Bocas famintas

Eu que escrevo, você que me lê, diariamente, temos três ou mais refeições para saciar nosso apetite. Assim acontece com 90% dos brasileiros; somos a maioria! Contudo os outros 10%, segundo noticiários, não têm o que comer. Passam fome. As sobras de nós, os 90%, amenizariam certamente boa parte dos 10%. O Brasil é o maior produtor de alimentos de origem agrícola e de proteína animal. Exportamos milhões de toneladas que rendem milhões de dólares. Pois é, e sobram 20 milhões de pessoas que passam fome! Fico estarrecido diante dessa realidade. E me incomoda que eu faça tão pouco para ajudar a saciar essa gente. Sei que uma ação solitária resolve pouco, embora possa amenizar a fome de algumas pessoas. E as outras? O que dizer para uma mãe que tem três ou quatro filhos e acordar sem ter o que dar de comer para eles? Há gente que se sensibiliza e ajuda como pode, há gente insensível que até critica essas pessoas, dizendo que não trabalham e querem viver às custas do governo. Pode ser até verdade em alguns poucos casos, mas não se aplica à maioria. O pobre é frequentemente pobre em tudo. Não tem escolaridade, vive num ambiente pobre, não tem perspectiva de futuro, vive na esperança de ganhar alguma cesta básica. Não tem qualificação profissional, seu salário é baixo; em muitos casos, nem carteira de trabalho tem. Catam latinhas e plásticos descartados de nossas casas. Tentam sobreviver assim. No meio deles, às vezes, há os malandros que viciam as crianças na droga e, depois, elas se tornam dependentes. Em muitas famílias, muitas delas desestruturadas, reina um ambiente nocivo e frequentemente agressivo; a fome é apenas um dos problemas. Nós, os 90%, acostumamo-nos a esquecer essa realidade ou estamos “vacinados”, já “imunes”, achamos “normal” essa situação. De vez em quando, lamentamos a situação quando vemos casos desesperados de mães que imploram. Passada a comoção, voltamos a nosso cotidiano, tendo boas intensões, desejando que tenham boa sorte. Enquanto nossa mente e coração ficarem presos ao lucro a qualquer preço, ao acúmulo sem medida em nossas mesas, enquanto não recuperarmos a sensibilidade humana para com os humanos, essa situação vai persistir. Para resolver o problema da fome, bastaria distribuir melhor um pouco do que produzimos em alimentos, contudo somente isso não resolve a situação da pobreza. É preciso uma atitude que vá desde nós, que comemos todas as refeições que queremos diariamente, até aqueles que têm a responsabilidade política e administrativa para mudar essa ideologia capitalista que não vê o outro como pessoa, mas apenas como crachá que produz. Como podemos ficar com a consciência tranquila quando vemos que cachorros e gatos são mais bem tratados do que pessoas? Uma cena inusitada diante de um pobre que pede comida e a ração de primeira para o cachorro de estimação. Gasta-se o que for necessário pela ração, mas não tem um troquinho para um pão para o faminto. Ao cachorrinho se dá todo o conforto e carinho; ao pobre, o olhar de desprezo e pede-se que não volte mais a bater à porta. Não estou dizendo que os animais devam ser maltratados, mas que se tivesse com o ser humano um pouco mais de compaixão e solidariedade, que o tratamento ao humano fosse próximo àquele que dispensado aos animais. Quem sabe, assim, a fila das bocas famintas diminuiria um pouco? Na consciência dos “humanos”, os 10% dos brasileiros famintos pesam mais do que os 90% de saciados. Esse escrito é só uma reflexão, constatação! Deus nos ajude e nos mova a alguma ação em favor de pão para as bocas famintas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Aprendendo a ser mãe

