A importância da educação escolar para a sexualidade

Imaginem um grupo de adolescentes no pátio da escola, uns de cabelos coloridos, curtos ou longos, lisos ou encaracolados, tênis com cadarços desamarrados ou não, calças rasgadas porque é estilo! Celulares na mão, trocando ideias, conversando pelos aplicativos e buscando as novidades e postagens dos colegas, ou simplesmente ouvindo suas músicas prediletas. Uma diversidade de cores, sons, pensamentos e particularidades. Jovens que passam por muitos questionamentos, incertezas e indefinições, mas que estão procurando a felicidade, com certeza. Na busca de informações sobre as mudanças físicas, biológicas e psíquicas da puberdade, bem como procurando sua aceitação pelo grupo de amigos. Os mais tímidos evitam perguntas, e os mais despachados conversam sobre assuntos íntimos, e a maioria faz aquela pesquisa em sites às vezes não muito confiáveis. É função da família e da escola assistir esses jovens no percurso para a vida adulta, de forma saudável, com respeito à diversidade, para que eles atuem numa sociedade inclusiva, baseada nos direitos humanos.Vale a pena mencionar a diferença entre educação sexual e educação para a sexualidade. A educação sexual inclui todo o processo informal pelo qual aprendemos sobre a sexualidade ao longo da vida, por meio da família, religião, comunidade, livros ou mídia. Já a educação para a sexualidade é um processo curricular de ensino e aprendizagem sobre os aspectos cognitivos, emocionais, físicos e sociais da sexualidade, contribuindo para a formação de cidadãos e cidadãs, e a garantia de seus direitos. A UNESCO do Brasil sugere que “A educação em sexualidade pode ser entendida como toda e qualquer experiência de socialização vivida pelo indivíduo ao longo de seu ciclo vital, que lhe permita posicionar-se na esfera social da sexualidade. O sistema educacional tem a tarefa de reunir, organizar, sistematizar e ministrar essa dimensão da formação humana”. Cumprir essa importante tarefa é, antes de tudo, buscar a interação família-escola, como mencionado anteriormente, pois as primeiras abordagens sobre o tema ocorrem no âmbito familiar e, nesse sentido, a escola vai ampliar o conhecimento e o acesso a informações qualificadas e cientificamente corretas. Também vai orientar os jovens sobre a transição da infância para a vida adulta e sobre os desafios físicos, sociais e emocionais que enfrentam nesse processo. Sabemos que é na educação que podemos encontrar esse caminho para a formação integral dos jovens, a fim de conduzi-los a uma vida adulta plena, com respeito à diversidade e portadores de atitudes inclusivas. “As manifestações da sexualidade afloram em todas as faixas etárias. Ignorar, ocultar ou reprimir são respostas habituais dadas por profissionais da escola, baseados na ideia de que a sexualidade é assunto para ser lidado apenas pela família. Na prática, toda família realiza a educação sexual de suas crianças e jovens, mesmo aquelas que nunca falam abertamente sobre isso. O comportamento dos pais entre si, na relação com os filhos, no tipo de ‘cuidados’ recomendados, nas expressões, gestos e proibições que estabelecem, são carregados dos valores associados à sexualidade que a criança e o adolescente apreendem.”BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: orientação sexual. Brasília: Ministério da Educação, 1997. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/pcn/orientacao.pdf Inara GonçalvesProfessora de Ciências e Biologia no Colégio Sagrado Coração de Jesus, Belo Horizonte-MG. ReferênciasUNESCO BRASIL. Orientações técnicas de educação em sexualidade para o cenário brasileiro: tópicos e objetivos de aprendizagem. Brasília: UNESCO, 2013. Disponível em: http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/FIELD/Brasilia/pdf/Orientacoes_educacao_sexualidade_Brasil_preliminar_pt_2013.pdf BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural e orientação sexual. (v. 8). Brasília: Ministério da Educação, 1997.
