Encontro no Getsêmani

Os sinóticos narram o encontro de Jesus no Horto das Oliveiras, ou Getsêmani, enfatizando os dois fatos cruciais nesse lugar: a oração e a prisão de Jesus. Ambos os momentos estão impregnados de simbolismos e detalhes que devemos contemplar se almejarmos uma aproximação da experiência que os evangelistas nos querem transmitir, sobre a própria história da paixão de Jesus (ler Mc 14,32-42; Mt 26,36-46; Lc 22,40-46). Seguindo a narrativa de Marcos (14,32-42), a oração no Horto nos insere no quadro do chamado de Jesus aos discípulos, expresso em Marcos (8,34): “autorrenúncia”, “tomar a cruz” e “perder a própria vida para salvá-la”. Todos os elementos estão ligados entre si e já predizem o tema da paixão que se concretizará naquela “noite silenciosa”, no Getsêmani. O evangelista nos mostra, assim, que os acontecimentos da paixão e morte de Jesus são esperados, contudo a linguagem que usa para descrever a experiência de Jesus no Horto é muito forte: ele “mergulha na tristeza” (ekthambeisthai) e na “angústia” (ademonein). Trata-se da revelação de um alto grau de sofrimento e até de terror próprio do ser humano ante a proximidade da morte. Em nosso contexto, a tortura e o assassínio, em suas diversas facetas, tornam-se cada vez mais triviais. É incrível ver como as sociedades que justificam e acolhem mortes cruéis mergulham, sem culpa nem remorso, em dinâmicas perniciosas. Isso se percebe até mesmo na midiatização dos acontecimentos, pois há casos de extermínios (genocídios, etnocídios, feminicídios, atentados, etc.) nos quais as notícias focam em detalhes menores, distraindo-nos da gravidade do problema social. Algumas mídias, inclusive, favorecem veladamente que os assassinatos e outras mortes sejam considerados como coisa banal. Há muitos casos nos quais a vítima termina sendo assinalada como a causadora de sua desgraça. Dessa forma, justifica-se a injustiça, a agressão e o extermínio. Esse problema é bem mais grave do que parece. Como disse a filósofa Hannah Arendt, vivemos a “banalidade do mal”. O ódio político, social, cultural e sexual se espalha por todo canto e, como consequência, cresce o número de crimes hediondos. Diante dessa realidade, é importante observar que Deus Pai não quis a morte de Jesus, “o Filho Amado” (“Este é meu Filho muito amado. Escutai o que ele diz!” – Lc 9,35). Mas Deus acolheu a consagração de Jesus ao Reino, e essa consagração levará Jesus a ser assassinado pelos que rejeitaram o projeto de vida de Deus revelado no Filho, Jesus. Jesus também não buscou a morte, ele não era um sádico. Porém não recuou diante da cruz, porque ele é coerente com o anúncio do reinado de Deus e, portanto, assumiu as consequências. As sociedades, quando erguidas na injustiça e opressão, não aceitam o Evangelho do amor, da justiça, da paz e vida digna, mas preferem matar as pessoas que as desafiam. Por isso, deve-nos ficar claro: não é Deus quem quer a morte, mas são os seres humanos que usam de sua liberdade para fazer o mal, e ainda alguns usam o nome de Deus para verem-se justificados. Porém Deus não é indiferente ou passivo, mas está a nosso lado, segurando-nos no sofrimento e nutrindo nossa esperança de vida plena. No Getsêmani, nós nos encontramos com Jesus, plenamente humano, em diálogo (na oração) com o Abbá (Pai), e, ao mesmo tempo, nós o vemos sofrendo pelo “silêncio” dos amigos mais próximos: “E dizia: ‘Abbá, tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém não o que eu quero…’, ao voltar, encontra-os dormindo e diz a Pedro: ‘Simão, dormes’” (vv. 36 e 40). Nos momentos de maior dificuldade é quando mais precisamos do apoio das pessoas que amamos, por isso o silêncio deles pode ser bem mais duro que os golpes dos inimigos. Jesus tinha admitido, diante dos discípulos, que estava abalado até a profundeza do coração: “Minha alma está triste até a morte”. Podemos ler nas entrelinhas das palavras de Jesus a busca de solidariedade dos amigos, entretanto o relato nos diz que os discípulos caíram em profundo sono. Deve ter sido muito difícil para eles aceitarem a dor e o sofrimento real de Jesus, pois não combinava com a imagem do Messias que desejavam. A nós também nos custa aceitar um Messias compassivo, que se faz frágil por amor e que conta com nossa solidariedade para aliviar o sofrimento dos crucificados de hoje. Por isso a pergunta e a recomendação de Jesus a Pedro quiçá sejam hoje o imperativo que precisamos para acordar: “Dormes, Simão Não tiveste força para permanecer acordado por uma hora Fica acordado e ora para não entrar em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (v. 37). Jesus não buscava, entretanto, obter um intervencionismo de Deus, mas queria expressar ao Abbá (Pai) sua tristeza e angústia. Certamente Jesus saiu fortalecido desse encontro para enfrentar a paixão e a morte que o esperavam. Destarte, Jesus mostra-nos que é preciso sobreviver às situações difíceis e lutar contra o mal. É preciso orar, pois a comunicação contínua com Deus nos fortalece para enfrentar o sofrimento e as consequências que, pelo Reino de Deus, apresentam-se inevitáveis. Cristo, assumindo a cruz, solidarizou-se com as vítimas que não têm como evitar o mal e, ainda na dura experiência de abandono dos amigos, manteve-se fiel na entrega a Deus e seu projeto, sem o renegar. Que a consumação e a oblação de Jesus ao projeto de Deus, evidenciadas no Getsêmani, nos fortaleçam na confiança em Deus. E que, acordados, sigamos seus passos, entregues totalmente a Deus e seu projeto do Reino. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.