Sobre a maternidade, há tanto a dizer que mil e uma noites não seriam suficientes. Estamos diante do fato que mais reafirma nossa fé no Divino e maravilhoso. Aquele minuto do rebento que pega de surpresa até aqueles que não creem. Há maternidade que é concebida no ato da adoção, na decisão de acolher para sempre. Um lugar idealizado e socialmente construído. Uma (des)construção permanente se faz necessária. E quando você menos percebe, a maternidade a coloca diante de uma aula que não se acaba, um aprendizado sem fim. De minha experiência como filha, entre tantas, trago a lembrança de minha mãe servindo licor de jabuticaba caseiro a dona Maria, uma negra que transitava nas ruas pedindo ajuda de porta em porta. Dos idos dos anos 1970, também trago a dor da cena partilhada com minha mãe, na esquina de nossa rua, lamentando a belo-horizontina Serra do Curral ardendo em chamas. De minha experiência como mãe, trago um bordão muito particular: exaustão e êxtase. Um girar da exaustiva roda da vida que não pode parar e que tem uma química própria que nos impele à reinvenção cotidiana e a um aprendizado infinito. Um processo de retroalimentação incansável e que se nutre de cenas e conquistas corriqueiras e extasiantes as quais renovam nossas forças. A maternidade inaugura a vida de outra pessoa. A força dessa criação é um mistério que vai nos acompanhar. Para seguir falando da maternidade, trago um provérbio africano que diz que, para educar uma criança, é preciso uma aldeia. A função materna educadora e personificada na redentora e solitária figura da mãe dá lugar à ação educativa da aldeia. Muitas mãos e muitas mães ajudando a tecer o fio da vida… Uma lição que não se acaba, nunca! Uma lição que começa a cada criança que nasce. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Atividade didática destaca o valor da mulher

A questão do feminino nos provoca a pensar um mundo mais afetivo e humano. Partilhamos um texto e um poema elaborados pelos alunos Nycolas Daibert Vieira e Kimberly Lopes Galvão César. A atividade foi motivada pelas professoras de Redação, Cristiane Imperador, do Colégio Espírito Santo (São Paulo-SP), e Erika Vullu, do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora-MG). A comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, inspirou o trabalho. Veja as composições a seguir. Para todas as mulheres do mundo O dia 8 de março é uma data internacionalmente especial: é a homenagem às mulheres, que marcam a nossa vida e melhoram os lugares pelos quais passam. Mas, no cotidiano, a situação é diferente. Infelizmente, elas vivenciam vários desafios no trabalho, nas redes ou nas ruas. Todos os dias, milhares de mulheres são assassinadas pelos maridos ou namorados, são expostas, assediadas e estupradas. Neste mundo machista e opressor em que vivemos, normalmente as pessoas dizem que é “mimimi”, falam que é por causa da roupa, do gênero, da sexualidade ou do estilo de ser. Mesmo passando por diversas situações, as mulheres conseguiram seu lugar de fala e de poder na sociedade atual, mostrando que são inteligentes, fortes e mais capacitadas que vários homens por aí. Sabemos que o mundo não é um lugar fácil de se viver, mas, com respeito e solidariedade, podemos construir um lugar mais justo e igualitário, onde mulheres e homens sejam reconhecidos por seus feitos e não julgados por seu gênero. A vocês, mulheres, obrigado por serem tão importantes e estarem presentes nas nossas vidas. O mundo certamente seria um lugar muito pior sem vocês. Nycolas Daibert Vieira (2ª série do ensino médio, Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG) A mulher Mulher,você é incrível!Você gera e traz uma vida ao mundo,mas não lhe damos o devido valor. Mulher é um ser sensível:emociona-se,apaixona-se,ama, sente, chora…Há acontecimentos que a machucam,não porque são frágeis, mas porque sentem.Você não é obrigada a nada! Mães, profissionais, esposas, adolescentes, meninas, amigas… Eu sou mulher.Sei que devemos lutar pela nossa felicidadee que, se nossa luta incomoda,estamos no caminho certo. Mulher,você é extraordinária,só precisa conquistar o seu lugar e mostrar o seu valor.Nossa voz é mudança!Merecemos o nosso destaquee está na hora de descobriremque somos iguais. Kimberly Lopes Galvão César (1ª série do ensino médio, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP)

