Combate à violência contra a pessoa idosa e prevenção à tortura

Violência! Como acabar com esse mal? Como ela é gerada e por quê? A violência sempre incomoda a humanidade, pois gera muitos crimes e, com a pandemia, a violência extrema causa desigualdade. Mas o que é violência?A violência é a prática do uso da força sobre um indivíduo ou um grupo. Geralmente, ela surge por causa da injustiça social. Esta, por sua vez, provém do egoísmo, da ambição. Quinze de junho é o Dia Nacional de Combate à Violência contra a Pessoa Idosa, e o dia 26 deste mesmo mês é o Dia de Combate e Prevenção à Tortura. Mulheres, crianças, pessoas idosas, trabalhadores em geral, os menos favorecidos são explorados e se tornam vítimas de vários tipos de violência: física, psicológica, afetiva, ideológica, financeira e patrimonial. A violência física é a mais fácil de identificar, pois atinge diretamente o corpo. Nesse tipo, a agressão física utiliza a força como soco, empurrão, “cascudo”, facada, tiro à queima-roupa, etc. A lesão é visível e, por isso, muitas vezes há hematomas; faz-se corpo de delito. A violência psicológica é praticada de modo sutil e pode ser direta ou indireta. A direta ocorre quando o agressor usa palavras de humilhação, por vezes, diretamente à pessoa, com palavras de baixo calão, que baixa a autoestima. A indireta pode ser mediante ameaças, imposição, medo à vítima. A violência ideológica pertence a um conjunto de ideias sem fundamentação transmitidas pelos veículos de comunicação; propagandas enganosas que projetam nos indivíduos falsas ideias do que comprar, ter coisas que não são necessárias. Outra violência cometida é a financeira, muito comum contra pessoas idosas, praticada por agências bancárias que incentivam a pessoa a fazer empréstimos consignados ou aplicações desnecessárias e também por familiares, quando utilizam o cartão de crédito sem escrúpulo de endividar a vítima, “sujando” o nome da pessoa. Ainda há a violência afetiva, quando a pessoa é privada de ter contato parental. Isso é muito comum em internações arbitrárias de dependentes, seja de menores ou de idosos, em instituições muitas vezes clandestinas. Infelizmente, a violência está em toda parte. A violência doméstica, infantil escolar, como o bullying. Esta última tem gerado revolta contra a escola, causando vítimas inocentes, com massacres de crianças e profissionais da educação. A Declaração Universal de Direitos Humanos estabelece que “Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade, à segurança”, o que deve garantir formas de estimular uma proteção coletiva para toda a sociedade. Para isso, é preciso denunciar torturas “invisíveis” que acontecem por familiares ou terceiros mal-intencionados. Disque 100! Disque 180 ou 190. Procure também, em seu Município ou Estado, a Comissão de Combate e Prevenção à Tortura, a Comissão Estadual dos Direitos Humanos da Pessoa Idosa, Comissão Municipal da Pessoa Idosa, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente.Defenda quem é indefeso! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar), graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia pelo Mater Ecclesiae. Filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).
11º Domingo do Tempo Comum

“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”Marcos 4,26-34 O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos Evangelhos: “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos. Existe um consenso entre os estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, de que há dois termos nos textos evangélicos que provêm do próprio Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades, ou seja, “Reino” e “Abbá”. Estamos tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da pregação que esquecemos que Ele não pregou a si mesmo, mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus como o “Reino dos Céus”, para evitar o uso do nome de Deus). Toda a vida de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que Ele nunca o define, pois é uma realidade dinâmica, mas que Ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes e que os leva a tirar as próprias conclusões (de fato, por várias vezes, temos a explicação de uma parábola nos evangelhos, mas esta nasceu da catequese da comunidade e não teria feito parte da parábola original). O capítulo 13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a natureza do Reino (ou Reinado) de Deus. No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam apressar sua chegada; os fariseus mediante a observância da Lei, os essênios pela pureza ritual, os zelotes por meio de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível, nem preciso, tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele tem uma dinâmica interna de crescimento própria. Como a semente semeada cresce independentemente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade. Assim o texto nos mostra o que Paulo vai ensinar de uma maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros missionários e missionárias, afirma: “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (1Cor 3,6). Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que relembremos que é importante começar com ações pequenas e singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes. Essa parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa. Nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade de semear o Reinado de Deus, ou seja, criar situações nas quais realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não por nosso esforço, mas pela graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que abriga muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
O Sagrado Coração de Jesus na espiritualidade de Santo Arnaldo Janssen

