24º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga” Marcos 8,27-35 Como Evangelho de hoje, temos a história do caminho de Cesareia de Filipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas, o relato mais original está no Evangelho de Marcos, capítulo 8, o qual se torna o pivô de todo o Evangelho. A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que eu sou?”. Assim, chovem respostas, pois essa pergunta não compromete (é o “diz que…”). Mas a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, compromete-se. Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias”. Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que proclamou. Afirmou que foi por uma revelação do Pai que Pedro fez sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até o versículo 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer. Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo e as expectativas do povo de seu tempo, inclusive os discípulos. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, que teria como consequência ser preso, torturado e assassinado, e dar a vida em favor de muitos. Usando o título messiânico “Filho de Homem”, que vem de Daniel (7,13ss), Jesus confirmou que era o Messias, mas não do jeito que Pedro esperava. Este, conforme as expectativas correntes em seu tempo, esperava um messias forte e dominador, não um que pudesse ir e levar com ele seus seguidores até a Cruz. Por isso Pedro contesta Jesus, pedindo que nada daquilo acontecesse. E, como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afaste-se de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (vers. 33). Pedro, cuja proclamação de fé parecia ser tão acertada, é agora chamado de Satanás, o Tentador por excelência. Pedro tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática errada. Usando nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis. Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor dele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (vers. 34). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, uma adesão à sua pessoa e missão, que leva ao seguimento dele na construção de seu projeto, até as últimas consequências. Hoje, 2 mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte; a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o bispo, mas para cada um de nós, pessoalmente. No fundo, a resposta se dá não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus, Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (João 10,10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos doutrina e teoria certas, mas a prática errada. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Encontro de lideranças da Rede de Educação SSpS discute ações pós-pandemia

Nos dias 26, 27 e 28 de agosto, foi promovido um encontro das lideranças da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo. A reunião foi nas dependências do Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, respeitando todos os protocolos sanitários em relação à covid-19. No evento, a diretoria dos colégios e demais lideranças da Rede tiveram a ocasião de visitar e conhecer uma escola referência em São Paulo, o Colégio Renascença, e debater temas relacionados à Educação de ponta, como sistemas de ensino bilíngue e espaço maker. Assim, vamos poder nos preparar ainda melhor para os desafios que teremos pela frente no pós-pandemia, tanto no aspecto educacional quanto no de gestão administrativa da Rede. Tivemos também foco no planejamento para o desenvolvimento de líderes, buscando processos e ferramentas para que as diretorias dos colégios e o time gestor da Rede possam aprimorar, ainda mais, sua capacidade de trabalhar com as dificuldades e oportunidades da área da Educação. Discutimos também temas como gestão financeira, tecnologia educacional, o novo ensino médio e o importante papel da dimensão missionária em nossas escolas. Assim, nesse encontro marcante, pudemos definir estratégias e ações que vão ajudar a assegurar um futuro sólido e promissor para a Rede de Educação SSpS. Assista ao vídeo com imagens do encontro. Robson Esteves é gestor administrativo da Rede de Educação SSpS.
