Solenidade da Santíssima Trindade

“Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”Mateus 28,16-20 Hoje celebramos o mistério insondável de Deus: a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus no qual acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano, no qual celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que, no fundo, não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,28). Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas desde que vivamos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, visto que fomos criados à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré, a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Conforme criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático (como se fosse possível explicar “três em um”), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente à sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo, celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
A Solenidade da Santíssima Trindade e sua importância na vida de um cristão

Celebramos, no domingo logo após a Solenidade de Pentecostes, a Solenidade da Santíssima Trindade. Por ordem do Senhor Jesus, em Mateus (28,19), cada um de nós foi batizado e consagrado a Deus “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Fazemos nossa oração diária em sintonia com a Santíssima Trindade. Traçando sobre nosso corpo o sinal da cruz, sinal do amor de Deus por nós, abrimos nosso ser para a Trindade: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”. Ainda nos braços da mãe, talvez sem entendermos o sentido do gesto ou o alcance das palavras, aprendemos a fazer o sinal da cruz e nossa primeira oração: “Em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Esse “amém” no fim da oração é um vocábulo hebraico e, explica Catecismo da Igreja Católica (n.º 1026), está ligado à mesma raiz da palavra “crer”, e exprime a solidez, a confiabilidade e a fidelidade de nossa fé. Pode proclamar tanto a lealdade de Deus para conosco como nossa confiança nele. Com o “amém” que pronunciamos, anunciamos ter encontrado Deus e depositamos nele nossa inteira e total confiança. Esse piedoso sinal da cruz, pelo qual se benze o cristão, invocando as Três Pessoas Divinas, prática já comprovada no segundo século, é um costume de sentido profundo e completo: significa consagração, profissão de fé e oração. Em cada oração que fazemos todos os dias, sempre começamos e terminamos com o sinal da cruz. Com esse sinal, entramos na presença da Santíssima Trindade. É uma louvação às Três Divinas Pessoas, porque elas se revelaram na história e nos convidam a participar de sua comunhão divina. A resposta humana à revelação da Santíssima Trindade é o agradecimento e a glorificação. Depois, decoramos a doxologia (a louvação): “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. E não demorou para aprendermos, desde crianças, muitas vezes antes da primeira comunhão, a professar com piedade e precisão, mesmo sem entender o que haveríamos de compreender, pouco a pouco, mais e melhor, ensinados por nossa mãe, avó, catequista, com solenes palavras: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra […] Creio em um só Senhor, Jesus Cristo […] Deus verdadeiro de Deus verdadeiro […] Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Esse nosso Credo é, em sua estrutura íntima, uma confissão da Trindade. Na verdade, a atenção e a devoção às Três Divinas Pessoas continuam centrais em nossa vida, e tirá-las de nossa fé causaria não só um irreparável dano, mas acabaria com o próprio fundamento de nossa existência cristã. Por isso, crer na Santíssima Trindade e amá-la com todo o nosso ser tem consequências imensas para toda a vida (cf. o Novo Catecismo nos n.os 223-227): significa reconhecer a grandeza e a majestade de Deus. “Deus é tão grande que supera nossa ciência” (Jó 36,26). Significa viver em ação de graças: se Deus é o Único, tudo que somos e tudo o que possuímos vem dele: “Que é que possuis que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7). Significa reconhecer a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens: todos foram feitos “à imagem e à semelhança de Deus” (Gn 1,27). Significa usar corretamente das coisas criadas por Deus, como rezava São Nicolau de Flüe: “Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me afasta de vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo o que me aproxima de vós. Meu Senhor e meu Deus, desprendei-me de mim mesmo para doar-me por inteiro a vós”. Crer na Santíssima Trindade também significa confiar em Deus em qualquer circunstância, mesmo na adversidade. Uma oração de Santa Teresa de Jesus exprime-o de maneira admirável: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Uma fé completa Crer no Deus bíblico, a partir de Jesus, é necessariamente crer na Santíssima Trindade. O Deus de Jesus, o Deus cristão, é o Pai e o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo sempre estão juntos: criam juntos, salvam juntos e juntos nos introduzem em sua comunhão de vida e de amor. Na piedade de muitos fiéis, há uma desintegração da vivência do Deus trino. Alguns só ficam com o Pai, outros só com o Filho e outros só com o Espírito Santo. A religião só do Pai é o patriarcalismo. Todos dependem dele, sem qualquer criatividade. A religião só do Filho é o vanguardismo. Jesus é considerado o “companheiro”, “o mestre” e “nosso chefe”, irmão de todos. É um Jesus com apenas relações para os lados, sem uma dimensão vertical, em direção