15º Domingo do Tempo Comum

“Dava-lhes poder sobre os espíritos maus”Marcos 6,7-13 Esses versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos (6,6b-8,21) à qual podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus. Nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa. O primeiro elemento é que a missão de Jesus, a de construir o Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está em nosso batismo. Todos somos discípulos-missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos, é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente e variar, mas a missão é fundamentalmente igual. Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é comunitária. Não existe um cristianismo individualista. Nossa fé tem consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum em nosso mundo de competitividade e Pós-Modernidade. Jesus lhes dava poder sobre os espíritos imundos. Claro, aqui se expressa uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam tudo o que pudesse se opor ao Reino. Tudo aquilo cujos valores fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje, muitos interpretam essas palavras ao pé da letra e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos (mas sempre no nível intimista e individual). Devemos nos perguntar: quais os espíritos imundos em nós, em nossas comunidades, em nossa sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo o que se opõe à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade, de exclusão, que é característica de nossa sociedade neoliberal, nossa sociedade de morte. O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com suas estruturas. Nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos no esforço da criação de um mundo novo, diferente, pela utopia de Jesus. Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham de se libertar do espírito de acúmulo: não levar coisas, como sinal da chegada do Reino. Em nosso caso, teríamos de examinar se, mesmo sem notar, não estamos vivendo o espírito de consumismo e materialismo, e acumulação e supérfluo, que marca a ideologia na sociedade hoje. Jesus os adverte que nem todos iriam acolher sua mensagem, pois a mensagem de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na sociedade. Vale para nossos tempos: uma Igreja comprometida com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes deste mundo. Quando somos bem-aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos nossa voz profética. A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e não acomodados. Que alegria celebrar a beatificação de Dom Oscar Romero e testemunhar o início dos processos de beatificação de Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida, arautos e testemunhas da vida que Deus almeja! Nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” de nossa vida. Minha vida, a de minha comunidade se resumem na vivência interna das estruturas da Igreja ou nos levam a ser testemunha no meio da sociedade, profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos de que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários, missionárias, continuadores da missão de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Trabalho voluntário: compromisso com a práxis de Jesus

Jesus Cristo veio ao mundo para anunciar uma boa-nova aos pobres. Ele veio para ensinar as pessoas que a vida somente ganha real sentido quando estamos dispostos a sair de nós mesmos e olhar à nossa volta, de forma a compreender as necessidades de nosso próximo. Nessa perspectiva, viver a espiritualidade do Evangelho exige de nós um triplo exercício: olhar e compreender o que a realidade nos clama. Não nos basta olhar, pois essa ação se torna vã se não vier somada a uma disposição real de nosso coração de compreender o que é preciso ser feito. O terceiro passo é o agir, ou seja, arregaçar nossas mangas e concretizar aquilo que foi visto e compreendido. Inspirados por esse ensinamento de Jesus, podemos vislumbrar caminhos para concretizar nossa espiritualidade, de forma que se torne vida em nosso dia a dia e não apenas uma reflexão bonita, mas sem uma atitude de compromisso. Ao olharmos nossa realidade, encontramos inúmeras facetas que nos instigam a pensar: o que tem acontecido com nossa sociedade? Por que vemos tanto sofrimento? São tantos os problemas sociais e ambientais que é impossível não nos sentirmos incomodados. A não ser que estejamos com nossos olhos fechados e nossos ouvidos tampados… A pandemia do novo coronavírus eclodiu uma realidade que estava latente, mas que já fazia parte de nossa sociedade há tempos: a pobreza, a miséria, o abandono, a falta de oportunidade, e por aí vai. Hoje vemos estampado nos jornais e noticiários o que já há muito tempo existia em nosso País e no mundo: a fome, o descaso do Poder Público, as injustiças sociais. Em meio a tantas situações de tristeza, podemos encontrar exemplos de inúmeras pessoas que, deixando suas próprias preocupações de lado, conseguem encontrar caminhos para ajudar aqueles menos favorecidos. São homens e mulheres que, voluntariamente, partilham de seu tempo e esforços para colaborar na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna, onde haja melhores condições para aqueles que tanto necessitam. O trabalho voluntário ecoa neste contexto como uma luz num túnel cada vez mais escuro e fechado; um túnel marcado pelas desigualdades, mas que, com a ajuda de pessoas de bem, tem se alargado sempre mais. Iluminado pela práxis de