Como os indígenas xerentes estão enfrentando a pandemia

Neste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus, causador da covid-19 (sigla inglesa para “doença do coronavírus de 2019”), uma enfermidade letal que põe em risco a vida de muitos povos, de modo especial os indígenas do Brasil. Pôde-se observar o quanto o mal afetou diretamente a vida familiar e comunitária desses povos. As poucas informações por parte dos órgãos públicos especializados em saúde indígena e as notícias falsas deixaram confusos os indígenas, sem saberem como agir em casos de contágio. Isso gerou grande medo entre esses brasileiros. Após os primeiros casos de infecção e morte de lideranças e anciãos, iniciou-se uma corrida contra ao tempo. Com a participação das organizações de lideranças indígenas, com o apoio da Igreja Católica, por meio do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), e organizações não governamentais, foram organizadas iniciativas importantes. Para que chegassem às aldeias orientações confiáveis, foram produzidos vídeos breves e cartilhas instruindo que as pessoas ficassem em casa, nas aldeias, em seus territórios. Boa parte do material com as orientações da OMS foi transmitida no próprio idioma das comunidades. Os indígenas também contaram com muitos gestos de solidariedade, como doações cestas básicas e máscaras. Desde o início da pandemia, a Articulação dos Povos indígenas do Brasil (APIB) vem realizando um levantamento independente a respeito do total de casos de covid-19. Os números apurados são bem maiores que os divulgados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que conta somente as ocorrências em terras indígenas homologadas. A compilação de dados da APIB tem sido feita pelo Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena e pelas organizações indígenas de base da APIB. Outras linhas de enfrentamento à covid-19 organizadas no Brasil também colaboram com a iniciativa. Diferentes fontes de dados têm sido utilizadas nesse esforço. Além da própria Sesai, o comitê tem analisado números das secretarias municipais e estaduais de Saúde e do Ministério Público Federal (MPF) (veja a seguir). A covid-19 entre os indígenasConfirmados: 36.428Indígenas mortos pela covid-19: 846Povos afetados: 158 Dados dos indígenas no Estado de TocantinsSuspeitos: 6Confirmados: 882Descartados: 505Infectados (quadro de 15 de outubro): 14Cura clínica: 857Óbitos: 9 Dados atualizados em 15 de outubro de 2020. Fonte: Cimi e APIB. Risco maior aos povos indígenas A pandemia do novo coronavírus pode ter consequências muito graves para os povos originários, alerta o Cimi, com base nas informações da Sesai, ao reconhecer que os indígenas são mais vulneráveis a viroses, especialmente a infecções respiratórias, como a covid-19. Segundo a Secretaria, as doenças respiratórias são, ainda hoje, a principal causa de mortalidade infantil entre indígenas. Outras doenças do tipo causaram o genocídio de povos inteiros. Como parte de uma história de contatos forçados, guerras e extermínios, contribuíram para reduzir a população indígena no Brasil ao longo dos séculos. Já o MPF avalia que, devido às especificidades dos povos indígenas, a vulnerabilidade social de diversas comunidades e o alto índice de propagação do coronavírus, é real o risco de genocídio em meio à pandemia. Por isso o MPF emitiu uma série de recomendações a órgãos públicos, ministérios, Estados e Municípios. Dentro dessa realidade, tanto os xerentes (um dos povos indígenas do Tocantins), como os missionários que atendem às comunidades (Ir. Sílvia Wewering, Ir. Maria Leonice Neves e Pe. Martins Rodrigues Putêncio) estão em isolamento social. Seguindo as orientações da vigilância sanitária e da Arquidiocese de Palmas-TO, alguns projetos tiveram de ser interrompidos, como o I Congresso dos Clãs Xerentes, que já estava sendo preparado. Os organizadores já tinham iniciado o plantio das roças de mandioca e de grãos, uma ação contra a fome denominada “Plantar Mais!”. A proposta também era ter mais alimentos para o próprio Congresso. “Estamos ainda desconfiados” Em um comunicado, o cacique Sawrepte e o professor Nelson Praze, também indígena, dão detalhes sobre como os xerentes estão enfrentando a pandemia. “No início, nós ficamos surpresos, como todo o mundo. Claro, também um pouco assustados sobre essa doença. Pensamos até que essa doença não iria entrar nas aldeias. Tivemos que adiar o Encontro de Clãs, o Congresso Xerente. Mas, quando o primeiro parente nosso adoeceu e faleceu, nós ficamos muito preocupados. Ao todo, chegaram a morrer três xerentes, um sofrimento muito grande para nós todos aqui. Logo, os nossos anciãos (pajés) ensinaram para todos nós, que somos mais jovens, os remédios do mato, cascas e raízes. Isso nos ajudou bastante, tanto que agora não tivemos mais nenhum caso novo. Além da medicina tradicional, tivemos a proteção do nosso Waptokwazawre, Pai Grande. Estamos ainda desconfiados, com medo de surgir a doença de novo. Por isso estamos cuidando, sempre usando a máscara quando saímos das nossas aldeias. As crianças pararam de ir às escolas. Só as aldeias maiores têm internet, com isso vamos ter um atraso no estudo. Esperamos que tudo possa melhorar no futuro, para nós, para todos!” O Povo Akwẽ Xerente luta pela vida. Os membros dessa comunidade estão se cuidando e continuam reivindicando seus direitos por saúde, especialmente para seus anciãos, que são os guardiões da cultura, das tradições. Irmã Maria Leonice Neves é missionária serva do Espírito Santo, pós-graduada em Pedagogia Social com o tema “A atuação das mulheres indígenas xerentes na sua cultura”. ______ Irmã Sílvia, Thekla Wewering, SSpS, trabalha com o Povo Xerente, no grupo NIPAX (Núcleo de Intercâmbio do Povo Akwẽ Xerente), nos encontros frequentes, no estudo-pesquisa, registro de dados, elaboração de textos e na articulação, apoio e organização de material pedagógico, como cartilhas na língua akwe, do livro “Povo Akwẽ Xerente: Vida/Cultura/Identidade”, e outros.
