Buscar o tesouro entre os “cascalhos” da vida

“Onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração”Lucas 12,32-48 (ou 12,35-40) O evangelho deste domingo nos apresenta um texto cheio de mensagens importantes sobre o seguimento de Jesus. O contexto desse relato é a compreensão do Reinado de Deus e as atitudes que são favoráveis para percebê-lo e acolhê-lo. Encontramo-nos no caminho, junto com Jesus, subindo em direção a Jerusalém; o texto evangélico nos mostra o Mestre da Galileia liderando um novo movimento de vida e onde devemos investir para que a nossa vida tenha sentido e inspiração. Por isso, a alegoria do “tesouro” revela a busca do essencial e não se perder no que é supérfluo e caduco. Um antigo relato oriental nos ajuda a compreender a alegoria do tesouro, usada por Jesus: quando os deuses criaram o homem, puseram nele algo de sua divindade; mas o homem fez um mal uso dessa divindade, e os deuses decidiram tirá-la. Reuniram-se em grande assembleia para ver onde podiam esconder esse tesouro que lhe haviam dado. Um disse: “Vamos colocá-lo no pico da montanha mais alta”. Um outro, porém, retrucou: “Não, o homem acabará escalando a montanha e encontrará o tesouro”. Um outro disse: “Vamos escondê-lo no fundo do oceano”. Mas alguém respondeu: “Não, o homem poderá descer às profundezas e descobrir o tesouro”. Por fim, um terceiro disse: “Já sei onde vamos esconder esse tesouro: no mais profundo do coração do homem! Ali, ele nunca o buscará”. A metáfora do tesouro, presente em diferentes tradições sapienciais, constitui um convite a encontrar ou descobrir aquilo que, mesmo sem saber, mais aspiramos: o que realmente somos, nossa identidade original. E esta imagem contém várias indicações valiosas: o tesouro está aí, no nosso interior, todo o tempo; trata-se simplesmente de descobri-lo; não é algo separado de nós nem algo daquilo que carecemos, mas justamente aquilo que somos. Quando o descobrimos, tudo o mais começa a ser visto como algo secundário; e essa descoberta se traduz em perene alegria. Só podemos encontrar o tesouro dentro de nós se descermos ao chão de nossa vida. É normal que nós nos surpreendamos frente a frente com um “eu” desconhecido e pleno de recursos. O caminho para o nosso tesouro passa pelo diálogo com as dimensões não integradas, com nossas paixões, com nossos problemas e fragilidades, nossas angústias e nossas feridas, com tudo quanto clama dentro de nós e consome nossa energia. A espiritualidade cristã nos mostra que, exatamente nos “cascalhos” de nossa existência, descobrimos o tesouro do nosso verdadeiro “eu”, escondido no fundo de nosso coração. Podemos, então, afirmar que o verdadeiro “tesouro” é o que há de Deus em nós. Isto é o que somos: plenitude à qual nada nos falta, como cantava S. Teresa de Jesus: “Quem a Deus tem, nada lhe falta; só Deus basta”. Deus não é uma Presença separada que nos completaria a partir de fora, mas o “estado de presença” que constitui nossa identidade. E quando descobrimos o tesouro que é Deus, não há lugar para o medo (“Não tenhais medo”). “Foi do agrado do Pai nos confiar o Reino.” Esse é o ponto de partida. “Não tenhais medo, estai preparados, etc.” depende dessa verdade. O Reino não é lugar ao qual iremos depois da morte; Jesus já havia dito em outro momento: “O Reino está dentro de vós”; portanto, é um espaço que já trazemos em nossa identidade profunda. Sem acolher esta realidade, não é fácil dispor-nos para conectar com o nosso eu verdadeiro. Se o Reino é o tesouro encontrado, nada nem ninguém poderá nos afastar dele. O sentido da nossa existência está em descobrir o tesouro, tudo o mais virá espontaneamente. O Reino é o mesmo Deus escondido no mais profundo de nosso ser. Ele é a maior riqueza para todo ser humano. Todos os demais valores que podemos encontrar em nossa vida devem estar subordinados ao valor supremo que é o Reino. Este tesouro pode se expressar como “uma nova vitalidade e autenticidade, um sonho ousado, uma intuição, um dom especial, o encontro com o verdadeiro eu,a imagem que Deus faz de cada um de nós…”. O caminho para um novo sentido na vida passa pelo acesso ao nosso próprio coração. Aqui está o desafio que nos assusta, pois vivemos mergulhados numa cultura da superficialidade e da exterioridade. “Descer” para as profundezas de nosso interior é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos recursos, para ativar novas potencialidades, para encontrar aquele tesouro que facilitará uma contínua transformação na vida. Isso requer coragem para passar por todas as regiões sombrias e chegar ao fundo. Mas essa descida nos possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que tínhamos perdido. É preciso, portanto, “descer” até o chão de nossa humanidade para descobrirmos uma nova riqueza que iluminará a nossa vida; é “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida. O apelo de Jesus é para despertarmos, escavarmos, avançarmos na direção ao “veio de ouro” e de sabermos que este não é nossa propriedade; ele nos é oferecido como dom. Mas não basta falar de “tesouro precioso”; é também necessário “escavar” nosso “chão interior”, alargar nosso coração, garimpar em direção às riquezas que estão no eu mais profundo, assim como o “fio de ouro” no meio dos cascalhos. Nosso interior é o campo que é preciso cavar (às vezes, profundamente) para fazer vir à tona aquilo que é mais nobre em cada um de nós. O “tesouro no céu” não é algo que nós alcançamos graças ao esforço nem é computado como mérito; é uma nova maneira de ser e de viver que emerge quando nos esvaziamos do “ego”, inflado e prepotente. Quando acessamos a nossa nobreza interior, descobrimos o tesouro que seduz nosso coração; só assim a vida terá mais inspiração, criatividade e sentido. Sabemos que o coração se enraíza ali onde está o bem mais valioso de nossa vida; a partir daqui, inicia-se um impulso em direção à plenitude que tanto almejamos; o seguimento de Jesus adquire

