“Remexendo sempre na mesma sopa”

Estava lendo um livro e encontrei a seguinte expressão: “mexendo sempre na mesma sopa”. O autor fazia uma análise ampla da busca da integração psicoespiritual. Não vou reproduzir o que ele dizia, mas sim o que entendi ser um dos significados para esse “mexer sempre na mesma sopa”. Todos nós, humanos, temos duas características básicas: um “coração grande e um pequeno”, expressões usadas pelo autor. Vou me ater aqui ao “coração grande” como aquela tendência natural em nós que nos projeta para o alto, para o altruísmo, para o desejo de servir os outros, para ideais que desejamos alcançar, para projetos duradouros para nossa vida. O outro, “coração pequeno”, aquela dimensão que nos mantém muito voltados para nossas necessidades imediatas, busca de prazer, satisfações subjetivas, centradas em nosso egocentrismo. Essas duas tendências existem em nós por natureza, isto é, nascemos com elas. A questão é como buscar o equilíbrio entre elas. Se privilegiamos uma só em detrimento da outra ou caímos num espiritualismo histérico, ou num egocentrismo subjetivista que nos distancia dos outros e nos faz rodopiar em torno do próprio umbigo. Em ambos os casos, ficamos “remexendo sempre na mesma sopa”, ou seja, não progredimos como seres humanos, não atingimos as metas maiores que temos para a vida. Quer queiramos ou não, a vida está ligada a esses dois polos. O do coração pequeno é aquele que nos põe em contato com a realidade cotidiana, cheia de nuances desafiadoras, ao mesmo tempo em que temos de dar conta de nossos compromissos e estar em contato com as pessoas de nossas relações. Vivenciamos conflitos, desacordos, insatisfações, ou porque ficamos cansados de repetir sempre as mesmas coisas em nossa rotina de trabalho, ou porque não nos sentimos compreendidos ou valorizados como desejaríamos nas relações com os outros e acabamos insatisfeitos com nossas “insatisfações”. É nosso coração pequeno que fica girando em torno de si sem sair do lugar. Vira monotonia desgastante que, com o tempo, nos esvazia e nos faz perder o gosto por aquilo que antes considerávamos tão importante. Isso se dá nos vários aspectos de nossa vida. Por exemplo, na vida conjugal. Ao casarem-se, os dois fazem juras de amor eterno. Depois de alguns anos, começa um cansaço nas relações, e muitos não suportam mais e abandonam o juramento feito. Aquilo que antes era tão satisfatório vira “enjoativo” ou insuportável. Isso está relacionado ao “coração pequeno” que não se integrou, de forma equilibrada, ao “coração grande”, não descobriu ou cultivou sentidos maiores para a união, restringiu-se à satisfação do imediato e, ou, não aceitou as limitações do outro antes idealizado. Por outro lado, o “coração grande” é aquele que alimenta nossos sonhos de realização com as coisas maiores, valores perenes que nos colocam numa dimensão altruísta, alimentando nossos ideais e nossas crenças. Esse coração grande mal administrado pode causar desiquilíbrio em nossa busca, porque se desliga da realidade concreta e se torna quase que “fantasia”. Isso ocorre muitas vezes no aspecto religioso que, por si, poderia nos elevar, mas que se presta, muitas vezes, para fugir da realidade, virando espiritualismo estéril, desligado da vida concreta (coração pequeno). Também nesse caso, não houve integração entre o coração grande e o coração pequeno. Aí se verifica o “remexer na mesma sopa”. Isto é, não se integra uma espiritualidade genuína à realidade concreta e cheia de desafios. É mais fácil transferir para Deus resolver aquilo que é de nossa responsabilidade do que pagar o preço por nossas limitações e incoerências. “Remexer na mesma sopa” é o que acontece quando deixamos de nos questionar sobre nosso modo de viver. É certo que nunca conseguiremos uma homeostase (equilíbrio perfeito), contudo isso não nos impossibilita dilatar o coração pequeno para sair de seu ninho subjetivista e de o coração grande ser mais realista em seus sonhos. Somos imanentes e transcendentes ao mesmo tempo. Isso não depende de nossa vontade, porque isso é de natureza, o que fazemos com esses dois movimentos de subir e descer depende de cada um. Certamente que não é uma tarefa fácil, pois está ligada às nossas bases antropológicas que nos empurram para o alto e, ao mesmo tempo, obriga-nos a ficar com os pés no chão. “Remexer na mesma sopa”, no caso, é não se dar conta dessa realidade e ficar girando na mesmice de sempre, desanimando diante das exigências vitais que dão razão à nossa existência e nos refugiando em depressões que consomem as energias, ou virar “anjos” inocentes fora do contexto da existência, despersonalizados e insípidos. Haja caldo para continuar a “remexer nessa sopa”! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Solenidade de Pentecostes