A vida missionária da Infância e Adolescência Missionária (IAM)

Novena Missionária simplificada – Quinto dia Oração inicialEspírito Santo, sopro de vida, que fazes novas todas as coisas, abre nossos corações às tuas inspirações para que, ao escutar e aprofundar tua Palavra, aumentem em nós o ardor missionário e o cuidado com a Casa Comum, nossa terra, e o amor a todas as tuas criaturas, sobretudo cada pessoa criada à tua imagem e semelhança. Espírito de Sabedoria, guia nossos passos nos caminhos da missão. Amém. ReflexãoA Pontifícia Obra da Infância e Adolescência Missionária (IAM) surgiu em 1843, na França, e hoje está presente em mais de 130 países, entre eles o Brasil. Com o protagonismo de crianças e adolescentes, organiza-se em pequenos grupos nas comunidades e paróquias, inspirados em seu carisma: “Criança e adolescente rezando e ajudando criança e adolescente”. Em seus encontros, escolhem um tema gerador, que é aprofundado, iluminado pela Palavra de Deus e, com uma ação concreta, culmina com uma celebração. Os grupos se encontram na sala, na igreja, nas visitas às famílias e na praça, com o objetivo de fortalecer o compromisso de tornar Jesus conhecido e amado. No Brasil, de acordo com o UNICEF, mais da metade de todas as crianças e adolescentes brasileiros são afrodescendentes, e um terço dos cerca de 820 mil indígenas do país são crianças. São dezenas de milhões de pessoas que têm direitos e deveres e necessitam de condições para desenvolver plenamente todo o seu potencial. Por isso crianças e adolescentes devem receber especial atenção. Palavra de Deus: Lc 10,17-21 17 Os setenta e dois voltaram alegres e disseram: “Senhor, até os demônios se submetem a nós, em teu nome”.18 Ele respondeu: “Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago.19 Eu lhes dei autoridade para pisarem sobre cobras e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; nada lhes fará dano.20 Contudo, alegrem-se, não porque os espíritos se submetem a vocês, mas porque seus nomes estão escritos nos céus”.21 Naquela hora, Jesus, exultando no Espírito Santo, disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado”. Para meditar Os setenta e dois discípulos voltam alegres da missão e partilham com Jesus o que eles fizeram. Jesus participa da alegria dos discípulos e lhes mostra qual o verdadeiro motivo de alegria.O que a Palavra de Deus está me dizendo hoje? O que me dá realmente alegria na missão? Oração do Mês MissionárioDeus Pai, Filho e Espírito Santo,fonte transbordante da missão,ajuda-nos a compreenderque a vida é missão,dom e compromisso.Que Maria, nossa intercessorana cidade, no campo,na Amazônia e em toda parte,ajude cada um de nósa ser testemunhas proféticasdo Evangelho,numa Igreja sinodale em estado permanente de missão.Eis-me aqui, Senhor, envia-me!Amém. Assista ao vídeo Neste vídeo, vamos conhecer, pelas próprias crianças, o que é a Infância e a Adolescência Missionária. Também vamos ver o testemunho delas na realização da missão e como se sentem motivadas a serem presença de amor às outras pessoas. Para rezar a novena completa com a sua família, comunidade ou grupos on-line, baixe o livrinho:
Ecumenismo: um novo caminho de fé

“Eles se mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). E logo mais adiante: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles” (At 4,32). Esse sumário de vida das primeiras comunidades cristãs traduz o sentimento dos apóstolos, dos seguidores de Jesus e constitui-se em elementos fundantes de uma teologia do caminho. Etimologicamente, ecumenismo quer dizer o “mundo habitado”. Esse conceito amplia-se conforme as sociedades evoluem. De mundo habitado para “mundo civilizado”, com uma cultura mais aberta, com os avanços sociais, políticos, econômicos e religiosos que possibilitaram compreender sua amplitude. Em relação ao cristianismo nascente, podemos entender esse “mundo habitado” dentro de uma perspectiva espiritual, pois desta “terra habitada” Deus faz parte, por meio de seu filho Jesus, com a colaboração humana. As expressões máximas desse cuidado eclesial são os concílios ecumênicos, que cuidam das influências do “mundo em