Aproximando-se a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que, em 2021, celebramos no dia 11 de junho, não podemos deixar de nos lembrar de nosso santo fundador, Arnaldo Janssen, que foi profundamente influenciado por sua devoção e a levou consigo para animar espiritualmente suas fundações missionárias. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é muito antiga e sempre foi ligada à contemplação da Paixão de Jesus Cristo. Ignorada totalmente no primeiro milênio, ela aparece, pela primeira vez, com traços claros, com a escola cisterciense e, mais tarde, na ordem franciscana. A partir do século XVII, por meio das visões de Santa Margarida Maria Alacoque, essa devoção foi popularizada, sendo um dos focos da Escola Francesa de Espiritualidade, que marcou profundamente a Igreja na Europa Ocidental. A espiritualidade do Sagrado Coração é muito simples, acessível a todas as pessoas. Ela tem como objetivo ajudar o fiel a voltar-se para seu coração e para o Coração de Jesus, como núcleo mais íntimo da pessoa, onde ela se encontra com seu Senhor. Essa devoção difunde que “O coração de nosso coração é o próprio Deus, com a sua lógica enraizada no amor”. Ela nos aproxima do amor compassivo de Cristo para com a humanidade. Nela, pedimos que sejamos revestidos das virtudes e das qualidades do Coração do Filho, deixando-nos inflamar pelo amor que o impulsionava, tornando-nos sempre mais semelhante a ele e formando com ele um só corpo. Ela contempla ainda o coração transpassado de Jesus que, na Cruz, entregou-se por nós com um imenso amor gratuito e compassivo. Em 1856, duzentos anos após as aparições de Jesus a Santa Margarida Maria, foi instituída a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a ser celebrada, a cada ano, no mês de junho. O movimento que mais propagou sua devoção no século XIX foi o Apostolado da Oração, aprovado pelo Papa Pio IX, em 1849. Hoje o Apostolado é obra pontifícia. A consagração do mundo ao Sagrado Coração ocorreu em 16 de junho de 1875, às vésperas da fundação da Congregação do Verbo Divino. Mais de 400 institutos de vida religiosa com espiritualidade cordiana foram fundados de 1800 até o Concílio Vaticano II, em sua maioria, femininos. Como filho de seu tempo, Arnaldo Janssen foi também impregnado por essa espiritualidade afetiva e concreta que respondia às necessidades do simples cristão. Inicialmente, recebeu na família forte influência da mística da Baixa Renânia, de espiritualidade cristocêntrica e trinitária. Seu pai falava com paixão para os filhos sobre a encarnação do Verbo e rezava diariamente com eles o Prólogo de São João. Sua mãe, uma pessoa silenciosa, testemunhava uma vida de oração contínua, alimentada pela frequência diária à missa. Foi também com o pai que o menino Arnaldo conheceu o Anuário da Propagação da Fé, que o introduziu ao amor às missões estrangeiras. Como jovem padre, a devoção especial ao Sagrado Coração foi ocupando suas orações e reflexões. Inicialmente, resolveu rezar, às sextas-feiras, a missa em honra do Sagrado Coração, para glorificar seu sacerdócio. Queria homenagear a Trindade habitando nesse Coração. Para Arnaldo, o Coração de Jesus era a humano-divina Pessoa de Jesus, a face humana de Deus, seu amor incompreensível pela humanidade.A partir de 1866, ao lado das aulas que administrava, passou a dedicar uma atenção especial ao novo Apostolado da Oração em sua diocese. Esse apostolado, com forte espiritualidade cordiana, deixou suas marcas na vida de oração de Arnaldo. Sua profunda motivação passou a ser sua união fundante com as disposições do Sagrado Coração, emergindo daí o traço característico de sua espiritualidade, inicialmente assim expresso: “Viva o Coração de Jesus nos corações de todas as pessoas!”. Arnaldo foi se tornando mais e mais habitação do Sagrado Coração, e os propósitos e intenções desse Coração, assumidos como seus. Desejava ardentemente a glorificação do Deus Trino e o cumprimento de sua vontade salvífica para todos os povos. O amor e a bondade de Jesus, sua compaixão sincera, suas virtudes humanas, seu sofrimento e aflições, sua atitude de entrega incondicional, suas emoções e sentimentos íntimos, tudo tinha para Arnaldo seu lugar e centro no Sagrado Coração de Jesus. Escrevia assim no livro de admissão dos novos membros ao Apostolado de Oração: “A melhor devoção ao Coração de Jesus é conformar nossos desejos aos desejos do Coração de Jesus”. Por meio do Apostolado da Oração, Arnaldo foi também tomando consciência de uma variedade de situações eclesiais, abrindo, assim, a mente aos grandes propósitos da Igreja. Seu dinamismo missionário, na força da oração, foi se revelando com o Apostolado. Iniciou, em 1866, com 26 grupos na diocese de Münster. Após sete anos, sua missão no Apostolado tinha se espalhado por várias dioceses alemãs, alcançando um total de 600 paróquias. Dois anos depois, em 1875, em meio a muitas lutas e rejeições, Arnaldo estava pronto para iniciar a primeira casa de formação missionária na Igreja alemã. Dentro de sua espiritualidade, Arnaldo foi enxergando cada vez mais o Coração de Jesus como Tabernáculo da Trindade: “A Trindade toda reside no Coração de Jesus: a Onipotência do Pai, a Sabedoria e a Beleza do Verbo Eterno e o Generoso e Eterno Amor do Espírito Santo. Contudo o Coração de Jesus permanece um coração criado, um coração humano”. Com o tempo, Arnaldo vai explicitando assim a relação entre o Coração de Jesus e o Espírito Santo: “Durante sua vida terrena, o Coração de Jesus já era a fornalha ardente cheia do amor e da graça do Espírito Santo”. Arnaldo viu um duplo movimento entre o Coração de Jesus e o Espírito Santo: de um lado, foi o Espírito Santo que formou o Coração de Jesus e fez dele sua morada; por outro, é do Coração de Jesus que emergem todas as graças que recebemos do Espírito Santo, pois é pela encarnação de seu Filho que Deus comunica-se a si mesmo em seu insondável amor incondicional. No fim de sua vida, Arnaldo escreve: “Vou tentar chegar tão perto quanto possível dos sentimentos de Jesus, de sua vida interior, de seus ensinamentos, realizações, dores e morte.
Quando Deus fala… Onde encontrar os ecos de sua voz?

