Cristo é a nossa paz

Em 17 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, iniciamos a Quaresma. Também nesse dia, em todo o Brasil, abrimos a Campanha da Fraternidade (CF) que, neste ano, tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a). Esta CF nos convoca a todos para a construção de um mundo no qual reine a paz verdadeira, que nasce como fruto do diálogo e do compromisso de amor. O tema vem de encontro a um mundo dividido por ideologias, ódios, injustiças sistêmicas, notícias falsas (fake news) que perturbam a paz e a convivência pacífica entre pessoas e povos. Nosso mundo, que está marcado pela pandemia, a qual já trouxe tanto sofrimento a milhões de pessoas, precisa de paz e solidariedade para superar os males causados pelas doenças e para a construção de uma nova humanidade. A tarefa de superar as divisões e os males precisa ser assumida por todas as pessoas de boa vontade, pelos governantes das nações e por todos aqueles que têm responsabilidades que afetam o espírito de convivência pacífica e ordeira. A verdadeira paz é fruto do protagonismo do Evangelho que nos ensina que todos somos irmãos, mesmo que nascidos de pais biológicos diferentes. A imagem e semelhança colocada em nós pelo próprio Deus é fonte e certeza de que é possível uma vida mais humana, mais esperançosa e menos conflitiva. Nossas esperanças se voltam para todos os que podem contribuir com seu testemunho, deixando de lado toda desavença e disputa. A experiência da pandemia nos mostrou que todos somos frágeis e precisamos uns dos outros. Para superar esse mal, nossa esperança se volta para as vacinas que começam a ser injetadas em defesa do organismo, para combater o vírus. É uma luz diante do caos vivido por um ano inteiro. Superar, contudo, a pandemia é um dos desafios que nos afligem. A CF nos encoraja a superar todo tipo de divisão e a estabelecer novos modos de convivência que vençam tantos outros males que vão além da pandemia. A campanha nos propõe uma constante conversão como processo permanente. Ela nos pergunta “sobre como nos envolvemos com as transformações sociais, econômicas, espirituais, ecológicas, individuais e coletivas, a fim de que sejamos cada vez mais coerentes com os ensinamentos de Jesus nos evangelhos”. E prossegue dizendo: “Jesus nunca orientou seus discípulos e discípulas a criarem inimizades e perseguirem outras pessoas em seu nome”. A Quaresmo é um tempo de conversão. São 40 dias em que somos convidados à prática da oração, do jejum, da partilha do pão. “Viver um jejum que agrade a Deus e que conduza à superação de todas as formas de intolerância, violências e preconceitos.” O Tempo de Quaresma, de modo particular neste ano, incentiva-nos, nas palavras do poema de D. Pedro Casaldáliga, a viver a paz inquieta: “Dá-nos, Senhor, aquela paz inquieta que denuncia a paz dos cemitérios e a paz dos lucros fartos. Dá-nos a paz que luta pela paz! A paz que nos sacode com a urgência do Reino. A paz que invade, com o vento do Espírito, a rotina e o medo, o sossego das praias e a oração de refúgio. A paz das armas rotas na derrota das armas. A paz do pão da fome da justiça, a paz da liberdade conquistada, a paz que se faz ‘nossa’, sem cercas nem fronteiras. Que tanto o ‘shalon’ como ‘salam’, perdão, retorno, abraço… Dá-nos a tua Paz, essa paz marginal que soletra em Belém e agoniza na Cruz, e triunfa na Páscoa. Dá-nos aquela paz inquieta, que não nos deixa em paz!” Como no caminho de Emaús, no diálogo entre os dois discípulos e o desconhecido os levou a ter uma nova compreensão dos fatos, nós também somos convidados a descobrir, em nossa história, a história de salvação que Cristo vem operar aos que aceitam trilhar os caminhos por Ele proposto, numa visão nova de comunhão que vence os medos e nos torna anunciadores da realidade inaugurada pela Ressurreição de Cristo. Só com Ele, superaremos as visões distorcidas da história e encontraremos o caminho de volta ao convívio alegre com os irmãos de caminhada. Que a paz de Cristo habite em nós e em nosso mundo. É com esse espírito que queremos iniciar a Quaresma e a Campanha da Fraternidade de 2021. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
O segredo do bambueiro

Todos conhecem pés de bambu. Os bambus nunca vivem sozinhos. Se você planta uma muda só, logo, logo, ela cria outros rebentos e, aos poucos, forma uma touceira. Nas touceiras, existem hastes de diferentes tamanhos, espessuras, idades, e todas, segundo suas proporções, balançam ao sabor do vento, com leveza ou com grunhidos quando uma toca na outra, mas sempre na direção do céu. Há hastes que crescem, engrossam mais que outras, mas todas encontram seu espaço vital, desfrutam de claridade suficiente para se desenvolver e, conforme crescem, naturalmente vão soltando os revestimentos que envolvem seus gomos. Com o passar do tempo, aqueles bambus que nasceram primeiro vão secando e dando lugar aos outros que vão nascendo, e assim o bambueiro vai se eternizando. Eles sempre se renovam, o verde está sempre presente, e é bonito olhar os bambus. Embora eles se tornem muitos, todos convivem bem, apesar do vento que causa, de vez em quando, certa choradeira entre eles. Mas, passada a ventania, eles voltam à sua paz e seguem seu ciclo vital. Há, porém, um segredo que os mantém vivos, e ele se esconde