ao Pai. Essa religião cria cristãos vanguardistas. A religião que só se concentra na figura do Espírito Santo é espiritualismo. Eles só cultivam suas emoções interiores e pessoais. Eles esquecem que o Espírito Santo é sempre o Espírito do Filho, enviado pelo Pai para continuar a obra libertadora de Jesus. Não basta a relação interior (o Espírito Santo) nem a somente para os lados (Filho), nem só a vertical (Pai). Importa integrar as três. Que seria de nós se não tivéssemos um Pai que nos aconchegasse? Que seria de nós se esse Pai não nos desse seu Filho para fazer-nos também filhos de Deus? Que seria de nós, se não tivéssemos recebido o Espírito Santo, enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para morar em nossa interioridade e completar a nossa salvação? Vivamos a fé completa, numa experiência completa da imagem completa de Deus como Trindade de Pessoas. Entrar no mistério amoroso de Deus Fomos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Batizar em nome de alguém significa estabelecer com ele uma relação pessoal. Pelo batismo, entramos numa relação pessoal com Deus uno e trino. Batizar em nome do Pai e
Dimensões da sexualidade, diversidade e respeito

A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une Durante o ano de 2021, todas as escolas de nossa Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo terão como tema transversal “A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une”. Esse será o pano de fundo de todas as nossas ações pedagógicas e marca também como reflexão para que toda a nossa comunidade educativa, alunos, educadores e familiares, possa repensar nossas atitudes diante desse mundo tão plural que vivemos e, assim, trabalhemos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Além disso, aproveitamos também o mês de maio para conversarmos sobre esse tema. No dia 21, celebramos mundialmente o Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e Desenvolvimento. Falar sobre a diversidade é uma tarefa complexa, já que, aos olhos da Antropologia Teológica, todo ser humano é único e irrepetível diante Deus. Cada um, cada uma é parte de um todo que foi pensado e amado por Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança, e, por isso, chamados a viver no e por amor. Nessa lógica, podemos intuir que a diversidade existe desde que a primeira espécie humana (Homo erectus) surgiu neste planeta, há 2 milhões de anos. De acordo com as mais recentes descobertas, o Homo sapiens conviveu com alguns dos seus antepassados, dando mais ênfase a esse convívio diverso. A diversidade está presente em nosso cotidiano, 24 horas por dia. Está em nossas casas, em nossas escolas, em nossos trabalhos e em nossas igrejas. É de suma importância compreender que nossas diferenças nos ajudam a sermos melhores, nos enriquecem e nos tornam mais capazes de construir um mundo mais solidário. Devemos olhar nossas crianças, e digo as menores mesmo, pois, para elas, não existe preconceito, diferenças… Elas convivem de maneira harmônica em nossas salas de aula. Quem trabalha com a educação infantil pode nos ajudar nessa reflexão, mas, conforme o crescimento e as informações que vão recebendo, ou não, essas diferenças vão se tornando obstáculos quando não são bem elaboradas internamente. Jesus, em sua missão, encontrou diversas pessoas, de variadas etnias, opiniões, jeitos de ser, e sua postura foi única: O AMOR, trazendo com ele a misericórdia e a compaixão que derrubam barreiras e preconceitos. Basta olhar o grupo dos doze apóstolos, composto por uma diversidade de pessoas. Em nenhum momento, incitou a violência, de espécie nenhuma, mas acolheu todos aqueles que dele se aproximavam. Isso posto, vamos pontuar alguns aspectos mais específicos da diversidade que desejamos ressaltar. Ao olharmos nosso entorno ou até mesmo quando vemos dados de pesquisas oficiais, fica claro que nossa sociedade é diversa. Geralmente, tende-se a pensar que o modo como lidamos com a diversidade é um assunto já superado e compreendido pela maior parte da sociedade. Mas, ao nos depararmos com as questões que envolvem a diversidade sexual e as dimensões da sexualidade, ainda há caminhos que geram dúvidas e preconceitos. De início, é preciso entender que a sexualidade vai além do conceito biológico do sexo e atrelado ao processo reprodutivo. Ela é algo particular, estando relacionada ao gênero, à identificação das pessoas dentro das possíveis identidades de gênero, ao envolvimento emocional com outras pessoas e consigo próprias. É também uma questão cultural, já que, por ela, são estabelecidos vínculos afetivos e é pautada em padrões criados por grupos de pessoas e valores construídos em cada sociedade. Por conta de toda essa rede de relações (biológica, sociocultural, afetiva e ética), ela deve ser vista e estudada segundo suas várias dimensões e deve ser respeitada e levada a sério. Para que essa compreensão e respeito sejam colocados em prática, é preciso que alguns termos vinculados a essa temática sejam entendidos. Sempre que nos referimos ao sexo biológico, estamos falando da distinção entre macho e fêmea. Porém não devemos confundir o sexo biológico com a identidade de gênero, que se refere ao gênero com o qual o indivíduo se identifica. Desse modo, ser do sexo masculino é ter cromossomos XY; por outro lado, ser do gênero masculino é identificar-se com esse gênero. Embora sexo e gênero tenham uma forte correlação, nem sempre eles são coincidentes. Dentro desse contexto, uma pessoa cisgênero é aquela