Família Arnaldina: as fundações em datas marianas e a espiritualidade de Santo Arnaldo

A segunda metade do século XIX foi uma época turbulenta em toda a Europa: o auge do nacionalismo, colonialismo e imperialismo europeu, movimento operário, Revolução Industrial, novas descobertas, etc. Ao mesmo tempo, contudo, foi uma era de entusiasmo missionário. Naquele contexto de convulsão social, Santo Arnaldo Janssen reconheceu os sinais dos tempos e, por meio de sua obra missionária, buscou fazer a vontade de Deus. Ele foi um homem consciente das necessidades espirituais do povo de seu tempo. Mesmo que muitas pessoas abandonassem a fé católica, Santo Arnaldo Janssen queria plantar no coração do povo a semente da Palavra ou do Verbo Divino, fortalecer-lhe a fé e motivá-lo para a oração e a obra missionária. Também nessa época, as coisas eram difíceis na Alemanha. Bismarck havia declarado a Kulturkampf, que proibia as atividades missionárias no País. Porém o zelo missionário continuou ardendo no coração do Fundador e, com a ajuda de alguns bispos, Arnaldo inaugurou, em 8 de setembro de 1875, em Steyl, Holanda, a Casa Missionária ou o Centro de Formação e Missão. Essa data é considerada o dia da fundação da Congregação do Verbo Divino (SVD). Ele sempre dizia aos voluntários da Casa Missionária que o Senhor desafia nossa fé e nos incentiva a fazer algo novo para as missões. Para Arnaldo, assumir compromisso missionário era parte integrante da identidade verbita e despertava no coração dos novos missionários o mandamento do próprio Cristo, de ir e fazer discípulos entre todas as nações (cf. Mateus 28,19). Por isso, hoje, nossa Congregação está presente em mais de 70 países e ela tem caráter internacional e intercultural. Desde o começo, na Casa Missionária, entre os voluntários homens, havia também um grupo de mulheres que se dedicava ao serviço missionário da comunidade. Elas desejavam servir à evangelização como religiosas. Santo Arnaldo observou e reconheceu nelas a presença de um verdadeiro espírito missionário e aprendeu que a mulher tem um papel importante a desempenhar no anúncio do Reino de Deus. Assim, em 8 de dezembro de 1889, fundou a Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo (SSpS). E em 1896, também em 8 de dezembro, escolheu algumas irmãs para formar o ramo contemplativo, conhecido como Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua (SSpSAP). Esta deve rezar, dia e noite, pela Igreja e pelas obras missionárias das duas congregações: SVD e SSpS, dedicadas ao serviço missionário ativo. É interessante observar que Santo Arnaldo Janssen escolheu a data de fundação das três congregações em dias de festas de Nossa Senhora. Certamente ele teve suas razões. Em 8 de setembro, celebramos a Festa da Natividade de Nossa Senhora; e, em 8 de dezembro, a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria. A família do Santo Arnaldo Janssen era sustentada por uma fé sólida e fidelidade ao Senhor. Geraldo Janssen, o pai do Fundador, mostrava grande amor pela missa dominical. A mãe, Ana Catarina, era uma mulher de oração contínua e também participava de todas as missas aos domingos. Sabemos que toda mãe, por graça de Deus, tem um pouco de Maria, que viveu por excelência o exercício da maternidade quando aceitou o convite do Pai a ser mãe do Filho de Deus, o Verbo Divino. E assim, a oração da família e, de maneira muito particular, a oração de sua mãe tiveram um profundo significado na vida de Santo Arnaldo Janssen. Ele recebeu da mãe uma boa educação na fé e, naquele ambiente familiar, mostrou grande devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a Deus Uno e Trino, e ao Espírito Santo. Hoje, a Família Arnaldina (SVD, SSpS, SSpSAP e grupos de leigos) continua vivendo essa espiritualidade trinitária misericordiosa, legado da devoção da família de Santo Arnaldo. O Fundador sabia que a oração de sua mãe era uma grande força para a caminhada da própria família, por isso escolheu essas datas festivas marianas na esperança de receber a força e a proteção que vêm pela oração da Mãe de Jesus. O Verbo Divino se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e se fez homem na pessoa de Jesus, e Maria cuidou do menino Jesus com amor e carinho. No começo, as obras missionárias dessas três congregações precisavam de uma ajuda maior e de força espiritual. Na certeza de que tal como Maria cuidou do Menino Jesus, Ela certamente cuidaria de sua família missionária, o Fundador criou e confiou à proteção de Nossa Senhora as três congregações. No dia 8 de setembro de 2021, a Congregação do Verbo Divino completa 146 anos de sua fundação. Seguindo o carisma, o exemplo e os passos de Santo Arnaldo Janssen, a Família Arnaldina, formada de consagrados, consagrados, leigos e leigas, continua anunciando, pelas obras missionárias no mundo inteiro, a Palavra de Deus e os valores do Reino. Pe. Jwakim Ekka, SVDMissionário do Verbo Divino na Província Brasil Norte e vigário na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, Porto Real do Colégio-AL.
