Por que esta semana é santa?

A Semana Santa é um tempo de vivência profunda da fé, no qual acompanhamos de maneira intensa o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus, especialmente na Sexta-Feira Santa, no Sábado Santo e no Domingo de Páscoa. Este ano, no entanto, a Semana Santa será completamente diferente dos outros anos. Com a pandemia provocada pelo coronavírus, não poderemos participar das celebrações nas igrejas… Não haverá a missa do Lava-pés na Quinta-Feira Santa… Não haverá a adoração da cruz nem a celebração da paixão de Jesus na Sexta-Feira Santa… Tampouco haverá a Vigília Pascal com a bênção do fogo e a entrada triunfante do círio pascal. Também não teremos a missa do Domingo de Páscoa… Então, como esta semana será santa? Como vamos viver a nossa fé e celebrar o ponto culminante da vida cristã que é a Páscoa? Talvez, este momento de sofrimento que atinge todos os países, seja uma oportunidade de participar do mistério da paixão de Jesus, oferecendo nossa dor, nossas incertezas e perdas, a solidão do isolamento, o medo e a angústia que sentimos, unindo-nos ao sofrimento de Jesus para o resgate de toda a humanidade. Viver esta Semana Santa na fé é um grande desafio, mas somos convidados a fazer de nossa casa uma Igreja doméstica, a reunir nossa família e acompanhar pelas TVs católicas as celebrações das missas. Em comunhão espiritual, podemos nos unir a Jesus no dom de sua entrega total e rezar por todos os que estão sofrendo nos hospitais, e também por tantas pessoas que, a exemplo de Jesus, estão colocando a própria vida em risco para cuidar dos doentes ou prestar serviços essenciais. O que celebramos na Semana Santa é justamente o mistério da vida de Jesus e seu amor infinito, que se doa até o fim. É o esvaziamento do Deus que veio ao mundo como criança, ensinou o mandamento do amor e mostrou que é possível, em nossa humanidade, aproximar-nos do Pai e nos acolher como irmãos e irmãs, por que, em Deus, somos todos um. Mas talvez esta realidade ficou esquecida e foi necessário que um vírus invisível viesse nos mostrar que de fato somos um e o que acontece com os demais também nos atinge. A ressurreição de Jesus é a confirmação de tudo quanto Ele fez e ensinou. É o cumprimento da promessa da salvação de Deus que, em Jesus, liberta-nos da morte e nos convida a participar da vida plena. Mas, para chegar à ressurreição, Jesus enfrentou o sofrimento e a morte na Cruz. Nós também superaremos esta crise! Que Deus nos ajude a aprender de tudo o que estamos passando. Que Jesus nos dê a força da solidariedade para viver também o mistério da paixão, morte e ressurreição de toda a humanidade. Quinta-feira Santa Na verdade, o Tríduo Pascal começa na noite da quinta-feira, quando a Igreja recorda a última ceia de Jesus com os seus discípulos. Nessa missa, há o rito do lava-pés, em que Jesus revelou o caminho do serviço e do cuidado com o próximo. Conforme narra o Evangelho de São João, durante a refeição, Jesus pôs um avental, pegou uma toalha e lavou os pés dos seus discípulos. Depois os convidou a fazer o mesmo. Também lembramos a instituição da Eucaristia, quando Jesus, durante a ceia, tomou o pão e o vinho, e os deu aos discípulos, dizendo que eram o seu corpo e o seu sangue. Em todas as missas, fazemos a memória de Jesus, quando o padre consagra o pão e o vinho, que se tornam o corpo e o sangue de Cristo. Após a ceia, Jesus foi ao Monte das Oliveiras, ou Getsêmani, e, sabendo o que estava para acontecer, colocou-se em oração diante do Pai e pediu que afastasse o cálice da dor e da morte, mas se entregou totalmente, dizendo “Faça-se a tua vontade e não a minha”. Naquela mesma noite, Jesus foi preso, humilhado, maltratado… Nas igrejas, no fim da missa dessa noite, o Santíssimo Sacramento é retirado do sacrário e levado para outro local, onde a comunidade fica em adoração. Sexta-feira da Paixão Recordando a paixão e a morte de Jesus, que ocorreram na sexta-feira, os católicos fazem um dia de jejum e oração. Acompanhamos a Via-Sacra de Jesus, desde seu julgamento injusto e condenação à morte, sua flagelação e o caminho até o calvário, carregando a cruz de todas as maldades humanas. A Sexta-Feira da Paixão está muito presente na religiosidade popular, pois, diante