geral” nas questões doutrinais e disciplinares da Igreja. Contudo é no Concílio Vaticano II que a questão do ecumenismo tem o avanço e a profundidade em sua abordagem e prática, que, na voz do Papa João XXIII, anunciava-se o “abrir as janelas” da Igreja para o mundo. E o Papa Francisco pede uma Igreja de “portas abertas”, uma Igreja em saída. Igreja de janelas e portas abertas, em saída e a caminho, sob o sopro do Espírito, com novos ventos, em direção aos limites das fronteiras humanas. O movimento ecumênico busca construir a unidade dos cristãos, por meio de maior proximidade e estreitamento de laços entre as Igrejas cristãs, em suas diversas denominações (católica, ortodoxa, luterana, anglicana, entre outras), pela superação de divergências teológicas e culturais, fortalecendo o diálogo e a cooperação para a paz mundial. Mas como compreender essa construção da unidade, se nós, cristãos, que bebemos da mesma fonte, parecemos historicamente divididos em grupos religiosos e que, por vezes, entram em conflitos? A teologia paulina nos imerge na imagem do Corpo de Cristo, que implica um forte compromisso ético de cuidado e solidariedade dos membros uns para com os outros, especialmente para com os mais fracos (1Cor 12,12-27). Essa imagem evoca a unidade da Trindade e nos convoca a “vivermos com um só coração e uma só alma, orientados para Deus”, como diz Santo Agostinho. Apesar do crescimento da consciência da identidade e missão dos cristãos na Igreja e no mundo, ainda há longo caminho a percorrer. Essa responsabilidade que nasce do batismo e da confirmação se manifesta de formas diferentes em cada cultura. Alguns pilares, entre outros, que sustentam a caminhada em busca da fraternidade universal e que podem ser compreensíveis em todas as línguas destacam-se por sua essência e obrigam-nos a pensar em como cuidar bem da “casa comum”, tendo em vista o bem comum de todos: encontro-acolhimento, respeito, justiça e ética. Encontro-acolhimento: ir ao encontro do Outro, com a atitude do Bom Pastor, com a prática do Bom Samaritano, sentar-se junto ao poço de Jacó, sob a ótica da Nova Aliança, “ouvir” o que não está sendo dito e “guardar essas coisas no coração” (Lc 2,51). Respeito: é o primeiro princípio/ da ética; reconhecer o Outro em sua identidade cultural e social, em sua dignidade humana. A gente não vê algumas pessoas que estão à nossa volta. Que saber da experiência nasce da relação entre o conhecimento do outro e a vida humana em sua integridade? Justiça: o termo justiça sempre indica uma relação com o outro. Em Jesus, há uma síntese entre o projeto do Reino de Deus e sua pessoa: a justiça e o justo. Mais do que ser “do bem”, é necessário ser bom. Há uma convocação para uma nova ordem: aquele que adora a Deus é profundamente influenciado a viver esta nova era (o amor, o direito, a justiça, a liberdade, a felicidade), constituindo um novo ethos social e religioso. A lei só é válida quando nela está contida a justiça do Reino. Jesus opera visivelmente ações de justiça do Reino (Lc 7,22-23). Ética: vem de ethos: “morada e proteção do ser humano”. Diferente de cosmético, que apenas enfeita. Falamos de vida boa, digna, justa. O ser humano é o fundamento ético para princípios e valores de vida e a mais vida. Implica sua essência: o ser. Ter a coragem de ser, de ser em relação ao outro e ao mundo. De ser inconformado e indignado com a injustiça e desigualdade, ser determinado, ser engajado, ser comprometido e leal, ser profissional, ser transparente, ser apaixonado pelo que faz, enfim: ser ético; “fé ética é o amor”, como diz Edgar Morin. Há uma referência primeira: Jesus vivia com as pessoas. Esse é o caminho que os apóstolos aprenderam. Mariano Gaioski é formado em Filosofia, Teologia e especialista em História e Educação. Trabalhou em diversas ações pastorais nas dioceses de Registro, Santo Amaro e Campo Limpo, também com adultos em situação de rua e com crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional (abrigos) na cidade de São Paulo. Foi professor e coordenador pedagógico em escolas estaduais de São Paulo, na região de Campo Limpo. E-mail: marianogaioski56@gmail.com.