Arco e flecha para o Sete de Setembro

Sempre haverá um grito a ser escutado. Em contraponto ao “Grito da Independência”, desde 1995, ecoa o “Grito dos Excluídos”. Um grito que é fruto de um processo, de uma articulação de muitas pessoas e movimentos, de muita mística e simbolismo, marcado pela proximidade do cotidiano de quem vivencia as lutas populares. É a tentativa de superar um patriotismo passivo e dar lugar a uma cidadania ativa Desde sempre, foi assim: questionando os padrões de independência do povo brasileiro e sonhando com um Brasil mais justo para todos os cidadãos e cidadãs. Um passeio pelos lemas e temáticas dos Gritos dos Excluídos e Excluídas é uma aula de História contada à base de uma participação ampla, aberta e plural. Não é um evento isolado, mas a culminância de um processo de discussões coletivas. 1995 – A vida em primeiro lugar 1996 – Trabalho e terra para viver 1997 – Queremos justiça e dignidade 1998 – Aqui é o meu país 1999 – Brasil: um filho teu não foge à luta 2000 – Progresso e vida, Pátria sem dívida$ 2001 – Por amor a essa Pátria Brasil 2002 – Soberania não se negocia 2003 – Tirem as mãos… O Brasil é nosso chão 2004 – Brasil: mudança pra valer o povo faz acontecer 2005 – Brasil: em nossas mãos a mudança 2006 – Brasil: na força da indignação, sementes de transformação 2007 – Isto não Vale! Queremos participação no destino da Nação 2008 – Direitos e participação popular 2009 – A força da transformação está na organização popular 2010 – Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir um projeto popular 2011 – Pela vida grita a TERRA… Por direitos, todos nós! 2012 – Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda população! 2013 – Juventude que ousa lutar constrói o projeto popular 2014 – Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos 2015 – Que país é este, que mata gente, que a mídia mente e nos consome? 2016 – Este sistema é insuportável. Exclui, degrada, mata! 2017 – Por direitos e democracia, a luta é todo dia 2018 – Desigualdade gera violência: basta de privilégios! 2019 – Este sistema não Vale! Lutamos por justiça, direitos e liberdade 2020 – Basta de miséria, preconceito e repressão! E, em 2021, “Vida em primeiro lugar! Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já!” Como podem ver, ir para as ruas em Sete de Setembro, desde muito tempo, faz parte da agenda transformadora dos que desejam, permanentemente, avanços, conquistas e justiça social. Feita uma “metodologia do arco e flecha”, cada “Grito” tem a força de uma construção coletiva. Duas pontas unidas por uma linha, a qual é flexionada para trás por uma haste longa e fina, com uma seta na ponta que, ao ser solta, projeta-se adiante e revela nossa energia potencial. Olhar o que passou, analisar o vivido e prospectar, foi assim que capturei a metodologia desse movimento que há 27 anos denuncia, anuncia e busca trazer ânimo diante dos desafios de cenários de adversidades, conquistas e retrocessos. Olhando para o alto e adiante, trazendo a flecha para trás para acolher a força do vivido, a trajetória desse movimento passa pela cabeça e pelo coração, busca forças e se projeta com vistas à conquista dos avanços pretendidos. Arco e flecha para o Sete de Setembro… Porque é tempo de nos armar de cidadania! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas. Referênciahttps://www.gritodosexcluidos.com/historia
23º Domingo do Tempo Comum

“Jesus faz bem a todas as coisas”Marcos 7,31-37 Os eventos relatados no texto de hoje se situam no território pagão de Tiro e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de sublinhar o contexto geográfico, talvez para enfatizar a missão aos gentios (pagãos) que marcava sua Igreja. Mais uma vez, estamos diante de um milagre de Jesus que manifesta o poder de Deus que age nele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território. Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros: uma pessoa sofrida (neste caso, sofrendo de surdez e incapaz de falar corretamente), a compaixão da parte de Jesus, que o leva a atender ao pedido de uma cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia (o chamado “segredo messiânico”) e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo. A violação da proibição por parte da multidão traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que Ele é muito mais do que um simples curador. As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante dele (versículo 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente. Mais uma vez, o segredo messiânico em Marcos nos faz perguntar sobre seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos, de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que sua verdadeira identidade somente se revelará em sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana, o oficial que exclamou, ao pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (Marcos 15,39). Para Marcos, uma fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos, interesseiros e duvidosos. Para corrigir essa tendência em sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico “Filho de Deus” ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que a força humana (1 Coríntios 1,25). Um alerta para muitos cristãos hoje. A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos ouvir e os mudos falar” alude a Isaías (35,5-6), que faz parte da visão apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Isaías, capítulos 34 e 35, relacionado com Isaías, capítulos 40 a 66). O uso aqui desse texto veterotestamentário indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente no ministério de Jesus. Podemos ver um sentido mais simbólico para nossos dias na cura relatada: o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois o sistema hegemônico de hoje e os meios de comunicação, frequentemente atrelados e coniventes, procuram, em geral, tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos; pois fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões, escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários de televisão. Também as forças dominantes deixam cada vez mais os excluídos sem voz: em nossa sociedade materialista e consumista, só pode ter voz ativa quem produz e consome. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus cura. O Evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem lhes foi tirada. Sete de Setembro é o dia do “Grito dos Excluídos”, uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade assinalarem que nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos, e que essa atividade não se limita a uma passeata nesse dia somente, mas que é a tônica de nossa ação evangelizadora, retomada com muita força no Documento de Aparecida e em tantos outros documentos do Magistério e da CNBB, e sempre enfatizada nos pronunciamentos e escritos do Papa Francisco. “Jesus fez bem todas as coisas: fez os surdos ouvirem e os mudos falarem!” (vers. 37). Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais. Que ajudemos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante e que ajudemos os sem voz a recuperarem a voz ativa nas decisões das Igrejas e da sociedade em geral. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Narrativas da Criação: conheça o mito do monte Namuli

Dentro das comemorações do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, celebrado em 1º de setembro, e da campanha “Semana sem Fronteiras”, promovida pela Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, seguimos contando como outras culturas narram a Criação. Desta vez, vamos conhecer a tradição dos povos Makhuwa e Lomwe, nas Províncias de Niassa, Cabo Delgado, Nampula e Zambézia, situadas ao Norte de Moçambique. No livro Religiões africanas hoje: introdução ao estudo das religiões em Moçambique (Maputo: Paulinas, 2009), o antropólogo Francisco Lerma Martínez faz uma compilação do mito segundo o qual o primeiro homem foi criado por Muluku (Deus), nas grutas do monte Namuli. O lugar tem 2419 metros de altura e é localizado na Serra de Gurue, Província de Zambézia. O recém-criado homem contemplava diariamente a extensa planície verde, onde crescia toda espécie de árvore e planta. Num certo momento, buscando satisfazer sua curiosidade, decidiu descer para conhecer melhor a maravilhosa paisagem. Durante a perigosa descida, tropeçou numa pedra, caiu ferido por terra e desmaiou. Depois de muito tempo, quando despertou e abriu os olhos, deu-se conta de que seu sangue se misturava à água e observou, na cavidade de uma rocha, que estava formando lentamente uma figura semelhante a seu corpo: era a primeira mulher. Formava-se, desse modo, o primeiro casal: um mulupwana (homem) e uma muthyana (mulher). Os dois continuaram a viagem até a planície, descendo por diversos caminhos que iam abrindo. Conforme iam se multiplicando as trilhas, elas se separavam, dando origem a diferentes grupos que hoje compõem esse povo. Segundo Martínez, a expressão “Miyo kokhuma o Namuli” (fui gerado no monte Namuli) sintetiza a identidade dos povos Makhuwa e Lomwe. Veja maisNarrativas da Criação em outras culturas