cuja identidade de gênero coincide com seu sexo biológico, enquanto uma pessoa transgênero é aquela que sua identidade de gênero não coincide com o sexo biológico. Há ainda as pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros ou com os dois. Existe ainda o que chamamos de orientação sexual, que é como se caracteriza o desejo sexual predominante de uma pessoa: se é por pessoa de gênero diferente (heterossexual), igual (homossexual) ou de mais de um gênero (bissexuais ou pansexuais). Muitos outros termos existem dentro desse guarda-chuva, mas esses são os mais populares. A discussão sobre sexualidade se torna cada vez mais importante, uma vez que jovens passam por situações de transtorno psicológico por não se entenderem/aceitarem ou não serem aceitos por outros, além de várias situações de preconceito que ainda são vistas e vividas em um país como o nosso, onde, teoricamente, temos a liberdade para viver a sexualidade do modo que nos convier. Compreender as dimensões da sexualidade é fazer com que ela não faça qualquer pessoa perder seus valores, sua atividade e sua vida. Em janeiro de 2015, o Papa Francisco recebeu Diego Neria Lejárraga, espanhol de 48 anos. Diego, que nasceu mulher, mas sempre se sentiu homem, tinha escrito ao Papa para pedir-lhe apoio diante da rejeição e da incompreensão que sofre por parte de seus conhecidos e até mesmo de religiosos quando vai à igreja, por conta de sua mudança de sexo. Durante seu encontro, perguntou ao Santo Padre se havia lugar para ele na casa de Deus. Como resposta, recebeu um abraço. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz. É, portanto, imprescindível que seja parte de nossas atitudes diárias promover o acolhimento a todos a nosso redor, independentemente de suas características físicas, étnicas, culturais, religiosas ou sexuais, e que tenhamos em mente que, dentro da sociedade inclusiva
“Remexendo sempre na mesma sopa”

Estava lendo um livro e encontrei a seguinte expressão: “mexendo sempre na mesma sopa”. O autor fazia uma análise ampla da busca da integração psicoespiritual. Não vou reproduzir o que ele dizia, mas sim o que entendi ser um dos significados para esse “mexer sempre na mesma sopa”. Todos nós, humanos, temos duas características básicas: um “coração grande e um pequeno”, expressões usadas pelo autor. Vou me ater aqui ao “coração grande” como aquela tendência natural em nós que nos projeta para o alto, para o altruísmo, para o desejo de servir os outros, para ideais que desejamos alcançar, para projetos duradouros para nossa vida. O outro, “coração pequeno”, aquela dimensão que nos mantém muito voltados para nossas necessidades imediatas, busca de prazer, satisfações subjetivas, centradas em nosso egocentrismo. Essas duas tendências existem em nós por natureza, isto é, nascemos com elas. A questão é como buscar o equilíbrio entre elas. Se privilegiamos uma só em detrimento da outra ou caímos num espiritualismo histérico, ou num egocentrismo subjetivista que nos distancia dos outros e nos faz rodopiar em torno do próprio umbigo. Em ambos os casos, ficamos “remexendo sempre na mesma sopa”, ou seja, não progredimos como seres humanos, não atingimos as metas maiores que temos para a vida. Quer queiramos ou não, a vida está ligada a esses dois polos. O do coração pequeno é aquele que nos põe em contato com a realidade cotidiana, cheia de nuances desafiadoras, ao mesmo tempo em que temos de dar conta de nossos compromissos e estar em contato com as pessoas de nossas relações. Vivenciamos conflitos, desacordos, insatisfações, ou porque ficamos cansados de repetir sempre as mesmas coisas em nossa rotina de trabalho, ou porque não nos sentimos compreendidos ou valorizados como desejaríamos nas relações com os outros e acabamos insatisfeitos com nossas “insatisfações”. É nosso coração pequeno que fica girando em torno de si sem sair do lugar. Vira monotonia desgastante que, com o tempo, nos esvazia e nos faz perder o gosto por aquilo que antes considerávamos tão importante. Isso se dá nos vários aspectos de nossa vida. Por exemplo, na vida conjugal. Ao casarem-se, os dois fazem juras de amor eterno. Depois de alguns anos, começa um cansaço nas relações, e muitos não suportam mais e abandonam o juramento feito. Aquilo que antes era tão satisfatório vira “enjoativo” ou insuportável. Isso está relacionado ao “coração pequeno” que não se integrou, de forma equilibrada, ao “coração grande”, não descobriu ou cultivou sentidos maiores para a união, restringiu-se à satisfação do imediato e, ou, não aceitou as limitações do outro antes idealizado. Por outro lado, o “coração grande” é aquele que alimenta nossos sonhos de realização com as coisas maiores, valores perenes que nos colocam numa dimensão altruísta, alimentando nossos ideais e nossas crenças. Esse coração grande mal administrado pode causar desiquilíbrio em nossa busca, porque se desliga da realidade concreta e se torna quase que “fantasia”. Isso ocorre muitas vezes no aspecto religioso que, por si, poderia nos elevar, mas que se presta, muitas vezes, para fugir da realidade, virando espiritualismo estéril, desligado da vida concreta (coração pequeno). Também nesse caso, não houve integração entre o coração grande e o coração pequeno. Aí se verifica o “remexer na mesma sopa”. Isto é, não se integra uma espiritualidade genuína à realidade concreta e cheia de desafios. É mais fácil transferir para Deus resolver aquilo que é de nossa responsabilidade do que pagar o preço por nossas