Centro de Integração do Migrante socorre famílias atingidas pela pandemia

O mundo enfrenta atualmente uma crise de proporções sem precedentes. A pandemia de covid-19 e as ações tomadas para controlar sua disseminação tiveram profundos impactos socioeconômicos nas sociedades. Nenhum país foi poupado, e, sem surpresa, as populações mais pobres estão entre as mais afetadas. A pandemia veio num tempo em que a fome vem aumentando. Por quatro anos consecutivos, a situação se agrava principalmente devido a conflitos, mudanças climáticas e crises econômicas. Ao mesmo tempo, o deslocamento forçado atingiu o índice mais alto. As irmãs da Comunidade de Santo Arnaldo dirigem o Centro de Integração do Migrante (CIM). O espaço localiza-se no Brás, região comercial de São Paulo capital, onde vivem migrantes de vários países da América do Sul e Central, África e Ásia. A covid-19 é potencialmente catastrófica para milhões que já vivem por um fio. É um golpe para milhões de pessoas que só podem comer se ganharem um salário. Neste tempo de pandemia, é difícil pôr comida na mesa quando não se tem trabalho. Mesmo numa época em que o apoio humanitário está cada vez mais difícil, existem pessoas generosas que se apresentam para ajudar os necessitados. Alunos, professores e funcionários do Colégio Espírito Santo, em São Paulo, por exemplo, doam mensalmente 40 cestas básicas ao CIM. Em abril, a entidade também recebeu 700 cestas básicas da empresa Clearsale. “Ficamos muito felizes por receber essa ajuda, para que pudéssemos doar a muitos migrantes e também a pessoas que vivem nas comunidades”, disse a irmã Malgarete Scapinelli Conte, missionária serva do Espírito Santo. As irmãs Malgarete e Zilda Maria Cofitalan Hornai, e os voluntários organizaram uma lista de cada grupo de migrantes e também das comunidades. Conforme os dias anunciados, eles vão ao CIM e recebem os alimentos. “Muitas pessoas que vieram receber cestas básicas ficaram muito felizes, e algumas tinham lágrimas nos olhos e estavam muito agradecidas por poderem fornecer comida para suas famílias”, relata a Ir. Malgarete. Veja o vídeo com a entrega das cestas básicas. Como ajudar Para fazer doações de alimentos e saber como colaborar com o CIM, entre em contato pelo número (11) 97058-9130, via WhatsApp. A obra social fica na Rua Vinte e Um de Abril, 1000 – Brás, São Paulo-SP.

12º Domingo do Tempo Comum

“Quem é este homem?”Marcos 4,35-41 Esse texto está situado na primeira parte do Evangelho, na qual Marcos procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e seus discípulos não o compreendiam, apesar de verem suas obras e milagres (Marcos 1,19-8,21). Toda essa primeira parte do Evangelho prepara o chão para a pergunta fundamental do Evangelho: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Por isso a história hoje relatada leva os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”. A história do evento no mar de Galileia retrata simbolicamente a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o Evangelho foi escrito. A comunidade está vacilando na fé, assolada por dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e, mesmo assim, não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta do Senhor. O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como consequência, vacilavam na sua fé. Mas Jesus acalmou o mar e ainda questionou a pouca fé dos Doze: “Por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?” (versículo 3). Assim Marcos quis mostrar aos leitores de seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando. Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana ou ainda como o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição de sua influência, para muitos, a Igreja está se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam em uma religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós. Até diante da pessoa e da mensagem do Papa Francisco, muitos simpatizam com ele como pessoa, mas permanecem surdos a seus apelos em favor de um seguimento autêntico do Salvador. Marcos vem corrigir essa ideologia triunfalista de suas comunidades e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos e para o mundo “quem é este homem”, e a segui-lo no dia a dia. Pois Jesus não está alheio às nossas dificuldades. Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé nele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar nossa cruz e segui-lo, na certeza de que Ele não nos abandonará. Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