29º Domingo do Tempo Comum

“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”Mt 22,15-21 Com o texto deste domingo, entramos num bloco de quatro unidades tratando de diversas controvérsias com lideranças judaicas diferentes: os fariseus, os herodianos, os saduceus. A discussão de hoje talvez seja a mais conhecida, mas tem sido interpretada, muitas vezes, de maneira errada, projetando sobre Jesus os nossos preconceitos políticos e sociais. É necessário entender que não se trata de uma pergunta sincera feita a Jesus, mas de uma cilada. Quem a faz são membros de dois grupos politicamente opostos e antagônicos: os herodianos, “pelegos” da dominação romana, e os fariseus, muitos dos quais olhavam os herodianos como impuros, pela sua colaboração com o poder estrangeiro. Se Jesus responder que é lícito pagar o imposto, correrá o risco de ser apresentado pelos nacionalistas como um opressor do povo. Se Ele negar, poderá ser denunciado pelos herodianos como subversivo político. É uma situação semelhante à da pergunta de João (8,1-11, a mulher adúltera), em que qualquer resposta deixaria Jesus em maus lençóis. Como naquela ocasião, Jesus se mostra verdadeiro mestre, escapando da cilada e, por cima, dando um ensinamento importante. Primeiramente, Ele deixa claro que entende a jogada: “Hipócritas, por que me armais uma cilada?”. Coloca os seus interlocutores contra a parede, pedindo uma moeda do imposto e perguntando: “De quem são esta efígie e esta inscrição?”. A inscrição seria “Tibério César, Filho do Divino Augusto, Sumo Pontífice”, mostrando as pretensões do Império Romano à divinização. Com a resposta “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, Jesus joga para os seus ouvintes a pergunta essencial: o que pertence a César, e o que pertence a Deus? A Deus pertence a divindade, não ao Império Romano nem a César. Assim, ele evita confirmar o projeto nacionalista violento de muitos judeus de sua época, mas condena também qualquer projeto que divinizasse o poder civil. Uma advertência também para nossos dias, quando o único poder imperial hegemônico (muito semelhante à situação do Império Romano do tempo de Jesus) reivindica para si o poder de impor as suas decisões sobre todas as nações, taxando de “terrorista” quem discorda de sua dominação ideológica, econômica e militar. O poder civil existe para cuidar do povo (que é de Deus) e não para explorá-lo. Jesus assim nega as aspirações imperialistas e, evitando uma resposta direta à pergunta, enfatiza e relativiza todo e qualquer poder, pois o verdadeiro poder somente pertence a Deus. Em nossos dias, ainda existem poderes com as mesmas aspirações dos romanos. Embora não digam abertamente, os arautos do neoliberalismo desenfreado divinizam um sistema que apenas visa ao lucro, à ganância e explora o povo sofrido. As palavras de Jesus nos lembram de que nenhum cristão pode compactuar com qualquer sistema, seja político, econômico ou religioso, que atribui a si o que pertence a Deus. O texto, de forma alguma, justifica um dualismo entre o espiritual (de Deus) e o material (de César). Pelo contrário, mostra que o poder político, econômico e religioso deve estar a serviço do bem comum, pois, se não, está roubando o que é de Deus: o seu povo. Não se pode entregar às garras de um poder opressor, seja ele estrangeiro ou nacional, o que pertence ao Pai. O poder é legítimo quando está a serviço da vida e do bem-estar comum, e não de uns poucos privilegiados. “Dar a Deus o que é de Deus” não se resume em ritos religiosos, mas na construção de uma sociedade de solidariedade, justiça e fraternidade, em que todos possam “ter a vida e a vida em abundância” (Jo 10,10). Conforme lutamos por esse objetivo, estamos dando “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD
A experiência de anunciar a Boa Notícia

Todo cristão precisa reconhecer-se um discípulo-missionário de Jesus. Essa concepção é reforçada no Documento de Aparecida, aprovado pelos bispos da América Latina e do Caribe em 2007. Cada um, conforme os próprios dons, deve colocar-se à escuta do Senhor e propagar a Boa-Nova, a partir de um intenso encontro com o Mestre. Neste Mês das Missões, conheça algumas experiências de quem responde, com gestos e palavras, ao chamado de anunciar Cristo. Testemunho na vida diária “Para mim, ser missionária serva do Espírito Santo é principalmente crescer na apropriação e na vivência do lema de nosso Fundador, Santo Arnaldo Janssen: ‘Viva Deus Uno e Trino em nossos corações e nos corações de todas as pessoas!’. Para isso, a cada dia, preciso me deixar amar por Aquele que, desde sempre, me amou e me chamou à vida, descobrindo as profundezas e as riquezas da verdadeira vida que Jesus veio nos comunicar. É irradiar a Boa-Nova e os valores do Reino, vivenciando e testemunhando-os em minha vida diária, com as pessoas que ele coloca em meu dia a dia. É descobrir também o que Deus quer mostrar a mim e a nós, crescendo na sensibilidade e no discernimento de sua vontade. É abrir-me, com generosidade e coragem, à realidade dos mais necessitados e excluídos de nossa sociedade, comprometendo-me com a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Isso acontece quando sou mais presente a mim mesma e na relação com Deus, quando procuro viver o amor na comunidade e em minhas relações com as outras pessoas.” Irmã Maria Inês de Aragão é missionária serva do Espírito Santo, membro do Concílio Provincial