5º Domingo da Páscoa

“Sem mim, vocês não podem fazer nada”João 15,1-8 Esse texto inicia a seção do Quarto Evangelho a qual tem os trechos que mais se aproximam dos discursos da vida pública de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João: a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15,18-16,4) vai tratar do ódio do mundo para com os seus seguidores. No Antigo Testamento, frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele tem cuidado com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, vimos como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do novo Israel. Se ficarem unidos a ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro, o Pai. No Antigo Testamento, muitas vezes, Deus ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do novo Israel não falhe, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados. A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Esse tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Mas os cristãos somente poderão dar esse fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez, volta-se à ideia de que é pelos frutos que se conhece a árvore. Assim, leva-nos a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como fez alguns anos atrás a Conferência de Aparecida e o documento que foi publicado por ela. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha de ser podada pelo Pai para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados não é a verdadeira Igreja do nosso divino Redentor” (Discurso de 4 de dezembro de 1977). Sem dúvida, há muita coisa realmente boa ocorrendo nas comunidades cristãs do Brasil bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade, e não no lucro, competitividade e na lei da selva. Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neoliberalismo, da globalização, das forças do mercado. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta de melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade: com ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas, sem dúvida, como colaboradores dele na construção do Reino de Deus. As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas (às vezes, dentro da própria Igreja), os sofrimentos dos mártires da caminhada e de suas famílias são podas, mas podas que darão mais fruto ainda. Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós, uma vez que fiquemos unidos a ele, e entre nós, pois Jesus mesmo nos disse “Sem mim, nada poderão fazer”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

A dança no bibliodrama

“És, Senhor, o Deus da vida,És a festa, és a dança.No banquete de tua casa,somos povo da Aliança.” (“Mesa pronta, toalha limpa”, José Edson R. de Freitas e Maria Luiza P. Ricciardi, Campanha da Fraternidade, 1992.) Assim cantamos em nossas comunidades de fé.O bibliodrama, como método de aprofundamento e experiência viva com o texto sagrado, apresenta-se por diversas formas de expressão: verbal, emocional, gráfico-artístico, com a fotolinguagem ou por representações expressivas com o corpo e seus sentidos. Cada participante representa e expressa o que percebe como “autêntico” interiormente, estimulado pela passagem bíblica meditada. Tudo isso faz com que o grupo e o texto sagrado, no bibliodrama, se aprofundem, se expressem e se interpretem reciprocamente. O método do bibliodrama se apresenta de forma muito flexível e individualizado. Pode facilmente se integrar com outros métodos e com várias artes expressivas, como a dança, a música, a produção de vídeo, e assim por diante; enfim, aonde a criatividade chegar. A dança é uma das formas de linguagem e expressão artística mais expressivas e antigas que conhecemos. Dançar é exteriorizar, por meio de movimentos, o que trazemos dentro. Se é verdade que o corpo fala, é no corpo que podemos experimentar e expressar os sentimentos que pulsam em nós. E um dos elementos mais bonitos da técnica do bibliodrama é a dança. Traduzir em expressão corpórea o que se aprofundou em determinado texto bíblico é concretizar, pelos gestos, o que ele provocou em nós. Se buscarmos nos próprios textos sagrados a importância da dança, percebemos que ela fazia parte da vida corrente, entre os judeus, e até dos jogos infantis, como lemos em Mateus (11,17) e Lucas (7,32). Nos textos bíblicos, encontramos a dança como expressão de alegria, de festa, de convívio e de adoração a Deus. Não distante de nossa infância, quando, de forma natural e orgânica, ela também brotava em nossas brincadeiras infantis e nos aproximava e nos conectava com outras crianças. Por 28 vezes, no mínimo, a Bíblia fala sobre dança em suas páginas. Cada referência que encontramos está relacionada a celebrações de acontecimentos especiais, festivais e encontros familiares e, curiosamente, praticadas principalmente por mulheres e crianças. Nos Salmos 149 e 150, o salmista também convida os fiéis a louvarem a Deus com dança e com a música: “Alegre-se Israel no seu Criador,exulte o povo de Sião no seu Rei!Louvem eles o seu nome com danças;ofereçam-lhe música com tamborim e harpa.” (Salmo 149,2-3) “Louvem-no com tamborins e danças,louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas,louvem-no com címbalos sonoros,louvem-no com címbalos ressonantes.Tudo o que tem vida louve o Senhor! Aleluia!” (Salmo 150,4-6) Na Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15,25), a dança também assume um caráter bastante significativo e expressivo. Não somente por ser uma alusão referida por Jesus, o Verbo que atualizou a Palavra de Deus e a personificou (Hebreus 1,1), mas também porque essa parábola ilustra a relação do homem com Deus e a alegria que existe no céu quando alguém se arrepende e deseja mudança. Essa alegria é traduzida de várias formas, sendo uma delas a dança. Na data em que comemoramos o Dia da Dança (29 de abril), queremos nos unir ao balé dos corpos e das constelações celestes para que, juntos, possamos bailar agradecidos em contemplação à obra da Criação. Nas experiências bibliodramáticas realizadas com distintos grupos na Província Brasil Norte das irmãs missionárias servas do Espírito Santo, temos percebido a profunda conexão que a dança tem proporcionado aos que se entregam e fazem do corpo o canal de conexão com a sua espiritualidade. Por esse motivo, o convite é: dancemos! E que estendamos o convite a todos, para que se juntem a nós, para que, assim, a Palavra se torne vida em nós. Irmã Fátima Marques, SSpS, e Agostinho Travençolo Junior Referência:Semente Viva Brasil