“Vocação: graça e missão”

A 58ª Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por unanimidade, aprovou a realização do terceiro Ano Vocacional da Igreja no Brasil, que deverá ser celebrado de 20 de novembro de 2022 a 26 de novembro de 2023, com a temática “Vocação: graça e missão”. A ideia é celebrar os 40 anos do primeiro ano dedicado à reflexão, oração e promoção das vocações no Brasil. O objetivo é promover a cultura vocacional em todas as instâncias, isto é, nas comunidades eclesiais, nas famílias e na sociedade, para que sejam ambientes favoráveis ao despertar das vocações, como graça e missão, a serviço do Reino de Deus. O texto-base do Ano Vocacional intui aprofundar o tema e o lema, respectivamente, “Vocação: graça e missão”, “Corações ardentes, pés a caminho” (Lc 24,32-33). É uma motivação para cada pessoa acolher o chamado de Jesus Cristo como graça, para que, assim, mais corações ardentes e pés se coloquem a caminho, assumindo e se comprometendo com a missionariedade na Igreja, que vive esse processo contínuo de “estar em saída”. A iniciativa almeja refletir que toda a comunidade cristã é responsável pela animação, cultivo e formações das vocações. Ressaltando os inúmeros esforços e frutos que surgiram com a dinamização dos serviços de animação vocacional, da Pastoral Vocacional e produção de subsídios. Também evidencia o forte anseio de uma Igreja sinodal, missionária, mais próxima e fraterna das realidades em seu entorno. Deus continua a passar pelos diversos caminhos e realidades, e chama, pelo nome, à vocação pessoal e de ser Igreja, vivendo uma vida de fé atuante e comprometida com o projeto salvífico de seu Filho. Nesse sentido, a “vocação: graça e missão” se fundamenta na afirmação de que “a vocação aparece realmente como um dom de graça e de aliança, como o mais belo e precioso segredo de nossa liberdade”, conforme o Documento Final de nº 78. Jesus chamou e enviou os que Ele mesmo quis (cf. Mc 3,13-19), portanto esta é a centralidade e a meta de toda a vocação e missão: a pessoa de Jesus Cristo. Queremos fazer memória aqui dos principais eventos vocacionais da Igreja do Brasil e do continente, para que nos inspire e nos motive neste momento histórico e celebrativo: – 1983: 1º Ano Vocacional do Brasil, com o tema e lema “Vem e segue-me” (Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22).– 1994: 1º Congresso Continental Latino-Americano de Vocações (Brasil), com o tema “A Pastoral Vocacional no Continente da Esperança”.– 1999: 1º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Vocações e ministérios para o Novo Milênio”, e o lema “Coragem! Levanta-te, Ele te chama” (Mc 10,49b).– 2003: 2º Ano Vocacional do Brasil, com o tema “Batismo, fonte de todas as vocações” e o lema “Avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4).– 2005: 2º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Igreja, Povo de Deus a serviço da vida” e o lema “Ide também vós para a minha vinha” (Mt 20,4).– 2010: 3º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Discípulos missionários a serviço das vocações” e o lema “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19).