A Fazenda da Esperança e a espiritualidade

A Fazenda da Esperança é uma comunidade terapêutica presente na Ásia, África, América e Europa. Desde 1983, a entidade apoia a recuperação de pessoas que buscam a libertação de seus vícios, principalmente do álcool e da droga. Fundada pelo Frei Hans Stapel, OFM, seu método de acolhimento contempla três aspectos determinantes: o “trabalho” como processo pedagógico, a “convivência” em família e a “espiritualidade” para encontrar o sentido da vida. Em diálogo com dois jovens que fizeram a experiência da Fazenda da Esperança, apresentamos seus depoimentos que deixam clara a importância da espiritualidade na transformação e no processo de reconstrução. Veja a seguir. André Luiz: colocar em prática os propósitos “Meu nome é André Luiz e tenho 36 anos. Sofri com problemas de álcool e drogas por dez anos da minha vida, quando cheguei ao fundo do poço. Foi minha família que me apresentou a Fazenda da Esperança. Confesso que fui para o tratamento sem acreditar em minha recuperação; mesmo assim, eu fui. Chegando lá, comecei a entender os propósitos e decidi colocar em prática. Logo vi, junto com meus familiares, a mudança acontecendo. Na Fazenda da Esperança, vivemos o tripé que consiste em trabalho, espiritualidade e convivência, os três em equilíbrio. Para viver nossa espiritualidade, temos missa diariamente, rezamos o terço logo pela manhã, adoração ao Santíssimo todos os sábados e somos convidados a viver uma frase tirada da Bíblia todos os dias, para colocá-la em prática, como este exemplo sobre a compaixão: ‘Jesus encheu-se de compaixão’ (Mc 1,40-45) Ter compaixão é, de certo modo, participar do sofrimento de alguém. É difícil entender, mas, de algum modo, Deus participa dos nossos sofrimentos. E Ele pode, através dos nossos atos de amor, tocar cada pessoa que precisa da sua presença. Ter compaixão de quem sofre não é ‘ter pena’, mas ‘fazer-se um’ com o outro, sendo uma presença concreta, e fazendo o que estiver ao nosso alcance para aliviar o sofrimento de quem precisa. Muitas vezes, basta estar ao lado. Fazer-se um. Uma vez por semana, realizamos o ‘FFF’ (Frase, Fato e Fruto), quando partilhamos com os demais o que vivemos da Palavra de Deus em nossa semana. Também semanalmente, realizamos uma terapia em grupo chamada ‘comunhão de almas’. Uma vela que representa o Espírito Santo é acesa em nosso meio, e então partilhamos, de forma livre, o que a gente quer falar, sem que ninguém interfira. Assim que a atividade acaba, a vela é apagada, e tudo o que foi dito não sai daquela sala. Por esse motivo, ficamos à vontade para falar o que a gente quiser. A catequese é oferecida para os que querem, desde o batismo, para os que desejam e ainda não receberam o sacramento. Em todas as fazendas, temos a presença de freiras que nos ajudam muito com um olhar de mãe. Na fazenda, tudo é proposto, nada obrigado. Mesmo para entrar, é necessário escrever uma carta de próprio punho, pedindo ajuda e deixando claro o desejo de estar lá. O carisma do espaço vem do movimento dos focolares e, quando a gente termina nosso ano de recuperação, a gente pode se tornar um voluntário em obras do Brasil e em outros países. Concluí minha recuperação há três anos e venho colocando em prática tudo o que aprendi, e me considero limpo.” Márcio: transmitir alegria “Meu nome é Márcio e tenho 48 anos. Meu problema com as drogas começou aos 13 anos, quando comecei a beber e fumar cigarro e maconha. Com o passar dos anos, fui me envolvendo mais e mais com os vícios, e experimentando outras drogas até chegar ao crack, do qual fiquei em uso contínuo por aproximadamente 20 anos. O ápice da drogadição se deu com a morte da minha mãe, e percebi que também eu estava morrendo, mas não tinha forças para mudar de vida sozinho. Minhas irmãs me apresentaram a Fazenda da Esperança, e senti que aquela era a luz no fim do túnel. De pronto, aceitei fazer o tratamento. Foi uma grande aventura esse ano de recuperação. Eu descobri que o problema não eram as drogas e sim o que me levava a ir buscar refúgio e fuga nelas. Aprendi a me conhecer, a não ser egoísta, achar que o mundo girava em torno de mim, aceitar os ‘nãos’ da vida e saber lidar com todas as dificuldades que o dia a dia nos coloca. Por muitas vezes, eu me refugiei nas drogas por não ter coragem para encará-los de frente. Hoje estou como padrinho na Fazenda Mãe Admirável, em Braga-RS, e me sinto muito feliz por estar bem e poder me doar para outros irmãos que, assim como eu, hoje precisam dessa direção. Hoje, com a vivência do Evangelho de forma concreta, consigo manter minha sobriedade. Todos os dias, tento transmitir essa alegria para os acolhidos, para que eles também possam viver essa alegria que só existe quando estamos no amor de Cristo.” Para conhecer mais sobre a Fazenda da Esperança, acesse www.portalfazenda.org

