Cidades e cidadania

E se votar for a tradução cidadã de fortalecimento da democracia? E se votar for o ápice da utopia? E se votar for gesto concreto da construção do Reino? E se votar for a ação individual de maior alcance coletivo? E se votar for, de fato, o instrumento mais competente e responsável para garantir direitos e cidades acessíveis, democráticas, justas e sustentáveis? Eleições municipais em 15 de novembro de 2020… Tempo de escolhas de prefeitas, prefeitos, vereadoras e vereadores. Para ajudar na escolha tão fundamental e sendo teimosamente esperançosa, vou sugerir um roteiro para nortear nossas escolhas. Faça um esquema mental, risque num papel, digite, imprima, enfim, escolha a melhor alternativa para fazer esse exercício. Inicialmente, considere candidaturas identificadas com o compromisso ético e de transparência na gestão pública. A seguir, considerando quinze áreas temáticas essenciais para a qualidade e dignidade da vida no Município, indique uma candidatura potencial para cada uma delas. Depois é só somar quem teve maior pontuação. Se der empate, repita até conseguir destacar uma candidatura. Áreas temáticas Candidatura que obteve mais marcações e que será merecedor do seu voto Mobilidade urbana e transporte público Parques, áreas verdes e meio ambiente Limpeza urbana e coleta seletiva Cultura Gestão democrática e poder local Fomento ao emprego, trabalho e renda Assistência social a famílias e indivíduos empobrecidos Desenvolvimento econômico Educação de qualidade Segurança alimentar Habitação de interesse popular Gestão pública e transparência Esporte, turismo e lazer Saúde pública Temos outras temáticas muito relevantes e também outras bem específicas… Esses quinze eixos temáticos foram listados apenas para nortear esse exercício cidadão. Depois, se quiser, você pode elencar outras prioridades, considerando a realidade de seu Município, e também pode adaptar esse roteiro para balizar a escolha no âmbito das câmaras municipais. Também podemos escolher uma legenda partidária e votar independentemente dos nomes colocados para o pleito, seja no Executivo ou no Legislativo municipal. Enfim, vamos trazer a temática das eleições para nosso cotidiano. Esse exercício cidadão é sempre um encontro da cidadania com nossos melhores propósitos. Em tempo: sigamos atentos! Religião como argumento para escolher candidatos é a pior combinação. A religião tem seu valor, mas é a capacidade política propositiva que deve nos inspirar na realização de uma Nação justa a partir das eleições municipais. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
A vida missionária das famílias

Novena Missionária simplificada – Segundo dia Oração inicialEspírito Santo, sopro de vida, que fazes novas todas as coisas, abre nossos corações às tuas inspirações para que, ao escutar e aprofundar tua Palavra, aumentem em nós o ardor missionário e o cuidado com a Casa Comum, nossa terra, e o amor a todas as tuas criaturas, sobretudo cada pessoa criada à tua imagem e semelhança. Espírito de Sabedoria, guia nossos passos nos caminhos da missão. Amém. ReflexãoA família é “sujeito fundamental da ação missionária da Igreja” (Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023, 140). É o lugar especial onde a Palavra de Deus deve ser acolhida, vivenciada e transmitida. Ela é o espaço educacional por excelência (cf. Familiaris Consortio, 39). Mas a transmissão da fé, antes feita na Igreja doméstica, foi delegada à paróquia, por isso atinge seriamente a vivência da Palavra de Deus como algo natural. Além disso, as transformações culturais e morais pelas quais a família tem passado instalam inúmeros dramas e interrompem muitos sonhos (cf. Amoris Laetitia, 57). Leitor 1: Ainda assim, muitas famílias utilizam a Palavra de Deus como fundamento de uma catequese profunda, que orienta o agir pessoal e social e, como ocorria no passado, une a própria formação em torno da Palavra (cf. Deuteronômio 6,6-7). Palavra de Deus: 2ª Carta de São Paulo a Timóteo 1,5-9 5 Recordo-me da sua fé não fingida, que primeiro habitou em sua avó Loide e em sua mãe, Eunice, e estou convencido de que também habita em você. 6 Por essa razão, torno a lembrá-lo de que mantenha viva a chama do dom de Deus que está em você mediante a imposição das minhas mãos. 7 Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio.8 Portanto não se envergonhe de testemunhar a favor do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele, mas suporte comigo meus sofrimentos pelo evangelho, segundo o poder de Deus, 9 que nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não em virtude das nossas obras, mas por causa de sua própria determinação e graça. Essa graça nos foi dada em Cristo Jesus desde os tempos eternos. Para meditar Assim como