Jesus, o trabalho voluntário ganha um sentido mais pleno e profundo: ser a expressão do amor ao próximo, concretizado em ações cotidianas que inspiram e nos fazem acreditar que um mundo novo é possível. Nossa sociedade clama por pessoas que sejam capazes de assumir o compromisso de Jesus: ser anunciadores da Boa-Nova, concretizando, no hoje de nossa existência, o compromisso que assumimos com nosso Deus: o de ser a expressão de seu amor junto aos menos favorecidos. Por esse motivo, em nosso jeito de educar, trazemos para nossas escolas o compromisso de despertar em nossos estudantes o desejo e o compromisso do trabalho voluntário diante de um futuro que pedirá cada vez mais que saiamos de nossas “bolhas”, nosso mundo particular, e vivamos como família humana; afinal, “quem vive para si empobrece seu viver”. Que sejamos capazes de assumir esse compromisso de amor ao próximo, realizando nossas ações voluntárias e inspirando outras pessoas, crianças, jovens e adultos a também eles se comprometerem com essa ação. Somente assim conseguiremos ser anunciadores da Boa-Nova, somente assim concretizaremos o sonho de Deus para nossas vidas. Erica da Silva Carneiro é professora de Ensino Religioso no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-S
Festejos populares em tempos de pandemia nas escolas

Mesmo em meio à pandemia e às necessidades de isolamento e manutenção de protocolos, as escolas da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo não pouparam esforços para realizar as tradicionais festas juninas. Seja de modo virtual ou presencial, com obediência a rígidos protocolos, não deixaram de oferecer a crianças e jovens essas vivências tão importantes da cultura popular brasileira. A prática dos festejos populares juninos está alinhada à competência três da BNCC, a Base Nacional Comum Curricular: “Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural”. Mas, qual é a importância dessa competência? Por que participar e conhecer as manifestações culturais e locais se faz tão necessário? Em tempos pandêmicos, nos quais a angústia e a incerteza predominam, qual a importância de se manter esses festejos, mesmo que de forma reinventada e auxiliada pelas tecnologias da informação e da comunicação? Primeiramente, vamos relembrar as origens dos festejos juninos, que vêm de festas pagãs das antigas civilizações, ligadas aos ciclos da natureza, às estações do ano, sobretudo nos períodos de plantio e de colheita. No século XVI, as festas “joaninas” foram trazidas pelos portugueses durante o período de colonização, em referência a São João. Com o correr dos anos, passaram a ser chamadas de festas juninas, por ocorrerem durante o mês de junho. É tradição em todo o País, principalmente no Nordeste. Atualmente, são consideradas festividades mais populares que religiosas, associadas a símbolos típicos de zonas rurais. Buscando explicação em estudiosos que pesquisaram a cultura, a educação e o desenvolvimento, podemos extrair alguns importantes significados para o trabalho com a diversidade cultural e sua vivência no ambiente escolar. Pierre Bordieu (citado por SILVA, s.d.) afirma que “a cultura é o conteúdo substancial da educação, sua fonte e sua justificação última […] uma não pode ser pensada sem a outra”, portanto atividades que tragam não somente a cultura erudita para dentro da escola, mas a multiculturalidade presente em nossa sociedade revelam o potencial de uma educação mais democrática e inclusiva. Reuvem Feuerstein, professor e psicólogo israelense, influenciado por Vygotsky, que criou a teoria da experiência da aprendizagem mediada, afirmava que o ser humano é dotado de estruturas mentais que lhe garantem a capacidade de aprender, porém a falta da apropriação de sua própria cultura (privação cultural) afetará negativamente suas capacidades cognitivas. Elvira Souza Lima, pesquisadora em desenvolvimento humano, tem realizado encontros virtuais nos quais ressalta o papel da arte e da cultura como antídoto aos danos emocionais gerados pela pandemia, as restrições e perdas impostas por ela. Nasci e cresci em um bairro pequeno de Belo Horizonte, com características de cidade de interior. Minha infância e adolescência foram marcadas por quermesses e festas de rua, incluindo as juninas, às quais tínhamos acesso com muita liberdade e segurança. Hoje, nossas crianças e jovens quase não têm acesso a esses eventos e manifestações populares fora da escola. A cidade já não oferece tantas oportunidades. Acentua-se o papel da escola como agente de mediação cultural, valorizando a enorme diversidade presente em nosso País, humanizando e formando cidadãos preparados para viver em sociedade e serem agentes de transformação, que contribuem para uma cultura de paz, respeito e valorização da diversidade. Ana Amélia Rigotto FernandesDiretora educacional do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. ReferênciasSILVA, Jididias Rodrigues da. A importância da cultura no processo de aprendizagem. Brasil Escola, São Paulo, s.d. Disponível em: Brasil Escola. Acesso em: 4 jul. 2021. SOUZA, Natalício de. A mediação da aprendizagem segundo Reuven Feuerstein. Revista Brasileira de Educação Básica, Belo Horizonte, v. 4, n. 14, 2009. Disponível em: Revista Brasileira de Educação Básica. Acesso em: 4 jul. 2021. VEIGA, Edison. Festa junina: a origem da celebração pagã que virou religiosa e ‘caipira’ no Brasil. BBC News Brasil, 18 jun. 2021. Disponível em: BBC News. Acesso em: 4 jul. 2021.