Narrativas da Criação em outras culturas

A Rede Educacional Missionárias Servas do Espírito Santo escolheu destacar cinco países na edição 2021 da campanha “Semana sem Fronteiras”: Austrália, Eslováquia, Índia, México e Moçambique, onde as irmãs também estão presentes. Para marcar este 1º de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, apresentamos como comunidades de três desses países narram a origem do mundo. É uma forma de valorizar e respeitar a riqueza cultural e religiosas desses povos. Austrália O Dreamtime (Tempo do Sonho) é a base da religião e da cultura originária da Austrália. Ele remonta a 65 mil anos. É a história de eventos que aconteceram, como o Universo veio a existir, como os seres humanos foram criados e como o Criador planejou que os humanos agissem no mundo como eles o conheciam. O povo originário entende o Dreamtime como um começo que nunca termina, um período em um continuum de passado, presente e futuro. Os mitos são a base da sociedade aborígine e apresentam concepções sobre a existência. Por seu folclore sobre a criação do Tempo do Sonho, os aborígines aprendem sobre seus primórdios e as ações importantes dos criadores. Os aborígenes australianos acreditam, com base no que lhes contaram os ancestrais, que a terra que ocupam não existia como o é hoje. Não havia forma ou vida, era um grande vazio. Foi durante o que se tornou conhecido como o Tempo do Sonho que terra, montanhas, colinas, rios, plantas, formas de vida tanto animais quanto humanas e o céu foram formados pelas ações de espíritos misteriosos e sobrenaturais. Durante o Tempo do Sonho, os criadores transformaram os homens em mulheres e animais, declararam as leis da terra e como as pessoas deveriam agir umas com as outras. Também surgiram os costumes de fornecimento e distribuição de alimentos, os ritos de iniciação, as leis do casamento, as cerimônias de morte, que devem ser realizadas para que o espírito dos falecidos viaje pacificamente para seu lugar além-túmulo. Alguns sonhos falam do desaparecimento dos criadores míticos. Acreditam que eles se ocultaram da vista dos meros mortais, mas continuam a viver em lugares secretos. Uns vivem no território da tribo, em fendas nas rochas, árvores e poços de água; outros viraram corpos celestes; outros se tornaram forças naturais, como vento, chuva, trovões e relâmpagos. Acredita-se que muitos dos criadores continuam a viver na terra ou no céu, cuidando desses povos. Esses criadores sobrenaturais enigmáticos são frequentemente conhecidos como homens e mulheres que tinham a habilidade de se transformar em animais e outras criaturas, como a Serpente do Arco-Íris. Também há histórias de heróis e heroínas, e figuras de pai e mãe. Pode ser difícil para muitos compreenderem o Dreamtime, mas é parte de quem são os aborígines, a própria essência e razão de estarem neste mundo. É abrangente e estará sempre no centro de sua existência como um povo. Índia Na visão do hinduísmo, o Universo tem milhões de anos, criado por Brahma, que o fez a partir de si mesmo. Depois dessa origem, é o poder de Vishnu que preserva o mundo e os seres humanos. De acordo com a crença hindu, na reencarnação, o Universo em que vivemos não é o primeiro nem o último. Como parte do ciclo de nascimento, vida e morte, é Shiva quem destruirá o Cosmos. Para essa religião, isso não é tão ruim como pode parecer, porque permite que Brahma reinicie o processo de criação. México No quinto sol, tudo era negro e morto. Os deuses se reuniram em Teotihuacán para discutir a quem caberia a missão de criar o mundo, tarefa que exigia que um deles teria de se jogar dentro de uma fogueira. O selecionado para esse sacrifício foi Tecuciztecatl. No momento fatídico, ele retrocedeu ante o fogo, mas o segundo, um pequeno deus, humilde e pobre (usado como metáfora do povo asteca sobre suas origens), Nanahuatzin, sem vacilar, lançou-se às chamas, convertendo-se no Sol. Ao ver isso, o primeiro deus, sentindo coragem, decidiu jogar-se, transformando-se na Lua. Os dois astros, porém, continuavam inertes e era indispensável alimentá-los para que se movessem. Então outros deuses decidiram sacrificar-se e dar a “água preciosa”, necessária para criar o sangue. Por isso