Vacinação: sinal de esperança

Uma simples palavra que atualmente tem um grande significado: esperança! O mundo clama por vacinas para que se estabeleça novamente uma vida normal. A ciência corre contra o tempo para que vacinas eficazes sejam desenvolvidas. Governos do mundo todo se mobilizam para que suas populações sejam vacinadas. Está claro que a solução para o caos estabelecido por uma pandemia mundial está na vacinação, mas, afinal, o que é uma vacina e quando surgiu? Em 1796, o médico inglês Edward Jenner, em meio a uma pandemia de varíola, observou que pessoas que já tinham sido contaminadas por uma doença chamada cowpox (varíola bovina), comum em vacas e muito semelhante à varíola nos humanos, tornavam-se imunes àquela doença. O dr. Edward extraiu o pus da mão de um ordenhador de vacas que havia contraído a cowpox e inoculou a substância em um menino saudável, James Phipps, de 8 anos. O menino contraiu a doença de forma branda e, em seguida, ficou curado. Naquele mesmo ano, ele extraiu o líquido de uma pústula humana contaminada por varíola e inoculou no menino James. Desta vez, o menino não contraiu a doença. Foi descoberta e comprovada a eficácia da primeira vacina. A palavra vacina tem origem no latim e significa “de vaca”, justamente pelo fato de que as primeiras observações e experimentos ocorreram com uma forma de varíola animal, ocorrida em vacas. Como funciona uma vacina? A vacina pode ser considerada uma forma de imunização ativa, ou seja, quando o próprio corpo produz os anticorpos que combaterão uma infecção. Baseia-se na introdução, no corpo de uma pessoa, do agente causador da doença (geralmente um vírus atenuado ou inativado) ou substâncias que esses agentes produzem, de modo a estimular a produção de anticorpos e células de memória pelo sistema imunológico. As vacinas são essenciais para “blindar” o organismo contra doenças que ameaçam a saúde, em todas as idades. Doenças altamente contagiosas, como a difteria, o tétano, a paralisia infantil, o sarampo, a caxumba e a rubéola, muito comuns no passado, e a covid-19 (doença recente), podem ser prevenidas por meio da vacinação. Quando começou a vacinação? A vacinação no Brasil teve início no Rio de Janeiro, em 1904, de maneira trágica. O médico sanitarista Oswaldo Cruz tornou obrigatória a vacinação para prevenir a varíola. Porém, a população, por falta de informações, protestou contra a obrigatoriedade do procedimento, desencadeando aquele que é conhecido com o maior motim da cidade, com um saldo de 30 mortos, 115 feridos e centenas de presos. Em 1973, o Brasil criou o Programa Nacional de Imunização (PNI). O País conseguiu, pela vacinação em massa, erradicar doenças como a varíola e a poliomielite. Atualmente, o PNI é o maior programa de vacinação pública do mundo, com 17 vacinas que protegem contra 20 doenças diferentes. O cenário atual é preocupante, pois, além dos problemas decorrentes da falta de vacinas para a prevenção da covid-19, também existe um movimento antivacinas que têm ganhado força devido à automedicação, estimulada principalmente pela internet, e pela circulação, nas redes sociais, de informações falsas sobre as vacinas. O resultado desses movimentos é uma queda expressiva da cobertura vacinal em todo País, fato comprovado pelo ressurgimento de doenças como o sarampo, que havia sido erradicada do Brasil. É importante se vacinar? A vacinação continua sendo a mais segura e eficaz forma de prevenir diversas doenças infectocontagiosas. É uma forma de prevenção individual e coletiva, pois protege não apenas quem a recebe, mas também a comunidade como um todo. Adultos e crianças, portanto, devem manter o cartão de vacinação sempre em dia. Afinal, vacinar é uma forma de demonstrar amor a si mesmo e ao próximo. Referências PONTE, Gabriella. Conheça a história das vacinas. Portal Fiocruz, Rio de Janeiro, 5 fev. 2020. Disponível em: Fiocruz SANTOS, Vanessa Sardinha dos. História da vacina. Brasil Escola, São Paulo. Disponível em:Brasil Escola Hélio Vilaça, professor de Química e coordenador de Ciências da Natureza no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.
Colégio Espírito Santo e comunidade Xerente estreitam laços

Pensar a Casa Comum e a saúde de nosso planeta tem a ver com uma reflexão profunda sobre a atuação humana, a qual deve refletir em ações concretas que possibilitem a continuidade da existência da vida na Terra. E não é de hoje que falamos sobre isso, porém nossas ações ainda são muito tímidas. Quem sabe a esperança esteja no brilho dos olhos das crianças da etnia xerente? Educadoras e alunos das turmas de infantil 5, primeiros e segundos anos do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, refletindo sobre o poder da partilha e da educação, conversaram sobre a responsabilidade que temos de manifestar atitudes de amor e de cuidado para com todas as pessoas que fazem parte de nossa “Casa Comum”. Nasceu, então, o projeto “Natal da Casa Comum”, que teve como propósito trabalhar a importância do reconhecimento do outro e das atitudes de amor ao próximo. A comunidade indígena Xerente, localizada no Estado do Tocantins, foi um dos muitos espaços alcançados pelas manifestações de afeto de nossos alunos. Um livro virtual foi encaminhado às crianças que estudam na escola da aldeia. O presente foi recebido da melhor forma possível. Segundo Wakukepre, professor na escola do povo xerente, os alunos realizaram batismos do material como manifestação de gratidão pela troca de conhecimento, de acordo com a tradição da etnia. Foi pensando não somente em nossa relação com as pessoas, mas também em nossa Casa Comum e na saúde de nosso planeta que pretendemos, por meio desse projeto, possibilitar um espaço de troca e reflexão profunda sobre o sentido de sermos humano e, assim, buscarmos ações concretas que possibilitem a continuidade da vida na Terra. Respeitar e reconhecer diferentes culturas é questão fundamental como comunidade escolar. Receber o retorno do projeto “Natal da Casa Comum”, que foi apenas uma pequena manifestação das reflexões que buscamos estimular em nosso cotidiano escolar, e poder compartilhar o resultado dessa ação coletiva só reforça a importância do trabalho que buscamos desenvolver como educadores missionários. Ponte intercultural Outra parceria foi realizada com a ajuda das missionárias servas do Espírito Santo que trabalham com a etnia xerente. Por meio de diálogos de aproximação proporcionado com lideranças da comunidade indígena, nossos educadores vêm realizando trocas de livros, outros materiais didáticos e experiências educativas. A experiência já criou uma ponte intercultural e de fraternidade. Em fevereiro, foram encaminhados aos xerentes diversos materiais escolares e um valor em dinheiro para que eles pudessem adquirir roupas para as crianças da comunidade. A doação também possibilitou a compra de material esportivo para os pequenos, que adoram praticar o futebol.Assim, seguimos cheios de esperança, conseguindo encontrar nas crianças, nas comunidades indígenas, nas atitudes de cuidado, afeto, amor ao próximo, justiça social e tolerância, a cada dia, a cultura de paz que almejamos. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, e Agostinho Travençolo Junior é assessor Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
Sempre fomos nós…

Nunca foi sobre um índio incendiado; éramos nós ardendo em chamas. Nunca foi um massacre de crianças dormindo na porta da Candelária; morremos juntos com cada uma delas. Nunca foi sobre uma distante bomba atômica; nós nos explodimos ao mesmo tempo. Nunca foi incêndio na Amazônia; padecemos juntos a cada milímetro queimado. Nunca foi um acidente nuclear longe daqui; nós nos infectamos e nos deformamos juntos. Nunca foi sobre uma mulher espancada que inspirou uma lei; estamos todos paraplégicos. Nunca foram corpos alheios soterrados pela lama criminosa; nossos poros estarão eternamente impregnados de terra. Nunca foi um massacre num presídio; somos nós eternamente acorrentados nessas celas. Nunca foi desaparecimento e morte na ditadura; seremos gritos à exaustão pela democracia. Nunca foi um terremoto arrasador; éramos nós tremendo de medo e nos apegando a cada possibilidade de sobreviver. Nunca foi trabalho análogo à escravidão; éramos nós experimentando a indignidade. Nunca foi um rio tampado e uma nascente assoreada; somos nós morrendo de sede. Nunca foi uma pandemia distante. Ela se fez cotidiana e arrasadora. Somos nós! Que este texto chegue em forma de um silencioso e indignado abraço a cada vítima da covid-19 e aos familiares e amigos enlutados. Sintam-se irmanados na dor e, controversamente, encham-se de esperança para seguirmos adiante. Sempre somos nós! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Diálogo

A palavra diálogo tem sua raiz no grego, cujo prefixo “diá” significa “através de” e “logos” que quer dizer “palavra”, “saber”. Resumindo: diálogo é o processo de conhecimento através da palavra. O diálogo, nesse sentido, envolve sempre duas ou mais pessoas que, pela conversa, buscam o conhecimento sobre um determinado assunto. É uma conversa interativa entre duas ou mais pessoas. Supõe, portanto, que um compreenda o outro em sua maneira de ver o mundo e interpretá-lo. Parte-se do princípio de que todos têm algo a contribuir na busca da verdade. Para dialogar, é preciso uma atitude de abertura para acolher a opinião do outro, livre de preconceitos, procurando ouvir o sentido real da forma como o outro vê. Muitas vezes, ocorre que, quando alguém começa a emitir uma opinião, alguém já o corta e diz “Ah, já sei o que você quer dizer”, e conclui pela pessoa, sem dar ouvido às conclusões do outro, que podem ser bem diferentes do “ah, já sei”. Num diálogo nem sempre se chega a uma conclusão consensual. Na verdade, não se é obrigado a concordar com alguém se a opinião dele diverge frontalmente com as próprias convicções. Contudo o bom dialogante respeita a opinião divergente sem se tornar inimigo ou beligerante. O diálogo supõe respeito pelo outro e pelo que pensa. A Campanha da Fraternidade deste ano de 2021 propõe “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Ela é ecumênica, que significa que várias igrejas cristãs participam dela, sendo que cada uma tem a própria doutrina, com alguns aspectos divergentes umas das outras, contudo o diálogo é possível sobre os pontos em comum. O grande objetivo da campanha é a busca da “paz” oriunda de Cristo. Como a Campanha diz, Cristo é nossa paz. Quanto a isso todas as igrejas participantes concordam, e o diálogo é feito para realizar essa paz na sociedade dividida por discórdias, ódios, separações, preconceitos. Num mundo tão plural em ideias e ideologias, mais do que nunca, é necessário o diálogo permanente na busca da verdade para uma convivência pacífica. O igualitarismo seria tedioso e negaria uma característica humana que é a da complementariedade em todos os níveis. Nenhum cientista é capaz de realizar todas as descobertas. Cada nova iniciativa de pesquisa sempre parte de algo já conhecido, portanto, de alguém que pesquisou antes e abriu janelas para novos conhecimentos. Nesse sentido, nenhuma ciência é completa em si mesma. A Física precisa da Química, que precisa da Matemática, que precisa da Sociologia, da Filosofia, da Teologia; assim cada uma contribui com o seu saber para complementar o conhecimento mais amplo do mundo e da complexidade que envolve o universo. Pode-se falar em diálogo então em todos os níveis, desde a convivência familiar, diálogo entre seus membros; da convivência social com grupos heterogêneos; das relações entre povos e nações; das teorias econômicas, das relações de negócios; das crenças diferentes, das cosmologias discutidas nas diversas teorias. Dialogar é preciso para manter viva uma característica básica do ser humano, que é a convivência com seus pares e com o mundo em que habita. Não estar aberto ao diálogo é caminhar na contramão da vida e fechá-la em horizontes muitos pequenos. Quem não dialoga se perde no próprio caminho e se distancia da convivência pacífica com os demais. O diálogo envolve um aprendizado, que supõe respeito pelo outro e pelo que pensa, admitindo que a verdade total não está só de um lado e que há espaço para todos e liberdade de expressão das próprias ideias e sentimentos. O bom senso diz que ninguém pode ultrapassar os limites quando isso ofende, intimida ou menospreza o outro. A liberdade de cada um termina onde começa a do outro. Dialogar é também respeitar limites. Por isso é dialogando que se pode chegar ao mais próximo da verdade. Ninguém dialoga sozinho, isso seria manifestação de doença psíquica. Dialogar, portanto, implica relação com o outro. Dialogar é abrir a porta para a convivência sadia e humanizadora. Humanize-se dialogando! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,19-31 No texto do Domingo da Páscoa, Maria Madalena trouxe aos discípulos incrédulos a notícia da Ressurreição. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz: “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga ou até com repressão policial. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras da direita e da esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Inclui tudo o que é necessário para uma vida digna: saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego, etc. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele: “Eu venci o mundo” (João 16,33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz, com todas as letras, em Mateus (10,34): “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima de não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente. Por isso, por uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo, cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé, por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus, que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra
Aleluia! É a ressurreição de Jesus!

Neste drama em que vive o mundo, com o crescente número de vítimas da covid-19, talvez a cena pascal com a qual mais nos identificamos é a dos discípulos de Emaús, que abandonam Jerusalém e voltam para casa tristes e desiludidos. Com a morte do Mestre, aquele casal vê seus sonhos se desfazerem e um grande vazio se apossar deles. Uma dor sufocante na garganta e, no peito, uma sensação de fracasso e de perda irremediável fazem-nos ver apenas insegurança e medo em relação ao futuro. Assim caminham eles, assim caminhamos nós, conversando pelo caminho os infortúnios da pandemia. Um estranho se aproxima, apressa o passo e os alcança. Um diálogo se inicia… Partilham seus sofrimentos, desafogam as mágoas do coração, mas não reconhecem Jesus. O sol está se pondo quando chegam em casa e convidam o peregrino para entrar. Sentam-se à mesa e, ao partir o pão, imediatamente reconhecem Jesus, o ressuscitado, que desaparece diante de seus olhos. Então tudo muda! O cansaço desaparece, a noite se ilumina, a alegria jorra do coração, o medo se transforma em coragem, e uma nova força toma conta deles. Voltam correndo a Jerusalém para contar aos outros discípulos que encontraram Jesus ressuscitado. Que, nesta Páscoa, possamos permitir que a presença de Jesus ressuscitado nos transforme. Deixemos que Ele se aproxime, converse conosco e nos pergunte: “Por que estão tristes e abatidos? Onde está a sua fé, a sua esperança? Como são lentos para entender que tudo o que está acontecendo tem uma razão de ser, algo a ensinar e um caminho novo a mostrar!”. Sintamos nosso coração arder, nossos olhos se abrirem e nossas forças se renovarem. Coloquemo-nos de novo a caminho, restaurados no amor, na fé e na esperança. Vamos ao encontro de todos aqueles que sofrem e anunciemos: Jesus ressuscitou! O amor é mais forte do que a morte, e a vida é eterna! Estamos de passagem, aprendendo como construir uma nova terra para poder viver o céu. Um dia, vamos todos nos reencontrar na partilha do pão e nos reconhecer como realmente somos! Feliz Páscoa! Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, Coordenadora de Comunicação Congregacional e membro da Equipe Editorial do site vivatdeus.org
Exercícios e seus benefícios

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu 7 de abril como o Dia Mundial da Saúde. A data é comemorada anualmente para discutir questões relacionadas à saúde, desenvolvendo a conscientização e, assim, estimulando a criação de políticas voltadas ao bem-estar da população. As ações realizadas nessa oportunidade são importantes para que a população aprenda a cuidar-se e conhecer seus direitos. Muitas pessoas consideram-se saudáveis quando estão sem qualquer doença. Existe um conjunto de fatores que determina que uma pessoa está saudável, tais como qualidade de vida e aspectos mentais e físicos. Um fator desse conjunto para o alcance desse sucesso é a prática regular de atividade física, acompanhada de uma alimentação saudável. Ser saudável atualmente não é fácil, uma vez que enfrentamos desafios como rotinas estressantes, pouco tempo para prepararmos nossos alimentos e para praticarmos atividades físicas. Porém devemos tentar ao máximo adotar, no dia a dia, práticas que melhorem nossa qualidade de vida. Atividade física não está ligada apenas à prática de um esporte. Todas as atividades cotidianas, como limpar a casa, passear com o cachorro ou caminhar para o trabalho também são formas de sair do sedentarismo. Devemos manter o corpo em atividade durante todo a vida, para chegarmos à idade madura com os benefícios colhidos ao longo do tempo. Na terceira idade, a prática de atividade física é importante para reduzir os desgastes do corpo causados pelo tempo, como o enfraquecimento dos músculos, perda do equilíbrio, perda da agilidade, da flexibilidade e da resistência muscular. Com essas alterações físicas, os idosos sofrem principalmente quando se trata de autonomia e independência, o que, muitas vezes, implica dificuldades em realizar suas atividades da vida diária, levando à total incapacidade funcional. A atividade física para os idosos, mantendo uma rotina de exercícios acompanhada de uma alimentação adequada para a faixa etária, impacta no bom funcionamento do organismo, sendo muito importante para promover a sensação de bem-estar, fortalecer os ossos, melhorar o sistema imunológico e fortalecer os músculos, ajudando a caminhar melhor e a prevenir doenças como osteoporose, depressão e diabetes. Em idosos, os exercícios devem ser realizados de forma regular, após a liberação do cardiologista ou geriatra e sob orientação de um profissional de Educação Física ou um fisioterapeuta. Os benefícios desses e outros exercícios são inúmeros: melhoram da circulação sanguínea;diminuem os riscos de doenças do coração;reduzem o risco de pressão alta;reduzem e controla o diabetes;ajudam a emagrecer e controlar o peso;mantêm saudáveis ossos, articulações e músculos;fortalecem o sistema imunológico;promovem o bem-estar físico e mental. Devemos incentivar o idoso a fazer suas tarefas do cotidiano, manter o hábito de praticar atividades lúdicas e manuais, como crochê, tricô, pinturas manuais, palavras cruzadas, jogos de cartas, dominó e outras brincadeiras, como dança e contar histórias, que auxiliam na cognição. Devemos respeitar nosso corpo como sendo a máquina mais perfeita já criada. Buscar na natureza tudo que ela oferece para seu bom funcionamento, cuidar com carinho, amar e respeitar seus limites, assim vamos colher os benefícios como frutos ao longo da vida. Arlene Figueiredo de AguiarNutricionista CRN-16383
Entidades cobram do governo mais empenho no combate à covid-19

Seis entidades que formam o chamado “Pacto pela Vida e pelo Brasil” publicaram uma mensagem ante o contexto de agravamento da covid-19 no País. O texto, intitulado “O povo não pode pagar com a própria vida!”, traz críticas firmes ao desempenho das autoridades, sobretudo as federais, no combate à pandemia. A nota cobra maior cuidado com a população e se solidariza com os profissionais da saúde e as famílias das vítimas. Assinam o comunicado a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a Comissão Arns, a ABC (Academia Brasileira de Ciências), a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). “A ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia que vivemos, é notória”, diz o texto. As entidades afirmam apoiar os esforços de governadores e prefeitos para socorrer a população e destacam a importância do SUS (Sistema Único de Saúde). As organizações ainda pedem um olhar atento dos poderes Legislativo e Judiciário. Também sublinham a urgência de um auxílio financeiro digno aos trabalhadores impedidos de obterem o sustento. A nota também conclama os jovens a defenderem a vida e a evitarem ações negacionistas. Veja, a seguir, a íntegra do documento. O POVO NÃO PODE PAGAR COM A PRÓPRIA VIDA! Nós, entidades signatárias do Pacto pela Vida e pelo Brasil, sob o peso da dor e com sentido de máxima urgência, voltamos a nos dirigir à sociedade brasileira, diante do agravamento da pandemia e das suas consequências. Nossa primeira palavra é de solidariedade às famílias que perderam seus entes queridos. Não há tempo a perder, negacionismo mata. O vírus circula de norte a sul do Brasil, replicando cepas, afetando diferentes grupos etários, castigando os mais vulneráveis. Doentes morrem agonizando por falta de recursos hospitalares. O Sistema Único de Saúde – SUS continua salvando vidas. No entanto, os profissionais da saúde, após um ano na linha de frente, estão à beira da exaustão. A eles, nosso reconhecimento. É hora de estancar a escalada da morte! A população brasileira necessita de vacina agora. O vírus não será dissipado com obscurantismos, discursos raivosos ou frases ofensivas. Basta de insensatez e irresponsabilidade. Além de vacina já e para todos, o Brasil precisa urgentemente que o Ministério da Saúde cumpra o seu papel, sendo indutor eficaz das políticas de saúde em nível nacional, garantindo acesso rápido aos medicamentos e testes validados pela ciência, a rastreabilidade permanente do vírus e um mínimo de serenidade ao povo. A ineficiência do Governo Federal, primeiro responsável pela tragédia que vivemos, é notória. Governadores e prefeitos não podem assumir o papel de cúmplices no desprezo pela vida. Assim, apoiamos seus esforços para garantir o cumprimento do rol de medidas sanitárias de proteção, paralelamente à imunização rápida e consistente da população. Que governadores e prefeitos ajam com olhos não só voltados para os seus estados e municípios, mas para o país, através de um grande pacto. Somos um só Brasil. Ao Congresso Nacional, instamos que dê máxima prioridade a matérias relacionadas ao enfrentamento da COVID-19, uma vez que preservar vidas é o que há de mais urgente. Nesse sentido, o auxílio emergencial digno, e pelo tempo que for necessário, será imprescindível para salvar vidas e dinamizar a economia. Ao Poder Judiciário, sob a liderança do Supremo Tribunal Federal, pedimos que zele pelos direitos da cidadania e pela harmonia entre os entes federativos. Que a imprensa atue livre e vigorosamente, de forma ética, cumprindo sua missão de transmitir informações confiáveis e com base científica, sobre o que se passa. Enfim, que a voz das instituições soe muito firme na defesa do povo brasileiro! Fazemos ainda um apelo particular à juventude. O vírus está infectando e matando os mais jovens e saudáveis, valendo-se deles como vetores de transmissão. Que a juventude brasileira assuma o seu protagonismo histórico na defesa da vida e do país, desconstruindo o negacionismo que agencia a morte. Sabemos que a travessia é desafiadora, a oportunidade de reconstrução da sociedade brasileira é única e a esperança é a luz que nos guiará rumo a um novo tempo. __________________________________________________________Quarta-feira, 10 de março de 2021. Dom Walmor Oliveira de AzevedoPresidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB Felipe Santa CruzPresidente da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB José Carlos DiasPresidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns – Comissão Arns Luiz DavidovichPresidente da Academia Brasileira de Ciências – ABC Paulo Jeronimo de SousaPresidente da Associação Brasileira de Imprensa – ABI Ildeu de Castro MoreiraPresidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC
Domingo da Páscoa

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do dia da ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo – para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar) e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio (e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado). Ressurreição… Nem pensar! Em nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo) correm até o túmulo. A passagem deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada no fato de um túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas. Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos, discípulas amados e amadas, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos “amantes”? Realmente amamos Jesus e o próximo? Lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força todos os dias de nossa vida, mas especialmente quando a Cruz pesar muito. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.