A vida em poemas

Nestes tempos de distanciamento social e de muitos desafios, a poesia pode ser um respiro e um suspiro. Foi pensando nisso que alunos e professores, orientados pela professora Cristiane Imperador, do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, partilharam com os leitores e leitoras do blog SSpS suas composições. Procure um bom lugar e se delicie! Museu Tento não ser pessimista,Não viver como museuE sempre buscar o bem atual? Bem, digo buscar você,Mesmo sabendo o não recíproco,Me sinto bem ao seu lado.Meus problemas vão do raloE voltam ao ringue contra mim. A vida é muito curta,Eu sei disso,Mas sua rápida passagemNão me trouxe compreensão,Apenas indagação. Tento os orgulhar,Mostrar que a chama está acesa,Mas o extintor do julgamentoApaga apenas as labaredas,E o resto do corpo fica queimado. Água fria do mar,Acalme o meu viver,Me traga a compreensão que necessitoSeja Iemanjá de meu problemaE me leve para o fundo da água, onde posso esfriar. A vida se tornou complicada,Ainda mais com o desconhecimentoDo seu sentido subjetivo intrínseco.Será o tal sopro do Criador?Ou vislumbres de abandono e dor? Eu quero amar,Quero sonhar e estar bem,Não me permito. Permissão que eu mesmo tireiAo ver, em meus olhos,A doce e azeda decepçãoDe sentir que tudo foi em vão,Perdendo-se em oscilação. Um tipo de vazio,Que eu espero que passe.Como areia no SaaraQue, carregada pelo vento,Compõe a beleza natural. Será minha beleza naturalO ó de todo mal,Com a sinceridade de anjoE a teia animalesca sentimental,Que dita minha existência arenosa?As coisas passam,O passado não volta,Mas estava no futuroQuando lembrei ansiosoDe amar e viver o presente. O museu onde as coisas passam. Mateus Marum (aluno da 3ª série do ensino médio) Ciclo da vida Este é o ciclo da vidaNascemosCrescemosMorremosNão temos como fugir dissoTemos que aproveitar o tempo que temosTemos que fazer coisas que vão ficar nas nossas memóriasEsse é o ciclo da vidaE não tem como fugir. Ana Julia Fonseca Van Utterbeeck (aluna da 1ª série do ensino médio) Sob outro ângulo Fim!De repente, meu mundo virou.Mergulhei sob minha terraE andei sobre meu oceano.Tudo estava confuso!Tudo estava trocado! Porém, observando este universo,Refleti e compreendi!Cuidei de tudo aquilo que me faltavaValorizar até então.Vi o novo diferente no antigo. Descobri que o novoNem sempre é tão ruim,Que a realidade é cheia de incertezas…Mas tudo bem!Sempre há um lado positivo eNegativo nas mudanças…. Sim, era o fim… De minhas velhas certezas,Uma página virada num livro.Surge então, em minha vida, aOportunidade de criar um novo capítulo,Um novo começo! Anne Caroline Gonçalves Martins (aluna da 1ª série do ensino médio) Perdão Paixão, algo que confunde nossa mente Nos faz perder a noção que existimosTrazendo sensações diferentes sucessivamenteNós discutimosPorém, nosso amor supera qualquer barreiraEm meus braços, senti seu corpoEm meu nariz, seu cheiro doceNa minha boca, seus lábios leves como uma penaSeu calor traz calmaSeu amor traz alegriaNão queria ter erradoMeus pensamentos me dominaramMeus erros não permitiram que eu ficasse caladoMas imploro pelo seu perdãoVocê soltou minha mãoAssustada, correu de meu coraçãoPerdão é algo que não conseguiria ouvir de vocêMas eu me ajoelho sobre meus errosE peço lhe desculpasNão me deixe sumir de seus pensamentos Leandro Morales (aluno da 1ª série do ensino médio) A mulher Mulher,você é incrível!Você gera e traz uma vida ao mundo,mas não lhe damos o devido valor. Mulher é um ser sensível:emociona-se,apaixona-se,ama, sente, chora…Há acontecimentos que a machucam,não porque são frágeis, mas porque sentem.Você não é obrigada a nada! Mães, profissionais, esposas, adolescentes, meninas, amigas… Eu sou mulher.Sei que devemos lutar pela nossa felicidadee que, se nossa luta incomoda,estamos no caminho certo Mulher,você é extraordináriasó precisa conquistar o seu lugar e mostrar o seu valor.Nossa voz é mudança!Merecemos o nosso destaquee está na hora de descobrirem,que somos iguais. Kimberly Lopes Galvão César (aluna da 1ª série do ensino médio) Um sopro Um momento feliz passarápido, assim como a vida.Pessoas se vão como umsopro de ar que sai pelaboca de uma criança ao assopraras velinhas de seu bolo. Curto e rápido, não é possívelnem ver, assim como você, quede um dia para o outro partiu. Por uma causa tão inesperada,você se foi.Tão pequenina te perdi,ficamos todos desolados. Doeu muito, mas o que ficoué a saudade. Os momentos bons,as memórias… Mas logo vem o presente,que vai passar como um sopro, e tudo irácomeçar novamente, sempre iniciandoe acabando, como o ciclo da vida.Um sopro. Manuela Fernandes Carreño (aluna da 1ª série do ensino médio) Morte Antes de dormir,Sonhadores criam histórias impossíveisDe amores irreaisE com finais felizes. Hipócritas e falsos.Eu crio começosE meiosFelizes. No final, há uma deliciosa tragédia,A qual me atormenta,A qual não queria ter pensado,A qual ficou em meus mais profundos pensamentos. Ela se transformou em medoUm profundo medo.Que, agora, sei que deveria ter feito como os hipócritasE mentido para mim mesmaO fim da doce história é a morte. Louise Cavalcante (aluna da 1ª série do ensino médio) Pandemia + Cientistas: cuidado e proteção Neste momento de pandemia,não tivemos muita alegria.Mas os cientistas não podiam desanimar,pois tinham pouco tempo para a cura encontrar. A cura seria uma vacina capaz de imunizar,mas tiveram pouco tempo para fabricar.As vacinas aos poucos estão chegando,e a população mais velha está tomando. Devemos ter esperança,pois um mundo melhor há para vir.Agradecemos aos cientistas trabalhadores,que lutaram para o mundo todo voltar a sorrir. Vitória Pedriali Dias (aluna do 5º ano do ensino fundamental) Vacina sim! Para todos terem proteção,é preciso esforço e dedicação.E, para termos um raio de esperança,é preciso muita confiança. E, para uma vacina chegar,é preciso um cientista trabalhar.São mais de sete bilhões de pessoas neste mundão,e cada médico tem amor no coração. E toda vacina éfeita por um cientista.Então, não saia de casa.E, se for sair, use máscara! Pedro Vergatti Hulgado Silva (aluno do 5º ano do ensino fundamental) Fim E lá se vai o tempoEscorrendo por meus dedos geladosSe desfazendo em pensamentos amarguradosMisturando-se com todos meus lamentos O relógio já não está girandoOs ponteiros estão perdidosMinutos e horas não fazem mais sentidoÉ a sensação horrível da vida acabando Os batimentos se cessamO calor caiO brilho se vaiE as janelas se fecham Juras de

