Esconder-se de Deus

O Salmo 139 reflete as tentativas do salmista de esconder-se de Deus. A cada refúgio em que se metia, era encontrado! Se descia ao sheol, lá Deus o achava, se subia às nuvens, lá Deus o esperava. Quando parava para pensar, Deus se antecipava e conhecia seus pensamentos. Por todas as veredas em que procurava se esconder, essas eram conhecidas por Deus. Tentava se revestir de asas e fugir para o mar, mas também não adiantava, lá também Deus o via. Todas as suas tentativas foram em vão. Parecia brincadeira de “pega-pega”, tentando escapar, mas sem êxito. Por fim, deu-se conta de que até seus ossos, quando estavam sendo formados em segredo, eram apenas um esboço, os olhos de Deus já os tinham visto. Somente lhe restou render-se perante a presença onisciente e onipresente. Boquiaberto diante de tais mistérios, restava silenciar-se! Mergulhado em sua confusão, reconheceu sua pequenez: “Ó Deus, como são difíceis para mim os teus projetos, como é grande a soma deles. Gostaria de contá-los, mas são mais numerosos que os grãos de areia!”. Rendido diante de tão grande mistério, pediu que Deus o prescrutasse e conhecesse seu coração. “Prova-me e conheça meus pensamentos.” Eis aí uma história de relação com Deus de um fiel que põe Deus à prova, embora, de antemão, intui qual será o desfecho. O Salmo acaba sendo uma parábola. Por um lado, a percepção que nada escapa do “controle” de Deus e, diante disso, não há saída senão reconhecer sua onipresença; por outro, as tentativas de esconder-se, de ignorá-lo acabam sempre em fracasso. No Salmo, nenhuma vez Deus amedronta ou ameaça o salmista, apenas se deixa perceber em todas as situações. É uma presença que abre cada vez mais horizontes, mostra sua grandeza escondida na imensidão do universo, mas também nas coisas menores, como grão de areia. Há um espaço sem medidas, infinito, onde sua grandeza se manifesta. Diante disso, o salmista apenas pode silenciar-se. Hoje os astrônomos, cada vez mais, descobrem a infinitude do Universo. A cada nova galáxia captada pelos telescópios, mais mistérios se apresentam. Busca-se uma explicação para o Universo, mas nenhuma é conclusiva. Quando se aproxima de uma, outras mil se apresentam sem solução, e os mistérios se multiplicam. Daí é de se admirar que muita gente se declare ateia ou agnóstica. Conformando-se que tudo acaba com a morte. Para isso se contente com a possibilidade de, um dia, a ciência dar explicação para tudo o que existe. Enquanto esta não chega, basta viver como se Deus não existisse ou “escondido”, conformando-se com um sentido para a vida num horizonte pequeno, que cabe em seus raciocínios e explicações. Diga-se de passagem, não convencem o próprio coração que, ansioso, espera por algo mais. Uma ilusão enganosa para quem tenta esconder-se de Deus, não o reconhecendo nas pequenas e grandes coisas. A experiência do salmista, pressionado por tribulações, meditando, percebe que Deus o conhece melhor do que a si próprio, não adianta esconder-se. Pois a tudo Deus conhece! Nada lhe pode escapar. Compenetrado diante de tal mistério, volta-se para dentro de si mesmo e se interroga: o que é o ser humano diante de Deus? Conclui: Ele se mostra presente desde o início de sua vida, ainda em sua formação óssea. Aceita, então, que é aquilo que é, e nada mais. Não há como esconder-se de Deus! Como o salmista, somos convidados a meditar sobre nossa vida, nossas tribulações e na experiência de sua busca. Percebê-lo como participante de nossa história desde seu início, em cada momento já vivido. Constatar sua presença que nos acompanha desde nossas origens. Onde quer que estejamos, sua presença já se antecipou e nos conhece mesmo nos malabarismos que inventamos para nos esconder dele. Mais sábio parece ser, render-se, como o salmista, e dizer “Sonda-me, ó Deus, e conhece meu coração! Prova-me e conhece minhas preocupações. Vê se ando por um caminho de desgraça, e guia-me pelo caminho eterno” (leia e medite o Salmo 139). Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

