Florestas, sustentabilidade e outros significados

Em 21 de março, comemora-se o Dia Internacional das Florestas. Para o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, as origens passam por Nebrasca, nos Estados Unidos, que, em 1872, dedicou um dia para o plantio de árvores. O evento foi inspiração para a “festa da árvore” em outros países. Na década de 1970, a festa deu lugar ao Dia da Árvore. Essa data logo foi alterada para o Dia Mundial da Floresta, no intuito de sensibilizar para a preservação de condições de vida na Terra, tendo em vista as gerações futuras. Em 2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu 21 de março como o Dia Internacional das Florestas, num esforço alinhado com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para 2022, o tema de reflexão é “Florestas: consumo e produção sustentáveis”. A relevância da data é ampliada pelas crises humanitária, ecológica, climática, sanitária, entre outras, que ocorrem em escala global e colocam em questão nossa inabilidade de habitar o planeta sem o explorar. O modo como afetamos as florestas é derivado da produção em larga escala, cuja insustentabilidade é ampliada quando consumimos de maneira irresponsável e inconsciente. Outro problema está relacionado às formas de produção que suprimem a vegetação em nome da eficiência dos processos tecnológicos. Além disso, ao submeter a natureza aos desejos e necessidades da humanidade, também afetamos as florestas e a Terra, especialmente quando extraímos matéria-prima para a construção de habitações, de dispositivos para mobilidade física e digital, de baterias e energia para os equipamentos eletrônicos, entre tantos outros produtos que poderíamos citar. Até aqui, falamos das condutas que afetam as florestas. Não abordamos ainda sua importância para sustentar a vida do planeta. A teia que entrelaça as florestas com a vida alcança o mar, o ar e a terra: desde as raízes no subsolo, passando pelas copas das árvores que abrigam a vida de várias espécies, até a camada de folhas que formam a serapilheira, contribuindo com a fertilização do solo. Peter Wohlleben, engenheiro florestal e ecologista, discute essas questões com brilhantismo na obra A vida secreta das árvores. A escritora e ambientalista Rachel Carson, em sua robusta obra que inclui Sob o mar-vento, O mar que nos cerca e Primavera silenciosa, aborda, com muita sensibilidade e coragem, a conexão entre todas as formas de vida. As florestas, com a fotossíntese e a umidade, contribuem para que a atmosfera ofereça condições de vida e que rios aéreos flutuem, de um ponto para o outro, distribuindo chuva e fertilidade. Também são elas que, como uma fortaleza, permitem a vitalidade dos rios. Mais do que isso, elas são fonte de cura, de espiritualidade e sabedoria. As flores, os frutos e os extratos da floresta alimentam e curam o corpo. O espírito também se beneficia com a temperatura, as formas de luz e sombra desenhadas pelo sol, assim como a chuva suavizada pela vegetação; o som da brisa e do vento, dos pássaros, dos riachos e de nossos passos sobre as folhas constituem experiências sensoriais que afetam nossa alma e permitem entrar em contato conosco e com o meio para estabelecer conexão com o Divino que habita em nós. Por esses significados e pela vida que nelas toma forma, as florestas merecem nossa reverência, atenção e cuidado. Referências CARSON, Rachel. O mar que nos cerca. São Paulo: Gaia, 2013.CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. São Paulo: Gaia, 2013.CARSON, Rachel. Sob o mar-vento. São Paulo: Gaia, 2013.INSTITUTO DA CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E DAS FLORESTAS. Disponível em: https://www.icnf.pt/. Acesso em: 17 mar. 2022.WOHLLEBEN, Peter. A vida secreta das árvores: o que sentem e como se comunicam. Rio de Janeiro: Sextante, 2017. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