Combate à violência contra a pessoa idosa e prevenção à tortura

Violência! Como acabar com esse mal? Como ela é gerada e por quê? A violência sempre incomoda a humanidade, pois gera muitos crimes e, com a pandemia, a violência extrema causa desigualdade. Mas o que é violência?A violência é a prática do uso da força sobre um indivíduo ou um grupo. Geralmente, ela surge por causa da injustiça social. Esta, por sua vez, provém do egoísmo, da ambição. Quinze de junho é o Dia Nacional de Combate à Violência contra a Pessoa Idosa, e o dia 26 deste mesmo mês é o Dia de Combate e Prevenção à Tortura. Mulheres, crianças, pessoas idosas, trabalhadores em geral, os menos favorecidos são explorados e se tornam vítimas de vários tipos de violência: física, psicológica, afetiva, ideológica, financeira e patrimonial. A violência física é a mais fácil de identificar, pois atinge diretamente o corpo. Nesse tipo, a agressão física utiliza a força como soco, empurrão, “cascudo”, facada, tiro à queima-roupa, etc. A lesão é visível e, por isso, muitas vezes há hematomas; faz-se corpo de delito. A violência psicológica é praticada de modo sutil e pode ser direta ou indireta. A direta ocorre quando o agressor usa palavras de humilhação, por vezes, diretamente à pessoa, com palavras de baixo calão, que baixa a autoestima. A indireta pode ser mediante ameaças, imposição, medo à vítima. A violência ideológica pertence a um conjunto de ideias sem fundamentação transmitidas pelos veículos de comunicação; propagandas enganosas que projetam nos indivíduos falsas ideias do que comprar, ter coisas que não são necessárias. Outra violência cometida é a financeira, muito comum contra pessoas idosas, praticada por agências bancárias que incentivam a pessoa a fazer empréstimos consignados ou aplicações desnecessárias e também por familiares, quando utilizam o cartão de crédito sem escrúpulo de endividar a vítima, “sujando” o nome da pessoa. Ainda há a violência afetiva, quando a pessoa é privada de ter contato parental. Isso é muito comum em internações arbitrárias de dependentes, seja de menores ou de idosos, em instituições muitas vezes clandestinas. Infelizmente, a violência está em toda parte. A violência doméstica, infantil escolar, como o bullying. Esta última tem gerado revolta contra a escola, causando vítimas inocentes, com massacres de crianças e profissionais da educação. A Declaração Universal de Direitos Humanos estabelece que “Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade, à segurança”, o que deve garantir formas de estimular uma proteção coletiva para toda a sociedade. Para isso, é preciso denunciar torturas “invisíveis” que acontecem por familiares ou terceiros mal-intencionados. Disque 100! Disque 180 ou 190. Procure também, em seu Município ou Estado, a Comissão de Combate e Prevenção à Tortura, a Comissão Estadual dos Direitos Humanos da Pessoa Idosa, Comissão Municipal da Pessoa Idosa, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.Defenda quem é indefeso! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar), graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia pelo Mater Ecclesiae. Filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

11º Domingo do Tempo Comum

“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”Marcos 4,26-34 O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos Evangelhos: “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos. Existe um consenso entre os estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, de que há dois termos nos textos evangélicos que provêm do próprio Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades, ou seja, “Reino” e “Abbá”. Estamos tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da pregação que esquecemos que Ele não pregou a si mesmo, mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus como o “Reino dos Céus”, para evitar o uso do nome de Deus). Toda a vida de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que Ele nunca o define, pois é uma realidade dinâmica, mas que Ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes e que os leva a tirar as próprias conclusões (de fato, por várias vezes, temos a explicação de uma parábola nos evangelhos, mas esta nasceu da catequese da comunidade e não teria feito parte da parábola original). O capítulo 13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a natureza do Reino (ou Reinado) de Deus. No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam apressar sua chegada; os fariseus mediante a observância da Lei, os essênios pela pureza ritual, os zelotes por meio de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível, nem preciso, tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele tem uma dinâmica interna de crescimento própria. Como a semente semeada cresce independentemente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade. Assim o texto nos mostra o que Paulo vai ensinar de uma maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros missionários e missionárias, afirma: “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (1Cor 3,6). Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que relembremos que é importante começar com ações pequenas e singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes. Essa parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa. Nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade de semear o Reinado de Deus, ou seja, criar situações nas quais realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não por nosso esforço, mas pela graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que abriga muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