de todas as dificuldades que o povo enfrenta para sobreviver, identifica-se com Jesus sofredor. No Senhor, encontra forças e esperança para suportar os desafios da vida. Nas igrejas de todo o mundo, os católicos se reúnem pelas três da tarde para rezar na mesma hora em que Jesus morreu na cruz. É o único dia do ano em que não se celebra a missa. Não se tocam instrumentos musicais e até o altar fica completamente despojado. É feita a narração da paixão de Jesus e se reza por todas as situações do mundo. Na adoração da Cruz, os fiéis se aproximam e beijam o crucifixo. É costume também haver a meditação da Via-Sacra pelas ruas, muitas vezes com encenações, acompanhando os passos de Jesus até o calvário. Na Via-Sacra, rezamos também por todas as pessoas que sofrem injustamente ou são perseguidas, pela superação das forças da morte que oprimem a humanidade, como a fome, o desemprego, a falta de sentido, a falta de saúde, de moradia e tudo o que destrói a dignidade humana, como o abuso sexual, as drogas e tantos outros. Também recordamos Maria, a mãe de Jesus, que o acompanhou em todos esses momentos, entregando-o a Deus. Em seu sofrimento, ela foi corredentora. Em muitas comunidades, há a tradição de rezar as sete dores de Maria. Sábado Santo No Sábado Santo, nós lembramos Jesus na sepultura. É um dia de silêncio e reflexão. Somos convidados a experimentar o vazio e refletir sobre tudo o que Jesus fez e significa em nossa vida. Na
Tempo de ajudar Deus a carregar a cruz

Quando no incêndio que, em 1519, destruiu a Igreja de São Marcelo al Corso o crucifixo saiu ileso, o povo romano tomou nota. Tanto que, três anos mais tarde, quando a cidade foi atingida pela peste, o crucifixo foi levado em procissão por 16 dias, pelas ruas de Roma. A cada dia, o contágio regredia e, quando ele voltou a São Marcelo, a peste tinha desaparecido. Esse mesmo crucifixo foi exposto na sexta-feira, 27 de março último, ao dilúvio da noite romana, como arma simbólica contra o novo coronavírus. As câmeras demoravam sobre o busto antigo do Cristo, regado pelas gotas. Só na Itália estavam ligados aproximadamente 8 milhões de televisores. As imagens estavam perfeitas, e os comentários dos repórteres: oh, que poder de imagem! Oh, as lágrimas do céu se unem às do povo! Oh, trágica maravilha! Parece que o crucifixo está muito danificado, talvez irremediavelmente danificado. Dizem que a madeira pode explodir. Esse crucifixo que tinha vencido o fogo e a peste cai por uma chuva romana no fim de março. Homens de máscaras fazem o triste depoimento. E será que esse não é o verdadeiro sinal e o penoso trabalho de decifrá-lo: talvez Deus esteja tão cansado, talvez devêssemos consolá-lo? Essas frases de Leonardo Lenzi e a foto me tocaram profundamente. Lembrei-me de um dos pensamentos de Etty Hillesum, a jovem judia cujos diários e cartas descrevem a vida em Amsterdã, durante a ocupação alemã. Nascida em 1914 na Holanda, foi morta em novembro de 1943, no campo de concentração de Auschwitz. “Quero ajudar, Deus, para que você não me abandone, mas não posso garantir nada com antecedência. Apenas uma coisa está ficando cada vez mais clara para mim: que você não pode nos ajudar, mas que temos que ajudá-lo e, no final, nos ajudarmos. É a única coisa que importa: salvar um pedaço de ti dentro de nós mesmos, Deus. E talvez possamos ajudar a ressuscitar-te nos corações aflitos de outras pessoas. Sim, meu Deus, parece que também você não seja capaz de mudar muito as circunstâncias, elas simplesmente fazem parte desta vida… E, quase com cada batimento cardíaco, fica claro para mim que você não pode nos ajudar, mas que temos que ajudá-lo e defender, até o fim, sua morada dentro de nós.” Talvez, nestes tempos, seja realmente necessário ajudar Deus a carregar a cruz. Ajudá-lo, defendendo sua morada dentro de cada um, cada uma. Ajudá-lo para que sua presença volte a ser lembrada e sentida. Ajudá-lo para que o corpo possa voltar a ser digno e sagrado. Ajudá-lo para que o corpo humano possa ser compreendido como parte do corpo cósmico, digno e sagrado. Que, nesta Semana Santa, possamos ajudar Deus a levar cada um, cada uma mais perto de si e dos outros. Assim nos aproximaremos do Divino. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.)