os homens seriam obrigados a recriar eternamente o sacrifício divino original. Eles acreditavam que sua missão era manter vivo o Sol até o fim dos tempos. Assim, praticavam o sacrifício para repetir o que o deus havia feito por eles. As imolações eram geralmente praticadas com prisioneiros de guerras. Para eles, era uma honra dar a vida por um deus. Os astecas, assim como outras civilizações da Mesoamérica, capturavam pessoas de tribos, aldeias ou até mesmo de civilizações inimigas para o sacrifício. Eles costumavam atacar no meio da noite ou ao amanhecer. Primeiramente entravam em silêncio, matavam os animais, entravam na cabana do chefe e, em seguida, matavam-no. Após eliminar o chefe inimigo, avançavam sobre os que estavam dormindo ou distraídos. Os que resistiam levavam golpes na cabeça, para ficarem inconscientes. Em seguida, capturavam outras pessoas. Por último, vendiam para os nobres as mulheres, os homens fracos e as crianças; apenas os saudáveis e fortes iam para sacrifício. Eslováquia e Moçambique Como a Eslováquia e Moçambique têm população majoritariamente cristã, o relato da Criação predominante nesses países se baseia no livro de Gênesis, tal como é celebrado por outros cristãos e judeus mundo afora. No país africano, há também uma considerável população islâmica. A narrativa dessa religião, contudo, se assemelha à judaico-cristã, como o primeiro ser humano, Adão, sendo proveniente do barro. Para o Alcorão, o mundo também foi criado em seis dias. Veja mais Narrativas da Criação: conheça o mito do monte Namuli
O papel do nutricionista na sociedade

Em 31 de agosto de 1949, foi criada a Associação Brasileira de Nutricionistas (ABN). Essa data foi mantida como o Dia do Nutricionista, para homenagear o profissional responsável por planejar programas de alimentação para as pessoas que se preocupam com a saúde, além de preparar dietas específicas para ajudar a melhorar a qualidade de vida e saúde dos portadores de patologias e pacientes crônicos. O nutricionista é o profissional habilitado para educar a população a assumir hábitos alimentares mais saudáveis, a fim de prevenir o surgimento de doenças crônicas decorrentes da má alimentação. Um profissional da nutrição é responsável por tornar seu organismo mais saudável, proporcionando uma melhor qualidade de vida, bem-estar e nortear sua alimentação. O campo de atuação desse profissional no mercado de trabalho é vasto e se expande cada vez mais. Os cuidados com a nutrição são importantes em escolas, hospitais, casas de repouso, restaurantes, hotéis, clubes, spas e vários outros seguimentos. Não podemos deixar de destacar também os nutricionistas que estão atuando na linha de frente da covid-19, cuidando de pacientes internados em tratamentos intensivos, adequando sua alimentação para que não desenvolvam complicações resultantes da doença. Durante o distanciamento social, um dos fatores mais importantes está relacionado à saúde mental. A ansiedade e a depressão são sentimentos bastante comuns que levam a pessoa a desenvolver doenças. O profissional nutricionista tem papel essencial para auxiliar também nesses casos, visto que muitas pessoas acabam compensando esses distúrbios na alimentação exagerada e desequilibrada. O acompanhamento nutricional é fundamental para a saúde das gestantes e muito importante durante o período de gravidez. A alimentação correta no período da gestação previne doenças e ocorrências negativas relacionadas a uma má alimentação. O nutricionista também atua no ambiente escolar, cantinas e restaurantes, orientando a dieta das crianças e desempenhando um papel fundamental na educação alimentar. Em hospitais, os nutricionistas são necessários para o acompanhamento das dietas dos pacientes internados. O envelhecimento e o estresse do dia a dia levam alguns adultos a desenvolverem doenças como a hipertensão, a diabetes, doenças cardiovasculares, cerebrais e renais. Essas doenças devem ser levadas muito a sério, pois estão relacionadas diretamente a uma má alimentação, podendo até mesmo serem fatais. Quem sofre com essas doenças precisa constantemente do acompanhamento nutricional. Para os idosos, o acompanhamento alimentar é essencial para mantê-los longe do risco de desnutrição ou de outras doenças associadas ao consumo em excesso dos alimentos inadequados. Proporcionando, assim, maior qualidade de vida e longevidade. Os hábitos alimentares adequados durante toda a vida e o controle de peso são essenciais para quem quer ter uma vida adulta saudável. Uma alimentação correta é fundamental para manter saudáveis o corpo e a mente. Dessa forma, o cuidado com a alimentação é imprescindível para um estilo de vida feliz e saudável para toda a sociedade. Arlene Figueiredo de AguiarNutricionista – CRN-3 16383