3º Domingo da Quaresma

“Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”Lucas 13,1-9 Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas e ensina os discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações humanas; mas que também tem exigências para quem quer segui-lo. Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais. O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas, referente ao fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o sacrifício no Templo (não temos informações de outras fontes sobre esse acontecimento). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta feita a Jesus sobre o homem cego de nascença, no Evangelho de João (9,2): “Os discípulos perguntaram: ‘Mestre, quem foi que pecou para que ele nascesse cego? Foi ele ou os pais dele?’”. É a “teologia da retribuição”, pela qual Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim se anula a gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e os excluídos da sociedade são vistos como culpados de seu próprio sofrimento. Infelizmente essa teologia, tão antievangélica, está muito presente hoje, quando a prática religiosa ou o dízimo são entendidos como “investimento” para receber retornos de Deus. É claro que também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois sua riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus e não como, frequentemente, resultado da exploração e, ou, de um sistema econômico injusto. Jesus não autoriza tal interpretação, e falando também de outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (vers. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir para que todos pensem na insegurança da vida e na urgência de conversão, enquanto ainda há tempo. Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, mediante uma vida digna de discípulos. Os versículos 6 a 9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes, as parábolas comportam mais do que uma explicação válida. A parábola de hoje tem dois lados: como parábola de compaixão e como parábola de crise. Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais uma chance. Assim, toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (vers. 7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem contribuir nada para ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de uma vida do discipulado ou correrem o risco de serem cortadas da vinha do Senhor. A Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre nossa vida cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade, cujas estruturas, muitas vezes, também não estão de acordo com a vontade de Deus, destruindo a nossa “casa comum”, o nosso planeta, por exemplo. É claro que todos nós somos pecadores e, então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos anima diante de nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Por outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o “adubo” (vers. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros discípulos e discípulas de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

A evolução das bibliotecas e o desafio do profissional bibliotecário

O mundo está em transformação. Não se pode negar o impacto das mudanças tecnológicas na forma de realizarmos leituras e consumirmos conteúdo. Assim como a sociedade se transforma, os espaços que nela existem também, e não é diferente com as bibliotecas. Estas não podem mais ser vistas apenas como um lugar de empréstimo de livros. Na Antiguidade e no Período Medieval, as bibliotecas guardavam escritos de intelectuais gregos, egípcios e romanos. Apenas esse grupo tinha acesso ao conhecimento. Já na Idade Média, o clero, a nobreza e os militares formavam a classe dominante e, por sua vez, mantinham todo o conhecimento, que era gravado em suportes variados, como tabuletas de argila, rolos de papiro, pergaminho e enormes códices armazenados em bibliotecas de mosteiros. Se retomarmos o significado da palavra biblioteca, de acordo com o dicionário, encontraremos o seguinte significado: “coleções de livros, edifício público onde se instala essa coleção, para ser consultada pelos interessados”. No passado, as bibliotecas eram consideradas um templo, e o bibliotecário, seu guardião. Essa imagem, até pouco tempo, era mantida, mas, com o advento das novas tecnologias de comunicação, essa imagem começou a dar sinais de mudança. Na Contemporaneidade, as bibliotecas passaram a ser espaços de troca, de encontro, onde pessoas são tão importantes quanto livros. As bibliotecas rompem com o formalismo da instrução e se reconectam com o conhecimento e com o público. Nesse contexto, com a introdução das novas tecnologias de informação e comunicação, as bibliotecas passaram a ter seus serviços automatizados. Esses novos recursos fizeram da biblioteca um lugar diferente daquele local antes visto como um depósito de livros. No presente, foram criadas denominações para a atual biblioteca, como unidade de informação, e para os bibliotecários, profissionais da informação. Diante de todas essas transformações no mundo e na Biblioteconomia, o profissional bibliotecário deixou de ser um erudito, guardião de livros e se destacou como um profissional mediador no processo de busca da informação. Hoje, o bibliotecário é instigado a ultrapassar as barreiras de suas bibliotecas e instituições, e contribuir efetivamente para o acesso, visibilidade, compartilhamento e uso da informação. Nesse sentido, as tecnologias da informação e comunicação (TIC) vieram ampliar e ressignificar a sua atuação, tornando-se uma grande aliada. Mesmo com toda essa evolução das TIC, que vieram para facilitar e ampliar a atuação do bibliotecário, devemos lembrar que ainda há muitas barreiras a serem superadas, como a desigualdade social. No Brasil, hoje, cerca de 46 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet e, com isso, o bibliotecário permanece sendo o elo entre o passado e o futuro, atuando como gestor da informação e do conhecimento, a fim de atender às necessidades de informação da sociedade, seja ela por meio da tecnologia ou utilizando os recursos disponíveis. Por esse motivo, o bibliotecário é o profissional capaz de atuar em qualquer função que vise a organização e obtenção da informação e do conhecimento. A biblioteca é um departamento de ações dinamizadoras, onde os saberes se multiplicam e a difusão das informações é constante. É um ambiente cultural, democrático, de interação e socialização, no qual se promovem não só o conhecimento, mas também o entretenimento entre as pessoas e o pensamento, um lugar onde a memória e a formação se conectam. Contudo, uma coisa é certa, por mais que as bibliotecas se transformem, os livros, que são seu tesouro, sempre existirão e permanecerão sendo o suporte da leitura. Cristiane DouradoBibliotecária no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Cordel em homenagem aos bibliotecários 12 de março é destaquenos dias do calendário,pois tem significadorico, extraordinário. Comemora, nesse dia,com honrosa e alegria,Dia do Bibliotecário. Você que cuida de livroé para o mundo um presente,em prol da educação,fica na linha de frente,conduzindo o saber,sinto que é este SERgente que cuida de gente. E entre tantas pessoas,a Cristiane Dourado,desenvolve essa funçãoque faz com zelo e cuidado. Pra paz na terra reinar,nós precisamos tornaro mundo mais educado. As servas missionáriasdo nosso Espírito Santocuidam dessa sapiência,tal qual o zelo ao manto,assim a bondade crescee o colégio agradeceesse frutífero encanto. Poeta Costa Senna

2º Domingo da Quaresma

“Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” Lucas 9,28-36 O nosso texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesareia de Filipe, a respeito de quem era Jesus e como deveria ser seu seguimento: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (Lucas 9,23). Começando a passagem com as palavras: “Oito dias após dizer essas palavras”, Lucas quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior, sobre o seguimento de Jesus até a cruz. É notável também que os três discípulos que Ele levou consigo são os mesmos que o acompanhariam no Jardim de Getsêmani (Mateus 26,37). O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito caro a Lucas: Ele era um homem de oração. Nesse momento, Ele “subiu à montanha para rezar” (vers. 28). Durante a oração, aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas, duas das figuras mais importantes do Antigo Testamento. Assim, Lucas mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos em seu tempo. Lucas aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (vers. 33). Claro, era bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia a dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não o quereria? Mas não era uma sugestão que Jesus pudesse aceitar. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e, no dia seguinte, “desceram da montanha” (vers. 37). Por tão gostoso que fosse ficar no Monte Tabor, seria preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário. A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da Cruz. Quem sabe, a experiência do Tabor tenha dado a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorida do Calvário? Aplicando o texto e a sua mensagem a todos os cristãos, podemos deduzir que todos precisam subir o Monte Tabor para serem transfigurados, para depois descerem para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs. Todos nós, seja qual for nossa vocação, precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Isso se torna cada vez mais importante no mundo atual, de ritmo quase frenético, de estresse e correria. Temos de descobrir como criar tempo para respirarmos mais profundamente a presença de Deus, para renovarmos nossas forças e nosso ânimo. Essas experiências não devem ser “intimistas”; pelo contrário, devem aprofundar nossa fé e nosso seguimento, para podermos seguir o exemplo daquele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (João 13,14). Esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os instantes de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”. Somos fracos demais para aguentar essa experiência contando somente com nossas próprias forças e recursos. Por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação sempre, para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos. Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!” (vers. 35). Façamos isso e venceremos nossos calvários. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Sempre é tempo de recomeçar

O início de um ano letivo reacende em cada um novos sonhos, projetos e a certeza de novos tempos. A energia e os desejos que emanam de nossos alunos, familiares e educadores para o retorno das aulas presenciais é a grande motivação da missão educativa em nossas escolas. Com a chegada da vacinação para as crianças e adolescentes, público principal de nossas comunidades, podemos respirar mais aliviados e contar com um retorno mais seguro para todos, afinal, nossas escolas mantêm, de modo educativo, os protocolos de segurança exigidos pelos órgãos de saúde. Contudo, ainda fazem parte (e de forma justa) de nossas indagações dúvidas tais como o que muda, com o que precisamos estar atentos, como reintegrar nossos estudantes, quais os cuidados. Para contar como foi este início em nossas escolas, convidamos nossas diretoras e coordenadoras pedagógicas das unidades da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo para partilharem como foi o retorno em cada realidade e ajudarem a pensar este recomeço, ainda diferente. Colégio Sagrado Coração de Jesus Desde 2020, mesmo com a possibilidade de retorno, alguns estudantes precisaram ficar em casa. Já agora, por uma determinação da Prefeitura de Belo Horizonte-MG, o retorno presencial foi para todos aqueles abaixo de 5 e acima de 11 anos. Por isso, este ano começou alegre e cheio de expectativas no Colégio Sagrado Coração de Jesus. Mais seguros com as doses de vacina aplicadas, alunos e alunas puderam se reencontrar presencialmente com todos os professores. Isso permitiu mais acolhimento, mesmo que os tempos ainda exijam segurança, cuidado e muita empatia. A semana teve o seu início com a apresentação das salas de aula para as turmas, visita pelo colégio com os novatos e dinâmicas de união com todos. Já começaram as reuniões com os pais e, desde já, ficou bem nítida a expectativa positiva com todas as boas mudanças que estão sendo implantadas: desde os trabalhos com a cultura maker até as aulas extracurriculares de esportes, banda de música, teatro, mudanças no processo avaliativo. Ana Amélia Rigotto Fernandes é diretora pedagógica do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG. Centro Educativo Madre Josefa Após merecidas férias e depois de dois anos de superação de desafios e reconstrução de nossos saberes, aguardamos nossos alunos e seus familiares para mais um ano letivo no Centro Educativo Madre Josefa, no Rio de Janeiro-RJ. Um retorno muito animado, com 100% de nossos colaboradores com o esquema vacinal completo contra a covid-19 e a confiança em cada grupo familiar para contribuir, de forma responsável, para o convívio em um ambiente escolar saudável. O reencontro dos olhares motiva as expectativas pelas atividades presenciais plenas, fundamentais para recuperar os possíveis desnivelamentos de aprendizagem que ampliaram o abismo na educação dos menos favorecidos. Por esse motivo, estamos confiantes em que o retorno da missão na educação faz toda a diferença nesta comunidade. Gilmara Solidade é coordenadora do Centro Educativo Madre Josefa, no Rio de Janeiro-RJ. Colégio Espírito Santo Em um clima de expectativa e muita alegria, o Colégio Espírito Santo iniciou, em 31 de janeiro, o ano letivo de 2022. Depois de um período de férias, energias renovadas, é hora de professores e alunos se conhecerem, e de retomar os estudos e a convivência entre os colegas. O colégio, durante o período de férias, recebeu toda a atenção da equipe de manutenção e conservação, que repaginou alguns espaços e está prontinho para ser o palco de muitas experiências de aprendizagem e interação entre a comunidade escolar. Nestes primeiros dias de aula, os professores acolheram os alunos com dinâmicas interativas e muita animação para promover o aprendizado dos estudantes. Ainda vivemos um cenário pandêmico que requer a manutenção dos protocolos sanitários recomendados pelas autoridades da saúde, como o uso de máscara, higienização das mãos e dos ambientes, e o compromisso de todos para cumprir esses protocolos e conter o avanço da covid-19. A equipe pedagógica está preparada para diagnosticar as diferentes demandas pedagógicas dos estudantes e fortalecê-los emocionalmente. Sabemos o quanto a pandemia impactou pedagógica e emocionalmente os estudantes, mas, com um olhar sensível e seguindo o lema da Campanha da Fraternidade 2022, “Fala com sabedoria, ensina com amor”, temos a certeza de que 2022 será um ano de muito aprendizado, superação e alegrias. Clarice Aparecida Monreal P. Cavalcante é diretora pedagógica do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Centro Educacional Madre Theresia Para a comunidade educativa do Centro Educacional Madre Theresia, em São Paulo-SP, as primeiras semanas foram muito especiais, repletas de alegria, emoção, cuidados e grandes expectativas. O novo ano letivo favorece novas experiências e aprendizagens. Ainda sob os impactos da pandemia, estamos nos adequando a um novo jeito de viver, mantendo todos os cuidados necessários para assegurar a saúde de todos. Diante deste cenário desafiador, contamos com a confiança, a colaboração e a parceria de toda comunidade educativa em prol de uma formação integral para as crianças. A equipe pedagógica está atenta às necessidades de cada criança para promover seu pleno desenvolvimento e bem-estar. Este é o nosso compromisso: educar com amor para construir uma sociedade justa, humana e fraterna. Maria Angélica é diretora do Centro Educacional Madre Theresia, em São Paulo-SP. Colégio Imaculado Coração de Maria A pandemia do coronavírus causou várias mudanças nas escolas de todo o mundo, impactando as formas de ensinar e aprender, além das relações entre as pessoas. Com muita satisfação, nos dias 1º e 2 de fevereiro, retornamos com a equipe docente e, no dia 3, com nosso alunado, 100% presencial. Desejávamos isso, porque resgatar o valor e a importância do espaço físico da escola como um lugar de vida, aprendizado e desenvolvimento é fundamental. Porém é certo que teremos de continuar praticando os mesmos cuidados voltados para saúde bem como para o bem-estar emocional de toda a nossa comunidade educativa. O trabalho da psicóloga educacional Giovanna Augusto, dando conforto e orientando alunos, familiares e profissionais, e de toda a equipe pedagógica com sua acolhedora atuação, e também o nosso quadro de funcionários totalmente vacinado com as 2ª e

Mulher: gênero, biologia, trabalho e construção cultural

Você se lembra da música de Benito Di Paula? “Agora, chegou a vez, vou cantar / Mulher brasileira em primeiro lugar / […] Norte a sul / Do meu Brasil / Caminha sambando/ Quem não viu / Mulher de verdade / Sim, senhor / Mulher brasileira é feita de amor.” Refletindo sobre o Dia Internacional da Mulher, podemos perceber que a música sempre exaltou a mulher em prosa e verso, entretanto vemos muitas batalhando no trabalho, criando os filhos, dedicando-se à família, sem falar naquelas que arrumam tempo para estudar e dedicar-se à solidariedade. Temos cientistas de renome, exemplos de várias “guerreiras”. Mas como o Brasil é o quinto país em feminicídio? Infelizmente, nas sociedades humanas, ainda existe uma mentalidade de que mulher deve somente servir ao homem, seja o pai ou o marido, cuidar das tarefas domésticas e das crianças. Trabalhar fora de casa, dirigir um carro ou uma empresa é coisa para homem. O péssimo exemplo de um deputado do Estado de São Paulo, que foi à Ucrânia recentemente, em tempo de guerra, com uma proposta “humanitária”. Postou em uma de suas redes um comentário, afirmando que “as ucranianas são fáceis porque são pobres”, comparando a fila de refugiadas com a fila de baladas no Brasil. Um médico turista, em um dos países do Oriente Médio, também fez comentários maldosos a uma comerciante. Uns meses antes, durante a Copa do Mundo, na Rússia, um advogado foi advertido por mexer com jovens do local. Esses fatos demonstram como a mente machista ainda está fortemente presente no sexo oposto. A cada minuto, temos notícias de violência doméstica, tanto física e psicológica quanto patrimonial. Quase sempre, não há aceitação do término de um relacionamento, significando que o outro é visto como propriedade privada, rejeitando a ideia de liberdade das mulheres e suas conquistas. A pensadora francesa Simone de Beauvoir (1908-1986) fez muitos estudos sobre a condição da mulher na sociedade. Em sua obra O segundo sexo (1949), afirmou que “ninguém nasce mulher, mas se torna mulher”. Conforme a mulher conquista seu espaço, cresce seu reconhecimento. Nesse sentido, a questão do ser mulher não é biológica, mas cultural ao longo da história de um povo. A questão de gênero (masculino/feminino) é vivida por homens e mulheres, independentemente da visão biológica, mas em determinada época e lugar. O corpo é construído culturalmente. Assim, o corpo da mulher, em nossa sociedade, foi “coisificado”, ou seja, passou a ser visto como uma mercadoria, uma “coisa”, basta observar as propagandas. Neste século XXI, muitas mulheres têm ocupado diversos espaços, mas ainda precisamos de mulheres ocupando os espaços políticos, como as câmaras municipais e o Congresso, o cenário científico-acadêmico, etc. Procuremos educar as gerações com sabedoria e nos despertar para a importância de sermos tratadas como seres humanos e não como coisa mercadológica. Há muito trabalho a ser realizado. Aproveitemos a Campanha da Fraternidade, que reflete sobre não condenarmos a mulher, atirando pedras, como faziam os fariseus, mas dando oportunidades, gerando vida. Mulheres, uni-vos! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura, pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.

1º Domingo da Quaresma

“Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”Lucas 4,1-13 O texto expressa a luta interna de Jesus (que, na realidade, deu-se ao longo de sua vida pública) para discernir o caminho a seguir, após assumir sua missão no batismo. Jesus era totalmente humano e assim enfrentava sempre as tentações de seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de Javé. A experiência de Jesus é como a nossa: entre nosso compromisso com o projeto de Deus e sua vivência prática, existem muitas tentações. Jesus estava “repleto do Espírito Santo” e era “conduzido pelo Espírito através do deserto”. O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora do Filho de Deus durante suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio nos momentos difíceis da vivência de sua fé. As tentações são as mesmas que enfrentamos em nossa caminhada da fé hoje. Primeiramente, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Aqui é a tentação do “prazer”, logo que enfrente sofrimento e sacrifício por causa de sua missão, Jesus é tentado a escapar. Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata de nossos desejos, em uma sociedade que cria necessidades falsas por meio de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, na qual a regra é “se quiser, faça!”, em que o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores. Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (vers. 4). Vivemos de pão, mas não só. Jesus não é contra o necessário para viver dignamente, mas salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade e sim a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz contraste falso entre bens materiais e espirituais; precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena. Jesus desautoriza tanto os que buscam sua felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos. Nada de materialismo e nada de uma religião que não inclui o compromisso com a solidariedade, a justiça social e uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária. A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro de nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais” e que não importa “ser mais”. A tentação vem em forma atraente. Até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos e leigas, dos “fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também enfrentou essa tentação. Ele, que veio para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo, e para nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social, Jesus afirma: “Tu adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás” (vers. 8). A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes, para “evangelizar”, as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade da cruz… Quanta aliança entre a cruz e a espada; a América Latina que o diga! Ainda hoje, enfrentamos esta tentação: não de ter poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1,25) e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para confundir o que é forte” (1 Coríntios 1,27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve de clarear sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Podemos agradecer o exemplo do Papa Bento XVI, que soube abrir mão do poder para o bem da Igreja. Nesse gesto profético, talvez tenha proferido sua melhor pregação: o poder existe somente para servir o bem comum. Realmente podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. São as do mundo moderno: o ter, o poder e o prazer. Todas as coisas são boas em si, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus teve de enfrentar o que nós enfrentamos: o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar de nossa vocação de discípulos-missionários, discípulas-missionárias. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás” (vers. 8). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Festas e pandemia

Mais um ano de pandemia e, quando se pensava que, após dois anos de guerra contra a covid-19, estaríamos de volta ao normal, ainda precisamos evitar as aglomerações e manter os cuidados sanitários. Em fevereiro de 2020, mesmo a Organização Mundial de Saúde (OMS) tendo alertado as autoridades brasileiras a respeito do novo coronavírus, os eventos carnavalescos e festas em geral “correram soltos” pelo País. Como consequência, a pandemia instalou-se no território nacional, provocando muitas internações. As unidades de terapia intensiva e os hospitais, que não estavam preparados para receber tantos pacientes, entraram em colapso. De norte a sul do País, vimos a triste notícia da falta de materiais hospitalares, como tubos de oxigênio e equipamentos de proteção. Tanto os profissionais da saúde deram a vida, pois foram contaminados, deixando suas famílias desoladas, quanto os idosos e os jovens de serviços essenciais. Embora a vacinação tenha começado com certo atraso no Brasil, por causa da insana conjuntura política nacional, a pandemia parecia estar acabando. Mas as festas de fim de ano novamente causaram o aumento dos casos de internação e mortes, ceifando a vida de 650 mil brasileiros. E como ficam as festas? Festa sempre foi um momento de ação de graças, de gratidão e bênção. Marca um momento ritual para um povo. No caso do carnaval, festa da carne, seria a passagem de dias comuns para o período da Quaresma, que propõe o recolhimento e o jejum, em preparação para a Páscoa. O sentido religioso da maioria das festas, como a do carnaval, foi invertido pela lógica capitalista. Por esta, o evento festivo, em vez de ser de partilha, comemoração, um ritual fraterno, passou a dar valor ao consumismo exacerbado. A economia tomou conta. A festa, em seu sentido original, celebra a vida, mas, no contexto de hoje, não há o que festejar em plena pandemia. Como pular, brincar com tantas famílias enlutadas e sofrendo com entes queridos entubados, com tantos órfãos e viúvas(os)? O fato de aglomerar pessoas já deve servir de alerta, pois, com tantos indivíduos ainda não vacinados, principalmente crianças, o bom senso clama por prudência, moderação, recolhimento. Festa significa cantar, dançar, alegrar-se, celebrar a vida. Porém, na pandemia, fazer isso é gerar morte, e morte prematura. Pensemos em cuidar da vida, continuando a tomar todos os cuidados necessários, mantendo o uso de máscara, a higienização das mãos, evitando aglomerações. Aos poucos, voltaremos à vida coletiva. Agora, cuidemos da saúde de cada um para que, juntos, celebremos a vida em festa. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão da ALESC de Prevenção e combate à tortura, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

8º Domingo do Tempo Comum

“A boca fala do que o coração está cheio”Lucas 6,39-45 Um dos principais sinais de fidelidade dados por um verdadeiro discípulo ou discípula de Cristo é a coerência entre discurso e gestos. Esse é o tema central do Evangelho na liturgia deste 8º Domingo do Tempo Comum. Por várias vezes, a Palavra de Deus nos alerta para a tentação de sermos meros adeptos de uma filosofia, uma ideologia, uma teologia estéril. Nossa missão é seguir os passos de uma pessoa: Jesus. Originalmente, a palavra “hipócrita”, de origem grega, referia-se, entre outros significados, a “ator”. Esse artista “transforma-se” em um personagem, quase sempre bem diferente da pessoa que o interpreta. No maravilhoso mundo das artes, é algo comum, mas não o deveria ser para a realidade de um batizado, batizada. A passagem contemplada neste domingo é a conclusão do ensinamento do Nazareno aos recém-chamados discípulos, conhecido como o “Discurso da Planície”, característico do Evangelho de Lucas (em Mateus, ocorre na montanha). Após escolher os que o ajudariam pastorear o povo, o Senhor lhes dá várias instruções e advertências as quais valem também para nossos tempos (veja os evangelhos dos dois últimos domingos). A primeira é estar de olhos abertos para conhecer os caminhos e orientar os irmãos e irmãs confiados a nós. É necessária a vigilância do discipulado, obtido sobretudo na escuta atenta, na oração, no estudo. Caso contrário, tudo se torna apenas discurso, levando à ruína os “guias-personagens”, os guiados e a própria mensagem, que se torna vã (vers. 39). A outra é reconhecer quem é o verdadeiro mestre, não nos colocando em seu lugar. Cada um, à sua maneira, é chamado, chamada a colaborar na obra do Senhor (e não a nossa), por isso devemos ter o cuidado de não falar por nós mesmos, ocultando o exemplo e lições do próprio Filho de Deus. O legítimo discípulo deve ter a humildade de colocar-se aos pés de Jesus para receber a boa instrução e, assim, agir como o Mestre (vers. 40) (veja também Lucas 10,38-42). O terceiro alerta diz respeito à hipocrisia, ou seja, ser um discípulo apenas na aparência, cometendo os mesmos erros das autoridades religiosas judaicas daquele tempo. Quem age assim é levado a achar-se superior aos outros. Essa era uma fraqueza daquele povo que, com soberba, sabia-se o escolhido de Deus, mas se esqueceu de ser luz das nações (Isaías 42,6; 49,6). Infelizmente, muitos dos primeiros seguidores de Jesus herdaram esse raciocínio, por isso o Mestre os adverte para esse perigo. Vestir-se desse personagem leva a pessoa a ignorar as próprias falhas e a julgar e condenar o próximo, muitas vezes com fraquezas bem menores. A hipocrisia é a trave a prejudicar a visão. Nestes nossos tempos de julgamentos rápidos, superficiais, quase sempre sem a devida base, nesta era de curtidas, “descurtidas” e “cancelamentos” em um clique, as palavras do Senhor soam atualíssimas. É um grande contratestemunho saber de cor rubricas e cânones, mas não ter sequer ideia de quantos irmãos e irmãs estão feridos pelos arredores, ter destreza para buscar os “abusos litúrgicos” e os “relativistas”, mas ser conivente com situações de miséria e injustiça. Em nome de um “zelo” pela Igreja, ser lobo e não ovelha. Nunca é demais recordar: o sermão da planície foi dirigido antes aos discípulos e discípulas, de ontem e de hoje. Uma das revoluções do cristianismo foi dirigir o olhar também para nossa essência, figurada como o “coração”. O que fazemos ou falamos deve refletir o profundo de nosso ser. Não há espaço para encenação, mas para uma sacratíssima autenticidade. “Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos” (vers. 44). De nós deve emanar o bem, mesmo nos desafios (veja a primeira leitura deste domingo: Eclesiástico 27,5-8), pois somos convocados a aprender com o Mestre, o Senhor da Vida. Iluminados pelo Evangelho, esta é uma ocasião para nos ver no espelho, avaliando se nossas ações condizem com nossas palavras e fé. Quais frutos nós e nossas comunidades têm produzido? Com que credibilidade anunciamos o reinado de Deus? Estejamos despertos e peçamos a força e a graça de pregarmos, com nossa própria vida, o verdadeiro Evangelho. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

A arte como resistência: o centenário da Semana de Arte Moderna

Quem não gosta de ouvir música? Assistir a um filme? Ler um livro? Quando foi a última vez que você visitou um ateliê de pintura ou um museu de belas-artes e contemplou obras-primas? A arte faz parte da existência humana. O filósofo alemão Nietzsche (1844-1900) afirmou que “a arte é o grito de liberdade do ser humano”. Ela é a forma de expressarmos, de várias formas, nossas angústias e sentimentos, seja pela poesia ou pela pintura, pela escultura ou pela fotografia, ou pela escultura, por um filme ou coreografia. Toda cultura sempre tem presente a arte, tanto no domínio religioso quanto no profano. Recorre a técnicas com o fim de elaborar a visão do mundo em que vivemos, criando o belo. Nesse sentido, a estética passou a analisar o sentido, a sensibilidade, o espírito presente nas obras-primas. Enquanto, no Período Moderno, o espírito encarnava-se na arte romântica, no século XIX, de acordo com o filósofo Hegel (1770-1831), o conceito de beleza dependeria de mudanças culturais. O desafio, então, era apresentar a realidade brasileira para o mundo. Neste ano em que comemoramos o centenário da Semana de Arte Moderna, podemos refletir um pouco sobre a importância desse movimento em nosso país, apreciando algumas obras. A identidade e a nacionalidade brasileira foram muito bem retratadas por vários artistas, como o quadro de Tarsila do Amaral acima, além das obras de Anita Malfatti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Graça Aranha, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti e outros. Destacaram a passagem da economia rural do café para a indústria, a realidade do êxodo, da seca, do morro, do samba, da miscigenação, enfim, de vários cenários sociais, culturais, religiosos e também questões políticas. A arte tem a preocupação de retratar, por meio de traços criativos, situações-problemas e demonstrar a resistência de um povo que trabalha. Segundo Cassiano Cordi, “A missão do artista é criar (o belo, o feio, o trágico…)”. Para alguns estudiosos da arte, há três problemas que fazem parte no campo de investigação da estética: a relação entre arte e a natureza, da arte com o homem e a função da arte. Para que serve a arte? Na relação entre arte e natureza, há três concepções: 1) da reprodução, da imitação que o ser humano vê a partir do objeto observado; 2) com o Romantismo, a arte parte da criatividade, originalidade do artista, a obra independe da natureza e passa a exprimir sentimentos do artista; 3) por último, a arte resulta das relações do artista com a natureza e de sua experiência com o estar no mundo, desvela a realidade e constrói um sentido novo para sua obra contemporânea (como exemplo, a obra que está acima). Novas formas artísticas surgiram, como o grafite, que também tem demonstrado a diversidade. Com a pandemia, a arte, mais do que nunca, passou a ser necessária para as famílias, as pessoas, mesmo sendo por meio da internet. Mas, infelizmente, nem todos os brasileiros têm acesso à arte por não terem acesso às mídias, geralmente restringem-se a programas de tevê. Essa situação contraria o artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que estabelece o direito de todos terem acesso à cultura. É dever do Estado proporcionar à população eventos culturais e promover momentos de entretenimento. Embora muitas verbas foram cortadas pelo governo, os artistas sobrevivem recriando a realidade, denunciando, pela arte, o mundo em que vivemos. Marilena Chauí diz sobre a arte: “A arte é revelação e manifestação da essência da realidade, amortecida e esquecida em nossa existência cotidiana, reduzida a conceitos nas ciências e na filosofia, transformada em instrumento na técnica e na economia”. Pesquise, aprecie, relembre a Semana da Arte Moderna que ocorreu em 1922. Conheça os artistas da época e descubra o quanto combatiam o preconceito, o racismo, a desigualdade. Valorize os artistas de rua, na internet, de circo, enfim, arte é resistência. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão da ALESC de Prevenção e combate à tortura, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

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