Nós, cristãos, estamos habituados a refletir sobre o Evangelho e nos referir a ele como Palavra de Deus. O Evangelho é um dos meios privilegiados que temos para discernir sua vontade. Contudo é comum também se dizer que Deus fala pelos “sinais dos tempos”. Em outras palavras, nos acontecimentos do cotidiano. Aqui quero explorar esses “sinais”, tentando vislumbrar “falas” de Deus para nós hoje. No momento, uma questão que se sobressai é a pandemia. Olhando para ela e tudo o que ela tem provocado, podemos acreditar que, por ela, Deus possa estar nos falando. Cabe a nós discernir. Arrisco-me a fazer algumas considerações nessa perspectiva, sem a pretensão de ser porta-voz de Deus, mas apenas apontar para possíveis dicas que Ele esteja dando para nosso mundo. Começo a investigação levantando algumas questões. O fenômeno da pandemia é um fato universal, isto é, atingiu todos os países. O vírus tem uma força tal que todas as bombas atômicas guardadas para guerra e destruição não conseguiriam destruí-lo. A covid-19 não respeita posição social, raça, cor nem idade, embora tenha começado atingindo os mais “velhos”, poupando, no início, as crianças. O vírus tem um poder avassalador. Está mudando, à força, as relações do convívio entre as pessoas, levando à mudança de hábitos no cotidiano. Multiplica-se em novas cepas, pondo em risco a eficiência das vacinas. Está perdurando por um tempo maior do que se conhecia para uma pandemia. Não temos certeza de quando vai acabar. Termina uma onda, surge outra mais forte. Tem afetado não somente a parte econômica em todos os níveis, como também causado sofrimento grande de toda ordem, a começar pelos familiares de acometidos pelo vírus e, de modo especial, para aqueles enlutados. Não permite nem mesmo uma digna despedida dos entes queridos. Tudo tem de ser às pressas, pois há a ameaça do contágio. Impôs um distanciamento entre as pessoas, não permitindo o contato afetivo antes praticado. Abalou o lado psicológico de todos, deixando lastros de insegurança e inquietações, resumidas nas perguntas até quando vai isso? E como será depois? Obrigou-nos a encontrar formas novas de comunicação, de reuniões e de estudos, mesmo que forçadamente. Isso podemos contabilizar como um aprendizado positivo. Nessa perspectiva, poderíamos concordar que há males que vêm para o bem! Depois da pandemia, não seremos mais os mesmos. Com será o novo “normal” ainda não sabemos bem, pois estamos em plena crise. Diante de tudo isso, onde estão as “falas de Deus”? Vamos tentar discernir alguns sinais pictogramáticos escondidos nessas situações ambíguas acima enumeradas. Em primeiro lugar, devo dizer que a pandemia não é obra (iniciativa) de Deus. Alguns poderiam pensar que Ele estivesse enviando a pandemia para nos castigar. O Deus que creio não faria isso, podemos, sim, admitir que Ele possa estar se servindo dela para nos dar um recado. E qual recado? Um deles certamente é um apelo para voltar a sermos mais humanos, mais próximos de seu projeto inicial. O caminho que estávamos (estamos) seguindo, cada vez mais, tornava-nos (ou ainda torna) “máquinas de produção” para gerar lucros. Isso, além de nos estressar ao extremo, vinha (vem) gerando cada vez mais um distanciando entre o “muito para poucos” e as “sobras” para muitos”. Uma divisão injusta e contrária aos desígnios de Deus quando nos deu sua criação para desfrutarmos dela com equidade e sem destruí-la. Deturpamos em demasia os preceitos básicos que indicavam o caminho apontado por Ele em sua Palavra, rumo à felicidade oferecida por Ele e não a de meros momentos “lúdicos e prazerosos”, como muitos definem a felicidade. A maldade, o ódio ultrapassaram os limites da normalidade, afetando as cotas que o coração pode suportar. O descarte de pessoas como coisas inúteis porque não são mais lucrativas. Nossa “torre de Babel”, cada vez mais confusa na construção de vínculos que nos aproximem do projeto de Deus, para nós ligados às verdadeiras origens (somos imagem e semelhança de Deus), apesar dos meios eficientes da era digital que já dominamos. A medida da verdade relativista, feita pelo subjetivismo de cada um, vem negando o espaço para uma verdade objetiva como referência para os julgamentos. Em meio a tudo isso, há os sinais positivos indicando caminhos que nos aproximam do projeto divino, como aqueles demonstrados em tantos gestos de solidariedade e de busca de novos medicamentos para a cura dos doentes, como também na dedicação daqueles que se empenham para salvar vidas e de tantas mudanças havidas na vida de pessoas que se tornaram melhores. Essa realidade ambígua que nos move, pra lá e pra cá, parece nos indicar o que o profeta dizia: “Buscai os caminhos do Senhor enquanto Ele se deixa encontrar” (Isaías 55,6). Discernir as “falas” de Deus nesse meio todo é tarefa para quem crê e desafio também para quem não crê. Continuar vivendo com esperança, sem esmorecer, mesmo que nem tudo esteja claro. De uma coisa estou certo: Deus está no meio de nós e não está indiferente, e nem nos deixando à própria sorte. O Deus que confesso e creio é Senhor do Universo que nasceu de suas mãos e nunca o abandonou. Nosso grito por socorro ecoa em seus ouvidos, e seus ecos de retorno estão, neste tempo de pandemia, ressoando neste meio confuso em que estamos vivendo. É aí que estão as oportunidades de encontrá-lo em nosso hoje. Os sinais que Ele nos dá nem sempre são observáveis com nitidez, talvez estejam nas perguntas novas que nascem em nosso espírito. Fazer-se perguntas novas sobre a situação que estamos vivendo faz parte do discernimento para descobrir as suas “falas”. Então, qual a pergunta nova que a situação suscita em mim, em você? Discernir é ir além daquilo que já sabemos. O eco da fala de Deus pode estar sinalizado pelos questionamentos novos que nos fazemos diante dos sinais que estão presente em nosso mundo de hoje. Atentos a isso, saiamos um pouco de nossos lamentos e procuremos nos meandros de nossa realidade um tanto confusa os ecos da voz de Deus falando para
10º Domingo do Tempo Comum

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”Marcos 3,20-35 Esta segunda parte do terceiro capítulo de Marcos nos apresenta uma característica bastante usada neste Evangelho. O autor intercala uma discussão com os escribas (versículos 22-30) em uma cena em que Jesus se defronta com a incompreensão de sua família (vers. 20-21.31-35). Ele usa o mesmo procedimento nos capítulos 5 (21-43), 6 (7-33), 11 (11-21) e 14 (1-11). A finalidade é para que o leitor interprete um evento à luz do outro. Assim, no texto de hoje, devemos nos perguntar como os versículos que tratam dos familiares de Jesus e o trecho referente à discussão com os escribas lançam luz um sobre o outro. Na verdade, em ambos os casos, Jesus é objeto de acusações falsas e é incompreendido, ou até rejeitado, pelos seus familiares bem como pelas autoridades de Jerusalém. Não há dúvida de que a atividade de Jesus causa espanto e choque. Trabalhando até a noite em prol dos excluídos e sofridos, misturando-se com gente considerada impura pela religião oficial, e, portanto, com essa ideia introjetada na visão do povo comum, e criticando fortemente as lideranças religiosas de seu tempo, Jesus parecia para muitos “louco” ou possuído por um demônio, ou algo semelhante. Numa cultura na qual “honra” e “vergonha” eram conceitos-chave para qualquer família, os familiares de Jesus resolveram conter o problema, indo “segurá-lo” e levá-lo para a casa da família. O confronto com a família continua nos versículos 31 a 35. É interessante como Marcos constrói a cena. Quando os parentes chegam ao local onde ele está pregando, eles nem tentam entrar para escutá-lo ou para conversar com ele. Eles deliberadamente ficam do lado de fora e mandam chamá-lo. Isso contrasta muito com a cena de dentro, na qual uma multidão está sentada ao redor de Jesus, a atitude de discípulo. Quando é informado da presença de seus parentes fora, Jesus olha para os que estão ao redor dele e faz uma declaração espantosa e contundente: “Aqui está minha mãe e meus irmãos!”. O texto logo explica o sentido dessa afirmação: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Na verdade, Jesus não está denegrindo sua família, mas insistindo nas novas relações que nascem do discipulado dele. Parentesco não traz qualquer privilégio, o importante é ser discípulo e cumprir a vontade de Deus. Assim, Jesus afirma que, conforme nós nos tornamos discípulos, discípulas, temos a mesma dignidade que sua mãe e parentes. Tudo se relativiza diante das exigências do Reino e do seguimento. Embora não seja uma questão de grande importância, talvez umas palavras sobre o sentido da frase “irmãos e irmãs de Jesus”. É bom lembrar que, na tradição do Oriente Médio, não se define a família como o pequeno núcleo de pai, mãe e filhos, mas inclui parentes próximos e distantes. A versão grega do Antigo Testamento usa a palavra “adelfos” (irmão) nos dois sentidos: restrito e amplo (Gênesis 29,12 e 24,48). Podemos dizer que, na tradição cristã, existem três tipos de interpretação para essa questão. Primeiro, entende-se o termo “irmão” no sentido do uso oriental. Segundo, usando um documento apócrifo (não canônico) do século IV, chamado Protoevangelho de Tiago, conta-se que Maria casou-se com José, um viúvo idoso que já tinha seis filhos e filhas: Judas, Tiago, Joset, Simão, Lídia, Lísia. Assim, os “irmãos” seriam só da parte de José e não de Maria. Terceiro, seguindo São Jerônimo, afirma-se que são primos de Jesus em primeiro grau. O importante é saber que a concepção virginal de Jesus está claramente ensinada na Bíblia e faz parte do Credo Apostólico. Mas a questão da virgindade perpétua de Maria não é tocada nos Evangelhos, e não adianta buscar argumentos neles em favor ou contra. Essa doutrina faz parte da fé católica desde os primórdios. A disputa com os escribas também intriga umas pessoas quando fala do “pecado contra o Espírito Santo” que não tem perdão. Em que consiste? Segundo a nota do rodapé da Bíblia TEB (Tradução Ecumênica da Bíblia), “Esse pecado consiste em negar-se a reconhecer o poder que atua por meio de Jesus, atribuindo a Satanás as obras que ele realiza pelo Espírito Santo. Tal recusa à conversão contraria o perdão”. Mas as palavras fortes referentes a esse pecado não devem tirar nossa atenção de algo muito mais importante: que todos os outros pecados, por tão “pesados” que possam ter, têm perdão. Esse fato é um grande “Evangelho”, ou “Boa Notícia”, e deve nos animar que para que sejamos portadores dessa mensagem de perdão e reconciliação a todos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Serviço: a outra face da Eucaristia

Na quinta-feira, 3 de junho, celebramos a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida como Corpus Christi. Mesmo nestes tempos difíceis de pandemia, fadigas e muitas restrições, a data é (a)guardada com afeto por comunidades católicas de todo o mundo. Este também é um momento oportuno para reforçar a importância da Eucaristia para a vida cristã. Sempre é bom recordar o aforismo do cardeal francês Henri-Marie de Lubac, inspirado na teologia dos padres da Igreja: “A Eucaristia faz a Igreja, a Igreja faz a Eucaristia”. Dos quatro evangelhos, os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) enfocam Jesus, na chamada “Santa Ceia”, proclamando o pão e o vinho como sendo seus próprios corpo e sangue. Perdoe-me, caro leitor, cara leitora, se abordo apressadamente a narrativa desses três evangelhos, ainda mais no calor de Corpus Christi. Mas eu gostaria de destacar como o quarto Evangelho, o de João, aborda a instituição da Eucaristia. No capítulo 13 (versículos de 1 a 15), o autor sagrado chama a olhar para um gesto ocorrido na refeição ritual, horas antes de Jesus ser entregue ao sacrifício na Cruz. A passagem começa com a base das bases de qualquer teologia eucarística séria: o amor. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1b). Pouco mais adiante, o evangelista começa a narrar não muito a refeição, mas a atitude do Mestre, que se abaixa (em todos os sentidos) para lavar os pés de seus discípulos. Como todo o Evangelho de João, o trecho pede uma leitura atenta, sem pressa. A Eucaristia, para ele, é principalmente o serviço. Não me atrevo a arriscar uma exegese. Partilho aqui uma modesta meditação. Espero que, aos olhos da fé, possamos identificar algumas coisas na cena na qual Jesus, mais uma vez, demonstra ter vindo a nós para servir e não para ser servido (cf. Mateus 20,28; Marcos 10,45; Lucas 22,24-27). Gestos que deveriam ser mais trabalhados em nossas catequeses eucarísticas. Até o fim do procedimento de “purificar” os pés de seus amigos, o Senhor realiza sete atos. João, como diz o ditado, “não dá ponto sem nó”. Muitas vezes, sete, na Bíblia, é mais uma ideia do que um mero algarismo. Entre outros significados, pode indicar perfeição e, no olhar cristão, a própria encarnação de Deus (a soma de três da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; e quatro dos elementos cósmicos: terra, fogo, água e ar). Jesus é o próprio “Sete”: o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. O primeiro gesto é “levantar-se”. No início, a Igreja era chamada de “O Caminho”. Como empreender esse caminho sem sair do lugar? Para servir, é preciso disposição, ânimo, entusiasmo (palavra, aliás, muito significativa). O segundo é “tirar o manto”. Para nós, isso deveria significar despojar-nos de nossas couraças, nossos personagens, nossos privilégios, nossos títulos e servir com o que temos de mais profundo. Deus vê o escondido (Mateus 6,4b), sabe de nossas contradições e fraquezas, mas Ele nos ama e nos convoca em nossa essência. A ação seguinte é “pegar a toalha”. Dias atrás, o Pe. Júlio Lancellotti, famoso pelo apoio aos mais necessitados, contou que Dom Luciano Mendes de Almeida, outro gigante no serviço, havia-lhe explicado sobre o significado da estola presbiteral que ele receberia na ordenação. Não transcrevo literalmente as palavras, mas era algo mais ou menos assim: atadura para curar as feridas, lenço para secar as lágrimas, toalha para enxugar os pés do irmão. A estola transversal usada por nós, diáconos, também tem esse sentido (e não um meio-sacerdócio como alguns ainda hoje pensam). O quarto movimento nessa narrativa eucarística de João é o “cingir a cintura”. O cingir-se indicava a prontidão. A ceia pascal judaica, segundo o preceito de Moisés, devia ser tomada com os “rins cingidos, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êxodo 12,11). A toalha em torno da cintura poderia ser parte da vestimenta típica do empregado aliada à presteza no servir, como desejou o Senhor. O quinto gesto é o “derramar a água numa bacia”. Água, sinal de pureza, de vida, que cura nossas sequidões, elemento de nosso batismo a nos convocar a ser sinais de Cristo. É a seiva de nossa Casa Comum e de nós próprios; somos água. Com ela, o Senhor preparou seus irmãos para o grande momento da Cruz. O sexto é o “lavar os pés dos discípulos”. O serviço em si, sem discursos vazios, sem clichês, mas a realidade de qualquer ministério que se preze. Nessa hora, Jesus resume toda a sua vida e missão entre nós, conforme diz a Carta de São Paulo aos Filipenses (2,7): “Esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante”. Nessa hora (e em outras), Jesus, o Senhor, olha-nos de baixo para cima. O sétimo é o “enxugar os pés”. O Senhor leva sua obra até o fim. Continua a ter seus frágeis e limitados discípulos como seus superiores e os segue vendo da perspectiva do chão. Os pés estão purificados e prontos para seguir “O Caminho”. Mais adiante, o Senhor recorda: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (João 13,14-15). Com base em João, podemos dizer: não há Eucaristia sem também o lava-pés. O cristão ou cristã alimentado pela Palavra, o corpo e sangue do Senhor precisa, sim, colocar-se a caminho, à disposição do próximo. Creio estarem dispensados dessa missão apenas aqueles que, por motivo grave, não o podem fazer. Servir em, com e por Cristo é um agir sacramental, não há lugar para ativismo, mas para o seguimento dos passos do Senhor. Assim é a Sagrada Ceia. E não nos esqueçamos desta ordem de Jesus: “Fazei isso em meu memorial” (Lucas 22,19b). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Irmã Mansuetis: uma estrela a brilhar

Não teria outro adjetivo para nossa querida irmã Mansuetis: estrela. E hoje… a brilhar. “Mansu”, como eu a chamava carinhosamente, orou por nós durante toda a sua vida. E agora, na eternidade, continua orando. Uma vida dedicada à evangelização. Quanto amor nossa “Mansu” dedicou às crianças da catequese do Colégio Imaculado Coração de Maria (CICM), onde trabalhamos juntas, construindo uma história de vida, no carisma missionário das irmãs servas do Espírito Santo, congregação de sua vida religiosa e minha, como missionária leiga e professora do CICM. Muito detalhista em cada situação… Na preparação dos encontros, nas mensagens de aniversário, na cruz que ela pacientemente fazia com o ramo do Domingo de Ramos. Para todos os momentos, trazia no coração uma palavra e na boca um sorriso. A Eucaristia era seu alimento diário, na missa da Basílica do Coração de Maria, aonde íamos, bem cedinho, antes de iniciarmos a jornada de trabalho no Colégio. Rimos juntas, choramos juntas. Minha gratidão a Deus por ter me dado a alegria de conviver com a Mansu, pessoa forte, crítica, exigente, muito à frente de seu tempo e generosa, com um coração tão grande que não sei como lhe cabia no peito. Veja, a seguir, alguns depoimentos