No país de Alice…

Este desenho é de uma mineirinha que completou 5 anos em plena quarentena. Alice desenhou e trouxe para dentro da bolha seu universo imaginário e particular. Seu desenho despretensioso e espontâneo nos mostra, com sensibilidade e ingenuidade, o alcance dessa vivência pandêmica nela e no mundo que a rodeia. Novamente as crianças nos mostrando o caminho… Vamos nos proteger, vamos para a bolha, só que não mais uma bolha solitária. Agora estamos diante de uma bolha solidária. Vamos enxergar o que vier. De braços abertos, na certeza de que, com esperança e alegria, isso um dia vai passar. Não vamos parar de fazer o que a gente gosta e precisa, vamos aprender fazer de um jeito novo e diferente. Do lado de fora da bolha, há um rabisco acidental que aparentemente nada é. Com os olhos de Alice, vou enxergar o que vislumbro nesse rabisco exterior: – a força daqueles que precisam sair porque ocupam posições estratégicas, independente de hierarquias, todos, cada um, fazendo o essencial; – a fé e a ciência, lado a lado, inspirando-nos, consolando e encontrando saídas; – a teimosia dos que não se cansam de estender as mãos, de forma solidária, mesmo que agora, mediado por cuidados e equipamentos de proteção; – um emaranhado de ideias que não cansam de prospectar um futuro diferente, talvez até melhor e com mais integralidade; – os efeitos de uma globalização sentida na pele; – a arrogância e ignorância de muitos que insistem em manter velhas perspectivas; – um contexto inaceitável de injustiça social; – um esgotamento planetário, entre outras linhas tão cruéis. Esse rabisco inacabado, que é a realidade do lado de fora, a vida como ela é, deixa no ar uma sensação de ruptura e um traço de continuidade que vamos ter de escrever. Que saibamos reinventar a vida no planeta Terra, em nome de Alices, Pedros, Rodriguinhos, Lucas, Valentinas e de tantas crianças que estão aí, acreditando nos adultos que as cercam. Que saibamos, em nome de nossas crianças, em nome de Miguel e Arthur, que acabaram de nascer, e de Lucca que está por vir, redimensionar nossos projetos de vida, nossas convicções e nossas atitudes. O que virá vai depender de todos, de cada um. “Vamos lá fazer o que será!” P.S.: se puder, fique em casa. Abril de 2020 Maria José Brant (Deka), assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Como vai a temperatura de sua ansiedade?

Nestes tempos de reclusão forçada, é comum aparecer a ansiedade como fator que nos desestabiliza emocionalmente. Ela é resultado do medo, da ameaça que o novo coronavírus espalha. A ansiedade é um sentimento frequente em nossa vida. Ela pode emergir em nosso psicológico e repercutir sobre o nosso físico, tornar-se geradora de insegurança e de certo mal-estar. É um sentimento de alerta, podendo chegar ao ponto de nos paralisar. Ela, contudo, pode ter um caráter positivo enquanto dá energia e ajuda a enfrentar problemas. Pode ser negativa quando seu nível ultrapassar nossa capacidade de autocontrole, criando fantasmas assustadores. Quando atinge nosso físico, pode provocar tremedeiras, taquicardias, dor de barriga, dores várias pelo corpo; repercute em nosso comportamento, com manifestações em forma de nervosismo, agitação e ritualismos repetitivos. Pode comprometer o apetite ou fazendo comer demais ou não ter vontade nenhuma de comer. Pode perturbar o sono, trazendo a insônia; nosso humor pode ficar afetado por descontroles emocionais e nos fazer surtar. A ansiedade pode ser normal ou neurótica. Normal é aquela que a suportamos diante das situações ameaçadoras, sem perder o autocontrole. Torna-se neurótica quando rompe os limites e gera fobias ou nos deixa num estado de insegurança que parece nos destruir. O inimigo se torna maior do que é na verdade. Tendemos a exagerar. A ansiedade, que se torna neurótica, em geral, é despertada por um “inimigo” invisível que se esconde dentro de nós. Não conseguimos identificá-lo nem fugir dele porque, aonde vamos, ele vai junto. Esse tipo é frequentemente de origem inconsciente, ligado a experiências já vividas no passado. Aquilo que, na Psicologia, chama-se “memórias afetivas”. Isto é, uma experiência emocional que tenha sido intensa, traumatizante, ou menos intensa, porém prolongada por muito tempo, como falta de afeto, tais experiências deixam dentro de nós seus resíduos emocionais que poderão ser revividos diante de ocorrências semelhantes. Podemos esquecer os fatos, mas não as emoções vividas em relação a eles. A ansiedade decorrente disso pode aparecer em momentos de fragilidade emocional. Situações parecidas já vividas facilitam vir à tona com mais facilidade, associando-se umas e outros, manifestando-se num estado emocional de ansiedade aguda. Deixando esse assunto que mereceria mais considerações, vamos ver algumas maneiras para lidar com a ansiedade, seja ela de origem atual ou antiga. Cinco passos que podem ajudar: 1º – Tomar consciência, reconhecer e admitir quando nos sentimos ansiosos. Negar será pior. 2º – Identificar o que a está provocando, isto é, olhar para a realidade que está nos cercando neste momento. Por exemplo, coronavírus, gerador de ameaça. Ele pode despertar a ansiedade por mexer com nossa segurança. Medo de contraí-lo ou que alguém da família contraia. 