Por que esta semana é santa?

A celebração da Páscoa é o ponto culminante da fé cristã. A ressurreição de Jesus é a confirmação de tudo quanto Ele fez e ensinou. É o cumprimento da promessa da salvação de Deus que, em Jesus, liberta-nos da morte e nos convida a participar da vida plena. Mas, para chegar à ressurreição, Jesus enfrentou o sofrimento e a morte na Cruz. O que celebramos na Semana Santa é justamente o mistério da vida de Jesus e seu amor infinito, que se doa até o fim. É o esvaziamento do Deus que veio ao mundo como criança, ensinou o mandamento do amor e mostrou que é possível, em nossa humanidade, aproximar-nos do Pai e nos acolher como irmãos e irmãs, por que, em Deus, somos todos um. A Semana Santa concentra os principais fatos relacionados à paixão, morte e ressurreição de Jesus, especialmente durante o Tríduo Pascal. Mas o que é o Tríduo Pascal? Como o nome diz, são os três dias de vivência intensa do mistério pascal: a Sexta-Feira Santa, o Sábado Santo e o Domingo de Páscoa. Quinta-feira Santa Na verdade, o Tríduo Pascal começa na noite da quinta-feira, quando a Igreja recorda a última ceia de Jesus com os seus discípulos. Nessa missa, há o rito do lava-pés, em que Jesus revelou o caminho do serviço e do cuidado com o próximo. Conforme narra o Evangelho de São João, durante a refeição, Jesus pôs um avental, pegou uma toalha e lavou os pés dos seus discípulos. Depois os convidou a fazer o mesmo. Também lembramos a instituição da Eucaristia, quando Jesus, durante a ceia, tomou o pão e o vinho, e os deu aos discípulos, dizendo que eram o seu corpo e o seu sangue. Em todas as missas, fazemos a memória de Jesus, quando o padre consagra o pão e o vinho, que se tornam o corpo e o sangue de Cristo. Após a ceia, Jesus foi ao Monte das Oliveiras, ou Getsêmani, e, sabendo o que estava para acontecer, colocou-se em oração diante do Pai e pediu que afastasse o cálice da dor e da morte, mas se entregou totalmente, dizendo “Faça-se a tua vontade e não a minha”. Naquela mesma noite, Jesus foi preso, humilhado, maltratado… Nas igrejas, no fim da missa dessa noite, o Santíssimo Sacramento é retirado do sacrário e levado para outro local, onde a comunidade fica em adoração. Sexta-feira da Paixão Recordando a paixão e a morte de Jesus, que ocorreram na sexta-feira, os católicos fazem um dia de jejum e oração. Acompanhamos a Via-Sacra de Jesus, desde seu julgamento injusto e condenação à morte, sua flagelação e o caminho até o calvário, carregando a cruz de todas as maldades humanas. A Sexta-Feira da Paixão está muito presente na religiosidade popular, pois, diante de todas as dificuldades que o povo enfrenta para sobreviver, identifica-se com Jesus sofredor. No Senhor, encontra forças e esperança para suportar os desafios da vida. Nas igrejas de todo o mundo, os católicos se reúnem pelas três da tarde para rezar na mesma hora em que Jesus morreu na cruz. É o único dia do ano em que não se celebra a missa. Não se tocam instrumentos musicais e até o altar fica completamente despojado. É feita a narração da paixão de Jesus e se reza por todas as situações do mundo. Na adoração da Cruz, os fiéis se aproximam e beijam o crucifixo. É costume também haver a meditação da Via-Sacra pelas ruas, muitas vezes com encenações, acompanhando os passos de Jesus até o calvário. Na Via-Sacra, rezamos também por todas as pessoas que sofrem injustamente ou são perseguidas, pela superação das forças da morte que oprimem a humanidade, como a fome, o desemprego, a falta de sentido, a falta de saúde, de moradia e tudo o que destrói a dignidade humana, como o abuso sexual, as drogas e tantos outros. Também recordamos Maria, a mãe de Jesus, que o acompanhou em todos esses momentos, entregando-o a Deus. Em seu sofrimento, ela foi corredentora. Em muitas comunidades, há a tradição de rezar as sete dores de Maria. Sábado Santo No Sábado Santo, nós lembramos Jesus na sepultura. É um dia de silêncio e reflexão. Somos convidados a experimentar o vazio e refletir sobre tudo o que Jesus fez e significa em nossa vida. Na tradição da Igreja, esse é o dia em que Jesus desce à região dos mortos e resgata Adão e toda a humanidade com ele. Mas, quando chega à noite, toda a tristeza transforma-se em alegria, durante a Vigília Pascal. Está é a mais bela e a mais longa de todas as celebrações. Começa do lado de fora da igreja, ao redor de uma fogueira. O fogo é abençoado e, com ele, acende-se o círio pascal, uma grande vela que é sinal da luz de Cristo ressuscitado. Depois, todo o povo, com velas na mão, entra na igreja ainda escura. O diácono ou o sacerdote entra carregando o círio e anuncia três vezes: “Eis a luz de Cristo!”, e o povo responde: “Demos graças a Deus!”