Solenidade de São Pedro e São Paulo, Apóstolos

“E vocês, quem dizem que eu sou?”(Mateus 16,13-20) O texto é a versão mateana da profissão de fé de Pedro, que Marcos (8,27-35) coloca como pivô de todo o seu Evangelho. O trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo, discípula dele? São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira de meu seguimento dele. Depois de Jesus interrogar duas vezes os discípulos, o texto de Mateus acrescenta os versículos 17 a 19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por conseguinte, dos líderes de sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que, nos Evangelhos, somente aqui e no capítulo 18, é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se referem aqui ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos. O fundamento, o alicerce, a pedra fundamental dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “quem é Jesus?” e “o que significa segui-lo?”, pois os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude aparentemente estranha: “Ele ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias!”. Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele! Como é que ele espera atrair discípulos desse jeito? O assunto merece mais atenção.Realmente Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender esse termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias”, para ele, é ser o “Servo do Senhor”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas e econômicas, enfim, com a classe dominante de seu tempo, e não o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então. Pedro teve de aprender essa exigência do discipulado, de uma maneira lenta e dolorosa, passando até pela negação de Jesus na noite de sua prisão. Aprendeu tão bem que chegou a dar a sua vida como mártir, também morrendo, conforme a tradição, em uma cruz, no Circo de Nero, em Roma, onde atualmente se localiza a Basílica que traz o seu nome. Aprendeu, a duras penas, ser discípulo de verdade e cumprir a missão que recebeu de Jesus na Última Ceia: “Eu rezei por você, para que a sua fé não desfaleça. E você, quando tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos”(Lucas 22,32). Aqui temos o essencial do ministério petrino, continuado no Papa: confirmar e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs. A Igreja sempre deve zelar que acréscimos históricos, mais adequados a monarcas do que a discípulos, não escondam essa missão essencial. Hoje, de maneira especial, devemos rezar por nosso querido Papa Francisco, que continua essa missão petrina, testemunhando à Igreja e ao mundo a misericórdia de Deus, e a missão da Igreja de ser também uma Igreja Serva, seguindo o exemplo do Mestre. Por isso, como o próprio Senhor, ele enfrenta grave oposição dentro e fora da comunidade eclesial, quando desafia todos a seguirem o exemplo de Jesus e doarem a vida em favor de um mundo fraterno e justo. Os detentores do “poder-dominação” nunca aceitam uma visão do “poder-serviço” que Jesus pregou e que o Papa Francisco encarna. Paulo, que, durante os seus primeiros anos da vida adulta, perseguia os discípulos, também teve a graça da conversão, chegando a afirmar que não queria saber nada a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1 Coríntios 1,2). Ele também pagou com a vida essa decisão pelo discipulado. Em nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus light, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia para que clarifiquemos em que Jesus acreditamos. O Jesus quebra-galho, que existe para resolver os meus problemas pessoais, tão propagado por setores da mídia e por diversos movimentos e pregadores, ou o Jesus bíblico, o Servo do Senhor, que veio para dar a vida em favor de todos? Como sucessor de Pedro, o Papa Francisco nos demonstra, em palavras e gestos, que seguir Jesus exige opções reais em favor dos que mais sofrem. Que a celebração de hoje não seja de um triunfalismo sectário anacrônico, mas de uma renovação do nosso compromisso como discípulos-missionários de Jesus de Nazaré, ao exemplo de Pedro e Paulo. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
III Missão sem Fronteiras: “Daqui só se leva o amor”

