto da equipe pedagógica, atividades lúdicas e reflexivas com essas crianças. Dessa maneira, modificam não apenas a vida dos pequenos, mas também suas próprias realidades. Quando o estudante retorna de uma visita e, em casa, junto da família, partilha sua experiência, suas visões e sua reflexão pessoal, ele multiplica, dentro do próprio lar, essa ação missionária. Muitas vezes, isso faz com que ela se amplie ainda mais e de diversas outras maneiras. Assim também ocorre nos corredores da escola, onde os estudantes comentam entre si as experiências vividas e planejam, em conjunto, outras ações transformadoras. A semente da solidariedade pela educação, dentro e fora do ambiente escolar, precisa ser plantada e cultivada, para que possa florescer, daqui a um tempo, uma realidade tão clássica na sala de aula como o giz e o apagador. Oxalá podermos contemplar a transformação do mundo a partir do coração puro e generoso das crianças e jovens que vivenciam sua formação humana e acadêmica. Thiago Wolf RaimundoProfessor de Ensino Religioso no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”

O provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” é bem conhecido. O que realmente, no entanto, pode se aplicar dessa afirmação em nosso contexto educacional? Faz parte do senso comum a afirmação de que a formação das crianças e jovens é extremamente importante para a sociedade e que, por isso, a educação deve ser valorizada. Porém as práticas escolares pedagógicas dentro dos “muros” da escola e a educação que “vem de casa”, ou seja, o que é compartilhado no ambiente familiar, bastam para o processo de formação integral de nossas crianças? Para responder a essas questões, precisamos entender as transformações pelas quais a sociedade passou e como ela se encontra, hoje, no século XXI. As exigências econômicas e de trabalho carecem, cada vez mais, da força de trabalho dos adultos das famílias, e, com isso, o envolvimento entre família, escola e comunidade se torna cada vez mais urgente. O ambiente da sala de aula já é, hoje, insuficiente para dar conta das demandas das crianças e adolescentes que já têm acesso ao mundo a partir de um clique. Educar no mundo contemporâneo é uma tarefa que deve ser abordada de modo amplo e irrestrito. O entendimento de maneira fragmentada do ser humano é ultrapassado, e a escola não pode ser apenas o espaço para ensinar os conteúdos pedagógicos. Dessa forma, entendemos e nos posicionamos, como escola viva, como espaço que, em parceria com a família e com a comunidade, favoreça experiências que contribuam com a forma como nossos alunos vão se posicionar no mundo. Assumir a responsabilidade de garantir às nossas crianças ambientes acolhedores, que permitam, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da autonomia e facilitem vínculos afetivos é imprescindível para formar indivíduos que sabem se colocar no mundo, conscientes de suas responsabilidades sociais. Para as crianças e adolescentes, é fundamental a convivência com seus pares e também com adultos, e a escola favorece esses relacionamentos. Além disso, é importante que a escola favoreça e estimule o contato e envolvimento social para além de seu espaço físico. Em nossas escolas, incentivamos momentos que possibilitam o contato de nossos alunos com pessoas diferentes de seu convívio familiar e escolar, tais como estudos do meio, palestras com profissionais de diferentes áreas para conversar sobre as relações de trabalho e diferentes carreiras a serem seguidas para os alunos do terceiro ano do ensino médio; trabalho da pastoral com a participação dos alunos em serviço às pessoas em situação de vulnerabilidade; entre tantas outras ações. Entendemos que expandir as trocas sociais e fornecer experiências como as citadas acima traz sentido para o provérbio que mencionamos no início deste texto e permite um olhar sensível para a educação e, principalmente, para os educandos. Sim, somos seres relacionais, e a alteridade nos é intrínseca. Portanto, hoje, mais do que nunca, é preciso de uma aldeia inteira para educarmos nossas crianças e fazemos isso em parceria: escola, família e comunidade. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
Rede de Educação SSpS acolhe diretrizes do Capítulo-Geral

