Abriu… Apenas abrir

Abril e a questão indígena precisam ser ressignificados.Necessário é abrir o debate de forma permanente.Por isso, nada de respostas velhas e absolutas.No Brasil, mais de 200 povos, mais de 200 línguas.Fica o convite para que cada um se abra para repensar.Ofereço provocações em conta-gotas, para refazer perguntas,Estereótipos…Povos indígenas…Diversidade…Riquezas étnicas…Espiritualidades…Demarcação…Violência…Colonização…Rituais…Genocídio…Etnocídio…Racismo histórico…Patrimônio cultural…Terra…Modos de vida…Povos originários…Invasão…Ancestralidade…Que sigamos abertas e atentas aos desafios atuais, sem nos fechar ao debate. Das palavras inspiradoras de lideranças e pensadores dessa questão, uma última provocAÇÃO: se não houver espaço para os povos indígenas, não caberá ninguém. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,9-31 No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz as quais Ele já havia prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto com a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele usou a palavra tradicional dos judeus para a paz: shalom. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras de direita e de esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pela partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana. Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e de pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas quem experimenta, na intimidade, a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele, “Eu venci o mundo” (João 16,33). Com frequência, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz com todas as letras, em Mateus 10,34: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência; pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima à não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente; por isso Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom, uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária: a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo: cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois necessariamente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade, para nós, cristãos, não pode nascer de uma simples análise de conjuntura nem de uma indignação ética, por tão necessários que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé: por ser coerente com o Deus em quem nós acreditamos, o Deus que vê a miséria de seu povo, vítima da violência, que ouve seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece seus sofrimentos e que desce para libertá-lo de todas as formas de violência que atentem contra a vida (Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso, devemos ouvir, de novo, a voz profética de Jesus que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino, estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer pessoa ou grupo, quando aplaudimos os maus-tratos contra quem quer que seja, quando interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à inveja

A mística pascal em nossas madrugadas

Vivemos a mais importante celebração do calendário litúrgico anual: a Páscoa do Senhor. Depois de dois anos sem as celebrações nas igrejas, devido à pandemia, tive a impressão de um povo mais “entusiasmado” (inclusive no sentido original dessa palavra) na Semana Santa. Já nestas primeiras linhas, saúdo os cientistas e os muitos outros profissionais envolvidos na vacinação contra a famigerada covid-19. Sem esse recurso bendito, como estaríamos agora? Uma percepção que tive, pelo menos nas comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde sirvo como diácono da Igreja, é a admiração de muitas pessoas, inclusive ministros e agentes de pastorais experientes, diante da liturgia destes dias. Descobri que muitos jamais haviam participado de um Tríduo Pascal completo. Para meu espanto, para dizer pouco, havia até idosos que nunca estiveram numa Vigília Pascal, a mais bela liturgia do ano, realizada na noite do sábado (para a Igreja, já o domingo). Assim, vem a meu coração o Evangelho proclamado na manhã do Domingo de Páscoa (João 20,1-9). Eu gostaria de sublinhar o primeiro versículo: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo”. A madrugada pode dizer bem mais que um período do dia. Dependendo do enfoque, ela pode ser ainda a noite, com suas sombras, medos, obstáculos; ou pode ser a antessala da claridade, a expectativa da luz que virá em breve e trará segurança e ânimo. No início do trecho, a madrugada para Maria Madalena é o cenário das trevas. Certamente ainda estão fortes em sua lembrança as imagens bem nítidas da violência cometida contra o Mestre. No interior da discípula, uma tempestade talvez de revolta contra os companheiros de caminhada que abandonaram Jesus numa hora difícil, decepção pela aparente queda do projeto de Cristo devido à injustiça das autoridades do Templo e de Roma, e de espanto ao testemunhar a dor de Maria, a Mãe do Senhor. Eis a assombrosa madrugada! Essas horas, contudo, também são o prenúncio do Sol. Se nosso olhar, nosso espírito está voltado para o nascente, a perspectiva é outra. Isso vale para nossa vida. Nos instantes de escuridão, nossa fé precisa nos levar a acreditar na vitória das luzes. É esse o espírito da Páscoa. Não uma vitória qualquer, mas aquela carregada de crescimento, aprendizado (às vezes, doloroso), libertação daquilo que nos diminui como seres humanos. Madalena, ao identificar o túmulo violado, ainda sob o pavor das trevas, pensa ter havido um roubo. Conforme chega o dia, a esperança começa a vencer ao horror. Por fim, a Apóstola dos Apóstolos tem a experiência do encontro com o Senhor, segundo outras narrativas, amedrontando quem ainda não passa por esse mistério (outros discípulos levam um susto ao ouvir o depoimento das mulheres). O tenebroso véu da pandemia nos deu e ainda nos força a muitas lições. Mas talvez tenhamos aprendido a rever muita coisa, tal como os idosos que se encantaram com a beleza da Vigília Pascal; até este ano, inédita para eles. Quiçá partiriam deste mundo sem a terem festejado. Que Deus nos permita, no próximo ano, termos mais segurança para podermos retomar todos os gestos litúrgicos possíveis e, claro, as doces tradições populares, por ora limitadas pelos cuidados sanitários. Mais pessoas se encantem com uma festa de uma semana de semanas! Páscoa não pode ser uma ideia bem emaranhada da teologia ou mote para consumo, mas experiência bem concreta. Muitos homens e mulheres entre nós permanecem encerrados nos mais diversos túmulos. Que a mão de Deus e nosso testemunho de fé na vida, na justiça e na paz reergam das sombras da morte nossa sociedade. Um santo e feliz Tempo de Páscoa! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Domingo da Páscoa da Ressurreição