. Da chama do círio pascal, todos acendem a sua vela, iluminando toda a igreja. Então com cantos, leituras e orações, recorda-se a história da salvação desde a criação do mundo até a ressurreição de Cristo. Na Igreja primitiva, a Vigília Pascal terminava ao amanhecer. Atualmente a celebração pode durar de duas a três horas. Além do anúncio da Páscoa, dos cantos alegres e animados, há também a celebração do batismo de adultos e a renovação das promessas batismais. Domingo de Páscoa Domingo é o Dia do Senhor por causa da Ressurreição de Jesus. De manhã bem cedo, as mulheres foram ao túmulo de Jesus e encontraram removida a pedra que o fechava e vazio o lugar. Um anjo anunciou-lhes que Jesus havia ressuscitado, e elas correram, cheias de alegria, anunciar aos apóstolos que Jesus estava vivo. Páscoa é a festa da vida que vence a morte. Por isso é cheia de símbolos que falam de
Páscoa em gestos concretos

Neste ano, a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo preparou um jeito diferente de envolver alunos, professores e colaboradores no espírito da Páscoa e de uma #EscolaViva. A Campanha de Páscoa, como ficou chamada, tem como objetivo provocar uma reflexão sobre como vivenciar a Semana Santa como tempo de preparação para a festa da Páscoa. Irmã Maria de Fátima Marques, diretora presidente da Rede de Educação explica: “Nesta Páscoa, queremos celebrar a vida. Jesus ressuscitou. A vida renasceu. Com gestos concretos de solidariedade, amizade e compromisso com a justiça e o direito, queremos transformar nossas atitudes para que gerem vida”. A aceitação da campanha foi tão boa que os quatro colégios e os três centros educacionais da Rede de Educação aderiram. Até o Convento Santíssima Trindade quis participar. Irmã Maria Aparecida Ribeiro, coordenadora do convento, acredita que a campanha “vai ajudar muito os nossos colaboradores a vivenciarem, com gestos concretos, a Semana Santa, seja na doação, no encontro com alguém especial ou num gesto de acolhimento”. Mas em que consiste a campanha? Segundo a gerente administrativa Zilda Sousa, na Rede de Educação, as diretoras educacionais trabalharão com suas equipes, e os professores levarão a reflexão também para a sala de aula. A motivação partirá da entrega de alguns cartões com mensagens incentivadoras. Para a assessora de comunicação, Patrícia Campos, a proposta é, “Assim como Cristo ressuscitou em três dias, teremos ações e atividades diferenciadas nos três dias de aula que antecedem o recesso de Páscoa”, durante a Semana Santa. Por isso, em vez de um cartão de Páscoa, foram produzidos quatro. O primeiro cartão está sendo entregue nesta sexta-feira, 12 de abril, e é o que ilustra esta notícia. Os outros serão entregues um na segunda, outro na terça e o último na quarta-feira. “Cada cartão propõe uma atividade que ajuda a refletir sobre o verdadeiro sentido da Páscoa”, lembra Patrícia. Os cartões, com cores alegres e vivas, trazem propostas de gestos concretos. De acordo com Patrícia, não são como um “dever de casa”, mas “um convite para refletir e analisar como estamos lidando com as diversidades que o mundo atual nos impõe”. Segundo ela, trata-se de uma campanha ampla, direcionada a toda a comunidade escolar: alunos, famílias e educadores. “É uma forma de a Congregação ‘cuidar’ das famílias que acreditam em suas escolas para a formação de seus filhos”, conclui. Acompanhe a campanha em nosso Facebook e no Twitter. Compartilhe com seus amigos, e vamos todos transformar a nossa Páscoa em gestos de acolhida, partilha e solidariedade.
Aprendendo com os povos indígenas

Mesmo tendo uma data especial para comemorar o Dia do Índio, 19 de abril, nossos povos indígenas ainda sofrem as consequências do preconceito e da discriminação. Suas terras são invadidas, sua cultura não é respeitada, e a natureza, da qual dependem, está sendo sistematicamente destruída. No entanto os povos indígenas têm muito a nos ensinar, especialmente sobre a cultura do bem viver e o cuidado com as pessoas e com a natureza. Quem dá testemunho disso é Laudovina Pereira, missionária do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e uma de suas coordenadoras. Ela trabalha há 20 anos no Regional do Cimi Goiás/Tocantins e têm contato direto com diversas comunidades indígenas, de diferentes povos. No vídeo que apresentamos, Laudovina fala sobre a beleza da cultura indígena e o que podemos aprender com eles. Seu testemunho é um convite para mudarmos o nosso olhar e descobrir que não há culturas superiores ou inferiores, e sim diferentes visões de mundo. Se nos abríssemos para aprender com nossos irmãos e irmãs indígenas, nossa sociedade seria muito mais feliz, pois daria mais valor ao relacionamento entre as pessoas, à vivência comunitária e à harmonia com a natureza.