3º – Verificar se há raízes mais profundas. Fatos já vividos no passado que se associem com a situação atual. Por exemplo, alguém que já passou pela experiência de doença com consequências dolorosas. O medo de revivê-las pode despertar a ansiedade. 4º – Não cair em sua arapuca. Isto é, não se deixar dominar por ela, sendo objetivo e realista, que significa ter consciência clara do que está acontecendo e assumir posturas realistas. Exemplo, em relação ao vírus, ter consciência de que essa pandemia exige cuidados diferentes daqueles que estávamos habituados. Ter precauções adequadas. Sabendo que, mesmo no caso de contrair o vírus, há recursos disponíveis que vão ajudar a superá-lo. Ele não é sentença de morte! 5º – Canalizar suas energias para alguma atividade na qual possa descarregar sua tensão: por exemplo, exercícios físicos. Sendo criativos, inventando algo, usando o tempo com coisas úteis e agradáveis, compartilhando a experiência com outros. Nesses dias, recebi um áudio em que uma mãe dizia: “Surtei, não aguento mais esta situação!”. Ela falava das crianças irrequietas dentro de casa, cada momento com uma solicitação. E ela, mãe, sentia-se esgotada por não saber lidar com a situação. Implorava para que as crianças voltassem às aulas logo. Essa reação diante da ansiedade, ao invés de diminuí-la, a aumenta, porque a pessoa se põe na condição de perdedora. Vale aqui a primeira recomendação: reconhecer e admitir, e seguir os outros passos. Manter-se consciente de que isso tudo vai passar, não vai ocupar todos os dias de nossa vida. O tempo de isolamento é também oportunidades de novos aprendizados. Que a ansiedade não supere sua capacidade de contrarreação, subordinando-a a seu controle. Meça qual é a “temperatura” de sua ansiedade neste momento. Coloque freio nela. Compartilhe sua experiência com outros. Estamos no mesmo barco, e ele não vai afundar porque o mar está agitado. Estamos ansiosos juntos! Paz e bem! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Dulce dos Pobres, a CF 2020, o coronavírus e o povo da rua…

Aproxima-se a Semana Santa. Tempo privilegiado para passar a limpo nossos planos individuais, mas também as ações conjuntas da sociedade, os projetos de governo e seus resultados. Mais do que nunca, o critério de juízo proposto por Jesus, de que “pelos frutos se conhece a árvore”, recai sobre nós, em terra brasileira e ao redor do mundo. Só não vê quem não quer. A plenitude do Paraíso que Jesus nos entregou com seu sacrifício na Cruz somente se fará presente o dia em que todas e todos tiverem acesso aos bens que o Pai Misericordioso colocou à disposição de cada ser humano e que tem sido negado ou cerceado à maioria dos cidadãos e cidadãs do planeta. A ganância e a cobiça, os joelhos dobrados diante do deus capital fazem deste mundo um “paraíso” para uma minoria e um inferno cotidiano para a maioria. Um dos ícones que orientou a Campanha da Fraternidade foi nossa querida Santa Dulce dos Pobres. Ninguém mais do que ela foi a samaritana para milhares de pessoas caídas, deixadas ou empurradas à beira do caminho por um sistema que, há mais de 500 anos, amarga a vida de milhões de pessoas em solo brasileiro, especialmente os indígenas (donos primeiros deste território), os afrodescendentes, os ribeirinhos e a maioria empobrecida de nosso País. De repente, em plena Quaresma, fomos surpreendidos pela pandemia do novo coronavírus, que nos obriga a ficar de quarentena e repensar toda a engrenagem de um sistema no qual o dinheiro vale mais do que a vida humana. Em meio à obsessão por muros, discriminação dos mais pobres, dos migrantes e de todos que almejam a vida digna que Jesus trouxe para todos, aparece um vírus aparentemente frágil que põe em colapso toda a economia mundial e obriga os cidadãos e cidadãs do mundo a se posicionarem: o dinheiro ou a vida. Pura ironia, o vírus se torna um assaltante que deixa ao descoberto nossos esquemas, nossas hipocrisias e justificativas falaciosas. Os que têm poder de decisão são desmascarados e obrigados a dizer a que vieram, colocando a nu as mentiras e contradições que já não se sustentam diante de tempos futuros que aparentam tão difíceis. Diante do inevitável, todos repetem: jamais seremos os mesmos. Oxalá seja para melhor! Tentemos buscar algumas lições de Santa Dulce para alavancar a esperança. Algumas coisas se destacam em sua trajetória. A sensibilidade pelos pobres e o profundo senso de justiça vindo do berço. É de casa que sairão os valiosos cidadãos e cidadãs do futuro ou as mentalidades corrompidas e ávidas de poder e dinheiro, que, hoje em dia, grassa por todos os lados. Em tempos difíceis tudo se torna bem comum e a serviço da vida! Deste senso de justiça nasce uma indignação que se transforma em transgressão. A vida vale mais do que as regras ou disciplinas conventuais. Foi assim que ela mandou um garoto arrombar as portas do Mercado Municipal e lá acomodou as dezenas de doentes que encontrou pela rua. Foi assim que, ao ser despejada pelo prefeito, ela os levou para os arcos da Igreja do Bonfim. De novo despejada pelo Poder Público, ela convenceu a superiora do convento a adaptar o galinheiro para acolher os pacientes. E ainda transformou as galinhas em deliciosa sopa para os novos visitantes. Era claro para irmã Dulce que a vida humana não separa em castas ou classes sociais. A opção de Jesus de “primeiro os últimos” soava como melodia natural no dia a dia de suas ações de misericórdia. De Salvador da Bahia nos transferimos para a cidade de São Paulo, nos tempos do novo coronavírus. No início de 2019, quando retornei ao Brasil, depois de 12 anos de serviço missionário em Roma, uma das coisas que me chocava ao andar pelo centro da cidade eram os amontoados de pessoas pelas ruas. Parecem montes de lixo! Meu Deus, aonde chegamos! Parece que nada mais nos escandaliza! No último censo de 2020, a Prefeitura da capital paulista admitiu que, pelo menos, 24.344 pessoas estão em situação de rua, das quais 12.651 estão sem abrigo. O novo coronavírus chegou! Se a ordem é ficar em casa, para onde irão os sem-teto? E agora, quando se fecham os restaurantes, feiras e locais de acesso à alimentação, onde eles comerão? O Papa Francisco, em sua lucidez profética, na manhã do dia 31 de março, da capela da Casa Santa Marta, fez ecoar seu zelo de pastor pelos últimos do Reino: “Rezemos hoje pelos sem-teto, neste momento em que nos é pedido para estar dentro de casa. Para que a sociedade de homens e mulheres se dê conta desta realidade e os ajude, e a Igreja os acolha”. E nós, que estaremos reclusos em nossas casas, o que podemos fazer? Primeiramente abraçar o lema assumido pelas organizações de apoio à população de rua: “A rua não é um lugar para morar, muito menos para morrer”. A partir das conversas entre as entidades, sugerimos que aproveite este tempo de quarentena para as seguintes ações: monitore e cobre do Poder Público ações de albergamento, alimentação e saúde para a população em situação de rua. A responsabilidade primeira é do Poder Público; se puder e não estiver no grupo de risco, ofereça-se para algum tempo de voluntariado nas centenas de projetos e ações que são realizadas pela cidade; organize campanhas de coleta de roupas, material de higiene, saúde e alimentação, e dirija às entidades mais necessitadas; convoque as famílias a fazer comida e organize grupos-relâmpagos que saia pelos arredores de onde você vive e reparta “marmitex” ou outros alimentos. Será um jeito diferente e concreto de tornar realidade a Campanha da Fraternidade 2020 (“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele!”) em tempos do novo coronavírus. Graças a Deus, qual Dulce samaritana, já existem centenas de grupos, pessoas, comunidades e paróquias realizando esse tipo de ação por nossas cidades. Arlindo Pereira Dias, SVDPadre da Congregação do Verbo Divino, coordena o trabalho de Justiça e Paz e Integridade da Criação (JUPIC) em S. Paulo
Casa Lab: novas perspectivas para as mulheres da periferia

Em 2019, participei como articuladora do projeto Casa Lab: Laboratório de Fazeres da Mulher Periférica, promovido pelo Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo, o CDHEP. A iniciativa foi idealizada e coordenada por Silene Monteiro e, a partir de abril de 2019, eu me juntei a ela para contribuir com a estruturação e execução do projeto. Em seu primeiro ano, o Casa Lab reuniu cerca de 15 mulheres moradoras dos distritos periféricos da Zona Sul de São Paulo-SP (Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís) para reformar uma edícula na sede do CDHEP e transformá-la numa oficina comunitária de fazeres criativos, com ferramentas de marcenaria, construção e artes. Esse processo, com dois encontros semanais, durou cerca de sete meses, com início em junho e encerramento em dezembro. Nesse período, nosso grupo, formado somente por mulheres, construiu bancadas e bancos de trabalho nas oficinas de marcenaria, realizou