sob suas raízes. Dizem que os bambus, quando nascem espontaneamente, nascem em solos onde há água em suas subjacências. Eles precisam muito dela para viver, e isso é um segredo que eles passam de geração em geração. Longe da água, vivem menos tempo e não ficam tão viçosos. Perto dela, vingam melhor e preservam suas origens, e sempre crescem em direção ao céu, embora olhando para a terra. Fico imaginando que os bambus, em muitos aspectos, assemelham-se aos humanos. Como eles, nós também não vivemos sós. Aliás, se alguém quiser viver sozinho, logo, logo se estafa, deprime-se, fica triste e adoece. Porque nós, humanos, somos feitos para viver juntos, como famílias, como grupos, como sociedade. Como os bambueiros, precisamos aceitar a convivência entre tamanhos e idades diferentes, e, como eles, também nós sofremos, de vez em quando, atritos e revezes causados pelos contratempos. E, nesse ponto, temos algo a mais a aprender dos bambus. Entre nós, humanos, temos dificuldade de lidar com os conflitos quando as ventanias da vida fazem balançar o equilíbrio que existia. Os bambus retornam à paz tão logo o vento cessa; nós, humanos, costumamos guardar rancores e falar mal uns dos outros, criando um ambiente em que a paz desaparece. Somos muito ambiciosos, queremos as coisas só para nós e aí criamos individualismo e subjetivismo danados. É difícil viver sem paz. A vida se torna pesada e fechada, os horizontes ficam estreitos, e cada um, em seu mundinho, fica reclamando de suas insatisfações. Nos bambueiros, é normal que cada um ceda espaço para o outro e perca um pouco de suas proteções. Suas cascas caem à proporção que eles vão ficando maiores e, sem vergonha, mostram seus meses e seus anos, vivendo intensamente seus dias. Nós, humanos, queremos conservar nossas aparências e resistimos em nos desfazer daquilo que não serve mais, perder nossas cascas, nossas proteções infantis e, por isso, nem sempre crescemos para a maturidade como poderíamos, e os horizontes ficam menores. Os bambus são espertos. Eles nunca se afastam das fontes de água que os saciam. Nós, humanos, às vezes, somos tão autossuficientes que achamos que podemos viver sem a força que sustenta a vida, que não está dentro de nós, mas precisamos acolhê-la para que se torne nossa força interna e nos faça crescer em transcendência, como os bambus que crescem em direção ao céu, alimentados pelo segredo da vida que está em suas raízes. A propósito, qual é o segredo de sua vida? Que tipo de fonte alimenta a sua vida? Se já sabe, não se afaste dela, porque corre o risco da sua própria ruína. Se não a descobriu ainda, investigue. Sem ela, você não tem futuro nem eternidade. Olhe o segredo do bambueiro. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
O eu em (como) vocação

Quando se pergunta a uma criança “o que você vai ser quando ficar grande?”, em geral, ela responde aquilo que o pai ou a mãe faz, ou então aquilo que alguma pessoa significativa ou que ela admira faz. Conforme cresce, porém, vai se deparando com muitas outras possibilidades de escolha. E aí começa uma busca mais consciente por uma definição do que vai ser na vida. É o eu em (como) vocação que se põe perguntas. Na verdade, não se trata apenas de escolher uma profissão, é mais que isso, é descobrir para que se tem vocação. O que dá sentido à vida, o que inclui uma profissão, mas vai além desta. Para se ter uma profissão, basta aprender um ofício, preparar-se tecnicamente para ele ou pegar o emprego que aparece, e pronto! Levantar-se de manhã, tomar a condução, trabalhar oito, nove horas seguidas, depois voltar para casa e, no fim do mês, receber seu salário, e está resolvida a questão da profissão. Quanto à vocação, é algo mais complexo, porque ela diz respeito àquilo que dá sentido à vida e se liga ao bem que a pessoa faz aos outros ou à sociedade. Nem todos os que têm uma profissão definida têm uma vocação acertada. Que valor tem para os outros o exercício de sua profissão? Com que espírito ele trabalha? É necessário perceber um bem maior presente no exercício da profissão. É comum ouvir-se queixas de não se sentir realizado no que faz, mas como não há outra escolha profissional, o jeito é conformar-se. Na vocação, a questão é outra. Trata-se de descobrir o que dá sentido ao que se faz e ao porquê vive. É algo que ultrapassa os limites da profissão. Vivendo a vocação acertada, ela também dá sentido à profissão. Na profissão, depois de vários anos de trabalho, o sujeito se aposenta, deixa o exercício profissional. A vocação dura a vida inteira, só cessa com a morte, porque, na continuidade de sua vida, vê sentido naquilo que faz sem necessariamente ser de sua profissão. Em outras palavras, sente-se motivado por viver um sentido que lhe dá razão de viver. Por falta de discernimento, ocorrem muitos enganos. Às vezes, o jovem procura apenas pela profissão e, quando a tem, vê que não é nela que encontra sua vocação. Faltou-lhe perceber o detalhe que faz a diferença: se naquela profissão seu eu está em (como) vocação. Explicando melhor: a palavra vocação (vocare, do latim) quer dizer ser chamado. Cada um pode se perguntar: “sou chamado para que nesta vida? Qual a contribuição que eu, como pessoa, posso dar para o bem comum?”