de quem conviveu com a irmã Mansuetis. Seriam muitos mais, tantos que não caberiam aqui… Cruz que todo ano ela fazia com o ramo e nos oferecia. Nanci Reis Queiroz AfonsoColégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ Missionária no mundo da Educação Natural do Maranhão, irmã Mansuetis, Edmée Santanna, carinhosamente chamada de “Mansu”, nasceu em 10 de abril de 1928. Em 1957, professou os primeiros votos na Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Sua missão se deu sobretudo na área da Educação, e boa parte de seu ministério foi exercida no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ, atuando na pastoral escolar. Nos últimos anos de sua vida, ela viveu no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Após 64 anos de vida religiosa, Ir. Mansuetis faleceu em 12 de abril de 2021, dois dias depois de completar 93 anos. Como herança, deixou um profícuo trabalho de evangelização e muitas saudades. Boas recordações A irmã Mansuetis acompanhou minha infância e parte da minha adolescência. Instruiu-me na fé, na minha vida religiosa, desde a catequese. Infelizmente não esteve comigo na minha crisma, devido à pandemia, mas guardarei no coração a chamada de vídeo em que me parabenizou e animou. Ela sempre tinha para mim um sorriso no rosto, independente do momento, e trazia luz pra minha vida com suas atitudes carinhosas ou palavras de conforto. Irmã Mansuetis deixou sua marca na minha vida, na vida de todas as pessoas que conviveram com ela e no mundo!Juliana Bonfin A irmã Mansuetis foi a responsável pelas minhas aulas de catequese e lembro como se fosse hoje o que ela me disse na celebração: “Deus não lhe deixará faltar algo na sua vida”. Desde então, a irmã se tornava, a cada dia que se passava, uma ótima inspiração para mim. Ela me ajudou a estudar e superar minhas dificuldades a cada dia no ano letivo. Fico triste pela sua partida e mais triste ainda por muitas crianças e alunos que, infelizmente, não chegaram a conhecê-la. Lembranças e memórias são aos montes, ao lado dessa senhora. Lembro-me que, certo dia, ela quebrou o braço. Ela me contou que desceu a rua Coração de Maria de skate (risos). Hoje ela se tornou um anjo ao lado de Deus e em meu coração!Guilherme Solidade Meu filho Gabriel, nos primeiros dias de escola, quando entrou para o CICM, com 2 aninhos, na adaptação, chorava muito. E eu no pátio, tentando distraí-lo. Vi que a irmã Mansuetis veio andando em nossa direção, e ele saiu correndo, todo feliz, gritando “Olha a Mãezinha do Céu!”Cristiane Rajão Irmã, muito obrigado por todos os ensinamentos e momentos durante a nossa convivência. Sou infinitamente grato por tudo o que passamos nesses anos incríveis ao seu lado.Gabriel Rajão, Catequese CICM Conviver com a irmã foi mais do que uma convivência da vida. Foi um privilégio. Irmã Mansuetis, muito obrigada por todo o carinho e todo o apoio que sempre me deu, obrigada por ser tanta inspiração, e hoje me lembro de você como uma mulher batalhadora, amada, com um coração que não cabia no peito e muito mais que especial. Onde quer que esteja, sempre estaremos juntas, sempre com muitas lembranças boas, ao me lembrar de você no meu coração. Obrigada irmã! Para sempre, sua Luizinha!Maria Luiza Thiele, Catequese CICM Todos os que estudaram no CICM e CNSP a conheciam e sempre se lembrarão dela. Falo isso, pois eu mesmo me recordo de quase tudo o que vivi ao lado dela: as frases de carinho que ela dizia durante a catequese e todos os abraços que ela me dava sempre que me via. Sempre vou me lembrar dela por todo o amor e carinho que ela dava para quem a conhecia.Guilherme Rajão Convivi com a irmã Mansuetis na Catequese, no CICM. Era muito legal com a gente. Ela nos ajudava em todos os momentos. Ela vai fazer muita falta, mas estamos com as lembranças. Só queria agradecer por ela ser bem legal e feliz com todos nós. Com carinho,Marina Gonçalves Quaranta Irmã Mansuetis, grande missionária que marcou nossas vidas. Em vários momentos, foi tão especial que não deixava os problemas sem solução. Querida irmã, chegou sua hora. Com certeza, Deus está muito feliz por tê-la a seu lado. Descanse em paz! ?Ana Maria Mantuano Tive o privilégio de trabalhar e conviver com a irmã Mansuetis no CICM e, naquele período, pude observar em nossas conversas a pessoa forte, inteligente, amorosa e muito, muito generosa que ela era. Jeito doce e meigo, voz mansa e, como ela dizia, Mansuetis de Mansidão. Querida irmã Mansuetis, nossa “pequenina”, todo o meu respeito e admiração, carinho e gratidão. Descansa em paz! Cuida de todos nós!Simone Ghelli Irmã Mansuetis, um dia você contou a história da santa do dia do meu aniversário. Depois
Solenidade da Santíssima Trindade

“Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”Mateus 28,16-20 Hoje celebramos o mistério insondável de Deus: a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus no qual acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano, no qual celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que, no fundo, não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,28). Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas desde que vivamos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, visto que fomos criados à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré, a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Conforme criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático (como se fosse possível explicar “três em um”), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente à sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo, celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
A Solenidade da Santíssima Trindade e sua importância na vida de um cristão

Celebramos, no domingo logo após a Solenidade de Pentecostes, a Solenidade da Santíssima Trindade. Por ordem do Senhor Jesus, em Mateus (28,19), cada um de nós foi batizado e consagrado a Deus “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Fazemos nossa oração diária em sintonia com a Santíssima Trindade. Traçando sobre nosso corpo o sinal da cruz, sinal do amor de Deus por nós, abrimos nosso ser para a Trindade: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”. Ainda nos braços da mãe, talvez sem entendermos o sentido do gesto ou o alcance das palavras, aprendemos a fazer o sinal da cruz e nossa primeira oração: “Em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Esse “amém” no fim da oração é um vocábulo hebraico e, explica Catecismo da Igreja Católica (n.º 1026), está ligado à mesma raiz da palavra “crer”, e exprime a solidez, a confiabilidade e a fidelidade de nossa fé. Pode proclamar tanto a lealdade de Deus para conosco como nossa confiança nele. Com o “amém” que pronunciamos, anunciamos ter encontrado Deus e depositamos nele nossa inteira e total confiança. Esse piedoso sinal da cruz, pelo qual se benze o cristão, invocando as Três Pessoas Divinas, prática já comprovada no segundo século, é um costume de sentido profundo e completo: significa consagração, profissão de fé e oração. Em cada oração que fazemos todos os dias, sempre começamos e terminamos com o sinal da cruz. Com esse sinal, entramos na presença da Santíssima Trindade. É uma louvação às Três Divinas Pessoas, porque elas se revelaram na história e nos convidam a participar de sua comunhão divina. A resposta humana à revelação da Santíssima Trindade é o agradecimento e a glorificação. Depois, decoramos a doxologia (a louvação): “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. E não demorou para aprendermos, desde crianças, muitas vezes antes da primeira comunhão, a professar com piedade e precisão, mesmo sem entender o que haveríamos de compreender, pouco a pouco, mais e melhor, ensinados por nossa mãe, avó, catequista, com solenes palavras: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra […] Creio em um só Senhor, Jesus Cristo […] Deus verdadeiro de Deus verdadeiro […] Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Esse nosso Credo é, em sua estrutura íntima, uma confissão da Trindade. Na verdade, a atenção e a devoção às Três Divinas Pessoas continuam centrais em nossa vida, e tirá-las de nossa fé causaria não só um irreparável dano, mas acabaria com o próprio fundamento de nossa existência cristã. Por isso, crer na Santíssima Trindade e amá-la com todo o nosso ser tem consequências imensas para toda a vida (cf. o Novo Catecismo nos n.os 223-227): significa reconhecer a grandeza e a majestade de Deus. “Deus é tão grande que supera nossa ciência” (Jó 36,26). Significa viver em ação de graças: se Deus é o Único, tudo que somos e tudo o que possuímos vem dele: “Que é que possuis que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7). Significa reconhecer a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens: todos foram feitos “à imagem e à semelhança de Deus” (Gn 1,27). Significa usar corretamente das coisas criadas por Deus, como rezava São Nicolau de Flüe: “Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me afasta de vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo o que me aproxima de vós. Meu Senhor e meu Deus, desprendei-me de mim mesmo para doar-me por inteiro a vós”. Crer na Santíssima Trindade também significa confiar em Deus em qualquer circunstância, mesmo na adversidade. Uma oração de Santa Teresa de Jesus exprime-o de maneira admirável: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Uma fé completa Crer no Deus bíblico, a partir de Jesus, é necessariamente crer na Santíssima Trindade. O Deus de Jesus, o Deus cristão, é o Pai e o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo sempre estão juntos: criam juntos, salvam juntos e juntos nos introduzem em sua comunhão de vida e de amor. Na piedade de muitos fiéis, há uma desintegração da vivência do Deus trino. Alguns só ficam com o Pai, outros só com o Filho e outros só com o Espírito Santo. A religião só do Pai é o patriarcalismo. Todos dependem dele, sem qualquer criatividade. A religião só do Filho é o vanguardismo. Jesus é considerado o “companheiro”, “o mestre” e “nosso chefe”, irmão de todos. É um Jesus com apenas relações para os lados, sem uma dimensão vertical, em direção ao Pai. Essa religião cria cristãos vanguardistas. A religião que só se concentra na figura do Espírito Santo é espiritualismo. Eles só cultivam suas emoções interiores e pessoais. Eles esquecem que o Espírito Santo é sempre o Espírito do Filho, enviado pelo Pai para continuar a obra libertadora de Jesus. Não basta a relação interior (o Espírito Santo) nem a somente para os lados (Filho), nem só a vertical (Pai). Importa integrar as três. Que seria de nós se não tivéssemos um Pai que nos aconchegasse? Que seria de nós se esse Pai não nos desse seu Filho para fazer-nos também filhos de Deus? Que seria de nós, se não tivéssemos recebido o Espírito Santo, enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para morar em nossa interioridade e completar a nossa salvação? Vivamos a fé completa, numa experiência completa da imagem completa de Deus como Trindade de Pessoas. Entrar no mistério amoroso de Deus Fomos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Batizar em nome de alguém significa estabelecer com ele uma relação pessoal. Pelo batismo, entramos numa relação pessoal com Deus uno e trino. Batizar em nome do Pai e
Dimensões da sexualidade, diversidade e respeito

A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une Durante o ano de 2021, todas as escolas de nossa Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo terão como tema transversal “A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une”. Esse será o pano de fundo de todas as nossas ações pedagógicas e marca também como reflexão para que toda a nossa comunidade educativa, alunos, educadores e familiares, possa repensar nossas atitudes diante desse mundo tão plural que vivemos e, assim, trabalhemos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Além disso, aproveitamos também o mês de maio para conversarmos sobre esse tema. No dia 21, celebramos mundialmente o Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e Desenvolvimento. Falar sobre a diversidade é uma tarefa complexa, já que, aos olhos da Antropologia Teológica, todo ser humano é único e irrepetível diante Deus. Cada um, cada uma é parte de um todo que foi pensado e amado por Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança, e, por isso, chamados a viver no e por amor. Nessa lógica, podemos intuir que a diversidade existe desde que a primeira espécie humana (Homo erectus) surgiu neste planeta, há 2 milhões de anos. De acordo com as mais recentes descobertas, o Homo sapiens conviveu com alguns dos seus antepassados, dando mais ênfase a esse convívio diverso. A diversidade está presente em nosso cotidiano, 24 horas por dia. Está em nossas casas, em nossas escolas, em nossos trabalhos e em nossas igrejas. É de suma importância compreender que nossas diferenças nos ajudam a sermos melhores, nos enriquecem e nos tornam mais capazes de construir um mundo mais solidário. Devemos olhar nossas crianças, e digo as menores mesmo, pois, para elas, não existe preconceito, diferenças… Elas convivem de maneira harmônica em nossas salas de aula. Quem trabalha com a educação infantil pode nos ajudar nessa reflexão, mas, conforme o crescimento e as informações que vão recebendo, ou não, essas diferenças vão se tornando obstáculos quando não são bem elaboradas internamente. Jesus, em sua missão, encontrou diversas pessoas, de variadas etnias, opiniões, jeitos de ser, e sua postura foi única: O AMOR, trazendo com ele a misericórdia e a compaixão que derrubam barreiras e preconceitos. Basta olhar o grupo dos doze apóstolos, composto por uma diversidade de pessoas. Em nenhum momento, incitou a violência, de espécie nenhuma, mas acolheu todos aqueles que dele se aproximavam. Isso posto, vamos pontuar alguns aspectos mais específicos da diversidade que desejamos ressaltar. Ao olharmos nosso entorno ou até mesmo quando vemos dados de pesquisas oficiais, fica claro que nossa sociedade é diversa. Geralmente, tende-se a pensar que o modo como lidamos com a diversidade é um assunto já superado e compreendido pela maior parte da sociedade. Mas, ao nos depararmos com as questões que envolvem a diversidade sexual e as dimensões da sexualidade, ainda há caminhos que geram dúvidas e preconceitos. De início, é preciso entender que a sexualidade vai além do conceito biológico do sexo e atrelado ao processo reprodutivo. Ela é algo particular, estando relacionada ao gênero, à identificação das pessoas dentro das possíveis identidades de gênero, ao envolvimento emocional com outras pessoas e consigo próprias. É também uma questão cultural, já que, por ela, são estabelecidos vínculos afetivos e é pautada em padrões criados por grupos de pessoas e valores construídos em cada sociedade. Por conta de toda essa rede de relações (biológica, sociocultural, afetiva e ética), ela deve ser vista e estudada segundo suas várias dimensões e deve ser respeitada e levada a sério. Para que essa compreensão e respeito sejam colocados em prática, é preciso que alguns termos vinculados a essa temática sejam entendidos. Sempre que nos referimos ao sexo biológico, estamos falando da distinção entre macho e fêmea. Porém não devemos confundir o sexo biológico com a identidade de gênero, que se refere ao gênero com o qual o indivíduo se identifica. Desse modo, ser do sexo masculino é ter cromossomos XY; por outro lado, ser do gênero masculino é identificar-se com esse gênero. Embora sexo e gênero tenham uma forte correlação, nem sempre eles são coincidentes. Dentro desse contexto, uma pessoa cisgênero é aquela cuja identidade de gênero coincide com seu sexo biológico, enquanto uma pessoa transgênero é aquela que sua identidade de gênero não coincide com o sexo biológico. Há ainda as pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros ou com os dois. Existe ainda o que chamamos de orientação sexual, que é como se caracteriza o desejo sexual predominante de uma pessoa: se é por pessoa de gênero diferente (heterossexual), igual (homossexual) ou de mais de um gênero (bissexuais ou pansexuais). Muitos outros termos existem dentro desse guarda-chuva, mas esses são os mais populares. A discussão sobre sexualidade se torna cada vez mais importante, uma vez que jovens passam por situações de transtorno psicológico por não se entenderem/aceitarem ou não serem aceitos por outros, além de várias situações de preconceito que ainda são vistas e vividas em um país como o nosso, onde, teoricamente, temos a liberdade para viver a sexualidade do modo que nos convier. Compreender as dimensões da sexualidade é fazer com que ela não faça qualquer pessoa perder seus valores, sua atividade e sua vida. Em janeiro de 2015, o Papa Francisco recebeu Diego Neria Lejárraga, espanhol de 48 anos. Diego, que nasceu mulher, mas sempre se sentiu homem, tinha escrito ao Papa para pedir-lhe apoio diante da rejeição e da incompreensão que sofre por parte de seus conhecidos e até mesmo de religiosos quando vai à igreja, por conta de sua mudança de sexo. Durante seu encontro, perguntou ao Santo Padre se havia lugar para ele na casa de Deus. Como resposta, recebeu um abraço. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz. É, portanto, imprescindível que seja parte de nossas atitudes diárias promover o acolhimento a todos a nosso redor, independentemente de suas características físicas, étnicas, culturais, religiosas ou sexuais, e que tenhamos em mente que, dentro da sociedade inclusiva