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”Atos 2,1-11; João 20,19-23 A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições: a de Lucas (Atos dos Apóstolos) e a da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da Bíblia (infelizmente ainda muito comum entre nós) leva-nos a um beco sem saída, pois, no Evangelho de João, a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de 50 dias. Por isso devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores. Os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lucas 4,1) e se lançou em sua missão “com a força do Espírito” (Lucas 4,14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período e, na festa judaica de Pentecostes, também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (Atos 2,4). Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso, mas isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos versículos 1 a 4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos versículos 5 a 11, mais profética e missionária. Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração” (Atos 1,14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus. O primeiro relato (versículos 1 a 4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus (o som de um vendaval e as línguas de fogo). A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” – glossolalia – tão valorizado por muitos grupos de cunho neopentecostal). A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público – provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (Atos 1,6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Por três vezes, o relato destaca o fato de os presentes poderem “ouvir” em sua própria língua (versículos 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético, o de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas, ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus. A lista dos presentes tem um sentido especial. Estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, esse fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, em que a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu), que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o Evangelho com a própria expressão cultural. Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica a uma comunidade universal, missionária, mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento. É uma experiência contínua, por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (Atos 4,31), sobre os samaritanos (Atos 8,17) e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos, na casa de Cornélio (Atos 10,4). Pois o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus. Aprendamos do texto de Atos e celebremos nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas a de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias. João 20,19-23 No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz que Jesus tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir, embora de uma maneira inadequada, o termo hebraico “shalom!”, que é muito mais do que “paz”, conforme nosso mundo a compreende. O shalom é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Na proclamação do saudoso Papa São Paulo VI, “A justiça é o novo nome da paz!”. Jesus não promete a paz do comodismo, mas, pelo contrário, envia seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas promete o shalom, pois ele

Pentecostes: o Espírito nos leva a servir

Neste domingo, 23 de maio, a Igreja celebra a grande solenidade de Pentecostes. É quando os cristãos comemoram a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus. Festejamos o “sopro”, a “respiração”, a “brisa”, o “vento” criador de Deus a vivificar a Igreja. A liturgia nessa data é riquíssima, com uma celebração própria para a vigília (sábado) e outra para o domingo. As comunidades cristãs orientais, sobretudo, são muito esmeradas quando se trata do Espírito Santo. Quanto à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o tesouro místico, litúrgico e teológico dessas tradições é incalculável. Nós, cristãos ocidentais, temos muito a aprender com esses nossos irmãos e irmãs, mas isso não quer dizer que, deste lado do mundo, também não existam riquezas. Estive meditando um pouco sobre o nome que Santo Arnaldo Janssen deu ao primeiro ramo feminino de sua obra evangelizadora: a Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Dias atrás, numa formação para os futuros diáconos permanentes da Arquidiocese de Belo Horizonte-MG, tratei sobre o tema “espiritualidade”. Em um resumo bem agudo, destaquei que esse dom é, de fato, vivido na prática; caso contrário, vira espiritualismo. Uma “pessoa espiritualizada” preocupa-se (e procura agir) diante de uma floresta que arde, água e ar poluídos, com o fato de haver pessoas sem um teto, sem uma terra, sem emprego, sem acesso à saúde, à educação, à segurança. Afinal, “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mateus 25,40b). Nessa linha, o servir à Criação, algo essencial para os seguidores de Jesus, é impressionante o horizonte que o Fundador da Família Arnaldina propõe para suas filhas espirituais: irmãs evangelizadoras e servas do Espírito Criador, do Espírito Consolador, do Espírito da Vida. Para Santo Arnaldo, a maior e constante adoração ao Senhor passaria pelo anúncio de Jesus, a Boa Notícia, e pelo serviço principalmente aos mais fragilizados, pois cada ser traz a essência do sagrado, o Espírito que Deus nos soprou nas narinas (cf. Gênesis 2,7). Em síntese: ser serva, servo do Espírito Santo é estar à disposição do próximo, e esse propósito vale para todos os batizados e batizadas, de qualquer tempo e lugar. Viver na espiritualidade de Deus é servir, e bem. Ser discípulas-missionárias, discípulos-missionários, servindo ao Espírito Santo, é, para mim, uma indicação muitíssimo inspirada de ter o coração na Trindade e os pés bem no chão. Não é muito fácil falar sobre essa Brisa Santa. Creio que Deus nos faz mesmo é um convite à experiência de nos deixar levar por esse subversivo “vento que sopra aonde quer” (João 3,8a). Assim, ouso aqui partilhar uma breve oração, vinda do que sinto (e não penso) sobre o Espírito Criador. Permita-se inspirar por aquele que renova a face da Terra e componha a sua prece também. Se temos o dia, Senhor, por vosso Espírito, temos o calor e o Sol.Se temos a noite, por vosso Espírito, Senhor, temos a luz a nos guiar na escuridão.Se temos a chuva, por vosso Espírito, a terra é ventre fecundo.Se temos a semente, por vosso Espírito, temos a árvore e os abundantes frutos.Se temos os livros, por vosso Espírito, temos o mais profundo instrutor.Se temos inteligência, por vosso Espírito, Senhor, recebemos o dom da preciosa sabedoria.Se temos forças, por vosso Espírito, nosso ânimo é inspirado para o bem.Se temos o cansaço, por vosso Espírito, temos o conforto do repouso e da serenidade.Se temos o presente da água, por vosso Espírito, temos o mergulho em Cristo.Se temos a vida, por vosso Espírito, nós a temos em abundância.Se temos fé, por vosso Espírito temos a chama da verdadeira piedade.Se temos as liturgias, por vosso Espírito, celebramos o Mistério e o divino abraço.Se temos a morte e as cruzes, por vosso Espírito, temos a ressurreição e a vida.Se temos o Espírito, temos a fé, a esperança, o amor.Vinde, ó divina Brisa!Vinde, ó Vento de santa rebeldia!Vinde, ó Sopro de vida!Vinde, ó Espírito Santo! Amém. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.