. Vocação implica ouvir (uma voz interior) e responder a ela. Pode-se somente a ouvir e não responder. Na perspectiva cristã, responder à vocação está ligado ao sentido que se dá à vida e o que se faz com ela. Em outras palavras, em que direção vive aquilo que escolheu e faz. Então, vocação e profissão podem andar de mãos dadas. Toda vocação implica um componente de transcendência. Isto é, encontrar um sentido fora de si, que vá além. A vocação dá à pessoa uma certeza interior de que aquilo que faz, mesmo profissionalmente, tem um sentido maior do que só lhe dar um salário no fim do mês. Mas tem consciência de que sua ação é construtora, é benéfica aos outros. Sua vocação então se reflete em seu empenho, em sua responsabilidade, em sua dedicação, em sua honestidade no que faz. O eu em vocação é aquele que vive e trabalha dedicado a uma profissão, mas, quando se aposenta desta, continua vivendo sua vocação, porque a vida não perdeu o sentido, mesmo quando cessa de ter um trabalho produtivo. Ninguém se realiza na profissão se não tiver um sentido de vocação. O eu em vocação passa pela profissão, mas não se esgota nela, porque tem uma dimensão que ultrapassa aquilo que suas mãos podem fazer. O eu em vocação tem a ver com aquilo que o coração pede e o lança para além de si mesmo. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Quem não conhece a verdade faz fofoca

Há pessoas que se comprazem em falar dos outros quando têm uma chance de emitir opiniões sem conhecer a verdade dos fatos. Ouvem algum boato, tomam-no como verdadeiro e passam a fazer juízos falsos, interpretações errôneas e têm prazer em passar adiante a notícia, sem verificar sua veracidade. São especialistas em fofocas, emitindo julgamentos sobre coisa que não conhecem, sem se darem conta do quanto estão prejudicando a reputação de pessoas e das consequências que daí decorrem. Para essas pessoas, valeriam as três peneiras de Sócrates. Conta-se que, um dia, um amigo chamou Sócrates, grande filósofo da antiga Grécia, para contar-lhe algo sobre alguém. Antes de o amigo prosseguir, o pensador lhe perguntou se o que iria contar-lhe já tinha passado pelas três peneiras. “Peneiras?” “Sim, há três peneiras”, disse-lhe o filósofo. “A primeira é a da verdade. Você tem certeza se aquilo que vai me contar é absolutamente verdadeiro?” “Não – disse-lhe o amigo – Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!” “Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos, então, para a segunda peneira: a bondade. O que vai me contar faz bem a alguém, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?” “Não! Absolutamente não!” “Então suas palavras vazaram também a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa?” “Não”, respondeu-lhe o amigo. “Então nem eu nem você, nem outros vão se beneficiar disso que você tem para me contar. Então, esqueça, enterre tudo.” Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras, porque pessoas sábias falam sobre ideias, pessoas comuns falam sobre coisas, pessoas medíocres falam sobre pessoas. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre as pessoas. Quanto bem faria à convivência se esses critérios socratianos fossem observados. Todos os dias, ouvem-se queixas de pessoas que se sentem julgadas, humilhadas por outras que se acham impolutas e acima dos demais e, portanto, com o direito de falar sobre o que não conhecem. Têm coceira na língua e vivem distorcendo os fatos. São pouco críticas em relação a si mesmas, mas especialistas em criticar falhas dos outros ou mesmo espalhando inverdades. Quem tem o direito de julgar os outros ou suas intenções sem os conhecer de verdade? Se os fofoqueiros de plantão se ocupassem com coisas úteis e se calassem, fariam muito bem. Haveria mais amizades sinceras, solidariedade, compaixão. A fofoca é como travesseiros de penas de galinha, quando abertos ao vento. Elas se espalham rapidamente, e ninguém mais terá controle sobre a situação. Daí vale o ditado, conte até dez antes de emitir juízos temerários e você será mais prudente, e uma pessoa melhor para conviver com os outros. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Pássaros voam em direção à luz

Estava com um grupo de jovens em um retiro. Fomos ver o nascer do sol! Celebrar a luz! Enquanto o sol não despertava, ainda havia noite. Aos poucos, os albores matinais foram invadindo tudo. Os pássaros começaram a acordar, e os maiores, ainda em silêncio, começavam a sair de seus dormitórios e voavam ao encontro da luz. Todos eles alçavam voo. Voavam em direção à claridade que vinha chegando do Sol, surgindo lá longe, no horizonte. O Sol ainda não tinha tomado conta de tudo, mas bastou começar a mostrar um novo dia, e os pássaros saíram em pequenos grupos, em grupos maiores, voando para mais perto dele. Era curioso: todos pareciam ir ao encontro da luz! Não sei se isso é instintivo dos pássaros. Eles devem ter uma razão que desconheço. Talvez os ornitólogos saibam. Contudo percebo que, assim como ocorre ao amanhecer, também se dá ao cair da tarde. Os pássaros voltam, ou melhor, voam em direção ao Sol novamente. São livres porque vivem segundo os ciclos da natureza, da vida. Para cada dia, basta o que o dia oferece, sem ganância, sem sofreguidão. Todos sabem que, após uma noite, outra alvorada vem. Poderão voar de novo em direção à luz. Esse vaivém dos pássaros suscitou-me algumas perguntas. Será isto um desejo inato dos seres vivos, desejarem a luz? Ela tem a ver com a vida? Quando se nasce, se diz que a “mãe deu à luz um filho” e se celebra um nascimento. Então é bem provável, porque, sem luz, ficamos às escuras, sem rumo e sem norte. E aí podemos ficar rodopiando como peão do jogo das crianças: roda, roda até cansar e aí se deita, e não sai do lugar. Viver a vida sem sair do lugar é ficar tonto e não perceber os horizontes que se abrem a cada manhã. É ficar parado, esperando o dia passar e não ir ao encontro da luz. Pássaro que é pássaro sabe que a vida está perto da luz, lá é onde ele encontra comida mais fácil, sente-se mais protegido, pode ficar alerta diante de algum perigo. É a partir dela que ele sabe quando o dia começa e quando termina. Sabe a hora de sair e a hora de voltar. Nós, humanos, nem sempre observamos isso. Aliás, no mundo de hoje, as pessoas andam meio atrapalhadas. Há uma inversão de sentido das coisas. Estamos perdendo muito daquilo que a vida sempre nos ensinou: que ela somente tem sentido se for em direção à Luz. Mas hoje parece que vivemos numa escuridão, e o medo toma conta de nós. Veja-se em São Paulo, Rio de Janeiro, por exemplo. A violência está assustando todo mundo, o medo começa a governar a vida, já não se pode sair com liberdade de ir e vir, porque, em qualquer esquina, pode haver alguém com segundas intenções, querendo assaltar, roubar, sequestrar. Veja-se também o que se faz com a natureza. Destroem-se as árvores, envenenam-se os rios, polui-se o ar, invadem-se os espaços livres. Muitos já entram em desespero, a depressão é um dos sinais. Como sair dessa? Onde está a solução? Certamente a resposta é difícil e complexa. Mas tudo não poderia se resumir nisto: é porque não sabemos mais observar os pássaros? Todos os dias, eles nos dizem: “A vida está onde há luz”. É para lá que precisamos ir. Aliás, alguém já nos disse isso há dois mil anos, “Eu sou a luz do mundo, quem anda por mim não fica nas trevas”. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Coronavírus: uma oportunidade

Estamos sob os impactos que o coronavírus trouxe. O mal atingiu todo mundo e o mundo todo. Ninguém, com o mínimo de sanidade, desejou que esse vírus aparecesse. Contudo a realidade está aí, e todos estamos envolvidos nesta tragédia, por um lado, mas também em grandes oportunidades, por outro. Ninguém ignora o mal que o vírus causou e está causando, mas ele nos obrigou a revermos muitas coisas em nossa vida. Descobrimos o quanto somos criativos para nos livrar de alguns efeitos deletérios que ele causou. Vejam-se, por exemplo, quantos gestos de solidariedade ocorreram. Quantas formas novas de comunicação e entreajuda! O vírus obrigou os governos a repensarem muito de suas políticas e projetos. Em nível de educação, com os alunos em casa, fazendo suas lições e descobrindo suas próprias capacidades, antes ignoradas ou pouco usadas. Deu oportunidade para cada um encontrar maneiras novas para preencher seu tempo. Em nível de convivência familiar, quantas vivências novas os pais fizeram estando com os filhos! Quantas renúncias tivemos de fazer e, apesar disso, continuamos vivos! Muitas coisas supérfluas, das quais antes não se abria mão, agora se vive sem elas, numa boa, como se diz. Em nível de relacionamentos, quantos jeitos novos de se comunicar e uma nova percepção da importância dos outros em nossa vida! Todos aprendemos que somos dependentes uns dos outros. Sentimos falta das pessoas mais próximas, com as quais ficamos temporariamente sem encontrar pessoalmente, mas nem por isso deixaram de participar e ser importantes para nós. O vírus nos obrigou a olhar para os rumos que a vida estava seguindo! Todos estamos fazendo uma experiência inédita; ninguém havia passado por isso. Todos sofremos com as ausências de tantas coisas que antes faziam parte de nosso cotidiano. Sair à hora que se quisesse, sem preocupação de se ter uma máscara em mãos; de ir ao supermercado sem ninguém à porta orientando as entradas; de comprar nas lojas sem observar distanciamentos. De ir às igrejas e participar das celebrações. Quantas pessoas estão com saudades desses encontros da fé celebrada na comunidade cristã! Tudo isso nos diz que estamos num tempo diferente, não somos mais livres para fazer como antes. Agora somos obrigados a obedecer a condutas novas. O vírus virou o mundo de ponta-cabeça! Quer queiramos ou não, ele afetou o modo de viver de muitas maneiras. No aspecto econômico, tivemos de repensar como gastar o dinheiro. Aliás, quanta luta e desespero de muita gente para sobreviver, para conseguir os benefícios oferecidos pelo governo! Apesar do drama humano vivido por tantos, ficamos surpresos e indignados com a maldade de muitos que se aproveitam para enganar, roubar, fazer falcatruas para se beneficiar em cima do sofrimento alheio. Tivemos notícias de gente usando de artimanhas para se aproveitar do alheio, falsificando documentos, desviando recursos, superfaturando compras de respiradores, medicamentos, obras de emergência. O vírus está revelando as duas faces humanas. Uma da solidariedade e do compromisso com a vida e com a dor e sofrimento das pessoas; a outra, da maldade, que explora e aumenta o sofrimento sobretudo dos mais carentes. Eis uma oportunidade de as pessoas mostrarem se têm ou não caráter, se são do bem ou do mal, se são ou não humanas! Ninguém vai sair dessa experiência igual ao que era antes. Todos fomos afetados por ela. Depois que ela passar, vamos medir melhor as consequências as quais agora ainda não sabemos avaliar. A grande maioria espera que o mundo seja diferente. Para melhor ou pior? Ainda não sabemos, tomara que seja para melhor! Aliás, esse desejo está presente naqueles que já se convenceram de que vão ser diferentes, porque aprenderam, com a experiência, aquilo que é essencial à vida e aquilo que é relativo. Nesse sentido o vírus nos trouxe uma oportunidade de viver de um modo diferente, mais solidário e mais humano. Pensando bem, então, apesar do mal que o coronavírus provocou, trouxe também algum bem. Às vezes, é preciso que a morte nos ameace para aprendermos a cuidar melhor da vida! É preciso que alguém morra para se dar o valor que a vida tem. A “morte e ressurreição” continuam indicando o “caminho” e as opções que cada um pode escolher. Ninguém sai neutro desta pandemia. Se assim é, então aproveitemos a oportunidade de novos aprendizados, permitindo que a vida continue com um sentido mais profundo nos novos horizontes que estão se abrindo. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Junho, mês dos santos populares

Junho é um mês que se caracteriza pela comemoração de santos populares: Santo Antônio, São João, São Pedro, São Paulo. São recordados e homenageados pela piedade que seus devotos nutrem em sua fé. Muitos o fazem sem mesmo ter razões profundas para isso. Fazem porque é tradição e é motivo de festa. Em algumas regiões, com mais intensidade e com grandes eventos. Que reflexão se pode fazer sobre isso? Por um lado, podemos dizer que essa fé na proteção vinda do santo traz para o crente um sentimento de ser cuidado, amparado nas horas difíceis. O santo é uma certa garantia para a vida, pois crê que, fazendo suas rezas, suas promessas, pedindo sua ajuda, vai preservá-lo de perigos ou ajudá-lo a sair de dificuldades. Há um fundo religioso transmitido pelos ancestrais e que gera uma certeza de que esse é o caminho para sua crença. A pessoa encontra no santo algumas virtudes que admiram e estimulam a imitá-lo. Por outro lado, para muitos, a celebração do santo é apenas uma expressão cultural, pouco religiosa, uma ocasião para fazer festa e divertir-se. Não conhecem nada a respeito da vida do santo e muito menos por que este é santo e por que se tornou popular. O importante é que, em seu dia, há festa, comidas típicas, danças e outras manifestações culturais. E o que é ser santo? Segundo a fé cristã, a vocação à santidade é própria de todo batizado. É algo inerente do ser cristão. Todos são chamados a viver buscando cotidianamente a santidade. Ela está ao alcance de todos. Consiste na prática diuturna de uma vida correta, honesta, em que se respeitam os valores humanos fundamentais e os valores religiosos do amor a Deus e ao próximo, bem como uma conduta moral e ética congruente com os princípios cristãos. Os santos canonizados pela Igreja tiveram uma vida comprovada por virtudes heroicas que servem de modelo para todos. Não é necessário, contudo, ser canonizado ou beatificado para ser santo. Há muitos santos anônimos. Pessoas que viveram praticando o bem, deixando um testemunho de vida admirado por aqueles que o conheceram. Quando nós recordamos a vida de santos dos quais somos devotos, eles passam a fazer parte de nossa piedade. Significa então que damos um reconhecimento àqueles valores vividos por eles e se tornam referenciais para a vida. Na verdade, é uma necessidade humana apoiar-se em modelos que estimulem as vivências, pois eles nos dão certa segurança naquilo que estamos fazendo. Atribuímos, às vezes, até poderes mágicos que dispensam o empenho pessoal. É como se pensasse “confio em tal santo, e por isso estou protegido, não preciso fazer nada a não ser uns ritos para ter a certeza de sua proteção”. E, nesses ritos, muitos deles bizarros, esconde-se uma fé pouco profunda e comprometida, mas que serve de alívio e diminui as tensões. Podemos pensar que, dentro disso tudo, há também algo de misterioso. Isto é, coisas que são aceitas ou feitas sem conhecimento profundo de suas razões, mas que exercem um poder condicionante no modo de pautar a própria a vida. Isso também nos revela que somos carentes e necessitados de certezas que vão além da lógica. Não nos bastamos sozinhos. Precisamos de suportes para nossa vida e nossa crença. Os santos de nossa devoção exercem esse duplo papel de assegurar um aliado nosso mais forte, com poder de interceder a nosso favor e dar uma legitimação a nossos modos de viver. Mês de junho, mês de santos populares. Que sua popularidade nos ajude a viver os valores que pautaram suas vidas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Maio, Mês de Maria e das Mães