Paulo lembra a Timóteo o exemplo de fé de sua mãe e de sua avó, de quem recebi o testemunho de fé?Como estou transmitindo a fé em minha família? Oração do Mês MissionárioDeus Pai, Filho e Espírito Santo,fonte transbordante da missão,ajuda-nos a compreenderque a vida é missão,dom e compromisso.Que Maria, nossa intercessorana cidade, no campo,na Amazônia e em toda parte,ajude cada um de nósa ser testemunhas proféticasdo Evangelho,numa Igreja sinodale em estado permanente de missão.Eis-me aqui, Senhor, envia-me!Amém. Assista ao vídeo Neste vídeo, vamos conhecer uma família da Guatemala que, há 9 anos, pertence ao grupo de leigos missionários combonianos. Eles se identificam com o carisma da missão ad gentes, inspirado em São Daniel Comboni. Moram na periferia da grande Belo Horizonte-MG e atuam em diferentes atividades, como a dignidade da mulher, a pastoral carcerária, dependentes químicos e outras pastorais da paróquia. Vivem uma vida como qualquer outra família, com iguais dificuldades, procurando animar e evangelizar, dando testemunho do amor de Deus em suas vidas. Para rezar a novena completa com a sua família, comunidade ou grupos on-line, baixe o livrinho:
A ética do cuidado na missão no mundo de hoje

A mensagem central da encíclica “Laudato si’” (Louvado sejas) repete esta frase várias vezes ao longo de suas mais de 190 páginas: “Tudo está conectado” (Papa Francisco, 2015). O ser humano não está dissociado. Faz parte de um todo. É o macro e o micro juntos. Cuidar do todo é cuidar da parte, e não cuidar do todo é destruir uns aos outros, sobretudo os mais pobres e vulneráveis. A sociedade contemporânea convive com uma grande contradição. Vivemos em uma sociedade na qual o investimento em conhecimento e comunicação é enorme. Ao mesmo tempo, estamos cada vez mais sozinhos, isolados. As pessoas vivem numa solidão tremenda. A internet possibilita que façamos tudo on-line, sem sairmos de nossas casas, e isso tem causado um isolamento nunca visto. Diante disso, surge uma pergunta: como estamos nos relacionando com nossa casa comum? Como estamos nos relacionando com o nosso semelhante? Estamos muito preocupados com as tecnologias de última geração, meios de comunicação ultramodernos, porém estamos nos esquecendo de olhar para nossa realidade, para o chão nosso de cada dia, para nosso planeta, para nosso semelhante, com um olhar de compaixão. As coisas simples têm ficado de lado. Uma conversa na sala de tevê, um bate-papo tomando café, um sorriso diante de um caso; as pessoas não conversam mais. Necessitamos, no entanto, de coisas simples, como afirma Frei Betto (s.d.): Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático”. Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”. “Tudo está conectado.” Tem-se percebido a urgência de um olhar simples, humanizador sobre nosso planeta e sobre as pessoas. Nosso modo de proceder deverá estar pautado em uma ética do cuidado, isto é, um modo de ser no mundo que se fundamenta nas relações que estabelecemos com todas as coisas. Não é à toa que, na encíclica do Papa Francisco, a expressão “tudo está conectado” se repete várias vezes. É uma chamada de atenção para olhar o macro e o micro sobre a ética do cuidado, esse modo de ser e de proceder no mundo, que se baseia numa prática humanizadora de todos as relações. Em “Saber cuidar”, Leonardo Boff (1999) chama a atenção que o que importa é estarmos atentos às pequenas atitudes humanas, nas ações cotidianas, no trato como o nosso semelhante, ou seja, nas coisas simples que marcam nossas relações. “Tudo está conectado.” Para aprofundarmos mais sobre esse assunto tão importante e necessário nos dias atuais, faço um convite muito especial a todos. Um webinar com o teólogo Leonardo Boff. Será no dia 8 de outubro, às 20h, no canal da Província Brasil Norte das irmãs servas do Espírito Santo, no Youtube SSpS Brasil Norte. Participe! Uma breve apresentação sobre o palestrante Leonardo Boff (1938) é teólogo, escritor e professor brasileiro, um dos maiores representantes da Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica. Leonardo Genésio Darci Boff nasceu em Concórdia-SC, no dia 14 de dezembro de 1938. Filho de professor, graduou-se em Teologia no Instituto dos Franciscanos de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro. Doutorou-se em Filosofia e Teologia pela Universidade de Munique, Alemanha, em 1970. Referências BETTO, Frei. Passeio socrático. Blog Frei Betto, s.d. Disponível em: freibetto.org BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999. FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato si’. São Paulo: Paulinas, 2015. Gerry Adriano da Silva é filósofo, teólogo e professor de Ensino Religioso no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG.