Nos dias 25 e 26 de junho, realizamos a terceira edição do projeto Missão sem Fronteiras. Com o tema “Missão sem fronteiras, diversidade e respeito”, o encontro ocorreu por meio da plataforma Zoom e contou com membros dos colégios da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo. O evento reuniu cerca de cem participantes, incluindo, jovens, educadores, coordenadores, diretores dos colégios, educadores e as irmãs missionárias do Brasil e da Argentina. O Colégio Stella Matutina, de Juiz de Fora-MG, foi a escola anfitriã desta edição. A abertura foi marcada pela calorosa acolhida da provincial, irmã Maria Percila Vieira, da irmã Maria de Fátima Marques, da equipe gestora do Colégio Stella Matutina e dos coordenadores da Pastoral Missionária. Foi destacada a experiência dos projetos sociais que os colégios realizam com o protagonismo dos alunos. Sob o olhar amoroso de Santo Arnaldo Janssen e da espiritualidade trinitária, a diversidade em harmonia perpassou os momentos de oração e toda a dinâmica do encontro. A professora Virna Braga apresentou uma reflexão sobre “A pobreza na pandemia”, alertando que vivemos numa sociedade estruturalmente desigual, com o crescimento do preconceito e da vulnerabilidade social. A professora Karla Priscilla conduziu uma conversa interativa com o tema “Intolerância em tempos de pandemia nas redes sociais”. O voluntário Bruno, de Juiz de Fora, coroou o momento com o seu testemunho de vida, partilhando sobre o trabalho que realiza com o grupo “Anjos da Rua”. Na conclusão, os desafios foram lançados. Os jovens foram convocados a fazerem a diferença, a ajudar os mais necessitados, a espalharem empatia e solidariedade, com um olhar sem julgamento. Em espírito de gratidão, alguns dos “missionários sem fronteiras” partilham conosco suas impressões do evento. Confira a seguir! “Vou lembrar e levar para a vida toda” Sempre falam que é impossível voltar no tempo, mas eu posso dizer, com toda a certeza, que eu consegui. Poder participar novamente da Missão sem Fronteiras foi uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos tempos. Poder relembrar todas as memórias lá do primeiro encontro, aqui em São Paulo, no Colégio Espírito Santo, e também poder criar tantas outras lembranças. Fiquei muito feliz ao ver que, neste encontro, participaram pessoas que estiveram comigo em 2017 e que compartilharam do mesmo sentimento na época, e agora um sentimento de nostalgia. Em 2021, a missão foi um pouco diferente dos demais anos, de uma forma on-line e com a presença de outras pessoas e escolas, incluindo de fora do Brasil. É isso que é o mais legal desse evento, poder compartilhar histórias, momentos e, no futuro, lembranças, com pessoas que você jamais pensaria que poderia conhecer. Em todas as dinâmicas, conversas nessa missão, você se sentia tão presente no momento, aproveitando cada segundo, que, às vezes, você nem sentia que cada um estava em sua casa. Para mim, este é o intuito do Missão, nos permitir fazer conexões com pessoas de uma forma única, por isso “sem fronteiras”. Agradeço aos professores que me fizeram o convite para participar. E, podem ter certeza, de que esses foram momentos que vou lembrar e levar para a vida toda. Felipe Ingenleuf Joubeir, ex-aluno do Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP “Encorajar e ser encorajado” Missão é um propósito que recebemos assim que ocupamos um lugar no mundo. Para nós, cristãos, esse propósito se torna uma prática que vivenciamos no cotidiano, propagando nossa fé e testemunhando o exemplo de amor deixado por Jesus. Ser missionário então se torna cada vez mais urgente como ideal de vida. O projeto Missão sem Fronteiras é uma oportunidade de experimentar e exercitar nossos sentidos em favor do próximo e de nós mesmos. Encorajar e ser encorajado a participar da comunhão entre realidades distintas e diversas é uma das ações presentes nessa iniciativa. Como educadora missionária, sinto uma gratidão enorme por ter sido convidada e sentir-me escolhida para fazer parte desse grupo que atendeu ao chamado maior em prol da vida humana. Como disse Jesus: “Muitos são os chamados, mas poucos são os escolhidos”. Que possamos realizar muitas e muitas edições da Missão sem Fronteiras com a sensibilidade e o desejo de viver em um mundo mais fraterno e mais humano. Flávia Gino Rodrigues, professora, Colégio Sagrado Coração de Jesus, Belo Horizonte-MG “Fazer o bem” Participar da Missão sem Fronteiras representa um elo significativo ao fortalecer o vínculo e a interação entre os jovens e educadores das escolas que compõem a Rede de Educação. Momentos únicos e valiosos de espiritualidade, reflexão e aprendizado. Foram dois dias de experiência, nos quais o que prevaleceu foi o fazer o bem. Mesmo que de forma remota, estávamos conectados e envolvidos, aprendendo, compartilhando e ensinando. Valores que ficarão para sempre em nossos corações. Roberta Pimentel Aouila, professora de Língua Portuguesa, Colégio Stella Matutina “Súmula da esperança” Fui convidada a participar da III Missão sem Fronteiras, para propor uma reflexão em um momento de espiritualidade. Desde o convite até o primeiro dia de encontro, meu encantamento crescia a cada vez que eu conhecia mais desse incrível projeto. Todas as emoções prévias se desnudam em um sentimento singular, plena admiração diante da grandiosidade do gesto daqueles mais de cem participantes. A