Membros da diretoria e coordenação pedagógica, assessorias e coordenações missionárias se reuniram para refletir e aprofundar o alinhamento de metas que serão explicitadas no Projeto Político Pedagógico Missionário da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). O encontro foi realizado entre os dias 15 e 18 de junho, no Convento da Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Na manhã do dia 15, iniciamos o encontro com os coordenadores missionários dos colégios e os assessores pedagógico e financeiro da Rede. O momento foi conduzido pela Ir. Maria Percila e o assessor Agostinho Travençolo Junior. Nesse primeiro momento, fomos convidados a mergulhar na dinâmica trinitária. A oração nos levou a reconhecer nossa missão diante do mistério de Deus e renovar nosso papel como discípulos e discípulas de Jesus. Em seguida, fomos conhecer um pouco da história do Convento da Santíssima Trindade, para entendermos a missão da Congregação e nossa também. Irmã Maria Percila e Agostinho nos levaram a refletir sobre a pericorese, a dança trinitária, movimento contínuo no qual a Trindade se manifesta ao mundo e nos convida a ser um com eles, como uma ciranda, em que cada um tem seu papel, sua dinâmica pessoal, mas está no todo, sem perder sua identidade. “Por isso vem, entra na roda com a gente…”. Capítulo-Geral e as escolas O grupo refletiu maneiras de incluir nas escolas as diretrizes do Capítulo-Geral das SSpS, realizado em janeiro de 2022. Foi um momento muito rico e intenso. Com base em cada uma das diretrizes do capítulo, foram elaborados objetivos para que facilitem a compreensão e a execução da essência das diretrizes, destacando a importância de se internalizar em todos a identidade missionária de nossas escolas. Na parte da tarde, a equipe missionária se reuniu e se debruçou sobre o Projeto Político Pedagógico Missionário, o marco doutrinal. Foi um momento de muita discussão, aprofundamento e resgate de toda a reflexão feita na parte da manhã. Durante a elaboração do marco doutrinal, foi possível clarear a identidade fundamentada na espiritualidade trinitária e no carisma missionário. Após longas horas, o grupo e as irmãs chegaram a um esboço a ser apresentado, no dia seguinte, para todo o grupo de diretores e coordenadores. No dia 16, já com toda a equipe reunida, no momento da oração da manhã, a orientação para todo o dia de trabalho. Luciana e Lucas, coordenadores missionários dos colégios Stella Matutina e Sagrado Coração de Jesus, conduziram a dinâmica da partilha e da comunhão. Explorando o evangelho da multiplicação dos pães, fizeram-nos refletir sobre a importância de cada um no projeto missionário. Cada um é peça importante na proposta educativa da Rede e, juntos, somos mais fortes. João Carlos, assessor pedagógico, conduziu uma dinâmica de apresentação e nos falou sobre “A gestão educacional no mundo de hoje”. Refletiu sobre o processo da aquisição do conhecimento (significado e sentido) para que possamos (educandos e educadores) ser transformadores da realidade. Em sua fala, abordou também a importância de se compreender e vivenciar a identidade missionária, razão de ser da educação da Rede. Também na ocasião, tivemos um encontro riquíssimo com a professora Aleluia Heringer, que nos trouxe pistas para compreendermos o currículo evangelizador. Trazendo toda a sua experiência como diretora de escola católica, apresentou-nos, com base nos documentos do Papa Francisco, a importância de assumir verdadeiramente a proposta de uma educação evangelizadora nos dias de hoje. Uma educação integradora, que pense o ser humano a partir de uma conversão ecológica, pela qual nos reconheçamos parte, e não “à parte”, da Criação; estamos todos interligados. Projeto Político Pedagógico Missionário À tarde, a equipe da dimensão missionária apresentou para o grupo o esboço do marco referencial missionário e as diretrizes do XV Capítulo-Geral e sua “encarnação” nas escolas: implementar projetos pedagógicos missionários integradores e transversais; cultivar uma linguagem intimamente relacional; promover e agregar ações missionárias; redesenhar processos de gestão para que o novo possa surgir; recriar os vínculos afetivos em nossas comunidades educativas; oportunizar espaços/momentos de vivência holística das espiritualidades; abrir-se a um processo de flexibilização pessoal; experimentar um novo jeito de acolher; sistematizar as ações de conversão ecológica existentes; aderir a um estilo de vida sustentável. Em seguida, foram formados os grupos por segmentos. Cada um começou a discutir e elaborar o novo Projeto Político Pedagógico Missionário, com esse olhar mais voltado para nossa identidade missionária. No dia 17, o dia começou com a oração conduzida por Alisson e Alexandre, coordenadores missionários dos colégios Espírito Santo e Imaculado Coração de Maria. Eles trabalharam com base em palavras inspiradoras para cada participante do encontro. E assim, após a leitura do Evangelho do dia (“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”), convidaram os participantes a construírem, juntos, uma linda aquarela a partir do olhar de cada um, valorizando a diversidade. Irmã Fátima trouxe uma bela reflexão sobre “Olhar da Rede sobre as questões educacionais hoje”. Ela, mais uma vez, falou sobre a importância de compreender o que é uma educação missionária. Uma educação que deseja formar cidadãos realmente transformadores na sociedade. Que nosso aluno que começa lá no infantil, ao chegar no ensino médio, consiga perceber o caminho educativo-missionário percorrido por ele. O sucesso desse aluno deve ser sua capacidade de intervir e transformar sua realidade e a realidade daqueles que convivem com ele, cumprindo verdadeiramente o objetivo da educação