Novena Missionária – Outubro de 2020

Durante o mês de outubro, o Mês Missionário, em unidade com a Igreja no Brasil e com as Pontifícias Obras Missionárias, estamos publicando uma novena simplificada para que todos tenham oportunidade de rezar durante o mês missionário.Será uma novena bem curtinha, para ser rezada individualmente, mas colocaremos o link para que todos tenham acesso à novena completa, ao vídeo e possam se organizar em família, como comunidade, ou on-line.Neste ano, a Novena Missionária tem como tema “A vida é missão” e, por lema, “Eis-me aqui, envia-me” (Isaías 6,8). Quem quiser saber mais sobre a novena e a Campanha Missionária, visite a página http://www.pom.org.br/campanha-missionaria-2020/ No blog, publicaremos a novena simplificada às terças e quintas-feiras, durante todo o mês de outubro. A vida é missãoNovena Missionária simplificada – Primeiro dia Oração inicialEspírito Santo, sopro de vida, que fazes novas todas as coisas, abre nossos corações às tuas inspirações para que, ao escutar e aprofundar tua Palavra, aumentem em nós o ardor missionário e o cuidado com a Casa Comum, nossa terra, e o amor a todas as tuas criaturas, sobretudo cada pessoa criada à tua imagem e semelhança. Espírito de Sabedoria, guia nossos passos nos caminhos da missão. Amém. ReflexãoO Papa Francisco acentua a dimensão existencial da missão. “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” (Evangelii Gaudium, 273). A vida se torna uma missão. Ser discípulo missionário está além de cumprir tarefas ou fazer coisas. Está na ordem do ser e não se reduz a algumas horas do dia. “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser” (Evangelii Gaudium, 273). Na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, o Papa ressalta: “Não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão” (Gaudete et Exsultate, 27). É uma realidade de vida em que os batizados se deixam envolver pela presença de Deus e a transmitem para o mundo. Palavra de Deus: Isaías 6,4-8 4 Ao som das suas vozes, os batentes das portas tremeram, e o templo ficou cheio de fumaça.5 Então gritei: Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos6 Logo um dos serafins voou até mim trazendo uma brasa viva, que havia tirado do altar com uma tenaz.7 Com ela tocou a minha boca e disse: “Veja, isto tocou os seus lábios; por isso sua culpa será removida, e seu pecado será perdoado”.8 Então ouvi a voz do Senhor, conclamando: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”. E eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me! Para meditar Assim como Isaías é chamado por Deus à missão, Deus também chama a cada pessoa.Como estou respondendo ao chamado de Deus? Oração do Mês Missionário Deus Pai, Filho e Espírito Santo,fonte transbordante da missão,ajuda-nos a compreenderque a vida é missão,dom e compromisso.Que Maria, nossa intercessorana cidade, no campo,na Amazônia e em toda parte,ajude cada um de nósa ser testemunhas proféticasdo Evangelho,numa Igreja sinodale em estado permanente de missão.Eis-me aqui, Senhor, envia-me!Amém. Assista ao vídeo Neste vídeo, o padre Maurício Jardim, diretor das Pontifícias Obras Missionárias, e Dom Odelir José Magri, presidente da Comissão Episcopal Missionária da CNBB, introduzem o tema do Mês Missionário e falam das três formas de cooperação missionária: a oração, a ajuda material e a vida feito missão. Para rezar a novena completa com sua família, comunidade ou grupos on-line, baixe o livrinho:
A oração do terço para combater em tempos difíceis