Vacinação: sinal de esperança

Uma simples palavra que atualmente tem um grande significado: esperança! O mundo clama por vacinas para que se estabeleça novamente uma vida normal. A ciência corre contra o tempo para que vacinas eficazes sejam desenvolvidas. Governos do mundo todo se mobilizam para que suas populações sejam vacinadas. Está claro que a solução para o caos estabelecido por uma pandemia mundial está na vacinação, mas, afinal, o que é uma vacina e quando surgiu? Em 1796, o médico inglês Edward Jenner, em meio a uma pandemia de varíola, observou que pessoas que já tinham sido contaminadas por uma doença chamada cowpox (varíola bovina), comum em vacas e muito semelhante à varíola nos humanos, tornavam-se imunes àquela doença. O dr. Edward extraiu o pus da mão de um ordenhador de vacas que havia contraído a cowpox e inoculou a substância em um menino saudável, James Phipps, de 8 anos. O menino contraiu a doença de forma branda e, em seguida, ficou curado. Naquele mesmo ano, ele extraiu o líquido de uma pústula humana contaminada por varíola e inoculou no menino James. Desta vez, o menino não contraiu a doença. Foi descoberta e comprovada a eficácia da primeira vacina. A palavra vacina tem origem no latim e significa “de vaca”, justamente pelo fato de que as primeiras observações e experimentos ocorreram com uma forma de varíola animal, ocorrida em vacas. Como funciona uma vacina? A vacina pode ser considerada uma forma de imunização ativa, ou seja, quando o próprio corpo produz os anticorpos que combaterão uma infecção. Baseia-se na introdução, no corpo de uma pessoa, do agente causador da doença (geralmente um vírus atenuado ou inativado) ou substâncias que esses agentes produzem, de modo a estimular a produção de anticorpos e células de memória pelo sistema imunológico. As vacinas são essenciais para “blindar” o organismo contra doenças que ameaçam a saúde, em todas as idades. Doenças altamente contagiosas, como a difteria, o tétano, a paralisia infantil, o sarampo, a caxumba e a rubéola, muito comuns no passado, e a covid-19 (doença recente), podem ser prevenidas por meio da vacinação. Quando começou a vacinação? A vacinação no Brasil teve início no Rio de Janeiro, em 1904, de maneira trágica. O médico sanitarista Oswaldo Cruz tornou obrigatória a vacinação para prevenir a varíola. Porém, a população, por falta de informações, protestou contra a obrigatoriedade do procedimento, desencadeando aquele que é conhecido com o maior motim da cidade, com um saldo de 30 mortos, 115 feridos e centenas de presos. Em 1973, o Brasil criou o Programa Nacional de Imunização (PNI). O País conseguiu, pela vacinação em massa, erradicar doenças como a varíola e a poliomielite. Atualmente, o PNI é o maior programa de vacinação pública do mundo, com 17 vacinas que protegem contra 20 doenças diferentes. O cenário atual é preocupante, pois, além dos problemas decorrentes da falta de vacinas para a prevenção da covid-19, também existe um movimento antivacinas que têm ganhado força devido à automedicação, estimulada principalmente pela internet, e pela circulação, nas redes sociais, de informações falsas sobre as vacinas. O resultado desses movimentos é uma queda expressiva da cobertura vacinal em todo País, fato comprovado pelo ressurgimento de doenças como o sarampo, que havia sido erradicada do Brasil. É importante se vacinar? A vacinação continua sendo a mais segura e eficaz forma de prevenir diversas doenças infectocontagiosas. É uma forma de prevenção individual e coletiva, pois protege não apenas quem a recebe, mas também a comunidade como um todo. Adultos e crianças, portanto, devem manter o cartão de vacinação sempre em dia. Afinal, vacinar é uma forma de demonstrar amor a si mesmo e ao próximo. Referências PONTE, Gabriella. Conheça a história das vacinas. Portal Fiocruz, Rio de Janeiro, 5 fev. 2020. Disponível em: Fiocruz SANTOS, Vanessa Sardinha dos. História da vacina. Brasil Escola, São Paulo. Disponível em:Brasil Escola Hélio Vilaça, professor de Química e coordenador de Ciências da Natureza no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.