missionária. Os grupos, divididos por segmentos, apresentaram suas análises para a elaboração do novo Projeto Político Pedagógico Missionário. A discussão levou ao entendimento da necessidade de se pensar a educação missionária permeando todos os segmentos, sendo o fio condutor entre os segmentos e suas propostas. Evitando, dessa forma, a existência de uma escola fragmentada. Outro momento importante foi o de experimentarmos o novo que se faz presente em nossas escolas, o desafio da educação maker. A assessora tecnológica Karla expôs problemas reais que se apresentam em nosso cotidiano escolar e como a proposta maker pode e deve nos ajudar a superar tais dificuldades. Compreendemos que a construção do saber de forma compartilhada é muito mais
Centro Educacional Madre Josefa: o carisma das SSpS no Complexo do Alemão

O Centro Educacional Madre Josefa (CEMJ) é uma creche sem fins lucrativos, localizada no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro-RJ. A obra social administrada pelas irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) foi fundada em 20 de maio de 2003, idealizada pela irmã Irmilde (Ana Katharina Smith). A patrona do CEMJ, a bem-aventurada Madre Josefa, cujo nome de batismo era Hendrina Stenmanns (1852-1903), é, ao lado de Santo Arnaldo Janssen, fundadora da Congregação das SSpS. A história de vida da religiosa é marcada pelos cuidados em favor dos mais necessitados. O CEMJ funciona em regime de externato misto, em turno integral. Hoje atende 80 crianças de 2 a 6 anos incompletos e em vulnerabilidade social. Destina-se à educação infantil e creche, e integra a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo. Como nas outras instituições administradas pelas irmãs, a filosofia de trabalho é inspirada na Santíssima Trindade, modelo de amor e comunhão. O IDH mais baixo A obra está localizada no bairro de Inhaúma, Zona Norte da capital fluminense. O lugar compõe o conjunto de favelas do chamado Complexo do Alemão. Segundo o censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de desenvolvimento humano (IDH) era de 0,711, o 126º e último colocado da cidade do Rio de Janeiro. A pesquisa ainda revelou que a população do bairro era de cerca de 60 mil habitantes, divididos em 21.048 domicílios, numa área de 21.982 km². O Morro emprestou seu nome ao Complexo, embora o personagem que inspirou a alcunha fosse, na verdade, um polonês. Leonard Kacsmarkiewiez, refugiado da Primeira Guerra Mundial e de nome difícil, logo foi apelidado pelos cariocas de “alemão”. Dessa forma, a área que era de sua propriedade passou a ser conhecida como Morro do Alemão. Um dos problemas mais graves na comunidade é a violência. Há uma constante tensão imposta pela disputa armada dos territórios dominados e silenciados pela violência física e psicológica. Mesmo assim, a obra social faz o possível para manter sua presença ao lado do povo, realizado projetos educacionais que visam à perspectiva de uma vida melhor. Desenvolvimento integral O Centro é o braço social do Colégio Imaculado Coração de Maria, também pertencente à Rede de Educação SSpS. Gilmara Solidade, coordenadora, explica que entre os muitos objetivos da ação educativa do CEMJ está o de contribuir para o desenvolvimento das relações interpessoais e da cidadania, por meio de atividades lúdicas. Além disso, a obra social busca enriquecer a autoestima dos educandos e familiares, e favorecer o conhecimento do mundo externo à comunidade, compreendendo e atuando em seu entorno social. Os trabalhos educativos, pastorais e sociais são baseados no patrimônio espiritual das SSpS. Os educandos recebem diariamente quatro refeições, reforçando o desenvolvimento nutricional. O Centro promove atividades pedagógicas e recreativas. Com foco na segurança emocional e no desenvolvimento pleno, as crianças são acompanhadas pelas professoras com formação em Pedagogia e por recreadoras. O grande desafio da obra social é manter toda a estrutura física e modernizar o espaço, para deixá-lo atualizado tecnologicamente e, assim, oferecer qualidade do ensino e aprendizagem. “Encontrei no CEMJ o acolhimento que tanto precisava e aqui descobri a especificidade do meu filho. Portador de TEA (transtorno do espectro autista) e TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), ele sempre foi incompreendido em outros espaços. O CEMJ me ajudou a aceitar a condição dele e a buscar tratamento. Só tenho a agradecer”, conta Mariman Moraes, mãe do pequeno Davi. Ana Katharina Smith (irmã Irmilde), SSpS, é a idealizadora do CEMJ. Teve atuação marcante no Complexo do Alemão durante mais de 20 anos. Conhecendo os desafios da comunidade, fundou a instituição para dar apoio às famílias que mais precisavam, gerando também emprego aos moradores. Todas as colaboradoras do CEMJ são moradoras do lugar. Em sua maioria, são o aporte financeiro de seu grupo familiar. Elas são incentivadas a estudar e a conquistar seu espaço, respeito e dignidade, assegurando o desenvolvimento de seu potencial.