Bem-aventurada Madre Josefa Stenmanns: uma grande missionária para todos os tempos

Quem é a Bem-aventurada Madre Josefa Stenmanns? Ela é cofundadora da Congregação Missionária das Servas do Espírito Santo. Ela nos deixou um grande exemplo de amor, de acolhimento e de entrega ao Espírito Santo. Vamos conhecer sua vida e missão, seguindo algumas passagens de sua trajetória guiada pelo Espírito Santo. Desde cedo, Hendrina, nome de batismo, recebeu a iniciação na vida espiritual. Sua mãe plantou em seu coração as sementes de bondade e fidelidade. A partir de 6 anos, Hendrina ia à missa todas as manhãs, antes da escola. Após a primeira comunhão, recebia os sacramentos a cada semana. Aos poucos, desenvolveu seu estilo próprio de felicidade e alegria. Simplesmente por sua presença e bondade, ela tinha o dom de alegrar os outros e consolá-los na dor e nas dificuldades. Também tinha os olhos e o coração voltados para os necessitados da vila onde morava. Tinha uma palavra de carinho para cada um. Todos os dias, visitava doentes, idosos e pessoas abandonadas. Ela cuidava deles e os consolava. Conseguia ler o sofrimento interior e a dor dos outros. Em sua comunidade paroquial, cultivava a oração e as visitas a Jesus. Praticava atos voluntários de penitência. Levava a sério a lei do jejum. Participava da peregrinação anual a Kevelaer, lugar de encontro com Nossa Senhora, Consoladora dos Aflitos. O sopro do Espírito é movimento e vida. Hendrina se transformou numa jovem madura em busca do futuro. Apesar do trabalho e da assistência aos necessitados, ela queria algo mais. Rezava o terço e breves orações durante suas atividades. Em seu coração, sentia crescer o desejo de comprometer-se totalmente, seguindo mais de perto o Senhor. Aos 19 anos, entrou na Ordem Terceira de São Francisco. Foi franciscana da Ordem até entrar em Steyl. Viveu intensamente esse período e cumpriu as exigências da Ordem Terceira: desejo sincero de perfeição; prática da renúncia e da humildade; virtudes da fé, esperança e caridade; fortaleza, paciência e perseverança no sofrimento e adversidade. Em seu coração, crescia o desejo de seguir o Senhor. Indo pela primeira vez a Steyl, reconheceu o sopro do Espírito pelo clima de oração e missão que não a deixou em paz. A semente plantada em seu coração na infância e juventude e o sopro do Espírito Santo se tornaram mais visíveis. Assim, depois de muitos anos de espera e amadurecimento, tomou uma decisão definitiva: urgia dar o passo decisivo. Pediu que Santo Arnaldo Janssen, Fundador da Casa Missionária de Steyl, a recebesse como empregada. Na carta ao Fundador, escreveu: “Pedi a luz do Espírito Santo, para que eu seja guiada conforme a vontade de Deus, para aquilo que ele planejou desde a eternidade”. O desejo de entrar na Casa Missionária nunca a deixou. Estava certa de ser destinada a participar do trabalho da propagação da fé. Essa é Hendrina partindo para Steyl. Deixou família, profissão e paróquia para arriscar um passo novo em seu seguimento do Senhor. “Vem, Espírito Santo!” era sua constante oração. Era fiel no compromisso