limitações e incoerências. “Remexer na mesma sopa” é o que acontece quando deixamos de nos questionar sobre nosso modo de viver. É certo que nunca conseguiremos uma homeostase (equilíbrio perfeito), contudo isso não nos impossibilita dilatar o coração pequeno para sair de seu ninho subjetivista e de o coração grande ser mais realista em seus sonhos. Somos imanentes e transcendentes ao mesmo tempo. Isso não depende de nossa vontade, porque isso é de natureza, o que fazemos com esses dois movimentos de subir e descer depende de cada um. Certamente que não é uma tarefa fácil, pois está ligada às nossas bases antropológicas que nos empurram para o alto e, ao mesmo tempo, obriga-nos a ficar com os pés no chão. “Remexer na mesma sopa”, no caso, é não se dar conta dessa realidade e ficar girando na mesmice de sempre, desanimando diante das exigências vitais que dão razão à nossa existência e nos refugiando em depressões que consomem as energias, ou virar “anjos” inocentes fora do contexto da existência, despersonalizados e insípidos. Haja caldo para continuar a “remexer nessa sopa”! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Solenidade de Pentecostes

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”Atos 2,1-11; João 20,19-23 A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições: a de Lucas (Atos dos Apóstolos) e a da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da Bíblia (infelizmente ainda muito comum entre nós) leva-nos a um beco sem saída, pois, no Evangelho de João, a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de 50 dias. Por isso devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores. Os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lucas 4,1) e se lançou em sua missão “com a força do Espírito” (Lucas 4,14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período e, na festa judaica de Pentecostes, também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (Atos 2,4). Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso, mas isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos versículos 1 a 4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos versículos 5 a 11, mais profética e missionária. Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração” (Atos 1,14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus. O primeiro relato (versículos 1 a 4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus (o som de um vendaval e as línguas de fogo). A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” – glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neopentecostal). A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público – provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (Atos 1,6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Por três vezes, o relato destaca o fato de os presentes poderem “ouvir” em sua própria língua (versículos 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético, o de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas, ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus. A lista dos presentes tem um sentido especial. Estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, esse fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, em que a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu), que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o Evangelho com a própria expressão cultural. Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica a uma comunidade universal, missionária, mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento. É uma experiência contínua, por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (Atos 4,31), sobre os samaritanos (Atos 8,17) e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos, na casa de Cornélio (Atos 10,4). Pois o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos e celebremos nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas a de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias. João 20,19-23 No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que Jesus tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir, embora de uma maneira inadequada, o termo hebraico “shalom!”, que é muito mais do que “paz”, conforme nosso mundo a compreende. O shalom é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Na proclamação do saudoso Papa São Paulo VI, “A justiça é o novo nome da paz!”. Jesus não promete a paz do comodismo, mas, pelo contrário, envia seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas promete o shalom, pois ele
Pentecostes: o Espírito nos leva a servir

Neste domingo, 23 de maio, a Igreja celebra a grande solenidade de Pentecostes. É quando os cristãos comemoram a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus. Festejamos o “sopro”, a “respiração”, a “brisa”, o “vento” criador de Deus a vivificar a Igreja. A liturgia nessa data é riquíssima, com uma celebração própria para a vigília (sábado) e outra para o domingo. As comunidades cristãs orientais, sobretudo, são muito esmeradas quando se trata do Espírito Santo. Quanto à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o tesouro místico, litúrgico e teológico dessas tradições é incalculável. Nós, cristãos ocidentais, temos muito a aprender com esses nossos irmãos e irmãs, mas isso não quer dizer que, deste lado do mundo, também não existam riquezas. Estive meditando um pouco sobre o nome que Santo Arnaldo Janssen deu ao primeiro ramo feminino de sua obra evangelizadora: a Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Dias