pequenos serviços de manutenção elétrica e hidráulica, pintou as paredes da casa, fez um grafite coletivo e construiu um banco no jardim do CDHEP. Além das ações práticas, realizamos rodas de conversa sobre os desafios cotidianos da mulher moradora da periferia. Em algumas das atividades, contamos com a ajuda de profissionais mulheres especialistas nas áreas em que estávamos trabalhando. Ao fim do processo, a partir do trabalho coletivo e da criatividade de várias mulheres, a antiga casinha no fundo do terreno do CDHEP estava transformada em oficina, pronta para ser utilizada e apropriada para a realização de novos projetos. “Entendíamos que cada uma ali tinha algum saber para compartilhar com o grupo” O resultado final desse primeiro ciclo do Casa Lab, com diversos produtos executados, é muito interessante. No entanto, mais importante do que isso, foram as trocas e aprendizados que ocorreram ao longo dos sete meses de trabalho. Todas as atividades do Casa Lab foram embasadas na educação popular de perspectiva freiriana e no processo circular. Dessa forma, tínhamos como premissas o diálogo, a horizontalidade, a colaboração e a escuta das diferentes agentes envolvidas no processo. Todos os nossos encontros começavam em roda, na qual cada uma de nós podia compartilhar como estava se sentindo, como estava sendo a semana e qual era a expectativa para a atividade do dia. Além disso, entendíamos que todas ali tinham algum saber para compartilhar com o grupo e, ao longo do projeto, buscamos fazer com que esses saberes fossem externalizados. “Nós nos fortalecíamos para conseguir sair de situações de opressões, como o machismo…” Nosso grupo era bastante diverso, com mulheres de diferentes idades, religiões e graus de escolaridade. Essa diversidade trouxe para o trabalho coletivo alguns desafios, mas, ao mesmo tempo, tornou o processo ainda mais rico. A chegada a um consenso, fosse sobre a cor de uma parede ou sobre o acabamento de um móvel, exigia longos debates e discussões, em que treinávamos nossa capacidade de argumentação e nossa generosidade ao renunciar a uma ideia ou ter de adaptá-la às escolhas do grupo. Nisso, além de construir um mobiliário e pintar uma parede, criávamos laços afetivos e trabalhávamos nossas habilidades socioemocionais, num processo emancipatório, em que nós nos fortalecíamos para conseguir sair de situações de opressão, como o machismo. Com o passar dos meses e todas as nossas conversas e discussões, consolidados um grupo de amigas, em que, mesmo com o encerramento do primeiro ciclo do projeto, continuamos nossas trocas e rede de apoio. “Sementes para a construção coletiva de um novo mundo” O Casa Lab me afirmou o quão potente e transformador é reunir mulheres para conversar em roda e produzir algo coletivamente. Para mim, que sou filha de pais que se formaram politicamente numa comunidade eclesial de base da Igreja Católica, o Casa Lab foi uma maneira de retomar, de certa forma, o trabalho dos grupos de mães, que, nas décadas de 1970 e 1980, reuniam mulheres nas periferias para, a partir da leitura da realidade do bairro e da reflexão crítica em cima disso, traçar ações práticas para transformação do contexto de carência e precariedade. Acredito que ações como o Casa Lab e os clubes de mães, cada uma em seu tempo, são capazes de construir uma nova realidade conduzida por mulheres moradoras das periferias, pobres, negras e indígenas. Cada participante do Casa Lab saiu fortalecida de alguma maneira, mas, mais importante do que a escala individual, talvez tenha sido que, em cada mulher, foram plantadas pequenas sementes para a construção coletiva de um novo mundo. Ana Cristina da Silva Morais Arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e moradora de Capão Redondo. Durante a graduação, desenvolveu pesquisa de iniciação científica sobre participação social em um projeto de urbanização de assentamento precário da cidade de Medellín, na Colômbia. Para tanto, realizou estágio de pesquisa na Universidade de Antioquia, em Medellín. Desde 2017, atua em coletivos e ações da periferia da Zona Sul de São Paulo-SP que discutem território. Estagiou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo e, em 2019, trabalhou como articuladora do projeto Casa Lab, no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP).
Família Arnaldina: conheça um pouco da missão dos MLDUT

Os missionários leigos de Deus Uno e Trino (MLDUT) são um dos ramos da Família Arnaldina. Eles partilham da espiritualidade e da proposta evangelizadora de Santo Arnaldo Janssen. A missão principal desses homens e mulheres de fé é, por meio da própria vida, levar Jesus Cristo à sociedade. Assista ao vídeo e conheça um pouco desses companheiros de missão.