O Sagrado Coração de Jesus na espiritualidade de Santo Arnaldo Janssen

Aproximando-se a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que, em 2021, celebramos no dia 11 de junho, não podemos deixar de nos lembrar de nosso santo fundador, Arnaldo Janssen, que foi profundamente influenciado por sua devoção e a levou consigo para animar espiritualmente suas fundações missionárias. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é muito antiga e sempre foi ligada à contemplação da Paixão de Jesus Cristo. Ignorada totalmente no primeiro milênio, ela aparece, pela primeira vez, com traços claros, com a escola cisterciense e, mais tarde, na ordem franciscana. A partir do século XVII, por meio das visões de Santa Margarida Maria Alacoque, essa devoção foi popularizada, sendo um dos focos da Escola Francesa de Espiritualidade, que marcou profundamente a Igreja na Europa Ocidental. A espiritualidade do Sagrado Coração é muito simples, acessível a todas as pessoas. Ela tem como objetivo ajudar o fiel a voltar-se para seu coração e para o Coração de Jesus, como núcleo mais íntimo da pessoa, onde ela se encontra com seu Senhor. Essa devoção difunde que “O coração de nosso coração é o próprio Deus, com a sua lógica enraizada no amor”. Ela nos aproxima do amor compassivo de Cristo para com a humanidade. Nela, pedimos que sejamos revestidos das virtudes e das qualidades do Coração do Filho, deixando-nos inflamar pelo amor que o impulsionava, tornando-nos sempre mais semelhante a ele e formando com ele um só corpo. Ela contempla ainda o coração transpassado de Jesus que, na Cruz, entregou-se por nós com um imenso amor gratuito e compassivo. Em 1856, duzentos anos após as aparições de Jesus a Santa Margarida Maria, foi instituída a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a ser celebrada, a cada ano, no mês de junho. O movimento que mais propagou sua devoção no século XIX foi o Apostolado da Oração, aprovado pelo Papa Pio IX, em 1849. Hoje o Apostolado é obra pontifícia. A consagração do mundo ao Sagrado Coração ocorreu em 16 de junho de 1875, às vésperas da fundação da Congregação do Verbo Divino. Mais de 400 institutos de vida religiosa com espiritualidade cordiana foram fundados de 1800 até o Concílio Vaticano II, em sua maioria, femininos. Como filho de seu tempo, Arnaldo Janssen foi também impregnado por essa espiritualidade afetiva e concreta que respondia às necessidades do simples cristão. Inicialmente, recebeu na família forte influência da mística da Baixa Renânia, de espiritualidade cristocêntrica e trinitária. Seu pai falava com paixão para os filhos sobre a encarnação do Verbo e rezava diariamente com eles o Prólogo de São João. Sua mãe, uma pessoa silenciosa, testemunhava uma vida de oração contínua, alimentada pela frequência diária à missa. Foi também com o pai que o menino Arnaldo conheceu o Anuário da Propagação da Fé, que o introduziu ao amor às missões estrangeiras. Como jovem padre, a devoção especial ao Sagrado Coração foi ocupando suas orações e reflexões. Inicialmente, resolveu rezar, às sextas-feiras, a missa em honra do Sagrado Coração, para glorificar seu sacerdócio. Queria homenagear a Trindade habitando nesse Coração. Para Arnaldo, o Coração de Jesus era a humano-divina Pessoa de Jesus, a face humana de Deus, seu amor incompreensível pela humanidade.A partir de 1866, ao lado das aulas que administrava, passou a dedicar uma atenção especial ao novo Apostolado da Oração em sua diocese. Esse apostolado, com forte espiritualidade cordiana, deixou suas marcas na vida de oração de Arnaldo. Sua profunda motivação passou a ser sua união fundante com as disposições do Sagrado Coração, emergindo daí o traço característico de sua espiritualidade, inicialmente assim expresso: “Viva o Coração de Jesus nos corações de todas as pessoas!”. Arnaldo foi se tornando mais e mais habitação do Sagrado Coração, e os propósitos e intenções desse Coração, assumidos como seus. Desejava ardentemente a glorificação do Deus Trino e o cumprimento de sua vontade salvífica para todos os povos. O amor e a bondade de Jesus, sua compaixão sincera, suas virtudes humanas, seu sofrimento e aflições, sua atitude de entrega incondicional, suas emoções e sentimentos íntimos, tudo tinha para Arnaldo seu lugar e centro no Sagrado Coração de Jesus. Escrevia assim no livro de admissão dos novos membros ao Apostolado de Oração: “A melhor devoção ao Coração de Jesus é conformar nossos desejos aos desejos do Coração de Jesus”. Por meio do Apostolado da Oração, Arnaldo foi também tomando consciência de uma variedade de situações eclesiais, abrindo, assim, a mente aos grandes propósitos da Igreja. Seu dinamismo missionário, na força da oração, foi se revelando com o Apostolado. Iniciou, em 1866, com 26 grupos na diocese de Münster. Após sete anos, sua missão no Apostolado tinha se espalhado por várias dioceses alemãs, alcançando um total de 600 paróquias. Dois anos depois, em 1875, em meio a muitas lutas e rejeições, Arnaldo estava pronto para iniciar a primeira casa de formação missionária na Igreja alemã. Dentro de sua espiritualidade, Arnaldo foi enxergando cada vez mais o Coração de Jesus como Tabernáculo da Trindade: “A Trindade toda reside no Coração de Jesus: a Onipotência do Pai, a Sabedoria e a Beleza do Verbo Eterno e o Generoso e Eterno Amor do Espírito Santo. Contudo o Coração de Jesus permanece um coração criado, um coração humano”. Com o tempo, Arnaldo vai explicitando assim a relação entre o Coração de Jesus e o Espírito Santo: “Durante sua vida terrena, o Coração de Jesus já era a fornalha ardente cheia do amor e da graça do Espírito Santo”. Arnaldo viu um duplo movimento entre o Coração de Jesus e o Espírito Santo: de um lado, foi o Espírito Santo que formou o Coração de Jesus e fez dele sua morada; por outro, é do Coração de Jesus que emergem todas as graças que recebemos do Espírito Santo, pois é pela encarnação de seu Filho que Deus comunica-se a si mesmo em seu insondável amor incondicional. No fim de sua vida, Arnaldo escreve: “Vou tentar chegar tão perto quanto possível dos sentimentos de Jesus, de sua vida interior, de seus ensinamentos, realizações, dores e morte.

Quando Deus fala… Onde encontrar os ecos de sua voz?