Você tem o costume de rezar o terço em família? Caso não o tenha, reserve um momento do dia para unir a família, guiados por Nossa Senhora. O Papa Francisco reforça a tradição de rezar o terço em família, mas, se não conseguir, reze sozinho. O importante é orar com amor e simplicidade para nos tornar ainda mais unidos, para superar as provações do dia a dia, especialmente neste momento de pandemia. Vivemos tempos violentos, e o Papa nos diz que o terço é um instrumento poderoso que traz paz a nossos corações, à Igreja e ao mundo. Na oração do terço, a cada Ave-Maria, a cada mistério, nós nos dirigimos a Nossa Senhora, para que leve nosso coração, vida, família, projetos… para perto de Jesus. Apenas a oração pode nos ajudar a combater o bom combate e guardar a fé (2 Timóteo 4,7) e a nos proteger sob o manto sagrado da Virgem Maria. Levamos a Deus, por intercessão de Maria Santíssima, nossas misérias, feridas, dores, medos e também alegrias, dons e graças por meio da oração, especialmente a do terço, rezada com amor e simplicidade. Quando nós rezamos, permitimos que Jesus entre em nossa vida e faça nova todas as coisas (2 Coríntios 5,17), que transfigure tudo o que vivemos. Reze e recorra ao santo terço para enfrentar, com coragem, o combate do dia a dia, especialmente neste momento de provações. São tantos testemunhos da oração do terço, de mãos dadas com a Mãe de Deus, para enfrentar os desafios do dia a dia. Entre muitos, apresentamos estes três: “Tive que fazer uma cirurgia de apendicite e, ao passar por esse procedimento, o médico falou-me que tinha uma triste notícia. Disse para mim e minha mãe que eu precisaria retirar o útero, porque estava cheio de miomas. Eu era jovem e sonhava em me casar e constituir uma família, e me descontrolei chorando. Minha mãe, muito devota de Nossa Senhora, falou diante de mim e do médico: ‘Filha, não chore, quem sabe de tudo é Nossa Senhora!’. Passou o tempo, namorei, casei-me, engravidei e, aos três meses de gestação, tive uma forte hemorragia e fui ao médico. Ele disse que eu perderia a criança, que eu não conseguiria, porque os miomas estavam comprimindo o feto. Mais uma vez, chorei muito, e minha mãe, mais uma vez, disse: ‘Ana, tenha fé em Nossa Senhora!’. Minha mãe sempre muito devota, sempre fazendo as novenas, sempre rezando e sempre caminhando com Maria… E a minha filha nasceu! Hoje, está com 21 anos e é uma benção em nossas vidas. É uma menina que louva a Deus e Nossa Senhora.” (Ana Maria da Silva Sousa, MLDUT, Campo Belo/ MG) “Todos nós, cristãos, temos Nossa Senhora como mãe! Foi o próprio Cristo que nos falou isso, que nos deu Maria como nossa mãe. Quem é mãe vai entender o que vou falar. Mãe e filho conversam pelo olhar, por pequenos sinais. Conversar com Maria é uma necessidade, como um filho fala com sua mãe no dia a dia. E se não fala, sente muita falta. Quando eu rezo o terço, é como se estivesse conversando com Nossa Senhora, falando dos problemas do dia a dia, do medo da pandemia, do medo da violência e agradecendo também por tantas graças alcançadas. A cada Ave-Maria rezada, é como se ficasse mais pertinho de Maria e, estando pertinho de Maria, estou também pertinho de Jesus. Só assim tenho forças para seguir em frente. Apesar da forte dor que sinto nas pernas e joelhos, tenho certeza de que estou na companhia de Nossa Senhora.” (Ana Maria do Amaral Queiroz, MLDUT, Rio de Janeiro/RJ) “A oração do terço, para mim, nestes tempos difíceis, foi um momento muito especial de espiritualidade e união com minha família; momento de rezarmos juntos e, só neste tempo, tivemos a oportunidade de estarmos unidos.” (Edina Regina dos Santos Cardoso, MLDUT, São Francisco/SP)
27º Domingo do Tempo Comum