atrás, numa formação para os futuros diáconos permanentes da Arquidiocese de Belo Horizonte-MG, tratei sobre o tema “espiritualidade”. Em um resumo bem agudo, destaquei que esse dom é, de fato, vivido na prática; caso contrário, vira espiritualismo. Uma “pessoa espiritualizada” preocupa-se (e procura agir) diante de uma floresta que arde, água e ar poluídos, com o fato de haver pessoas sem um teto, sem uma terra, sem emprego, sem acesso à saúde, à educação, à segurança. Afinal, “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mateus 25,40b). Nessa linha, o servir à Criação, algo essencial para os seguidores de Jesus, é impressionante o horizonte que o Fundador da Família Arnaldina propõe para suas filhas espirituais: irmãs evangelizadoras e servas do Espírito Criador, do Espírito Consolador, do Espírito da Vida. Para Santo Arnaldo, a maior e constante adoração ao Senhor passaria pelo anúncio de Jesus, a Boa Notícia, e pelo serviço principalmente aos mais fragilizados, pois cada ser traz a essência do sagrado, o Espírito que Deus nos soprou nas narinas (cf. Gênesis 2,7). Em síntese: ser serva, servo do Espírito Santo é estar à disposição do próximo, e esse propósito vale para todos os batizados e batizadas, de qualquer tempo e lugar. Viver na espiritualidade de Deus é servir, e bem. Ser discípulas-missionárias, discípulos-missionários, servindo ao Espírito Santo, é, para mim, uma indicação muitíssimo inspirada de ter o coração na Trindade e os pés bem no chão. Não é muito fácil falar sobre essa Brisa Santa. Creio que Deus nos faz mesmo é um convite à experiência de nos deixar levar por esse subversivo “vento que sopra aonde quer” (João 3,8a). Assim, ouso aqui partilhar uma breve oração, vinda do que sinto (e não penso) sobre o Espírito Criador. Permita-se inspirar por aquele que renova a face da Terra e componha a sua prece também. Se temos o dia, Senhor, por vosso Espírito, temos o calor e o Sol.Se temos a noite, por vosso Espírito, Senhor, temos a luz a nos guiar na escuridão.Se temos a chuva, por vosso Espírito, a terra é ventre fecundo.Se temos a semente, por vosso Espírito, temos a árvore e os abundantes frutos.Se temos os livros, por vosso Espírito, temos o mais profundo instrutor.Se temos inteligência, por vosso Espírito, Senhor, recebemos o dom da preciosa sabedoria.Se temos forças, por vosso Espírito, nosso ânimo é inspirado para o bem.Se temos o cansaço, por vosso Espírito, temos o conforto do repouso e da serenidade.Se temos o presente da água, por vosso Espírito, temos o mergulho em Cristo.Se temos a vida, por vosso Espírito, nós a temos em abundância.Se temos fé, por vosso Espírito temos a chama da verdadeira piedade.Se temos as liturgias, por vosso Espírito, celebramos o Mistério e o divino abraço.Se temos a morte e as cruzes, por vosso Espírito, temos a ressurreição e a vida.Se temos o Espírito, temos a fé, a esperança, o amor.Vinde, ó divina Brisa!Vinde, ó Vento de santa rebeldia!Vinde, ó Sopro de vida!Vinde, ó Espírito Santo! Amém. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Bem-aventurada Madre Josefa Stenmanns: uma grande missionária para todos os tempos

Quem é a Bem-aventurada Madre Josefa Stenmanns? Ela é cofundadora da Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo. Ela nos deixou um grande exemplo de amor, de acolhimento e de entrega ao Espírito Santo. Vamos conhecer sua vida e missão, seguindo algumas passagens de sua trajetória guiada pelo Espírito Santo. Desde cedo, Hendrina, nome de batismo, recebeu a iniciação na vida espiritual. Sua mãe plantou em seu coração as sementes de bondade e fidelidade. A partir de 6 anos, Hendrina ia à missa todas as manhãs, antes da escola. Após a primeira comunhão, recebia os sacramentos a cada semana. Aos poucos, desenvolveu seu estilo próprio de felicidade e alegria. Simplesmente por sua presença e bondade, ela tinha o dom de alegrar os outros e consolá-los na dor e nas dificuldades. Também tinha os olhos e o coração voltados para os necessitados da vila onde morava. Tinha uma palavra de carinho para cada um. Todos os dias, visitava doentes, idosos e pessoas abandonadas. Ela cuidava deles e os consolava. Conseguia ler o sofrimento interior e a dor dos outros. Em sua comunidade paroquial, cultivava a oração e as visitas a Jesus. Praticava atos voluntários de penitência. Levava a sério a lei do jejum. Participava da peregrinação anual a Kevelaer, lugar de encontro com Nossa Senhora, Consoladora dos Aflitos. O sopro do Espírito é movimento e vida. Hendrina se transformou numa jovem madura em busca do futuro. Apesar do trabalho e da assistência aos necessitados, ela queria algo mais. Rezava o terço e breves orações durante suas atividades. Em seu coração, sentia crescer o desejo de comprometer-se totalmente, seguindo mais de perto o Senhor. Aos 19 anos, entrou na Ordem Terceira de São Francisco. Foi franciscana da Ordem até entrar em Steyl. Viveu intensamente esse período e cumpriu as exigências da Ordem Terceira: desejo sincero de perfeição; prática da renúncia e da humildade; virtudes da fé, esperança e caridade; fortaleza, paciência e perseverança no sofrimento e adversidade. Em seu coração, crescia o desejo de seguir o Senhor. Indo pela primeira vez a Steyl, reconheceu o sopro do Espírito pelo clima de oração e missão que não a deixou em paz. A semente plantada em seu coração na infância e juventude e o sopro do Espírito Santo se tornaram mais visíveis. Assim, depois de muitos anos de espera e amadurecimento, tomou uma