4º Domingo da Páscoa

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”João 10,11-18 Hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A imagem escolhida é a do “pastor”, uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Salmo 40,11; Ezequiel 34,15; 37,24; Eclesiástico 18,13; Zacarias 11,17, etc.). Algumas vezes, é aplicada ao próprio Deus (Salmo 23,1; Isaías 40,11; Jeremias 31,9); outras, ao futuro rei messiânico (Salmo 78,70-72; Ezequiel 37,24); e outras, aos líderes político-religiosos de Israel (Jeremias 2,8; 10,21; 23,1-8; Ezequiel 34). Também os evangelistas sinóticos usaram-na bastante (Marcos 6,34; 14,27; Mateus 9,36; 18,12-13; 25,32; 26,31; Lucas 15,3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre”, e não somente eficiência em sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se de sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho. O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos próprios interesses. Aqui o texto está enraizado na tradição profética de Ezequiel (capítulo 34, o qual vale a pena ler) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus: os líderes religiosos e políticos de seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém, em 587 a.C.), que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o nas horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus pode ser aplicada quase que diretamente a muitos líderes políticos (e, às vezes, religiosos) de nossos tempos. O trecho destaca o verbo “conhecer”: Jesus conhece suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem de seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz (assumida livremente por Jesus) é a expressão suprema desse amor. O amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus”. Aqui, talvez haja uma referência às outras comunidades não joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja: a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela, mas muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso, “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, em que se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus. Como seguidores do Bom Pastor, também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo e a todos os “ismos” que nos dividem, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor. Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.