“O Reino de Deus será entregue a uma nação que produzirá seus frutos”Mt 21,33-43 A parábola de hoje é a segunda de uma série de três referentes ao julgamento final de Deus sobre seu povo (antes, houve a parábola dos dois irmãos e virá ainda a da festa de casamento). Com certeza, a redação atual é resultado de uma longa história de transmissão oral e redação. Na boca de Jesus, a história visava a sorte da vinha (v. 41); a tradição pré-sinótica concentrou a atenção na sorte do Filho, acrescentando a citação do Salmo 118 e as alusões escriturísticas (v. 42-44); finalmente, Mateus deixa claro que o advento do novo povo (v. 41) está ligado ao destino daquele que fala e deve ser condenado e morto para depois ressuscitar (cf. notas da Bíblia TEB). Em sua forma atual, a parábola é uma alegoria da história da Salvação. “Os mensageiros” são os profetas que foram assassinados pelo povo de Israel, culminando com Jesus, como o filho. “O reino” provavelmente se refere à promessa da bênção em plenitude, dos últimos tempos. “O povo” se refere à Igreja; no caso de Mateus, composta principalmente de judeu-cristãos, mas também de gentios convertidos, que formam juntos o novo povo de Deus, o verdadeiro Israel. Essa conclusão do versículo 43 é a principal contribuição de Mateus à interpretação da parábola e é mais suave do que a própria parábola, pois os maus vinhateiros não serão destruídos, mas perderão a promessa. Como o Evangelho de Mateus foi escrito num contexto de polêmica entre a sua comunidade e o judaísmo formativo do fim do primeiro século, ele queria ensinar para a sua comunidade que a promessa antiga feita ao povo de Deus foi retirada das autoridades farisaicas e de suas comunidades, e foi dada à comunidade da Igreja. Isso não dava às comunidades motivo para comodismo. Como o povo original perdeu a promessa porque “não deu fruto”, também a Igreja não a possui de modo incondicional. Também as comunidades cristãs têm de “dar fruto” de justiça, fraternidade, solidariedade e partilha. A história da Salvação nos mostra que Deus não se deixa manipular nem permite que qualquer comunidade ou religião se torne “dona” dele, mas que seu verdadeiro povo é aquele que se dedica à construção dos valores do Reino de Deus. O texto convida a um sério exame e revisão de nossas práticas e estruturas eclesiais e eclesiásticas, para que nossa Igreja cristã não chegue a merecer o destino dos vinhateiros. Estes, por não terem correspondido à Aliança, viram a promessa retirada deles e dada a um outro povo “que produzirá os seus frutos” (v. 43). Não há lugar na Igreja para comodismo e atitude de superioridade, pensando que somos superiores a outros grupos, pois o importante é ouvir a Palavra e Deus e a pôr em prática, como sempre ensinava o Mestre. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD
“O amor é a força mais poderosa que o mundo possui”

O Dia Internacional da Não Violência é comemorado em 2 de outubro. A data recorda o aniversário de Mohandas Karamchand Gandhi, mais conhecido como “Mahatma” (que significa “Grande Alma”). Ele foi um dos mais influentes ativistas políticos e líder do movimento de independência da Índia. Foi ainda um pioneiro da filosofia e estratégia de não violência. A vida e os ensinamentos de Gandhi inspiraram líderes como Martin Luther King, nos Estados Unidos; Nelson Mandela, na África do Sul; e Aung San Suu Kyi, em Mianmar, que fizeram sem violência as mudanças que consideravam necessárias. A violência acontece não somente nas guerras e conflitos, mas em todas as situações em que se abusa das pessoas, reduzindo sua autoestima e sua autoconfiança ou valor próprio, levando-as a uma experiência de impotência. A omissão em trazer a paz e a fraternidade também é um tipo de violência, bem como sua aceitação passiva e quando confundimos violência com justiça, considerando-a útil para sociedade. A violência não