e tesoureira da Rede de Solidariedade (Redes). Voz às crianças “Eu me sinto privilegiada por exercer meu papel de educadora missionária em um ambiente acolhedor, como o de nossas escolas. Sou feliz por ajudar a propiciar um crescimento baseado na construção de valores e princípios, os quais nossos alunos e alunas certamente levarão como ensinamentos para a vida toda. Isso acontece desde a educação infantil, em que os alunos protagonizam e vivenciam suas experiências cotidianamente. Encanta-me observar as crianças brincando, convivendo, partilhando, conversando e explorando, por muitas experiências diárias, a arte da vida. Quando conseguimos acolher e dar a voz às crianças, para que falem sobre suas emoções, ajudando na reflexão de suas ações e no entendimento da importância do respeito ao próximo e a si mesmo, estamos cumprindo essa missão. O agradecimento pela vida ocorre diariamente. Assim, acredito que estamos plantando sementinhas do bem, para crescerem como seres humanos fortalecidos emocionalmente que conseguirão olhar o mundo e respeitar sempre os valores de cada um.” Evelyn Joyce Molina é educadora da educação infantil no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Espalhar o bem “Na sociedade atual, é muito importante estarmos atentos à realidade e à situação pela qual as pessoas estão passando a nosso redor. Muitas vezes, é difícil sairmos de nosso conforto para ir rumo a uma experiência fora de nossa realidade, sem qualquer obrigação, apenas querendo ajudar. Ser um jovem missionário é algo de extrema importância nos dias atuais, pois carregamos uma responsabilidade enorme de ser exemplo para os mais novos e até para os mais velhos. Os jovens são cheios de energia e sede de viver, e usar isso para o bem ao próximo é algo muito enriquecedor que nos faz evoluir como pessoa, aprendendo a ser gratos por tudo o que temos e sempre refletindo sobre nosso cotidiano e o impacto que cada um tem na sociedade, aprendendo a lidar com pessoas, barreiras, diferenças e falta de fé. Participar das missões solidárias é uma experiência única, marcante e muito intensa. Um simples abraço e um sorriso melhoram o dia de alguém, e nunca esquecendo que estamos todos unidos por um mesmo propósito: espalhar o bem.” Giovanna Magalhães Lourenço Carmo é aluna da 3ª série do ensino médio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG, e participou da Missão Sem Fronteiras em 2019. A importância de acolher “‘A tua vida, Senhor, é nossa vida; tua missão, nossa missão…’. Para mim, ser missionária aqui no Centro de Integração do Migrante é ter a consciência e a atitude de que sou chamada e enviada por Jesus Cristo a fazer uma só vida com aqueles e aquelas com quem encontro no cotidiano. Acolher, escutar, acompanhar e deixar-se acompanhar por eles nesse processo de integração e descoberta de novas culturas é sempre um eterno aprendizado mútuo. A experiência destes anos me mostra o quanto é importante acolher com um abraço, um sorriso, um olhar, uma palavra, um gesto. Parece muito simples, porém faz a diferença para quem dá e também para quem recebe.” Irmã Malgarete Scapinelli Conte é missionária serva do Espírito Santo e dedica sua vida pela causa dos migrantes. Dignidade às pessoas “Ser um jovem missionário hoje é muito importante. Isso porque desenvolver habilidades como o altruísmo e a solidariedade se torna cada vez mais urgente e necessário. Cada vez mais, acredito que uma criança e um jovem colaborativo pode melhorar e salvar a sociedade. Não basta apenas conhecer os problemas sociais, como as guerras, a fome, a sede, as doenças, mas sim colocar todas as nossas forças para combatê-los e trazer mais dignidade a todas as pessoas.” Tiago Valentim Viana é aluno da 2ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, e gosta de envolver-se nos trabalhos voluntários que a escola realiza.
A vida missionária consagrada

Novena Missionária simplificada – Quarto dia Oração inicialEspírito Santo, sopro de vida, que fazes novas todas as coisas, abre nossos corações às tuas inspirações para que, ao escutar e aprofundar tua Palavra, aumentem em nós o ardor missionário e o cuidado com a Casa Comum, nossa terra, e o amor a todas as tuas criaturas, sobretudo cada pessoa criada à tua imagem e semelhança. Espírito de Sabedoria, guia nossos passos nos caminhos da missão. Amém. ReflexãoNa vida religiosa consagrada, feminina e masculina, há os votos ou compromissos de pobreza, castidade e obediência, fruto de um amor exclusivo a Nosso Senhor. Esse amor se traduz em amor e serviço aos irmãos. O religioso consagrado é alguém que renunciou à sua vida, à sua vontade própria para entregar-se totalmente a Deus e a evangelizar, no serviço aos irmãos. Existem vários carismas de famílias religiosas que reúnem homens e mulheres, e prestam os mais variados tipos de serviços. Na novena de hoje, vamos refletir sobre o testemunho da vida consagrada junto aos imigrantes venezuelanos, em Roraima. Palavra de Deus: Êxodo 3,7-10 7 Disse o Senhor: “De fato, tenho visto a opressão sobre meu povo no Egito e também tenho escutado o seu clamor, por causa de seus feitores, e sei quanto eles estão sofrendo.8 Por isso desci para livrá-lo das mãos dos egípcios e tirá-los daqui para uma terra boa e vasta, onde manam leite e mel: a terra dos cananeus, dos hititas, dos amorreus, dos fereseus, dos heveus e dos jebuseus.9 Pois agora o clamor dos israelitas chegou a mim, e tenho visto