de aprofundar a contemplação da presença de Deus em seu coração e nas pessoas. Cultivava o silêncio e a contemplação. Sua sintonia com Deus fez dela uma religiosa de profunda sensibilidade e simplicidade, de espontaneidade e proximidade com as irmãs e com as pessoas com quem se relacionava. Dizia às irmãs: “Rezem muito para que o Espírito Santo, que nos uniu pelo amor, também nos conserve no amor. Ele é o Pai de amor e de bondade”. Sendo uma mulher de grande bom senso, de compaixão, amor e generosidade, sua presença irradiava paz, alegria e calor humano. Sua espontaneidade, sua maneira amiga e benevolente criou uma atmosfera favorável à escuta e ao diálogo, e todas as suas palavras expressavam amor, bondade e sinceridade. Nos tempos difíceis da comunidade e nas dificuldades pessoais, sempre dizia: “Seja feita a santa vontade de Deus”. Demonstrava sensibilidade atenta à vontade do Senhor. Era uma testemunha viva dos ensinamentos que passava aos outros. Ao se aproximar de alguém, era acolhedora e atraente, capaz de conquistar logo a confiança das pessoas. Sabia como construir pontes aos outros e criar um sentido de comunidade. O amor profundo à Eucaristia era, para Madre Josefa, uma fonte de vida, que, por sua vez, encontrou expressão concreta em seu amor aos pobres, doentes e necessitados, enquanto ainda estava em casa, antes de sua ida para Steyl. Vemos, em sua vida, uma entrega incondicional à vontade de Deus, vivida na alegria e gratidão, com convicção e liberdade interior. E, apesar de suas muitas atividades, ela não caiu no ativismo, achando sempre tempo para a contemplação e oração. Desenvolveu o espírito missionário e assim escreveu ao Fundador: “Desejo nada mais que, com a graça de Deus, ser a última e sacrificar-me pela obra da evangelização”. Se houver uma frase que possa resumir adequadamente a vida de Madre Josefa, acreditamos ser esta: se cumprirmos fielmente todas as nossas tarefas, estaremos prontas a comparecer diante de Deus quando Ele chamar. Rezemos diariamente: pronto está meu coração, ó Deus, pronto está meu coração! Fala de um desejo, disposição, entusiasmo, abertura, amor, liberdade interior. Ela rezou e viveu por um objetivo: abrir cada coração ao amor. Para isso, ofereceu sua vida com uma prontidão total, sem limites e condições. “Ó Coração tão bondoso, quero amar, agir e sofrer em ti. Purifica-me de tudo o que ainda é meu e transforma-me em ti.” Essa transformação final e essa purificação total ocorreu, acima de tudo, durante a longa e dolorosa doença terminal. Foi naqueles meses que Madre Josefa repassou às irmãs uma herança preciosa que constitui, ao mesmo tempo, seu testamento que lhe dera luz, força e orientação em todas as situações: “Vem, Espírito Santo! Vem, Espírito Criador!”. Essa oração era sua vida, sua própria respiração, e ela queria que fosse a respiração de suas filhas espirituais. Entre ansiedade e esperança, entre vida e morte Madre Josefa sofreu muito durante sua longa doença terminal. Sempre de novo sofria de fortes crises de asma e, no fim, começou a sofrer de edema. Alternava

Violência sexual contra crianças e adolescentes e a carência de valores humanos

Embora o homem moderno tenha à sua disposição grandes recursos tecnológicos, a sociedade parece estar carente de valores profundos. Daí, nunca como hoje, existir tanta infelicidade, angústia, depressão individual e coletiva que geram chagas como a violência sexual contra crianças e adolescentes. É doloroso olhar para esse problema, ao mesmo tempo em que nos coloca diante de uma grande responsabilidade, a de reconstruir o ser humano profundo em cada um de nós. A violência sexual contra crianças e adolescentes é hoje uma das grandes preocupações em nível mundial, afetando a sociedade como um todo, grupos, famílias e indivíduos. É uma das violências que atingem todas as faixas etárias, classes sociais e ambos os sexos. Contudo fatores como a miséria facilitam situações de promiscuidade, favorecendo as vitimizações. Hoje é um problema endêmico e complexo de saúde pública, e um desafio para a sociedade. Estudos da Organização das Nações Unidas revelam a existência de 1,8 milhão de crianças envolvidas em redes de prostituição, 1,2 milhão submetidas ao tráfico de seres humanos, 230 milhões de vítimas de abuso sexual. A violência sexual pode ser definida como envolvimento de crianças e adolescentes, dependentes e imaturos quanto a seu desenvolvimento, em atividades sexuais que eles não têm condições de compreender plenamente e para as quais não têm condições de dar seu consentimento. Oitenta por cento da violência sexual contra crianças e adolescentes acontecem no espaço familiar ou em círculos de relações próximas e confiáveis. No ambiente doméstico, por um processo de domínio e poder estabelecido pelas regras sociais, agressores com laços consanguíneos e de parentescos praticam esse tipo de violência. Predominantemente, essa violência ocorre dentro de relações de poder, nas quais os homens praticamente possuem o domínio no território físico e simbólico da estrutura familiar. Os pais são responsáveis pelo maior número de vitimizações sexuais, seguidos de padrastos, tios e irmãos. O ambiente doméstico, isolado do olhar público, favorece que a violência praticada fique encoberta pelo silêncio cúmplice e sem testemunhas. O autoritarismo e o machismo se articulam nas condições de vida das famílias. Apesar de os meninos serem também vítimas de violência sexual, as vítimas preferenciais dos agressores são crianças e adolescentes do sexo feminino. Isso evidencia a questão de gênero, em que as diferenças de sexo são convertidas em desigualdades, possibilitando o processo de dominação e exploração. Além das possíveis lesões em seu corpo, crianças e adolescentes vítimas de violência sexual tornam-se adultos mais vulneráveis a outros tipos de agressões e distúrbios, podendo levar ao uso de drogas, prostituição, depressão e suicídio. A criança que sofre violência sexual pode carregar esse trauma que afeta seus padrões de relacionamento posteriores. A violência sexual contra crianças e adolescentes é uma forma de abuso difícil de ser notificada devido a vários fatores. Entre eles, o silêncio e a negação dos fatos pelas crianças e as famílias, pelo medo e pelas perdas de laços familiares que envolvem. A criança vítima sofre ao revelar o abuso e ver-se privada do direito à convivência, pois o familiar pode ser afastado do lar ou posto na cadeia. É uma violência também difícil de ser denunciada devido à falta de credibilidade e provas físicas no sistema legal. A partir da Constituição Federal de 1988, no Brasil, a criança passou a ser sujeito de direitos, merecedora da proteção integral por encontrar-se em fase especial de desenvolvimento físico, psíquico, cognitivo e social. A aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente realizou um importante avanço no campo dos direitos humanos, aprovando um instrumento que colabora decisivamente na identificação dos mecanismos de violência e implementação dos direitos constitucionais da população infantojuvenil. Dessa forma, a sociedade e o Estado brasileiro promovem o enfrentamento dos diversos tipos de violência, assegurando às crianças e adolescentes o pleno exercício de seus direitos constitucionais e estatutários. O Conselho Tutelar, órgão permanente e autônomo, não jurisdicional, tem como atribuição o atendimento direto de denúncias, o diagnóstico da realidade de violação de direitos, o monitoramento do Sistema de Garantia de Direitos e o atendimento direto de serviços, suprindo a falta de políticas públicas. Quando a família como elemento de proteção falha em relação à criança e ao adolescente, entram os profissionais da Educação, da Saúde, do Serviço Social e do Direito, oferecendo um redirecionamento curativo e reconstrutivo. A complexidade e perplexidade desses comportamentos fazem com que o atendimento pelos profissionais de saúde também seja difícil e falte agilidade e eficiência. Concluímos trazendo presente o apelo que essa questão traz para cada um de nós. Hoje sabemos que a vida não acontece de forma isolada, mas que participamos de um destino comum. Culpar e punir só leva a mais violência. Elevar nosso ser, cultivando os valores que dão dignidade à vida de cada ser humano trará uma corrente positiva. Para nós, cristãos, significa acolher-nos à ação do Espírito Santo, que renova todas as coisas, nos salva e reconcilia em Cristo. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS

Bocas famintas

Eu que escrevo, você que me lê, diariamente, temos três ou mais refeições para saciar nosso apetite. Assim acontece com 90% dos brasileiros; somos a maioria! Contudo os outros 10%, segundo noticiários, não têm o que comer. Passam fome. As sobras de nós, os 90%, amenizariam certamente boa parte dos 10%. O Brasil é o maior produtor de alimentos de origem agrícola e de proteína animal. Exportamos milhões de toneladas que rendem milhões de dólares. Pois é, e sobram 20 milhões de pessoas que passam fome! Fico estarrecido diante dessa realidade. E me incomoda que eu faça tão pouco para ajudar a saciar essa gente. Sei que uma ação solitária resolve pouco, embora possa amenizar a fome de algumas pessoas. E as outras? O que dizer para uma mãe que tem três ou quatro filhos e acordar sem ter o que dar de comer para eles? Há gente que se sensibiliza e ajuda como pode, há gente insensível que até critica essas pessoas, dizendo que não trabalham e querem viver às custas do governo. Pode ser até verdade em alguns poucos casos, mas não se aplica à maioria. O pobre é frequentemente pobre em tudo. Não tem escolaridade, vive num ambiente pobre, não tem perspectiva de futuro, vive na esperança de ganhar alguma cesta básica. Não tem qualificação profissional, seu salário é baixo; em muitos casos, nem carteira de trabalho tem. Catam latinhas e plásticos descartados de nossas casas. Tentam sobreviver assim. No meio deles, às vezes, há os malandros que viciam as crianças na droga e, depois, elas se tornam dependentes. Em muitas famílias, muitas delas desestruturadas, reina um ambiente nocivo e frequentemente agressivo; a fome é apenas um dos problemas. Nós, os 90%, acostumamo-nos a esquecer essa realidade ou estamos “vacinados”, já “imunes”, achamos “normal” essa situação. De vez em quando, lamentamos a situação quando vemos casos desesperados de mães que imploram. Passada a comoção, voltamos a nosso cotidiano, tendo boas intensões, desejando que tenham boa sorte. Enquanto nossa mente e coração ficarem presos ao lucro a qualquer preço, ao acúmulo sem medida em nossas mesas, enquanto não recuperarmos a sensibilidade humana para com os humanos, essa situação vai persistir. Para resolver o problema da fome, bastaria distribuir melhor um pouco do que produzimos em alimentos, contudo somente isso não resolve a situação da pobreza. É preciso uma atitude que vá desde nós, que comemos todas as refeições que queremos diariamente, até aqueles que têm a responsabilidade política e administrativa para mudar essa ideologia capitalista que não vê o outro como pessoa, mas apenas como crachá que produz. Como podemos ficar com a consciência tranquila quando vemos que cachorros e gatos são mais bem tratados do que pessoas? Uma cena inusitada diante de um pobre que pede comida e a ração de primeira para o cachorro de estimação. Gasta-se o que for necessário pela ração, mas não tem um troquinho para um pão para o faminto. Ao cachorrinho se dá todo o conforto e carinho; ao pobre, o olhar de desprezo e pede-se que não volte mais a bater à porta. Não estou dizendo que os animais devam ser maltratados, mas que se tivesse com o ser humano um pouco mais de compaixão e solidariedade, que o tratamento ao humano fosse próximo àquele que dispensado aos animais. Quem sabe, assim, a fila das bocas famintas diminuiria um pouco? Na consciência dos “humanos”, os 10% dos brasileiros famintos pesam mais do que os 90% de saciados. Esse escrito é só uma reflexão, constatação! Deus nos ajude e nos mova a alguma ação em favor de pão para as bocas famintas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Aprendendo a ser mãe

Sobre a maternidade, há tanto a dizer que mil e uma noites não seriam suficientes. Estamos diante do fato que mais reafirma nossa fé no Divino e maravilhoso. Aquele minuto do rebento que pega de surpresa até aqueles que não creem. Há maternidade que é concebida no ato da adoção, na decisão de acolher para sempre. Um lugar idealizado e socialmente construído. Uma (des)construção permanente se faz necessária. E quando você menos percebe, a maternidade a coloca diante de uma aula que não se acaba, um aprendizado sem fim. De minha experiência como filha, entre tantas, trago a lembrança de minha mãe servindo licor de jabuticaba caseiro a dona Maria, uma negra que transitava nas ruas pedindo ajuda de porta em porta. Dos idos dos anos 1970, também trago a dor da cena partilhada com minha mãe, na esquina de nossa rua, lamentando a belo-horizontina Serra do Curral ardendo em chamas. De minha experiência como mãe, trago um bordão muito particular: exaustão e êxtase. Um girar da exaustiva roda da vida que não pode parar e que tem uma química própria que nos impele à reinvenção cotidiana e a um aprendizado infinito. Um processo de retroalimentação incansável e que se nutre de cenas e conquistas corriqueiras e extasiantes as quais renovam nossas forças. A maternidade inaugura a vida de outra pessoa. A força dessa criação é um mistério que vai nos acompanhar. Para seguir falando da maternidade, trago um provérbio africano que diz que, para educar uma criança, é preciso uma aldeia. A função materna educadora e personificada na redentora e solitária figura da mãe dá lugar à ação educativa da aldeia. Muitas mãos e muitas mães ajudando a tecer o fio da vida… Uma lição que não se acaba, nunca! Uma lição que começa a cada criança que nasce. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Atividade didática destaca o valor da mulher

A questão do feminino nos provoca a pensar um mundo mais afetivo e humano. Partilhamos um texto e um poema elaborados pelos alunos Nycolas Daibert Vieira e Kimberly Lopes Galvão César. A atividade foi motivada pelas professoras de Redação, Cristiane Imperador, do Colégio Espírito Santo (São Paulo-SP), e Erika Vullu, do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora-MG). A comemoração do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, inspirou o trabalho. Veja as composições a seguir. Para todas as mulheres do mundo O dia 8 de março é uma data internacionalmente especial: é a homenagem às mulheres, que marcam a nossa vida e melhoram os lugares pelos quais passam. Mas, no cotidiano, a situação é diferente. Infelizmente, elas vivenciam vários desafios no trabalho, nas redes ou nas ruas. Todos os dias, milhares de mulheres são assassinadas pelos maridos ou namorados, são expostas, assediadas e estupradas. Neste mundo machista e opressor em que vivemos, normalmente as pessoas dizem que é “mimimi”, falam que é por causa da roupa, do gênero, da sexualidade ou do estilo de ser. Mesmo passando por diversas situações, as mulheres conseguiram seu lugar de fala e de poder na sociedade atual, mostrando que são inteligentes, fortes e mais capacitadas que vários homens por aí. Sabemos que o mundo não é um lugar fácil de se viver, mas, com respeito e solidariedade, podemos construir um lugar mais justo e igualitário, onde mulheres e homens sejam reconhecidos por seus feitos e não julgados por seu gênero. A vocês, mulheres, obrigado por serem tão importantes e estarem presentes nas nossas vidas. O mundo certamente seria um lugar muito pior sem vocês. Nycolas Daibert Vieira (2ª série do ensino médio, Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG) A mulher Mulher,você é incrível!Você gera e traz uma vida ao mundo,mas não lhe damos o devido valor. Mulher é um ser sensível:emociona-se,apaixona-se,ama, sente, chora…Há acontecimentos que a machucam,não porque são frágeis, mas porque sentem.Você não é obrigada a nada! Mães, profissionais, esposas, adolescentes, meninas, amigas… Eu sou mulher.Sei que devemos lutar pela nossa felicidadee que, se nossa luta incomoda,estamos no caminho certo. Mulher,você é extraordinária,só precisa conquistar o seu lugar e mostrar o seu valor.Nossa voz é mudança!Merecemos o nosso destaquee está na hora de descobriremque somos iguais. Kimberly Lopes Galvão César (1ª série do ensino médio, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP)

5º Domingo da Páscoa

“Sem mim, vocês não podem fazer nada”João 15,1-8 Esse texto inicia a seção do Quarto Evangelho a qual tem os trechos que mais se aproximam dos discursos da vida pública de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João: a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15,18-16,4) vai tratar do ódio do mundo para com os seus seguidores. No Antigo Testamento, frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele tem cuidado com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, vimos como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do novo Israel. Se ficarem unidos a ele, os cristãos darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro, o Pai. No Antigo Testamento, muitas vezes, Deus ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do novo Israel não falhe, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados. A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Esse tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Mas os cristãos somente poderão dar esse fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez, volta-se à ideia de que é pelos frutos que se conhece a árvore. Assim, leva-nos a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como fez alguns anos atrás a Conferência de Aparecida e o documento que foi publicado por ela. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha de ser podada pelo Pai para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados não é a verdadeira Igreja do nosso divino Redentor” (Discurso de 4 de dezembro de 1977). Sem dúvida, há muita coisa realmente boa ocorrendo nas comunidades cristãs do Brasil bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade, e não no lucro, competitividade e na lei da selva. Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neoliberalismo, da globalização, das forças do mercado. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta de melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade: com ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas, sem dúvida, como colaboradores dele na construção do Reino de Deus. As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas (às vezes, dentro da própria Igreja), os sofrimentos dos mártires da caminhada e de suas famílias são podas, mas podas que darão mais fruto ainda. Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós, uma vez que fiquemos unidos a ele, e entre nós, pois Jesus mesmo nos disse “Sem mim, nada poderão fazer”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

A dança no bibliodrama

“És, Senhor, o Deus da vida,És a festa, és a dança.No banquete de tua casa,somos povo da Aliança.” (“Mesa pronta, toalha limpa”, José Edson R. de Freitas e Maria Luiza P. Ricciardi, Campanha da Fraternidade, 1992.) Assim cantamos em nossas comunidades de fé.O bibliodrama, como método de aprofundamento e experiência viva com o texto sagrado, apresenta-se por diversas formas de expressão: verbal, emocional, gráfico-artístico, com a fotolinguagem ou por representações expressivas com o corpo e seus sentidos. Cada participante representa e expressa o que percebe como “autêntico” interiormente, estimulado pela passagem bíblica meditada. Tudo isso faz com que o grupo e o texto sagrado, no bibliodrama, se aprofundem, se expressem e se interpretem reciprocamente. O método do bibliodrama se apresenta de forma muito flexível e individualizado. Pode facilmente se integrar com outros métodos e com várias artes expressivas, como a dança, a música, a produção de vídeo, e assim por diante; enfim, aonde a criatividade chegar. A dança é uma das formas de linguagem e expressão artística mais expressivas e antigas que conhecemos. Dançar é exteriorizar, por meio de movimentos, o que trazemos dentro. Se é verdade que o corpo fala, é no corpo que podemos experimentar e expressar os sentimentos que pulsam em nós. E um dos elementos mais bonitos da técnica do bibliodrama é a dança. Traduzir em expressão corpórea o que se aprofundou em determinado texto bíblico é concretizar, pelos gestos, o que ele provocou em nós. Se buscarmos nos próprios textos sagrados a importância da dança, percebemos que ela fazia parte da vida corrente, entre os judeus, e até dos jogos infantis, como lemos em Mateus (11,17) e Lucas (7,32). Nos textos bíblicos, encontramos a dança como expressão de alegria, de festa, de convívio e de adoração a Deus. Não distante de nossa infância, quando, de forma natural e orgânica, ela também brotava em nossas brincadeiras infantis e nos aproximava e nos conectava com outras crianças. Por 28 vezes, no mínimo, a Bíblia fala sobre dança em suas páginas. Cada referência que encontramos está relacionada a celebrações de acontecimentos especiais, festivais e encontros familiares e, curiosamente, praticadas principalmente por mulheres e crianças. Nos Salmos 149 e 150, o salmista também convida os fiéis a louvarem a Deus com dança e com a música: “Alegre-se Israel no seu Criador,exulte o povo de Sião no seu Rei!Louvem eles o seu nome com danças;ofereçam-lhe música com tamborim e harpa.” (Salmo 149,2-3) “Louvem-no com tamborins e danças,louvem-no com instrumentos de cordas e com flautas,louvem-no com címbalos sonoros,louvem-no com címbalos ressonantes.Tudo o que tem vida louve o Senhor! Aleluia!” (Salmo 150,4-6) Na Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15,25), a dança também assume um caráter bastante significativo e expressivo. Não somente por ser uma alusão referida por Jesus, o Verbo que atualizou a Palavra de Deus e a personificou (Hebreus 1,1), mas também porque essa parábola ilustra a relação do homem com Deus e a alegria que existe no céu quando alguém se arrepende e deseja mudança. Essa alegria é traduzida de várias formas, sendo uma delas a dança. Na data em que comemoramos o Dia da Dança (29 de abril), queremos nos unir ao balé dos corpos e das constelações celestes para que, juntos, possamos bailar agradecidos em contemplação à obra da Criação. Nas experiências bibliodramáticas realizadas com distintos grupos na Província Brasil Norte das irmãs missionárias servas do Espírito Santo, temos percebido a profunda conexão que a dança tem proporcionado aos que se entregam e fazem do corpo o canal de conexão com a sua espiritualidade. Por esse motivo, o convite é: dancemos! E que estendamos o convite a todos, para que se juntem a nós, para que, assim, a Palavra se torne vida em nós. Irmã Fátima Marques, SSpS, e Agostinho Travençolo Junior Referência:Semente Viva Brasil

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