é somente contra as pessoas, mas também o esgotamento dos recursos naturais, desmatamento, poluição ambiental e extinção de espécies. Dom Thomas Menamparampil, que trabalha pela paz entre os diversos grupos étnicos no nordeste da Índia, diz: “A memória não é o que aconteceu, mas o que as pessoas sentiram”. Se rastrearmos a história das guerras travadas em termos de religiões, raças e etnias, veremos como cada comunidade de pessoas sentiu e viveu, individual e coletivamente, as lembranças dos efeitos da guerra. Eles guardam memórias negativas. Muitas vezes, a história é escrita de uma maneira que mantém vivas as memórias negativas e promove o preconceito. Acredito que precisamos curar nossas memórias para construir a tolerância e ser capaz de ver a riqueza de cada pessoa e em cada cultura e religião. Em nome da manutenção da lei e da ordem, quanta violência ocorre nos países… É ironia que a justiça de uma pessoa seja a injustiça de outra. Tornou-se trivial a busca apenas de vingança e, da outra parte, a contravingança. Não é de se admirar que as piores injustiças, as transgressões mais sangrentas e injustificáveis sejam cometidas diariamente em nome da justiça. No passado, as armas foram fabricadas para se defender e se proteger dos perigos dos animais, mas logo foram utilizadas contra próprio semelhante. Hoje, a indústria bélica promove a guerra e a violência por questões econômicas. Uma nação poderosa é definida por sua artilharia, energia nuclear e força do exército. Tenho um primo na Índia que é soldado. Uma vez, quando voltou de férias, ele presenteou seu filho com uma arma de brinquedo. O menino ficou muito feliz ao receber a arma e agiu como um herói, atirando nos familiares como se fossem os inimigos, e eles atuavam como se estivessem morrendo. Comecei a refletir e cheguei à conclusão de que os pais se tornam inconscientemente agentes de violência. Muitos filmes também promovem a morte horrível de “inimigos”. Para as crianças, o filme é uma realidade, e os heróis são seus modelos. “Se quisermos ensinar a paz verdadeira neste mundo e travar uma guerra real contra a guerra, teremos de começar pelas crianças”, dizia Gandhi. Elas são criadoras do amanhã. Se uma criança cresce em um ambiente positivo e amoroso, ela semeará simpatia e amor nos corações dos outros. Fiquei cativada ao ver as abelhas zunindo e ocupadas coletando o néctar em volta das flores da laranjeira. As abelhas que voam de flor em flor transferem acidentalmente o pólen e ajudam na procriação. Nós destruímos a vida enquanto a natureza a promove. Os animais matam outros animais para comer, o que é uma lei natural. Não é natural que eles matem os da própria espécie. Somente o ser humano mata sua própria espécie, e isso até se tornou algo normal, mas não deveria ser assim. Qual é nossa resposta à violência a nosso redor? Mahatma Gandhi dizia: “Seja a mudança que você deseja ver no mundo”. Uma pequena ação ou uma simples palavra pode causar enormes consequências positivas ou negativas. Uma pessoa comum é esquecida quando morre, mas uma “grande alma”, como Gandhi, nasce em sua morte, criando uma nova aurora de esperança. Podemos criar no pequeno mundo a nosso redor, com aqueles que fazem parte de nossa comunidade, amigos, familiares e pessoas com quem trabalhamos, uma vida melhor mediante a aplicação da lei do amor contra o ódio, ciúme, inveja, vingança e inimizade. “O amor é a força mais poderosa que o mundo possui. Ao mesmo tempo, é a mais humilde que se possa imaginar”, Mahatma Gandhi. Ir.Elizabeth Rani, é missionária serva do espírito santo, nascida na Índia e há um ano no Brasil. Estudou Pedagogia e Literatura Inglesa e faz parteda Equipe de Comunicação da Província.