A educação precisa ser para todos

Acesso? Qualidade? Inclusão? Palavras muito ouvidas e, constantemente, discutidas em nosso convívio. Mas o que tem a educação a ver com isso? Tudo! Atualmente, há como não perceber as inúmeras cenas de mudanças na sociedade global? O campo educacional, particularmente, tem se articulado para garantir o direito à educação de qualidade, fundamental para promover a formação cidadã, o desenvolvimento social dos estudantes e assegurar a dignidade da pessoa humana, valorizando toda a sua diversidade. Quando falamos sobre acesso à educação, não podemos simplificar ao significado pontual da palavra: ingresso, caminho, ato de chegar ou de se aproximar ou usufruir de algo. Não é como ter uma credencial e ter acesso a algum lugar ou a alguma coisa simplesmente. A Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (Lei n.º 9.394/1996) afirma que “é direito de todo ser humano o acesso à educação básica”, assim como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual estabelece que “toda pessoa tem direito à educação”. Ter acesso à educação, portanto, é a capacidade de todas as pessoas de terem oportunidades iguais na educação, independentemente da sua classe social, raça, gênero, sexualidade, origem étnica ou deficiência física e mental. Apesar da evidência do direito educacional, entretanto, ainda há uma grande parte da população brasileira que não tem acesso ao ensino público. E, nesse momento, acrescentamos a palavra qualidade à palavra acesso. Há àqueles que, mesmo tendo acesso ao ensino, não adquirem conhecimentos considerados essenciais, seja por insuficientes investimentos na formação dos docentes ou pela quase inexistência de comprometimento dos governantes com essa causa. Desse modo, aquele que tem o acesso não usufrui da qualidade. Corroborando essas afirmações, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4, voltado especificamente para educação, visa a assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida, para todos. Conjuntamente ao acesso e à qualidade da educação, temos o desafio de adotarmos uma postura inclusiva nos processos educativos. Postura essa que pressupõe a igualdade de oportunidades e a valorização das diferenças humanas, contemplando, assim, as diversidades étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais e de gênero dos seres humanos. À vista disso, as práticas escolares não devem ser adaptadas para alguns alunos, e sim transformadas em um ensino diferente para todos. Um ensino que garanta todas e quaisquer condições de aprender, em que as necessidades específicas não sejam ignoradas, mas que os educadores saibam quando e como usar recursos especializados para assegurar que todos aprendam. A educação dentro desse contexto vai muito além de garantir que as crianças e os jovens estejam na escola. Tem a ver com o direito ao desenvolvimento pleno e integral deles, e é nesse ponto que se destaca uma educação de qualidade. É importante mostrar que estando dentro da escola, o aluno será ouvido, valorizado, visto como único e, principalmente, construtor do seu conhecimento, dentro de suas capacidades e necessidades. A escola deve proporcionar oportunidade de desenvolvimento intelectual a todos os alunos, respeitando o tempo de aprendizagem de cada um e o modo como aprendem. Combinar o princípio da igualdade de oportunidades com o princípio da diferença fundamentará os propósitos de uma educação de qualidade, em que todos possam ser vistos com suas particularidades e que elas devem ser consideradas como diversidade e não como problema. “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução” (Malala Yousafzai, 2013). Liliane Alves BarcellosPedagoga, psicopedagoga e professora do 1º ano do ensino fundamental no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Escolas são guardiãs da tradição das festas juninas

No calendário das escolas de todo o Brasil, a chegada de junho vem acompanhada pelo colorido de vestimentas caipiras e das bandeirinhas que enfeitam pátios, salas e corredores. Em alguns casos, o período das festas juninas pode se prolongar até julho, em programações que valorizam a cultura, além de promover a alegria e a integração, sendo tudo isso parte do conteúdo pedagógico. A celebração tem suas origens em festividades da Europa que marcavam a passagem da primavera para o verão no Hemisfério Norte, sendo trazida para o Brasil por influência dos portugueses do século XVI. As danças, músicas e comidas que conhecemos hoje evidenciam a mistura de elementos típicos do interior do País e de tradições sertanejas, forjadas pela mescla das culturas africana, indígena e europeia. “A cristianização da festa está diretamente relacionada ao estabelecimento de comemorações de importantes figuras do catolicismo, entre as quais se destacam Santo Antônio (homenageado em 13 de junho), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29)”, informa o portal Brasil Escola. Nas escolas das missionárias servas do Espírito Santo, essa tradição também vem de longa data, sendo um dos eventos mais aguardados por toda a comunidade escolar. Danças de quadrilha junina, as brincadeiras e o casamento caipira são algumas das atividades que ficam na memória de quem participa dessas festas. Saiba como é esta prática nos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Santa Maria (Cascavel-PR), Espírito Santo (São Paulo-SP) e Espírito Santo (Canoas-RS). Festejos têm caráter pedagógico Dentro de seu planejamento