O mês de maio é lembrado por dois nomes que mexem com o coração. Nele celebramos, de modo especial, o encontro com Maria, Mãe de Jesus, e o Dia das Mães. Maria, tão cara ao coração dos cristãos, é a portadora da face de Deus permanente que está no meio de nós. Ela representa o amor e a fidelidade de Deus salvador. Nela encontramos o amparo para nossas dores e a esperança da verdadeira felicidade que brota de seu coração puro e amável. Nela projetamos um amor filial, vemos nela a Ave Maria, cheia de graça, porque, em seu ventre, gerou para nós o salvador Jesus Cristo. Ela é o símbolo universal da amabilidade divina e o caminho mais seguro para chegar até seu Filho. Por isso nós a chamamos de Mãe de Deus e nossa. Ela foi a Virgem contemplada sem pecado, preparada desde sempre para ser a Mãe do Salvador e Redentor. Em maio, nós a reverenciamos destacadamente. Dizemos que este é o Mês de Maria. É por causa da Mãe de Jesus que também recordamos o Dia das Mães. Embora todos saibamos que mãe não tem dia, pois todos os dias elas são mães, escolheu-se um data especial para homenageá-las. As mães, com raras exceções, são os referenciais da vida dos filhos. O amor de mãe é insubstituível, e disso elas dão prova todos os dias. São capazes de gestos heroicos em favor dos filhos, da família. Elas têm, por natureza, uma sensibilidade de perceber o que acontece no íntimo dos seus. Captam coisas que somente sua intuição é capaz. Os filhos, mesmo depois de crescidos e adultos, continuam a dizer que comida igual à da mãe ninguém faz. Quando se veem em dificuldades, é a ela que recorrem em busca de conselhos ou socorro. O coração de mãe é grande para perdoar as faltas e extravios de filhos desencaminhados e defendê-los mesmo assim. Como pessoas, não são perfeitas. Como todos os humanos, erram também. Elas também têm necessidades de afeto, carinho, atenção e cuidados que nem sempre encontram naqueles que os devem a elas por gratidão e obrigação. Homenageá-las no Mês de Maria é um gesto de reconhecimento pelo bem que fazem e pela presença que são na vida da família. É verdade que nem todas as mães recebem o que merecem. Há filhos ingratos que esquecem o ventre do qual nasceram. Há mães amarguradas pelo descaso em que se encontram, mães que lutam para sobreviver à mingua do que ganham, mães que morrem como indigentes porque lhes foi tirado o direito de vida digna. Há mães que choram sem serem consoladas, mães anônimas porque esquecidas pelos filhos e familiares em asilos e casas de acolhida. Há mães atormentadas por erros que cometeram, há mães que se perderam nas ilusões a que foram submetidas ou por infidelidades daqueles que juraram estar com elas em todas as circunstâncias, por toda a vida. De todas as mães queremos lembrar com carinho e gratidão. Àquelas amadas e realizadas nossa promessa de continuar amando-as sempre. Àquelas esquecidas nosso pedido de perdão pelas injustiças cometidas contra elas e nossa prece a Maria, Mãe de Jesus, por elas. Para aquelas que já se encontram do outro lado da vida, rogamos a Deus pelo seu repouso eterno. Que o coração de Maria acolha todas elas, proteja e abençoe aquelas que ainda vivem entre nós e conviva com todas aquelas que partiram e se encontram com seu filho Jesus. Salve Maria, Mãe de Jesus! Um salve às mães em seus dias, todos os dias! Oração Ó Maria, Mãe de Jesus e nossa, hoje rogamos a ti por nossas mães. Maravilhados pela vocação à maternidade de todas que geraram a vida em seus ventres, como Tu geraste Jesus. Olha por todas elas, especialmente as mais sofridas, porque mais necessitam de teu auxílio. Conforta-as com tua benção e proteção. Louvamos e bendizemos a Deus Pai por ter feito a mulher com a capacidade de gerar a vida. Só elas podem! É de seu ventre que brota e nasce a vida! É da fecundidade delas que aparece o amor primeiro! É em seu colo que todos aprendemos a lição do amor verdadeiro! Suplicamos ao Espírito Santo, que sua sombra fecundante encha de graças o coração de todas as mães, como fez com Maria. Que Ele ilumine o caminho de cada uma delas e as acompanhe em seu dia a dia, inspirando-lhes o discernimento necessário para realizar bem sua missão de mulher mãe! Maria, mãe de Jesus, Mãe terna e eterna, acompanha, abençoa os dias de nossas mães, sê para elas exemplo de fidelidade e de amor. Cuida delas com teu amor materno! Amém Oração recomendada pelo Papa Francisco para o fim da récita do terço, no mês de maio Oração a Maria “À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus. Na dramática situação atual, carregada de sofrimentos e angústias que oprimem o mundo inteiro, recorremos a vós, Mãe de Deus e nossa Mãe, refugiando-nos sob a vossa proteção. Ó Virgem Maria, volvei para nós os vossos olhos misericordiosos nesta pandemia do coronavírus e confortai a quantos se sentem perdidos e choram pelos seus familiares mortos e, por vezes, sepultados duma maneira que fere a alma. Sustentai aqueles que estão angustiados por pessoas enfermas de quem não se podem aproximar, para impedir o contágio. Infundi confiança em quem vive ansioso com o futuro incerto e as consequências sobre a economia e o trabalho. Mãe de Deus e nossa Mãe, alcançai-nos de Deus, Pai de misericórdia, que esta dura prova termine e volte um horizonte de esperança e paz. Como em Caná, intervinde junto do vosso Divino Filho, pedindo-lhe que conforte as famílias dos doentes e das vítimas e abra o seu coração à confiança. Protegei os médicos, os enfermeiros, os agentes de saúde, os voluntários que, neste período de emergência, estão na vanguarda, arriscando a própria vida para salvar outras vidas. Acompanhai a sua fadiga heroica e dai-lhes força, bondade e saúde. Permanecei junto daqueles que assistem
“Eu e minha família serviremos o Senhor!”

A Bíblia nos conta que, numa situação de crise, Josué, que liderava o povo, convocou os anciãos que eram os responsáveis pelos clãs familiares e, depois de uma breve análise da situação, questionou: “Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem servirão, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas eu e minha família serviremos ao Senhor” (Josué 24,15). Eis o dilema: a quem servir? Vivemos num mundo contraditório. Estamos em plena crise provocada pelo coronavírus. Há muitas situações alarmantes pela falta de recursos materiais, equipamentos, pessoas habilitadas. Um fenômeno sem precedentes. Ninguém escapa da crise; o mundo todo está sitiado! Ouvem-se notícias de que, em alguns hospitais, os médicos devem decidir a quem socorrer; muitas vezes, “escolher” quem vai receber os cuidados necessários e quem vai “sobrar”! Dilemas difíceis. Ninguém gostaria de ter de fazer escolhas desse tipo. Em nível de governantes, há tendências opostas. Existem aqueles que querem priorizar o isolamento como forma de evitar a propagação do vírus e preservar a vida, há aqueles que se preocupam com a economia, temendo que esta vá para o caos e gere mais desgraça! Quem tem razão? Ambos os problemas são sérios e precisam ser enfrentados. Aqui se poderia pôr a pergunta de Josué: “a quem servir?”. Muitos de nós já estamos aborrecidos de ficar em casa, sem perspectiva de quando isso tudo vai acabar. Os prazos são prolongados, e se veem as notícias de que o pico ainda não chegou e já morreu muita gente. Quantos ainda vão morrer? A cada um são solicitados alguns cuidados: usar máscara, passar álcool em gel nas mãos, observar uma distância dos outros. Todo mundo com medo de contaminar-se. Estamos em crise! Quanto às mensagens que se trocam pelo WhatsApp, algumas trazem incentivo, apoio para perseverar; outras com comentários fora de propósito, outras buscando culpados por isso ou por aquilo, em muitos casos, sem qualquer discernimento. As tais de fakes news correm soltas. Muita gente acreditando em tudo o que lê, vê ou ouve, sem verificar se o que é propagado realmente procede ou é apenas jogo de interesses para confundir as pessoas incautas. Estamos precisando de Josué que nos ajude a discernir como proceder! Estamos vivendo um tempo cheio de interrogações. Quem poderia imaginar, alguns meses atrás, que esta situação ocorreria? Nem em sonhos! De certa forma, fomos pegos de surpresa, sem preparativos adequados para enfrentar o problema. Não temos vacina, não temos remédios, falta espaço adequado para atender os doentes, faltam agentes de saúde para dar conta da demanda. Sem recursos, como servir? Há questionamentos de todos os tipos. Até Deus entra em questão! Muitos se perguntam que aviso Deus estaria dando por meio desta pandemia. Outros, mais adeptos do Deus vingativo, veem como castigo infligido por nossos desmandos. Outros, mais fatalistas, dizem que isso já fora previsto pelos “profetas” de ocasião; e outros, ainda, alarmistas, dizendo que é prenúncio do fim do mundo. Quando não se faz discernimento, todas as hipóteses parecem válidas. Josué é chamado novamente em causa: “a quem servir (ouvir)?”. O certo é que muitas coisas devem mudar depois desta experiência. O mundo não será o mesmo! Resta saber se será um mundo mais humano, no qual a vida seja prioridade sobre o capital. Se vai permanecer a solidariedade que agora se mostra. Se os governantes vão se preocupar mais com a saúde do povo, com saneamento básico, condições de moradia digna, melhor controle da poluição, se haverá políticas pelas quais se busque diminuir a diferença entre os ricos e pobres, com melhor distribuição de renda. Se as pessoas deixarão de ser tão voltadas para o próprio umbigo, se aprenderão a valorizar mais os valores mais altruístas, se deixarão de ser tão vaidosas, se saberão usar melhor o próprio juízo e não meros repetidores de opiniões alheias. Se deixarão de ser tão imediatistas e mais profundas em suas buscas. Poderiam ser colocados muitos outros condicionantes. Por ora, bastaria uma melhora nesses, e o mundo já seria melhor. O futuro nos espera de portas abertas! Dependerá de nós. Vamos ter um mundo melhor se aprendemos com a experiência de que uns dependem dos outros; ninguém dá conta sozinho de si mesmo. Caso optemos por continuar com o que estava antes, com nossas velhas disputas por poder, posse e prazer, servindo a “deuses estrangeiros”, o mundo será pior! Fica a questão de Josué: “a quem vamos servir?” Oração Ó Deus, acompanhais com vossa proteção todos os povos, desde os mais antigos até os que vivem hoje. Muitos patriarcas e profetas vieram antes de vosso filho Jesus, orientando a caminhada do povo para vós. Enviastes vosso Filho e revelastes definitivamente que só há um caminho e uma verdade a seguir para chegar à verdadeira vida. Quem segue por essa trilha alcança a vida em plenitude. Ajudai-nos neste tempo em que vivemos aflitos por causa da pandemia. Vossa proteção continue nos guiando agora e em vista de nosso futuro. Nós hoje renovamos nossa escolha e, como Josué dizemos “Eu e minha família serviremos o Senhor”. Amém. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Lições do coronavírus