A escultura humana no bibliodrama

Setembro é o Mês da Bíblia, e encontrar novas maneiras de apresentá-la às novas gerações é nossa missão. Para que isso aconteça, o bibliodrama é uma forma que vem ajudando, de modo inovador, as pessoas a se reencontrarem com a Palavra de Deus. A técnica apresenta muitos elementos que possibilitam uma vivência mais íntima com a Palavra, e uma delas é conhecida como escultura. A partir da leitura e da reflexão de um texto bíblico, os ouvintes são convidados a construir uma escultura com o próprio corpo. Foi o que aconteceu com o grupo de catequese familiar dos alunos que se preparam para o sacramento da Eucaristia, no Colégio Espírito Santo, na capital paulista. Desafiados à experiência feita de forma remota e criatividades liberadas, os resultados foram surpreendentes. Com base no texto da visita de Maria à sua prima Isabel, quando soube que esta estava grávida também, os catequizandos e seus familiares criaram esculturas muito expressivas, representando a acolhida, a disponibilidade, a alegria, o encontro e muito outros temas refletidos a partir do texto. Tudo feito com muita alegria e esmero. Temos aqui mais uma forma de evangelização e de vivência da Palavra. Assim, concluímos com o testemunho do professor Max de Oliveira Faria, sobre vivenciar da escultura com as crianças da catequese. “A experiência da escultura humana foi muito profunda para os participantes. Durante a motivação, pude perceber os olhos e os gestos que nasciam de forma livre, espontânea e carregada de amor. A palavra “encontro” motivou a interação, mas o que vimos foram sentimentos que se materializavam em gestos, abraços, mãos dadas. Foi uma oportunidade única, em que uma experiência bíblica de Maria e Isabel fez desabrochar, em nossas crianças e suas famílias, um gesto de profunda intimidade.” Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS. __________
O amor não está de quarentena

O amor não está de quarentena. Continua livre para amar, porque ele nasce no e do coração. É ele que nos faz sentir o prazer de viver e servir. A pandemia não o atingiu nem há perigo de que ele seja afetado. O amor é uma atitude de vida que não olha para a condição do corpo; ele pode agir mesmo com o corpo estando doente. A pandemia aguçou o amor em muita gente. Muitas pessoas se tornaram mais afáveis, mais solidárias, mais compassivas. Descobriram a força do amor mesmo em situação de quarentena. Quando o amor move as pessoas, elas se transformam e revelam o lado bom da vida e enchem de esperança quando o caos quer dominar. O amor não está acorrentado pela doença, só precisa de um coração aberto e sensível, que se despoja do próprio egoísmo e abre espaço para acolher o outro, seja ele quem for, para desejar-lhe o bem, para fazer-lhe o bem, para encaminhá-lo para o bem. O amor conforta na hora da dor das perdas que alguém sofreu; o amor consola o coração abatido pelo sofrimento; o amor regenera quando alguém está fraco e abatido; o amor se solidariza quando alguém precisa dele; o amor é capaz de reconstruir as relações perturbadas pelos conflitos; o amor ouve aqueles que se sentiram emudecidos pela exclusão e por não terem espaços no tempo de cada um ocupado com suas coisas e surdos aos lamentos de quem precisa falar; o amor restabelece a paz onde ela foi perdida na agressividade, no ódio que brotou num momento de incompreensão; o amor salva onde alguém se havia perdido; o amor restabelece os laços lá onde eles haviam se desfeito; o amor encoraja lá onde a desesperança havia chegado. O amor dá um passo a mais com quem pediu para andar apenas um; o amor discerne lá onde a confusão quis tomar conta; o amor revitaliza as forças perdidas num momento de luta; o amor fala quando a voz se cala pelo sofrimento que apareceu; o amor fortalece quando o desânimo quis tomar conta; o amor se torna solícito quando a necessidade do outro se apresenta; o amor não se esgota, ele se renova a cada gesto que faz; o amor fica dentro de casa, solidário com os que ali estão; o amor vai para fora quando alguém bate à porta e pede um pão; o amor atende com gestos de atenção e partilha; o amor vai além da casa, da cidade, do país, ele se torna universal; o amor acompanha sempre o coração generoso; o amor reconstrói os vínculos lá onde eles haviam se