À luz do Evangelho Dominical – Ascensão do Senhor

Depois de vários encontros do Ressuscitado com os discípulos, Jesus sobe ao céu diante de seus olhos. Para os discípulos, que ainda não tinham assimilado a morte e a ressurreição de Cristo, foi um novo desafio: assumir, por eles mesmos, o anúncio do Evangelho, contando com a presença de Jesus ressuscitado, porém não mais visível. E nós, será que entendemos o significado da Ascensão de Jesus? Será que, como os discípulos, também temos a tentação de ficar olhando para cima, esperando que Deus faça tudo por nós, sem tomar as iniciativas necessárias para realizar seu projeto em nossa vida? Neste vídeo da Verbo Filmes, o missionário leigo Luís Catapan fala sobre nossa missão como seguidores e seguidoras de Jesus. Esta solenidade também marca o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Neste ano, a mensagem do Papa Francisco fala sobre as redes sociais e alerta para o risco de nos isolar nas redes, em vez de nos conectar melhor e nos ajudar uns aos outros. Leia na íntegra a mensagem do Papa. http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20190124_messaggio-comunicazioni-sociali.html
Encontro da Palavra revelada com a história vivida

O Curso Internacional de Formação em Bibliodrama foi realizado de 10 de abril a 18 de maio de 2019, no Centro Ad Gentes, em Nemi, Itália. Coordenado pela irmã Maria Illich, SSpS, e padre Rudi Pöhl, SVD, reuniu pessoas de seis países: Alemanha, Filipinas, África, Polônia, Coreia do Sul e Brasil. Entre os participantes estava o educador Agostinho Travençolo Júnior, coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). Para ele, participar do curso foi uma oportunidade única e muito especial de experimentar um caminho novo de leitura, escuta e vivência da Sagrada Escritura. Ele ressalta a experiência de interagir com a Palavra de Deus “não meramente como coadjuvante e sim como protagonista”. Segundo Agostinho, o objetivo do curso foi buscar fortalecer a espiritualidade e o encontro com a Palavra de Deus, tendo como base quatro pilares (“relacionamento”, “comunhão”, “missão profética” e “ministério bíblico-pastoral”), além de formar facilitadores do método no bibliodrama. O texto inspirador foi a passagem dos “Discípulos de Emaús” (Lc 24,13-35). Buscando uma nova dinâmica e maneira de experimentar e comunicar a Palavra de Deus, o bibliodrama constitui-se de duas partes que se encontram: a Palavra de Deus e a história pessoal de cada participante. Por esse motivo, no método, cada pessoa é considerada única pelo que é e pelo modo como sente e compartilha sua experiência pessoal com a Palavra. O curso também capacita o participante a tornar presentes personagens e outros objetos do texto sagrado bem como aflorar o melhor e mais verdadeiro de seu mundo interior. Nesse sentido, Agostinho confidencia: “O curso veio para ressignificar minha história onde o Texto Sagrado pode expressar sua força e sabedoria”. Também conta que provocou uma mudança de direção, no sentido de olhar, sentir e tocar a vida de um jeito diferente e mais pleno de significados: “Trouxe para o centro o que deve estar no centro: a Palavra e a vida”, resume. Para Agostinho e demais participantes, Nemi se tornou, por seis semanas, um “laboratório internacional” de vivência e de aprendizado do método, possibilitando diferentes leituras da Bíblia, o que proporcionou uma profunda reflexão dos ensinamentos e dos valores do Evangelho. Agostinho retorna ao Brasil trazendo na bagagem o desejo de partilhar a experiência vivida. Ele quer proporcionar às comunidades educativas dos colégios da Rede de Educação a vivência do método e seus elementos, “para que nossas ações se transformem cada vez mais em expressões criativas e espontâneas”. Com entusiasmo, afirma: “É tempo de partir e de adaptar o método à nossa realidade latino-americana, que clama por dignidade e justiça. Afinal, o Deus de Israel bíblico e de Jesus de Nazaré é o Deus dos excluídos”. Agostinho ressalta ainda o clima intercultural de acolhida. “É o sinal mais claro da Palavra viva nesse encontro, que semeou no coração de cada um, de cada uma, sentimentos de gratidão e o desejo de continuar nessa caminhada”. “Quem ganha é a Dimensão Missionária, por se tornar cada vez mais um espaço de encontro da pessoa com a sua história e com a Palavra que fez morada entre nós”, conclui. Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS.