pedagógico, o Colégio Imaculado Coração de Maria entende que valorizar as tradições culturais deste imenso país junto às gerações mais novas é proporcionar acesso à riqueza, beleza e diversidade dos povos originários, povos africanos e europeus. “O Brasil possui como característica reconhecida a multiculturalidade, o que nos enche de orgulho. E trazer uma festa tipicamente campestre para a cidade é dar visão, valorizar e respeitar os traços e costumes típicos desses brasileiros que transformam, em cores e passos vibrantes, as noites das festas juninas do interior do País”, assinalam os educadores. Por isso, a tradicional festa junina da escola não se resume apenas a ensaios, danças e barraquinhas. Engloba um estudo sobre esse Brasil, aparentemente distante, que colocou em evidência artistas como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, além de aspectos culturais e a beleza das festas de Caruaru-PE e de Campina Grande-PB, com seu teto colorido de bandeirinhas, quadrilhas, xotes, baiões e a história da força do povo sertanejo. “Esses valores são passados e debatidos com os alunos, durante as aulas em sala, e depois trazidos aos ensaios, quando professor e aluno fazem uma união entre as músicas mais tocadas nas áreas urbanas com as músicas marcadas por zabumbas, triângulos e sanfonas, para daí saírem as danças que abrilhantam nosso evento”, afirmam os professores do Colégio Imaculado Coração de Maria. A coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Espírito Santo (CES) de Canoas, Elen Zimmermann, ressalta, inclusive, que as festas juninas integram a competência de Repertório Cultural na Base Nacional Comum Curricular: “Na BNCC, entra toda a parte cultural e de festividades que caracterizam cada Estado do País. Fazemos o estudo das regiões para fundamentar a festa com essas informações. Já trabalhamos como temática a biografia de Luiz Gonzaga e Elba Ramalho, por exemplo”. Essa competência da BNCC estabelece como fundamental que os estudantes conheçam, compreendam e reconheçam a importância das diversas manifestações artísticas e culturais, propondo a participação deles em práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Outro aspecto pedagógico é a mescla da festa junina com projetos escolares e eventos como a Copa do Mundo, propondo conexões ainda mais amplas. “A festa junina é uma tradição no CES. É uma atividade muito esperada, cheia de alegria, dança, gostosuras e descontração. Aproveitamos a oportunidade para enfatizar o programa Líder em Mim, desenvolvendo os princípios dos sete hábitos trabalhados com os alunos, colocando-os em ação, de forma a desenvolver a proatividade, a estabelecer o que é mais importante, pensando o ganha-ganha, além de criar sinergia na organização, nos ensaios e na apresentação das danças”, comenta Adriana Maciel, coordenadora pedagógica do ensino fundamental I do colégio gaúcho. Também no Colégio Santa Maria, em Cascavel, a professora Rosangela Maria de Oliveira Bueno, do ensino fundamental, conta como a programação envolve todo um trabalho multidisciplinar: “As festas juninas fazem parte do calendário letivo e são momentos para o desenvolvimento de muitas atividades lúdicas, além de uma valiosa oportunidade para que os professores ensinem conteúdos relativos a diferentes disciplinas, como Geografia, História, Artes e Educação Física. O evento contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, principalmente nas crianças, possibilitando a integração entre todos os envolvidos, e estimula competências impactantes para a socialização, como cooperação, paciência e respeito”. Presença da família e da comunidade A alegria das festas juninas é algo que empolga não somente os estudantes, mas também seus familiares e, em alguns casos, ex-alunos e a comunidade vizinha às escolas. “Nossa festa junina é referência no bairro, pois é um momento em que várias gerações do Colégio Imaculado Coração de Maria se reencontram para aproveitar o festejo e participar da tradicional dança de quadrilha dos ex-alunos”, dizem os professores. O evento inicia com uma procissão, tendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida à frente, levada por um colaborador, seguida pelos estandartes dos três santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro. “É lindo ver toda a comunidade escolar atrelada a esse momento em que se celebra também nossa fé. Nós, educadores deste grande colégio, colocamos nosso saber e nosso coração em prol de uma educação verdadeira, que desenvolve a empatia, o respeito e o reconhecimento por esse patrimônio cultural que são as festas juninas”. No Colégio Espírito Santo, na capital paulista, um dos propósitos também é essa integração. “A nossa festa junina significa família, diversão e tradição. É um dia cheio de brincadeiras populares, comidas típicas e danças, que dão um toque de beleza. É um momento no qual as crianças apresentam o que aprenderam e resgatam o que
É caminhando que se faz o caminho

Lideranças e gestores dos colégios, acompanhados da assessoria da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS), estiveram reunidos entre os dias 10 e 12 de março, no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. O encontro teve como lema “É caminhando que se faz o caminho”. O objetivo foi construir e fortalecer os caminhos para o desenvolvimento de lideranças, analisar e planejar a comunicação, a dimensão missionária, a sustentabilidade financeira e tratar sobre temas educacionais. Os momentos de oração no início do dia promoveram o desenvolvimento da espiritualidade, com técnicas de bibliodrama, música, dança e interação entre os participantes. A psicóloga Aline participou virtualmente. Ela enfatizou a importância de cada líder fazer seu ideário para que desenvolva o autoconhecimento e aprimore sua atuação nos colégios. A equipe da Árvore de Comunicação apresentou uma retrospectiva da caminhada da comunicação e traçou novas diretrizes para os colégios, considerando as novas demandas no cenário educacional. Um momento muito especial foi a apresentação, pelas irmãs Maria Percila e Fátima Marques, do Capítulo-Geral das da Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. O documento, elaborado em Roma por irmãs do mundo todo, apresenta as diretrizes para os próximos anos e ressalta a importância do leigo missionário junto ao trabalho das religiosas. O grupo, mediado pelo assessor da Dimensão Missionária, Agostinho Travençolo Junior, também refletiu sobre o papel da escola católica na educação e sobre o diferencial de nosso Projeto Político-Pedagógico, que também é missionário (PPPM). Cada colégio apresentou seu panorama financeiro e as metas do número de alunos. Com esses dados, fizeram uma análise crítica sobre os desafios da sustentabilidade financeira para 2022. Quanto às temáticas pedagógicas, o grupo discutiu e elaborou um cronograma de formação para os educadores neste ano. Também refletiu sobre os rumos do novo ensino médio. No sábado, na conclusão do encontro, cada participante avaliou as ações necessárias para continuar a caminhada, renovados e inspirados por tantas reflexões e partilhas num grupo que está construindo novos caminhos para a Rede de Educação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Pricila SperaGestora Administrativa do Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP.
Sempre é tempo de recomeçar

O início de um ano letivo reacende em cada um novos sonhos, projetos e a certeza de novos tempos. A energia e os desejos que emanam de nossos alunos, familiares e educadores para o retorno das aulas presenciais é a grande motivação da missão educativa em nossas escolas. Com a chegada da vacinação para as crianças e adolescentes, público principal de nossas comunidades, podemos respirar mais aliviados e contar com um retorno mais seguro para todos, afinal, nossas escolas mantêm, de modo educativo, os protocolos de segurança exigidos pelos órgãos de saúde. Contudo, ainda fazem parte (e de forma justa) de nossas indagações dúvidas tais como o que muda, com o que precisamos estar atentos, como reintegrar nossos estudantes, quais os cuidados. Para contar como foi este início em nossas escolas, convidamos nossas diretoras e coordenadoras pedagógicas das unidades da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo para partilharem como foi o retorno em cada realidade e ajudarem a pensar este recomeço, ainda diferente. Colégio Sagrado Coração de Jesus Desde 2020, mesmo com a possibilidade de retorno, alguns estudantes precisaram ficar em casa. Já agora, por uma determinação da Prefeitura de Belo Horizonte-MG, o retorno presencial foi para todos aqueles abaixo de 5 e acima de 11 anos. Por isso, este ano começou alegre e cheio de expectativas no Colégio Sagrado Coração de Jesus. Mais seguros com as doses de vacina aplicadas, alunos e alunas puderam se reencontrar presencialmente com todos os professores. Isso permitiu mais acolhimento, mesmo que os tempos ainda exijam segurança, cuidado e muita empatia. A semana teve o seu início com a apresentação das salas de aula para as turmas, visita pelo colégio com os novatos e dinâmicas de união com todos. Já começaram as reuniões com os pais e, desde já, ficou bem nítida a expectativa positiva com todas as boas mudanças que estão sendo implantadas: desde os trabalhos com a cultura maker até as aulas extracurriculares de esportes, banda de música, teatro, mudanças no processo avaliativo. Ana Amélia Rigotto Fernandes é diretora pedagógica do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. Centro Educativo Madre Josefa Após merecidas férias e depois de dois anos de superação de desafios e reconstrução de nossos saberes, aguardamos nossos alunos e seus familiares para mais um ano letivo no Centro Educativo Madre Josefa, no Rio de Janeiro-RJ. Um retorno muito animado, com 100% de nossos colaboradores com o esquema vacinal completo contra a covid-19 e a confiança em cada grupo familiar para contribuir, de forma responsável, para o convívio em um ambiente escolar saudável. O reencontro dos olhares motiva as expectativas pelas atividades presenciais plenas, fundamentais para recuperar os possíveis desnivelamentos de aprendizagem que ampliaram o abismo na educação dos menos favorecidos. Por esse motivo, estamos confiantes em que o retorno da missão na educação faz toda a diferença nesta comunidade. Gilmara Solidade é coordenadora do Centro Educativo Madre Josefa, no Rio de Janeiro-RJ. Colégio Espírito Santo Em um clima de expectativa e muita alegria, o Colégio Espírito Santo iniciou, em 31 de janeiro, o ano letivo de 2022. Depois de um período de férias, energias renovadas, é hora de professores e alunos se conhecerem, e de retomar os estudos e a convivência entre os colegas. O colégio, durante o período de férias, recebeu toda a atenção da equipe de manutenção e conservação, que repaginou alguns espaços e está prontinho para ser o palco de muitas experiências de aprendizagem e interação entre a comunidade escolar. Nestes primeiros dias de aula, os professores acolheram os alunos com dinâmicas interativas e muita animação para promover o aprendizado dos estudantes. Ainda vivemos um cenário pandêmico que requer a manutenção dos protocolos sanitários recomendados pelas autoridades da saúde, como o uso de máscara, higienização das mãos e dos ambientes, e o compromisso de todos para cumprir esses protocolos e conter o avanço da covid-19. A equipe pedagógica está preparada para diagnosticar as diferentes demandas pedagógicas dos estudantes e fortalecê-los emocionalmente. Sabemos o quanto a pandemia impactou pedagógica e emocionalmente os estudantes, mas, com um olhar sensível e seguindo o lema da Campanha da Fraternidade 2022, “Fala com sabedoria, ensina com amor”, temos a certeza de que 2022 será um ano de muito aprendizado, superação e alegrias. Clarice Aparecida Monreal P. Cavalcante é diretora pedagógica do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Centro Educacional Madre Theresia Para a comunidade educativa do Centro Educacional Madre Theresia, em São Paulo-SP, as primeiras semanas foram muito especiais, repletas de alegria, emoção, cuidados e grandes expectativas. O novo ano letivo favorece novas experiências e aprendizagens. Ainda sob os impactos da pandemia, estamos nos adequando a um novo jeito de viver, mantendo todos os cuidados necessários para assegurar a saúde de todos. Diante deste cenário desafiador, contamos com a confiança, a colaboração e a parceria de toda comunidade educativa em prol de uma formação integral para as crianças. A equipe pedagógica está atenta às necessidades de cada criança para promover seu pleno desenvolvimento e bem-estar. Este é o nosso compromisso: educar com amor para construir uma sociedade justa, humana e fraterna. Maria Angélica é diretora do Centro Educacional Madre Theresia, em São Paulo-SP. Colégio Imaculado Coração de Maria A pandemia do coronavírus causou várias mudanças nas escolas de todo o mundo, impactando as formas de ensinar e aprender, além das relações entre as pessoas. Com muita satisfação, nos dias 1º e 2 de fevereiro, retornamos com a equipe docente e, no dia 3, com nosso alunado, 100% presencial. Desejávamos isso, porque resgatar o valor e a importância do espaço físico da escola como um lugar de vida, aprendizado e desenvolvimento é fundamental. Porém é certo que teremos de continuar praticando os mesmos cuidados voltados para saúde bem como para o bem-estar emocional de toda a nossa comunidade educativa. O trabalho da psicóloga educacional Giovanna Augusto, dando conforto e orientando alunos, familiares e profissionais, e de toda a equipe pedagógica com sua acolhedora atuação, e também o nosso quadro de funcionários totalmente vacinado com as 2ª e
“Fala com sabedoria e ensina com amor”: nosso tema transversal em 2022

O tema transversal, escolhido a cada ano pelos educadores da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, tem grande relevância ao iluminar, por meio dos valores cristãos e humanos, todos os projetos pedagógicos- missionários nas escolas e centros educacionais. No ano em que a Campanha da Fraternidade (CF) traz ao centro a Educação, o lema “Fala com sabedoria e ensina com amor” será o mote de nosso ano letivo. A educação sempre foi uma das grandes preocupações de educadores, pensadores e da Igreja; por esse motivo, ela volta à pauta neste delicado momento político vivido em nosso país, em que os atuais governantes optaram pelo descaso. Em 1982 e 1998, a Campanha da Fraternidade já nos chamava a atenção para a relevância do tema. Após 24 anos da última campanha, colhemos muitos frutos, porém ainda não chegamos aonde apontam nossos olhares para a educação que desejamos. Nesse sentido, o objetivo geral da CF nos convida a “promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”. O diferencial desta campanha é de nos ajudar a olhar, de forma integral, a educação e a vida. Em meio a um momento ainda de pandemia, pensar uma educação integral é pensar uma educação que vai além da sala de aula e que apresente a vida como mestra e educadora. Uma educação que aponte caminhos que, com um olhar misericordioso, levem além do aprofundamento científico, que é muito importante, principalmente em momentos negacionistas, mas que perde o sentido se desvinculado dos valores da vida, capazes de gerar um mundo novo. Nascemos abertos ao aprendizado e é fundamental que entendamos, de uma vez, que não somente a escola formal nos constrói como pessoas, e sim todas as situações que nos humanizam. Para isso, torna-se imprescindível apontar caminhos que busquem a reflexão/ação sobre políticas públicas, valores, educação humanizadora, o papel da família no processo educativo, a dignidade humana e o compromisso com uma nova economia que coloque a vida no centro, em especial, dos mais pobres. Pensar novamente sobre a importância da escola de qualidade para todos e da valorização da sabedoria ancestral que sustenta a educação que acreditamos torna-se, outra vez, o grande convite para todos os setores da sociedade, afinal é necessária uma tribo para se educar uma criança, como lembra o provérbio africano. Por fim, se acreditamos que a qualidade de nossa presença educa e educar é um ato de amor e esperança no ser humano, cultivemos a cultura de encontros marcantes e transformadores, enfim educar é relacionar-se por inteiro. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias SSpS.