Todos nós vivemos uma experiência nova que não estava prevista em nossos calendários. Ninguém podia imaginar, até poucos meses atrás, o que está acontecendo com o mundo todo. O coronavírus nos proporcionou uma experiência nova em nossas vidas, despertando-nos coisas que talvez estivessem adormecidas. Uma das que se sobressaem é a solidariedade. Nunca fomos tão solidários. E ela se manifestou de muitas maneiras, algumas inclusive muito criativas. Podemos destacar uma atitude da qual todos participamos. O gesto de “ficar em casa” nos levou a um tipo de solidariedade universal. Ficando em casa, ajudamos muitas pessoas a não contraírem o vírus, contribuímos para deixar os hospitais livres para atender os doentes, damos um descanso à Mãe Terra, porque poluímos menos, dedicamos mais atenção à família, aprendemos a nos relacionar de um modo diferente. Mas essa experiência está levando à descoberta de outras realidades. Uma delas é constatar que somos limitados. Nossa presunção de tudo saber ficou envergonhada. Até o momento, não sabemos como derrotar o vírus com eficiência. Ele está levando vantagem, matando muita gente. Esperamos para logo a descoberta de meios de combatê-lo, mas, por enquanto, ainda não os temos. Nenhum remédio das prateleiras das farmácias garante a cura. A máscara nos desmascara O deparar-nos com nossa impotência se manifesta de outras maneiras, como não poder sair de casa, ter de usar máscaras. Podemos até fazer um jogo de palavras e dizer que nossas máscaras usadas em nossas pretensões de sabe-tudo caíram e nos deixaram nus. Agora temos de usar uma máscara que esconda nosso rosto para nos proteger e pelo bem dos outros. Essa máscara nos desmascara! Esconde nosso rosto que, muitas vezes, mostrava-se “mascarado” porque fingia ser o que não era. A máscara de agora mostra nossa solidariedade. Essa é mais verdadeira. Tivemos de tirar umas e vestir outras. Estas protegem; aquelas camuflavam! Estamos aprendendo a viver do essencial, tivemos de renunciar a muita coisa supérflua. Aprendemos a viver com menos sem perder a qualidade de vida. Quanta coisa deixamos de comprar e não fizeram falta! A vida parece que se tornou mais simples. De um jeito ou de outro, aprendemos a nos virar sem estar com a cabeça cheia de “preciso disso, preciso daquilo”. O que temos é suficiente para nosso hoje. O mundo será diferente Outra experiência é o jeito de nos relacionar com os outros. A obrigação de ficar em casa nos desconectou fisicamente das pessoas com as quais estávamos habituados a conviver. Agora a presença ausente delas nos faz pensar mais nelas, nos preocupar como elas estão. Usamos os celulares para perguntar como estão e dizer-lhes sobre nós. Mostramos nossa cara nos vídeos, nossa fala nos áudios. Prestamos atenção nas respostas que nos dão. Para todos, é uma experiência nova. Fica o desejo de que o tempo de quarentema passe logo para nos reencontrarmos face a face. Isso fica guardado dentro de nós, esperando a oportunidade, quando o vírus nos permitir, de matar a saudade com a presença real. Outra experiência ainda é aquela que nos deixa uma certeza. Depois que tudo passar, o mundo será diferente, não será o mesmo de alguns meses atrás. Toda experiência nova deixa em nós um resíduo que será fonte de recordações, de lembranças do que estamos vivendo agora e sobre as quais falaremos no futuro. Daqui a algum tempo, vamos nos referir, com outro enfoque, a esta era. As novas gerações farão perguntas a respeito. Saberão de ouvir contar. Como isso vai repercutir em suas vidas não sabemos, mas em nós algo ficou permanente. Se o mundo vai mudar para melhor ou pior é difícil dizer, só o tempo responderá, mas uma coisa é certa: o mundo será diferente. O coronavírus nos afastou do trabalho, trazendo preocupações com o ganha-pão. Haverá mais desemprego do que já havia? Como sobreviverão os mais pobres? A economia entrou em colapso. Qual será o tamanho do prejuízo? Como recuperar as finanças? Que consequência trará para os países e como isso vai afetar o PIB de cada um? Os economistas fazem projeções de todo tipo, mas todos estão sem uma resposta segura e definitiva. São projeções! Uns de tom pessimista, outros de desafios que indicam sacrifícios de todos! Mais um motivo para dizer que o mundo não será o mesmo. O grito de Deus Outra experiência, por fim, em nível de fé ou espiritualidade. Primeiro vem uma pergunta: o que Deus está querendo nos dizer com tudo isso? Podemos talvez intuir algumas possíveis respostas. Penso que o coronavírus é uma espécie de “grito” de Deus para nos chamar a atenção. Como os pais fazem quando as crianças estão entretidas com outras coisas. Eles apelam para um “grito” mais forte, e aí os pequenos param e ouvem o que os pais têm a dizer. Deus sempre nos continuou falando, mas nos distraímos muito e não prestamos atenção. Agora Ele levanta sua voz por um minúsculo vírus e nos põe em situação de alerta. Nossos ouvidos moucos acordam, e a voz interior começa a fazer perguntas pelo significado de tudo isso. Quantos retomaram a fé que antes estavam em banho-maria! Quantos enviaram mensagens para outros, convidando-os ao transcendente e incentivando a práticas piedosas! O “grito de Deus” vai ecoar por muito tempo ainda. Seus desígnios nesses fatos ainda não são todos conhecidos. Talvez, com o tempo, descubramos novos significados. Deus sempre faz de tudo para nos salvar, respeitando sempre nossa liberdade. Mesmo quando erramos, afastando-nos dele, Ele não desiste de nós. Talvez tenhamos ido longe demais com nosso modo de viver muito centrado nas coisas, no consumo exagerado, na dissolução dos costumes, no relaxo das boas tradições, na vulgaridade no modo de viver a afetividade, no desapreço à vida, na redução de nossos ideais mais transcendentes. Tudo isso nos levou a um distanciamento do Criador. Ele como Pai-Mãe, vendo o perigo que estamos correndo, deu seu grito de alerta para nos afastar do vírus que estava destruindo nossas relações familiares, isolava-nos em nosso egoísmo, distanciava-nos dos outros, embora pertos. O celular havia tomado