espiritualidade esteve presente desde o momento em que a sala foi aberta, e certamente está, ainda agora, nos corações e nas mentes de todos os envolvidos. Ver os jovens dispostos a partilhar e construir um futuro “unidos na diversidade e no respeito” representou, para mim, a súmula da esperança. Teily Ane Teles de Assis, bibliotecária, Colégio Stella Matutina “Momento de união, respeito e amor” Como foi a Missão sem Fronteiras? Fica até difícil colocar em palavras… Foi um momento de união, respeito e amor. Conheci pessoas incríveis, dei risadas, rezei, sorri; até cantar eu cantei. Reforçou ainda mais o quanto temos de ser gratos por tudo e que devemos sempre buscar o lado bom das coisas. Foi presencial? Não. Mas justamente por ser on-line que conseguimos juntar mais de cem pessoas. Conheci gente até da Argentina! Foi legal demais! Vivemos o verdadeiro significado da
Oração dos tempos utópicos

Ó, Senhor, não permita que eu perca a fé na humanidade.Que meus dons estejam a serviço do bem comum.A Casa Comum, ainda que passageira, seja sustento para a vida de todos.Que cada amanhecer seja pleno de cuidado comigo e com os outros.Que um novo tempo se inaugure todo dia, renovando a face da terra.Nossas mãos sejam expressão inarredável na defesa da dignidade da vida humana.Que sejamos capazes de nos colocar em missão, a serviço da vida.O otimismo, a fé e a esperança não nos deixe cegos diante da dor alheia.A vida em comunidade fortaleça a unidade na diversidade.A beleza e a força da biodiversidade sejam nossa inspiração.Que eu não deseje consumir mais do que o suficiente.Que a forma de produzir não esgote os recursos naturais.Somos UM e, assim sendo, tudo está interligado.Ó, Senhor, que eu tenha a humildade de entender que a vida precisa ser boa para todos.Os problemas socioambientais nos impulsionem a encontrar soluções criativas e sustentáveis.Que o insustentável não permaneça nem seja vitorioso.Que a fé e a ciência nunca desistam uma da outra.Ó Deus, renove nossas forças.Que a justiça reine! Amém! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
O ser humano e o planeta: desequilíbrio ambiental causado por instabilidade mental

Nosso planeta está sofrendo alterações climáticas, e isso é inegável. Quais seriam, porém, as causas que levaram a esse desequilíbrio ambiental? Qual o papel dos seres humanos nesses efeitos? O que acontecerá daqui a alguns anos se tudo continuar desse jeito? Será que isso é reversível? Nesta entrevista com o biólogo e escritor Felipe André Ponce de León da Costa, tais questões serão discutidas. As perguntas foram elaboradas por alunos do Colégio Stella Matutina, de Juiz de Fora-MG, escola da Rede de Educação Missionária Servas do Espírito Santo. É preciso reconhecer que é necessário um mínimo de cuidado com o meio ambiente para não prejudicar a vida do ser humano e também a de outras criaturas. Muitas vezes, não se percebe, mas já estamos sofrendo com a alteração natural de nosso planeta. Felipe vai esclarecer algumas dúvidas, apresentar exemplos, descrever os efeitos do aquecimento global e qual a relação deste com o efeito estufa, e em que a poluição atmosférica poderá influenciar tanto na saúde do ser humano quanto no nosso planeta. __________________________________________ Quais as evidências do aquecimento global?Algumas das evidências mais óbvias e diretas provêm das séries históricas. Em alguns países, como Japão e Inglaterra, há séries históricas com mais de 150 anos de duração. E a tendência em todas elas é a mesma: a temperatura média anual está a subir, notadamente nos anos mais recentes. As mudanças climáticas podem potencializar o efeito da poluição atmosférica sobre a saúde?Sim. Mesmo porque a própria poluição atmosférica tende a crescer com o aumento da temperatura. Aproveito e deixo aqui uma sugestão de leitura: Biologia & mudanças climáticas no Brasil (Editora RiMa, 2008), organizado por Marcos S. Buckeridge. Ver, por exemplo, o capítulo Os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde humana, de Paulo Saldiva. É um texto curto e algo genérico, mas pode servir como uma introdução ao assunto. Outra referência que posso indicar é Aquecimento global (Editora FGV, 1992), organizado por Jeremy Leggett. Ver o capítulo Implicações para a saúde, de Andrew Haines. Também é um texto curto. Em tempo: o trabalho de Haines é citado por Saldiva. Mudanças climáticas e ambientais já causam danos à saúde da população?Sim. E acho que a pandemia em curso é um exemplo dramático do que isso significa. O aquecimento global pode causar eventos climáticos extremos?Já está causando. Secas mais prolongadas, por exemplo, devem se tornar cada vez mais comuns. Isso porque, mesmo que a pluviosidade anual que cai em uma dada região permaneça inalterada, as chuvas devem se