decisão definitiva: urgia dar o passo decisivo. Pediu que Santo Arnaldo Janssen, Fundador da Casa Missionária de Steyl, a recebesse como empregada. Na carta ao Fundador, escreveu: “Pedi a luz do Espírito Santo, para que eu seja guiada conforme a vontade de Deus, para aquilo que ele planejou desde a eternidade”. O desejo de entrar na Casa Missionária nunca a deixou. Estava certa de ser destinada a participar do trabalho da propagação da fé. Essa é Hendrina partindo para Steyl. Deixou família, profissão e paróquia para arriscar um passo novo em seu seguimento do Senhor. “Vem, Espírito Santo!” era sua constante oração. Era fiel no compromisso de aprofundar a contemplação da presença de Deus em seu coração e nas pessoas. Cultivava o silêncio e a contemplação. Sua sintonia com Deus fez dela uma religiosa de profunda sensibilidade e simplicidade, de espontaneidade e proximidade com as irmãs e com as pessoas com quem se relacionava. Dizia às irmãs: “Rezem muito para que o Espírito Santo, que nos uniu pelo amor, também nos conserve no amor. Ele é o Pai de amor e de bondade”. Sendo uma mulher de grande bom senso, de compaixão, amor e generosidade, sua presença irradiava paz, alegria e calor humano. Sua espontaneidade, sua maneira amiga e benevolente criou uma atmosfera favorável à escuta e ao diálogo, e todas as suas palavras expressavam amor, bondade e sinceridade. Nos tempos difíceis da comunidade e nas dificuldades pessoais, sempre dizia: “Seja feita a santa vontade de Deus”. Demonstrava sensibilidade atenta à vontade do Senhor. Era uma testemunha viva dos ensinamentos que passava aos outros. Ao se aproximar de alguém, era acolhedora e atraente, capaz de conquistar logo a confiança das pessoas. Sabia como construir pontes aos outros e criar um sentido de comunidade. O amor profundo à Eucaristia era, para Madre Josefa, uma fonte de vida, que, por sua vez, encontrou expressão concreta em seu amor aos pobres, doentes e necessitados, enquanto ainda estava em casa, antes de sua ida para Steyl. Vemos, em sua vida, uma entrega incondicional à vontade de Deus, vivida na alegria e gratidão, com convicção e liberdade interior. E, apesar de suas muitas atividades, ela não caiu no ativismo, achando sempre tempo para a contemplação e oração. Desenvolveu o espírito missionário e assim escreveu ao Fundador: “Desejo nada mais que, com a graça de Deus, ser a última e sacrificar-me pela obra da evangelização”. Se houver uma frase que possa resumir adequadamente a vida de Madre Josefa, acreditamos ser esta: se cumprirmos fielmente todas as nossas tarefas, estaremos prontas a comparecer diante de Deus quando Ele chamar. Rezemos diariamente: pronto está meu coração, ó Deus, pronto está meu coração! Fala de um desejo, disposição, entusiasmo, abertura, amor, liberdade interior. Ela rezou e viveu por um objetivo: abrir cada coração ao amor. Para isso, ofereceu sua vida com uma prontidão total, sem limites e condições. “Ó Coração tão bondoso, quero amar, agir e sofrer em ti. Purifica-me de tudo o que ainda é meu e transforma-me em ti.” Essa transformação final e essa purificação total ocorreu, acima de tudo, durante a longa e dolorosa doença terminal. Foi naqueles meses que Madre Josefa repassou às irmãs uma herança preciosa que constitui, ao mesmo tempo, seu testamento que lhe dera luz, força e orientação em todas as situações: “Vem, Espírito Santo! Vem, Espírito Criador!”. Essa oração era sua vida, sua própria respiração, e ela queria que fosse a respiração de suas filhas espirituais. Entre ansiedade e esperança, entre vida e morte Madre Josefa sofreu muito durante sua longa doença terminal. Sempre de novo sofria de fortes crises de asma e, no fim, começou a sofrer de edema. Alternava
Violência sexual contra crianças e adolescentes e a carência de valores humanos

Embora o homem moderno tenha à sua disposição grandes recursos tecnológicos, a sociedade parece estar carente de valores profundos. Daí, nunca como hoje, existir tanta infelicidade, angústia, depressão individual e coletiva que geram chagas como a violência sexual contra crianças e adolescentes. É doloroso olhar para esse problema, ao mesmo tempo em que nos coloca diante de uma grande responsabilidade, a de reconstruir o ser humano profundo em cada um de nós. A violência sexual contra crianças e adolescentes é hoje uma das grandes preocupações em nível mundial, afetando a sociedade como um todo, grupos, famílias e indivíduos. É uma das violências que atingem todas as faixas etárias, classes sociais e ambos os sexos. Contudo fatores como a miséria facilitam situações de promiscuidade, favorecendo as vitimizações. Hoje é um problema endêmico e complexo de saúde pública, e um desafio para a sociedade. Estudos da Organização das Nações Unidas revelam a existência de 1,8 milhão de crianças envolvidas em redes de prostituição, 1,2 milhão submetidas ao tráfico de seres humanos, 230 milhões de vítimas de abuso sexual. A violência sexual pode ser definida como envolvimento de crianças e adolescentes, dependentes e imaturos quanto a seu desenvolvimento, em atividades sexuais que eles não têm condições de compreender plenamente e para as quais não têm condições de dar seu consentimento. Oitenta por cento da violência sexual contra crianças e adolescentes acontecem no espaço familiar ou em círculos de relações próximas e confiáveis. No ambiente doméstico, por um processo de domínio e poder estabelecido pelas regras sociais, agressores com laços consanguíneos e de parentescos praticam