Sínodo Pan-Amazônico: uma Igreja em diálogo e escuta

“Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” é o tema do Sínodo para a Amazônia, que será realizado em outubro deste ano. Para compreender sua importância em vista de uma melhor atuação pastoral da Igreja na região e especialmente para os povos indígenas, iniciamos, a partir de agora, a publicação de uma série de artigos. Confira! O convite do Papa Francisco aos bispos da Igreja pan-amazônica, com o objetivo de escutar os povos da floresta, foi precedido por gestos de diálogo, encontro e escuta dele mesmo. Em sua visita apostólica ao Peru, no discurso de acolhida aos povos indígenas em Puerto Maldonado (DISCURSO do Papa Francisco em Puerto Maldonado, 2018), o Papa Francisco, referindo-se à atuação missionária da Igreja em meio aos povos indígenas, fez a seguinte observação: “Quem dera que se ouvisse o grito de Deus perguntando: Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). E concluiu que essa pergunta deve ressoar para toda a Igreja. Nesse seu encontro com várias etnias indígenas, o Santo Padre ouviu os clamores desses povos que precisam de ajuda para continuar cuidando da natureza, pois tal missão tem sido muito árdua devido à destruição causada pela derrubada das florestas, mineração e as companhias petroleiras. Ele também agradeceu aos povos indígenas que, pela sabedoria e conhecimentos de suas culturas, puderam penetrar, por séculos, sem destruir o grande tesouro, os recursos naturais das florestas. Nesse encontro, assim se dirigiu a eles (DISCURSO, 2018): Nós, que não habitamos nestas terras, precisamos de vossa sabedoria e de vossos conhecimentos para podermos penetrar, sem o destruir, o tesouro que encerra esta região, ouvindo ressoar as palavras do Senhor a Moisés: “Tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3,5). Essas atitudes e gestos de Francisco fortalecem a caminhada de muitos movimentos indígenas para a revitalização de suas próprias culturas, na luta pelo reconhecimento de seus territórios, pela preservação de suas tradições e línguas. A conquistas de seus direitos foi fruto de uma grande mobilização internacional desde a década de 1970, da qual eles foram os protagonistas (PETRONI, 2013, p. 188). As orientações pastorais do Papa Francisco serão assumidas dentro de um caminho da sinodalidade, conforme a Igreja esteja, de fato, disposta ao diálogo e à escuta. Ao convocar a Igreja presente na Região Pan-Amazônica para buscar novos caminhos de evangelização entre os povos da floresta com um rosto indígena, postulam-se novos paradigmas de missão: ouvir e reconhecer as histórias de fé e os saberes que vêm dos povos da periferia. São caminhos novos de evangelização que fortalecem a autonomia e o protagonismo dos povos originários da Pan-Amazônia. É uma evangelização solidária desses povos que vivem num contexto de profundas ameaças aos direitos fundamentais. Assim, a Igreja é chamada a viver, de forma solidária, suas lutas de revitalização de suas culturas, do direito de preservar seus idiomas, de organização social, de uma cosmovisão ecológica que garanta a sobrevivência de seus descendentes (REPAM, 2018, n. 24). O convite para construir uma Igreja com rosto amazônico exige uma reflexão teológica fundamentada na espiritualidade e cosmovisão desses povos originários da Amazônia (REZENDE, 2013, p. 209). Reconhecer que, em suas histórias sagradas, também se encontram as sementes da Boa-Nova. Nesse sentido, o documento preparatório para o Sínodo na Região Pan-Amazônica afirma ser necessário ter uma “espiritualidade intercultural que nos ajude interagir com a diversidade dos povos e suas tradições” (REPAM, 2018, n. 86). A espiritualidade dos povos originários dessa vasta área geográfica foi transmitida com sabedoria pelos líderes carismáticos, pelos sábios de seus povos, benzedores e muitos que contribuíram para a sustentação de suas culturas e de suas línguas. Tal espiritualidade tem os pés no chão, pois esses povos acreditam num Deus criador de tudo que existe na natureza, por isso ela tem, em si, uma força vital. Esses povos acreditam na comunhão de vida da floresta, vida humana das várias etnias que se entrelaçam como se todos fossem parentes (ALMEIDA, 2005, p. 56). Essa comunhão sustenta a terra, a água, as plantas, os animais, os peixes, enfim tudo o que circunda a natureza são vidas dialogantes com os seres humanos. O documento preparatório para o Sínodo dos Bispos, em vista da Assembleia Especial na Pan-Amazônia, que será realizada em 2019, oferece como instrumento de auxílio na tarefa que o precede um amplo questionário elaborado e enviado a todas as Igrejas particulares, a fim de estabelecer um diálogo com todas as suas bases. A comissão organizadora adotou o método ver, julgar e agir, mas sem dar respostas prontas, pois a sinodalidade envolve todos na busca de novos caminhos. O Sínodo está sendo preparado com os protagonistas e sujeitos da Igreja ameríndia. Traçar novos caminhos à evangelização na Pan-Amazônia envolve o zelo pelos territórios, ecologia e culturas das comunidades locais. Portanto, já desde sua preparação, o Sínodo coloca todos os interlocutores na prática concreta da escuta recíproca. Esse exercício é fundamental para fortalecer as bases de uma Igreja sinodal e vencer as enormes distâncias geográficas, pastorais, sociais e culturais. É o sínodo da aproximação, do encontro, do diálogo e da escuta de uma Igreja universal que acredita que a periferia tem algo importante a dizer, a partilhar, enriquecer e a ensinar, sobretudo no cuidado da casa comum e da ecologia integral. Trecho extraído e adaptado do artigo “A escuta e o diálogo com as tradições sagradas do povo ticuna: um testemunho de evangelização na Amazônia”, da autoria da Ir. Izabel Patuzzo e de Boris Augustein Nef Ulloa, publicado na “Revista Caminhos”, Goiânia, v. 17, n. 1, p. 96-108, jan./jun. 2019. Irmã Izabel Patuzzo, missionária da Imaculada (PIME), faz parte da equipe de professores do Curso de Formação Teológica e Missionária para Leigos do Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP.
A Palavra que encanta e toca o coração

Para os dez participantes da primeira etapa, o Curso de Bibliodrama foi uma surpresa do começo ao fim. Todos chegaram muito curiosos e descobriram que não se tratava de fazer “dramatizações”, mas de mergulhar numa vivência da Palavra de Deus que encanta e toca o coração. O ingrediente principal do Bibliodrama, segundo o verbita Ir. Paolo Delucca, um dos facilitadores, “é como alimentamos a nossa fé e a nossa alma com a Palavra de Deus”. Também para as outras duas facilitadoras, as irmãs Maria de Fátima Marques e Heloíse Matos, a Bíblia e a vida caminham juntas. Cada pessoa é convidada a se deixar tocar e transformar pela Palavra. O curso foi realizado no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, no último fim de semana de março, e foi como um retiro para os participantes, dos quais a maioria era educadores e educadoras da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo e ainda algumas irmãs e missionárias leigas de Deus Uno e Trino (MLDUT). Pelos depoimentos, é possível ter uma ideia do que significou o curso. Para a missionária leiga e educadora Maria Cristina Queiroz Maia, o “mapeamento do texto”, um dos elementos do bibliodrama, “permite identificar as motivações, significados e sentimentos que a Palavra gera na relação comigo, com Deus e com o próximo. Essa vivência é curativa e libertadora”. O facilitador Paolo acrescenta que o mapeamento “convida a entrar na história de Jesus e no mistério de nossas vivências cotidianas”. Segundo ele, o Espírito Santo atua em nossa intuição e aprofunda a fé, e, no diálogo com a Santíssima Trindade, o amor se propaga e faz o coração arder, como aconteceu aos discípulos de Emaús. Já a educadora Simone Fortunato Nunes, o bibliodrama contribui para “um novo olhar acerca das leituras bíblicas, atentando para os sinais presentes nas palavras, versículos e parábolas”. Mas o mais interessante para ela é “fazer a ‘ponte’ entre a Bíblia e a vida, num exercício de interiorização que promove o autoconhecimento e o crescimento pessoal”. Irmã Lusia Sakunab também fala do novo olhar e acrescenta: “Ajudou-nos a usar nossa criatividade na vivência da liturgia e nas celebrações do nosso dia a dia”. As educadoras Rogelia Aparecida de Rezende e Luciana Marzulo enfatizaram que o bibliodrama proporcionou uma vivência de encontro com Deus com base na Palavra, consigo mesmas e com os outros. Para Luciana, foi uma “transformação pessoal” e, para Rogelia, um momento de “abrir novos caminhos e de se deixar guiar”. Também a missionária leiga e educadora Nanci Regis Queiroz Afonso ressaltou que a partilha no grupo foi essencial e ajudou a melhor compreender e viver os desafios do dia a dia. “O Bibliodrama me fez mergulhar em mim mesma e encontrar o tesouro da Palavra de Deus de modo muito significativo. Construí pontes em mim. Portas se abriram no meu coração”, acrescentou ela.
Mobilização em torno da Reforma da Previdência

Nestes dias, a Presidência da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulgou uma nota sobre a Reforma da Previdência, manifestando apreensão com relação ao Projeto de Emenda Constitucional (PEC 287/2016) em tramitação no Congresso Nacional. A CNBB lembra que a Previdência é um direito social estabelecido pela Constituição de 1988, conquistado com muita participação democrática. Não se trata de uma concessão governamental. A Nota da CNBB afirma que “o sistema de Previdência Social possui uma intrínseca matriz ética” e foi criado para a proteção social de pessoas expostas à vulnerabilidade social. Não se trata apenas de uma questão econômica. Aponta ainda para possibilidades para tornar realidade o Fundo de Reserva do Regime da Previdência Social, para provisionar os recursos exclusivos para a Previdência, tais como a auditoria da dívida pública, a taxação dos rendimentos das instituições financeiras, a revisão da desoneração de exportação de commodities e ainda identificar e cobrar os devedores da Previdência. Alerta ainda que não se trata de disputa ideológico-partidária, mas de um diálogo sincero e fundamentado que deve ser buscado até à exaustão entre governo e sociedade. Diante disso, a CNBB convoca os cristãos, as pessoas de boa vontade e principalmente nossas comunidades a se mobilizarem em torno da Reforma da Previdência, a fim de buscar o melhor para o nosso povo, principalmente os mais fragilizados. Como membros ativos de nossa Igreja, alegramo-nos com essa posição clara manifestada pela CNBB e desejamos dar passos concretos para favorecer a conscientização e a mobilização de todos nessa causa tão premente que vai nos atingir a todos, hoje e no futuro. A base de tudo é conseguirmos dados idôneos. É necessário nos informar devidamente e aprofundar o assunto. Mais ainda, precisamos recuperar o espírito e a intenção primeira que gerou a criação de nosso Sistema de Previdência Social em nossa Constituição. Em seguida, há a necessidade de se produzirem alguns subsídios populares para que a informação esteja ao alcance de todos. Com base nesses subsídios, mobilizar as comunidades, conscientizando-as da situação e do que está em jogo. Muitos são os meios de comunicação disponíveis hoje para divulgarmos e estudarmos esse tema mais a fundo. Os jovens são criativos e saberão nos propiciar novos caminhos. O segundo passo seria a participação e a mobilização das comunidades. A Campanha da Fraternidade deste ano “Fraternidade e Políticas Públicas”, com o seu lema “Serás libertado pelo direito e a justiça” (Is 1,27), por sua vez, convoca-nos, justamente neste ano, a “acolher os pobres e marginalizados, nossos irmãos e irmãs, com políticas públicas justas, e sejamos construtores de uma sociedade humana e solidária”, conforme reza a oração da CF 2019. Em todo sistema de participação, há vários níveis de contribuição. Todos podem se comprometer de alguma forma. Baseando-se nos subsídios produzidos e divulgados para conscientizar as comunidades, podemos produzir celebrações, horas santas, preces e outros materiais litúrgicos e de encontros formativos para envolver a todos dentro dessa causa. De acordo com a realidade, algumas comunidades poderão realizar caminhadas e celebrações campais, dando maior publicidade à iniciativa. As pastorais sociais e os membros mais ativos politicamente na comunidade devem procurar instâncias sociais mais participativas, procurando envolver outras pessoas e mobilizando-as na medida do possível. No texto-base da Campanha, dos números 87 a 104, temos uma boa orientação de como nos engajarmos mais concretamente como atores sociais nas políticas públicas. Os primeiros parágrafos fundamentam essa prática. A seguir são elencadas formas mais comuns de participação, tais como em audiências públicas, nos conselhos gestores ou de direitos, em conferências, fóruns e reuniões, bem como em organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Por último, conclama os jovens a desenvolverem protagonismo na elaboração de políticas públicas, garantindo, assim, uma sociedade mais madura e participativa na vida política. No tocante à urgência da Reforma da Previdência, é preciso ver a possibilidade de participação por meio dos grupos de pressão dentro do Congresso e das manifestações de rua que forem convocadas. Nesta hora, após o apelo público da CNBB às comunidades, é de suma importância a unidade e o comprometimento de todos na Igreja. O Espírito Santo é Espírito de União, Fortaleza e Verdade. Que Ele nos inspire como agir neste momento difícil pelo qual nosso País está passando, mostrando-nos concretamente o que fazer a partir de nossa comunidade, e que Ele nos conceda os dons necessários para, de acordo com o Hino da Campanha, “Ser um profeta na atual sociedade, da ação política, com fé participar…” Irmã Maria Inês de Aragão, SSpS, é formada em Economia e Diretora Tesoureira da Redes (Rede de Solidariedade das Missionárias Servas do Espírito Santo). _____ Leia também: Íntegra da Nota da CNBB Hora Santa sobre a Reforma da Previdência
“Pois é dando que se recebe…”

Os leigos, ano após ano, vêm assumindo cada vez mais sua identidade de discípulos missionários numa Igreja aberta, que acolhe a todos. “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14). Essas palavras de Jesus nos confirmam o comprometimento de testemunhar a fé no Deus vivo e fazê-lo conhecido e amado, por meio da ação. Ser sal e luz significa dar significado à vida do próximo, tirá-lo de suas angústias, inquietações e misérias. É sair de si e aceitar o convite de Jesus “Ide…” (Mc 16,15), é promover a “cultura do encontro”, como pede o Papa Francisco, é acolher as crianças para acolher Jesus (Mc 9,37), é ajudar o outro a se reintegrar na sociedade para que todos tenham uma vida digna. Os leigos são pessoas que, em seu dia a dia, onde quer que estejam e em qualquer coisa que façam, procuram viver, conscientemente, sua vida cristã numa dimensão missionária e ação evangelizadora e libertadora, sobretudo com os pobres. Uma ação em que a espiritualidade lhes impulsiona a mostrar ao outro o sentido que tem seu sacrifício, sua dor. A cruz de Jesus vem ressignificar a dor do ser humano, mostrando que, além da dor e do sacrifício, está a ressurreição, a libertação. E essa é a esperança que enche o coração do leigo e dá sentido à sua missão. Uma recente visita ao Lar Franciscano, que zela pelo cuidado com pessoas idosas, trouxe às missionárias leigas do Rio de Janeiro a alegria de sentir que é “dando que se recebe”, como cantamos na oração dedicada a São Francisco. Os missionários leigos de Deus Uno e Trino são membros da família de Santo Arnaldo Janssen, enraizados na espiritualidade trinitária e carisma missionário, guiados pelo Espírito Santo, enviados a compartilhar com todas as pessoas o amor de Deus Uno e Trino. Presentes em diversos Estados do Brasil, atuam nas pastorais em suas paróquias, nos condomínios onde moram, no trabalho e encontram-se periodicamente, para que, juntos, em oração e na partilha, renovem seu compromisso e se fortaleçam na fé. Campanhas e visitas solidárias fazem parte de seu compromisso com a missão. A solidariedade, a compaixão, o amor ao próximo, a misericórdia são ações que aprendemos com o próprio Jesus. Venha, você também, fazer parte do Grupo de Missionários Leigos de Deus Uno e Trino. Nanci Queiroz, MLDUT-RJ ___ ______________________________________________________________________________________________ As MLDUT-RJ contam, aqui, um pouco do significado de pertencer ao grupo e, na união, no encontro e na oração, fortalecerem-se na fé e no amor ao próximo. As fotos e os depoimentos foram obtidos durante a visita ao Lar Franciscano, no Rio de Janeiro-RJ. “Hoje, para mim, foi um dia muito especial. Tive a oportunidade de fazer, mais uma vez, como tantas outras, um evento no Lar Franciscano onde minha mãe mora e sou voluntária, sendo que, desta vez, com um sabor diferente, como leiga missionária. Eu me senti mais forte. Parecia não ser eu. Senti algo muito vibrante que preencheu meu peito e transbordou para todas as pessoas que, com tanto amor e carinho, ali estavam participando. Rogo a Deus que me mantenha firme nessa caminhada, capacitando-me cada vez mais com o dom do amor.” Laura Regina Seixas Torres ______________________________________________________________________________________________ “Para mim, tem sido maravilhoso pertencer ao grupo. Tornei-me uma pessoa melhor, mais preocupada com o próximo. Uma bênção!!!” Maria da Conceição L. Vila Gomes ______________________________________________________________________________________________ “Neste dia de vivência do amor e afeto, recebemos mais uma lição de vida. Quando nos reunimos para partilhar carinho, trazemos [para nós] mais do que levamos. A professora Edneida e o músico Agnaldo levaram alegria, descontração e oração para toda a comunidade do Lar Franciscano. Sou grata a Deus por mais uma experiência de vida. Maria Fernanda P. Azevedo ______________________________________________________________________________________________ “Foi um encontro maravilhoso!!! Eu me senti muito feliz em participar da felicidade de todas aquelas senhoras!!! Muito amor!!!” Rosicleia Maluli ____ ______________________________________________________________________________________________ “Participar do grupo tem sido uma bênção. A vida partilhada em comunidade tem me dado força para seguir com minha missão de leiga missionária neste mundo que precisa tanto de amor e de testemunho desse Deus misericordioso e acessível a todos os que desejam buscá-lo! Obrigada, Família Arnaldina, pelo acolhimento e carinho! Hoje vivo uma verdade que, há muito, escutei de um sacerdote querido: ‘Deus não escolhe capacitados. Ele capacita os escolhidos!’. Que Ele me conceda, cada dia mais, a alegria e a oportunidade de poder viver junto com os MLDUT esse carisma.” Maria Aparecida Carvalho Meirelles de Souza ______________________________________________________________________________________________
Testemunho Missionário – Irmã Veramaria Ribeiro Miranda

O nome de batismo da irmã Veramaria era Maria Tereza Ribeiro Miranda. Ela fez os primeiros votos em 1953 e, após uma longa jornada de dedicação e serviço, partiu para a Casa do Pai no ano em que completava seu jubileu de 65 anos de consagração religiosa. Estava com 92 anos de idade. Aqui apresentamos um pouco de sua história e uma síntese do depoimento de várias irmãs que conviveram mais de perto com ela. Sua vida é um testemunho de que vale a pena amar até o fim. “Onde há amor e caridade, Deus aí está” Para os pais, Joaquim e Alda, era Terezinha. Sexta filha de onze irmãos. Para os irmãos, Tereza. Tia Tereza para os sobrinhos, para os sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos. Em 1930, mudou-se com a família de sua cidade natal, Conceição do Mato Dentro, para Belo Horizonte. Iniciou sua vida escolar no Jardim de Infância Bueno Brandão. Depois, o curso primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e o ginásio no Colégio Sagrado Coração de Jesus. A escolha posterior pelo curso clássico sinalizava seu interesse pela formação humana. Nessa fase, já dava sinais de sua vocação para a vida religiosa. Assim, as irmãs do colégio ofereceram-lhe o curso superior de Letras na Faculdade Santa Maria. Na infância e na adolescência, Tereza demonstrava sua opção por uma vida sem ambição e com a disposição para ajudar o próximo. Ao terminar seus estudos, manifestou aos pais seu desejo de seguir sua vocação. Seu pai, em sua sabedoria, aconselhou-a a trabalhar fora de casa, para que tivesse a oportunidade de conhecer as coisas do mundo. Foram dois anos dedicados ao trabalho e, ao fim do prazo acordado com os pais, em 1950, realizou seu desejo de ingressar no convento e dedicar-se à vida religiosa. E Maria Tereza tornou-se serva, Serva do Espírito Santo. Espírito que já a habitava mesmo antes de deixar o esteio da casa dos pais. Maria Tereza tornou-se a Ir. Veramaria. Os caminhos da Congregação a levaram longe, para a prática da caridade e da evangelização. O tempo passou, e o mesmo caminho que a levou a trouxe de volta, ao convívio familiar. Sua presença serena e dedicada superava a fragilidade que os anos lhe impuseram. E, até o fim, a “Irmã Fortaleza” manteve-se lúcida e dedicada aos seus. “Deus vê o segredo de nossos corações. Quanto mais próximos d’Ele, mais intensamente o calor desse amor vai nos tornando puras e santas. É uma chama viva, escondida em nós.” O seu lema era o AMOR ao próximo, a caridade. Tinha um bom coração, era honesta, sincera e sempre agradecida. Irmã Veramaria foi uma pessoa muito especial pelo modo carinhoso em lidar com as pessoas. Por onde passou, marcou com sua vida e dedicação. Durante o tempo em que esteve no Rio de Janeiro, ela acompanhou as missionárias vindas de Angola, que passavam por lá quando iam de férias para seus países de origem ou para dar entrada na documentação. Muitas vezes, chegavam doentes, e a Ir. Veramaria as encaminhava para tratamento ou ela mesma cuidava delas em casa. Tinha um grande amor pela missão em Angola, fundada quando estava como coordenadora de nossa Província. Ela recebia no Convento as irmãs que para lá eram designadas e organizava o material que precisava ser enviado. Foi uma presença incansável e colaborou