Compreender a presença de Deus na História

“A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo” (Sl 42). A renovação de nossa fé e de nossa espiritualidade está no caminho das fontes que as alimentam e saciam e, ao mesmo tempo, com que ardor fazemos este caminho. “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37). Há dois anos, quando iniciei a minha participação no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, logo percebi a vontade de todos os participantes do Curso de Teologia em ampliar os conhecimentos bíblico-teológicos, em compreender mais profundamente o significado da presença de Deus na história da humanidade e da humanidade na vida de Deus. Assumi as áreas de Cristologia e Eclesiologia, tendo muito claro que o mais importante era assegurar, desde o início, a linha teológico-pastoral, tendo em vista a presença missionária e pastoral das leigas e leigos na Diocese de Santo Amaro, como serviço a toda a Igreja. Qual seria, então, a melhor metodologia e que estratégias utilizar para adquirir e também construir ferramentas pedagógicas com os participantes do curso? Em relação à Cristologia e Eclesiologia, a ótica utilizada vem de um método simples, constituído de três questões fundamentais: o que queremos? Que caminho devemos fazer? Aonde queremos chegar e, ou, que resultado esperamos? O foco dos trabalhos, dos estudos, das aulas, desde o início, está na construção e manejo de instrumentais, chaves de leitura bíblica, a fim de que sejam facilitadores do abrir novas portas e janelas do conhecimento da Sagrada Escritura, dos Evangelhos, da pessoa de Jesus (seus ditos e feitos), do significado do Reino de Deus na história da humanidade. Esse tem sido o desafio desde as primeiras horas do curso: o caminho sagrado da fé e da vida. E, para isso, é necessário descalçar as sandálias antigas e calçar o projeto de Jesus, aprofundando os conhecimentos para uma melhor compreensão do significado de sua missão no plano de salvação de Deus. Em alguns momentos, é preciso “dar um mergulho” nas raízes da própria experiência de fé e deixar-se provocar, pois o Senhor nos provoca (chama em favor de) e nos envia. O que esperamos e desejamos é que, em sua ação missionária, todos os participantes do curso sejam um sinal vivo da presença do Reino de Deus em suas comunidades: por sua fé, ação e testemunho. E a todos nós, hoje, Ele nos chama e nos envia a semear novas sementes de vida, da Palavra, do diálogo, das ações de justiça, da ética, da comunhão, na unidade e no amor, como um novo modo de ser Igreja, vinho novo (Mt 9,14), celebrando a fé, a unidade, a partilha, as pequenas vitórias, enfim, a vida. Vem e vê! (Jo 1,46) Mariano Gaioski é teólogo e professor com especialização em História e Educação. Tem ampla experiência pastoral e social com adultos, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
À Luz do Evangelho Dominical – 6º Domingo da Páscoa

Estamos no 6º Domingo da Páscoa. Jesus continua o discurso de despedida e promete aos discípulos, e a nós: quem guarda a sua palavra, o Pai o amará e virá fazer morada nele. Também nos dá a sua paz e anuncia o envio do Espírito Santo, o Defensor.
Transformando vidas no Taquaril

As missionárias servas do Espírito Santo estão no bairro do Taquaril, na Região Leste do Município de Belo Horizonte, desde o início da década de 1990, poucos anos após o surgimento do bairro, em 1986. Apesar de ser uma área muito bonita, rodeada pela Serra do Curral, o Taquaril já foi considerado uma das regiões mais pobres do Brasil e a maior periferia da capital mineira. Sua população, em sua maioria, vinda do interior do Estado, precisou enfrentar muitos problemas sociais, além da violência, conflito entre gangues e tráfico de drogas. Graças ao trabalho dedicado da Igreja local e o empenho da população, muitas melhorias foram alcançadas. Exemplo disso é a presença da missionária polonesa Ir. Matilda Gorus. Quando ela chegou ao bairro, não havia praticamente nenhum serviço de atendimento à população. Então ela foi perguntando ao povo qual era a maior necessidade, e as famílias disseram que queriam uma creche, para deixar as crianças e, assim, permitir que as mães pudessem trabalhar. A Creche Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ligada à Paróquia São Gabriel, teve início em 1996 e vem transformando a vida das crianças e da população. Neste vídeo, você conhecerá um pouco da missão de Ir. Matilda no Taquaril e também verá o depoimento de alguns moradores da comunidade. Eles, incluindo o padre e um pastor evangélico, falam sobre a dedicação e o amor que a missionária tem para com aquele povo. Confira.