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos, no entanto, são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo: para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar), que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somamos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio; e ela, naturalmente, pensa que o corpo havia sido roubado. Ressurreição, nem pensar! Em nosso texto, Pedro (com um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos Doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde o capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada num túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta nossa fé na ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos e discípulas amados, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos amantes? Será que amamos Jesus e o próximo? E lembramos que o ágape, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça? “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte nos anime e nos dê força, nestes dias da aparente (mas somente aparente!) vitória da arrogância e prepotência dos países hegemônicos, e especialmente quando a cruz pesar muito em nossas vidas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

“Educar para um novo humanismo”

A educação humanista assume um papel fundamental no processo de desenvolvimento da pessoa, sobretudo quando inspirada por um espírito evangelizador que gera o desejo de perceber o outro e a realidade, numa perspectiva transformadora. No contexto da educação católica, interpelam-nos as palavras do Papa Francisco, na encíclica Laudato si’, indicando-nos que “A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza”.1 Nesse intuito, o Papa convida os educadores e as educadoras do mundo inteiro para assumirem um pacto educativo global, com a intenção de despertar para a necessidade de educar para um novo humanismo. E o que vem a ser essa proposta? Educar para um novo humanismo é um convite a romper com as formas ineficazes e estéreis, sobretudo para os tempos atuais, e abraçar, portanto, uma “educação para um novo pensamento, capaz de unir diversidade e unidade, igualdade e liberdade, identidade e alteridade”. Trata-se de compreender e respeitar as diferenças, acolhê-las assim e “exercitar o pensamento que articula a unidade na diversidade e que considera a diferença como uma bênção para a própria identidade”.2 No cenário brasileiro, a Campanha da Fraternidade de 2022 traz um lema prenhe de significados: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (Provérbios 31,26). Essas expressões nos indicam qual a centralidade da missão de educar. À luz dessas palavras, a educação deve favorecer espaços onde a pessoa seja iniciada em processos, a fim de conquistar seu desenvolvimento cognitivo, emocional, espiritual e social, como protagonista de sua existência, educando-se em estilos de vida conscientes e responsáveis Numa prática educacional em que o novo humanismo é a centralidade, há um amplo exercício do diálogo, um trabalho contínuo para promover a cultura do encontro, um esforço em tecer redes de cooperação para fortalecer uma “revolução da ternura que salvará o nosso mundo que está muito ferido”. 1 PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si: sobre o cuidado com a casa comum. Brasília: Edições CNBB, 2015. (Documentos Pontifícios, 22). Disponível em https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html 2 PACTO EDUCATIVO GLOBAL. Instrumentum laboris. Disponível em https://www.educationglobalcompact.org/resources/Risorse/instrumentum-laboris-pt.pdf Ademais, diante das oportunidades apontadas com esta reflexão, motivam-nos algumas palavras imortalizadas em nossa literatura pelo educador e poeta Rubem Alves: “Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”.3 3 ALVES, Rubem. Por uma educação romântica. 8. ed. Campinas: Papirus, 2009. Professor Alisson BaraúnaCoordenador da Dimensão Missionária no Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP.

Domingo de Ramos

“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”Lucas 19,29-40 (Como seria impossível fazer jus ao Evangelho da Paixão em uma reflexão tão curta, refletiremos sobre o Evangelho da procissão.) Quase não há comunidade católica no Brasil que não comemore hoje, com muita alegria, a entrada de Jesus em Jerusalém. São organizadas procissões, o povo abana ramos, celebram-se encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns fazem questão de não perder a procissão hoje. Porém, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é importante estudar o que significava esse evento para Jesus e para o evangelista. Dificulta nosso entendimento da passagem nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre relembrar um trecho do profeta Zacarias (9,9-10): “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta… Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra”. Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como “os pobres de Javé”, que esperavam a chegada do Messias libertador. Nesse grupo, encontravam-se Maria, José e os discípulos de Jesus. Foi dentro dessa espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava as características do messias: seria um rei “justo e pobre”, não de guerra, mas de paz. Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e nosso), em que os poderosos e violentos oprimiam os pobres e pacíficos. Seria uma sociedade na qual, entre outros elementos, a economia estaria a serviço da vida. Um rei jamais entraria numa cidade montado em um jumento, o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco, de raça. Jesus, entrando assim, fez uma releitura de Zacarias e se identificou com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos. Por isso, muitas vezes, perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um governante de nossos tempos: com pompa, imponência e demonstração de poder e força. Na verdade, houve uma procissão assim em Jerusalém, no mesmo dia da entrada de Jesus: a entrada do procurador romano Pôncio Pilatos, com toda a pompa, chegando de Cesareia Marítima, com uns cinco mil soldados, para ostentar o poder repressor do Império. À tarde, pela porta oriental, Jesus fez o contrário. Entrou como o Servo de Javé, na simplicidade que é própria de Deus e de seus enviados. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus”, e realmente o foi, mas como triunfo do Deus que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor. Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo (ou especialmente) quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. O poder e a pompa seduzem. Devemos ficar eternamente gratos ao Papa Bento XVI pelo desapego que ele demonstrou em renunciar, pelo bem da Igreja. Uma atitude digna de um verdadeiro discípulo do Mestre do Domingo de Ramos. O texto convida todos nós a revermos nossas atitudes. Seguimos Jesus, mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos outro Jesus: poderoso nos moldes de nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? Aquela semana foi o ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus, de suas opções concretas em favor dos oprimidos, de seu desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das consequências políticas e econômicas de sua proposta de uma sociedade justa e igualitária, manifestação concreta da chegada do Reino de Deus. Tudo isso levou os poderosos, romanos e judeus, a tramarem sua morte. É importante lembrar que a paixão e morte de Jesus foram consequência de sua vida. É impossível entender o que significa a Semana Santa sem a ligar com o resto da vida de Jesus e com sua proposta para a sociedade e para seus seguidores. Jesus não morreu, mas foi morto porque incomodava, como continua a incomodar, ainda hoje, os que mantêm o sistema opressor, que é a expressão do antirreino, mesmo quando disfarçado com discurso religioso, como se fazia no Templo. Adverte-nos um canto usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o Salvador”. Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou apenas fazemos um folclore no Dia de Ramos, bonito, mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

É caminhando que se faz o caminho

Lideranças e gestores dos colégios, acompanhados da assessoria da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS), estiveram reunidos entre os dias 10 e 12 de março, no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. O encontro teve como lema “É caminhando que se faz o caminho”. O objetivo foi construir e fortalecer os caminhos para o desenvolvimento de lideranças, analisar e planejar a comunicação, a dimensão missionária, a sustentabilidade financeira e tratar sobre temas educacionais. Os momentos de oração no início do dia promoveram o desenvolvimento da espiritualidade, com técnicas de bibliodrama, música, dança e interação entre os participantes. A psicóloga Aline participou virtualmente. Ela enfatizou a importância de cada líder fazer seu ideário para que desenvolva o autoconhecimento e aprimore sua atuação nos colégios. A equipe da Árvore de Comunicação apresentou uma retrospectiva da caminhada da comunicação e traçou novas diretrizes para os colégios, considerando as novas demandas no cenário educacional. Um momento muito especial foi a apresentação, pelas irmãs Maria Percila e Fátima Marques, do Capítulo-Geral das da Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. O documento, elaborado em Roma por irmãs do mundo todo, apresenta as diretrizes para os próximos anos e ressalta a importância do leigo missionário junto ao trabalho das religiosas. O grupo, mediado pelo assessor da Dimensão Missionária, Agostinho Travençolo Junior, também refletiu sobre o papel da escola católica na educação e sobre o diferencial de nosso Projeto Político-Pedagógico, que também é missionário (PPPM). Cada colégio apresentou seu panorama financeiro e as metas do número de alunos. Com esses dados, fizeram uma análise crítica sobre os desafios da sustentabilidade financeira para 2022. Quanto às temáticas pedagógicas, o grupo discutiu e elaborou um cronograma de formação para os educadores neste ano. Também refletiu sobre os rumos do novo ensino médio. No sábado, na conclusão do encontro, cada participante avaliou as ações necessárias para continuar a caminhada, renovados e inspirados por tantas reflexões e partilhas num grupo que está construindo novos caminhos para a Rede de Educação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Pricila SperaGestora Administrativa do Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP.

5º Domingo da Quaresma

“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”João 8,1-11 Essa história parece muito mais semelhante aos temas do Evangelho de Lucas do que do Evangelho do Discípulo Amado. De fato, ela não aparece nos manuscritos mais antigos de Lucas e somente surge, pela primeira vez, em versões do século terceiro. Por isso, a maioria dos estudiosos acha que, originalmente, essa história circulava nas comunidades como uma tradição independente. O copista que a inseriu talvez fizesse por achar que ilustrasse duas frases do Quarto Evangelho: “Eu julgo a ninguém” (João 8,15) e “Quem de vocês pode me acusar de pecado?” (João 8,46). O tema do perdão de uma mulher pecadora é tipicamente lucano. Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho de Lucas, durante as controvérsias da Semana Santa, o que parece ser um contexto mais adequado. O problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele do imposto em Lucas (21,27-38). A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma mulher casada, pega em adultério (Deuteronômio 22,23-24). Mas, segundo João (18,31), os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar alguém à morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos romanos; se ele negasse essa pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. Era uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César ou a questão sobre o divórcio em Mateus (19,3-9). Que os seus interlocutores não se interessassem pela Lei se manifestou pelo fato de apenas acusarem a mulher e não seu parceiro. Uma atitude machista tão comum ainda em nossa sociedade. Não se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns autores veem uma referência a uma frase em Jeremias: “Aqueles que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” (Jeremias 17,13). Assim, seria uma indicação de que os verdadeiros culpados eram aqueles que se davam o direito de condenar a mulher. Perguntando à mulher se seus acusadores não a haviam condenado, Jesus deixa claro que ele não se identificava com eles. Ele não veio para condenar, mas para salvar. Por isso, a mulher estava livre para ir, mas não para pecar de novo. O texto ilustra, mais uma vez, o recado central que vimos no Evangelho do último domingo: Deus é um Deus de misericórdia e não de condenação. Ele condena o pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15,1-2, também no texto de hoje, as pessoas que mais deveriam se dedicar em manifestar o rosto misericordioso do Pai se preocupavam mais em condenar, com base em um legalismo que desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valorizava a Lei (pede que a mulher não continue a pecar), mas teve compaixão diante da fraqueza humana. Aliás, é notável que, nos Evangelhos, Jesus nunca era duro ou rígido com as pessoas que manifestavam, em suas vidas, sinais da fraqueza humana, mas era contundente com os que não tinham compaixão nem misericórdia, e que, por seu legalismo e autossuficiência, escondiam o verdadeiro rosto de Deus. Quantas vezes, nas Igrejas (até hoje), manifesta-se muito mais a dureza de uma mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é “rico em misericórdia”? Neste tempo quaresmal, preocupemo-nos em sermos manifestação do Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo, a exemplo de Jesus, que soube distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem eu te condeno, vá e não peques mais!” (vers. 11). Lembremo-nos das palavras sábias e profundas do Documento de Aparecida, em seu número 147: “O discípulo-missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores”. Jesus nos dá o exemplo no texto de hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Florescer em tempos de incerteza

A imagem das flores nascendo em meio ao asfalto é uma perfeita analogia para nossa missão nestes tempos de incertezas que estamos vivendo. Diante dos desafios contemporâneos, nós, missionárias servas do Espírito Santo, somos chamadas a planejar com a ótica do Reino de Deus, a viver com sentido cada momento do dia, a ter os pés na realidade onde estamos e a não nos perder nas inseguranças. Como afirmava Santo Arnaldo Janssen, “Quando a obra é de Deus, Ele cuidará”. Como florescer no tempo de incerteza? Essa é uma pergunta fundamental e, se respondida com sinceridade, é capaz de nos mover, dissipando qualquer forma de inércia diante das dificuldades. Vejam a realidade de nossa Província Stella Matutina – Brasil Norte. A média de idade das irmãs é de 79 anos. No entanto, o coração e o espírito missionário continuam nos impulsionando para a missão. Assim, mesmo com a pandemia e todas as situações de vulnerabilidade e fragilidade próprias dos seres humanos, iniciamos três comunidades em lugares onde a vida está gritando pela presença de esperança, compaixão e transformação. Ouvimos o grito na grande periferia de São Paulo, que nos chamava para estar com as famílias e crianças em área de risco. Por isso, abrimos uma comunidade com três irmãs no Parque São Rafael, Zona Leste da capital. Nessa localidade, florescer significou conhecer paulatinamente os vizinhos e estar com as crianças no Centro Educacional Madre Theresia, dedicando-nos ao cuidado delas e, ao mesmo tempo, tomando todos os cuidados que a pandemia exige. Ir para lá, num primeiro momento, foi um lançar-nos na incerteza, mas agora estamos vendo a vida florescer em tantas situações que fazem parte da vida das irmãs e das famílias de lá. Outro grito forte veio do Norte do Brasil. Vimos a necessidade de formar uma comunidade para continuar nossa presença junto aos indígenas do Povo Xerente, em Tocantínia-TO, na perspectiva de sermos sinal de esperança e de compaixão. Nossa proposta é, de acordo com as possibilidades, acompanhar as aldeias e oferecer um local onde os indígenas possam sentir segurança e confiança. Também lá, o início da nova comunidade ocorreu durante a pandemia. Perguntávamos a nós mesmas: de onde vem essa força? E não hesitamos na resposta: vem da paixão pelo Reino de Deus e do desejo de estar justamente com aqueles que precisam de nossa presença de compaixão. Somos chamadas a cuidar daqueles que estão sendo encurvados pela dor do sofrimento. Somos impelidas a buscar caminhos para ajudá-los a se levantar e encontrar a alegria de caminhar com dignidade. Outro desafio a que buscamos responder foi florescer no Alto do Taquaril, na periferia de Belo Horizonte-MG, acreditando que “o Senhor é nosso pastor, e nada nos faltará” (Salmo 22). Foi esse o chamado que experimentamos ao iniciar a terceira comunidade em meio a pandemia. O bairro Alto do Taquaril clama por mais comunhão, solidariedade, acolhida das famílias, escuta daqueles que se sentem perdidos, dos que não acreditam mais na vida e buscam, nas drogas, a solução para seus problemas. Como ser presença nesse local? Mesmo diante das adversidades para ir ao encontro das pessoas, as irmãs foram buscando caminhos e alternativas para estar junto com elas, comunicando, por sua simples presença, que acreditam nelas e que querem estar entre elas. Concluindo esta breve partilha das três experiências vividas por nossas irmãs e que pude acompanhar de perto, posso dizer, com convicção, que a tarefa de florescer em tempo de incerteza não é a mais confortável, mas, sem dúvida, é a mais gratificante. Com amor, nós, irmãs, empreendemos nossos esforços para lançar as sementes e, como Santo Arnaldo, nosso fundador, estamos confiantes de que Deus mesmo cuidará para que elas frutifiquem. Irmã Maria Percila Vieira é a atual coordenadora provincial das missionárias servas do Espírito Santo na Província Brasil Norte e presidente da Escola para Formadores Jesus Mestre. É Pedagoga, Psicopedagoga e formada pelo Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália.

4º Domingo da Quaresma

“Teu irmão estava morto e tornou a viver”Lucas 15,1-3.11-32 O Evangelho de Lucas prima por sua ênfase na misericórdia de Deus. Se fosse para classificar em uma só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos, sem hesitação, assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo salienta essa convicção tanto como o 15. A parábola aqui relatada está entre as mais conhecidas da Bíblia, geralmente chamada de “O Filho Pródigo”. Devemos ter um pouco de cuidado com esse título, pois já sugere que a figura central da parábola é o Filho Pródigo, o que não necessariamente é a interpretação mais adequada. Para sermos fiéis ao Evangelho, precisamos interpretá-lo dentro de seu esquema teológico e literário. Para isso, temos de dar muita atenção aos primeiros três versículos. Pois nos dão o motivo pelo qual Jesus contou as três parábolas do capítulo, uma chave valiosa de interpretação. São como um gancho sobre o qual se pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para escutá-lo. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: ‘Esse homem acolhe pecadores e come com eles!’” (versículos 1 e 2). Depois vem a chave de interpretação: “Então Jesus contou-lhes esta parábola” (vers. 3). Ou seja, Jesus contou as parábolas deste capítulo porque os chefes religiosos o criticavam por associar-se com gente de má fama. Então a chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus. O problema de fundo não é só a prática de Jesus, mas a experiência de Deus. Para os oponentes de Jesus, Ele não pode ser de Deus, agindo assim, pois Deus não acolhe pecadores. Para Jesus, Deus é exatamente o oposto: Ele é compaixão e misericórdia, e, por isso, corre atrás dos pecadores. Quantas vezes, falando de Deus, nós cristãos demonstramos um Deus como o dos escribas e não o Deus de Jesus. Assim também a parábola nos interpela hoje. Podemos ler esse texto a partir do filho perdido ou do pai, ou do irmão mais velho. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo” (pródigo significa “esbanjador”). Assim, ressaltaria o processo de conversão: sentir a situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceito pelo pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto como tal, mas, diante dos primeiros dois versículos do capítulo, talvez não a interpretação primária que Lucas quisesse dar. Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus, que, em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” de sua vida; depois não espera a volta do “pródigo”, mas corre a seu encontro, numa atitude não “digna” de um fidalgo oriental idoso, pois o pai está preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e se alegra com a volta de quem estava morto. Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável. O contexto do capítulo, contudo, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente: a partir do irmão mais velho. Pois Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam, porque ele acolhe os pecadores. Então, o filho mais velho é a imagem dos fariseus: “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas cujo coração está fechado, ao ponto de ser incapaz de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a atitude deles contradiz claramente a de Deus, demonstrada pela ação do pai misericordioso. Essa diferença de gesto se resume claramente nos termos que ambos usam, referindo-se ao filho mais moço. Enquanto o filho mais velho o chama de “este teu filho” (vers. 30), o pai fala “este teu irmão” (vers. 32). Aqui Jesus quer questionar todos nós que somos “praticantes”. Somos capazes de reconhecer nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão mais velho: “gente boa”, gente de “observância”, mas gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrar-nos com a volta ao estado original, de um irmão ou uma irmã perdidos? Podemos até dizer que este capítulo de Lucas é o coração do Evangelho. Pois Deus, o Deus de Jesus e o de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estava perdido. É o Deus da misericórdia e do perdão. Como traduzimos essa visão de Deus em nossas vidas? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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