de tal maneira que, de alguma forma, era como se ela também estivesse indo nessa missão. Quando uma irmã ficava doente, cuidava dela com muito empenho e carinho, encaminhando para os devidos tratamentos e dando acompanhamento espiritual. Era muito talentosa e tinha um ouvido muito afinado para a música. Ensaiava com perfeição para os grandes acontecimentos das comunidades por onde passou. Esmerava-se por uma liturgia bem cantada e belas apresentações em nossas festas especiais. Por onde passou, o ambiente de trabalho era de muita organização. Era pessoa muito profunda na experiência de Deus e amava muito a Congregação e, por ela, deu a vida em nossa Província nos vários desafios dos novos tempos. Pensar na Ir. Veramaria é acolher o amor de Deus presente em sua vida de dedicação que marcou nossas vidas de uma maneira muito especial. Assim se expressa uma das irmãs: “Eu sou muito grata por tudo o que ela fez. Nunca ouvi a Ir. Veramaria se lamentar, estava sempre agradecida por tudo. Era acolhedora, compassiva, misericordiosa e justa. Sabia organizar um ambiente agradável para as irmãs se sentirem bem. Foi sempre muito humana com as irmãs da comunidade, respeitosa e compreensiva. Mesmo fraquinha, colaborava sempre na comunidade, preparando as orações e participando da liturgia diária com muito amor, carinho e dedicação. Sempre foi prestativa e caridosa para com todas as pessoas que se aproximavam. Com tudo isso, aprendi muito com seu exemplo de vida. Ela sempre tinha uma boa palavra de ânimo e muito amor à Congregação e à Província. Cultivava o bom humor, a alegria e se fazia presente nos sofrimentos e na dor das coirmãs. Procurava ajudar e se colocava no lugar da outra, era sensível e se compadecia com a dor do próximo. Ela agia com prudência, sabedoria e bondade. Estava sempre em oração, rezava muito. Sempre dizia que estava se preparando para a eternidade. Que ia tirar isso mais aquilo, que não precisava mais… Que ia deixar apenas as coisas de seu uso pessoal e, aos poucos, foi se despojando materialmente. Isso me fez refletir muito, e é uma verdade: só Deus basta, o resto é tudo bobagem! Aprendi da Ir. Veramaria esse desapego total das coisas materiais; deixar tudo, despojar-se totalmente. Aí fica uma pergunta: o que devo deixar? O que estou buscando? O que vou levar? Obrigada, Ir. Veramaria, pelo seu testemunho e seu exemplo de despojamento. Interceda a Deus por nós junto de Deus.”
A voz inaudível do Amor que nos chama

Muitas são as vozes que ecoam em nosso mundo de hoje; muitas são as cores e os sabores que distraem nosso olhar, levando-nos para fora, para longe da fonte simples e transparente que nos mantém íntegros e em comunhão com Deus e sua missão. Entre tantas vozes está aquela que nos convida a ir ao encontro, a sermos discípulos, seguidores do Mestre. Mas, em meio a tanto barulho, onde e como podemos escutar a voz inaudível de Deus que grita nosso nome e deseja despertar nossa coragem para servi-lo? Como cristãos batizados, todos somos essencialmente designados a sermos discípulos de Cristo e, no batismo, é plantada em nós a força do amor e a coragem necessária para vivermos profundamente em comunhão com o Espírito Santo, abertos à missão de Deus. Segundo Thomas Merton, “Vivemos em um mundo transparente, e Deus brilha através dele o tempo todo”. Essas palavras nos surpreendem quando olhamos a nosso redor e enxergamos um mundo ferido, chagado pela ambição humana e obscurecido pelas crescentes catástrofes que presenciamos e pelo ódio difundido como base para construção de nossa sociedade. Voltamos então à nossa primeira pregunta: como ouvir essa voz inaudível de Deus que me chama? Como olhar ao redor e enxergar o mundo transparente sobre o qual nos fala Thomas Merton? Como sermos cristãos movidos pela graça, capazes de escutar e enxergar o caminho do Reino, em um momento histórico em que a poluição visual e auditiva impera em nosso dia a dia? Ainda Thomas Merton, em sua sabedoria, nos diz que “Temos, na verdade, de jejuar, orar, negar a nós mesmos e nos tornar homens interiores caso queiramos ouvir a voz de Deus”, para reconhecermos primeiramente em nós mesmos a voz de Deus e assim poder enxergar um mundo transparente e revelador de sua vontade. A descoberta e o cultivo de uma interioridade que nasce do silêncio e do encontro consigo mesmo é base para uma relação próxima com Deus. Essa relação nos dá acesso à consciência da presença de nosso Criador e nos possibilita estar em comunhão com Ele, abrindo espaço para que a graça divina se manifeste, pois “Não está em nós despertarmo-nos, mas é Deus que nos escolhe e nos desperta. Que nos convoca a sermos seres de transformação em tempos conturbados” (Merton, 1948). Seres de transformação que caminham pelo mundo, conhecem e vivem sua vocação de forma profunda e simples, que são capazes não apenas de enxergar um mundo transparente, mas de fazer real a presença amorosa de Deus, não porque são melhores ou mais bonitos, ou saudáveis, como nos exige a sociedade de hoje, mas porque estão conectados interiormente ao Deus da vida, ao Espírito Santo, que nos ajuda a concretizar nosso seguimento a Cristo, pela vivência do amor e da compaixão para com o próximo, pois, sem amor e compaixão, o nosso próprio amor a Cristo é uma ficção. Ir. Juliana de Andrade:Formada em Ciência das Religiões, estuda Psicologia e é Coordenadora da Animação Vocacional da Província SSpS Brasil Norte