Nós, cristãos, estamos habituados a refletir sobre o Evangelho e nos referir a ele como Palavra de Deus. O Evangelho é um dos meios privilegiados que temos para discernir sua vontade. Contudo é comum também se dizer que Deus fala pelos “sinais dos tempos”. Em outras palavras, nos acontecimentos do cotidiano. Aqui quero explorar esses “sinais”, tentando vislumbrar “falas” de Deus para nós hoje. No momento, uma questão que se sobressai é a pandemia. Olhando para ela e tudo o que ela tem provocado, podemos acreditar que, por ela, Deus possa estar nos falando. Cabe a nós discernir. Arrisco-me a fazer algumas considerações nessa perspectiva, sem a pretensão de ser porta-voz de Deus, mas apenas apontar para possíveis dicas que Ele esteja dando para nosso mundo. Começo a investigação levantando algumas questões. O fenômeno da pandemia é um fato universal, isto é, atingiu todos os países. O vírus tem uma força tal que todas as bombas atômicas guardadas para guerra e destruição não conseguiriam destruí-lo. A covid-19 não respeita posição social, raça, cor nem idade, embora tenha começado atingindo os mais “velhos”, poupando, no início, as crianças. O vírus tem um poder avassalador. Está mudando, à força, as relações do convívio entre as pessoas, levando à mudança de hábitos no cotidiano. Multiplica-se em novas cepas, pondo em risco a eficiência das vacinas. Está perdurando por um tempo maior do que se conhecia para uma pandemia. Não temos certeza de quando vai acabar. Termina uma onda, surge outra mais forte. Tem afetado não somente a parte econômica em todos os níveis, como também causado sofrimento grande de toda ordem, a começar pelos familiares de acometidos pelo vírus e, de modo especial, para aqueles enlutados. Não permite nem mesmo uma digna despedida dos entes queridos. Tudo tem de ser às pressas, pois há a ameaça do contágio. Impôs um distanciamento entre as pessoas, não permitindo o contato afetivo antes praticado. Abalou o lado psicológico de todos, deixando lastros de insegurança e inquietações, resumidas nas perguntas até quando vai isso? E como será depois? Obrigou-nos a encontrar formas novas de comunicação, de reuniões e de estudos, mesmo que forçadamente. Isso podemos contabilizar como um aprendizado positivo. Nessa perspectiva, poderíamos concordar que há males que vêm para o bem! Depois da pandemia, não seremos mais os mesmos. Com será o novo “normal” ainda não sabemos bem, pois estamos em plena crise. Diante de tudo isso, onde estão as “falas de Deus”? Vamos tentar discernir alguns sinais pictogramáticos escondidos nessas situações ambíguas acima enumeradas. Em primeiro lugar, devo dizer que a pandemia não é obra (iniciativa) de Deus. Alguns poderiam pensar que Ele estivesse enviando a pandemia para nos castigar. O Deus que creio não faria isso, podemos, sim, admitir que Ele possa estar se servindo dela para nos dar um recado. E qual recado? Um deles certamente é um apelo para voltar a sermos mais humanos, mais próximos de seu projeto inicial. O caminho que estávamos (estamos) seguindo, cada vez mais, tornava-nos (ou ainda torna) “máquinas de produção” para gerar lucros. Isso, além de nos estressar ao extremo, vinha (vem) gerando cada vez mais um distanciando entre o “muito para poucos” e as “sobras” para muitos”. Uma divisão injusta e contrária aos desígnios de Deus quando nos deu sua criação para desfrutarmos dela com equidade e sem destruí-la. Deturpamos em demasia os preceitos básicos que indicavam o caminho apontado por Ele em sua Palavra, rumo à felicidade oferecida por Ele e não a de meros momentos “lúdicos e prazerosos”, como muitos definem a felicidade. A maldade, o ódio ultrapassaram os limites da normalidade, afetando as cotas que o coração pode suportar. O descarte de pessoas como coisas inúteis porque não são mais lucrativas. Nossa “torre de Babel”, cada vez mais confusa na construção de vínculos que nos aproximem do projeto de Deus, para nós ligados às verdadeiras origens (somos imagem e semelhança de Deus), apesar dos meios eficientes da era digital que já dominamos. A medida da verdade relativista, feita pelo subjetivismo de cada um, vem negando o espaço para uma verdade objetiva como referência para os julgamentos. Em meio a tudo isso, há os sinais positivos indicando caminhos que nos aproximam do projeto divino, como aqueles demonstrados em tantos gestos de solidariedade e de busca de novos medicamentos para a cura dos doentes, como também na dedicação daqueles que se empenham para salvar vidas e de tantas mudanças havidas na vida de pessoas que se tornaram melhores. Essa realidade ambígua que nos move, pra lá e pra cá, parece nos indicar o que o profeta dizia: “Buscai os caminhos do Senhor enquanto Ele se deixa encontrar” (Isaías 55,6). Discernir as “falas” de Deus nesse meio todo é tarefa para quem crê e desafio também para quem não crê. Continuar vivendo com esperança, sem esmorecer, mesmo que nem tudo esteja claro. De uma coisa estou certo: Deus está no meio de nós e não está indiferente, e nem nos deixando à própria sorte. O Deus que confesso e creio é Senhor do Universo que nasceu de suas mãos e nunca o abandonou. Nosso grito por socorro ecoa em seus ouvidos, e seus ecos de retorno estão, neste tempo de pandemia, ressoando neste meio confuso em que estamos vivendo. É aí que estão as oportunidades de encontrá-lo em nosso hoje. Os sinais que Ele nos dá nem sempre são observáveis com nitidez, talvez estejam nas perguntas novas que nascem em nosso espírito. Fazer-se perguntas novas sobre a situação que estamos vivendo faz parte do discernimento para descobrir as suas “falas”. Então, qual a pergunta nova que a situação suscita em mim, em você? Discernir é ir além daquilo que já sabemos. O eco da fala de Deus pode estar sinalizado pelos questionamentos novos que nos fazemos diante dos sinais que estão presente em nosso mundo de hoje. Atentos a isso, saiamos um pouco de nossos lamentos e procuremos nos meandros de nossa realidade um tanto confusa os ecos da voz de Deus falando para