como os egípcios os oprimem.10 Vá, pois, agora; eu o envio ao faraó para tirar do Egito o meu povo, os israelitas”. Para meditar Deus vê a miséria de seu povo, ouve seu clamor e envia Moisés para libertar o povo da escravidão.O que essa Palavra está dizendo para mim hoje?Quais as situações de escravidão que preciso superar? Oração do Mês MissionárioDeus Pai, Filho e Espírito Santo,fonte transbordante da missão,ajuda-nos a compreenderque a vida é missão,dom e compromisso.Que Maria, nossa intercessorana cidade, no campo,na Amazônia e em toda parte,ajude cada um de nósa ser testemunhas proféticasdo Evangelho,numa Igreja sinodale em estado permanente de missão.Eis-me aqui, Senhor, envia-me!Amém. Assista ao vídeo Neste vídeo, vemos o testemunho de várias irmãs e de diversos padres brasileiros que, diante da crise migratória que ocorre na fronteira do Brasil com a Venezuela, foram até o Estado de Roraima. Ali é uma porta de entrada para nosso país, e eles ajudam a organizar a acolhida, os encaminhamentos de documentação e outras tantas atividades. Para rezar a novena completa com a sua família, comunidade ou grupos on-line, baixe o livrinho:
Somos parte de uma grande missão: 100 anos de compromisso com a educação cristã

Pulsar de uma REDE.Pulsar de seus educadores…Rede nos lembra relações, conexões, uniões, e tudo nos remete a pessoas e não aos prédios que compõem as escolas. Sim, somos uma rede de pessoas, de educadores comprometidos com uma razão de SER, com uma missão… A SEB (Sociedade de Ensino e Beneficência) faz 100 anos em 15 de outubro, dia em que historicamente lembramos também os mestres/professores. Que feliz coincidência! Somos parte de um centenário marcado pelo trabalho de muitas irmãs, muitos leigos, muitos professores e muitas gerações que passaram pelos colégios e centros educativos da Rede. Em tempos tão imediatos e líquidos, que bom ter histórias para contar, ter motivos para celebrar e para olhar o passado, com os impulsos do futuro. Saber que muito se fez, mas muito temos para fazer ainda; sabendo que, pela educação, pelos valores evangélicos, pela presença em muitas realidades, podemos fazer a diferença e marcar a formação de crianças e jovens. Nesse dinamismo, nossa prática ganha sentido além das teorias!Para pulsar, existe a necessidade do movimento, do ritmo, da entrega e até da indignação. “É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade” (Nise da Silveira). E assim se fez… Desde o início desta pandemia, acompanhamos nossos educadores incomodados, transformando suas práticas do dia para noite e com um ressignificar em um momento imposto que desafiou todos nós. O ato de ensinar passou definitivamente pelo ato de aprender: aprender metodologias mais adequadas, lidar mais e melhor com as tecnologias, entrar no Zoom, no Meet, olhar para a tela do computador e pensar nas interações que poderiam acontecer remotamente. O educador, que é a fonte das mediações, vê-se mediando o desconhecido, o remoto, a distância, e o ato de ensinar fica transformado pelo impacto do distanciamento social. Como acolher todos? Como dar atenção? Como avaliar? Como… como… como? Quantas perguntas sem respostas prontas e acabadas… A nova sala de aula se desenrolou, e o professor se reinventou. Divaguei um pouco para lembrar fatos e ações que somente quem assume desafios consegue enfrentar. E foi assim que acompanhamos nossos TIMES do Coração de Maria, do Espírito Santo, do Sagrado, do Stella Matutina, do Madre Josefa, Madre Theresia e Maria Helena. Quantas batalhas, mas também quantos reconhecimentos pelo trabalho, pelo esforço, pelos resultados. E assim, queremos agradecer por terem acolhido nossos alunos e suas famílias; sim, deram aulas para muitas famílias. Por buscarem os caminhos para planejamentos criativos, inovadores. Por serem corresponsáveis uns com os outros; e quantas trocas aconteceram e, talvez, até mais que no presencial. Muito obrigado por acreditarem em uma REDE de escolas VIVA, que acredita nos valores humanos das relações, da fé, da humanização do saber e da capacidade transformadora da educação. Por existirem e fazerem parte das nossas vidas. Por marcarem este 2020, dentro de 100 anos da SEB, como um ano especial de muitas aprendizagens e superações. Educadores, a nossa palavra hoje é gratidão, e que possamos sempre celebrar o Dia do Educador com a certeza de nosso compromisso com a missão de educar, como ação transformadora em uma sociedade que parece se encontrar, cada dia mais, no limiar da loucura, da desesperança, da fome física e moral. “Na verdade, é no jogo das tramas de que a vida faz parte que ela, a vida, ganha sentido” (Paulo Freire). Recebam nosso respeito, carinho, gratidão e MUITO OBRIGADO por entenderem as palavras do grande Mestre: “IDE e ENSINAI”! Que Deus abençoe cada um de vocês! João Carlos Martins é assessor pedagógico da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
A vida missionária dos seminaristas