Óleo de cozinha residual: transformando o vilão em aliado

No Brasil, o óleo vegetal é muito usado na preparação de alimentos. A cada ano, mais de 8 milhões de toneladas de óleo são produzidas no País. Desse total, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, aproximadamente 48% é destinada para o consumo alimentar doméstico e industrial. O uso em larga escala, nos espaços domésticos e comerciais, também gera uma preocupação: o que fazer com o óleo usado (residual)? O vilão: as consequências do descarte inadequado do óleo de cozinha usado Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, com base nos limites legais mais restritivos de lançamento de óleo vegetal em corpos d’água, um litro de óleo pode contaminar cerca de 20 mil litros de água. O descarte inadequado do óleo de cozinha residual pode gerar ainda outros males, como o entupimento da rede de esgoto, maior uso de produtos químicos para o tratamento da água e do esgoto, contaminação do solo e do lençol freático. Consequentemente, isso pode acarretar dificuldade do escoamento das águas pluviais, disseminação de pragas e doenças, aumento no custo dos serviços de tratamento de água e esgoto, morte de algumas espécies, entre outros. Transformando o vilão em aliado O que se percebe é que ainda há um grande desconhecimento sobre o potencial de reaproveitamento dos resíduos e a orientação sobre as possíveis alternativas para o emprego do óleo usado como recurso em diversas cadeias produtivas. Quando aproveitado de modo correto, o óleo de cozinha residual pode gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos. Ele pode ser reciclado para diversos fins, seja na indústria ou no espaço doméstico. Dele se pode produzir, por exemplo, resina para tinta, detergente, sabão, amaciante de roupa, sabonete, ração para animal, glicerina, lubrificantes para motores e o biodiesel. Experimente fazer a reciclagem de óleo em sua casa: __________________________________________ Então, na prática o que você pode fazer? 1) A primeira atitude é coletar, num recipiente fechado, o óleo usado (pode ser até as famosas garrafas pet), em vez de jogá-lo na pia ou descartar inadequadamente em qualquer outro lugar. 2) Na internet, há várias receitas de sabão feito dos resíduos do óleo. São receitas fáceis e práticas. Além da economia com esse produto de limpeza, você ajuda o meio ambiente. 3) Nos maiores centros urbanos, há inúmeros centros de coleta de óleo de cozinha residual. Tome alguns minutos para pesquisar na internet os pontos mais próximos de sua casa. Há algumas organizações da sociedade civil que recolhem os resíduos no domicílio e ainda fazem a devolução de parte dos materiais de limpeza produzidos por eles. Informe-se! Com ações simples, você pode economizar e cuidar da vida de nosso planeta. Alie-se a essa causa! Ir. Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade
Natureza pedagoga: as águas de março

Posso dizer que somos água, que a natureza nos aproxima do sagrado. Posso dizer que água é direito humano, que o futuro é agora. Para entender a magnitude e o alcance dessas afirmações, destaco: 71% da superfície da terra são cobertos por água; de toda água do planeta, apenas 2,5% são de água doce; os recursos hídricos no Brasil representam 12% do total mundial; o corpo humano apresenta entre 60 a 75% de água. Brasil, 2020… “São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração.” Ao som de Tom Jobim, poderia intuir que o pior já passou e que o outono vai nos consolar, e que o que aconteceu passou… Mas, na imensidão das terras brasileiras, seguimos vivendo a contraditória realidade da falta da água e a emergência dos temporais. Para exemplificar, ao menos dez cidades em Minas Gerais foram afetadas, emergencial e alternadamente, pela seca e pelos temporais, duas faces de uma mesma calamidade. Trazemos na lembrança as recentes e impactantes imagens veiculadas, e muitos trazem na pele a força da mensagem das águas, seja na escassez, seja no transbordamento. É a natureza pedagoga… Só esses fatos e imagens já serviriam para nos alertar sobre a relevância de se propor essa discussão, especialmente considerando o simbolismo de 22 de março que, desde 1992, foi decretado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o Dia Mundial da Água. Talvez pelo acirramento da vida urbana, o cotidiano de rios tampados, nascentes submersas, hidrantes e água canalizada tenhamos “perdido” o entendimento do ciclo vital da água, do ciclo vital de todo o meio ambiente. Não dá mais para negar o problema nem seguir resignados e acomodados, e muito menos acreditando que a solução é apenas técnica. A disputa pela água, a escassez crescente pelo mundo afora é uma realidade. Há de se cuidar da racionalidade em seu uso, de forma a permitir o desenvolvimento das nações, a justiça social e a manutenção dos ecossistemas. A proteção e a preservação para garantir a quantidade, a qualidade e os múltiplos usos dos recursos hídricos envolvem também gestão, política, financiamento, diálogo e parceria. Todos e todas, cada um e cada uma, com base em sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades, fazendo sua parte, conforme nos ensina o Papa Francisco. “São as águas de março fechando o verão, É a promessa de vida no teu coração” Ao som de Tom Jobim, prefiro entender que, onde brota a promessa de vida e onde reina o amor, o cuidado com nossa Casa Comum vai prevalecer, e isso depende de todos nós, de cada um de nós! Maria José Brant (Deka), assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. ______ Referências: Papa Francisco. Carta Encíclica “Laudato Si’” sobre o cuidado da Casa Comum. Vaticano, 25 de maio de 2015. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/agua.htm https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2020/02/06/dez-cidades-mineiras-enfrentam-efeitos-da-seca-em-meio-a-chuva.htm https://www.hypeness.com.br/2013/10/conheca-a-comunidade-na-turquia-que-se-comunica-atraves-do-assobio/ https://www.letras.mus.br/tom-jobim/49022/ https://www.mma.gov.br/estruturas/161/_publicacao/161_publicacao03032011025235.pdf
Sobre sonhos e histórias…

Quando criança, meus pais não tinham o hábito de contar histórias de “Chapeuzinho Vermelho” ou “A Bela Adormecida” para eu dormir. Tampouco me compravam livros ou me levavam a bibliotecas… Entretanto assistimos a muitas peças teatrais, o que sempre me fascinava. Quando fui para a escola, onde existia uma biblioteca, por curiosidade, perguntei à moça responsável se havia um livro sobre a primeira peça que vi, “A Bonequinha Preta”, de Alaíde Lisboa. O livro estava disponível para empréstimo, e foi assim que essa peça teatral despertou em mim o gosto pela leitura. A biblioteca passou a ser meu lugar preferido na escola e, posteriormente, meu lugar predileto no mundo. Quando me formei no ensino médio, tive a certeza de que queria ser psicóloga, porém, durante o cursinho para o vestibular, os professores de Língua Portuguesa, Literatura e História me apresentaram um curso que eu pouco conhecia, o de Biblioteconomia. A partir daí, já não tive mais aquela certeza. Então… troquei minha primeira opção de curso para Biblioteconomia. Passei no vestibular e, em 2011, iniciei a graduação. A graduação me trouxe novas perspectivas e percepções, mas a maior delas foi a descoberta de uma nova paixão: a área de Educação e, oportunamente, a “contação” de histórias. Durante toda a graduação, eu visei à especialização em bibliotecas escolares. Assim que me formei, fui trabalhar como bibliotecária num hospital, em Belo Horizonte-MG. O sonho de trabalhar em uma escola foi adiado. Ficou aguardando por mais três anos, adormecido… Mas foi despertado em 2018, quando iniciei minha carreira no Colégio Sagrado Coração de Jesus. A oportunidade de trabalhar no Colégio Sagrado Coração de Jesus abriu-me várias portas, inclusive a possibilidade de, finalmente, fazer meu curso de “contação” de história. No Colégio, a “contação” de histórias é algo muito forte e valorizado. Isso ocorre porque acreditamos que contar histórias é o maior incentivo à leitura que podemos dar às crianças, do infantil ao último ano das séries iniciais do fundamental I. Quando me vi diante desse cenário, percebi que precisava urgentemente de um curso, para eu aprender técnicas que transmitissem essas histórias de uma forma encantadora, que pudessem realmente tocar as crianças. As histórias são algo que nos transforma. Ouvir histórias é bom demais; contá-las é melhor ainda. A primeira história que narrei foi “A bofetada”, um conto africano. Lembro-me da expectativa e da emoção quando terminei. Posso relembrar vários momentos que me marcaram: o livro “A sopa de pedra”, pelo qual eu contei a história de um personagem conhecido do mundo adulto, mas, dessa vez, ele era uma criança, Pedro Malazartes. Outro momento muito interessante foi quando precisava contar na “Semana sem Fronteira”. Alguns dias antes, tive uma laringite e fiquei afônica. No dia, como um milagre, a voz voltou forte e, somente durante a “contação” de história, para depois sumir novamente. Essa apresentação foi realizada para os alunos do 2º ano do ensino fundamental. Eles contaram algumas partes comigo e fizeram a sonorização. O momento foi emocionante. Em minhas “contações” no colégio, sempre canto uma música antes de começar as histórias e uso um avental. A esse conjunto de preparação chamamos preâmbulo, para as crianças entrarem no clima. Depois conto a história e então deixo que elas também contem suas histórias. É lindo observar as crianças cantarem a música e, posteriormente, contarem a história da maneira deles. Guiomar Dantas (2019, p. 66) afirma que mediar leitura “é, sobretudo, contagiar filhos, sobrinhos, afilhados, alunos, amigos ou o público para o qual faz mediação com o vírus da leitura que, por sua vez, propaga no corpo e na mente um vício incurável: o amor pelos livros e pelas histórias”. E é exatamente com essa perspectiva que me preparo para os momentos de “contação”. Gosto de provocar emoções que tocam o coração e incentivam cada vez mais a busca por leitura e literatura. E assim, a cada história, vamos criando e recriando o famoso “felizes para sempre”. DANTAS, Guiomar. A arte de criar leitores: reflexões e dicas para uma mediação eficaz. São Paulo: Senac, 2019. 279 p. Raissa Cirilo, bibliotecária do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG, contadora de histórias e autora do capítulo “A hora do canto como recurso de mediação de leitura na biblioteca escolar e disseminação da cultura afro-brasileira”, disponível no livro “Mulheres negras na Biblioteconomia”.