10º Domingo do Tempo Comum

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”Marcos 3,20-35 Esta segunda parte do terceiro capítulo de Marcos nos apresenta uma característica bastante usada neste Evangelho. O autor intercala uma discussão com os escribas (versículos 22-30) em uma cena em que Jesus se defronta com a incompreensão de sua família (vers. 20-21.31-35). Ele usa o mesmo procedimento nos capítulos 5 (21-43), 6 (7-33), 11 (11-21) e 14 (1-11). A finalidade é para que o leitor interprete um evento à luz do outro. Assim, no texto de hoje, devemos nos perguntar como os versículos que tratam dos familiares de Jesus e o trecho referente à discussão com os escribas lançam luz um sobre o outro. Na verdade, em ambos os casos, Jesus é objeto de acusações falsas e é incompreendido, ou até rejeitado, pelos seus familiares bem como pelas autoridades de Jerusalém. Não há dúvida de que a atividade de Jesus causa espanto e choque. Trabalhando até a noite em prol dos excluídos e sofridos, misturando-se com gente considerada impura pela religião oficial, e, portanto, com essa ideia introjetada na visão do povo comum, e criticando fortemente as lideranças religiosas de seu tempo, Jesus parecia para muitos “louco” ou possuído por um demônio, ou algo semelhante. Numa cultura na qual “honra” e “vergonha” eram conceitos-chave para qualquer família, os familiares de Jesus resolveram conter o problema, indo “segurá-lo” e levá-lo para a casa da família. O confronto com a família continua nos versículos 31 a 35. É interessante como Marcos constrói a cena. Quando os parentes chegam ao local onde ele está pregando, eles nem tentam entrar para escutá-lo ou para conversar com ele. Eles deliberadamente ficam do lado de fora e mandam chamá-lo. Isso contrasta muito com a cena de dentro, na qual uma multidão está sentada ao redor de Jesus, a atitude de discípulo. Quando é informado da presença de seus parentes fora, Jesus olha para os que estão ao redor dele e faz uma declaração espantosa e contundente: “Aqui está minha mãe e meus irmãos!”. O texto logo explica o sentido dessa afirmação: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Na verdade, Jesus não está denegrindo sua família, mas insistindo nas novas relações que nascem do discipulado dele. Parentesco não traz qualquer privilégio, o importante é ser discípulo e cumprir a vontade de Deus. Assim, Jesus afirma que, conforme nós nos tornamos discípulos, discípulas, temos a mesma dignidade que sua mãe e parentes. Tudo se relativiza diante das exigências do Reino e do seguimento. Embora não seja uma questão de grande importância, talvez umas palavras sobre o sentido da frase “irmãos e irmãs de Jesus”. É bom lembrar que, na tradição do Oriente Médio, não se define a família como o pequeno núcleo de pai, mãe e filhos, mas inclui parentes próximos e distantes. A versão grega do Antigo Testamento usa a palavra “adelfos” (irmão) nos dois sentidos: restrito e amplo (Gênesis 29,12 e 24,48). Podemos dizer que, na tradição cristã, existem três tipos de interpretação para essa questão. Primeiro, entende-se o termo “irmão” no sentido do uso oriental. Segundo, usando um documento apócrifo (não canônico) do século IV, chamado Protoevangelho de Tiago, conta-se que Maria casou-se com José, um viúvo idoso que já tinha seis filhos e filhas: Judas, Tiago, Joset, Simão, Lídia, Lísia. Assim, os “irmãos” seriam só da parte de José e não de Maria. Terceiro, seguindo São Jerônimo, afirma-se que são primos de Jesus em primeiro grau. O importante é saber que a concepção virginal de Jesus está claramente ensinada na Bíblia e faz parte do Credo Apostólico. Mas a questão da virgindade perpétua de Maria não é tocada nos Evangelhos, e não adianta buscar argumentos neles em favor ou contra. Essa doutrina faz parte da fé católica desde os primórdios. A disputa com os escribas também intriga umas pessoas quando fala do “pecado contra o Espírito Santo” que não tem perdão. Em que consiste? Segundo a nota do rodapé da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), “Esse pecado consiste em negar-se a reconhecer o poder que atua por meio de Jesus, atribuindo a Satanás as obras que ele realiza pelo Espírito Santo. Tal recusa à conversão contraria o perdão”. Mas as palavras fortes referentes a esse pecado não devem tirar nossa atenção de algo muito mais importante: que todos os outros pecados, por tão “pesados” que possam ter, têm perdão. Esse fato é um grande “Evangelho”, ou “Boa Notícia”, e deve nos animar que para que sejamos portadores dessa mensagem de perdão e reconciliação a todos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Serviço: a outra face da Eucaristia

Na quinta-feira, 3 de junho, celebramos a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida como Corpus Christi. Mesmo nestes tempos difíceis de pandemia, fadigas e muitas restrições, a data é (a)guardada com afeto por comunidades católicas de todo o mundo. Este também é um momento oportuno para reforçar a importância da Eucaristia para a vida cristã. Sempre é bom recordar o aforismo do cardeal francês Henri-Marie de Lubac, inspirado na teologia dos padres da Igreja: “A Eucaristia faz a Igreja, a Igreja faz a Eucaristia”. Dos quatro evangelhos, os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) enfocam Jesus, na chamada “Santa Ceia”, proclamando o pão e o vinho como sendo seus próprios corpo e sangue. Perdoe-me, caro leitor, cara leitora, se abordo apressadamente a narrativa desses três evangelhos, ainda mais no calor de Corpus Christi. Mas eu gostaria de destacar como o quarto Evangelho, o de João, aborda a instituição da Eucaristia. No capítulo 13 (versículos de 1 a 15), o autor sagrado chama a olhar para um gesto ocorrido na refeição ritual, horas antes de Jesus ser entregue ao sacrifício na Cruz. A passagem começa com a base das bases de qualquer teologia eucarística séria: o amor. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1b). Pouco mais adiante, o evangelista começa a narrar não muito a refeição, mas a atitude do Mestre, que se abaixa (em todos os sentidos) para lavar os pés de seus discípulos. Como todo o Evangelho de João, o trecho pede uma leitura atenta, sem pressa. A Eucaristia, para ele, é principalmente o serviço. Não me atrevo a arriscar uma exegese. Partilho aqui uma modesta meditação. Espero que, aos olhos da fé, possamos identificar algumas coisas na cena na qual Jesus, mais uma vez, demonstra ter vindo a nós para servir e não para ser servido (cf. Mateus 20,28; Marcos 10,45; Lucas 22,24-27). Gestos que deveriam ser mais trabalhados em nossas catequeses eucarísticas. Até o fim do procedimento de “purificar” os pés de seus amigos, o Senhor realiza sete atos. João, como diz o ditado, “não dá ponto sem nó”. Muitas vezes, sete, na Bíblia, é mais uma ideia do que um mero algarismo. Entre outros significados, pode indicar perfeição e, no olhar cristão, a própria encarnação de Deus (a soma de três da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; e quatro dos elementos cósmicos: terra, fogo, água e ar). Jesus é o próprio “Sete”: o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. O primeiro gesto é “levantar-se”. No início, a Igreja era chamada de “O Caminho”. Como empreender esse caminho sem sair do lugar? Para servir, é preciso disposição, ânimo, entusiasmo (palavra, aliás, muito significativa). O segundo é “tirar o manto”. Para nós, isso deveria significar despojar-nos de nossas couraças, nossos personagens, nossos privilégios, nossos títulos e servir com o que temos de mais profundo. Deus vê o escondido (Mateus 6,4b), sabe de nossas contradições e fraquezas, mas Ele nos ama e nos convoca em nossa essência. A ação seguinte é “pegar a toalha”. Dias atrás, o Pe. Júlio Lancellotti, famoso pelo apoio aos mais necessitados, contou que Dom Luciano Mendes de Almeida, outro gigante no serviço, havia-lhe explicado sobre o significado da estola presbiteral que ele receberia na ordenação. Não transcrevo literalmente as palavras, mas era algo mais ou menos assim: atadura para curar as feridas, lenço para secar as lágrimas, toalha para enxugar os pés do irmão. A estola transversal usada por nós, diáconos, também tem esse sentido (e não um meio-sacerdócio como alguns ainda hoje pensam). O quarto movimento nessa narrativa eucarística de João é o “cingir a cintura”. O cingir-se indicava a prontidão. A ceia pascal judaica, segundo o preceito de Moisés, devia ser tomada com os “rins cingidos, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êxodo 12,11). A toalha em torno da cintura poderia ser parte da vestimenta típica do empregado aliada à presteza no servir, como desejou o Senhor. O quinto gesto é o “derramar a água numa bacia”. Água, sinal de pureza, de vida, que cura nossas sequidões, elemento de nosso batismo a nos convocar a ser sinais de Cristo. É a seiva de nossa Casa Comum e de nós próprios; somos água. Com ela, o Senhor preparou seus irmãos para o grande momento da Cruz. O sexto é o “lavar os pés dos discípulos”. O serviço em si, sem discursos vazios, sem clichês, mas a realidade de qualquer ministério que se preze. Nessa hora, Jesus resume toda a sua vida e missão entre nós, conforme diz a Carta de São Paulo aos Filipenses (2,7): “Esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante”. Nessa hora (e em outras), Jesus, o Senhor, olha-nos de baixo para cima. O sétimo é o “enxugar os pés”. O Senhor leva sua obra até o fim. Continua a ter seus frágeis e limitados discípulos como seus superiores e os segue vendo da perspectiva do chão. Os pés estão purificados e prontos para seguir “O Caminho”. Mais adiante, o Senhor recorda: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (João 13,14-15). Com base em João, podemos dizer: não há Eucaristia sem também o lava-pés. O cristão ou cristã alimentado pela Palavra, o corpo e sangue do Senhor precisa, sim, colocar-se a caminho, à disposição do próximo. Creio estarem dispensados dessa missão apenas aqueles que, por motivo grave, não o podem fazer. Servir em, com e por Cristo é um agir sacramental, não há lugar para ativismo, mas para o seguimento dos passos do Senhor. Assim é a Sagrada Ceia. E não nos esqueçamos desta ordem de Jesus: “Fazei isso em meu memorial” (Lucas 22,19b). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.