Novena Missionária simplificada – Terceiro dia Oração inicialEspírito Santo, sopro de vida, que fazes novas todas as coisas, abre nossos corações às tuas inspirações para que, ao escutar e aprofundar tua Palavra, aumentem em nós o ardor missionário e o cuidado com a Casa Comum, nossa terra, e o amor a todas as tuas criaturas, sobretudo cada pessoa criada à tua imagem e semelhança. Espírito de Sabedoria, guia nossos passos nos caminhos da missão. Amém. ReflexãoAté pouco tempo atrás, a maioria dos candidatos ao sacerdócio provinha do mundo rural. Hoje, a maioria é originária do mundo urbano. O que se pode constatar é que são filhos da época, com suas possibilidades, limitações, desafios e fragilidades. São jovens que abrem mão de projetos profissionais, deixam a casa dos pais e se dedicam, por oito anos de formação inicial, a tornarem-se padres. Hoje, no Brasil, temos quase 600 seminários e casas de formação, com aproximadamente 6 mil seminaristas das 277 dioceses no Brasil. Um dos desafios no processo de formação nos seminários é o cultivo do espírito missionário. Não basta apenas fomentar e promover vocações ao presbiterado. É urgente despertar e fortalecer nos seminaristas a sensibilidade e zelo para o serviço missionário, de modo que “estejam prontos a dar a vida” (Papa Pio XI). Palavra de Deus: Marcos 3,13-15 13 Jesus subiu a um monte e chamou a si aqueles que ele quis, os quais vieram para junto dele. 14 Escolheu doze, designando-os como apóstolos, para que estivessem com ele, os enviasse a pregar 15 e tivessem autoridade para expulsar demônios. Para meditar A missão para os discípulos consistia em estar com Jesus, anunciar o que aprenderam e expulsar, com autoridade, tudo aquilo que ameaçasse a vida, prejudicasse as pessoas e causasse a morte.E para mim? Em que consiste a missão de Jesus em minha vida pessoal e familiar?De que maneira posso colocar em prática esse texto do Evangelho? Oração do Mês MissionárioDeus Pai, Filho e Espírito Santo,fonte transbordante da missão,ajuda-nos a compreenderque a vida é missão,dom e compromisso.Que Maria, nossa intercessorana cidade, no campo,na Amazônia e em toda parte,ajude cada um de nósa ser testemunhas proféticasdo Evangelho,numa Igreja sinodale em estado permanente de missão.Eis-me aqui, Senhor, envia-me!Amém. Assista ao vídeo Neste vídeo, vamos conhecer o testemunho do jovem seminarista José Lucas Alves da Cruz, que narra sobre sua experiência missionária em Guiné-Bissau, na África. Ele também conta como descobriu sua vocação e sua esperança de estar a serviço da Igreja como padre. Para rezar a novena completa com a sua família, comunidade ou grupos on-line, baixe o livrinho:
Reflexões de uma professora/mãe na pandemia: os desafios e as aprendizagens no período de isolamento

Iniciamos o ano de 2020 repletos de sonhos, planos e metas a cumprir. Não sabíamos muito bem como ele seria. Até então, o que nos aguardava permanecia um doce mistério. Demos um salto de fé e começamos este ano maravilhoso, acreditando, realizando e também sonhando. No mês de março, entretanto, fomos surpreendidos por um vírus desconhecido, por uma pandemia que mudou completamente os rumos de nossas vidas. O novo coronavírus trouxe impacto em nível global, chamando a atenção pelo alcance que teve e pela velocidade com a qual se disseminou. A sociedade está diante de uma emergência de saúde pública. Vivemos um contexto de incertezas, medo, ansiedade. Tememos uma recessão global. Como podemos iniciar nossas reflexões? Se pudéssemos eleger alguns sentimentos, neste ano, seriam medo, falta e saudade. Mas medo de quê? Falta de quê? Saudade de quê? A pandemia de covid-19 isolou os indivíduos em suas casas, fechou nosso comércio. Nos parques de diversão, as luzes se apagaram, cidadãos ficaram desempregados, nossas casas se transformaram em estações de trabalho, enquanto plataformas digitais foram disponibilizadas aos professores e aos alunos, praticamente da noite para o dia. Isolamento social, crianças longe da escola, dos avós e familiares… Acostumados que estávamos a nosso antigo cotidiano, pais e mães passaram então a ser a principal companhia para os filhos, algo inesperado para ambas as partes. Deparamo-nos com uma rotina com a qual nunca havíamos vivido, com as emoções de nossos filhos e com nossas emoções. Todos nós nos vimos presos em casa e reclusos em nós mesmos, só que não demorou para percebermos que a aparente clausura em que a sociedade estava sendo colocada podia ser, na verdade, também libertadora. Logo explico. O que é a vida? Perguntamo-nos… Penso que a vida é isso: um eterno adaptar-se e readaptar-se. Darwin já dizia que os sobreviventes não eram os mais fortes, mas os que melhor se adaptavam às mudanças… E que mudanças! Haja criatividade, mas, vamos lá, nós vamos conseguir! Nossa palavra de ordem é esperança!Para quem não sabe, sou professora há quase 12 anos. Sou mãe de uma criança de 6 anos e de uma de 3 anos. Sou esposa há dez anos, filha há 36 anos e irmã também. Estou trabalhando em casa, numa mistura louca de mãe e professora. Não consigo dissociá-las; elas se complementam. Estamos colocando em prática estratégias de aprendizagem e relações por meio do afeto, do vínculo e do respeito ao ritmo e ao tempo de cada criança. É um desafio organizar a rotina da casa, o trabalho remoto e a maternidade, entretanto não temos uma receita, temos vontade e força para lutar. Desistir jamais! A situação emergencial nos fez abraçar a tecnologia como uma ferramenta pedagógica, com a qual nos aproximamos das crianças e de seus familiares para uma troca fundamental. Toda adaptação exige tempo, porém não tínhamos esse tempo, tampouco fórmula mágica. Mas tínhamos de ter bom senso e generosidade… Minha casa se transformou num espaço de aprendizagens. Resolvi desacelerar. Envolvi meus filhos nessa rotina desafiadora. Recebemos kits pedagógicos do colégio e embarcamos numa viagem de grandes