rompido; o amor não dá aviso prévio, ele está sempre atento, disponível e permanente; o amor é a força que move o mundo e o mantém de pé; o amor faz reviver a vida lá onde ela estava morrendo. Por isso resgate o amor que há em você e deixe-o agir livremente, para que ele se torne sua marca registrada neste tempo de pandemia. Viva o amor, e ele o conduzirá à sua fonte original, da qual tudo brotou. Em toda a perfeição da harmonia do universo se manifestou a força criadora. Ame, porque Deus é amor, e tudo o que saiu dele veio marcado pelo amor. O amor é atitude eterna de Deus que nos amou por primeiro e deixou em nós sua marca, como imagem e semelhança. O amor não está de quarentena! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
26º Domingo do Tempo Comum

“Os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”(Mt 21,28-32) Esta é a primeira de uma série de três parábolas sobre o julgamento. Todas estão dirigidas ao mesmo público: os chefes dos sacerdotes e anciãos, ou seja, ao grupo de elite dentro do sistema religioso de Israel. A parábola aqui trabalha com um esquema: o que é o “dizer” e o “agir” em resposta à vontade de Deus. Sendo parábola, que trabalha com simbologia, os dois filhos podem representar diversas personagens: o mais jovem pode representar o povo de Israel histórico que disse “sim” (Ex 19,8) e não cumpriu com a sua palavra (Jr 2,20) ou a geração do tempo de Jesus diante da pregação de João Batista e de Jesus. O segundo filho pode representar qualquer um que se arrependa: as duas categorias que recebiam então o rótulo de “pecadores”, mas que aceitam o convite de João para o arrependimento, também os pagãos que se convertem e creem em Jesus. No fundo, a parábola retoma um tema muito claro no Sermão da Montanha: “Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor, entrará no Reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do Céu” (Mt 7,21). Mateus é o Evangelho da prática da vontade do Pai, revelada em Jesus. O contraste entre os grupos na parábola chega a ser chocante, de propósito. De um lado, temos a elite do sistema religioso judaico, que se considerava justa e sem qualquer necessidade de arrependimento; de outro, os pecadores públicos, bem conscientes da necessidade de conversão sincera. A parábola traz a mesma mensagem daquela do fariseu e do cobrador de impostos em Lucas (18,9-14), e tem ecos de outra parábola com dois irmãos, a do “Filho Pródigo” em Lucas (15,11-32). Esse texto nos desafia a que façamos um exame de consciência. Quantas vezes rotulamos pessoas e grupos como pecadores, injustos, desprezíveis, com base nas aparências e em nossos preconceitos, enquanto nos contentamos com uma prática externa de religião sem consequências práticas para a sociedade, assim como faziam os chefes dos sacerdotes e anciãos do tempo de Jesus… Hoje em dia, podemos não ter publicanos (o termo técnico para o cobrador de impostos da parábola, pois o imposto cobrado chamava-se “publicum”), mas quantos são desprezados nas nossas comunidades como os publicanos de então, por serem “drogados”, “aidéticos”, “homossexuais”, “prostitutas”, “divorciados” ou por outros motivos? Quantas vezes nos contentamos com uma religião que consiste em simplesmente cumprir a tabela dos ritos e rituais, com a moral burguesa da sociedade idolátrica consumista, sem nos perguntar sobre os frutos de justiça de tal prática… Mateus insiste que é pelos frutos que se conhece a árvore. Os ouvintes dessa parábola devem ter ficado chocados e ofendidos com a frase de Jesus, “os cobradores de impostos e as prostitutas (pessoas consideradas irremediavelmente perdidas) vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”. Pois Jesus desmascarava a religião dominante em Israel, que, escondida atrás de rituais e minúcias legais, marginalizava a maioria e lisonjeava uma minoria que se outorgava o direito de julgar os outros, sem dar frutos de justiça, partilha e solidariedade. “É pelos frutos que se conhece a árvore” (Mt 7,20). Deixemos que este texto chocante nos interpele, examinando os frutos reais de nossa prática, para que não caiamos na cilada dos chefes dos sacerdotes e anciãos, apontando os erros dos outros e julgando-os, sem sentir nossa própria necessidade de arrependimento. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD