Nossa Senhora Aparecida, nos dê a mão!

O mês de outubro está chegando e com ele todas as comemorações a Nossa Senhora Aparecida, a grande padroeira de nosso Brasil. Querida Mãe, no fim de 2020, logo após eu e meu marido termos acompanhado pela TV Aparecida uma bela e santa novena, fui contaminada pelo vírus. Somente minha fé e as bençãos de Maria me proporcionaram forças para suportar o contágio da covid-19. Foram onze dias de muito sofrimento e risco na UTI, com respiração artificial, sem intubação, pois meus pulmões estavam com setenta por cento de comprometimento. A cada momento difícil, eu recorria aos meios de comunicação que estavam a meu dispor, como canais católicos, Youtube e Facebook. Sentia como uma brisa passando, visitando-me, encorajando-me… Só pode ter sido a Virgem Maria me falando à consciência: TUDO VAI PASSAR. Era o poder de uma missa, um terço ou uma oração que me faziam companhia naquele lugar, onde me faltavam o ar, o sono e também o apetite, mas não a fé e a certeza da presença de Deus com sua Mãe Maria. Durante a pandemia, em todos os cantos e recantos do mundo, os católicos mantiveram sua fé, com o auxílio dos projetos missionários das tevês católicas e de todas as redes sociais. Assim transformaram cada lar numa igreja doméstica, pois a frequência nas igrejas foi impedida. Relembrando: foi assim que o cristianismo começou. Não havia grandes templos nem grandes santuários. Os cristãos se reuniam em casa e em família. Sabemos e reconhecemos que o papel de Maria para com a Igreja é inseparável de sua união com Cristo, tendo a origem nas entranhas de Nossa Mãe, a Virgem Maria. A vida de Maria teve uma relação permanente com seu filho Jesus, desde sua concepção virginal até a hora da morte de Cristo. Maria, a bem-aventurada Virgem, avançou em sua peregrinação de fé e manteve sua união com o Filho até a Cruz, onde ficou com seu unigênito e associou seu sacrifício até a morte de Cruz. No fim, antes de ser morto na Cruz, foi dada como mãe ao Discípulo Amado, com estas palavras: “Mulher, eis aí teu filho”, e para nós foi dito: “Eis aí tua mãe!” (João 19,25-27). Grande presente para a humanidade! A fé em Nossa Senhora Aparecida também nasceu com a devoção familiar. Os pescadores encontraram a imagem de Aparecida e a levaram para casa, surgindo aí a primeira igreja. Hoje temos o grande Santuário Nacional, onde se reúne o maior número de devotos brasileiros e estrangeiros. Cada devoto o visita para seu encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, pela mediação materna de Nossa Senhora. A Mãe de Jesus, por meio de cada celebração, convoca, convida, toca no coração de seus fiéis o amor, a esperança e a fé para perseverar no amor real a seu filho Jesus, expressando sua gratidão por gestos concretos com o próximo, principalmente com todos os menos favorecidos. Sabemos que a fé cristã nos ilumina e leva a compadecer-nos com os sofredores, compartilhar, sermos fraternos e solidários, mostrar interesse através do apoio, do amor, principalmente, da generosidade. Minorar, com gestos concretos, as dores do próximo sofrido, desempregado, para além das palavras de conforto. Interessar-se pelas ações e inciativas comunitárias. Lembrar-se sempre de todo o sofrimento humano. Assim, recebe sua redenção, seu valor e seu sentido transformador a partir da Cruz de Jesus. Bendita a fé que dá asas ao discípulo-missionário de Jesus quando lhe falta o chão. Que Maria, Mãe do Belo Amor, seja sempre bendita. Tenho certeza de que, para todos nós, sobram motivos para amar Nossa Senhora. Desde a mais remota memória da tradição cristã, os fiéis sempre olharam para Ela com carinho, com afeto, com devoção, por vários motivos: porque é discípula da Palavra, porque protegeu e amou Jesus, porque é a vocacionada do Pai e porque Ela é missionária, a primeira missionária, nosso modelo. A razão principal de nossa devoção a Maria esteja de fato ligada à sua maternidade divina. Ela é a mãe de Deus e nossa mãe. No coração de todos os cristãos vibra esta esperança, de que Deus nasceu de uma mulher. Maria, Mãe de Deus, significa o amor de quem nos criou, de quem nos acolhe, de quem nos estende a mão nos momentos de aflição. Podemos aí estender nossas mãos, pedindo à Mãe Aparecida intercessão a seu Filho Jesus. Maria estará sempre disponível com seu “sim”, como foi seu “sim” para o anjo Gabriel. Nós também somos chamados a dizer “sim” a Deus. O anjo Gabriel apresentou-se a Maria com um convite desafiante. E a resposta de Nossa Senhora foi “Faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lucas 1,38). Jesus, quando veio a este mundo quis nascer de uma mulher. Todos os mistérios da vida de Jesus derivam exatamente da Encarnação. Jesus é verdadeiramente humano e verdadeiramente divino. A ressurreição de Cristo realmente é o núcleo. Crer na ressurreição de Jesus é crer na verdade fundamental de nossa fé. Que Nossa Senhora nos dê a mão e nos ajude a dizer “sim” a Deus e ao próximo todos os dias de nossas vidas. E que possamos cantar: “Nossa Senhora, me dê a mão,Cuida do meu coração,Da minha vida, do meu destino,Do meu caminho,Cuida de mim!”(Roberto Carlos, Nossa Senhora) ReferênciasCatecismo da Igreja Católica, cap. 3, art. 9, § 6, Maria – Mãe de Cristo, Mãe da Igreja.Disponível em: vatican.va/archive – Acesso em: 25 ago. 2021. Portal A12.Disponível em: a12.com – Acesso em: 25 ago. 2021. Revista Aparecida, a. 19, n. 233, out. 2020.Disponível em: mflip.com.br – Acesso em: 25 ago. 2021. Rosiná Lopes BressanCoordenadora do Grupo de Missionários Leigos de Deus Uno e Trino (MLDUT) do Rio de Janeiro.

28º Domingo do Tempo Comum

“Como é difícil entrar no Reino Deus!”Marcos 10,17-30 Nosso texto inicia-se com a frase: “Quando Jesus saiu a caminhar”. Novamente estamos na caminhada com Jesus, uma caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva a cada vez mais perto de Jerusalém, lugar da crise definitiva de sua vida. Ao longo dessa caminhada, Jesus luta com a incompreensão de seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a reviravolta de valores que Jesus e sua mensagem significavam. Nos domingos anteriores, vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. Em nosso texto de hoje, Jesus põe em xeque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza. A cena é muito conhecida: um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Em um primeiro momento, Jesus coloca diante dele a exigência conhecida por todo judeu piedoso e ensinada pelas escolas rabínicas: o cumprimento dos mandamentos. Mas o homem (sem dúvida, um praticante piedoso da Lei) sente que isso não é o suficiente, pois é o mínimo. Assim, Jesus põe diante dele as exigências do Reino: o seguimento dele, o despojamento dos bens, a partilha e a solidariedade. Isso o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado a seus bens, pois era muito rico (versículo 22). Fez sua opção: escolheu uma vida “regular”, que não exigisse partilha nem despojamento, e, como consequência, foi embora “muito abatido”, pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior. O centro do relato está no debate entre Jesus e seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (vers. 25). Muitas vezes, gastamos muita energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir seu impacto!) e deixamos de lado o aspecto mais importante: a reação dos discípulos. Eles ficaram “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “Então, quem pode ser salvo?”. Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão. O espanto dos discípulos (todos eles também judeus praticantes e piedosos) era causado pelo fato de que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerada sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma ideia presente em certas seitas hoje e que, às vezes, infiltra em certas pregações sobre o dízimo na própria Igreja Católica). Para eles, quem não se salvaria era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, o que não é sinônimo de salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus e, diante de tal mistério, só cabe à gente calar-se. O Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nessa dinâmica porque normalmente é autossuficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade para partilhar e de sentir sua dependência de Deus. A proposta de Jesus desafia as ideologias, disfarçadas de teologia e espiritualidade, que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta dele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver essa proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição; porém já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (vers. 29 a 31). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

27º Domingo do Tempo Comum

“O que Deus uniu, o homem não separe”Marcos 10,2-16 Durante a caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa dele, mas com seu projeto, o Senhor, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de muito prestígio diante da população mais simples, outorgavam-se o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus, por meio de sua interpretação da Lei. Por isso entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto, “para tentá-lo” (versículo 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Deuteronômio (24,1-4), no qual não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa ocorrer. O Evangelho de Mateus, no capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (veja Mateus 19,1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar-se de sua mulher (nem se cogitava a mulher pudesse divorciar do marido, pois ela era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus, havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar da mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. A escola mais rigorosa (do Shammai) apenas permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mateus 19,4). Em ambos os evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate de casuística que cercava a questão e se limita a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem separe”. Jesus reafirma, com toda a firmeza, o ideal do casamento cristão: uma união permanente, baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar nesse trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal. Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada na igreja, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados, como reconhece claramente o Papa Francisco, bem como qualquer pessoa com coração pastoral. O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com elas vivem essa situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que se ab-rogar de todo poder dominador, tornando-se como criança. Recusando-se a aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo em uma sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contramão dos valores da sociedade de seu tempo (e de hoje). Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação. Realmente, uma proposta no contrafluxo da sociedade pós-moderna, que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador. O texto de hoje nos convida para que entremos com Jesus na “contramão” e criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os que estão hoje em vigor, às vezes, até no seio das próprias igrejas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Passos bíblicos da interculturalidade

A interculturalidade na Bíblia segue um caminho muito peculiar. Apresenta os processos de inclusão e exclusão, acolhida e repúdio, abertura e fechamento, mostrando, assim, uma íntima ligação com a vivência intercultural do mundo contemporâneo. O mundo bíblico era tão intercultural quanto o de hoje, onde se pode perceber tanto inúmeros bons exemplos de interculturalidade quanto de intolerância em relação a outras culturas. É evidente que o Antigo Testamento é uma coleção de livros agrupados conforme os temas: Pentateuco e proféticos, nos quais se encontram também os livros históricos e sapienciais. Já o Novo Testamento inicia-se com os Evangelhos, depois os Atos dos Apóstolos e diversas cartas, finalizando com o Apocalipse. Em ambas as partes, não há um único autor, mas a coletânea de livros é resultado de um longo processo redacional e de transmissão da tradição do povo de Israel. Para ser um texto vivo, no entanto, pressupõe-se um leitor, e a leitura é feita pessoalmente e também pelas diversas comunidades de fé. Por isso fundamental é que, para se compreender a interculturalidade na Bíblia, como aponta Walter Vogels (2015), dois aspectos devem ser examinados: o contexto intercultural da produção da Bíblia e o contexto intercultural de sua leitura. O Antigo Testamento conta a história da caminhada do povo de Israel, e o Novo Testamento apresenta o processo intercultural iniciado por Jesus, continuado eficientemente por Paulo e, posteriormente, pela comunidade apostólica. O missionário do Verbo Divino Roger Schroeder (2020) aponta que o Antigo e o Novo Testamento refletem como as pessoas viveram a experiência de Deus e expressaram sua fé e espiritualidade por meio de seu contexto cultural e histórico, conforme épocas distintas. Podem-se citar como exemplo o chamado e a resposta de Abraão e Sara; o êxodo pascal, a travessia do Mar Vermelho; os ensaios e bênçãos na peregrinação de fé no deserto; as proclamações dos profetas e a literatura sapiencial; a adoração no Templo e na sinagoga; a experiência religiosa de Simeão e Ana no Templo; o chamado e a resposta dos primeiros discípulos; o encontro transformador de Jesus com um cobrador de impostos, um centurião romano e uma mulher samaritana; a travessia de limites culturais em Atos dos Apóstolos; a vida cristã e os desafios entre as comunidades de Paulo. Assim, o caminho intercultural da Bíblia se torna uma inspiração para nossa caminhada como batizados, em direção à atividade missionária promovida por Jesus. Além disso, a Família Arnaldina tem o dever de seguir o caminho intercultural bíblico em nossos contextos da missão. Padre Joachim Andrade, SVDMissionário do Verbo Divino natural da Índia, atua no Brasil desde 1992. Tem pós-doutorado pela PUC-PR, doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP e mestrado em Antropologia Social pela UFPR. É professor na PUC-PR, no Studium Theologicum e na Faculdade Vicentina, membro da equipe interdisciplinar da CRB Nacional. Foi provincial do Brasil Sul de 2008 a 2013.

26º Domingo do Tempo Comum

“Quem não está contra nós está a nosso favor”Marcos 9,38-43.45.47-48 O texto de hoje nos coloca, mais uma vez, no contexto do ensinamento de Jesus a seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que, a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa de seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava. A primeira atitude a ser corrigida, conforme vemos nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o poder divino. Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das igrejas, ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas de suas definições dogmáticas. Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um discípulo: “Não lhe proíbam, pois… quem não está contra nós está a nosso favor” (versículo 40). Temos de aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não o escondamos ou deturpemos. Discernimento deve ser uma atitude permanente de vida. A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos” nesse texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. É bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”, isto é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o discurso eclesiológico (isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mateus 18,6-14). Usa imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé e o olho” que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse; por exemplo, Orígenes. “Mão” significa nossa maneira de agir; “pé”, o modo de caminhar na vida; e “olho”, o jeito de ver e julgar as coisas, ou até nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros, etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora”, ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus, a vivência dos valores do Evangelho, por que Jesus deu a vida para estabelecer. A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus. O Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado como está no espírito de Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a coragem de praticar o que ele nos ensina. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Mindfulness: uma alternativa para nossa saúde mental

Em razão do aumento da ocorrência de sintomas como ansiedade, depressão e estresse na Contemporaneidade, fez-se necessária a incorporação de uma técnica não tradicional à medicina do Ocidente. Com isso, programas baseados em mindfulness foram desenvolvidos para que pudessem aplicar sua técnica, de uma maneira simples e não rigorosa, no cotidiano das pessoas, a fim de se tornar um recurso terapêutico não convencional. O mindfulness é uma técnica que teve origem na cultura budista e, como já mencionado anteriormente, foi incorporado na medicina tradicional ocidental, enquadrando-se nas terapias cognitivo-comportamentais. Um aspecto importante a ser considerado é que o principal ponto defendido pelo mindfulness, de maneira simplista, é a detenção da atenção no agora e não em situações passadas ou cenários hipotéticos do futuro (como ocorre na maioria dos distúrbios psicológicos), de maneira que o indivíduo consiga viver no momento presente. Além disso, um dos pilares dessa técnica é a aceitação de todos os sentimentos que a pessoa venha a ter, de modo que ela se possibilite sentir de raiva a alegria, de maneira que ela não tente evitá-los ou então modificá-los. O mindfulness ensina o indivíduo a assumir, sempre, uma posição curiosa e sem julgamentos perante seus pensamentos e emoções. A partir dessa análise, o praticante consegue identificar as “situações-gatilho”, ou seja, as que automaticamente e inconscientemente despertam uma determinada emoção no indivíduo, a qual pode ser a causadora da ansiedade ou então da depressão, por exemplo. Com isso, as terapias baseadas em mindfulness buscam modificar a maneira como o cérebro do indivíduo reage a esses estímulos, isto é, as respostas emocionais reativas, e promover um pensamento racional que permite que o indivíduo consiga pensar antes de responder às situações-gatilho. Isso promove a modificação da fisiologia cerebral, pois os estímulos constantes fazem com que o cérebro se readapte, por exemplo, por meio do fortalecimento do córtex pré-frontal, o qual relaciona-se com a racionalidade. Um exemplo prático foi o programa MindUp, que usava, no cenário escolar, uma terapia baseada em mindfulness conhecida como MBSR (mindfulness-based stress reduction). Em virtude da cobrança de amadurecimento precoce das crianças, elas não são educadas a lidar com suas emoções e sentimentos, o que pode ser um fator limitante em sua convivência social. Como resultado dessa pesquisa, o grupo de crianças que participaram do programa, quando comparadas com o grupo de controle, apresentaram uma diminuição significativa no tempo de resposta às atividades propostas, o que demonstra que o MBSR facilitou a concentração das crianças nas tarefas. Além disso, houve nos alunos uma diminuição dos sintomas depressivos e ansiosos, assim como um aumento em sua empatia, otimismo e, principalmente, em seu controle emocional. O mindfulness, apesar de ser um campo de estudo recente, demonstra resultados semelhantes e, em alguns casos, até mesmo equivalentes aos tratamentos tradicionais com medicamentos, o que é um bom indicativo no caso de pessoas que o buscam como uma forma de terapia. Vale ressaltar, ainda, que ele também pode ser utilizado como ferramenta de melhoramento de qualidade de vida, adequando-se às necessidades do paciente. Caso fosse incorporado no cotidiano das pessoas, o mindfulness as auxiliaria a viver plenamente o agora, assim como a diminuir suas reações emocionais, o que contribuiria para uma vida mais equilibrada. Mariana Veiga é aluna da 3ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.

Relatório da ONU aponta ação humana no problema do aquecimento global e traz alerta vermelho

Nas últimas décadas, a comunidade científica já previa o aumento de eventos climáticos extremos, como fortes alagamentos, tempestades, furacões e tornados, secas prolongadas e grandes ondas de calor extremo. Por muitos anos, ainda se acreditava que a questão do aquecimento global poderia se tratar de um fenômeno cíclico e natural, ainda que fosse agravado pela ação humana. Contudo o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em 9 de agosto, afirma serem inquestionáveis os impactos provocados pelo ser humano nas mudanças climáticas na Terra e não há alternativa senão a redução dos gases que provocam o aumento do efeito estufa e, consequentemente, o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e do solo. O IPCC é um órgão da ONU, criado em 1988, para investigar a ciência em torno das mudanças climáticas. O grupo analisa e sintetiza publicações e documentos, e repassa para os governos informações científicas que possam embasar políticas sobre o aquecimento global. Com quase mil páginas de extensão, o último relatório do IPCC foi elaborado com a participação de 234 especialistas de mais de 60 países. O documento tem como base revisões e avaliações científicas de mais de 14 mil artigos e estudos já publicados. Desde 1998, já foram realizados cinco grandes relatórios que revisaram estudos científicos sobre o clima e alertaram o mundo sobre a crise climática. Esta, contudo, é a primeira vez que o relatório quantifica a responsabilidade das ações humanas no aumento da temperatura no planeta. A conclusão do último documento faz soar os alarmes sobre as energias fósseis que “destroem o planeta”, e pode ser considerado um “alerta vermelho”. A afirmação foi feita pelo secretário-geral da ONU, António Guterres. O estudo divulgado adverte que a atividade humana está mudando o clima do planeta de maneira improcedente e que, em alguns casos, essas mudanças já provocam problemas irreversíveis, como aumento contínuo do nível do mar. “Os alarmes de emergência estão soando, e a evidência é irrefutável”, disse Guterres, assim que o relatório foi liberado. O secretário-geral também relatou que o teto estabelecido no Acordo de Paris, que limita o aumento médio das temperaturas globais em até 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais, está “perigosamente próximo”. O relatório aponta que a temperatura da superfície global aumentou em um ritmo mais acelerado desde 1970 do que em qualquer outro período de 50 anos em pelo menos 2 mil anos. Afirma também que esse fato tem uma relação direta com o crescimento de problemas ambientais de ordem atmosférica. Os principais fatores humanos das mudanças climáticas são o aumento nas concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa e de aerossóis da queima de combustíveis fósseis não renováveis. Segundo o documento, para cada meio grau a mais na temperatura do planeta, serão provocados novos aumentos na intensidade e na frequência de extremos de calor e fortes precipitações, assim como das secas prolongadas em algumas regiões. As geleiras montanhosas e polares continuarão derretendo por décadas ou séculos. Mudanças nas águas oceânicas também estão descritas, como ondas de calor marítimo mais frequentes, acidificação das águas, redução dos níveis de oxigênio. Embora as projeções de aquecimento sejam claras no relatório e que muitos impactos não possam ser revertidos, o documento também deixa claro que a única forma de retroceder o aquecimento do planeta e suas possíveis consequências consiste na redução das emissões de gases de efeito estufa pela metade até 2030 e na eliminação total das emissões líquidas até a metade deste século, pelo uso de tecnologias limpas e, pelo plantio de árvores, a captura e absorção de carbono. Os cientistas esperam que o relatório pressione os governos a aplicarem as políticas necessárias. Especialistas do IPCC deixam claro que há possibilidade de um planeta melhor para todos se o mundo responder à crise com solidariedade e coragem. É preciso economias mais sustentáveis, inclusivas e verdes, com mais justiça social, eficiência no uso de recursos naturais, com consumo consciente, de baixo carbono, entre outras medidas que ajudem a valorizar o meio ambiente. Fernando Carlos MirandaProfessor de Geografia e Atualidades, coordenador pedagógico do ensino médio no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.

25º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos” Marcos 9,30-37 Na estrutura do Evangelho de Marcos, depois da chamada “crise galilaica”, manifestada no episódio da estada de Cesareia de Felipe, Jesus muda totalmente de tática, de estratégia. Ele não anda mais com as multidões, quase não faz mais milagres (dos 19 milagres em Marcos, somente 2 ocorrem depois do acontecimento de Cesareia). Em lugar disso, Ele se dedica à formação dos seus discípulos, tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos, ensinando-os que o caminho dele é o da Cruz, da entrega, da doação, e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos demonstra isso de uma maneira bem organizada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a sua futura paixão (8,81; 9,31; 10,33-34). Em cada uma, os discípulos não compreendem (8,32; 8,34; 10,35-37), e a partir dessas incompreensões, Jesus dá um ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro seguimento dele (8,34-38; 9,35-37; 10,38-45). O trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento dele é uma vida de entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem entre si qual deles era a maior. O poder é tentação permanente em todas as comunidades, não isentando as igrejas. Podemos até dizer, com certa dose de humor, que a busca de poder está no DNA das pessoas humanas. Talvez mais do que outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas igrejas, mais ainda do que a imoralidade ou a ganância financeira. No século XIX, o estadista e historiador católico inglês Lord Acton falou que “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, e não há poder mais perigoso do que o religioso, exercido em nome de Deus! Quantos sofrimentos e males são causados por essa sede do poder, disfarçada como mandato de Deus. Desde o fundamentalismo fanático do Talibã, no Afeganistão, até a ufania de certos padres (mormente recém-ordenados), que se ostentam com roupas finas e carros do ano e, de uma maneira opressora, dominam religiosas e leigos de muito mais experiência e sabedoria do que eles… A sede do poder e da dominação, sempre em nome de Deus ou de Jesus, continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro e fora do cristianismo. No fundo, é por isso que certos setores da Igreja se colocam, frontalmente ou veladamente, contra o Papa Francisco. Como escreveu o teólogo sul-africano Alberto Nolan, dominicano, “Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que Ele não significou, do que por aquilo que Ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais Ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome”. O poder-dominação é frequentemente um desses elementos. Diante da recusa de seus discípulos em entender seu ensinamento, Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem deve segui-lo. Não porque criança é sempre santa nem inocente, mas porque é sem-poder, dependente dos adultos em tudo. No tempo de Jesus, criança não tinha direitos e era entre os últimos da sociedade. Seus discípulos são convidados a despojar-se do poder para serem servos, da mesma maneira do que o Mestre, Ele que “não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Filipenses 2,6-8). O poder em si é um bem para ser usado a serviço dos outros. Todos nós (clero, religiosos, leigos) somos vulneráveis diante da tentação do poder. Levemos a sério o ensinamento de hoje, pois somente pode ser discípulo de Jesus quem procura ser o servo de todos. Evitemos títulos, privilégios e comportamentos que tão facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o nosso modelo seja sempre Ele e não a sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza, acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante” (1 Coríntios 1,28). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

O centenário de Paulo Freire e o ato de ensinar

“Meu sonho de sociedade ultrapassa os limites do sonhar que aí estão.”(Paulo Freire) Você já imaginou um Brasil em que não houvesse analfabetos? Esse era um dos sonhos de Paulo Freire, nosso homenageado. Infelizmente, ainda existem 11 milhões de brasileiros que não sabem ler nem escrever. A maioria de analfabetos em nosso país é de idosos, a partir de 60 anos, representando 26%. Verificando-se os dados regionais, 37% deles estão na Região Nordeste e 25,50% no Norte, conforme o censo de 2010 do IBGE. Considerando que, em 1930, o Ministério da Educação e da Cultura implantou o Dia da Alfabetização, o ato de ensinar freiriano nos permite refletir nesse centenário a importância da filosofia de Paulo Freire para a Educação e a democracia. Quem nunca ouviu falar no Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização)? Ou no Mova (Movimento de Alfabetização)? E no Método Paulo Freire, que revolucionou o jeito de alfabetizar de modo eficaz e consciente? O pernambucano Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921, no Recife-PE. Ele é um dos principais mentores da Educação brasileira. Formou-se em Direito, mas sua vida foi dedicada ao magistério. A partir daí, passou a pensar em um método acessível aos brasileiros adultos que não tiveram oportunidade de se alfabetizarem. Em 1963, coordenou um programa que alfabetizou 300 pessoas em aproximadamente um mês. A partir daí, esteve à frente do Plano Nacional de Alfabetização, durante o governo de João Goulart. Com a ditadura militar, algumas de suas obras criaram polêmica, como o livro Pedagogia do oprimido, o que o obrigou ao exílio em outros países. Com a anistia, voltou para o Brasil e foi secretário municipal de Educação da cidade de São Paulo, entre 1989 e 1991. “Os negros no Brasil nascem proibidos de ser inteligentes”, denunciou. A filosofia de Paulo Freire contribuiu muito para pensar o ato de ensinar. A Educação, de tendência sociocrítica passou a ser uma exigência para a democracia brasileira. Defendia a Educação como conjunto de forças cujo alvo seria a liberdade individual e a transformação social. Privilegiava a iniciativa do educando, que acreditava experimentar um processo de aprendizado consciente. O educando construiria o conhecimento com base no contexto em que vivia, fundindo aprendizagem e experiência social, com o objetivo da liberdade. Para Freire, a importância do ato de ler começava pela leitura do mundo em que se vivia. “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”, dizia. Após uma conversa com os educandos sobre o que viviam, surgia a temática que se tornava o conteúdo do estudo do dia. Do ver, julgar e agir, surgia o Método Paulo Freire. Ensinar é um ato político. Ser professor é mediar, pesquisar, provocar, estimular a esperança em uma nova realidade social. Atualmente, é comum ouvir falar em EJA (educação de jovens e adultos), projetos criados para atender cidadãos acima de 15 anos e adultos que queiram ser alfabetizados e continuar seus estudos na educação básica. Como afirmava Freire: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar, porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é esperar”. Que a Educação brasileira brilhe como Paulo Freire sempre a sonhou, valorizando a categoria dos professores da educação básica em geral e proporcionando melhorias a esse contexto. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC e Aproffib (Associação dos Professores de Filosofia e Filósofos do Brasil), atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da Diretoria da Aproffib.

Contemplar a Cruz e socorrer os crucificados

A Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz em 14 de setembro. Até a reforma do calendário litúrgico determinada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), era celebrada em 3 de maio, com o nome de “Invenção” da Santa Cruz, recordando a “descoberta” da Vera (verdadeira) Cruz por Santa Helena, em 337. Alguns lugares de nosso País preservam a antiga data, sobretudo onde a dulcíssima fé popular se destaca. De qualquer forma, é uma oportunidade para meditarmos um pouco sobre o que representa a Cruz para nós, cristãos. Por motivações diferentes, vez ou outra, os crucifixos são deixados de lado, tanto em ambientes laicos quanto, espantosamente, nos sagrados. Esse esconder o crucificado pode ter um sentido bem mais grave, dramático até, do que apenas questões de gosto estético ou arroubos modistas. A Cruz começou a ser usada como símbolo cristão mais difuso a partir do século III. No tempo de Jesus, a pena de crucificação era a mais grave do Império Romano e causava enorme comoção. Costumava ser reservada a criminosos mais contumazes e presos políticos (como Jesus), demonstrando força e desprezo ao condenado, intimidando os mais atrevidos. Segundo antigos registros, os carrascos que executavam o sentenciado quase sempre eram os mais experientes, tal era o horror da cena. Os primeiros cristãos, portanto, tinham boas justificativas para terem pavor desse instrumento. Na 1ª Carta aos Coríntios (1,23), contudo, São Paulo afirma que ele e os outros evangelizadores pregavam Cristo crucificado, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos”. Ele se referia ao verdadeiro Messias, não ao “general” esperado pelo povo, mas, conforme o próprio Cristo, aquele que “devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias” (Marcos 8,31). Em tempos de pregações sobre busca de “prosperidade”, sucesso, “vitória”, as palavras de Paulo e do próprio Cristo devem ser bem incômodas para algumas “seitas” dentro e fora do catolicismo. Tirar o Crucificado diante dos olhos pode nos levar a uma religião alienada ou ingênua. Ouso aconselhar que todo batizado passe algum tempo contemplando a Cruz. É impressionante e até constrangedor ver que nosso Deus, nosso Mestre, nosso Pastor não aparece numa ilha tropical, num iate, num camarote ou desfilando sobre um elegante e badalado tapete vermelho. Em nosso batismo, fomos enxertados primeiramente nesse Cristo que passou pela experiência da humilhação, da dor, para, depois, ser ressuscitado pelo Pai. Mirar com atenção a Cruz é um gesto piíssimo, mas exigente. O corpo nu, sujo e ensanguentado do Senhor é o sacramento dos muitos crucificados, alguns bem perto de nós. Essa contemplação precisa abrir nossos olhos e nosso espírito aos pobres, aos enfermos, aos fracos, aos desempregados, às mulheres agredidas, às crianças, aos sem acesso à escola, segurança e saúde, aos “lascados” de nossa sociedade. Ignorar a Cruz, substituindo-a por uma imagem de Jesus que parece sair do banho, pode levar a Igreja a distrair-se da missão e jogar para debaixo do tapete os sofredores, os crucificados de nosso tempo. Celebra-se uma barulhenta ressurreição que não passa pelo Calvário. Uma comunidade que verdadeiramente se configura a Jesus pode apropriar-se das palavras de Paulo: “Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,19b-20a). Que bom seria se todos nós pudéssemos pelo menos tentar fazer o Cristo (que passou pela Cruz, reforço), viver em nós. Um fiel, uma família, uma Igreja que tem diante de si a Cruz pode louvar, com toda a dignidade, a Jesus, de cujo peito aberto jorrou a água que nos batiza e o sangue que nos embriaga de alegria e vida. Sem a Cruz, nosso olhar de fé é embaçado. Outra lição da Cruz é a do sacrifício. Quanta gente quer obter o sucesso sem passar pelo esforço, quer ir logo para o Domingo da Ressurreição, ignorando a Sexta-Feira Santa! Daí surgem a corrupção, os golpes, os roubos, o abuso contra o outro. A tão esperada e cantada “vitória que Deus guardou para mim” pede empenho. Horas de estudo e de trabalho, superação de obstáculos, tentativas mil, recuos e avanços, investimento, paciência e muita oração. Que o Senhor Crucificado seja de novo exposto em nossos lares, em nossos locais de trabalho e em nossas igrejas. Ao contemplar nosso silencioso Mestre, o Salvador ferido, de cabeça inclinada e de olhos fechados, talvez entenderemos a lição do Santo Madeiro. Poderemos, assim, exaltar a Verdadeira Cruz ao longo de todo o ano e obedecer às palavras de Jesus: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Marcos 8,34b). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.

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