concentrar em intervalos ainda menores. O que também significa que as chuvas vão se tornar mais intensas. Como a mudança climática pode afetar a natureza daqui a alguns anos?Elas já estão afetando. E tais efeitos têm sido detectados há vários anos. Por exemplo, mudanças de comportamento de plantas e animais, redução na área de distribuição de muitas espécies, derretimentos de geleiras e diminuição das áreas ocupadas pelo chamado gelo eterno. É realmente possível que, daqui a muitos anos, algumas cidades litorâneas fiquem completamente submersas por conta de derretimento de geleiras?Sim. Mas eu não diria daqui a muitos anos. É importante observar o seguinte: o nível do mar, a exemplo de outros parâmetros (por exemplo, pH dos oceanos), é algo que pode e está a ser monitorado. Outra coisa: estamos aqui a falar no derretimento (já em curso!) das geleiras que se encontram sobre terras emersas, pois o derretimento dos blocos de gelo que já estão dentro do mar não provocaria qualquer elevação. Quais são as maiores companhias poluidoras do mundo?A lista não é pequena. No âmbito das mudanças climáticas, porém, eu elencaria três ramos da indústria: termoelétricas, petroleiras e fábricas de cimento, além das fazendas de gado, sobretudo o bovino. Qual é a contribuição do Brasil nas emissões de gases de efeito estufa?Tradicionalmente, o Brasil é mais um escoadouro do que um emissor de gases-estufa. Entre os fatores que contribuem para isso, estão a extensa cobertura vegetal (florestas removem CO2 da atmosfera) e o modo como o País produz eletricidade (predominam hidrelétricas). Nos últimos anos, porém, a situação piorou muito, pois tanto os índices de desflorestamento como o uso de eletricidade suja (termoelétricas) subiram. Um comentário adicional e paralelo: destruir é sempre muito mais fácil do que construir; assim como errar é muito mais fácil do que acertar. O governo federal não dá provas de que vá construir alguma coisa. Sabemos que a camada de ozônio está sendo deteriorada rapidamente. Além de contribuir para o aquecimento global, quais outros impactos podem ocorrer e, ou, serem agravados com essa degradação constante?O surgimento de um buraco (a rigor, um estreitamento) na camada de ozônio é particularmente preocupante porque sinalizaria para a perda de um filtro planetário contra a entrada de radiação ultravioleta, que é ionizante. A adoção de medidas simples, como suspender o uso industrial dos chamados CFC, anos atrás, teria conseguido refrear o problema. Detalhes podem ser lidos no livro Bilhões e bilhões (Companhia das Letras, 1998), de Carl Sagan. A tecnologia pode ser usada para reverter ou diminuir esse processo?As artes práticas (tecnologia) estão sempre a inventar novidades. E as mudanças climáticas são uma motivação e tanto. Algumas soluções mirabolantes já foram e continuarão a ser apresentadas. Todavia, de um ponto de vista exclusivamente científico, a questão é relativamente simples: precisamos tão somente cortar os níveis de emissão dos chamados gases-estufa (por exemplo: CO2 e CH4). Como? Há mais de uma possibilidade. Eis dois exemplos de medidas efetivas: diminuir a queima de combustíveis fósseis (como o carvão mineral e o petróleo) e reduzir o tamanho dos rebanhos animais (bovinos e caprinos, por exemplo). Há um ponto em que a situação será irreversível?Sim. E, ao que parece, já teríamos ultrapassado um deles, de sorte que o aquecimento não é mais apenas uma possibilidade futura, mas sim uma realidade presente. Cedo ou tarde, todos nós experimentaremos os efeitos das mudanças ora em curso. O que se discute agora, em escala planetária, é a intensidade da freada que devemos ou podemos aplicar, de modo a minimizar a
13º Domingo do Tempo Comum

“Menina, levanta-te!”Marcos 5,21-43 O Evangelho deste 13º Domingo do Tempo Comum faz parte de uma sequência de narrativas de Marcos, iniciada com a passagem da tempestade acalmada (Marcos 4,35-41), depois com a libertação do “Possesso de Gerasa” (5,1-20), encerrando-se com dois episódios: a cura da hemorroíssa e o “reerguimento” da filha de Jairo (5,21-43), estes focados pela liturgia deste domingo. Nessa sequência, dá-se destaque à importância da fé, ao resgate da dignidade humana, à vitória da vida. A passagem começa com o clássico “Jesus passou, numa barca, para a outra margem”. Ainda na praia, Jairo, chefe da sinagoga, cai aos pés do Senhor e implora socorro para a filhinha, que “estava nas últimas”. Jesus sai do meio da multidão, esta certamente também carregada de súplicas, e se dirige à casa da menina. A narrativa é interrompida, deixando em suspense o desfecho do socorro à jovem. De súbito, passa-se a descrever o drama da mulher que sofria de hemorragia (vers. 25 a 34). Para a maioria dos exegetas esse excerto parece ser de outra fonte, pois