7º Domingo do Tempo Comum

“Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”Lucas 6,27-38 O Evangelho na liturgia deste 7º Domingo do Tempo Comum nos traz a proposta de Jesus para uma verdadeira revolução. Mais do que ensinar, o Senhor nos convoca a quebrar as espirais do mal e reforça: o ódio definitivamente não é sua proposta, e sim o amor e o perdão. É importante recordar: a passagem se dá no contexto do famoso sermão das bem-aventuranças, proclamado no domingo anterior, o mais sublime manual de santidade. Os ensinamentos destacados na passagem de hoje foram guardados com muito carinho pelos primeiros cristãos, vítimas principais da intolerância religiosa e política de seu tempo. Se eles tivessem agido na mesma medida de seus perseguidores, provavelmente a proposta de Jesus não teria tido a mesma força. Os cristãos seriam apenas mais um grupelho, pois dariam um contratestemunho e estariam desacreditados ao dizerem “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,8b). Vale como nunca, porém, o chamado ao perdão e ao amor, sobretudo hoje, no cenário de polarização, julgamentos rasteiros e gratuitos, muros e intolerância em que nossa sociedade vive. O amor e o perdão sem exigir contrapartida devem ser iniciativa dos discípulos do Senhor. Os seguidores de Cristo são aqueles, aquelas que precisam interromper em si correntes de ódio, quebrar os círculos de maldade. Não se deve esperar isso de senhores da guerra, de idólatras cultuadores da morte, do dinheiro, do ódio, da injustiça, e até daqueles cuja fé é cambaleante ou egoísta. Quem caminha com o Senhor deve se preparar para a grande chance de o perdão e outros gestos de amor não serem caminhos de mão dupla. O afeto do próprio Deus em relação a seus filhos e filhas é assim. É concedido a nós gratuitamente, pois temos poucas condições de retribuir, mesmo numa proporção aproximada, o amor do Pai por nós. Ainda assim, Jesus nos aponta o Pai do Céu como modelo, pois espera que tenhamos o mesmo espírito uns para com os outros. A sentença do Mestre, “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6,36), presente na passagem contemplada neste domingo, é considerada uma espécie de resumo do Evangelho de Lucas. Jamais essa expressão deveria ser pronunciada distraidamente pelos batizados e batizadas. Colocá-la em prática nos exige coragem e, ao mesmo tempo, ela nos conforta. Jesus nos revela um Deus companheiro (ou seja, partilha conosco do mesmo pão) do ser humano e que não se deixa deter por regras de morte e preconceitos, mas acalenta seus filhos e filhas; e pede de nós o mesmo em favor do próximo. Orar pelos inimigos e até poupá-los quando a vingança é oportuna (veja a primeira leitura deste domingo) são gestos dificílimos, mas podem ser portais para a perfeição cristã. Grande parte dos especialistas de vários campos da psique afirmam que atitudes nobres como o perdão, a gratidão e a solidariedade beneficiam primeiramente quem os pratica. Talvez não se espere um perdão amnésico, mas feito na concretude de nossos limites, até não se abrindo mão da legítima justiça. Já faz algumas décadas, somos bombardeados por programas policiais pseudojornalísticos, cuja especialidade é difundir o ódio. Não apresentam propostas sérias de diminuição da violência, ignoram as reais causas do mal, tentam vincular os pobres com a delinquência, virando as costas para os grandes malfeitores. Nisso, somos levados a participar de julgamentos precipitados, feitos sob as rédeas de nossos instintos e não na serenidade. Numa sociedade livre, esses arautos do sangue têm o direito de mostrar o que querem, mas isso não significa que tenhamos a obrigação de dar audiência ou perder nosso tempo com esse tipo de conteúdo. Passou da hora de colocar o ódio para fora de nossas casas, de nossa sociedade, questionar a respeito de quem ganha com o medo e a ira. É dever dos cristãos fomentar boas ideias de paz (a justiça restaurativa, por exemplo, cultivada pelas irmãs servas do Espírito Santo), praticar ações de socorro a sofredores de todas as classes, instaurar um mundo que seja sinal do reinado de Deus. Que o mundo volte a admirar-se ao reconhecer os discípulos e discípulas de Cristo que evangelizam pelo exemplo. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Movidos a álcool

Eram 6h15min da manhã, e eu já estava correndo para pegar o ônibus. Estava indo, pela primeira vez, a um município vizinho, resolver assuntos de família. Custou a passar, mas o ônibus chegou… Logo reparei uma pessoa dormindo, ocupando duas cadeiras e com marcas de vômito no rosto. Logo atrás de mim, um jovem começou a falar alto: “Joaquim, você não sabe beber! Toda segunda-feira, é isso… Vou lhe ensinar!”. Dito isso, seu colega já retrucou: “Bebendo do jeito que você anda bebendo, não sei o que você vai poder ensinar para ele!”. A viagem era um pouco longa e, conforme mais passageiros subiam, um comentário a mais surgia a respeito da cena que me estranhara. Dessa vez, foi uma senhora de mais idade, que pegou seu terço e pôs-se a rezar. Até que tentou um contato, mas foi em vão. O tal do sr. Joaquim seguia “apagado”. Ele parecia popular por ali. Cada um que chegava tinha algo a lhe falar. Fechei meu livro e segui escutando discretamente o que cada um dizia, visto que o ônibus, àquela hora do dia, era vazio e quase silencioso. A resenha do que eu ouvi é mais ou menos esta: Parecia que o pai, o Joaquinzão, também era dado ao excesso de álcool. Já seu filho mais velho não bebia. Trabalhava no Posto de Saúde, indo de casa em casa e, com sua vivência, ajudando muita gente. Ele sabia que o pai estava doente, precisando se tratar da dependência. A esposa de Joaquim estava, havia seis meses, morando com irmãs na roça. Parecia que, de tanto enfrentar aquela realidade, ela fora descansar de tanta exaustão. Diziam que iria separar-se dele. Levara com ela uma filha de 6 anos. Disseram que aquela situação do sr. Joaquim com o álcool foi acontecendo aos poucos e, quando perceberam, ele já não parava mais de beber. Era beber para acordar, para trabalhar, para dormir, para tudo… O sr. Joaquim já tinha sido muito preocupado com a vida, família, com a comunidade, atuando na associação. Parece que o álcool era um amortecedor, um relaxante para ele aguentar tanta pressão. Um senhor da mesma idade e de uma aparência semelhante disse, em tom de tristeza, que não sabia o que era pior, se era ele dormindo daquele jeito ou criando confusões, quando bebia, perto de casa. Olhando um pouco de longe, já dava para ver sua pele, na altura do olho direito, “roxeando” e ficando inchada. De tudo que escutei, uma frase me chamou muita atenção. Existem frases lidas, escutadas, memorizadas que são mais que palavras, são bússolas, são faróis: “Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma” (1 Coríntios 6,12). Nem sei se eu alcanço a profundidade, a complexidade e a autonomia que essa citação bíblica nos implica. Fato é que a vida é tomada de decisões, até mesmo quando a gente opta por não decidir. O que me convém? O que lhe convém? O que seria conveniente ao sr. Joaquim? O que está por trás da cena que eu via no ônibus que seguia viagem? Qual a intensidade da condição do uso do álcool do sr. Joaquim para saber o que fazer? Como sobreviver a tantos apelos de consumo de álcool em tantas lives sertanejas e em tantos realities? Cada um de nós tem sempre um “sr. Joaquim” por perto e sabe da tensão permanente que é lidar com tramas, dramas e teias de esperança que cercam essa situação. Estava chegando meu destino. Eu sabia que, no ponto seguinte, que era o final, seria o destino do sr. Joaquim. Desci, mas fiquei acompanhando, de longe, a cena final. E lá foi ele. Desceu cambaleando e foi recebido aos pulos e latidos por um grande cachorro, que fez “festa” por sua chegada e acompanhou o sr. Joaquim no trajeto, fazendo rodeios e pulando de alegria… Segui olhando até os dois sumirem de meu campo de visão. A partir dali, não enxergava mais nada. Aliás, temo que eu já não estava enxergando muito bem desde que vira o sr. Joaquim pela primeira vez. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Amor e missão

Eis um pouco da missão das missionárias servas do Espírito Santo na Comunidade Cohab Adventista, na região do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo-SP. Quando escutamos a palavra “amor”, nosso pensamento se dirige a Deus, que é amor. Em Jesus, esse amor se revela como uma plenitude do que somos chamadas a ser, filhas de Deus. Do nascimento até a morte e ressurreição, em Jesus, divindade encarnada, o humano transborda amor. Um amor que rasgou a escuridão de nossas trevas, de toda violência, indiferença, exclusão, discriminação, ambição e, com sua vida, anunciou a paz, a alegria, o perdão, a justiça, a inclusão a partir dos mais vulneráveis. Em Jesus, fundem-se terra e céu, o amor é manifestado assim na terra como no céu. Nós, irmãs servas do Espírito Santo, dizemo-nos discípulas, anunciadoras, testemunhas desse amor. E ao nos reconhecer como discípulas, também nos reconhecemos nesse caminho de aprendizado como as mulheres que seguiram Jesus durante sua vida pública. Mais do que nunca, estamos entendendo que anunciamos o que somos com nossa vida e testemunho. Reconhecemo-nos atravessadas por contradições, limitações e pecados em nossa missão. Como discípulas, a cada dia, aprendemos tantas lições, sempre em busca dessa luz que vamos descobrindo em nós, enquanto desvendamos nossas trevas, nossa ignorância, nossas cegueiras e caminhamos em busca da luz que nos conduz ao amor. Partilhamos nossa vida em missão com comunidades, grupos de reflexão, religiosas, movimentos sociais, vizinhos, doentes, pessoas, grupos e instituições. Em meio ao povo das comunidades, onde partilhamos a Palavra, celebramos um de nossos encontros com o amor. É um chamado que desperta “meu ouvido como discípula” para descobrir e saborear a Palavra revelada em Jesus. A comunidade se torna para nós dom e sacramento, onde essa Palavra anunciada ressoa e é celebrada, tornando-se luz e alimento no caminho. No projeto “Saúde ao Alcance da Mão”, que vem sendo desenvolvido no movimento de moradia “Povo em Ação”, marcamos presença na esperança de servir ao povo com aprendizados de saúde integrativa. Para isso, procuramos melhorar as condições para um atendimento com mais qualidade e dignidade. Nestes dias, mergulhar na Palavra, levou-nos a mergulhar numa situação de acúmulo de entulho num espaço verde da Prefeitura. Fomos confrontadas por situações de vulnerabilidade que pediam profundo silêncio, acreditar nas pessoas e na possibilidade de melhorar esse espaço físico relacionado com o espaço onde se desenvolve o projeto. Nesse processo, pudemos viver a tensão de esperançar, fazendo o caminho na certeza de que o amor está presente para além das dificuldades. Que, além do entulho sufocante, encontraríamos um espaço vital para cuidar da saúde de quem ali se achegar. Ainda em processo, cultivando o amor–paciência, já podemos começar a vislumbrar a bênção desse processo e preparar-nos para celebrar a presença do amor que cura e fortalece. A cada manhã, cada momento, encontramos sombras que escondem o segredo da luz. É essa luz que nos seduz e anima na busca e caminhada com a “Rede Nacional Espere Brasil” e com o “Centro de Direitos Humanos e Educação Popular”, com os quais partilhamos processos em busca de uma cultura de paz. Um novo ano, novas oficinas sobre esses temas são uma maneira de cultivar o dom do perdão, servir a esse dom que liberta e abre para que a vida encontre espaço nos corações, nas relações, nas comunidades e instituições. Pede de nós esperançar e confessar cada dia a fé no amor que só espera que a escuridão seja reconhecida para dar espaço à luz do perdão, da gratuidade do dom, perdão. E sentindo-nos perdoadas, acolhidas, abraçadas, de roupa nova, vestes de festa, podemos celebrar os encontros em meio aos conflitos que podem se transformar em energia criativa e transformadora. E, como diz nosso querido e saudoso poeta Thiago de Mello, “Faz escuro, mas eu canto,porque a manhã vai chegar.Vem ver comigo, companheiro,a cor do mundo mudar.Vale a pena não dormir para esperara cor do mundo mudar.Já é madrugada,vem o sol, quero alegria,que é para esquecer o que eu sofria.Quem sofre fica acordadodefendendo o coração.Vamos juntos, multidão,trabalhar pela alegria,amanhã é um novo dia.” Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS

6º Domingo do Tempo

“O Reino de Deus lhes pertence”Lucas 6,17.20-26 As pessoas que buscavam Jesus eram o retrato de um povo que sofria as consequências de uma sociedade injusta (pobre, abandonado, sem saúde). Mas, além de buscar a cura, Lucas salienta que eles foram “ouvir Jesus”. Foram porque a mensagem dele falava a seus corações, animava-os, dava-lhes coragem, fazia com que eles se sentissem valorizados e experimentassem, de perto, a presença do Deus que ama os pobres. Acostumados com o desprezo, o abandono, o legalismo religioso, achavam em Jesus um aconchego, uma aceitação, a dignidade, o ânimo. Hoje será que se acham esses elementos em nossas celebrações e pregações? Jesus olhou para seus discípulos e falou: “Felizes de vocês, pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence. Felizes de vocês que agora têm fome, porque serão saciados. Felizes de vocês que agora choram, porque hão de rir. Felizes de vocês se os homens os odeiam, se os expulsam, os insultam e amaldiçoam o nome de vocês por causa do Filho do homem. Alegrem-se nesse dia, pulem de alegria, pois será grande a recompensa de vocês no céu, porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas” (Lucas 6,20-23). Enfatizando o termo “vocês”, Lucas salienta que as qualidades dos que são considerados “bem-aventurados” devem existir nos discípulos, nas discípulas. Diante de um grupo de pobres, famintos, tristes, sem-terra, sem-teto, teríamos coragem, a partir de nosso bem-estar, de pronunciar estas palavras: “Felizes de vocês, os pobres, os famintos, os aflitos, os odiados”? Não seria uma ofensa aos sofredores? Sim, seria, a não ser que proclamadas por alguém que, como Jesus, estivesse realmente empenhado na luta por um mundo mais justo, onde os injustiçados fossem libertados das correntes de opressão. Seria ofensiva, a não ser que pronunciadas por alguém que realmente sentisse compaixão diante de seu sofrimento (e não somente “pena”). Jesus podia pronunciar essas palavras, pois tinha assumido a condição de um pobre, estava solidário com eles e se dedicava a eles. Devolvia-lhes seu valor e sua dignidade e revelava-lhes o verdadeiro rosto do Deus da libertação, ofuscado pela religião legalista oficial do tempo. Ele não romantizava a pobreza: os pobres não são felizes por serem pobres (a miséria, a falta do necessário para uma vida digna nunca é coisa boa), mas porque o Reino de Deus é deles. O verbo aqui está no tempo presente (nas outras bem-aventuranças, está no futuro). O Reino já é deles, pois sua única esperança, em sua pobreza, em sua impotência, é Deus e, diante de seu sofrimento, Ele opta por eles. Mas, a palavra de Jesus não é somente para confortar os aflitos; é também para afligir os confortáveis. Ai de nós, os discípulos, se nós somos acomodados, fechados no egoísmo e na fartura, elogiados e aceitos por uma sociedade injusta, porque não a questionamos nem a incomodamos: “Mas ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês que agora riem, porque vão ficar aflitos e vão chorar! Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas.” (Lucas 6,24-26). Não é negativo ter o suficiente, ter alegria, mas se torna pecado quando nos fechamos em nosso mundo de autossuficiência e ficamos insensíveis diante do sofrimento alheio. Nas bem-aventuranças, Lucas é mais contundente que Mateus. Não dá trégua; quer que fique claro que o seguimento de Jesus exige opção pelos pobres e marginalizados, independentemente de sua condição moral, religiosa ou legal, e também desligamento da sociedade materialista e consumista, que procura esconder a realidade da opressão e exclusão, anestesiando a consciência. Ai de nós, os discípulos, se isso acontecer! Teria eu coragem para proclamar esse trecho diante de pobres e diante de ricos? Como diz a Bíblia Pastoral: “Não é possível abençoar o pobre sem libertá-lo da pobreza. Não é possível libertar o pobre da pobreza sem denunciar o rico para libertá-lo da riqueza”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Filhote de canguru

Os cangurus, quando nascem, vão diretamente para o marsúpio (bolsa na barriga da mãe). Eles nascem imaturos e precisam dessa proteção para se desenvolver. Ali, eles mamam e são protegidos. Ficam escondidos até mais ou menos dois meses, então começam a aparecer com a cabecinha para fora, saltitam buscando alimento na relva, próximo da mãe. Em torno de um ano, deixam definitivamente a bolsa materna, começando a ter vida independente e, aos poucos, tornam-se adultos, convivem com os outros cangurus, assumindo os papéis próprios dos cangurus adultos. São inofensivos. Somente atacam quando se sentem ameaçados. Em alguns aspectos, nós, humanos, somos parecidos aos cangurus. Também nós, quando nascemos, precisamos dos cuidados maternos, leite, proteção, afeto. Normalmente, a criança se alimenta com o leite da mãe durante seis meses e aí começa a receber alimento mais sólido até não necessitar mais do peito materno. Deixa de mamar, mas continua precisando de proteção e afeto até ficar adulta. Conforme cresce, vai adquirindo mais autonomia. Passada a adolescência, assume papéis e responsabilidades, e convive nos grupos sociais, interagindo como uma pessoa adulta. Esse deveria ser o processo normal e é o esperado pelos demais. No dia a dia, contudo, há muitas pessoas adultas em idade, mas que se comportam e continuam como cangurus bebês. Não conseguem viver independentes do “colo” materno. Buscam pessoas que lhe façam às vezes de mãe, babá permanente. Suas relações são marcadas por apegos exigentes e permanecem infantis em sua busca de proteção e afeto. Não amadurecem afetivamente. São homens, mulheres, em idade cronológica de adultos, exercendo papéis de adultos, são responsáveis, têm competência profissional e, no entanto, na parte emotivo-afetiva, comportam-se como crianças. Não amadureceram e reagem às desatenções com atitudes que destoam do comportamento esperado. Continuam na dependência dos cuidados “maternos” como cangurus que não conseguem abandonar o marsúpio. Essas situações aparecem em diferentes formas de conduta. Há pessoas que abrem mão de sua autonomia, renunciam a uma personalidade própria, contanto que alguém se encarregue de cuidar delas, são dependentes. Há outras que, de modo mais disfarçado, procuram dominar outras pessoas para tê-las a seu serviço, comprando o afeto com favores e outras formas de recompensa. Há também aquelas que tentam nutrir sua afetividade imatura com chantagens emocionais ou mesmo com doenças. Existem ainda as pessoas que se fecham num mundo à parte, como solitárias, desligadas da vida dos demais. Outras tantas reagem às frustrações afetivas com vitimismo escandaloso, chamando atenção pelo exagero de suas “dores”. Muitas outras formas poderiam ser elencadas. Esses exemplos ilustram o quanto a questão afetiva é importante no processo de crescimento e amadurecimento. Nas questões afetivas, a maturidade não se mede pelo número de anos que a pessoa tem. Uma pessoa de 50 anos pode ser mais imatura do que uma de 25. Em geral, a causa do problema se encontra nas interações mal dosadas do início da vida. É nesse período que os desequilíbrios começam e a responsabilidade maior recai sobre os “cuidadores”, isto é, as pessoas mais significativas na vida da criança (mãe, pai…). O aspecto afetivo é determinante para o equilíbrio de relações sadias. Criança mal-amada, em geral, será adulto problemático. Cuidar bem delas enquanto não sabem se autogerir é garantir-lhes a possibilidade de serem adultos independentes, capazes de convívio sadio com os demais. Os filhotes de cangurus, quando adultos, não precisam mais do marsúpio, porque, aos poucos, aprenderam a cuidar de si como independentes, mantendo-se em comunhão com seu grupo. Conforme crescem, seus “pais” deixam que vivam suas vidas, integrando-se como adultos na sociedade dos cangurus. Quem sabe nós, humanos, poderíamos aprender algo com os cangurus? Para nos tornar pessoas maduras não apenas no tamanho físico e na competência profissional, mas também nas relações sociais equilibradas e sem muitos subterfúgios que atrapalhem a autonomia sadia, as quais permitam um convívio mais harmonioso com os demais. A maior parte das relações conflituosas se deve à imaturidade afetiva. Há adultos que se comportam como crianças manhosas as quais se emburram diante da menor frustração e se abraçam em seu vitimismo, pelo qual lamentam seu “abandono” e sofrem pela falta que sentem de afeto e reconhecimento. Filhote de canguru cresce e se torna independente, homem e mulher adultos deveriam ser assim também, mas muitos não o são porque ainda dependem do “marsúpio” de alguém que lhes faça as vezes de mãe/pai, pois ainda não sabem se virar sozinhos. Seu eu infantil continua reclamando cuidados maternos porque, defasados em seus afetos, sentem-se desamparados quando alguma contrariedade os afeta. Adultos carentes são problemas permanentes nas relações com os outros. Canguru adulto vive sua condição como tal, homem e mulher adultos nem sempre. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Simão Cireneu, os enfermos e a gratidão de Deus

Em 11 de fevereiro, comemora-se o Dia Mundial dos Enfermos. É um momento oportuno para refletir sobre o significado da dor para a espiritualidade cristã. Antes, é bom reforçar: nestes nossos tempos, o tabu já não é mais o sexo, mas a morte, a enfermidade, o luto e tudo o que vai contra o mundo cultuador de aparências. Assim, as limitações e finitudes dos outros estarão em bom lugar se afastadas dos olhos dos “sãos”. No contexto cristão, contudo, a dor tem um sentido mais profundo. Diferentemente da sociedade do produzir, na qual o enfermo é tido como um peso, uma “peça defeituosa”, pelo olhar do cristianismo, aquele que sofre tem uma incumbência singular e, ao mesmo tempo, desafiadora. Para entender um dos olhares cristãos sobre a dor, voltemos a uma célebre sexta-feira de quase dois mil anos atrás, em Jerusalém. Depois de passar por um dos julgamentos mais questionáveis da história, Jesus foi condenado a morrer na cruz. Segundo os evangelhos, durante o caminho do Messias ao Calvário, os soldados obrigaram um homem que voltava do campo a carregar o pesado madeiro, pois tinham receio de o Nazareno não ter condições de chegar ao fim do sinistro itinerário. Mesmo forçado, Simão, da cidade de Cirene, ajudou Cristo a cumprir a Via Dolorosa. Talvez por gratidão dos primeiros discípulos, aquele trabalhador teve o nome imortalizado na história da salvação (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26). É possível fazer um paralelo entre o esforço do Cireneu e o dos doentes. Uma interpretação diz que os sofredores em geral, entre eles os enfermos, são associados à cruz de Cristo. Como Simão, que fez uma “caridade” sem querer, quem pena com a dor não escolhe passar por ela, mas forçosamente tem de cumprir essa tarefa. Numa perspectiva de fé, contudo, é reconhecido com amor por Deus, como o foi com o Cireneu. Poderíamos dizer que, nesse ponto de vista, o “dolente” (ou seja, quem sente dor) seria da “tropa de elite” divina, pois participa do sacrifício do Senhor em uma das horas mais importantes. O legítimo discípulo, discípula de Jesus, no entanto, não é conformista com a dor. Já neste mundo, tenta antecipar, com o próprio testemunho, o esperado reinado de Deus. Na lógica da fé, não há dor no Paraíso. Por isso, quem procura seguir os ensinamentos de Jesus não admite sistemas de saúde precários, deficiência na prevenção, negacionismos e o descaso contra os enfermos e os profissionais que deles cuidam. Lutar em favor dos muitos crucificados e crucificadas é a outra forma de o cristianismo ver a dor. Agir “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10) é uma legítima tarefa cristã. O próprio Cristo tinha grande apreço pelos padecentes, e não é difícil achar trechos dos evangelhos em que o Senhor cura, conforta, alivia a dor tanto física quanto espiritual e social. Ele é o próprio exemplo para seus seguidores, seguidoras fazerem multiplicar, desde hoje, a alegria eterna, numa terra sem males (pelo menos os evitáveis), sem se esquecer da dignidade dos que sofrem. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

5º Domingo do Tempo Comum

“Senhor, afaste-se de mim, porque sou um pecador”Lucas 5,1-11 A porta de entrada desse texto, que nos traz a versão lucana da “pesca milagrosa” (João 21,1-14), é o primeiro versículo: “Certo dia, Jesus estava na margem do Lago de Genesaré. A multidão se apertava a seu redor para ouvir a Palavra de Deus”. Lucas deixa bem claro que o motivo de tanta gente buscar Jesus foi para “ouvir a Palavra de Deus”. Não para ver milagre, não para receber esmola nem cura, mas simplesmente para “ouvir a Palavra de Deus”. E só se busca o que é agradável, o que faz bem. A Palavra de Deus encorajava a multidão, fazia com que as pessoas se sentissem amadas, aceitas, valorizadas. A Palavra de Deus era realmente “Boa Notícia” para os humildes e sofridos. Nada deve (ou pode) substituir essa Palavra. A Igreja ainda corre atrás do prejuízo de ter privado o povo, durante séculos, do alimento da Palavra. Um recente sínodo dos bispos tratou do tema significante “O lugar da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, e temos em mãos a Exortação Pós-Sinodal “Verbum Domini”, do Papa Bento XVI. Felizmente, muitas dioceses já têm seus planos de evangelização, com destaque para a formação bíblica do povo. Cumpre fortalecer cada vez mais a animação bíblica de toda a pastoral. Resta o desafio de criarmos ferramentas para que isso realmente ocorra. Nenhuma palavra humana, por mais eloquente ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus. Oxalá não repitamos os erros do passado! Que saibamos ver a ação do Espírito Santo na grande procura da Bíblia entre as comunidades, especialmente entre os mais pobres. Devemos levar a sério o que proclamou o Concílio Vaticano II, em seu documento dogmático Dei Verbum: “A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor” (DV 21). Infelizmente, nem sempre se verifica a prática dessa declaração. Terminada a pregação, Jesus pede que Simão “avance para águas mais profundas” (vers. 4), para lançar as redes, pois barca à beira-praia pesca nada! Como é tentador para nós (a Igreja, as comunidades, os indivíduos) ficarmos seguros nas águas rasas que não apresentam perigo, mas tampouco frutos! Se quisermos ser realmente “pescadores de homens” (vers. 10), teremos de enfrentar as águas profundas da vida, com todas as incertezas e inseguranças que isso acarreta. O mundo globalizado, pós-moderno, urbanizado exige novas respostas pastorais, como tão bem reconheceu o Documento de Aparecida. Não é mais possível continuarmos em nossas comunidades somente com uma “pastoral de manutenção”, mas precisamos ousar dialogar com novas situações e com o pluralismo de nosso mundo. Muito mais cômodo é ficar nas águas calmas e tranquilas, sem risco, mas fazer assim seria trair nossa vocação batismal. Poderemos nos perguntar: o que quer dizer, para mim, para minha comunidade, movimento ou pastoral, “avançar para as águas mais profundas”? O que nasceu de novo entre nós nestes últimos anos, desde a Conferência de Aparecida? Estamos aprendendo do exemplo do Papa Francisco, que ousa agir de uma maneira nova, sempre buscando modos mais eficazes de demonstrar o amor de Deus para todos os povos? Simão não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor, pois ele, pescador profissional, sabe muito bem que não se lançam as redes naquela hora do dia. Parece loucura. Assim, muitas vezes, é hoje: o que Jesus nos pede parece loucura aos olhos da sociedade consumista e excludente. Pois, como diz Paulo, “A loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1,25). Mesmo assim, Simão lança a rede “em atenção à sua palavra” (vers. 5). Aqui está o nó da questão: a atenção à Palavra de Deus. O Salmo 95(94), versículo 7, reza: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz”, pois Deus nos fala todos os dias. Uma fala exige atenção para que seja captada. Deus nos fala sempre, mas, se não tivermos as antenas ligadas, não o ouviremos. Continuaremos acomodados nas águas rasas e tranquilas, enquanto a missão exige que nos lancemos para águas profundas. Pedro reage já: “Senhor, afaste-se de mim, porque sou um pecador!” (vers. 8). Como a luz cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo o pecado humano. O que parece normal, segundo critérios humanos, fica claramente negativo diante dos critérios do amor divino. Mas Jesus não atende o pedido de Pedro; foi exatamente porque somos pecadores que Ele veio! Pelo contrário, fala para Pedro não ter medo (nem de sua fraqueza, nem de sua natureza pecaminosa, nem de suas falhas). Jesus o chama tal como ele é. Ele nos ama, não como gostaríamos de ser, mas como somos de fato. Não devemos ter medo de nossa realidade humana e pecadora, pois todos nós carregamos “um tesouro em vaso de barro” (2 Coríntios 4,7), mas podemos caminhar com confiança porque, “se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Romanos 8,1). Somos chamados a segui-lo como somos. Porém isso não pode nos acomodar, pois o Evangelho deixa claro que, quando os apóstolos foram chamados, deixaram tudo para segui-lo. O seguimento de Jesus sempre exige que deixemos algo. Resta perguntar a nós mesmos: o que o seguimento de Jesus exige que eu deixe neste momento na minha caminhada de discípulo, discípula? Como é que eu devo lançar-me para “águas mais profundas” como discípulo-missionário, missionária do Senhor? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

“Fala com sabedoria e ensina com amor”: nosso tema transversal em 2022

O tema transversal, escolhido a cada ano pelos educadores da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, tem grande relevância ao iluminar, por meio dos valores cristãos e humanos, todos os projetos pedagógicos- missionários nas escolas e centros educacionais. No ano em que a Campanha da Fraternidade (CF) traz ao centro a Educação, o lema “Fala com sabedoria e ensina com amor” será o mote de nosso ano letivo. A educação sempre foi uma das grandes preocupações de educadores, pensadores e da Igreja; por esse motivo, ela volta à pauta neste delicado momento político vivido em nosso país, em que os atuais governantes optaram pelo descaso. Em 1982 e 1998, a Campanha da Fraternidade já nos chamava a atenção para a relevância do tema. Após 24 anos da última campanha, colhemos muitos frutos, porém ainda não chegamos aonde apontam nossos olhares para a educação que desejamos. Nesse sentido, o objetivo geral da CF nos convida a “promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”. O diferencial desta campanha é de nos ajudar a olhar, de forma integral, a educação e a vida. Em meio a um momento ainda de pandemia, pensar uma educação integral é pensar uma educação que vai além da sala de aula e que apresente a vida como mestra e educadora. Uma educação que aponte caminhos que, com um olhar misericordioso, levem além do aprofundamento científico, que é muito importante, principalmente em momentos negacionistas, mas que perde o sentido se desvinculado dos valores da vida, capazes de gerar um mundo novo. Nascemos abertos ao aprendizado e é fundamental que entendamos, de uma vez, que não somente a escola formal nos constrói como pessoas, e sim todas as situações que nos humanizam. Para isso, torna-se imprescindível apontar caminhos que busquem a reflexão/ação sobre políticas públicas, valores, educação humanizadora, o papel da família no processo educativo, a dignidade humana e o compromisso com uma nova economia que coloque a vida no centro, em especial, dos mais pobres. Pensar novamente sobre a importância da escola de qualidade para todos e da valorização da sabedoria ancestral que sustenta a educação que acreditamos torna-se, outra vez, o grande convite para todos os setores da sociedade, afinal é necessária uma tribo para se educar uma criança, como lembra o provérbio africano. Por fim, se acreditamos que a qualidade de nossa presença educa e educar é um ato de amor e esperança no ser humano, cultivemos a cultura de encontros marcantes e transformadores, enfim educar é relacionar-se por inteiro. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias SSpS.

Previsões do tempo…

Qual a previsão do tempo para hoje? Ensolarado? Nublado? Com ameaças de temporais? São alternativas que o tempo apresenta no decorrer dos dias. Seja qual for a previsão, não podemos esquecer que, sempre, acima das nuvens, permanece o “Sol” que ilumina o universo e nunca o deixa de iluminar. Nos dias ensolarados, o céu fica azul, bonito, muitos se queixam de calor, mas nem todos os dias assim são calorentos. Há aqueles deliciosos para se viver num clima agradável, o qual gostaríamos que assim fosse sempre. Há dias em que só uma parte do céu está ensolarada e o restante nublado; qual vai prevalecer? Nos dias nublados, surge a dúvida ao sair de casa: levar guarda-chuva ou não? Pode chover e atrapalhar as idas e vindas. Nessa situação, é necessário conviver com a incerteza até que as nuvens definam o que vão fazer, se vão se dispersar ou chover. Nos dias com ameaças de temporais, o grau de incerteza aumenta, e as preocupações também, porque podem ocorrer a qualquer hora e despencar fortemente numa dada região, fazendo estragos de pôr em risco a vida ou tirar seus confortos. A situação pode ficar mais dramática conforme as evidências começam a se confirmar. Os trovões e relâmpagos correm pelo céu, dando sustos com raios que caem troando com força. Quando isso acontece, não sobram muitas alternativas a não ser aquelas de minimizar os prejuízos com algumas providências possíveis. Refugiar-se em lugar mais seguro, torcer para que a ventania e a tempestade passem logo e não causem tanto estrago. Fica tudo meio imprevisível. Não dá para controlar tudo. Se a tempestade começar a durar muito, avolumam-se os prejuízos e também os descontroles sobre a situação. O caos vai se agravando, e o desespero tomando conta. A experiência diz que, mesmo que demorem um pouco mais que o desejável, a tempestade não vai se eternizar. Uma hora, ela passa. Mesmo se apresentando com toda essa fúria, o tempo vai se acalmar e voltar a seu normal. Assim são as “previsões do tempo”. A esperança de dias ensolarados deve permanecer, mesmo quando há tempestade. Nossa vida “vivida no tempo” pode ser comparada a essas oscilações temporais, guardando-se as proporções. Sabemos que há dias mais amenos e outros mais turbulentos. Parafraseando as previsões do tempo, façamos uma “viagem” nos “tempos favoráveis e intempéries” de nossa vida. Há dias, por exemplo, em que amanhecemos radiantes, otimistas, com horizontes claros, sabendo o que queremos e que rumos seguir. Tudo parece concorrer para nossa alegria e felicidade. Vivemos o encanto pela vida que está favorável e tudo contribuindo para a realização de nossos sonhos. Gostaríamos que fosse sempre assim e aí não precisaríamos lidar com angústias, frustrações, dissabores, preocupações com sobrevivência, e assim a vida pareceria sempre uma poesia de encantos mil. É verdade! Há momentos que são assim; que pena, constatamos, que não o sejam sempre! Precisamos nos habituar também com as turbulências. Vivenciamos dias nublados, em que a mente e o coração amanhecem com uma série de dúvidas e preocupações que se antecipam e começam a estressar. São queixas que aparecem porque não se vai dar conta de tudo o que há por fazer, porque o cansaço se apoderou, minando as forças que havia de reserva. Alguém ficou doente na família e precisa de cuidados; alguém está passando por uma crise de relacionamentos e fica nervoso, contagiando o ambiente que antes estava tranquilo; ou alguém que perdeu o emprego, e o futuro fica comprometido, gerando insegurança. Ou ainda, alguém foi mal nos negócios que fez e teve prejuízo, e comprometeu sua renda; outro ainda exagerou no cartão de crédito e ficou sem fundos para pagar as prestações; alguém esperava solidariedade e compreensão, e elas não vieram, deixando uma mágoa no coração e uma decepção que mina a confiança nas pessoas. Não bastasse isso o carro precisa de conserto, a máquina de lavar roupa enguiçou, o cano de água estourou, a entrega do material para reparos atrasou, o gato fugiu e o cachorrinho ficou doente, precisa de veterinário. A pessoa que prometeu que viria não veio, deixou na mão; a notícia do telejornal fala dos aumentos que virão sobre combustíveis e alimentos, a inflação vai diminuir o poder de compra, além de lembrar que o “ômicron” está se alastrando como ventania; as mensagens no grupo do WhatsApp, querendo ajudar, oferecem milagres desde que se façam alguns ritos, mas eles demoram para acontecer e, para piorar a situação, ainda é preciso lidar com as “fake news”. Além disso, precisa levar a criança para a escola e depois buscá-la, calcular direito o tempo para não chegar atrasado ao serviço, não se esquecer de fazer um “pix” para pagar as contas, recarregar o celular… Tanta coisa por fazer! E a novela já vai começar, quero assistir o “Big Brother”, mas vai ficar tarde para dormir, a insônia não me deixa descansar direito, o remédio não está fazendo efeito… Tudo isso vai dando nó na cabeça. Quando as coisas vão caminhando assim, o dia, que estava meio ensolarado, começa a ceder espaço às nuvens pesadas, um céu se fechando, ameaçando temporal. Há os dias de tempestades iminentes. O acúmulo de situações e desgastes emocionais se avolumam que o psíquico não consegue dar conta de processar tudo. A mente começa a ficar confusa, o ânimo vai diminuindo, e as esperanças também. Uma crise aparece ameaçadora no horizonte, e a vida vai se espremendo nas poucas brechas que ficam. Nessa situação, pode desabar a torrente incontrolada de emoções contidas a longo tempo e sentimentos se apoderarem, tirando o chão da vida, e a pessoa fica “fora da casinha”, entrando em estado de depressão ou outras manifestações doentias da psique. Nessa situação o “céu desabou” sobre ela, e ela perde o controle sobre si mesma, precisando de socorro urgente, alguém que a tire dessa situação. Nem sempre esse “resgate” obtém sucesso. Muitos sucumbem, tirando a própria vida antes. São as situações limítrofes que atingem um bom número de pessoas, embora longe de alcançar a

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