Educar para o direito à liberdade religiosa

No Brasil, o direito à liberdade de religião ou crença é previsto pela Constituição Federal. A legislação garante o livre exercício de cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Em nosso país, também celebramos anualmente, em 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, com o objetivo de promover o diálogo inter-religioso, a tolerância e o respeito, além de alertar as pessoas sobre esse problema gerado pelo desrespeito às diversas crenças existentes no mundo. Apesar das incessantes lutas pelo direito à liberdade religiosa e a garantia de direitos constitucionais, a desinformação e a falta de educação acerca da diversidade religiosa da sociedade brasileira é o principal fator gerador da intolerância religiosa. O preconceito nada mais é do que um juízo preconcebido de algo que se desconhece, e é dessa forma que a intolerância religiosa cresce na sociedade. Por meio do conhecimento, é possível romper essas barreiras. A educação é a mais eficaz forma de combate às diversas formas de intolerância e preconceito. O indivíduo que for educado e conscientizado acerca da importância do respeito ao próximo e à diversidade religiosa do País seguramente contribuirá para a construção de uma sociedade mais inclusiva e justa. Pela educação religiosa, é possível promover o diálogo entre as mais diversas crenças e religiões na percepção de que, independentemente das formas diferentes de expressarem a fé, existe um elo que as une, seus princípios de bondade, liberdade e amor. O outro é diferente, tem certamente outras referências e experiências culturais, porém, pelo encontro e o diálogo, é possível eliminar as distâncias e condicionamentos que levam ao isolamento, indiferença ou irresponsabilidade, para harmonizar as diferenças e interagir. Evidenciada a urgente necessidade de uma cultura do encontro, o Papa Francisco exorta a educação católica a promovê-la, de modo que possa ser uma proposta de esperança e confiança para nosso tempo. Em um de seus discursos, enfatiza que “as mentes e os corações devem estar em harmonia na busca do bem comum universal e na busca do desenvolvimento integral de cada pessoa, sem exceções ou injustas discriminações”. Essa reflexão do Santo Padre diz muito sobre a importância de uma formação integral dos educandos, para que estejam comprometidos com a realidade social, os valores, a moral e a ética. Nesse sentido, o Ensino Religioso se destaca na promoção de uma educação aberta à transformação sociocultural que forma cidadãos que compreendem os processos sociais, desenvolvendo atitudes de escuta, respeito e serviço na perspectiva de uma formação que contemple a cultura do diálogo e do encontro. Esse diálogo deve ser amplo e aberto com todas as pessoas: o diálogo ecumênico, inter-religioso, com os não crentes, com as ciências, com a economia, a política, a arte, etc. O Ensino Religioso tem esse importante papel de encontrar-se com aqueles que têm outras opiniões e diferentes opções, sem abdicar os próprios princípios, valores e convicções. Proporciona um encontro autêntico que não coloca em risco a própria identidade, mas a enriquece com aquilo que o outro oferece. Pela dinâmica do diálogo (que requer falar e ouvir, receber e dar), dá-se o reconhecimento do outro como alguém valioso, que tem algo a oferecer. Diante dos desafios e incertezas enfrentados pela humanidade, o Ensino Religioso busca novos e criativos caminhos que conduzam ao diálogo e ao encontro, olhando para o próximo como irmão. É fundamental educar crianças e jovens sobre todas as doutrinas religiosas e, principalmente, sobre a relevância do respeito a todas. O saber é fundamental para a liberdade dos indivíduos. É a educação que, de forma eficaz, combaterá esta grave “doença” social, a intolerância religiosa, que fere e desrespeita tantos direitos fundamentais, e construirá o respeito à diversidade religiosa existente no País. Mariana Botelho CoimbraProfessora de Ensino Religioso do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.