esse tipo de violência. Predominantemente, essa violência ocorre dentro de relações de poder, nas quais os homens praticamente possuem o domínio no território físico e simbólico da estrutura familiar. Os pais são responsáveis pelo maior número de vitimizações sexuais, seguidos de padrastos, tios e irmãos. O ambiente doméstico, isolado do olhar público, favorece que a violência praticada fique encoberta pelo silêncio cúmplice e sem testemunhas. O autoritarismo e o machismo se articulam nas condições de vida das famílias. Apesar de os meninos serem também vítimas de violência sexual, as vítimas preferenciais dos agressores são crianças e adolescentes do sexo feminino. Isso evidencia a questão de gênero, em que as diferenças de sexo são convertidas em desigualdades, possibilitando o processo de dominação e exploração. Além das possíveis lesões em seu corpo, crianças e adolescentes vítimas de violência sexual tornam-se adultos mais vulneráveis a outros tipos de agressões e distúrbios, podendo levar ao uso de drogas, prostituição, depressão e suicídio. A criança que sofre violência sexual pode carregar esse trauma que afeta seus padrões de relacionamento posteriores. A violência sexual contra crianças e adolescentes é uma forma de abuso difícil de ser notificada devido a vários fatores. Entre eles, o silêncio e a negação dos fatos pelas crianças e as famílias, pelo medo e pelas perdas de laços familiares que envolvem. A criança vítima sofre ao revelar o abuso e ver-se privada do direito à convivência, pois o familiar pode ser afastado do lar ou posto na cadeia. É uma violência também difícil de ser denunciada devido à falta de credibilidade e provas físicas no sistema legal. A partir da Constituição Federal de 1988, no Brasil, a criança passou a ser sujeito de direitos, merecedora da proteção integral por encontrar-se em fase especial de desenvolvimento físico, psíquico, cognitivo e social. A aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente realizou um importante avanço no campo dos direitos humanos, aprovando um instrumento que colabora decisivamente na identificação dos mecanismos de violência e implementação dos direitos constitucionais da população infantojuvenil. Dessa forma, a sociedade e o Estado brasileiro promovem o enfrentamento dos diversos tipos de violência, assegurando às crianças e adolescentes o pleno exercício de seus direitos constitucionais e estatutários. O Conselho Tutelar, órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, tem como atribuição o atendimento direto de denúncias, o diagnóstico da realidade de violação de direitos, o monitoramento do Sistema de Garantia de Direitos e o atendimento direto de serviços, suprindo a falta de políticas públicas. Quando a família como elemento de proteção falha em relação à criança e ao adolescente, entram os profissionais da Educação, da Saúde, do Serviço Social e do Direito, oferecendo um redirecionamento curativo e reconstrutivo. A complexidade e perplexidade desses comportamentos fazem com que o atendimento pelos profissionais de saúde também seja difícil e falte agilidade e eficiência. Concluímos trazendo presente o apelo que essa questão traz para cada um de nós. Hoje sabemos que a vida não acontece de forma isolada, mas que participamos de um destino comum. Culpar e punir só leva a mais violência. Elevar nosso ser, cultivando os valores que dão dignidade à vida de cada ser humano trará uma corrente positiva. Para nós, cristãos, significa acolher-nos à ação do Espírito Santo, que renova todas as coisas, nos salva e reconcilia em Cristo. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS
Solenidade da Ascensão do Senhor

“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”Marcos 16,15-20 O texto de Marcos (16,9-20), que contém o fim desse Evangelho, interrompe o fio da narração precedente. É muito diferente em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice”, provavelmente escrito no segundo século e baseado sobretudo no capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências de fatos narrados nos Atos dos Apóstolos. Embora não acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje. Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus, o de levar a Boa-Nova para toda a humanidade (Mateus 28,18-20). A Igreja é, por sua natureza, missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandado estaria traindo sua identidade. Porém se faz necessário distinguir entre “missão” e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar para si fiéis de outras igrejas. Giram ao redor de si mesmas, identificando sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade a descobrirem a presença do Reino (e do antirreino) em suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandado vai nos fazer lembrar que nós não somos donos da missão. A missão é do próprio Deus, cujo Filho Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou uma comunidade de discípulos e discípulas para continuar sua missão da implantação do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. A serviço dela existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Mas ninguém está dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se em sua própria comunidade, movimento ou Igreja; pelo contrário, devemos sentir-nos unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo, e comprometidos com a construção da sociedade justa e solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão, a longo prazo, é reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Nós o fazemos pela proclamação explícita da Boa-Nova e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições religiosas, convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço, e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação integral. O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana os sinais do mal, do antirreino, que escraviza e oprime milhões de pessoas, por meio de estruturas econômicas, sociais e até religiosas de exclusão; “falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma língua do diálogo e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”: superando tanto o veneno semeado durante milênios na convivência humana, expressado pelo racismo, machismo, clericalismo e todos os “ismos” que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando, na prática, para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (João 10,10), como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas restaurando a saúde integral, das pessoas e da Criação, mediante a vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágica se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres” duvidosos, à falação de supostas “línguas dos anjos” e à satanização de tudo, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a presença diabólica. Durante séculos, muitas vezes, os cristãos do Brasil (e de muitas outras regiões) têm se acomodado com a vivência de uma religião individualista, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a transformação social. O mandado de semearmos a Boa-Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus, não somente à sua pessoa, mas também à sua prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Liberdade não tem cor

“Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós…”. Lembra-se do enredo de samba da Imperatriz Leopoldinense, campeã do carnaval do Rio de Janeiro anos atrás? A liberdade foi cantada em prosas e versos. Mas, infelizmente, neste dia 13 de maio, não há o que comemorar em relação à Abolição da Escravatura no Brasil. No mundo, há várias questões sobre a existência humana a serem pensadas e combatidas com seriedade; por exemplo, o racismo. Com a pandemia, vivenciamos o horror da desigualdade social. Somos os únicos animais que discriminam os próprios semelhantes, causando violência física, psicológica e ideológica. Embora sejamos classificados como o ser que tem “livre-arbítrio”, ou seja, liberdade, presenciamos o quanto esse conceito é extremamente difuso. Como pensar em Abolição da Escravatura se ainda existe trabalho escravo no Brasil? Como ser livre se há mentes aprisionadas em ideias retrógradas, em aparências, se há preconceitos contra mulheres, homens e crianças negras? O movimento “Vidas negras importam”, que surgiu nos Estados Unidos, em 2013, fundado pelas ativistas negras Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opaal Tometi, reivindica o direito à vida, à saúde, ao trabalho, enfim, à dignidade humana para todos, principalmente para os negros e descendentes. No Brasil, às vésperas do Dia da Consciência Negra, em novembro do ano passado, João Alberto Silveira Freitas, negro, foi assassinado por seguranças que o espancaram numa loja do Carrefour, na cidade de Porto Alegre. Triste e trágica simbologia da realidade da população em nosso País, que também, a cada dia, tem sofrido com o racismo estrutural. Liberdade não tem cor. Por isso devemos educar para o respeito às diferenças, à tolerância, à solidariedade, conforme estabelece as Leis nos 10.639/2003 e 11.645/2008, com o apoio do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, o Estatuto da Igualdade Racial, as cotas nas universidades públicas e no serviço público federal, implantando no currículo escolar o ensino da História e Cultura da Afro-Brasileira e Indígena. O caso ocorrido com o cidadão George Floyd, nos Estados Unidos, em 25 de maio de 2020, e os vários assassinatos de negros que têm acontecido no Brasil e no mundo clamam por justiça. Todo ser humano quer respirar a paz, independentemente da cor, do sexo, da religião, da etnia, da opinião política. Nossa Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 5º, inciso XLII: “A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei”. É uma forma de se garantir o respeito pelo outro. No entanto, o racismo e a onda de violência contra a pessoa negra ainda persistem em todo mundo. Defender a liberdade para todos é defender a emancipação do indivíduo, responsabilizando-o para assumir seus atos e fracassos, bem como as vitórias. Nesse sentido, a educação é fundamental para o exercício pleno da cidadania em nossa sociedade. O mito da democracia racial no Brasil é um conceito que tenta negar a existência do racismo em nosso País, camuflando a discriminação e o preconceito racial. Ao examinarmos as diferenças sociais entre negros e brancos, bem como do desenvolvimento histórico brasileiro, verifica-se a verdadeira natureza social, cultura e política ameaçadora para os negros. Nascer com a “mancha mongólica” na região lombar é a marca genética de que somos sim, afrodescendentes ou ameríndios. A ideologia de que “brancos e negros são iguais” neste país é um engodo. Há muito o que fazer, esclarecer, refletir para que sejamos uma Nação de igualdade e diferenças. Muito axé (força) para todos! Que sejamos justos, fraternos e solidários! Maria Terezinha CorrêaMestre em Antropologia, Especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e membro da diretoria da Aproffib.