Conversando com Deus

Num desses dias, fui caminhando, como de costume, de nossa pequena comunidade no bairro da Cohab Adventista até o metrô Capão Redondo, na Zona Sul da cidade de São Paulo. O dia estava muito escuro e com nuvens pesadas de uma tempestade pronta para desabar a qualquer momento. Andava rapidamente, com receio de que a chuva caísse antes de eu chegar à estação, quando um jovem que vinha em minha direção, sem mais nem menos, parou sorrindo bem na minha frente. Surpresa, fiquei esperando pelo que ele diria, mas o rapaz não disse nada. Apenas me olhou e apontou para o céu atrás de mim. Sem entender, olhei para trás, e lá estava ele, em todo o seu esplendor: um arco-íris desdobrando-se de um lado ao outro do céu, com um colorido intenso e profundo, contrastando com o céu cor de chumbo. Um dos mais belos arco-íris que já vi em toda a minha vida. Por alguns segundos, maravilhada, fiquei contemplando o espetáculo. Então me lembrei do jovem que estava diante de mim e o agradeci por ter me mostrado o arco-íris. Sem dizer uma palavra, sorriu e continuou o seu caminho. Também continuei o meu, na direção oposta ao fenômeno. Ficara tão tocada com aquela visão que, por várias vezes, parei e olhei para trás. Precisava caminhar, mas não queria perder aquele belo espetáculo da natureza. Nas outras vezes que olhei, o arco-íris continuava lá, mas com menos intensidade e, aos poucos, foi esmaecendo. Percebi que havia recebido uma dádiva do jovem desconhecido e fui refletindo sobre o significado daquele momento. Na verdade, pensei, recebi um presente de Deus. O jovem foi apenas o mensageiro, o anjo que me fez parar e olhar na direção oposta. Sem ele, jamais saberia que havia um arco-íris atrás de mim. Pensei na aliança de Deus com a humanidade, após o dilúvio, e agradeci por Ele continuar presente em nossa vida, em nossa história. Por continuar sua obra criadora, cada dia, de novo. Por me revelar seu amor e seu sorriso naquele dia triste e escuro… Olhei a meu redor, e todos caminhavam apressados e indiferentes. Senti-me privilegiada por ter visto aquele arco-íris e, de alguma maneira, seu colorido se impregnara dentro de mim e mudou meus sentimentos. Pensei na realidade do Brasil… Vivemos tempos escuros, às vésperas de um temporal… A sensação de insegurança, a situação cada dia mais difícil, as pessoas lutando para sobreviver. Enquanto isso, fui me aproximando da entrada do metrô, e lá estavam os camelôs, tentando contornar, na economia informal, a falta de emprego. Precisavam ser muito criativos para conseguir o sustento de cada dia. Quantos teriam visto o arco-íris? Como ninguém olhasse para o céu, conclui que não tinham visto. Continuei caminhando e agradecendo a Deus, mesmo quando me misturei à multidão que se apertava nas catracas da estação. Não sei se entendi o que Deus estava me mostrando, mas sabia que Ele havia me tocado no mais profundo e queria me abrir para sua mensagem. Durante vários dias, continuei a pensar naquele pequeno episódio que, de alguma forma, conectou-me com o Deus que está por trás de todas as coisas. O Deus Pai e Mãe, fonte de amor e de vida, capaz de transformar todas as situações e acontecimentos, por mais desafiadores que sejam, em oportunidades para uma vida melhor e mais feliz. Um Deus que se manifesta dando colorido ao céu tempestuoso e dando sentido ao emaranhado de nossas vidas. Isso trouxe uma confiança profunda em meu coração. Mesmo quando as coisas não vão bem, quando o sol se esconde, o céu fica escuro e parece que tudo vai desabar sobre nossas cabeças… Deus está lá. Mesmo quando a política é um suceder de escândalos e de desmandos, a economia vai mal e parece que o País não tem mais jeito, nada disso é a última palavra. É como se Deus olhasse para nós e desse uma piscadinha de olhos dizendo: “Acordem! Tudo isso passa! Minha aliança continua! Vão em frente. Levantem a cabeça e olhem para o céu. Vocês podem contar sempre comigo! Olhem também ao redor de vocês. Arregacem as mangas e façam as mudanças que precisam ser feitas! Vocês são parte de minha criação e têm o poder para melhorar a realidade em que vivem! Portanto, não desanimem!”. Olhando para o céu, devolveria a piscadinha e diria: “Obrigada por ter me mostrado o arco-íris!”. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
À Luz do Evangelho Dominical – Quinto Domingo da Páscoa

Neste quinto domingo da Páscoa, Jesus revela o imenso amor do Pai e chama os discípulos carinhosamente de filhinhos. Ele sabe que vai morrer em breve e entrega como testamento o mandamento do amor, para que eles possam continuar o projeto do Reino de Deus.
A criança é sagrada

Um dos sinais mais gritantes de que a sociedade atual perdeu o rumo e está numa profunda crise de valores é o grau de violência que sofrem as crianças. Isso vai desde os pais que somente conversam com os filhos aos gritos até o alto grau de exposição de cenas de violência e sexo que aparecem nos meios de comunicação; tudo de forma tão banal que já não nos escandalizamos e até pensamos que é normal. No entanto tudo isso vai destruindo, aos poucos, o ser da criança e ferindo profundamente sua alma, deixando sequelas para a vida futura. Se o excesso de exposição causa danos, o que dizer a respeito do abuso sexual contra a criança? O que dizer a respeito da pornografia infantil e da pedofilia? O mais triste é que a maioria dos casos de abusos são causados por pessoas próximas à criança e até da própria família. E as consequências para a vítima são devastadoras, às vezes levando até ao suicídio. Dificilmente uma pessoa que foi abusada na infância supera o trauma e consegue ter um bom relacionamento afetivo na vida adulta. As crianças são o que há de mais sagrado e precioso, e deveriam ser protegidas e cuidadas de tal forma que jamais tivessem de enfrentar tal sofrimento. Que grau de perversidade atingimos como humanidade para abrigar esse tipo de conduta? Acredito que o abuso sexual contra crianças e adolescentes é o sintoma de uma sociedade doente e que precisa ser tratada. Não apenas as pessoas que molestam as crianças, mas a sociedade como um todo, pois, de alguma forma, acoberta e compactua. Vale a pena mencionar que esse problema também está presente nas igrejas e nas instituições e, infelizmente, em nenhum lugar as crianças estão realmente seguras. Essa situação é inadmissível e exige mudanças. O Papa Francisco teve a coragem de colocar o dedo na ferida e exigir que as pessoas envolvidas nesse tipo de crime sejam denunciadas e assumam as consequências de seus atos. Em fevereiro deste ano, a Igreja Católica, atendendo à convocação do Papa Francisco, realizou um encontro profético para estudar o problema, ouvir as vítimas, dar encaminhamentos concretos para defender crianças e adolescentes, e eliminar tais abusos dentro da Igreja. O Papa recordou que “Crimes de abuso sexual ofendem Nosso Senhor, causam danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e lesam a comunidade dos fiéis”. Como resultado desse encontro, recentemente o Papa Francisco publicou um documento motu proprio estabelecendo novos procedimentos para lidar com esses casos, obrigando o clero e os religiosos a denunciarem tais abusos. Essa medida visa não somente a impedir que os agressores voltem a molestar outras crianças como também acabar com a prática do acobertamento. Entre os procedimentos está a obrigatoriedade, para todas as dioceses do mundo, de, até junho de 2020, criar um sistema de atendimento no qual as pessoas que sofreram abusos possam recorrer à Igreja local, com a certeza de que serão bem acolhidas, protegidas de represálias e tratadas com a máxima seriedade. Na implantação das novas medidas, obrigatórias para o clero e para os religiosos, o Papa conta também com o apoio dos leigos, que poderão ajudar, apresentando denúncias e contribuindo com suas especialidades profissionais para oferecer apoio médico, espiritual e psicológico como também no acompanhamento dos processos de investigação. Com essas novas medidas, a Igreja está assumindo a responsabilidade por fatos ocorridos e buscando decididamente proteger crianças e vulneráveis dos abusos de poder e da violência sexual. São passos importantes, pois, de acordo com as palavras do Papa no início do documento: “Para que tais fenômenos, em todas as suas formas, não aconteçam mais, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por ações concretas e eficazes que envolvam a todos na Igreja”. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