1º Domingo do Advento

“A libertação de vocês está próxima”Lucas 21,25-28.34-36 Neste primeiro domingo do ano litúrgico, Lucas nos mergulha em um dos discursos escatológicos de seu Evangelho. Assim, usa imagens e símbolos que não são de nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis de serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica, não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente. O mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro, não cada imagem e símbolo, mas sua mensagem de conjunto. O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem”, o título que os Evangelhos mais usam para Jesus e que nós pouco usamos. Esse título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu, vinha alguém como um filho de homem… Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído” (Daniel 7,13s). Jesus recorda a seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C., que, embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores, sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, por meio de seu Ungido (o Filho do Homem), revelará seu poder e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora, em Jesus! Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes que sofrem as consequências do reino opressor de qualquer época é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central de nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima” (vers. 28). Esse trecho tem uma dimensão fortemente cristológica. Ele nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em seu controle todas as forças, sejam elas de guerra (vers. 9) ou do mar, símbolo de forças indomináveis na literatura judaica da época (vers. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (vers. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem. Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (vers. 34). Pois é fácil assumir as atitudes do mundo sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força” (vers. 36). O Advento é tempo oportuno para que examinemos nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos, o tempo todo, para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos nossas forças, para não cairmos na armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, por meio dos irmãos e irmãs, em nosso dia a dia. O ano litúrgico que se inicia neste domingo usa, nos domingos comuns, o Evangelho de Lucas, o Evangelho da Misericórdia por excelência. Sejamos vigilantes para que a misericórdia seja característica de nossas relações e para que não caiamos nas ciladas de atitudes de violência, vingança e dureza de coração, típicas de nossa sociedade e tão propagadas pela mídia hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Fake news e seus perigos para a democracia

Este texto propõe uma reflexão crítica sobre as fake news e os prejuízos que elas provocam para as democracias contemporâneas. Nossa hipótese segue a premissa de que a mentira não é protegida pela liberdade de expressão e deve ser sempre combatida pelo Estado e repelida pela sociedade. Contextualizando o tema Brasil, século XXI, ano 21. Vivemos em um país ainda distante de cumprir as promessas da Modernidade: liberdade, igualdade e fraternidade. Parecem jingles de sonhadores, pessoas fora da realidade. Com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, descortina-se o que se convencionou chamar Pós-Modernidade: um tempo no qual tudo é líquido e só tem valor por 24 horas. Como dizia Freud, o desejo é a falta, e sempre haverá o que cobiçar, isto é, nenhuma conquista basta por si, o ideal é sempre o que não tenho e o que me satisfaz. Nesse ambiente, as informações circulam em quantidade e velocidade jamais experimentadas, o que não significa qualidade, obviamente. A amplificação de opiniões proporcionada pelo mundo virtual trouxe consigo o problema das denominadas fake news e, com elas, as seguintes indagações: propagar mentiras é a mesma coisa que usar o direito de expressar livremente opiniões e ideias? Qual a diferença entre liberdade de expressão e fake news? Significado e alcance da liberdade de expressão Calorosos debates acerca da liberdade de expressão estão na agenda das democracias ao redor do mundo, sobretudo nos Estados Unidos e no Brasil. Há quem afirme que a liberdade de expressão não deve tão somente proteger a difusão de argumentos simpáticos e comuns a todos, mas também aqueles com os quais nós não concordamos. Nesse sentido, o remédio contra as más ideias deve ser a divulgação de boas ideias e a promoção do debate, não da censura. Do outro lado, há os que pensam de forma diversa e sustentam que as manifestações de intolerância não devem ser admitidas, porque violam princípios fundamentais de convivência social, como os da igualdade e da dignidade humana. O pensador norte-americano Ronald Dworkin1 formula duas justificações para a liberdade de expressão: uma instrumental e outra constitutiva. A primeira sustenta que a mais ampla liberdade de expressão permite a melhor escolha política, protegendo o povo contra a tirania e inibindo a corrupção. Já a constitutiva, por seu turno, apoia-se na ideia de que o Estado deve tratar seus cidadãos como agentes morais individuais e responsáveis, que devem poder ter acesso a qualquer tipo de informação ou de opinião, para, assim, tomar suas decisões. Nesse sentido, diz o autor que “o Estado insulta seus cidadãos e nega a eles a sua responsabilidade moral quando decreta que não se pode confiar neles para ouvir opiniões que possam persuadi-los a adotar convicções perigosas ou ofensivas”. Mentira não é liberdade de expressão, tá ok? O que são as chamadas fake news? Como e em que medida elas são prejudiciais à democracia? Qual é a relação entre fake news e liberdade de expressão? Como enfrentar o problema? Em síntese, o termo fake news será aqui proposto como uma notícia ou ideia parcial ou totalmente inverídica, intencionalmente circulada para enganar uma pessoa ou grupo, influenciando seu comportamento, com o propósito de obter alguma vantagem específica e indevida. Um exemplo atual e amplamente conhecido foi a campanha contra as urnas eletrônicas. Após espalhar que provaria as fraudes nas eleições de 2018, com a intenção de acumular capital político e aprovar uma emenda constitucional, o atual presidente brasileiro teve de assumir publicamente que era uma mentira, um blefe. No ponto, a informação falsa (urnas adulteradas) e a intenção de obter vantagem indevida (colocar em dúvida eventual derrota) foram nítidas. A proliferação incontrolável de fake news tem provocado impactos negativos nas relações sociais e políticas brasileiras. Informações falsas são jogadas no mundo virtual (principalmente nas redes sociais) para abalar instituições, agentes públicos e polarizar ideologias fortes, como as religiosas, por exemplo. Diferentemente do que ocorre no exercício da liberdade de expressão, as notícias falsas não agregam pessoas e ideias. Pelo contrário, separam concidadãos que dividem o mesmo projeto de país e mundo. Tal estratégia resulta ou pode resultar em seríssimas e irreversíveis implicações, basta lembrar o movimento antivacina e a propagação da informação mentirosa dos kits covid aptos a salvarem vidas. A livre circulação de mentiras não se equipara a livre circulação de ideias, já que inexiste nela o principal elemento: a boa-fé que se pressupõe no embate de opiniões fundamentadas. Verdade e democracia Se o leitor chegou até aqui e ainda tem alguma dúvida sobre o que é fake news (ou desinformação, se preferir), a percepção é natural. Trata-se de conceito em construção, como apontado no curso do texto. Por outro lado, não me parece restarem dúvidas do que elas não são, isto é, promover desinformação dolosamente para abalar instituições e biografias não é liberdade de expressão, um direito tão caro para as democracias contemporâneas. Referência[1] DWORKIN, Ronald. Freedom’s law: the moral reading of the American Constitution. Cambridge: Havard University Press, 1996. Bruno Stigert de SousaDiretor-geral da Escola Superior de Advocacia da 4° Subseção de Minas Gerais, professor adjunto da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coordenador da Clínica de Direitos Fundamentais e Transparência – UFJF, presidente da Comissão de Estágios da Faculdade de Direito – UFJF, mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Ciências Sociais e Jurídicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Onésima MarquesProfessora de Química no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG, educadora digital, líder do Grupo de Educadores Google de Juiz de Fora (GEG JF), licenciada em Química pela UFJF.

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

“Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”João 18,33b-37 Na Igreja Católica, hoje, último domingo do ano litúrgico, celebra-se a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Essa data foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra Mundial, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa: Deus é o único Absoluto. Em um mundo que não é ateu, mas idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia a revermos nossas atitudes e ações concretas, para descobrir o que é, para nós, na verdade, o valor absoluto de nossas vidas. O texto é tirado da Paixão segundo João, o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típica, João faz com que Pilatos, o representante do poder absoluto da época, o Império Romano, apresente Jesus como rei, o que Ele é na verdade, mas não da maneira que Pilatos pudesse entender. O Reino de Jesus é o oposto do reino do Império Romano: não é opressor nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do Deus da Vida. É exatamente por pregar e semear esse Reino que Jesus deve morrer (aliás, não morrer, mas ser morto, o que é diferente). Pilatos demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo sua morte. Não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram (vers. 35). É importante entender o que isso significa, pois, se Jesus foi morto, houve algum motivo e houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosolimita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. O Templo funcionava como “Banco Central”, centro de arrecadação de impostos e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe frontalmente a qualquer reino opressor, como era o de Roma. A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na construção dum reino de justiça e paz, do shalom de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. E não faltarão incentivos (monetários e outros) para que as igrejas caiam nessa cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é necessário que fiquemos sempre vigilantes para verificarmos se nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos. Para João, Jesus provoca a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm de se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar para meio-termo: todos têm de optar. Por isso, nossa festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, desafia-nos a fazermos um exame de consciência, tanto individual como eclesial e comunitário, para verificar se nosso Rei é realmente Jesus ou se, mesmo duma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

“Vidas negras importam”: a luta dos afrodescendentes no Brasil

“Depois de escalar uma grande montanha se descobre que existem muitas outras montanhas para escalar” (Nelson Mandela, 1994). O mês de novembro é o momento de fomentar, em todos os níveis da sociedade, reflexões sobre o peso da escravidão e como essa história reflete-se atualmente no seio da comunidade afrodescendente. Se, no passado, os negros recorreram à sua história como forma resistência e luta, em nossos dias, devemos resgatar a história como instrumento do enfrentamento ao racismo. Estamos diante de um governo de extrema-direita, que vem ostensivamente desmantelando a memória, programas e direitos conquistados pelo povo negro no Brasil, e de uma parcela da sociedade que insiste na manutenção de “valores racistas”. Falas e atitudes racistas vem expondo, cada dia mais, a população negra às estatísticas de violência. Podemos citar o caso do pequeno Miguel Santana da Silva, de 5 anos, que caiu do 9º andar, no Recife. O garoto era filho da empregada Mirtes, que havia deixado a criança sob os cuidados da patroa branca, enquanto a trabalhadora levava o cachorro da família para passear. Do caso da Loja Zara, com várias acusações de racismo, entre elas, a de um código para avisar a entrada de pessoas negras e pobres em suas lojas, os abusos e atos violentos contra as religiões de matriz africana, e tantas outras formas de racismo estrutural e institucional que presenciamos no dia a dia. Diante desse contexto, é imprescindível reafirmar a importância de manifestações e lutas por uma sociedade igualitária, plurirracial, que respeite as diferenças de cor, gênero, idade e raça. A Constituição de 1988 estabelece o racismo como crime inafiançável, reconhece direitos fundamentais, como à liberdade, à saúde, à justiça, à igualdade para todos, sem distinção de raça, gênero, cor, origem, idade, etc., proíbe diferenças salariais e de contratação tendo critério de gênero, idade, cor ou estado civil. Há também a lei contra o preconceito de raça ou cor (Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989); de cotas raciais, voltada para a educação superior (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012); na área da educação básica, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira (Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003). Esses direitos conquistados não foram suficientes para dissipar a desigualdade racial. A maioria da população, que, no Brasil, é de pessoas negras (isso significa 54,9%, segundo IBGE), tem os piores índices socioeconômicos. Os desafios são muitos, e ainda temos um longo e árduo caminho a percorrer. Liberdade capenga A desigualdade racial no Brasil tem seus pés fincados no regime escravocrata, e a desigualdade social tem os dois pés fincados na senzala. Mesmo depois da libertação, os ex-escravos e seus descendentes foram condenados a viver à margem da sociedade. Depois de mais de 300 anos de escravidão, a Lei Áurea (Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888) trouxe uma liberdade capenga. Não contemplava aos negros os direitos a educação, saúde, trabalho, recursos que auxiliassem a integração à sociedade e ao mercado de trabalho. Sem poder ir à escola, trabalhar decentemente, acusados de vadiagem, empurrados para viver nas periferias das grandes cidades e excluídos de toda e qualquer possibilidade de vida digna. A Lei Áurea estava longe de ser um ato de benevolência da Monarquia, mas sim resultado da pressão do Reino Unido e dos movimentos abolicionistas. Os historiadores nos mostram que, antes da Lei Áurea, várias ações foram protagonizadas pelos negros escravos em seu processo de libertação, como fugas, formação de quilombos, rebeliões, desobediência à rotina de trabalho nas fazendas. Os negros, que produziram riquezas por séculos, estavam libertos sem políticas públicas, sem mudanças estruturais que os amparassem. Na mesma época, o governo brasileiro estimulava, com políticas de incentivos, a imigração de europeus. A vinda dos europeus encontrava apoio na ideia racista de que era necessário “branquear” a população, que era maioria. Assim, estaria próxima às “civilizações” europeias e reorganizaria a economia do País. Nesse contexto, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte, em uma sociedade marcada pela discriminação racial, embasada em teorias que justificavam a superioridade intelectual, física e moral dos brancos europeus. A ideologia de branqueamento contribuiu para desenvolver nos brancos o complexo de superioridade e, nos negros, o de inferioridade, servindo para legitimar e naturalizar o racismo. A população mista do Brasil deverá ter, pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro (LACERDA, 1912). Conforme sentia a violência do preconceito, o negro buscava livrar-se desse sofrimento, assimilando comportamentos e atitudes dos brancos, negando suas origens, desenvolvendo complexos e traumas repassados de geração em geração. O Dia da Consciência Negra é uma data para evidenciar o racismo e a resistência de todos os negros que, no dia a dia, combatem a discriminação e o preconceito racial. O Estado não pode mais se omitir e ser indiferente diante das situações vividas pelos afrodescendentes. Dados revelam que 75% dos negros e pardos no Brasil vivem em situação de pobreza e vulnerabilidade, concentração nas periferias, exclusão social e política. Além disso, 64% de desempregados são negros e pardos, 66% das mulheres que sofrem violência doméstica e sexual são negras, 66,7% do sistema prisional é composto de pessoas negras, o índice de mortalidade infantil é maior entre os negros. São vítimas do subemprego, da violência policial, do desrespeito patrimonial, cultural e religioso, e de violação dos diretos das comunidades quilombolas. A Lei Áurea completou 133 anos. De lá para cá, algumas leis e políticas públicas foram estabelecidas, com tímidos avanços na promoção da inclusão social. O racismo estrutural e institucional, contudo, é uma dura e vergonhosa realidade na sociedade atual. O Brasil ainda convive com trabalho escravo. Segundo a SIT (Secretaria de Inspeção do trabalho), em 25 anos, 55 mil pessoas foram resgatadas de trabalho análogos à escravidão. Em 2020, foram 942 casos registrados. A pandemia

Estado laico e diálogo religioso

Todos nós sabemos que as religiões surgiram em meio a mistérios e polêmicas. Cada povo tem suas crenças que, em comum, transmitem valores e códigos sociais. Mas, por que, desde a Antiguidade, há tanta guerra envolvendo crenças religiosas? Desde os tempos das civilizações antigas, as divindades são invocadas para proteger, ganhar guerras, alcançar conquistas e, ou, obter vitórias. Muitas mortes inocentes aconteceram e, ainda hoje, em pleno século XXI, ocorrem mal-entendidos. Como ser tolerante e buscar o respeito com a religião do outro? Embora tenhamos um pequeno avanço na humanidade em relação à tolerância religiosa, ainda existem o preconceito, a discriminação, o fanatismo. Desde o início do cristianismo, a perseguição aos seguidores de Jesus ou simpatizantes levou muitos ao martírio, acusados de traírem o Império Romano. Este acreditava que o imperador era o filho enviado de um de seus deuses. Conforme o Estado monárquico se tornou adepto da religião cristã, toda autoridade era considerada escolhida por Deus e, por isso, vitalícia. E aí “a religião do rei passou a ser a religião do povo”. Cruzadas em nome de Deus passaram a conquistar novas terras, desvirtuando práticas evangélicas, o que ocasionou um cisma dentro da própria Igreja cristã, como historicamente aprendemos, no fim do Período Medieval, com a Reforma e a Contrarreforma. Em busca da paz entre os povos, a tolerância religiosa passou a ser defendida por um grupo de filósofos modernos que combatia o absolutismo. Um dos representantes foi o inglês John Locke (XVII). Este propôs a necessidade de um Estado laico ou civitas. Para uma civilização crescer e se desenvolver, é necessário o respeito para com todos. No Estado republicano ou laico, o direito positivo substitui as leis divinas, geralmente predomina apenas de uma determinada crença. O direito natural à vida, à liberdade e à segurança passa a ser garantido por uma Constituição que acolhe todas as crenças religiosas e respeita, também, os que se dizem agnósticos quanto ao Transcendente. O espaço para a diversidade em todas as dimensões, seja ela cultural, social, econômica ou política, seria para garantir a igualdade e a liberdade. No Brasil, a Proclamação da República, que se deu em 15 de novembro de 1889, já encontrou uma nação plural, isto é, com uma diversidade imensa de culturas. As rebeliões quilombolas em defesa de povos indígenas e dos negros, dos pobres colonos rurais já alertavam para a falta de tolerância. Depois de muitos séculos, as reivindicações dos brasileiros afrodescendentes tornaram o Dia da Consciência Negra também um grito importante para combater o desrespeito referente às religiões afro-brasileiras. Por isso, a necessidade de uma educação emancipada para todos é fundamental para construir um país consciente de seus direitos e deveres, democrático, onde a diversidade cultural, o diálogo religioso deveriam ser uma prática constante da cidadania. No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010, nós, brasileiros, somos de maioria cristã. Por que a intolerância com a crença do outro? Sejamos ecumênicos! Pratiquemos o bem uns com os outros, vivamos a fraternidade, para, assim, construirmos um Estado de paz. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e membro da diretoria da APROFFIB.

33º Domingo do Tempo Comum

“O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão”Marcos 13,24-32 O texto deste domingo nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos e outras tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós. Porém sua mensagem central fica clara: o triunfo final do Filho do Homem, mandado por Deus para estabelecer seu Reino. A linguagem veterotestamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas em um contexto novo, em que a vinda escatológica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central. Sua vinda gloriosa, no fim dos tempos, servirá como prova da vitória de Deus, e a expectativa dessa chegada serve como base da vigilância paciente recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatológico de Marcos. Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Isaías 13,10, Ezequiel 32,7; Amós 8,9; Joel 2,10.31; 3,1-5; Isaías 34,4; Ageu 2,6.21. Mas em nenhum lugar no Antigo Testamento se refere à vinda do Filho do Homem, é uma novidade do Evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a criação assinalará sua vinda final. A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7,13, mas aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zacarias 2,10. Esse reunir-se dos eleitos de seu povo por parte de Deus se encontra em Deuteronômio 30,4; Isaías 11,11.16; 27,12, Ezequiel 39,7, etc., mas nunca, no Antigo Testamento, é o Filho do Homem que faz esse trabalho. A segunda parte do texto consiste em uma parábola (versículos 28 e 29), um ditado sobre a hora do fim (vers. 30), sobre a autoridade de Jesus (vers. 31) e, de novo, sobre a hora (vers. 32). Nem sempre fica claro a que se refere. O que se fala sobre essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o vers. 32, que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vers. 28 e 29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vers. 33 a 37). Mas continua clara a mensagem básica: a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho. Pode parecer confuso nosso texto (e para nós, hoje, de uma certa forma, o é), mas, inserido no contexto do Discurso Escatológico (referente aos tempos finais) do Evangelho, traz a nós uma mensagem de esperança e uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida, um elemento fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho. Em um mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto convida nós, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas também nos desafia a estarmos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que, muitas vezes, baseia-se em princípios contrários aos do Reino de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta. “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.” Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

A santidade cristã também passa pela gentileza

O mês de novembro traz duas comemorações as quais mereceriam ser unidas. A primeira é a Solenidade de Todos os Santos, que, no Brasil, é uma data litúrgica móvel, podendo ou não ser no dia 1º. A outra é o Dia Mundial da Gentileza, 13 de novembro, celebração menos conhecida. Estou longe de ser um lorde, contudo acho difícil compreender um autêntico espírito cristão afastado da gentileza. Como pode um batizado ou batizada responder ao chamado à santidade e, ao mesmo tempo, não ter o mínimo de doçura no trato com o outro, em qualquer ambiente? Isso independe de qual função se exerce, seja na vida eclesial ou civil. Creio que não estou sozinho nesse pensamento. Por diversas vezes, em discursos, homilias ou em documentos, o Papa Francisco critica os cristãos mal-humorados, “que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (Evangelii Gaudium, 6). Entre outros predicados, o Pontífice coloca a mansidão, a paciência, a alegria e o humor como algumas das características da santidade no mundo de hoje (Gaudete et Exsultate, cap. IV). Para buscar fontes ainda mais profundas, é interessante recordar a narrativa de um dramático naufrágio do qual São Paulo foi vítima. A passagem está nos Atos dos Apóstolos, do capítulo 27 até o versículo 15 do capítulo 28. O trecho faz muita questão de reforçar a gentileza do povo da Ilha de Malta, aonde os náufragos chegaram e foram acolhidos com “extraordinária gentileza” (At 28,2). Naquele lugar, o Apóstolo deu atenção aos enfermos e, com a graça de Deus, realizou curas. É impossível não recordar também a passagem do Evangelho de Lucas, capítulo 17, versículos 11 a 19. Dos dez leprosos curados por Jesus, apenas um voltou para agradecer ao Senhor e reconhecer seu poder. Esse era justamente um samaritano, um “estrangeiro”. Os outros, “de casa”, apenas foram embora, talvez pensando ter Cristo apenas cumprido sua “obrigação”. A iniciativa do homem chamou a atenção de Jesus, mostrando que a gentileza é, sim, um valor divino. Gestos educados podem fazer muita diferença no dia a dia. Em uma sociedade doente em todos os sentidos, faz muita diferença usar expressões simples, mas poderosas, como “por favor”, “muito obrigado”, “com licença”, “desculpe-me”, “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” (quanto a estas três últimas, não me refiro às famigeradas mensagens pré-fabricadas espalhadas por redes sociais). Incluo aqui a nobilíssimo gesto de pedir e de conceder a bênção, tal como em outros tempos. Essa prática, carregada de valor, começa liturgicamente no dia do batismo e deve-se estender por toda a vida. Expressões e gestos gentis exigem autenticidade. Quando, por exemplo, deseja-se um “bom dia” a alguém, isso precisa soar como uma prece. Que “o espírito concorde com a voz”, conforme ensina São Bento. Aí está a diferença de uma gentileza cristã. Não desperdiçar palavras, sobretudo as de bendizer. Em meu ministério de diácono, vez ou outra, sou chamado a abençoar casas comerciais. Quando estou diante das portas desses estabelecimentos, fico a imaginar as pessoas passando por aquele lugar. Assim, costumo sugerir aos funcionários que evitem cara fechada para quem entra. Longe de ser uma atitude mercadológica, a acolhida é um dom cristão. Talvez o leve sorriso daqueles trabalhadores e trabalhadoras será a única demonstração de doçura que um cliente poderá ver ao longo do dia. Embora o comprador possa não retribuir o cumprimento ou ser de espírito “poluído” pela crueza, sempre os encorajo a insistir na prática. Se isso vale para uma loja, um supermercado, um shopping, o que dizer de uma igreja, uma obra social, uma secretaria, uma escola? Nunca é demais reforçar: a santidade é para ser vivida no dia a dia, com os pés no chão, em situações reais, quiçá no silêncio do fermento na massa. Nosso mundo precisa de batizados e batizadas humanamente gentis e santos. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Urbanismo em todos nós

O Urbanismo é tão próximo dos cidadãos que habitam os centros urbanos que, por vezes, não o percebemos, de tão acostumados que estamos com ele. Você deve estar se perguntando: tão próximo? Como assim? Quando você acessa o metrô ou anda em outro transporte coletivo, quando você reconhece as sinalizações que indicam que rumo tomar, quando você entra em um edifício público ou privado, em uma indústria ou escritório para trabalhar, quando você vai à escola, parque, clube, posto de saúde e até quando você pensa no futuro próximo, o Urbanismo está presente. Mas o que é o Urbanismo? Simplificando, é um conjunto de diretrizes, regras e leis para dar ordenamento e qualidade de vida aos usuários das cidades. O Urbanismo toma impulso com as necessidades da Revolução Industrial e o crescimento das cidades, que, com o tempo, viraram grandes metrópoles (como São Paulo). Assim, o Urbanismo tem de pensar o espaço urbano de maneira interdisciplinar e dinâmica, criando leis orgânicas que, de tempos em tempos, devem ser revistas para acomodar as novas tecnologias e costumes que o progresso propõe. Por isso, ao sair do trabalho e voltar para casa, você usa a infraestrutura urbana, pensada por arquitetos, urbanistas e engenheiros, para, de forma ordenada, dotar os bairros com saneamento, eletrificação, transporte, saúde, lazer e cultura. Porém, como as cidades são muito dinâmicas, por vezes, a urbanização chega com atraso em alguns pontos, e aí os desafios dos planejadores urbanos são muito maiores. Mas são nos desafios e nas projeções de futuro próximo que as soluções inovadoras aparecem. O Urbanismo fortalece a cidadania, e quanto mais cidadã for a cidade, mais urbanizada ela será. Sérgio Leal Costa FilhoArquiteto, formado pela Universidade Mackenzie, atuante na área de Arquitetura e Urbanismo.

Solenidade de Todos os Santos

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”Mateus 5,1-12a Esses primeiros versículos do capítulo 5 servem, ao mesmo tempo, como introdução e resumo do Sermão da Montanha. Eles nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo, discípula, daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente; tanto a do tempo de Jesus como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (cf. Lucas 6,20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical em nossa maneira de pensar e viver. Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente (o Reino “já é” dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça). Na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois somente com ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido, e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”. As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de ser passivo, mas porque não é movido pelo ódio e pela violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos. Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (cf. João 14,27), mas o shalom, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome da paz!”. Mas Jesus deixa claro qual é a consequência de assumir esse projeto de vida: a perseguição. Pois um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires de nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem-aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisaria se questionar sobre sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (que, em sua raiz, significa “testemunho”) é a pedra de toque dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física, mas, muitas vezes, pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de dominação, em uma vivência fiel da luta pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mateus 16,24). A solenidade de hoje não é tanto para recordamos os nomes e façanhas dos grandes santos e santas conhecidos, mas mais para que nos lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões, que viviam a santidade no anonimato de suas vidas diárias, vivendo-a na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência dele. Se examinarmos nossas vidas, veremos que já conhecíamos muitas pessoas santas, cujos nomes jamais serão conhecidos mundialmente, mas que serviram como exemplo dos verdadeiros valores evangélicos para nós. Que a celebração nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes milagres, mas no dia a dia de nossa vocação, seja Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.ela a que for.

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