Colégio Espírito Santo e comunidade Xerente estreitam laços

Pensar a Casa Comum e a saúde de nosso planeta tem a ver com uma reflexão profunda sobre a atuação humana, a qual deve refletir em ações concretas que possibilitem a continuidade da existência da vida na Terra. E não é de hoje que falamos sobre isso, porém nossas ações ainda são muito tímidas. Quem sabe a esperança esteja no brilho dos olhos das crianças da etnia xerente? Educadoras e alunos das turmas de infantil 5, primeiros e segundos anos do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, refletindo sobre o poder da partilha e da educação, conversaram sobre a responsabilidade que temos de manifestar atitudes de amor e de cuidado para com todas as pessoas que fazem parte de nossa “Casa Comum”. Nasceu, então, o projeto “Natal da Casa Comum”, que teve como propósito trabalhar a importância do reconhecimento do outro e das atitudes de amor ao próximo. A comunidade indígena Xerente, localizada no Estado do Tocantins, foi um dos muitos espaços alcançados pelas manifestações de afeto de nossos alunos. Um livro virtual foi encaminhado às crianças que estudam na escola da aldeia. O presente foi recebido da melhor forma possível. Segundo Wakukepre, professor na escola do povo xerente, os alunos realizaram batismos do material como manifestação de gratidão pela troca de conhecimento, de acordo com a tradição da etnia. Foi pensando não somente em nossa relação com as pessoas, mas também em nossa Casa Comum e na saúde de nosso planeta que pretendemos, por meio desse projeto, possibilitar um espaço de troca e reflexão profunda sobre o sentido de sermos humano e, assim, buscarmos ações concretas que possibilitem a continuidade da vida na Terra. Respeitar e reconhecer diferentes culturas é questão fundamental como comunidade escolar. Receber o retorno do projeto “Natal da Casa Comum”, que foi apenas uma pequena manifestação das reflexões que buscamos estimular em nosso cotidiano escolar, e poder compartilhar o resultado dessa ação coletiva só reforça a importância do trabalho que buscamos desenvolver como educadores missionários. Ponte intercultural Outra parceria foi realizada com a ajuda das missionárias servas do Espírito Santo que trabalham com a etnia xerente. Por meio de diálogos de aproximação proporcionado com lideranças da comunidade indígena, nossos educadores vêm realizando trocas de livros, outros materiais didáticos e experiências educativas. A experiência já criou uma ponte intercultural e de fraternidade. Em fevereiro, foram encaminhados aos xerentes diversos materiais escolares e um valor em dinheiro para que eles pudessem adquirir roupas para as crianças da comunidade. A doação também possibilitou a compra de material esportivo para os pequenos, que adoram praticar o futebol.Assim, seguimos cheios de esperança, conseguindo encontrar nas crianças, nas comunidades indígenas, nas atitudes de cuidado, afeto, amor ao próximo, justiça social e tolerância, a cada dia, a cultura de paz que almejamos. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, e Agostinho Travençolo Junior é assessor Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.

Sempre fomos nós…

Nunca foi sobre um índio incendiado; éramos nós ardendo em chamas. Nunca foi um massacre de crianças dormindo na porta da Candelária; morremos juntos com cada uma delas. Nunca foi sobre uma distante bomba atômica; nós nos explodimos ao mesmo tempo. Nunca foi incêndio na Amazônia; padecemos juntos a cada milímetro queimado. Nunca foi um acidente nuclear longe daqui; nós nos infectamos e nos deformamos juntos. Nunca foi sobre uma mulher espancada que inspirou uma lei; estamos todos paraplégicos. Nunca foram corpos alheios soterrados pela lama criminosa; nossos poros estarão eternamente impregnados de terra. Nunca foi um massacre num presídio; somos nós eternamente acorrentados nessas celas. Nunca foi desaparecimento e morte na ditadura; seremos gritos à exaustão pela democracia. Nunca foi um terremoto arrasador; éramos nós tremendo de medo e nos apegando a cada possibilidade de sobreviver. Nunca foi trabalho análogo à escravidão; éramos nós experimentando a indignidade. Nunca foi um rio tampado e uma nascente assoreada; somos nós morrendo de sede. Nunca foi uma pandemia distante. Ela se fez cotidiana e arrasadora. Somos nós! Que este texto chegue em forma de um silencioso e indignado abraço a cada vítima da covid-19 e aos familiares e amigos enlutados. Sintam-se irmanados na dor e, controversamente, encham-se de esperança para seguirmos adiante. Sempre somos nós! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

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