Diversidade cultural e ambiental da Pan-Amazônia

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia será realizada em Roma, no mês de outubro deste ano, mas já vem sendo preparada por um amplo processo de diálogo e escuta dos povos que vivem na Região Amazônica. Com base no documento preparatório “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, vamos trazer uma síntese dos principais aspectos da realidade amazônica que nos ajudará a entender a importância do Sínodo e a nos aproximar mais dos povos indígenas e demais comunidades da região. O território pan-amazônico A Pan-Amazônia é composta por nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa). São mais de 7 milhões e meio de quilômetros quadrados que constituem o bioma amazônico. Além de ser uma das maiores reservas de biodiversidade do mundo, com 30 a 50% da flora e da fauna do planeta, concentra 20% da água doce não congelada e mais de um terço das florestas primárias de todo o planeta. Também é significativa pela captação do carbono. Diversidade sociocultural Na Amazônia convive uma grande variedade de povos. Originariamente, a população indígena vivia às margens dos rios e lagos. Contudo, para se protegerem dos colonizadores que queriam escravizá-los, muitos povos se refugiaram no interior da selva e outros contingentes populacionais vieram habitar essas áreas. Os povos tradicionais vivem em profunda comunhão com a natureza. Caçam, pescam e coletam o que a selva lhes oferece, e cuidam de seus rios e matas. Mas esse equilíbrio vem sendo destruído pelos grandes interesses econômicos, que provocam desmatamento e contaminação dos rios pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, derrame de petróleo, rejeitos de mineração e derivados da produção de drogas. As cidades cresceram muito rapidamente e receberam migrantes e deslocados de suas terras, especialmente indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes. Essas comunidades formam as periferias, marcadas pela pobreza e desigualdade social. Atualmente, de 70 a 80% da população pan-amazônica vivem nas cidades. Muitos são indígenas sem documentos e sofrem pela discriminação e atitudes de xenofobia. De acordo com o documento preparatório, “O crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não ‘integral’ nem ‘inclusivo’ da bacia Amazônica” (n.º 16). Identidade dos povos indígenas A população indígena da Pan-Amazônia é de aproximadamente 3 milhões, oriundos de 390 povos e nacionalidades diferentes. Entre eles há de 110 a 130 “povos livres”, ou “povos indígenas em situação de isolamento voluntário”. Outra situação é a dos povos indígenas que vivem nas cidades e perdem suas características culturais. Para enfrentar as ameaças à sua sobrevivência e manutenção de suas culturas, os povos indígenas e as comunidades amazônicas se organizam e lutam por seus territórios e seus direitos. Essas organizações não apenas buscam o fortalecimento de seus povos e o resgate de seus costumes, tradições e saberes, mas lutam também pela conservação da floresta e do meio ambiente, que é fonte de vida e de sustento. Em muitos desses contextos, a Igreja Católica vem marcando presença ao longo dos séculos, por missionários e missionárias comprometidos com as causas dos povos indígenas e amazônicos. Também busca, baseada em sua presença encarnada e sua criatividade pastoral e social, responder aos desafios da realidade amazônica.
Encontro além da Galileia (Marcos 7,24-30)

O encontro além da Galileia significou a Jesus adentrar não somente num território diferente, mas se inserir no próprio núcleo da hostilidade. Lembrando que ambos os povos, por vários fatos, ao longo da história, foram afundando na hostilidade (ver, por exemplo, 1Rs 16,31-33; Ez 26,15-21; 27,3-4.25-33; Zc 9,3). Por outro lado, o texto precedente do estudado aqui nos mostra que o confronto de Jesus com as autoridades judaicas tinha se tornado hostil. Quiçá esse fosse o motivo que fez Jesus ir para o território de Tiro. Considerando esse preâmbulo, será bem mais fácil ao leitor compreender que a cura que a mulher siro-fenícia procura para sua filha vai além de uma solução biológica, pois se insere na ótica das estruturas da existência social (a comunidade dos seguidores de Jesus estava vivendo o conflito de acolher ou rejeitar os pagãos). Observemos: “Saindo dali, Jesus foi para o território de Tiro… Logo em seguida, uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro ouviu falar dele e veio a atirar-se a seus pés. Essa mulher era pagã, siro-fenícia de nascimento. Ela pedia a Jesus que expulsasse o demônio de sua filha” (vv. 24-26). O evangelista nos introduz no drama do encontro de Jesus e a mulher de origem pagã. Ela tem um forte motivo para ir ao encontro de Jesus: o desejo de liberdade. E, atirada a seus pés, pede a ele que expulse o demônio de sua filha. Jesus, porém, nos surpreende, já que responde defendendo a honra coletiva dos judeus, “os filhos”, para logo acrescentar “se fartem primeiro”, pois “não fica bem tirar o pão dos filhos para atirá-lo aos cachorrinhos”. Entretanto essas expressões que refletem a hostilidade étnica, cultural e religiosa mostram que Jesus toca o fundo do conflito, para desmitificá-lo e, novamente, restabelecer as relações. É interessante que, a seguir, a mulher retoma a imagem de Jesus e desenvolve-a em seu favor: “É verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos!” (v. 28). Cabe observar que essa é a única vez que Marcos refere o título Kyrios (Senhor) em grego. É essa a invocação com que a comunidade de Marcos vai se dirigir a Jesus ressuscitado. Entretanto a resposta “comer as migalhas dos filhos” é o primeiro passo dado pela representante da comunidade dos pagãos vindos à fé, a mulher siro-fenícia, para restabelecer a relação há séculos rompida entre os judeus e os povos de origem pagã. Destarte os limites da identidade coletiva são redelineados por Jesus, na base da ética universal. Jesus é um pregador revolucionário que vem dos campos da Galileia e que propõe outra sociedade: não mais baseada nos privilégios raciais, na força do capital, nos latifúndios e propriedades privadas, mas fundada na igualdade da confederação das tribos. Portanto a base para a segregação social e racial se vê subvertida por Deus mesmo. E Deus conta com a nossa resposta livre e gratuita que teça relações criadoras (cf. Gn 1,26-28). Diante dessa boa notícia, caberia nos perguntar: quais são então as bases em que se apoiam nossas sociedades quando expressam leis que rejeitam, discriminam e excluem Que sustém e alimenta a ideologia do acúmulo de uns em detrimento de multidões Por que nossa cultura descarta os que são diferentes Além disso, poderíamos também nos perguntar: quais são os mitos que devem ser desconstruídos para restabelecer as relações entre nós e com o nosso planeta A que ou quem convém que caminhemos na contramão daquilo para o que fomos criados? O texto deixa ver que o problema não era simplesmente a nova ordem proposta por Jesus, mas sim o fato de ele questionar os códigos sociais, culturais e religiosos ancorados no mais profundo das pessoas, no coração. O coração, na concepção bíblica, designa o centro da pessoa, é o lugar dos sentimentos e do julgamento. É frequente encontrar na Bíblia referências teológicas ao coração de Deus. Trata-se do dom inesperado de Deus que transcende todas as relações de fidelidade e ultrapassa as expectativa e categorias humanas. No coração, pode-se dizer que se gesta o melhor que há em nós, mas também nele podemos cunhar o mal (cf. Mc 7,14-23). Diante dessa realidade, fica-nos o desafio de ir com Jesus além da Galileia para apreender a dialogar com as causas reais dos nossos conflitos. Situar-nos na fé na dinâmica histórica da vida concreta (território, raça, cultura, valores, ritos, expressões, educação, imaginários coletivos, etc.) implica uma conversão total. Isso porque a fé nos abre ao diálogo para desmitificar os códigos culturais que, muitas vezes, cegam-nos, fazendo crer que somos os únicos e, portanto, temos o direito de “filhos”. O amor a Deus, o amor aos outros e o amor a nosso planeta deverá ser nossa bússola e nunca “o direito dos escolhidos”, que é privilégio de alguns. “E ele lhe disse: ‘Pelo que disseste, vai. O demônio saiu de tua filha’” (v. 29). Jesus expulsa o demônio da exclusão, afirmando que Deus está com os excluídos (pagãos) exatamente para mostrar-lhes que são iguais aos “filhos” e que essa igualdade será defendida por Deus, pois ela é base de nossa identidade (cf. Gn 1,26-27). “Ela voltou para casa… O demônio tinha ido embora” (v. 30). A siro-fenícia compreendeu que realmente Deus liberta, salva e inclui todos, como filhos, na mesa do Reino. E, por isso, é possível pensar, do fundo de nosso coração, outras formas de ser e de nos relacionar. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.