o estilo textual é um pouco diferente do costumeiro em Marcos. Mas é admirável a ligação entre os dois eventos. Fazia doze anos que a mulher sofria com um sangramento. Isso a tornava “impura”, conforme as leis do tempo. Devido à doença, ela não podia participar dos ofícios religiosos e era impedida de ter relações sexuais, não lhe permitindo, assim, ficar grávida. Ademais, a “impureza” a afastava da vida comunitária, visto que não poderia tocar ninguém nem ser tocada, pois “contaminaria” outra pessoa. Mesmo financeiramente, ela estava arruinada, pois havia gastado em vão suas economias com os médicos.Como é costumeiro nos Evangelhos, as curas realizadas por Jesus ultrapassam em muito o aspecto físico. O Senhor devolve ao ser humano não apenas a saúde, mas a dignidade, eliminando o que marginaliza. Um ponto curioso: tanto a mulher quanto Jesus transgridem as leis. Ela se aproxima dele, no meio da multidão, e lhe toca o manto. Ele se deixa tocar e busca, inclusive, saber quem lhe tinha “roubado” um pouco da força. Não à toa, a mulher, embora já curada, apresenta-se “cheia de medo e tremendo”, pois poderia ser punida se fosse aplicada a lei. A frase de Jesus, “Filha a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença” (vers. 34) tem profundo significado. Cristo, como em outras vezes, devolve à Lei o verdadeiro sentido: o amor. E mais: o verbo sesoken pode ser traduzido como “curou” ou “salvou”. O termo aparece mais adiante, também em Marcos (10,46-52), no fim passagem da cura do cego Bartimeu, quando o Senhor diz o mesmo: “Vai, tua fé te salvou”. No versículo 35, volta-se à cena da filha de Jairo. A narrativa retoma no pior contexto possível. Alguém da casa chega e informa que a menina havia morrido. Jesus, contudo, reforça a importância de se ter fé. Aqui reaparece o número doze, desta vez como a idade da adolescente. Tanto a menina quanto a hemorroíssa estavam à sombra da morte. A primeira, por morrer no início de sua maturação como mulher, não podendo se casar; a segunda, por doze anos ser socialmente excluída, devido à enfermidade. Nenhuma delas poderia gerar vida, o que era uma “maldição” para o costume daquele tempo. Jesus é o Senhor da Vida, por isso Ele toma a menina pela mão e a convoca a levantar-se. O verbo egeirein (“levantar-se”) é muito usado no Novo Testamento para expressar a ressurreição de Cristo. No versículo 42, usa-se a palavra anestē, a mesma empregada para designar a ressurreição. Sempre é bom reforçar: os Evangelhos não são livros de reportagem, mas fontes de catequese a ecoar os ensinamentos e a missão de Jesus. Neste caso, poderíamos dizer que os dois episódios são uma catequese pascal, mostrando a vitória da vida sobre a morte. A súplica de Jairo em favor da filhinha, “que ela sare (seja salva) e viva”, resume o projeto do Filho de Deus. Ele nos ergue, tirando-nos de diversas formas de morte. Nos passos de Cristo, tenhamos uma fé robusta, que cura, salva, resgata para a vida os mais necessitados e excluídos. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
III Missão sem Fronteiras reúne escolas da Rede de Educação SSpS

Estamos nos aproximando da III Missão sem Fronteiras, iniciativa promovida pela Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). Neste ano, a missão ocorrerá remotamente, nos dias 25 e 26 de junho. O colégio anfitrião será o Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG. O tema desta edição é “Unidos na diversidade e no respeito”. O projeto reúne alunos e educadores das escolas da Rede. O objetivo é fortalecer o protagonismo juvenil como agente de transformação e esperança diante de muitas realidades sociais que ficaram ainda mais expostas pela pandemia. Rogelia Aparecida de Rezende, professora de Ensino Religioso no Colégio Stella Matutina, conta que, neste ano, o Missão sem Fronteiras terá também a participação de jovens da Província Brasil Sul e da Argentina. “Isso nos alegra e vai alargando nossos círculos de relações”, diz. Ainda que esta edição seja realizada de forma diferente, a prof.ª Rogelia afirma que o desejo de fazer o bem é o mesmo. As escolas da Rede estão envolvidas e preparando momentos valiosos. Ela relata que os alunos estão ansiosos para vivenciar dois dias de muita partilha e aprendizado. “Preparem-se, pois estaremos juntos e conectados. Viveremos momentos únicos e que ficarão guardados na memória e no coração”, partilha. A primeira edição, em 2017, foi realizada no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. A segunda, em 2019, foi no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. Para ver a programação e saber mais sobre o III Missão sem Fronteiras, clique aqui e acesse ? Rogelia Aparecida de Rezende, professora de Ensino Religioso no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG.