Plantando esperança…

“Levo comigo a lembrança da senhora que encontrei em Boane, distrito próximo a Maputo, Moçambique. Se ela soubesse o quanto me fez bem falar com ela naquela simplicidade, vendo-a encurvada sobre sua enxada…” Às vésperas da abertura do Jubileu de 2025, padre Deolino Pedro Baldissera partilha uma valiosa experiência em sua missão. Imperdível!

Páscoa: acontecimento iluminado e sempre novo

Celebramos novamente a Páscoa, nossa principal festa cristã. Celebramos a ressurreição de Cristo. Esse é o fato mais importante da história da humanidade, embora muitos não o reconheçam. Na verdade, trata-se de um mistério de nossa fé. O fato de ser mistério não significa ser incompreensível. Nós conseguimos entender até onde nossa inteligência é capaz e nossa fé alcança. O mistério sempre ultrapassa os horizontes humanos e se insere na esfera do divino. A ressurreição de Jesus é um fato histórico testemunhado não apenas pelos discípulos de Jesus, mas por muita gente; como São Paulo diz, mais de quinhentos. Não somente as aparições do Ressuscitado são testemunhas de sua ressurreição, mas também o que ocorreu depois dela na vida dos apóstolos e de outros seguidores. Prova ainda da ressurreição de Cristo é o fato de ela ter acontecido há mais de 2 mil anos e continuar presente nos corações dos milhões que hoje creem sem ter visto. Não podemos imaginar que tantas pessoas que acreditam na ressurreição sejam tolas ou ignorantes, com mentalidade arcaica. Pelo contrário, há pessoas, desde as mais simples até as mais cultas, que professam a fé na ressurreição e pautam suas vidas por essa verdade. A ressurreição de Cristo trouxe uma esperança de que a vida não termina no cemitério. Sua palavra transmitida pelos evangelhos e cartas dos apóstolos nos falam que “quem com Cristo morre com ele ressuscita”. Nós professamos na oração do creio “Creio na ressurreição da carne…”. Diante disso, faz sentido rezar pelos nossos falecidos, recomendando-os à misericórdia de Deus; caso contrário, seria vã e mesquinha nossa crença e esperança. Quando celebramos a festa da Páscoa a cada ano, não é apenas uma recordação do fato histórico. Celebramos um acontecimento novo que irradia luz nova, renova nossa vida e estimula a vivermos de acordo com o que professamos. Nós costumamos desejar uns aos outros “feliz Páscoa”. Nesse desejo, está implícita a alegria de nos sentirmos salvos pela morte e ressurreição de Cristo. Esse desejo proclama a certeza da vida eterna no ressuscitado. A Páscoa, simbolizada no círio pascal, aceso e presente nos batismos de novos cristãos, lembra-nos de que ela é luz para nossa vida e, em sua luz, somos convidados a ser também luz no mundo. Celebremos a Páscoa com a mente e o coração. A mente que nos faz aceitar o mistério que nela está presente, o coração que nos faz experimentá-la como realidade profunda que preenche nossos espaços íntimos e direciona nosso agir cotidiano. Que tenhamos todos uma “feliz Páscoa” permanente e jubilosa, reacendendo nossa fé e esperança. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Ter compaixão

Ter compaixão é um indicativo para quem tem o desejo de sintonizar-se com outro. A compaixão abre as portas para uma saída em direção ao coração de quem sofre e precisa de solidariedade. A palavra traduz, mais ou menos, o significado de pôr-se na pele do outro e sentir o que sua vida pede quando está em sofrimento. Para tanto, é necessário treinar-se na sensibilidade para perceber o que se passa na vida do outro. Em nós, existem duas tendências: uma de ficar encarcerado em si, pensando apenas nas próprias necessidades, indiferentes ao sofrimento alheio; e a outra tendência que se abre para o convívio solidário com o outro. Jesus viveu a compaixão ao extremo. Ele treinou seus discípulos, muitas vezes, para serem compassivos. Por exemplo, quando eles queriam que Jesus dispersasse a multidão que foi até ele em busca de saúde e alívio dos sofrimentos. Jesus teve compaixão da multidão e disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? Só tinham cinco pães e dois peixes! Era tudo o que tinham de provisão para si próprios. Jesus lhes disse que colocassem à disposição aquela pequena reserva. Multiplicados os pães e os peixes, saciada a multidão e com sobras de sete cestos, a compaixão de Jesus se tornou gesto educativo. Os discípulos estavam no aprendizado de como serem compassivos. A compaixão está associada à misericórdia; ambas se tornam um sinônimo de soerguimento do outro que está fragilizado. A compaixão aproxima, e a misericórdia compreende e salva. É uma fórmula concreta do amor ativo em ação. É uma linguagem compreensível para todos, porque visa, em primeiro lugar, a salvar a vida e a reconhece como dom acima de qualquer outro. Ter compaixão é ser humano, lá onde a dor desumana está presente, debilitando as forças e ameaçando as resistências da sobrevivência. No fundo, todos, em algum momento da vida, precisam da compaixão de alguém. Ninguém se basta a si mesmo. Por isso a compaixão é tão natural que devia estar presente nas ações humanas, sempre! Contudo a experiência nos diz que não é assim. Como explicar que possa haver tanta gente, por exemplo, morrendo de fome? Cadê a compaixão? Se estivesse ativa, isso não aconteceria. Ela deve estar adormecida ou inebriada por outras coisas, deu lugar à indiferença e à insensibilidade, e assim essa força tão humana se torna tão desumana que não vê o outro necessitado, que fica ignorado em sua fome. Todos aprovamos gestos compassivos porque eles mexem com a sensibilidade e nos aproximam uns dos outros, e resgatam em nós o desejo de fraternidade impresso em nossa alma. Nascemos para isso, pena que, frequentemente, adormecemos em relação a ela e ficamos absortos, olhando para o próprio umbigo, desviando o olhar dos que gritam por compaixão. Ter compaixão, eis um exercício altruísta para o Tempo da Quaresma e um treino para sermos mais humanos e solidários. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

O que em nós precisa ser evangelizado?

Há algo em nós que precisa ser evangelizado? Façamos uma breve “pesquisa” honesta e tenhamos a coragem de olhar-nos de frente, sem subterfúgios. A seguir, um breve roteiro. Todos temos consciência de nossas finitudes e fragilidades que se manifestam em nossas atitudes e comportamentos. Por exemplo: em nossas mazelas; em nossos apegos; em nossos egoísmos; em nossas manias de julgamentos apressados sobre os outros; em nossos humores alterados; em nossas mágoas carregadas de rancores; em nossas malícias sensuais; em nossos preconceitos; em nossas percepções distorcidas da realidade interpretadas como reais; em nossa avidez por prestígio; em nossas prepotências em relação aos outros; em nossos apegos exagerados aos bens materiais; em nossas relutâncias em sermos solidários; em nossa indiferença diante do sofrimento alheio; em nossa preguiça em discernir à luz da Palavra de Deus; em nossa autossuficiência; enfim, em nossos pecados. Eis aí uma pequena lista de aspectos que precisam ser mais bem evangelizados em nós. Nosso discurso religioso de cristãos nos remete sempre ao Evangelho. É ele o referencial para uma vida realmente digna, ele nos mostra o caminho da verdade. Se olharmos os itens apontados acima, veremos que, em muitos deles, estamos com notas vermelhas, reprovados, precisando de recuperação. Cada um sabe onde sua fraqueza predomina, seu “espinho na carne”, em que precisa melhorar, ser mais autêntico e transparente. O caminho para a santidade é exigente. Ninguém está dispensado do esforço de conversão. Cotidianamente, nós nos deparamos com nossas fraquezas, e elas sugerem que temos caminho pela frente que exige empenho e compromisso. A vivência do Evangelho está ao alcance de todos, mas é preciso assumi-lo com convicção e seriedade. Muitos de nós cristãos o somos somente em palavras, sem comprometimento de coração. Salvam-se as aparências com algumas rezas ou ações beneficentes, mas a vida mesma está longe do compromisso fiel e perseverante com as exigências evangélicas. Fazendo um pequeno teste, podemos nos expor, por exemplo, ao Evangelho, quando nos diz: ame seus inimigos e reze por eles. Perdoe até setenta vezes sete. Vista o desnudo, dê de comer a quem tem fome. Não julgue. Visite o doente. Quem quer ser o maior seja o que mais serve! Diante do Evangelho, não temos aposentadoria, isto é, permitirmo-nos à indiferença porque já rezamos tanto e fizemos tanta caridade. Como se vê, temos muito a evangelizar em nós mesmos! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Fim de ano e início de ano

Na história de cada um e na universal, todos os anos, celebramos um fim de ano e um ano novo. Cada vez, renovam-se as esperanças de que algo novo aconteça no ano novo. Ninguém quer celebrar a vida com tristeza e desesperança. Muito embora haja pessoas que, devido a doenças ou outros fatores, temem que o próximo ano seja o último de sua vida que durou os anos que tem. Mesmo assim, espera-se que o ano novo renove as esperanças e dias promissores apareçam. A contagem do tempo é assim. Medimos em dias, meses e anos. O mundo existe há milhões de anos, ninguém sabe ao certo. A história humana tem várias hipóteses que apontam para números calculados pela matemática especializada. Recentemente (!) nossa história mudou a contagem dos anos a partir da data do nascimento de Jesus. Ficou estabelecido em “antes” e “depois”. É daí que dizemos que o ano novo será 2023. A história assim mudada marcou um fim e iniciou um novo começo. Um fim do tempo de espera do Messias e um começo de sua presença salvadora no meio de nós. Se a data assim mudada se revestiu de sentido novo, então, ao celebrarmos um ano novo, temos como referência esse acontecimento, que, para nós, cristãos, é histórico. Deus se encarnou no meio de nós. Jamais houve fato assim e nunca mais haverá outro a não ser por ocasião de sua segunda vinda. Esse fato histórico abriu uma história nova que nos permitiu restabelecer contato com Deus e fazer com ele comunhão, e vivermos com esperança de que a vida não acaba nunca. A morte é apenas uma despedida deste mundo para uma mudança para outro nível, o da eternidade. Lá não celebraremos mais ano novo, porque tudo será novo e eterno. Enquanto nossa vez não chega, e ninguém tem pressa quanto a isso, vamos celebrando um novo ano, desejando uns aos outros o feliz Ano Novo, com festa e alegria. Afinal, celebrar a vida é sempre bom, melhor ainda quando ela está em paz, limpa de ódios e rancores. Ano novo é para ser novo mesmo, não apenas mudança de data no calendário. Para que isso aconteça, é necessária uma atitude interior, que brote do coração, sem fingimento, acreditando de verdade em dias melhores, começando com a melhora de si e com a contribuição de cada um. O mundo se renova conforme nós agimos com positividade, reconhecendo os próprios limites, mas também acreditando que podemos pôr o nosso lado bom a serviço dos outros, construindo uma convivência mais sadia. Então, que venha o novo ano, trazendo felicidade e assim vamos desejando uns aos outros FELIZ ANO NOVO! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Celebrar o Natal

De ano em ano, no dia 25 de dezembro, celebramos a festa do Natal. Parece automático: todo mundo planeja fazer festa em família, preparar uma ceia apetitosa ou um almoço festivo. Há até certos produtos que, por tradição, entram no cardápio, como peru, chester; isso vale para quem tem condições de comprar tais ingredientes. Nem todos podem. Alguns se contentam com um franguinho e uma farofinha. São coisas de se fazer na celebração do Natal. Embora seja legítimo e desejável, isso não é celebração do Natal cristão se não vier acompanhado do verdadeiro sentido da festa. Natal cristão, em primeiro lugar, é celebrar a presença de Emanuel, Deus conosco, que se fez pessoa humana em nosso mundo. Armou sua tenda no meio de nós. É a presença inédita de Jesus, o enviado do Pai, que tomou corpo humano. Celebrar seu nascimento significa reconhecê-lo homem-Deus que veio para salvar. Seu nascimento mudou a história em antes e depois. As promessas feitas pelos profetas se cumpriram, e as expectativas foram contempladas. Todos se beneficiaram de seu nascimento, até os que não acreditavam. Ele veio para todos, sem exclusão. A vida, desde então, passa por ele. Tudo se fez novo com ele. É com ele, por ele e nele que tudo recebe sua marca. Nenhuma obra da criação ficou de fora. Tudo foi redimido por Cristo, em sua morte e ressurreição. Seu Natal foi o começo dessa obra realizada em três anos de atividades como Messias entre nós, mas sua ação se perpetuou para sempre. Não virá outro Messias; é Ele e somente Ele por toda a eternidade. Viver o Natal nos reporta aos fundamentos de nossa fé e de nossa esperança. Nas tradições natalinas, relembram-se costumes, repetem-se desejos de feliz Natal, armam-se presépios, enfeitam-se pinheirinhos, dão-se presentes, iluminam-se as ruas e as casas com luzes cintilantes. Há um clima que pervade tudo e todos. Existem diferentes sentimentos e objetivos, mas não se pode negar que tudo indica um tempo novo que convida à convivência familiar, com salutares encontros. Que o espírito de Natal seja o da alegria de celebrar a vinda do Filho de Deus entre nós. Ele veio, morou conosco. Viveu nosso cotidiano, salvou-nos, dando sua vida, e continua conosco, não mais em carne e osso, mas numa presença misteriosa que alimenta a vida cristã, na Eucaristia que celebramos em seu nome. Feliz Natal, dizemos uns aos outros. Que esse desejo se traduza na vida prática, numa convivência sadia, solidária e fraterna, eliminando tudo aquilo que nos afasta uns dos outros. Boas festas e FELIZ NATAL! AMÉM! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Pôr os pés para fora da cama

Todos os dias, quando nos levantamos da cama em que dormimos, tiramos nossos pés dela e projetamos o corpo para fora. Começamos uma nova jornada. Podemos dizer que ressuscitamos de novo, para um novo dia cheio de atividades. Esse ato tão cotidiano e repetitivo de nossa rotina diária pode ser tomado como simbólico de muita coisa que acontece em nossa vida. Por exemplo, quando passamos por uma grande dificuldade que nos expõe diante de nossos limites, chegando à prostração; se lutamos para superar tal situação, temos a sensação de reviver ou ocasião para “respirar” de novo. Passa o sufoco. É como acordar de novo e retomar a luta. Se olharmos bem, são frequentes situações em que temos de acordar e pôr os pés no chão da vida. Há, porém, pessoas que, por sua postura, parecem continuar permanentemente deitados em “berço esplêndido”, desejando que seja sempre hora de dormir, pois têm preguiça de acordar para a vida e enfrentar, de cabeça erguida, os problemas. Não se preocupam com a luta que exige posturas mais altaneiras. Se é verdade que há pessoas assim, é verdade também que a maioria não é assim e aceita a condição que obriga a pôr os pés para fora da cama. A atitude de recomeçar faz parte de nosso existir, quer queiramos ou não. Ressuscitar para o dia a dia é uma espécie de “treino” para o último ato que pertence a Deus, de nos “levantar” na ressurreição dos mortos, o que professamos na fé cristã. Na verdade, a cada dia que levantamos de nosso leito, fazemos um exercício de fé, mesmo que de modo inconsciente, pois damos como pressuposto que ele vai transcorrer bem, segundo nossas expectativas. Nem precisa pensar muito, o hábito nos condiciona a ligar o “piloto automático” e percorrer as horas segundo programadas em nossos rituais e afazeres, até chegar a hora de ir para a cama novamente, para, na manhã seguinte, pôr de novo os pés para fora dela e reiniciar tudo. A rotina da vida exige de nós “pôr os pés no chão” e encarar a realidade com realismo, sem fantasia demasiada. Sair da nostalgia e abraçar os desafios é a missão de cada um que deseja progredir e viver a vida como ela se apresenta. Ficar em atitude passiva, esperando que as coisas aconteçam ou caiam prontas do céu, é permanecer na “cama”, dormindo, enquanto a vida passa. É necessário “fazer por merecer” o que se deseja, sonhar só não basta; pôr a mão na massa se quiser ver a “construção subir”. Há pessoas sufocadas por problemas e que perdem o ânimo de viver, prostram-se diante deles, e a depressão chega para mantê-las para “baixo”, inclinadas em seu desamparo, num leito de dor. Como em todas as manhãs, é preciso pôr os pés para fora da cama e projetar o corpo para frente. É necessário ressuscitar diante das cruzes e acreditar que sempre é possível seguir em frente, mesmo quando a fragilidade parece ser maior que as forças para superá-la. Acreditar na vida é condição para vivê-la e desfrutar daquilo que ela oferece. Deitar-se, mesmo que seja em “berço esplêndido”, sonhar um pouco para respirar pode ser útil, mas permanecer assim o tempo todo é viver fora da realidade e não saborear o gosto das conquistas avinda da luta que os passos dados realizaram. Jesus, diante de pessoas prostradas que lhe pediam ajuda, dizia-lhes: “Levanta-te, toma teu leito e caminha”. Nunca as aconselhou a ficar se lamentando do passado difícil e sim a retomar o caminho. “Não voltes a teu passado” (não peques mais). Ficar de pé cada manhã é sinal de esperança. É gesto que nos põe em movimento, andando para frente e caminhando para o futuro. Por isso continuemos “pondo nossos pés para fora da cama”. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Todos querem a paz de volta

Depois de tantas polêmicas e confusões nas disputas eleitorais que se deram no País, gerando um nível de estresse nunca visto, todos estão ávidos por dias de paz. Houve ganhadores e perdedores. A maioria venceu e agora é esperar que os eleitos façam bom governo, cumpram o que prometeram. Queremos paz! Este nosso mundo conturbado não somente pelas eleições como também pela guerra que se trava entre Rússia e Ucrânia, e outras mais, gerou um clima de “quase desespero” entre as pessoas de bem. Quantas perguntas foram feitas em busca de respostas para situações tão conflitantes? O nível de saturação emocional chegou ao limite, e muitas pessoas não o suportaram e ficaram doentes. O ideal proclamado em revoluções por liberdade e paz ficou à mercê de muitas confusões e ideologias. Há no ar um pedido de socorro mudo que se reflete nos rostos angustiados. Quanta gente desnorteada, enganada por fake news e mídias tendenciosas que geram confusão mental e levam a situações extremas. Há uma busca por “salvadores da pátria”, pouco disponíveis nos grupos políticos, que estão sem credibilidade, ou nas múltiplas igrejas que propagam um deus segundo seus interesses, que, na verdade, desvirtuam o Deus revelado na Sagrada Escritura. Deus se tornou um fantoche que se presta para justificar posições antagônicas e anacrônicas. Nunca se falou tanto de Deus, infelizmente desfigurado, exigindo desse falso deus milagres que resolvam problemas muitas vezes mesquinhos e satisfaça interesses poucos altruístas. No meio de tantos conflitos, o coração humano geme por um pouco de paz. Queremos paz, chega de problemas, de disque-disque. Queremos respirar um tempo novo de paz e harmonia. A paz desejada não é aquela que se obtém por “tratados” entre guerreadores, mas aquela que acalma o espírito e lhe dá sossego. Queremos o shalom de Deus, aquela paz que traz os bens celestes que reacendem no peito o eco do verdadeiro amor. Queremos rezar com o salmista quando diz “Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio” (Salmo 91), ou ainda com o Salmo 121: “O senhor me guardará de todo o mal, Ele guardará a minha vida”. Na verdade, essa situação toda escondeu o amor de Deus por nós. Ele sempre esteve a nosso alcance, mas nossas perturbações nos desviaram dele e ficamos acéfalos, perdidos em nossas doideiras, distantes do verdadeiro discernimento. Queremos paz. Paz, paz de espírito, paz que revigore nossa mente e coração e nos faça voltar à harmonia e ao convívio social, sem brigas, sem ódios, sem rancores. Precisamos de paz e é nisso que vamos agora nos concentrar. Você que é pessoa de bem, una-se às demais pessoas de bem e, juntos, reconstruamos os vínculos desfeitos e reacendamos nossa esperança. Lutemos por um mundo melhor. Deixemos nossas preferências políticas e busquemos o bem maior que nos une a todos, formando a corrente do bem. Penitenciemo-nos dos males que provocamos e acreditemos no bem que somos capazes de realizar, convivendo pacificamente com os que pensam diferente, mas têm os mesmos desejos de paz e harmonia. Sejamos construtores da paz, divulgadores do shalom de Deus. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Nossa Senhora Aparecida: presença que toca o coração

Doze de outubro é um dia especial para nós, cristãos brasileiros. É a data em que comemoramos a festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Sob esse título, cultuamos e veneramos a Mãe de Deus, Maria. Ela foi a escolhida para ser a Mãe de Deus, Jesus Cristo, nosso Salvador. Por que Deus a escolheu, não nos cabe especular sobre os critérios do Senhor, mas aceitar o mistério de Deus que se revelou na encarnação de Jesus. Nós, no Brasil, veneramos Maria sob o título de Aparecida. Todos sabemos o porquê desse “aparecida”. Ela apareceu sob forma de uma imagem quebrada, pescada no rio Paraíba do Sul. Primeiro o corpo, depois a cabeça. Juntados, tornaram-se o ícone mais importante para o culto mariano no Brasil. Uma pequena imagem que mostrou o rosto de uma “mãe morena” que, no início, tocou o coração dos pescadores e seus familiares, depois foi tocando o coração dos vizinhos e se alastrando, e atraindo mais e mais gente até se tornar a padroeira do Brasil. Que fato extraordinário foi esse que atingiu o Brasil do sul ao norte, do leste ao oeste? A devoção à Aparecida está presente em milhares de igrejas e capitéis dedicados a ela, e em milhões de imagens nas casas de famílias. A presença da imagem nas casas não é um enfeite, mas uma presença “misteriosa” que toca o coração das pessoas. Diante dela, fazem suas orações e práticas piedosas. Maria se torna presente e participante (“membro”) da família que a acolhe. Desperta confiança, proteção e fé. Ela mexe com o íntimo das pessoas que rezam diante dela suas “Ave-Marias”, em que a saúdam com a saudação do Anjo, ao anunciá-la como a agraciada de Deus; bendizem-na como Isabel, agradecida por sua visita; reconhecem-na como Santa Maria e a ela pedem que rogue por eles, agora, por suas necessidades diárias, mas também a querem na hora final, na hora da morte. Maria é esperança, é confiança, é companheira, é mãe, é amor carinhoso. É presença que traz segurança. Nós queremos bem a ela, nós a amamos. Ela é e sempre será nosso modelo de seguidora fiel de seu Filho. Por ela, vamos a ele, e Ele nos confirma que Ela é nossa Mãe: “Filho, eis tua Mãe” (João 19,27)! Ave Maria, cheia de graça… Será sempre nossa padroeira. Rogue por nós e por nosso Brasil, hoje e sempre, Santa Maria, Mãe de Jesus e nossa Mãe. Amém. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Filhote de canguru

Os cangurus, quando nascem, vão diretamente para o marsúpio (bolsa na barriga da mãe). Eles nascem imaturos e precisam dessa proteção para se desenvolver. Ali, eles mamam e são protegidos. Ficam escondidos até mais ou menos dois meses, então começam a aparecer com a cabecinha para fora, saltitam buscando alimento na relva, próximo da mãe. Em torno de um ano, deixam definitivamente a bolsa materna, começando a ter vida independente e, aos poucos, tornam-se adultos, convivem com os outros cangurus, assumindo os papéis próprios dos cangurus adultos. São inofensivos. Somente atacam quando se sentem ameaçados. Em alguns aspectos, nós, humanos, somos parecidos aos cangurus. Também nós, quando nascemos, precisamos dos cuidados maternos, leite, proteção, afeto. Normalmente, a criança se alimenta com o leite da mãe durante seis meses e aí começa a receber alimento mais sólido até não necessitar mais do peito materno. Deixa de mamar, mas continua precisando de proteção e afeto até ficar adulta. Conforme cresce, vai adquirindo mais autonomia. Passada a adolescência, assume papéis e responsabilidades, e convive nos grupos sociais, interagindo como uma pessoa adulta. Esse deveria ser o processo normal e é o esperado pelos demais. No dia a dia, contudo, há muitas pessoas adultas em idade, mas que se comportam e continuam como cangurus bebês. Não conseguem viver independentes do “colo” materno. Buscam pessoas que lhe façam às vezes de mãe, babá permanente. Suas relações são marcadas por apegos exigentes e permanecem infantis em sua busca de proteção e afeto. Não amadurecem afetivamente. São homens, mulheres, em idade cronológica de adultos, exercendo papéis de adultos, são responsáveis, têm competência profissional e, no entanto, na parte emotivo-afetiva, comportam-se como crianças. Não amadureceram e reagem às desatenções com atitudes que destoam do comportamento esperado. Continuam na dependência dos cuidados “maternos” como cangurus que não conseguem abandonar o marsúpio. Essas situações aparecem em diferentes formas de conduta. Há pessoas que abrem mão de sua autonomia, renunciam a uma personalidade própria, contanto que alguém se encarregue de cuidar delas, são dependentes. Há outras que, de modo mais disfarçado, procuram dominar outras pessoas para tê-las a seu serviço, comprando o afeto com favores e outras formas de recompensa. Há também aquelas que tentam nutrir sua afetividade imatura com chantagens emocionais ou mesmo com doenças. Existem ainda as pessoas que se fecham num mundo à parte, como solitárias, desligadas da vida dos demais. Outras tantas reagem às frustrações afetivas com vitimismo escandaloso, chamando atenção pelo exagero de suas “dores”. Muitas outras formas poderiam ser elencadas. Esses exemplos ilustram o quanto a questão afetiva é importante no processo de crescimento e amadurecimento. Nas questões afetivas, a maturidade não se mede pelo número de anos que a pessoa tem. Uma pessoa de 50 anos pode ser mais imatura do que uma de 25. Em geral, a causa do problema se encontra nas interações mal dosadas do início da vida. É nesse período que os desequilíbrios começam e a responsabilidade maior recai sobre os “cuidadores”, isto é, as pessoas mais significativas na vida da criança (mãe, pai…). O aspecto afetivo é determinante para o equilíbrio de relações sadias. Criança mal-amada, em geral, será adulto problemático. Cuidar bem delas enquanto não sabem se autogerir é garantir-lhes a possibilidade de serem adultos independentes, capazes de convívio sadio com os demais. Os filhotes de cangurus, quando adultos, não precisam mais do marsúpio, porque, aos poucos, aprenderam a cuidar de si como independentes, mantendo-se em comunhão com seu grupo. Conforme crescem, seus “pais” deixam que vivam suas vidas, integrando-se como adultos na sociedade dos cangurus. Quem sabe nós, humanos, poderíamos aprender algo com os cangurus? Para nos tornar pessoas maduras não apenas no tamanho físico e na competência profissional, mas também nas relações sociais equilibradas e sem muitos subterfúgios que atrapalhem a autonomia sadia, as quais permitam um convívio mais harmonioso com os demais. A maior parte das relações conflituosas se deve à imaturidade afetiva. Há adultos que se comportam como crianças manhosas as quais se emburram diante da menor frustração e se abraçam em seu vitimismo, pelo qual lamentam seu “abandono” e sofrem pela falta que sentem de afeto e reconhecimento. Filhote de canguru cresce e se torna independente, homem e mulher adultos deveriam ser assim também, mas muitos não o são porque ainda dependem do “marsúpio” de alguém que lhes faça as vezes de mãe/pai, pois ainda não sabem se virar sozinhos. Seu eu infantil continua reclamando cuidados maternos porque, defasados em seus afetos, sentem-se desamparados quando alguma contrariedade os afeta. Adultos carentes são problemas permanentes nas relações com os outros. Canguru adulto vive sua condição como tal, homem e mulher adultos nem sempre. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

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