Conheça oito atitudes de um catequista por vocação

O belo itinerário de agosto, reconhecendo e orando pelas diversas vocações cristãs, encerra-se com o Dia do Catequista, celebrado no último domingo do mês. Com justiça, a Igreja reconhece esse preciosíssimo dom. Ao longo do ano, milhares e milhares de batizados e batizadas, respondendo ao chamado a ser configurados a Jesus, vão ao encontro de irmãos e irmãs, alguns ainda bem pequenos, para instruí-los no caminho do Senhor. Em maio, esse fundamental ofício ganhou novas luzes, quando o Papa Francisco publicou a Carta Apostólica Antiquum ministerium, instituindo oficialmente o ministério de catequista (existente desde o início da Igreja, diga-se). Depois da elaboração do rito pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, as conferências episcopais e as dioceses regulamentarão a norma. Os catequistas não deveriam ser confundidos com professores, mesmo uma pessoa podendo exercer, com grande louvor, as duas funções. A palavra catequese tem origem grega e significa “ecoar”. Aquele ou aquela que se dispõe a esse ministério recebe a sagrada tarefa de “ecoar” não apenas a voz, mas os gestos, o espírito de Jesus. Não é uma mera transmissão de conteúdo, mas um anúncio, com palavras e gestos, de algo a arder antes no peito, após uma experiência de encontro com o Senhor (cf. Lucas 24,13-35). Depois de um tempo e alguns episódios de incompreensão de minha parte, entendi por que se costuma dizer que um catequista jamais tira férias. Claro! Um homem ou mulher, seja jovem ou mais experiente, ecoa Cristo a qualquer momento ou lugar. Quem procura seguir os passos do Senhor não pode (e nem deveria) afastar-se dele. A catequese, de uma forma mais ampla, é uma missão exercida em conjunto. A começar das famílias, depois passando pelo bispo (o primeiro catequista de uma diocese), os presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, e pelo povo de Deus, todos têm o dever de “ensinar” o Evangelho, sobretudo pelo testemunho. Cada um precisa dar sua contribuição. Não adianta se um familiar ensina a uma criança, a um jovem ou mesmo adulto que Jesus é misericordioso, manso e humilde de coração (Mateus 11,29) se, ao chegar à comunidade de fé, esse catequizando é acolhido com rispidez ou indiferença. Por isso, a Igreja entende que todos os batizados são chamados a, de algum modo, serem catequistas. Oito atitudes de um catequista de vocação Voltando-me diretamente a quem exerce esse grandioso ministério (as palavras que conheço são poucas para saudá-los como merecem), eu gostaria de lançar luzes sobre oito aspectos dessa nobilíssima vocação; a maioria inspirados no motu proprio do Papa Francisco. A lista é bem maior, confesso, e não é possível organizá-la por ordem de importância. Fala em nome da Igreja Todo catequista deve ter no coração que nem sempre fala em nome próprio. Pode ocorrer de seu olhar pessoal sobre algum ponto destoar com o da Igreja, baseado na Revelação, na Tradição e no Magistério, mas a palavra do Corpo Místico de Cristo tem prioridade. Cultiva a vida de oração É difícil oferecer com credibilidade aquilo que não se tem. Para ecoar a voz e os gestos do Senhor, o catequista deve ter o propósito de se aproximar o máximo possível de Jesus. Isso se dá em primeiro lugar na oração constante e sincera, na escuta atenta da Palavra, a qual deve cair como semente boa em terra fértil. Nesse ponto, nenhum batizado deveria “tirar férias”. Procura se atualizar A Igreja não é um museu ou um antiquário, e é uma pena muitos cristãos não se darem conta disso até hoje. As teologias evoluem, as liturgias não usam o princípio do “pode/não pode”, e o conhecimento da Bíblia, da Doutrina Social da Igreja e dos dogmas vão se aprofundando ao longo do tempo. A própria catequese passa por atualizações desde os primórdios. Quem se propõe a transmitir a fé precisa estar em dia com as boas novidades. Ao longo da catástrofe da pandemia, muitos catequistas tiveram de se adaptar a novas formas de acompanhar os catecúmenos, os noivos, os jovens e as crianças. Isso, contudo, já ocorria de modo mais ou menos intenso ao longo da história, e é preciso estar de espírito dócil aos ventos do Espírito. Participa na vida da comunidade O catequista, a catequista é parte preciosa da comunidade de fé. É preciso ecoar Cristo primeiramente em casa, depois junto aos outros irmãos e irmãs. Não se pode estar numa bolha, assistindo de longe aos desafios e conquistas do povo. Isso implica também gostar de estar com as pessoas, compreender as fraquezas e o sagrado que elas trazem dentro de si. De modo mais amplo, é necessário estar atento à sociedade como um todo, tentando compreender como o cristão, a cristã pode ser “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mateus 5,13-16). Por outro lado, uma comunidade madura também respeita e procura iluminar-se pelo testemunho dos catequistas. Têm equilíbrio O termo é muito genérico, mas eu o compreendo aqui mais no sentido de relacionamento humano. Catequese e mau humor não combinam. É necessário se esforçar para saber lidar com os mais diferentes tipos (não é fácil, eu sei!). Administrar conflitos, saber respeitar as ideias dos outros, ceder, ter uma divina paciência, tudo isso é ser bom pastor, pastora, sinal de um amor que vem de Deus. Sabe acolher O catequista deve ter claro: não cuida das próprias ovelhas, mas daquelas pertencentes a Deus, o Pastor-Mor. Ele confia seus queridos filhos e filhas a esse ministro, ministra. Cada catequizando que chega e suas respectivas famílias devem ser considerados verdadeiros presentes do Senhor. Aos olhos da fé, é o Espírito que os impulsiona a querer conhecer as coisas santas. Saber acolher o ser humano, com suas virtudes e fraquezas, é uma dos mais elementares gestos esperados de um catequista. É modelo de generosidade Um legítimo catequista coloca à disposição dos irmãos e irmãs, da Igreja e do mundo o que tem de melhor. Partilha com generosidade seus dons, talentos, seu tempo. Nesse aspecto, recordo a passagem dos cinco pães e dois peixinhos apresentados ao
22º Domingo do Tempo Comum

“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”Marcos 7,1-8.14-15.21-23 Para entendermos o alcance do nosso Evangelho de hoje, é necessário compreender o contexto religioso do tempo de Jesus. Entre os elementos-chave na prática religiosa do judaísmo daquela época, estavam os conceitos de “puro” e “impuro”. Em nossa teologia, não é possível cometer um pecado inconscientemente, mas, para o povo do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras, isto é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos ritos de purificação. A seita dos essênios levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos. Também os fariseus (cujo nome vem de uma palavra que significa “separados”) davam suma importância à pureza ritual; assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao culto ao Deus da vida. Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente libertadora. Sem se recusar a participar nos ritos tradicionais, pois era judeu piedoso e praticante, Ele entendeu que nada vindo de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura. Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para que vivesse a justiça e a prática da vontade de Deus, em lugar de se preocupar primariamente com rituais externos. Jesus reintegrava, assim, as massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria. Ele voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “As más intenções, a imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (vers. 21 e 22). Assim, Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías (Isaías 56-66), que, diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam seus irmãos e ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar à sua própria gente” (Isaías 58,6-7). É um desafio hoje examinarmos a realidade de nossa prática religiosa. Sem negar a importância e o papel de celebrações, ritos, rituais e devoções, nosso texto exige de nós, seguidores de Jesus, um sério exame de consciência, para que verifiquemos se a nossa prática religiosa não está frequentemente semelhante à dos fariseus (perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro) ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem, uma religião de prática de solidariedade e justiça, brotando da fé, e coerente com nossa fé no Deus da vida, em que os ritos têm seu lugar, mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (vers. 6). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.