Previsões do tempo…

Qual a previsão do tempo para hoje? Ensolarado? Nublado? Com ameaças de temporais? São alternativas que o tempo apresenta no decorrer dos dias. Seja qual for a previsão, não podemos esquecer que, sempre, acima das nuvens, permanece o “Sol” que ilumina o universo e nunca o deixa de iluminar. Nos dias ensolarados, o céu fica azul, bonito, muitos se queixam de calor, mas nem todos os dias assim são calorentos. Há aqueles deliciosos para se viver num clima agradável, o qual gostaríamos que assim fosse sempre. Há dias em que só uma parte do céu está ensolarada e o restante nublado; qual vai prevalecer? Nos dias nublados, surge a dúvida ao sair de casa: levar guarda-chuva ou não? Pode chover e atrapalhar as idas e vindas. Nessa situação, é necessário conviver com a incerteza até que as nuvens definam o que vão fazer, se vão se dispersar ou chover. Nos dias com ameaças de temporais, o grau de incerteza aumenta, e as preocupações também, porque podem ocorrer a qualquer hora e despencar fortemente numa dada região, fazendo estragos de pôr em risco a vida ou tirar seus confortos. A situação pode ficar mais dramática conforme as evidências começam a se confirmar. Os trovões e relâmpagos correm pelo céu, dando sustos com raios que caem troando com força. Quando isso acontece, não sobram muitas alternativas a não ser aquelas de minimizar os prejuízos com algumas providências possíveis. Refugiar-se em lugar mais seguro, torcer para que a ventania e a tempestade passem logo e não causem tanto estrago. Fica tudo meio imprevisível. Não dá para controlar tudo. Se a tempestade começar a durar muito, avolumam-se os prejuízos e também os descontroles sobre a situação. O caos vai se agravando, e o desespero tomando conta. A experiência diz que, mesmo que demorem um pouco mais que o desejável, a tempestade não vai se eternizar. Uma hora, ela passa. Mesmo se apresentando com toda essa fúria, o tempo vai se acalmar e voltar a seu normal. Assim são as “previsões do tempo”. A esperança de dias ensolarados deve permanecer, mesmo quando há tempestade. Nossa vida “vivida no tempo” pode ser comparada a essas oscilações temporais, guardando-se as proporções. Sabemos que há dias mais amenos e outros mais turbulentos. Parafraseando as previsões do tempo, façamos uma “viagem” nos “tempos favoráveis e intempéries” de nossa vida. Há dias, por exemplo, em que amanhecemos radiantes, otimistas, com horizontes claros, sabendo o que queremos e que rumos seguir. Tudo parece concorrer para nossa alegria e felicidade. Vivemos o encanto pela vida que está favorável e tudo contribuindo para a realização de nossos sonhos. Gostaríamos que fosse sempre assim e aí não precisaríamos lidar com angústias, frustrações, dissabores, preocupações com sobrevivência, e assim a vida pareceria sempre uma poesia de encantos mil. É verdade! Há momentos que são assim; que pena, constatamos, que não o sejam sempre! Precisamos nos habituar também com as turbulências. Vivenciamos dias nublados, em que a mente e o coração amanhecem com uma série de dúvidas e preocupações que se antecipam e começam a estressar. São queixas que aparecem porque não se vai dar conta de tudo o que há por fazer, porque o cansaço se apoderou, minando as forças que havia de reserva. Alguém ficou doente na família e precisa de cuidados; alguém está passando por uma crise de relacionamentos e fica nervoso, contagiando o ambiente que antes estava tranquilo; ou alguém que perdeu o emprego, e o futuro fica comprometido, gerando insegurança. Ou ainda, alguém foi mal nos negócios que fez e teve prejuízo, e comprometeu sua renda; outro ainda exagerou no cartão de crédito e ficou sem fundos para pagar as prestações; alguém esperava solidariedade e compreensão, e elas não vieram, deixando uma mágoa no coração e uma decepção que mina a confiança nas pessoas. Não bastasse isso o carro precisa de conserto, a máquina de lavar roupa enguiçou, o cano de água estourou, a entrega do material para reparos atrasou, o gato fugiu e o cachorrinho ficou doente, precisa de veterinário. A pessoa que prometeu que viria não veio, deixou na mão; a notícia do telejornal fala dos aumentos que virão sobre combustíveis e alimentos, a inflação vai diminuir o poder de compra, além de lembrar que o “ômicron” está se alastrando como ventania; as mensagens no grupo do WhatsApp, querendo ajudar, oferecem milagres desde que se façam alguns ritos, mas eles demoram para acontecer e, para piorar a situação, ainda é preciso lidar com as “fake news”. Além disso, precisa levar a criança para a escola e depois buscá-la, calcular direito o tempo para não chegar atrasado ao serviço, não se esquecer de fazer um “pix” para pagar as contas, recarregar o celular… Tanta coisa por fazer! E a novela já vai começar, quero assistir o “Big Brother”, mas vai ficar tarde para dormir, a insônia não me deixa descansar direito, o remédio não está fazendo efeito… Tudo isso vai dando nó na cabeça. Quando as coisas vão caminhando assim, o dia, que estava meio ensolarado, começa a ceder espaço às nuvens pesadas, um céu se fechando, ameaçando temporal. Há os dias de tempestades iminentes. O acúmulo de situações e desgastes emocionais se avolumam que o psíquico não consegue dar conta de processar tudo. A mente começa a ficar confusa, o ânimo vai diminuindo, e as esperanças também. Uma crise aparece ameaçadora no horizonte, e a vida vai se espremendo nas poucas brechas que ficam. Nessa situação, pode desabar a torrente incontrolada de emoções contidas a longo tempo e sentimentos se apoderarem, tirando o chão da vida, e a pessoa fica “fora da casinha”, entrando em estado de depressão ou outras manifestações doentias da psique. Nessa situação o “céu desabou” sobre ela, e ela perde o controle sobre si mesma, precisando de socorro urgente, alguém que a tire dessa situação. Nem sempre esse “resgate” obtém sucesso. Muitos sucumbem, tirando a própria vida antes. São as situações limítrofes que atingem um bom número de pessoas, embora longe de alcançar a

Começar um novo ano

Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDS É sempre bom começar um novo ano, porque concluímos mais um e vamos iniciar outro! Nossa história pessoal fica mais comprida e cheia de novos dias para viver e realizar tarefas, lidar com as coisas cotidianas, envolver-se com pessoas, com negócios, com desafios, com preocupações, com frustrações e com tudo aquilo que pertence à vida. Teremos um mundo diante de nós que nos apresentará atrativos de todo o tipo e maravilhas que encantarão nossos olhos, exigindo que o coração pulse mais forte. Novas perguntas para a inteligência resolver. Caminhos novos, com suas encruzilhadas e retas, com suas subidas e descidas, vão desfilar diante de nós. No novo ano, a vida vai se envolver com afazeres novos e, ao mesmo tempo, continuará lidando com os velhos. Haverá dias com alegrias nunca experimentadas, outros com tristezas, porque morre alguém ou porque se decepciona com algo. Começar um novo ano é retrilhar os caminhos já conhecidos e estar preparados para as surpresas dos outros que aparecerão. Na dinâmica da vida, ela continuará contando com as próprias capacidades para se autossustentar, mantendo também alguma reserva para suportar os insucessos e limitações diante das coisas desconhecidas. Nossas emoções vão nos submeter a novas sensações. Novas experiências vão mexer com nossos brios e nos angustiar por momentos de indecisões. Nossos valores serão postos diante de novos questionamentos, e nossas convicções passarão pela prova da verdade. Nossas crenças serão confrontadas, e mantê-las firmes exigirá convicções profundas e posturas coerentes. Nosso tempo será cronometrado por nossas responsabilidades a serem desempenhadas dentro do campo de atuação de cada um. Nossos amores sofrerão os impactos das reações de nossos sentimentos diante dos apelos que entram por nossos olhos, e o teste da fidelidade exigirá vigilância constante. Nossas canções preferidas serão recantadas, e nossos ouvidos ouvirão novas músicas com seus arranjos ainda desconhecidos. Para começar um novo ano, é preciso munir-se de esperanças fortes e de otimismo, porque ainda não se sabe como será. Nossas intuições nos dizem que será melhor do que o ano findante. O anúncio do ano novo vem com o pipocar de muitos fogos de artifício enfeitando o céu de muitas cores e estrondos diferentes. É uma contagem regressiva, 10, 9… 1, e se começa o ritual de abraços e um tal de desejar um FELIZ ANO NOVO que vai se misturando com sorrisos e brindes, deixando todo mundo alegre. Estamos preparados! Que venha 2022! Nós o esperamos para o primeiro minuto depois da meia-noite e continuaremos com ele até o próximo ano. A VOCÊ QUE LEU ATÉ AQUI, TENHO A DESEJAR-LHE O MEU E RECEBER O SEU FELIZ ANO NOVO! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Na Sagrada Família, tudo fala de Deus

No fim de cada ano, a Igreja celebra a Festa da Sagrada Família, composta por Jesus, Maria e José. É sagrada porque ali mora a predileção de Deus na escolha de seus membros. Maria, por ter sido eleita para ser a mãe de Jesus; José, por ser descendente de Davi; e Jesus, por ser o Filho de Deus. Essa família se reveste do sagrado porque nela tudo fala de Deus e de seu projeto para nos salvar. Nas três pessoas que a compõem, encontramos o lado humano plenamente “humanizado” em todas as suas dimensões biológicas, psíquicas, espirituais. Essa família viveu na aldeia de Nazaré, como as demais que lá estavam. Exercendo o trabalho do dia a dia, ficou escondida e só apareceu (nos Evangelhos) quando nasceu o Menino em Belém; quando o Menino foi apresentado no Templo oito dias após seu nascimento; quando foram em peregrinação à festa, em Jerusalém. Por trinta anos, viveram no anonimato, como viviam todas as famílias da aldeia, embora um fato fizesse a diferença entre as demais famílias: ali morar o Filho de Deus, e seus pais, José e Maria, terem sido escolhidos para a missão de cuidar do “Menino” até que Ele, aos 30 anos, pudesse iniciar publicamente sua missão de revelar o Reino de Deus entre nós. A Sagrada Família nos é apresentada como modelo para todas as outras. Em primeiro lugar, porque foi ali vivido, em plenitude, o amor entre seus membros. Não havia brigas nem dissensões, mas se conjugavam a harmonia e o zelo de uns para com os outros. Mantinham suas relações com a parentela conforme a tradição judaica. Viviam seus compromissos religiosos, frequentando a sinagoga em dia de sábado. José exercia sua profissão de carpinteiro, coadjuvado por seu filho aprendiz. Não temos informação se fabricava móveis, casas ou outros afins, mas certamente era desse trabalho que provia o sustento da família. A Família de Nazaré é modelo para todas, porque viveu o ideal de família humana, unida pelos laços de sangue e por sua particularidade, realizando uma missão especial de visibilizar a salvação de Deus presente no Filho como enviado do Pai. No Filho, mostrou-se o rosto humano de Deus no meio de nós, como o Emanuel. Cada uma das pessoas que a compunham, viveu a missão que recebera de Deus. José, pai adotivo, zeloso nos cuidados de Jesus e de Maria, trabalhador, justo, humilde, cumpridor das leis, que assumiu a vontade de Deus como sua vontade. Maria, a virgem escolhida sem pecado, gestou durante nove meses a obra do Espírito Santo que se realizava em seu ventre. Prestativa, foi ajudar sua prima Isabel, grávida do precursor João Batista; após o nascimento deste, voltou para sua Nazaré, até que o tempo se completasse. Foi recensear-se com o esposo em Belém e lá deu à luz o Filho de Deus, envolveu-o em panos, amamentou-o, recebeu a visita dos Magos, que confirmaram que aquele menino era “luz para as nações”. De volta para sua aldeia, cuidou com zelo de mãe, guardou e meditou, em seu coração, a obra que Deus realizava em seu Filho. Angustiou-se com o extravio do Menino, quando Jesus ficou entre doutores, em Jerusalém, enquanto ela e José voltavam da peregrinação. José, completados seus dias, morreu como justo; não sabemos quando. Maria esteve com seu Filho até a morte dele na Cruz. Lá estava ela, de pé, corajosa, sabedora do gesto salvador do Filho. Permaneceu com os discípulos, aguardou a vinda do Espírito Santo prometido, em Pentecostes. Com os apóstolos, iniciou a Igreja de seu Filho. Quando chegou sua hora, foi assunta ao céu com corpo já glorificado. E assim, permanece para nós o exemplo a ser seguido na vida em família. Família de Nazaré, abençoe nossas famílias! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Esconder-se de Deus

O Salmo 139 reflete as tentativas do salmista de esconder-se de Deus. A cada refúgio em que se metia, era encontrado! Se descia ao sheol, lá Deus o achava, se subia às nuvens, lá Deus o esperava. Quando parava para pensar, Deus se antecipava e conhecia seus pensamentos. Por todas as veredas em que procurava se esconder, essas eram conhecidas por Deus. Tentava se revestir de asas e fugir para o mar, mas também não adiantava, lá também Deus o via. Todas as suas tentativas foram em vão. Parecia brincadeira de “pega-pega”, tentando escapar, mas sem êxito. Por fim, deu-se conta de que até seus ossos, quando estavam sendo formados em segredo, eram apenas um esboço, os olhos de Deus já os tinham visto. Somente lhe restou render-se perante a presença onisciente e onipresente. Boquiaberto diante de tais mistérios, restava silenciar-se! Mergulhado em sua confusão, reconheceu sua pequenez: “Ó Deus, como são difíceis para mim os teus projetos, como é grande a soma deles. Gostaria de contá-los, mas são mais numerosos que os grãos de areia!”. Rendido diante de tão grande mistério, pediu que Deus o prescrutasse e conhecesse seu coração. “Prova-me e conheça meus pensamentos.” Eis aí uma história de relação com Deus de um fiel que põe Deus à prova, embora, de antemão, intui qual será o desfecho. O Salmo acaba sendo uma parábola. Por um lado, a percepção que nada escapa do “controle” de Deus e, diante disso, não há saída senão reconhecer sua onipresença; por outro, as tentativas de esconder-se, de ignorá-lo acabam sempre em fracasso. No Salmo, nenhuma vez Deus amedronta ou ameaça o salmista, apenas se deixa perceber em todas as situações. É uma presença que abre cada vez mais horizontes, mostra sua grandeza escondida na imensidão do universo, mas também nas coisas menores, como grão de areia. Há um espaço sem medidas, infinito, onde sua grandeza se manifesta. Diante disso, o salmista apenas pode silenciar-se. Hoje os astrônomos, cada vez mais, descobrem a infinitude do Universo. A cada nova galáxia captada pelos telescópios, mais mistérios se apresentam. Busca-se uma explicação para o Universo, mas nenhuma é conclusiva. Quando se aproxima de uma, outras mil se apresentam sem solução, e os mistérios se multiplicam. Daí é de se admirar que muita gente se declare ateia ou agnóstica. Conformando-se que tudo acaba com a morte. Para isso se contente com a possibilidade de, um dia, a ciência dar explicação para tudo o que existe. Enquanto esta não chega, basta viver como se Deus não existisse ou “escondido”, conformando-se com um sentido para a vida num horizonte pequeno, que cabe em seus raciocínios e explicações. Diga-se de passagem, não convencem o próprio coração que, ansioso, espera por algo mais. Uma ilusão enganosa para quem tenta esconder-se de Deus, não o reconhecendo nas pequenas e grandes coisas. A experiência do salmista, pressionado por tribulações, meditando, percebe que Deus o conhece melhor do que a si próprio, não adianta esconder-se. Pois a tudo Deus conhece! Nada lhe pode escapar. Compenetrado diante de tal mistério, volta-se para dentro de si mesmo e se interroga: o que é o ser humano diante de Deus? Conclui: Ele se mostra presente desde o início de sua vida, ainda em sua formação óssea. Aceita, então, que é aquilo que é, e nada mais. Não há como esconder-se de Deus! Como o salmista, somos convidados a meditar sobre nossa vida, nossas tribulações e na experiência de sua busca. Percebê-lo como participante de nossa história desde seu início, em cada momento já vivido. Constatar sua presença que nos acompanha desde nossas origens. Onde quer que estejamos, sua presença já se antecipou e nos conhece mesmo nos malabarismos que inventamos para nos esconder dele. Mais sábio parece ser, render-se, como o salmista, e dizer “Sonda-me, ó Deus, e conhece meu coração! Prova-me e conhece minhas preocupações. Vê se ando por um caminho de desgraça, e guia-me pelo caminho eterno” (leia e medite o Salmo 139). Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Enquanto a chuva cai…

Por minha janela, vejo a chuva mansa que está caindo lá fora. Hoje ela desce sem muito barulho, prometendo que vai passar umas horas assim. Sem me dar conta, encantou-me e me fez pensar sobre ela. Imagino-a como um sinal de bênção porque traz consigo a garantia para a terra de que sua fertilidade não ficará infértil. Mesmo sendo terra boa, sem a chuva, não seria capaz de produzir. A água da chuva e a chuva de águas irrigam o solo e despertam nele a força de germinar as sementes. Ela penetra em suas artérias, garantindo a vida das plantas, abastecendo as vertentes, os córregos, os rios, os lagos. A água da chuva corre para o mar e se retroalimenta. Nas fontes de águas cristalinas, os animais, os pássaros saciam sua sede… A água nos riachos desliza por caminhos traçados pela própria engenharia e desemboca nalgum rio que a leva para passear por longos caminhos até chegar ao oceano. Lá a água se torna salina para se conservar, fica balançando, forma ondas, faz subir e descer as marés e dali evapora para o céu, formando novas nuvens que voltarão a chover. Um ciclo que se repete há milhões de anos. Mesmo com tanta gente, animais e plantas consumindo-a, ela continua se recriando e garantindo “as vidas” de quem na terra está. A nuvem que deságua, suas águas caem do céu e escorrem pelas ruas, entram pelos bueiros, apagam a poeira das estradas sem asfalto, lavam telhados, faz um barulhinho gostoso de se ouvir quando se está na cama para dormir. A nuvem, quando é grande, encobre o sol e deixa o dia meio cinzento. Quando ela predomina, tudo fica meio nebuloso, condicionado por ela. Faz mudar planos de idas e vindas. Mexe com as rotinas de trabalho. Por vezes, é preciso esperar que a chuva cesse. A dança da nuvem é meio misteriosa. Enquanto faz chover aqui, o sol se esconde; lá onde não chove, ele reina soberano. Quando a nuvem se atrasa e demora para vir, as pessoas olham para o céu, em sua busca, procurando sinais que indiquem que ela está chegando e, então, bendizem a Deus porque chove. Quando ela persiste por vários dias, alguns a maldizem porque atrapalha. Contudo, ela fica indiferente aos humores humanos. Ela se mantém obediente às ordens da natureza e pronto! Gostem ou não, ela tem as próprias leis. E nós dependemos dela. Sem ela, nossas caixas d’água ficariam vazias; nossos banhos, adiados; nossos alimentos, sem preparo; nossos ambientes, sem limpeza. Ah, bendita chuva! Sem ela, o mundo fica “seco”, e a vida, comprometida. Quando as nuvens estão com sobrepeso, impulsionadas por ventos fortes, tornam-se tempestades. Ao soltar suas águas, elas caem e formam torrentes que tudo arrastam, causando medo, assustando, destruindo, trazendo sérios prejuízos. Não podemos colocar qualquer condição. Ela é soberana e, para nós, necessária. Não temos como controlar sua intensidade nem suas ocorrências. Podemos saber, com antecipação, quando vai chover, se as “previsões de tempo” não falharem. De qualquer modo, não nos cabe definir nem dia, nem hora, nem quanto. Tudo isso pertence ao termômetro da natureza, que tem seus ciclos. Diante da chuva, somos passivos. Ela cai onde quer, independentemente de nossas opiniões ou decisões. A chuva se envolve nos mistérios da Criação. Suas águas apareceram quando a ordem de Deus disse: “Faça-se!”. Elas fizeram depois a arca de Noé boiar por quarenta dias; abriram-se sob a vara de Moisés, obrigadas a se afastar, criando uma brecha no mar, permitindo aos israelitas passagem a pé enxuto. Depois, na travessia do deserto, esconderam-se, forçando Moisés a bater na pedra para dela sair água para saciar a sede do povo. Nas águas, vivem mergulhados os peixes e animais marinhos, e, lá em seus abismos, moram os mistérios. Elas suportam, com galhardia, os navios cheios de contêineres e, no alto-mar, escondem os horizontes, deixando sem “terra à vista”! O próprio Jesus pediu água do poço de Jacó e, depois, revelou à Samaritana que tinha uma, que quem dela bebesse não teria mais sede. De seu peito aberto por uma lança, brotou água que escorreu por seu corpo. Assim, o mistério da água fica sempre maior. Voltando às (ou das) nuvens, sabemos que elas se formam pela evaporação dos mares, dos rios, das florestas. As águas sobem e descem. Esparramam-se por todos os recantos do planeta Terra. Hoje caem aqui, correm para os rios sem que consigamos acompanhá-las para saber onde elas vão parar. Seguem seu curso, fundem-se em outras águas. Aquela que hoje desceu do céu, aqui, não sei amanhã onde estará. Vou agradecendo a Deus pelos encantos da chuva. Elas saíram assim de suas mãos. A Bíblia a compara com a Palavra de Deus que diz: ela não volta para o céu sem antes ter produzido seu efeito na terra. Se for ela de novo que vai chover amanhã, não sei; sua história e trajetória, não as conheço, mas ela continua me encantando, enquanto ainda a vejo chovendo, pela minha janela. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Uma pequena maleta é suficiente

Ao ler um texto que publiquei, uma pessoa reagiu com um comentário que dizia no contexto, “Uma pequena maleta é suficiente”, referindo-se ao que é necessário para viver. Isso me provocou pensar no acúmulo de coisas que guardamos sem necessidade. Se olharmos para nosso armário de roupas, há aquelas que não saem do cabide faz mais de ano. Certamente, essa é supérflua, não precisamos dela, mas está lá, guardada, apertando-se entre as outras, ocupando espaço inutilmente. Nesses dias, alguém sugeriu, que, neste tempo de frio, fosse levada no carro uma blusa que estivesse sobrando e a entregasse a alguém que se encontrasse passando frio pelo caminho. Gostei da sugestão e já consegui alocar no ombro de desconhecidos duas blusas que faziam parte de meu “supérfluo”. Tenho outra para o próximo que encontrar. Não me fazem falta, mas estavam fazendo falta para alguém. Assim são camisas, calças e outras bugigangas. Há muito supérfluo em nossa casa que são úteis para quem não tem e precisa dele. Então doe, não fique pensando “ah pode ser que eu venha a precisar…”. Se não precisou até agora, você tem outros recursos para suprir o que vai doar. Como disse o comentarista de meu texto, “Uma pequena maleta é suficiente” para nossa “viagem” nesta vida. Aliás, como disse o Papa Francisco, nunca se viu, atrás de um cortejo fúnebre, algum caminhão de mudança levando seus pertences. Nós temos a mania de guardar tudo e acumular muito. O medo de passar necessidade nos faz guardar até alimentos demais. Ficam lá na prateleira, até vencer o prazo de validade, para depois jogá-los fora, porque não se pode consumi-los. Esquecemo-nos de imitar os pássaros, que não acumulam nada para o dia seguinte e saem cantando de manhã para encontrar o necessário para o novo dia. Nesse sentido, confiamos pouco na Providência. Jesus, numa ocasião, enviou seus discípulos e disse-lhes que não levassem duas túnicas nem sacolas, nem dinheiro… Ele foram. Nenhum voltou reclamando que passou fome. Pelo contrário, voltaram felizes, contando as proezas que haviam feito. Pensando bem, quanto mais presos ficamos às coisas, menos livres para viver. Não estou sugerindo ser leviano, irresponsável ou despejar sobre os outros aquilo que é de nossa responsabilidade. Estou apenas dizendo que, por vezes, guardamos tranqueiras demais (digo por mim). Quando damos algo que é nosso, libertamo-nos um pouco de nosso egoísmo, experimentamos um pouco de alegria diferente daquela que sentimos quando compramos ou ganhamos uma roupa. É uma alegria mais prazerosa e duradoura. Além de tudo, abate um pouco de nossa “dívida”, porque aquilo que está demais em nossa casa é o que está faltando na vida de alguém. Façamos uma vistoria em nossa casa e vejamos quanto supérfluo há por lá. Coloquemos numa caixa para doação o que não precisamos. Enquanto fazemos isso, podemos também examinar nossa vida que, às vezes, está também cheia de coisas inúteis de outra espécie. Refiro-me aqui a bagulhos que não estão em armários, mas que atrapalham a vida mais livre também. São aqueles que sufocam a alma, o psíquico. Por exemplo, nossas lamúrias, nossos ódios, nossos rancores, nossos vícios, nossa mente poluída, nosso olhar cobiçoso, invejoso, ciumento. Esses adereços não enchem gavetas de armários, mas espaços psíquicos dentro de nós. Isso não é para doação, mas para liberar espaço para uma vida mais sadia. Livrar-se deles também é um alívio não somente para a consciência, mas também para o emocional, que se desgasta com esses “infantilismos” alimentadores de nossas imaturidades e apegos que impedem de viver nossas relações com mais amabilidade e solidariedade. Vamos, então, ao trabalho, vasculhar nossas gavetas e armários, tirando o supérfluo para doação e prescrutar o coração, liberando mais espaço nele para viver a solidariedade e a compaixão em nossas relações fraternas. Continuemos nossa “viagem” com “uma maleta menor”, carregando o indispensável, sem ambições que nos levem a acumular demais e nos cansar da vida antes da hora. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Quando Deus fala… Onde encontrar os ecos de sua voz?

Nós, cristãos, estamos habituados a refletir sobre o Evangelho e nos referir a ele como Palavra de Deus. O Evangelho é um dos meios privilegiados que temos para discernir sua vontade. Contudo é comum também se dizer que Deus fala pelos “sinais dos tempos”. Em outras palavras, nos acontecimentos do cotidiano. Aqui quero explorar esses “sinais”, tentando vislumbrar “falas” de Deus para nós hoje. No momento, uma questão que se sobressai é a pandemia. Olhando para ela e tudo o que ela tem provocado, podemos acreditar que, por ela, Deus possa estar nos falando. Cabe a nós discernir. Arrisco-me a fazer algumas considerações nessa perspectiva, sem a pretensão de ser porta-voz de Deus, mas apenas apontar para possíveis dicas que Ele esteja dando para nosso mundo. Começo a investigação levantando algumas questões. O fenômeno da pandemia é um fato universal, isto é, atingiu todos os países. O vírus tem uma força tal que todas as bombas atômicas guardadas para guerra e destruição não conseguiriam destruí-lo. A covid-19 não respeita posição social, raça, cor nem idade, embora tenha começado atingindo os mais “velhos”, poupando, no início, as crianças. O vírus tem um poder avassalador. Está mudando, à força, as relações do convívio entre as pessoas, levando à mudança de hábitos no cotidiano. Multiplica-se em novas cepas, pondo em risco a eficiência das vacinas. Está perdurando por um tempo maior do que se conhecia para uma pandemia. Não temos certeza de quando vai acabar. Termina uma onda, surge outra mais forte. Tem afetado não somente a parte econômica em todos os níveis, como também causado sofrimento grande de toda ordem, a começar pelos familiares de acometidos pelo vírus e, de modo especial, para aqueles enlutados. Não permite nem mesmo uma digna despedida dos entes queridos. Tudo tem de ser às pressas, pois há a ameaça do contágio. Impôs um distanciamento entre as pessoas, não permitindo o contato afetivo antes praticado. Abalou o lado psicológico de todos, deixando lastros de insegurança e inquietações, resumidas nas perguntas até quando vai isso? E como será depois? Obrigou-nos a encontrar formas novas de comunicação, de reuniões e de estudos, mesmo que forçadamente. Isso podemos contabilizar como um aprendizado positivo. Nessa perspectiva, poderíamos concordar que há males que vêm para o bem! Depois da pandemia, não seremos mais os mesmos. Com será o novo “normal” ainda não sabemos bem, pois estamos em plena crise. Diante de tudo isso, onde estão as “falas de Deus”? Vamos tentar discernir alguns sinais pictogramáticos escondidos nessas situações ambíguas acima enumeradas. Em primeiro lugar, devo dizer que a pandemia não é obra (iniciativa) de Deus. Alguns poderiam pensar que Ele estivesse enviando a pandemia para nos castigar. O Deus que creio não faria isso, podemos, sim, admitir que Ele possa estar se servindo dela para nos dar um recado. E qual recado? Um deles certamente é um apelo para voltar a sermos mais humanos, mais próximos de seu projeto inicial. O caminho que estávamos (estamos) seguindo, cada vez mais, tornava-nos (ou ainda torna) “máquinas de produção” para gerar lucros. Isso, além de nos estressar ao extremo, vinha (vem) gerando cada vez mais um distanciando entre o “muito para poucos” e as “sobras” para muitos”. Uma divisão injusta e contrária aos desígnios de Deus quando nos deu sua criação para desfrutarmos dela com equidade e sem destruí-la. Deturpamos em demasia os preceitos básicos que indicavam o caminho apontado por Ele em sua Palavra, rumo à felicidade oferecida por Ele e não a de meros momentos “lúdicos e prazerosos”, como muitos definem a felicidade. A maldade, o ódio ultrapassaram os limites da normalidade, afetando as cotas que o coração pode suportar. O descarte de pessoas como coisas inúteis porque não são mais lucrativas. Nossa “torre de Babel”, cada vez mais confusa na construção de vínculos que nos aproximem do projeto de Deus, para nós ligados às verdadeiras origens (somos imagem e semelhança de Deus), apesar dos meios eficientes da era digital que já dominamos. A medida da verdade relativista, feita pelo subjetivismo de cada um, vem negando o espaço para uma verdade objetiva como referência para os julgamentos. Em meio a tudo isso, há os sinais positivos indicando caminhos que nos aproximam do projeto divino, como aqueles demonstrados em tantos gestos de solidariedade e de busca de novos medicamentos para a cura dos doentes, como também na dedicação daqueles que se empenham para salvar vidas e de tantas mudanças havidas na vida de pessoas que se tornaram melhores. Essa realidade ambígua que nos move, pra lá e pra cá, parece nos indicar o que o profeta dizia: “Buscai os caminhos do Senhor enquanto Ele se deixa encontrar” (Isaías 55,6). Discernir as “falas” de Deus nesse meio todo é tarefa para quem crê e desafio também para quem não crê. Continuar vivendo com esperança, sem esmorecer, mesmo que nem tudo esteja claro. De uma coisa estou certo: Deus está no meio de nós e não está indiferente, e nem nos deixando à própria sorte. O Deus que confesso e creio é Senhor do Universo que nasceu de suas mãos e nunca o abandonou. Nosso grito por socorro ecoa em seus ouvidos, e seus ecos de retorno estão, neste tempo de pandemia, ressoando neste meio confuso em que estamos vivendo. É aí que estão as oportunidades de encontrá-lo em nosso hoje. Os sinais que Ele nos dá nem sempre são observáveis com nitidez, talvez estejam nas perguntas novas que nascem em nosso espírito. Fazer-se perguntas novas sobre a situação que estamos vivendo faz parte do discernimento para descobrir as suas “falas”. Então, qual a pergunta nova que a situação suscita em mim, em você? Discernir é ir além daquilo que já sabemos. O eco da fala de Deus pode estar sinalizado pelos questionamentos novos que nos fazemos diante dos sinais que estão presente em nosso mundo de hoje. Atentos a isso, saiamos um pouco de nossos lamentos e procuremos nos meandros de nossa realidade um tanto confusa os ecos da voz de Deus falando para

“Remexendo sempre na mesma sopa”

Estava lendo um livro e encontrei a seguinte expressão: “mexendo sempre na mesma sopa”. O autor fazia uma análise ampla da busca da integração psicoespiritual. Não vou reproduzir o que ele dizia, mas sim o que entendi ser um dos significados para esse “mexer sempre na mesma sopa”. Todos nós, humanos, temos duas características básicas: um “coração grande e um pequeno”, expressões usadas pelo autor. Vou me ater aqui ao “coração grande” como aquela tendência natural em nós que nos projeta para o alto, para o altruísmo, para o desejo de servir os outros, para ideais que desejamos alcançar, para projetos duradouros para nossa vida. O outro, “coração pequeno”, aquela dimensão que nos mantém muito voltados para nossas necessidades imediatas, busca de prazer, satisfações subjetivas, centradas em nosso egocentrismo. Essas duas tendências existem em nós por natureza, isto é, nascemos com elas. A questão é como buscar o equilíbrio entre elas. Se privilegiamos uma só em detrimento da outra ou caímos num espiritualismo histérico, ou num egocentrismo subjetivista que nos distancia dos outros e nos faz rodopiar em torno do próprio umbigo. Em ambos os casos, ficamos “remexendo sempre na mesma sopa”, ou seja, não progredimos como seres humanos, não atingimos as metas maiores que temos para a vida. Quer queiramos ou não, a vida está ligada a esses dois polos. O do coração pequeno é aquele que nos põe em contato com a realidade cotidiana, cheia de nuances desafiadoras, ao mesmo tempo em que temos de dar conta de nossos compromissos e estar em contato com as pessoas de nossas relações. Vivenciamos conflitos, desacordos, insatisfações, ou porque ficamos cansados de repetir sempre as mesmas coisas em nossa rotina de trabalho, ou porque não nos sentimos compreendidos ou valorizados como desejaríamos nas relações com os outros e acabamos insatisfeitos com nossas “insatisfações”. É nosso coração pequeno que fica girando em torno de si sem sair do lugar. Vira monotonia desgastante que, com o tempo, nos esvazia e nos faz perder o gosto por aquilo que antes considerávamos tão importante. Isso se dá nos vários aspectos de nossa vida. Por exemplo, na vida conjugal. Ao casarem-se, os dois fazem juras de amor eterno. Depois de alguns anos, começa um cansaço nas relações, e muitos não suportam mais e abandonam o juramento feito. Aquilo que antes era tão satisfatório vira “enjoativo” ou insuportável. Isso está relacionado ao “coração pequeno” que não se integrou, de forma equilibrada, ao “coração grande”, não descobriu ou cultivou sentidos maiores para a união, restringiu-se à satisfação do imediato e, ou, não aceitou as limitações do outro antes idealizado. Por outro lado, o “coração grande” é aquele que alimenta nossos sonhos de realização com as coisas maiores, valores perenes que nos colocam numa dimensão altruísta, alimentando nossos ideais e nossas crenças. Esse coração grande mal administrado pode causar desiquilíbrio em nossa busca, porque se desliga da realidade concreta e se torna quase que “fantasia”. Isso ocorre muitas vezes no aspecto religioso que, por si, poderia nos elevar, mas que se presta, muitas vezes, para fugir da realidade, virando espiritualismo estéril, desligado da vida concreta (coração pequeno). Também nesse caso, não houve integração entre o coração grande e o coração pequeno. Aí se verifica o “remexer na mesma sopa”. Isto é, não se integra uma espiritualidade genuína à realidade concreta e cheia de desafios. É mais fácil transferir para Deus resolver aquilo que é de nossa responsabilidade do que pagar o preço por nossas limitações e incoerências. “Remexer na mesma sopa” é o que acontece quando deixamos de nos questionar sobre nosso modo de viver. É certo que nunca conseguiremos uma homeostase (equilíbrio perfeito), contudo isso não nos impossibilita dilatar o coração pequeno para sair de seu ninho subjetivista e de o coração grande ser mais realista em seus sonhos. Somos imanentes e transcendentes ao mesmo tempo. Isso não depende de nossa vontade, porque isso é de natureza, o que fazemos com esses dois movimentos de subir e descer depende de cada um. Certamente que não é uma tarefa fácil, pois está ligada às nossas bases antropológicas que nos empurram para o alto e, ao mesmo tempo, obriga-nos a ficar com os pés no chão. “Remexer na mesma sopa”, no caso, é não se dar conta dessa realidade e ficar girando na mesmice de sempre, desanimando diante das exigências vitais que dão razão à nossa existência e nos refugiando em depressões que consomem as energias, ou virar “anjos” inocentes fora do contexto da existência, despersonalizados e insípidos. Haja caldo para continuar a “remexer nessa sopa”! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Bocas famintas

Eu que escrevo, você que me lê, diariamente, temos três ou mais refeições para saciar nosso apetite. Assim acontece com 90% dos brasileiros; somos a maioria! Contudo os outros 10%, segundo noticiários, não têm o que comer. Passam fome. As sobras de nós, os 90%, amenizariam certamente boa parte dos 10%. O Brasil é o maior produtor de alimentos de origem agrícola e de proteína animal. Exportamos milhões de toneladas que rendem milhões de dólares. Pois é, e sobram 20 milhões de pessoas que passam fome! Fico estarrecido diante dessa realidade. E me incomoda que eu faça tão pouco para ajudar a saciar essa gente. Sei que uma ação solitária resolve pouco, embora possa amenizar a fome de algumas pessoas. E as outras? O que dizer para uma mãe que tem três ou quatro filhos e acordar sem ter o que dar de comer para eles? Há gente que se sensibiliza e ajuda como pode, há gente insensível que até critica essas pessoas, dizendo que não trabalham e querem viver às custas do governo. Pode ser até verdade em alguns poucos casos, mas não se aplica à maioria. O pobre é frequentemente pobre em tudo. Não tem escolaridade, vive num ambiente pobre, não tem perspectiva de futuro, vive na esperança de ganhar alguma cesta básica. Não tem qualificação profissional, seu salário é baixo; em muitos casos, nem carteira de trabalho tem. Catam latinhas e plásticos descartados de nossas casas. Tentam sobreviver assim. No meio deles, às vezes, há os malandros que viciam as crianças na droga e, depois, elas se tornam dependentes. Em muitas famílias, muitas delas desestruturadas, reina um ambiente nocivo e frequentemente agressivo; a fome é apenas um dos problemas. Nós, os 90%, acostumamo-nos a esquecer essa realidade ou estamos “vacinados”, já “imunes”, achamos “normal” essa situação. De vez em quando, lamentamos a situação quando vemos casos desesperados de mães que imploram. Passada a comoção, voltamos a nosso cotidiano, tendo boas intensões, desejando que tenham boa sorte. Enquanto nossa mente e coração ficarem presos ao lucro a qualquer preço, ao acúmulo sem medida em nossas mesas, enquanto não recuperarmos a sensibilidade humana para com os humanos, essa situação vai persistir. Para resolver o problema da fome, bastaria distribuir melhor um pouco do que produzimos em alimentos, contudo somente isso não resolve a situação da pobreza. É preciso uma atitude que vá desde nós, que comemos todas as refeições que queremos diariamente, até aqueles que têm a responsabilidade política e administrativa para mudar essa ideologia capitalista que não vê o outro como pessoa, mas apenas como crachá que produz. Como podemos ficar com a consciência tranquila quando vemos que cachorros e gatos são mais bem tratados do que pessoas? Uma cena inusitada diante de um pobre que pede comida e a ração de primeira para o cachorro de estimação. Gasta-se o que for necessário pela ração, mas não tem um troquinho para um pão para o faminto. Ao cachorrinho se dá todo o conforto e carinho; ao pobre, o olhar de desprezo e pede-se que não volte mais a bater à porta. Não estou dizendo que os animais devam ser maltratados, mas que se tivesse com o ser humano um pouco mais de compaixão e solidariedade, que o tratamento ao humano fosse próximo àquele que dispensado aos animais. Quem sabe, assim, a fila das bocas famintas diminuiria um pouco? Na consciência dos “humanos”, os 10% dos brasileiros famintos pesam mais do que os 90% de saciados. Esse escrito é só uma reflexão, constatação! Deus nos ajude e nos mova a alguma ação em favor de pão para as bocas famintas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Diálogo

A palavra diálogo tem sua raiz no grego, cujo prefixo “diá” significa “através de” e “logos” que quer dizer “palavra”, “saber”. Resumindo: diálogo é o processo de conhecimento através da palavra. O diálogo, nesse sentido, envolve sempre duas ou mais pessoas que, pela conversa, buscam o conhecimento sobre um determinado assunto. É uma conversa interativa entre duas ou mais pessoas. Supõe, portanto, que um compreenda o outro em sua maneira de ver o mundo e interpretá-lo. Parte-se do princípio de que todos têm algo a contribuir na busca da verdade. Para dialogar, é preciso uma atitude de abertura para acolher a opinião do outro, livre de preconceitos, procurando ouvir o sentido real da forma como o outro vê. Muitas vezes, ocorre que, quando alguém começa a emitir uma opinião, alguém já o corta e diz “Ah, já sei o que você quer dizer”, e conclui pela pessoa, sem dar ouvido às conclusões do outro, que podem ser bem diferentes do “ah, já sei”. Num diálogo nem sempre se chega a uma conclusão consensual. Na verdade, não se é obrigado a concordar com alguém se a opinião dele diverge frontalmente com as próprias convicções. Contudo o bom dialogante respeita a opinião divergente sem se tornar inimigo ou beligerante. O diálogo supõe respeito pelo outro e pelo que pensa. A Campanha da Fraternidade deste ano de 2021 propõe “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Ela é ecumênica, que significa que várias igrejas cristãs participam dela, sendo que cada uma tem a própria doutrina, com alguns aspectos divergentes umas das outras, contudo o diálogo é possível sobre os pontos em comum. O grande objetivo da campanha é a busca da “paz” oriunda de Cristo. Como a Campanha diz, Cristo é nossa paz. Quanto a isso todas as igrejas participantes concordam, e o diálogo é feito para realizar essa paz na sociedade dividida por discórdias, ódios, separações, preconceitos. Num mundo tão plural em ideias e ideologias, mais do que nunca, é necessário o diálogo permanente na busca da verdade para uma convivência pacífica. O igualitarismo seria tedioso e negaria uma característica humana que é a da complementariedade em todos os níveis. Nenhum cientista é capaz de realizar todas as descobertas. Cada nova iniciativa de pesquisa sempre parte de algo já conhecido, portanto, de alguém que pesquisou antes e abriu janelas para novos conhecimentos. Nesse sentido, nenhuma ciência é completa em si mesma. A Física precisa da Química, que precisa da Matemática, que precisa da Sociologia, da Filosofia, da Teologia; assim cada uma contribui com o seu saber para complementar o conhecimento mais amplo do mundo e da complexidade que envolve o universo. Pode-se falar em diálogo então em todos os níveis, desde a convivência familiar, diálogo entre seus membros; da convivência social com grupos heterogêneos; das relações entre povos e nações; das teorias econômicas, das relações de negócios; das crenças diferentes, das cosmologias discutidas nas diversas teorias. Dialogar é preciso para manter viva uma característica básica do ser humano, que é a convivência com seus pares e com o mundo em que habita. Não estar aberto ao diálogo é caminhar na contramão da vida e fechá-la em horizontes muitos pequenos. Quem não dialoga se perde no próprio caminho e se distancia da convivência pacífica com os demais. O diálogo envolve um aprendizado, que supõe respeito pelo outro e pelo que pensa, admitindo que a verdade total não está só de um lado e que há espaço para todos e liberdade de expressão das próprias ideias e sentimentos. O bom senso diz que ninguém pode ultrapassar os limites quando isso ofende, intimida ou menospreza o outro. A liberdade de cada um termina onde começa a do outro. Dialogar é também respeitar limites. Por isso é dialogando que se pode chegar ao mais próximo da verdade. Ninguém dialoga sozinho, isso seria manifestação de doença psíquica. Dialogar, portanto, implica relação com o outro. Dialogar é abrir a porta para a convivência sadia e humanizadora. Humanize-se dialogando! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

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