descobertas. Recebemos fita-crepe, lupa, quebra-cabeça magnético, tinta, pincel, cola colorida, jogo da batalha de palavras, boneco ecológico. A fita-crepe foi fixada na sala e transformou-se em uma trilha mágica de carrinhos; a lupa nos transformou em pesquisadores de animais de jardins; os rolos dos projetos do papai viraram telas dos meus pequenos artistas… Quanta riqueza nessa infinidade de materiais! Quem já fez massinha caseira quando era criança? Minhas crianças amam brincar com massinha! Nossa cozinha virou um laboratório de pesquisa. A turma do infantil III do Colégio Sagrado Coração fez uma experiência com a batata-doce antes da pandemia. A batata tem até nome: é a Filomena. A professora Renata Paiva precisava de um lar para acolher a querida Filomena. Então recebemos a Filomena em nossa casa. Não é que ela ficou satisfeita? Precisamos dar tempo e liberdade às crianças, para que elas explorem, conheçam e se relacionem com o mundo. Segundo a psiquiatra e educadora Maria Montessori, “As crianças precisam ter licença para fazer ciência. E fazer ciência quando se é uma criança começa pela exploração sensorial de tudo”. Isso significa que elas precisam tirar a casca da banana, devem colocar as mãos e os pés na terra, podem tirar as pétalas da rosa para ver como é no centro e até prenderem um inseto dentro de um vidro por algumas horas, para poderem ver seu corpo e o soltar depois dessa observação. Esses momentos ricos em aprendizado podem e devem ser documentados por meio de desenhos e fotos. Experiências, contato com a natureza, mesmo com o isolamento social… Mãos na terra, aprendizado para a vida! A partir de agora, o projeto continua em nossa casa. As hipóteses estão surgindo, e nós vamos adorar investigar. Como podemos cuidar da Filomena? Ela gosta de sol? Podemos colocar água todos os dias? Muita ou pouca? De uma forma diferente, estamos ensinando nossos filhos, levando em consideração o modo como eles pensam e aprendem, possibilitando-lhes diversos tipos de interações e experiências significativas. Essa é uma história de pais, tios e avós super-heróis, que encontraram formas de suprir a ausência da rotina escolar na vida da criança. O amor é o fio condutor de nossa história. Meu filho João relata que está aprendendo muito, mesmo que seja pelo computador. Diz que sente falta da escola, dos amigos e dos professores. Quer voltar à escola para brincar e pesquisar. Finalizou seu depoimento, dizendo que é muito feliz na escola, pois tem muitos amigos. Ele não apresentou dificuldades para adaptar-se às aulas on-line. Demonstra independência e autonomia para realizar suas atividades diárias. Consulta o Google sala de aula para verificar os materiais que serão utilizados pelos professores. Fica frustrado quando não há conexão de internet. Minha filha Maria Beatriz quer ir para a escola, mas sabe que o colégio está fechado. Relata que sente saudades dos amigos e do parquinho. Ela tem apenas 3 anos, mas sente muita falta desse espaço mágico que é
28º Domingo do Tempo Comum

“Muitos são chamados, e poucos são escolhidos”Mt 22,1-14 Hoje refletimos sobre a terceira parábola de uma trilogia sobre a rejeição ou a aceitação do convite ao Reino de Deus e às suas obras: a dos dois filhos (21,28-32), a da vinha (21,33-44) e a de hoje: as bodas (22,1-14). Mais uma vez, as palavras de Jesus se dirigem aos chefes dos sacerdotes e anciãos, ou seja, aos que dominavam o sistema religioso vigente e que oprimia o povo de Israel. A imagem usada é de uma festa oriental de casamento: o do filho de um rei. Mas, no texto de hoje, a ênfase não cai no filho, mas na atitude dos convidados. Cumpre lembrar que, muitas vezes, na Bíblia, a festa de bodas é símbolo da união alegre e definitiva de Deus como seu povo. Os convidados que não dão valor ao chamado são aqueles que se apegam ao sistema opressor para defender os próprios privilégios e assim rejeitam a mensagem libertadora da “justiça do Reino” de Jesus, mesmo que isso implique o assassinato de profetas. O versículo 7 é provavelmente um acréscimo feito depois da destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70 d.C., quando a parábola teria recebido sua forma definitiva. O texto correspondente de Lucas não traz esse detalhe. O novo povo de Deus será aberto a todos os que foram marginalizados pelo sistema antigo, dominado pelos sumos sacerdotes e anciãos. Esse é o significado de ir às encruzilhadas dos caminhos, onde se conglomeravam os marginalizados e rejeitados. Todos, bons e maus, são convidados para o banquete do Reino. Assim, o texto enfatiza a misericórdia de Deus, que congrega em sua comunidade não somente os “bons”, mas também os pecadores. De novo, o texto nos traz uma advertência contra a complacência: quem não tem o traje adequado será expulso da festa messiânica. Esse traje é o da “justiça”, tema tão caro a Mateus. Não basta sermos convidados, temos de responder com as obras da justiça do Reino. O convite é universal, mas exigente, urge a conversão de todos. Como os antigos chefes perderam o lugar no banquete do Reino, nós também poderemos sofrer o mesmo destino se não procurarmos viver os valores do Reino, com as suas obras de justiça e solidariedade. O último versículo, “porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos”, nos adverte que muitos são chamados, mas que nem todos perseveram, e assim perdem o lugar. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD