Missão, um testemunho de encontro

No espaço escolar e de missão, deve-se considerar o valor do testemunho. A Semana Sem Fronteiras 2021 exigiu de cada educador, de cada educadora, estudante e famílias a capacidade de redescobrir o valor do testemunho. Muitas foram as histórias e vivências, indicando que a condição de estar nas fronteiras independe do local geográfico. Tempos novos exigem novas posturas, sem perder de vista a beleza do caminho missionário: encontrar, escutar e celebrar. Encontrar, entre os estudantes da educação infantil ao ensino médio, a ternura e o vigor da vida e dos saberes; escutar a realidade cultural de cada território e discernir o melhor modo de agir nas fronteiras existenciais e geográficas; e celebrar a diversidade que nos enriquece. Descobrimos que os protagonistas da missão são todos aqueles, aquelas que se deixam tocar pela força do Espírito Santo que sopra onde quer. Percebemos que a força da palavra é fundamental tanto nas fronteiras geográficas como nas virtuais. Muitas foram as imagens, experiências, testemunhos, ações e sonhos partilhados. Dessa forma, alegres e fortalecidos, os que estão nos espaços educativos e de missão, nas fronteiras e em tantos outros espaços afirmamos: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Atos dos Apóstolos 4,20). No link a seguir, acesse o álbum e confira um pouco do muito que cada escola realizou: Lucas Fortunato CarneiroProfessor de Ensino Religioso,Colégio Sagrado Coração de Jesus,Belo Horizonte-MG.
Atrás da cruz, a luz!

Nasci em 2 de novembro de 1954. Imaginem como era comemorado, há algumas décadas, o Dia de Finados… Dia de silêncio, de cores escuras e muita tristeza… Muitas famílias nem ligavam o rádio, quase não sorriam… Em minha infância, não tive festa de aniversário devido às dificuldades e também ao dia em que nasci. Aos 7 anos, minha mãe comprou um bolo de padaria, daqueles bem simples, com um furo no meio, sem confeitos, só para lembrar meu aniversário. Foram convidadas algumas vizinhas para o momento. Acreditem: ninguém apareceu! Mas por quê? Era Dia de Finados! Dia dos Mortos! Como nossos falecidos eram lembrados com muita tristeza, com muita saudade, não era momento de manifestar alegria. Assim era há mais de meio século. No meio em que vivi, sentiam como se os mortos estavam em “um sono profundo”. Quantas vezes ouvimos dizer: “Ah, finalmente, descansou”. Esse não é o cenário nem a realidade para a qual Jesus nos criou. “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Apocalipse 21,4). A morte é um momento de tristeza, de lamento. É um momento muito duro em nossa trajetória, mas Cristo nos deu uma mensagem de esperança: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo’” (Mateus 25,34). A vida é transformada pelo amor misericordioso de Deus. Vejam com atenção as palavras do Pe. Anísio Tavares, missionário redentorista: A celebração leva a compreender o amor de Deus por todos. São filhos e filhas amados, criados segundo a sua imagem e semelhança. Foi por amor e para o amor que Ele deu o dom da vida. Viver bem e em plenitude é o desejo que o Criador tem para todos e cada um de nós. Continuemos a refletir… O momento de viver o luto de um ente querido nos faz perceber que o amor de Deus é ainda maior do que imaginamos. Vida e morte são dois grandes mistérios que ultrapassam nossa compreensão. O nascimento e o falecimento nos levam a fazer as três perguntas: de onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? “Nossa origem e nosso destino é o coração de Deus. Nele, temos a plenitude da vida”, explica Pe. Anísio Tavares. Estes temas: Cruz, sofrimento, saudades, tristeza e vida me fizeram ler mais, pesquisar, conversar, buscar, partilhar para perceber a verdadeira luz que descobriremos nos momentos de viver nossas cruzes. Olhem o que o Catecismo da Igreja Católica (cân. 1680) declara: Todos os sacramentos, principalmente os da iniciação cristã, tem por fim a última páscoa do cristão, que, pela morte, o faz entrar na vida do Reino. Então se cumpre o que ele confessa na fé e na esperança: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”. “O mundo que há de vir…” Vamos continuar em nossa reflexão… Seguindo a leitura do Catecismo, encontramos, no cânone 1681: O sentido cristão da morte é revelado à luz do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, em quem pomos a nossa única esperança. O cristão que morre em Cristo Jesus “abandona este corpo para ir morar junto do Senhor” (2 Coríntios 5,8). “Saudade sim, tristeza não.” Essa frase de Santo Agostinho nos ensina que o tempo que nos separa da presença de nossos entes queridos traz a saudade que é natural. Padre Marcelo Rossi repete sempre essa passagem, lembrando a todo cristão essa verdade. Desde o início da Igreja, já havia o costume de celebrar e rezar pelos mortos, pedindo a misericórdia de Deus para os que partiram. Por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo “nos abriu” o céu. A vida dos bem-aventurados consiste na posse em plenitude dos frutos da redenção operada por Cristo, que associou à sua glorificação celeste os que creram nele e que ficaram fiéis à sua vontade. O céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados a Ele (Catecismo da Igreja Católica, cân. 1026). Somente a fé verdadeira é capaz de dar um novo significado a toda a nossa vida. Como diz o texto do Evangelho de João (6,35): “Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede”. São promessas de Jesus como em João (6,47): “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna”. Por isso tudo, que nossa vida se encha de esperança e sempre rezemos por nossos irmãos que partiram desta vida. Para o cristão, a morte é o início de uma nova etapa. Embora a tristeza nos domine quando perdemos um ente querido, a esperança nos consola, pois, como rezamos na liturgia, “Para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada; e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”. A fé na ressurreição encoraja nosso viver e nos impulsiona à prática do bem, deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo. Na Profissão de Fé rezamos: creio na ressurreição, creio na vida eterna. Que essa fé nos impulsione na caminhada até Deus, seguindo os ensinamentos de Jesus Cristo. Assim construiremos uma vida feliz que se realizará, de forma plena e perfeita, após a morte, quando seremos envolvidos pelo abraço amoroso de nosso Pai. Todos morreremos, mas somos chamados à ressurreição por Cristo. Por isso, o Dia de Finados é um convite a celebrarmos a vida e a esperança! Maria Fernanda P. AzevedoMissionária leiga de Deus Uno e Trino, Rio de Janeiro.
31º Domingo do Tempo Comum

Amarás o Senhor teu Deus. Amarás o teu próximo.Marcos 12,28b-34 Depois de uma caminhada marcada por muitas lições, altos e baixos quanto ao seguimento por parte dos discípulos, mudanças de estratégias, Jesus chega a Jerusalém. Nesse lugar, Ele seria julgado e vitimado pelos poderes políticos e religiosos e, em termos mais messiânicos, no trono da Cruz, assumiria seu reinado. Neste 31º Domingo do Tempo Comum, vemos, no diálogo do Senhor com o Mestre da Lei, mais uma grande catequese que Marcos dirige a suas comunidades e a nós, neste terceiro milênio. O evangelista apresenta um diálogo entre dois mestres. De um lado, um representante da religião oficial; de outro, Aquele que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento (cf. Mateus 5,17). Diferentemente de outras passagens, nesta não há uma controvérsia entre Jesus e o especialista da Lei. Marcos narra um diálogo honesto e desarmado de ambas as partes. Quando a busca da verdade é feita na intenção de evoluir e não por vaidade, todos saem ganhando. Naquele tempo, existiam 613 mandamentos segundo a tradição dos mestres de Israel. Deles, 365 diziam o que não se deveria fazer, e os outros 248 determinavam o que deveria ser feito (cá entre nós: na Igreja de hoje, temos muito mais normas, por isso é bom refletirmos primeiro antes de criticar o antigo costume judeu). Entre esses mestres, havia divergências em relação a qual dessas prescrições seria mais importante. Para um grupo, guardar o sábado era a principal, pois o próprio Criador cumprira esse preceito. Já outra linha defendia não haver uma hierarquia, pois mandamento era mandamento, e pronto! Jesus, como um bom judeu, conhecia o principal, pelo menos no que se refere ao costume diário de recordar, em oração, a sentença presente em Deuteronômio (6,4-5): “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Até então, nada de novidade. A inovação foi o elo que Jesus, usando o verbo “amar”, deu ao preceito de amar também ao outro e a si próprio: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, baseando-se em Levítico (19,18). Colocar Deus, o próximo e si próprio em “seus devidos lugares” só pode ser feito sob a chave do amor. Algo a merecer atenção quanto ao “amar a si próprio” é que, naquele tempo, não havia o conceito psicológico de autoestima, como modernamente conhecido. Por isso fica superficial, pelo menos com base na passagem de hoje, alguma meditação mais aprofundada nesse sentido. Boa parte da resposta do mestre da Lei foi uma repetição das palavras de Jesus, um estilo bem próximo ao do evangelista Lucas. Mas há de se notar que a réplica do escriba foi respeitosa. O homem ainda acrescentou outra parte, recordando que o verdadeiro culto ao Senhor seria baseado no amor. Amar a Deus, ao próximo e a si “é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (vers. 33). Esse trecho é inspirado na profecia de Oseias (6,6): “Porque é amor que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. O elogio de Jesus ao mestre da Lei, dizendo que este não estaria longe do Reino de Deus, pode trazer importantes informações catequéticas, bem ao estilo de Marcos. A imagem é curiosa, dando a impressão de esse reino ser um lugar, ideia talvez mais fluida nas comunidades assistidas por esse evangelista. Estar perto do Reino não significava que aquele homem já o havia alcançado. Ele dera passos importantes, mas ainda não chegara “lá”. O evangelista estava abrindo uma concessão, pois, nas passagens seguintes, expôs severas críticas ao modo como os chefes da religião exploravam o povo: “Tomai cuidado com os doutores da Lei!” (Marcos 12,38 – um dos temas do Evangelho do próximo domingo), resume o tom das denúncias em sequência. Quem sabe não haveria membros da comunidade marcana (tal como nas de hoje) que estavam apenas “próximos” do Reino? O amor, portanto, é a coluna do ensinamento do Senhor neste domingo. Que, por nosso amor aos irmãos e a nós mesmos, testemunhemos, sobretudo com nossos gestos e na simplicidade do cotidiano, o amor a Deus. Com a graça divina, possamos antecipar a justiça do Reino e alcançá-lo um dia. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Enquanto a chuva cai…

Por minha janela, vejo a chuva mansa que está caindo lá fora. Hoje ela desce sem muito barulho, prometendo que vai passar umas horas assim. Sem me dar conta, encantou-me e me fez pensar sobre ela. Imagino-a como um sinal de bênção porque traz consigo a garantia para a terra de que sua fertilidade não ficará infértil. Mesmo sendo terra boa, sem a chuva, não seria capaz de produzir. A água da chuva e a chuva de águas irrigam o solo e despertam nele a força de germinar as sementes. Ela penetra em suas artérias, garantindo a vida das plantas, abastecendo as vertentes, os córregos, os rios, os lagos. A água da chuva corre para o mar e se retroalimenta. Nas fontes de águas cristalinas, os animais, os pássaros saciam sua sede… A água nos riachos desliza por caminhos traçados pela própria engenharia e desemboca nalgum rio que a leva para passear por longos caminhos até chegar ao oceano. Lá a água se torna salina para se conservar, fica balançando, forma ondas, faz subir e descer as marés e dali evapora para o céu, formando novas nuvens que voltarão a chover. Um ciclo que se repete há milhões de anos. Mesmo com tanta gente, animais e plantas consumindo-a, ela continua se recriando e garantindo “as vidas” de quem na terra está. A nuvem que deságua, suas águas caem do céu e escorrem pelas ruas, entram pelos bueiros, apagam a poeira das estradas sem asfalto, lavam telhados, faz um barulhinho gostoso de se ouvir quando se está na cama para dormir. A nuvem, quando é grande, encobre o sol e deixa o dia meio cinzento. Quando ela predomina, tudo fica meio nebuloso, condicionado por ela. Faz mudar planos de idas e vindas. Mexe com as rotinas de trabalho. Por vezes, é preciso esperar que a chuva cesse. A dança da nuvem é meio misteriosa. Enquanto faz chover aqui, o sol se esconde; lá onde não chove, ele reina soberano. Quando a nuvem se atrasa e demora para vir, as pessoas olham para o céu, em sua busca, procurando sinais que indiquem que ela está chegando e, então, bendizem a Deus porque chove. Quando ela persiste por vários dias, alguns a maldizem porque atrapalha. Contudo, ela fica indiferente aos humores humanos. Ela se mantém obediente às ordens da natureza e pronto! Gostem ou não, ela tem as próprias leis. E nós dependemos dela. Sem ela, nossas caixas d’água ficariam vazias; nossos banhos, adiados; nossos alimentos, sem preparo; nossos ambientes, sem limpeza. Ah, bendita chuva! Sem ela, o mundo fica “seco”, e a vida, comprometida. Quando as nuvens estão com sobrepeso, impulsionadas por ventos fortes, tornam-se tempestades. Ao soltar suas águas, elas caem e formam torrentes que tudo arrastam, causando medo, assustando, destruindo, trazendo sérios prejuízos. Não podemos colocar qualquer condição. Ela é soberana e, para nós, necessária. Não temos como controlar sua intensidade nem suas ocorrências. Podemos saber, com antecipação, quando vai chover, se as “previsões de tempo” não falharem. De qualquer modo, não nos cabe definir nem dia, nem hora, nem quanto. Tudo isso pertence ao termômetro da natureza, que tem seus ciclos. Diante da chuva, somos passivos. Ela cai onde quer, independentemente de nossas opiniões ou decisões. A chuva se envolve nos mistérios da Criação. Suas águas apareceram quando a ordem de Deus disse: “Faça-se!”. Elas fizeram depois a arca de Noé boiar por quarenta dias; abriram-se sob a vara de Moisés, obrigadas a se afastar, criando uma brecha no mar, permitindo aos israelitas passagem a pé enxuto. Depois, na travessia do deserto, esconderam-se, forçando Moisés a bater na pedra para dela sair água para saciar a sede do povo. Nas águas, vivem mergulhados os peixes e animais marinhos, e, lá em seus abismos, moram os mistérios. Elas suportam, com galhardia, os navios cheios de contêineres e, no alto-mar, escondem os horizontes, deixando sem “terra à vista”! O próprio Jesus pediu água do poço de Jacó e, depois, revelou à Samaritana que tinha uma, que quem dela bebesse não teria mais sede. De seu peito aberto por uma lança, brotou água que escorreu por seu corpo. Assim, o mistério da água fica sempre maior. Voltando às (ou das) nuvens, sabemos que elas se formam pela evaporação dos mares, dos rios, das florestas. As águas sobem e descem. Esparramam-se por todos os recantos do planeta Terra. Hoje caem aqui, correm para os rios sem que consigamos acompanhá-las para saber onde elas vão parar. Seguem seu curso, fundem-se em outras águas. Aquela que hoje desceu do céu, aqui, não sei amanhã onde estará. Vou agradecendo a Deus pelos encantos da chuva. Elas saíram assim de suas mãos. A Bíblia a compara com a Palavra de Deus que diz: ela não volta para o céu sem antes ter produzido seu efeito na terra. Se for ela de novo que vai chover amanhã, não sei; sua história e trajetória, não as conheço, mas ela continua me encantando, enquanto ainda a vejo chovendo, pela minha janela. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Como se anuncia Cristo onde ninguém o conhece

Para São José Freinademetz, primeiro missionário da Congregação do Verbo Divino na China, “a linguagem do amor é a única língua que todos os povos compreendem”. Essa é a fala de um homem simples, sacerdote diocesano da região do Tirol, então pertencente à Áustria, hoje na Itália. Ao ouvir o chamado de Deus para ser missionário, saiu de sua terra e se juntou ao padre Arnaldo Janssen, que havia acabado de fundar uma casa missionária dedicada a São Miguel, em Steyl, Holanda. O objetivo era preparar missionários e enviá-los à China. Após um tempo de formação, o padre Freinademetz fez as promessas, deixou sua terra natal, pais e irmãos, e partiu para a China, uma cultura totalmente desconhecida por ele. Não falava a língua, não conhecia os costumes das pessoas. Ele saiu de um mundo, de cultura cristã, e se viu em uma sociedade não cristã, em um espaço onde havia muitas outras antigas tradições religiosas. Foi naquele contexto que Freinademetz percebeu sua limitação humana e a manifestação da graça de Deus em sua vida. Ele se deu conta de que, para ser missionário naquele país, era necessário fazer-se pequeno, humildade. Primeiramente teve de se esforçar para aprender o idioma, mas, ao mesmo tempo, ele, como estrangeiro, totalmente diferente dos nativos, tanto culturalmente como fisicamente, e sendo observado por todos, não podia deixar de se comunicar com as pessoas que lhe rodeavam. Mas como? Ele não falava chinês. É aí que ele se lembrou de São Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios, capítulo 13, onde se lê que o amor cristão, ou seja, o amor ágape, está acima de tudo. Ele praticou esses ensinamentos bíblicos em sua vida cotidiana, junto aos chineses, não por palavras, mas sim pelo testemunho de sua própria vida. Foi por meio do sorriso, da acolhida, da preocupação com os pobres, os doentes e da paciência. Sabia que a obra missionária era de Deus e que ele era um simples operário da messe, como bem escreveu: “O êxito da missão é fruto da graça, tornado possível pela entrega incondicional e dedicação generosa do missionário”. Foi com a convicção na ação de Deus em sua presença missionária entre o povo chinês que ele foi conquistando, pouco a pouco, o povo daquele país. Isso durou anos. São José Freinademetz é, para nós, um exemplo de como um missionário deve se portar num lugar onde se faz necessária a primeira evangelização. Apesar de ele ter vivido a missão no século XIX, seu testemunho é sempre atual: o cuidado com os mais necessitados, a sensibilidade para perceber as demandas do outro, a aproximação com o povo, seu testemunho de fé mediante uma vida de oração como ele mesmo expressa: “Enquanto o permitirem minhas forças e meu limitado entendimento, todos vocês encontrarão em mim uma ajuda sempre pronta e um acolhimento cordial”. Semear Ontem e hoje, além do testemunho, o missionário é chamado a anunciar a pessoa de Jesus Cristo. Assim se expressou Freinademetz: “Ao missionário compete dar testemunho de Jesus Cristo e semear a boa semente do Evangelho, deixando ao Senhor o cuidado de que essa semente dê fruto a seu tempo”. Também o Documento de Aparecida (29) chama atenção sobre a importância do anúncio: “Deus amou tanto nosso mundo que nos deu seu Filho. Ele anuncia a boa-nova do Reino aos pobres e aos pecadores. Por isso, nós, como discípulos e missionários de Jesus, queremos e devemos proclamar o Evangelho, que é o próprio Cristo. Anunciamos a nossos povos que Deus nos ama, que sua existência não é uma ameaça para o homem, que Ele está perto com o poder salvador e libertador de seu Reino, que Ele nos acompanha na tribulação, que alenta incessantemente nossa esperança em meio a todas as provas. Os cristãos são portadores de boas-novas para a humanidade, não profetas de desventuras”. Em sua mensagem para o Mês da Missão de 2021, o Papa Francisco nos recorda que Jesus Cristo é missão, por isso o missionário, a missionária têm o dever de comunicar o conhecimento da Palavra que recebeu gratuitamente, como nos lembra no lema do Mês Missionário: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Atos dos Apóstolos 4,20). O seguimento de Jesus exige do missionário o discernimento da realidade em que ele se encontra. Aí se faz necessária a vivência do Evangelho, que se expressa nos gestos e palavras que unem a todos na fraternidade. A união somente é possível quando Jesus é o centro, pois Ele nos comunica o amor do Pai, como nos recorda o Papa Francisco: “Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos”. São José Freinademetz, na missão de proclamar o Reino de Deus que é amor, compaixão, perdão e misericórdia, fez-se chinês com os chineses, sem deixar de ser tirolês. A partir de dentro, da proximidade com os chineses, proclamou com alegria o amor de Deus que “foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5,5), amou aquele povo, sentiu-se um chinês entre os chineses e percebeu que a pátria do missionário é o mundo: “Se um missionário já não tem pátria neste mundo, é porque todo o mundo se tornou sua pátria”. Seu testemunho e seu amor ao povo chinês foram tão grandes que, no fim da vida, disse: “Os chineses são tudo para mim. Quero ser sepultado no meio deles… e continuar a ser chinês no Céu”. Padre Djalma Antônio da Silva, SVDMissionário do Verbo Divino na Província Brasil Norte (BRN), doutor e mestre em Ciências Sociais. Diretor do CCM (Centro Cultural Missionário), órgão vinculado à CNBB, em Brasília-DF.
30º Domingo do Tempo Comum

“E seguia Jesus pelo caminho”Marcos 10,46-52 Estamos no fim da caminhada de Jesus, de Cesareia de Felipe até sua morte e ressurreição, em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre de Jesus que ele relata: a cura do cego Bartimeu. O texto começa com um senso de urgência: chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que Jesus tem pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho. Enquanto Jesus está “a caminho” com os discípulos, o cego está à beira do caminho, sentado. Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado e estão parados, à beira do caminho do seguimento de Jesus. Esse texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”. É de novo um dos temas centrais da Bíblia: o grito do pobre e sofrido. Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas a reação dos transeuntes é típica: mandam que Bartimeu se cale. O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído. Isso não mudou até os dias de hoje. É só verificar o pouco-caso que nossa sociedade faz diante da opressão e massacre dos povos indígenas, diante de sofrimento dos excluídos e marginalizados pela sociedade de consumo. Até nas Igrejas, existe quem não queira ouvir o grito e faz de tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas Deus o ouve! Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm de convidá-lo a falar com Jesus. Porém, para isso, Bartimeu tem de lançar fora o manto (a única coisa que ele possuía, a sua única segurança). É sua roupa, seu cobertor à noite, o que ele usa para recolher as esmolas. Ele o joga fora, embora seja cego, e não tem certeza de que vai ser curado. Como os primeiros discípulos no lago (Marcos 1,18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus. É bom notar que Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “O que queres que eu te faça?” (vers. 51). Pois Jesus não obriga ninguém a se libertar; há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, no seu comodismo, quem não opte pela libertação. Mas Bartimeu quer ver de novo. Diferente do cego de João, capítulo 9 (cego de nascença), ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé e que precisava do toque de Jesus para que voltasse a ver claramente. Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir sua vida. Mas ele faz outra opção: “No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (vers. 52). Ele usava para Jesus um título não muito adequado “filho de Davi”, pois em Marcos 12,35-37, Jesus fez muitas restrições a esse título messiânico, mas ele tem a prática certa: segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo, “Tu és o Messias” (Marcos 8,29), mas a prática errada. Não quis que Jesus caminhasse para a doação total de sua vida, na Cruz. Aqui, o modelo de discípulo não é Pedro, mas Bartimeu. Pois, mais importante do que os títulos e expressões teológicas, sem negar sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus. Um alerta a todos nós, para que nossa prática seja coerente com nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus e seus valores! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
O sangue dos mártires, os pobres da rua, as crianças carentes…

No mês de outubro celebramos o mártir São Calisto I, Papa que cuidava das catacumbas dos mártires, na Via Ápia, em Roma. Em seu dia (14), o Evangelho (Lucas 11,47-54) nos fala do sangue dos mártires. Como comunidade verbita de Teologia, temos Dom Paulo Evaristo Arns como patrono e o estamos recordando no dia 14 de cada mês, por ocasião de seu centenário de vida. A figura dele representa alguém que lutou incansavelmente pelos mártires injustiçados da vida cotidiana. O sangue é, para os judeus, o lugar onde reside a vida, essa vida que, ao ser derramada na terra, clama a Deus, como ocorreu com o sangue de Abel. De fato, desde que houve esse primeiro homicídio injusto, que simboliza milhões de mortes em nome da cobiça, da ganância, da exploração e do poder, não deixam de acontecer, em nosso mundo, mortes e mais mortes. O sangue dos inocentes continua clamando do ventre da terra, onde foi derramado. Jesus diz aos fariseus e mestres da Lei: seus pais derramaram sangue, tiraram a vida dos profetas, até no lugar mais sagrado para um judeu: entre o altar e o santuário. E tudo em nome do poder, da cobiça, da ganância e da exploração. E Jesus menciona o profeta Zacarias, o último da tradição profética do povo. Em outra passagem, Ele fala de João Batista, assim como a Carta aos Romanos (3,24-25) nos fala do sangue de Jesus Cristo que nos salva. Embora eu sempre diga que a história nunca se repete, às vezes, tenho a impressão de que continua a repetir-se hoje: muitos dos que sustentam esse sistema econômico de morte estão derramando o sangue e a vida de profetas que gritam com seus testemunhos, com suas palavras, mas também daqueles que vivem o dia a dia no silêncio. “Ai de vós” que matais os homens e mulheres aos poucos, sem lhes tirar a vida de maneira imediata, mas em parcelas e com juros… Como disse o Papa Francisco: “Estamos vivendo uma guerra mundial em pedaços, aos poucos”, e o sangue do povo continua sendo derramado. Para concluir esta reflexão, eu gostaria de partilhar dois testemunhos que resgato de minha experiência na Pastoral de Rua, no projeto “Alimentar Direitos”, que distribui diariamente mil marmitas à população em situação de rua, na Quadra dos Bancários, à Rua Tabatinguera, 192, Centro de São Paulo. O primeiro deles não aconteceu comigo, mas o ouvi de alguém que trabalha conosco na Associação Rede Rua. Ela disse que, depois de uma visita à Prefeitura de São Paulo, feita por alguns membros da equipe de trabalho e alguns dos nossos conviventes, eles voltaram para almoçar no lugar de atendimento, na Quadra dos Bancários. Ali, todos se sentaram ao redor da mesa para almoçar, enquanto um dos conviventes falava emocionado: “Estou agradecido, porque faz cinco anos que eu não me sentava à mesa para comer com alguém”. Um gesto que, para nós, é tão corriqueiro, cotidiano, esvaziado de sentido, para outros, torna-se um grande sinal de humanidade. O segundo testemunho é de um fato ocorrido na comemoração do Dia das Crianças, na ocupação Nova Jerusalém, perto da represa de Guarapiranga. Um menino, depois de uma linda manhã de atividades, brincadeiras, sorrisos e presentes, disse a mim e a uma voluntária: “Vocês são muito bacanas! Quero ir junto com vocês”. Ele sabia que, apesar de tudo, estava vivendo uma vida com muitas carências… Já como criança, vivia uma vida doída, dilacerada, injustiçada, quase que derramada na terra. Enquanto tivermos líderes e autoridades que não vejam isso, que não tenham um olhar que enxergue a vida, que não sejam humanizadores, seguiremos matando os profetas, seguiremos martirizando nosso povo. Que São Calisto, todos os mártires e Dom Paulo Evaristo Arns intercedam por nós, para que sejamos profetas da justiça, dispostos a derramar até nosso sangue se for necessário. Juan Contreras Tapia, SVDNatural do Chile, é seminarista da Congregação do Verbo Divino. Iniciou seus estudos no Chile, fez seu noviciado em Juquiá-SP. Atualmente está cursando o segundo ano de Teologia no ITESP (Instituto Teológico São Paulo). Desde o início de 2021, realiza trabalhos na Pastoral da Rua, no projeto Rede Rua.
O amor próprio começa pelo autocuidado

Criada na década nos anos 90, a campanha Outubro Rosa tem como objetivo conscientizar as mulheres sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. O tumor maligno é o que mais acomete as mulheres e estima- se que mais de 66 mil novos casos sejam registrados no Brasil, em 2021. O câncer de mama, também, é o que mais mata no sexo feminino, atingindo cerca de 15 mil óbitos, por ano, no país. Além do autoexame, existem outros hábitos simples que as mulheres podem adotar para se manterem felizes e saudáveis. O médico Dr. Fernando Luiz Motter, Cancerologista Clínico, especialista em Oncologia Clínica, destaca a alimentação saudável, prática de atividades físicas, não fumar, não consumir álcool em excesso e não manter relações sexuais sem proteção são algumas delas. Além disso, é preciso consultar um médico periodicamente e fazer exames rotineiros. As mulheres, classicamente, são mais envolvidas com o autocuidado e com a promoção de sua saúde do que os homens. Procuram, mais rotineiramente, os recursos médicos e estão sempre à frente do sexo masculino quando se fala de prevenção e exames precoces. Que tal aproveitar o Outubro Rosa para desenvolver essa relação de amor com você mesma/o? SSpS – O câncer de mama é uma das principais doenças que afetam as mulheres, como você vê a importância de campanhas como Outubro Rosa? Dr. Fernando – Além de lembrarem, frequentemente, em todo mês de outubro, que as mulheres precisam fazer seus exames, em especial a mamografia, a iniciativa também traz muitas informações e ensinamentos. Estudos realizados no Canadá, Suécia e Espanha mostram que campanhas sistemáticas para realização de exames de rastreamento, como o Outubro Rosa, podem ter um impacto de até 30% na redução da mortalidade por câncer de mama. SSpS – Que outros tipos de câncer costumam afetar principalmente o público feminino? Dr. Fernando – Se excluirmos os tumores malignos de pele (aqueles mais simples, “não-melanoma”), as maiores incidências de câncer são o de mama (24,2%), de intestino (9,5%), de pulmão (8,4%) e de colo do útero (6,6%). O que chama a atenção é que todas essas doenças são facilmente preveníveis ou detectadas, precocemente, através de exames periódicos. SSpS – Muito se fala em prevenção, mas na prática qual o impacto de diagnosticar uma doença ainda nas fases iniciais? Dr. Fernando – Todas as doenças, especialmente de âmbito oncológico, têm mais fácil manejo e melhor prognóstico quando diagnosticadas precocemente. Um tumor pequeno é muito fácil de ser extirpado ou tratado, porque ainda não se enraizou e não se espalhou, através da corrente sanguínea e/ou linfática, para outros órgãos. Um câncer diagnosticado no início pode poupar cirurgias maiores, quimioterapia, radioterapia e diminuiu a mortalidade da doença. O diagnóstico precoce muda tudo! SSpS – As mulheres estão mais sujeitas a doenças crônicas, como diabetes e hipertensão? Dr. Fernando – Essas doenças acometem principalmente pessoas acima de 65 anos de idade com ligeira prevalência entre as mulheres. Alimentação balanceada, prática de atividades físicas e estilo de vida saudável ajudam diminuir a incidência e a morbidade de tais doenças. Lembro aqui que as doenças cardiovasculares, causadas principalmente pelo diabete e hipertensão são ainda a principal causa de morte global. SSpS – Que hábitos as mulheres devem ter para cuidar melhor da própria saúde? Quais doenças podem ser evitadas? Dr. Fernando – É preciso adotar medidas preventivas e de diagnóstico precoce.Medidas preventivas que devem ser adotadas são a promoção de atividade física, uma dieta rica em vegetais, frutas e proteínas (preferentemente oriundas de carnes brancas), e pobre em açúcar, sal e farinha. Evitar embutidos na alimentação, alimentos sob conservantes e sempre preferir alimentos frescos (evitar embutidos). Não exagerar na ingestão de alimentos submetidos ao fogo, como defumados e carne assada. Além disso, as mulheres devem evitar a atividade sexual desprotegida e o cigarro. Evitar recintos fechados, com fumaça; manter ar circulante Por último, evitar o sol nos horários de maior pico e utilizar protetor solar, renovando-o 3 x ao dia! Por fim, evitar o Sol nos horários de maior pico e utilizar protetor solar nas áreas foto expostas, renovando-o 3 x ao dia! Entre as medidas de diagnóstico precoce, destaco o ir ao ginecologista, anualmente, para averiguar resultados de mamografias e Papanicolau. As mamografias devem ser realizadas, anualmente, após os 45 anos e o exame Papanicolau, também anualmente, assim que a mulher iniciar atividade sexual. Após os 50 anos, as mulheres devem ser acompanhadas por um clínico ou gastroenterologista para fazer exames de prevenção do câncer de intestino e ficar de olho nas desordens da glândula tireoide. Por último, é importante olhar para à procura de manchas novas, que estejam crescendo, adotando um formato irregular ou ainda mudando de cor, pois esse pode ser um sinal de câncer de pele. SSpS – E ao contrário, que hábitos as mulheres devem abandonar se quiserem cuidar melhor da própria saúde? Dr. Fernando – Há alguns hábitos femininos que podem fazer mal, em maior ou menor grau. Dormir com a maquiagem não deixa a pele respirar à noite, o que pode causar acne e envelhecimento precoce da pele. Pintar o cabelo com tinturas que contenham excesso de amônia e/ou de chumbo, ou ainda utilizar compostos contendo formol ou outros químicos para preparo capilar, alisamento, etc, podem causar intoxicações Usar saltos altos, excessivamente altos, podem ocasionar erros posturais e doenças na coluna vertebral; retirar a cutícula em excesso pode deixar as unhas desprotegidas para entrada de patógenos. SSpS – As mulheres também estão entre as principais vítimas de transtornos alimentares, obesidade, anorexia e bulimia. Como isso pode ser evitado? Dr. Fernando – Obesidade, anorexia e bulimia são transtornos mais comumente incidentes no sexo feminino. Transtornos alimentares, muitas vezes, têm origem no núcleo familiar e devem ser prevenidos principalmente na infância e adolescência. O foco não deve ser o peso, mas hábitos saudáveis e práticas de esportes. Sugiro refeições familiares mais frequentes, pois elas melhoram a qualidade da ingestão alimentar e fortalecem as relações e vínculos. Desencoraje dietas sem acompanhamento médico, pular refeições, fazer
29º Domingo do Tempo Comum

“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.”Marcos 10,35-45 No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje se situa quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a missão do Mestre. Pela terceira vez, Ele tem dado a seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus, mas que não surte efeito. Os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo dele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus, numa tentativa de impor a própria agenda. Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse em sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido (Mateus 10,20). A queixa de Deus no Antigo Testamento, de que seu povo era um povo de “cabeça dura”, atualiza-se nos Doze. Não devemos pensar que eram somente os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (vers. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder. O vírus de dominação é mais do que contagioso. Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade de seus discípulos: “Entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (vers. 43 e 44). E deixa bem claro o motivo: não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida como resgate para muitos” (vers. 45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática que ele. O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, nos últimos anos, de modo mais acentuado, uma busca de status e do poder dentro do seio das igrejas, talvez especialmente entre o clero mais jovem. O Papa Francisco não cansa de combater essa tendência. Mas ninguém pode se achar imune diante dessa tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstre que “entre vocês não deve ser assim”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
A importância do professor em nossa formação

Tenho uma memória afetiva enorme com meus professores. Estudei a vida toda na mesma escola, e muitos me acompanharam desde a infância até a maioridade. Com alguns, eu tenho amizade nas redes sociais até hoje. Eles acompanham meu dia a dia como mãe de duas crianças em idade escolar: Lorenzo, de 8 anos, e Manuela, de 3. Eles estão sempre curtindo, comentando e relembrando a bagunça que eu fazia em sala de aula (que meus filhos não me ouçam, mas eu era da “turma do fundão” [risos]). Mesmo eu falando durante a aula e não entregando as tarefas em dia, eles têm ótimas memórias sobre mim e dizem que veem em meus filhos muito de quem eu era quando criança. E eu digo que queria que meus filhos tivessem a oportunidade de estudar com eles, porque muito do que sou hoje devo a todos os professores que tive ao longo da vida. Um ano e nove meses após o início da pandemia, ainda me pergunto como consegui manter meus filhos em casa por tanto tempo, isolados dos amigos e professores que fazem parte do cotidiano deles, com quem conviviam a maior parte do tempo. Foram 24 horas por dia comigo! Não conseguiria imaginar minha infância diferente do que foi, com tanto tempo longe assim. Recordo que 30 dias de férias já era demais, queria voltar logo para a escola e não conseguia dormir um dia antes do retorno, de tanta ansiedade para reencontrar todo mundo. Eu me pergunto também como as professoras e os professores conseguiram fazer o mesmo com seus filhos, enquanto se reinventavam entre vídeos, edições, lives, aulas remotas e com todas as dificuldades individuais de diversas crianças ao mesmo tempo. Ao longo da pandemia, diante dos maiores desafios como aulas remotas do mais velho e o desfralde da mais nova, ouvindo “MÃE” o tempo todo e sem poder contar com uma rede de apoio, depois de milhares de tentativas de atividades como desenhos, pinturas, colagens, massinhas (até BORDADO ensinei para o mais velho), e a bagunça pela casa toda, algumas frases eram inevitáveis nos momentos de esgotamento emocional: “Eu não fiz Pedagogia!”, “Sou fotógrafa, não professora!”, “Como as professoras conseguem?”, entre outras… Tive a oportunidade de fazer um vídeo na escola de meus filhos quando ela estava para reabrir parcialmente, durante a pandemia. Era um vídeo mostrando todos os protocolos e adaptações que a escola fez para poder reabrir. O sentimento de angústia em ver o espaço vazio, sem a alegria das crianças, o barulho, as risadas e aquela correria toda foi realmente triste. Durante as gravações, captamos o depoimento de uma das diretoras, que se emocionou e começou a chorar, dizendo que as crianças faziam muita falta e que não aguentava mais ver a escola vazia, porque elas levavam vida para aquele lugar. Chorei junto, porque sabia o quanto os meus estavam em casa sentindo a mesma falta. A pandemia nos mostrou que ser resiliente era a única opção, e os professores, sem dúvida, merecem todo o nosso apoio e reconhecimento. Imagino o quão desafiador foi para eles estipular rotina diária dentro de casa, com os seus, regras, os “combinados”, que parece tão fácil na escola. Enquanto ainda tinham de lidar com milhares de pais dos outros alunos, seus desafios e suas cobranças (gente, o grupo dos pais no WhatsApp é um lugar desafiador para se estar nesse período [risos]). O ensino a distância foi um desafio na vida de todos, e os professores estão esgotados. Não há como não estar. Nós, como pais, temos o dever de dar apoio e acolhê-los da mesma forma que fizeram com nossos filhos. Sinto muita gratidão por meus professores e, hoje, como mãe, não poderia ser diferente pelos professores e professoras de meus filhos. Esses profissionais dedicam suas vidas, dia e noite, para trazer não apenas conhecimento, mas dividem a educação deles conosco. Que nesse Dia dos Professores, eles sintam nosso abraço e saibam que somos muito gratos por eles existirem e se dedicarem, com tanto amor, por essa profissão e por nossas crianças. Bruna GobbiFotógrafa, empreendedora no Studio Gobbi, formada em Rádio e Televisão, pós-graduada em Administração em Marketing, especialista em Marketing Digital, mãe de Lorenzo e Manuela, esposa de Gabriel e sem formação em pedagogia (risos).