Irmã Mansuetis: uma estrela a brilhar

Não teria outro adjetivo para nossa querida irmã Mansuetis: estrela. E hoje… a brilhar. “Mansu”, como eu a chamava carinhosamente, orou por nós durante toda a sua vida. E agora, na eternidade, continua orando. Uma vida dedicada à evangelização. Quanto amor nossa “Mansu” dedicou às crianças da catequese do Colégio Imaculado Coração de Maria (CICM), onde trabalhamos juntas, construindo uma história de vida, no carisma missionário das irmãs servas do Espírito Santo, congregação de sua vida religiosa e minha, como missionária leiga e professora do CICM. Muito detalhista em cada situação… Na preparação dos encontros, nas mensagens de aniversário, na cruz que ela pacientemente fazia com o ramo do Domingo de Ramos. Para todos os momentos, trazia no coração uma palavra e na boca um sorriso. A Eucaristia era seu alimento diário, na missa da Basílica do Coração de Maria, aonde íamos, bem cedinho, antes de iniciarmos a jornada de trabalho no Colégio. Rimos juntas, choramos juntas. Minha gratidão a Deus por ter me dado a alegria de conviver com a Mansu, pessoa forte, crítica, exigente, muito à frente de seu tempo e generosa, com um coração tão grande que não sei como lhe cabia no peito. Veja, a seguir, alguns depoimentos de quem conviveu com a irmã Mansuetis. Seriam muitos mais, tantos que não caberiam aqui… Cruz que todo ano ela fazia com o ramo e nos oferecia. Nanci Reis Queiroz AfonsoColégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ Missionária no mundo da Educação Natural do Maranhão, irmã Mansuetis, Edmée Santanna, carinhosamente chamada de “Mansu”, nasceu em 10 de abril de 1928. Em 1957, professou os primeiros votos na Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Sua missão se deu sobretudo na área da Educação, e boa parte de seu ministério foi exercida no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ, atuando na pastoral escolar. Nos últimos anos de sua vida, ela viveu no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Após 64 anos de vida religiosa, Ir. Mansuetis faleceu em 12 de abril de 2021, dois dias depois de completar 93 anos. Como herança, deixou um profícuo trabalho de evangelização e muitas saudades. Boas recordações A irmã Mansuetis acompanhou minha infância e parte da minha adolescência. Instruiu-me na fé, na minha vida religiosa, desde a catequese. Infelizmente não esteve comigo na minha crisma, devido à pandemia, mas guardarei no coração a chamada de vídeo em que me parabenizou e animou. Ela sempre tinha para mim um sorriso no rosto, independente do momento, e trazia luz pra minha vida com suas atitudes carinhosas ou palavras de conforto. Irmã Mansuetis deixou sua marca na minha vida, na vida de todas as pessoas que conviveram com ela e no mundo!Juliana Bonfin A irmã Mansuetis foi a responsável pelas minhas aulas de catequese e lembro como se fosse hoje o que ela me disse na celebração: “Deus não lhe deixará faltar algo na sua vida”. Desde então, a irmã se tornava, a cada dia que se passava, uma ótima inspiração para mim. Ela me ajudou a estudar e superar minhas dificuldades a cada dia no ano letivo. Fico triste pela sua partida e mais triste ainda por muitas crianças e alunos que, infelizmente, não chegaram a conhecê-la. Lembranças e memórias são aos montes, ao lado dessa senhora. Lembro-me que, certo dia, ela quebrou o braço. Ela me contou que desceu a rua Coração de Maria de skate (risos). Hoje ela se tornou um anjo ao lado de Deus e em meu coração!Guilherme Solidade Meu filho Gabriel, nos primeiros dias de escola, quando entrou para o CICM, com 2 aninhos, na adaptação, chorava muito. E eu no pátio, tentando distraí-lo. Vi que a irmã Mansuetis veio andando em nossa direção, e ele saiu correndo, todo feliz, gritando “Olha a Mãezinha do Céu!”Cristiane Rajão Irmã, muito obrigado por todos os ensinamentos e momentos durante a nossa convivência. Sou infinitamente grato por tudo o que passamos nesses anos incríveis ao seu lado.Gabriel Rajão, Catequese CICM Conviver com a irmã foi mais do que uma convivência da vida. Foi um privilégio. Irmã Mansuetis, muito obrigada por todo o carinho e todo o apoio que sempre me deu, obrigada por ser tanta inspiração, e hoje me lembro de você como uma mulher batalhadora, amada, com um coração que não cabia no peito e muito mais que especial. Onde quer que esteja, sempre estaremos juntas, sempre com muitas lembranças boas, ao me lembrar de você no meu coração. Obrigada irmã! Para sempre, sua Luizinha!Maria Luiza Thiele, Catequese CICM Todos os que estudaram no CICM e CNSP a conheciam e sempre se lembrarão dela. Falo isso, pois eu mesmo me recordo de quase tudo o que vivi ao lado dela: as frases de carinho que ela dizia durante a catequese e todos os abraços que ela me dava sempre que me via. Sempre vou me lembrar dela por todo o amor e carinho que ela dava para quem a conhecia.Guilherme Rajão Convivi com a irmã Mansuetis na Catequese, no CICM. Era muito legal com a gente. Ela nos ajudava em todos os momentos. Ela vai fazer muita falta, mas estamos com as lembranças. Só queria agradecer por ela ser bem legal e feliz com todos nós. Com carinho,Marina Gonçalves Quaranta Irmã Mansuetis, grande missionária que marcou nossas vidas. Em vários momentos, foi tão especial que não deixava os problemas sem solução. Querida irmã, chegou sua hora. Com certeza, Deus está muito feliz por tê-la a seu lado. Descanse em paz! ?Ana Maria Mantuano Tive o privilégio de trabalhar e conviver com a irmã Mansuetis no CICM e, naquele período, pude observar em nossas conversas a pessoa forte, inteligente, amorosa e muito, muito generosa que ela era. Jeito doce e meigo, voz mansa e, como ela dizia, Mansuetis de Mansidão. Querida irmã Mansuetis, nossa “pequenina”, todo o meu respeito e admiração, carinho e gratidão. Descansa em paz! Cuida de todos nós!Simone Ghelli Irmã Mansuetis, um dia você contou a história da santa do dia do meu aniversário. Depois

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