– 2011: 2º Congresso Continental Latino-Americano e Caribenho de Vocações (Costa Rica), com o tema “Chamados a lançar as redes para alcançar a vida plena em Cristo” e o lema “Mestre, em teu nome lançarei as redes” (Lc 5,5).– 2014: Simpósio Vocacional do Brasil, com o tema “Ide e anunciai! Vocações diversas para uma grande missão”.– 2019: 4º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Vocação e Discernimento” e o lema “Mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 25,4). Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-07/ano-vocacional-brasil-cnbb.html Concluímos nossa reflexão convencidas de que este Ano Vocacional será um grande momento de acender e reacender o ardor da entrega vocacional de cada cristão católico em nosso País. Convidamos você, que lê esta postagem, para participar dos eventos deste 3º Ano Vocacional, que serão promovidos, ao longo do ano, pelas redes sociais da CNBB. A seguir, confira algumas datas já estabelecidas:– lançamento do hino, em 31 de agosto de 2022, por meio de uma live promovida pela CNBB;– a abertura nacional do Ano Vocacional será em 19 de novembro de 2022, na missa das 18h, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida;– o encerramento nacional acontecerá em 23 de novembro de 2023. Irmã Adriana Regina da Silva e Irmã Crislaine M. Lopes PereiraServiço de Animação Vocacional, SSpS

“A vida é tão rara!”

“A vida não consiste na abundância de bens”Lucas 12,13-21 Na sua itinerância, Jesus se depara com situações inesperadas e que não têm nada a ver com o sentido de sua missão. Mas, como bom pedagogo, Ele aproveita de todas elas para mover as pessoas na direção do verdadeiro sentido da existência. Como sabemos, as heranças sempre suscitam problemas e conflitos. E alguém, que devia se sentir prejudicado, pede a mediação de Jesus para conseguir uma melhor partilha dos bens. Na sua resposta, destaca-se a liberdade de Jesus frente a esse tipo de questões, não só porque corta a petição pela raiz, mas pela parábola que narra a seguir. Nem Ele se considera “árbitro” em questões de herança, nem está preso pela cobiça. O que escutamos dele é o ensinamento de um mestre livre que quer mostrar o caminho da verdadeira “riqueza”. Todos temos experiência da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como verdade – de solucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Para Jesus Cristo, a primeira e maior tentação do coração humano é a “cobiça de riqueza”.Uma vez presos à cobiça, caminhamos, irremediavelmente, para a solidão, para o autocentramento e desprezo dos outros. Na parábola de hoje, o rico fazendeiro, em seu monólogo, revela o seu ideal de vida: acumular, ter vida longa, vida assegurada… Em seu horizonte de vida, há uma terrível solidão: parece não ter esposa, filhos ou amigos. Não pensa nos camponeses que trabalham em suas terras. Seus verbos preferidos: acumular, armazenar e aumentar seu bem-estar material. Só se preocupa em “amassar riquezas para si”; todo o relato insiste no uso dos pronomes possessivos: minha colheita, meus celeiros, meus bens, minha vida… Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-o de toda dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar. Que há de humano nesse tipo de vida? A vida desse rico é um fracasso e uma insensatez, pois sua falsa segurança na posse dos bens vem abaixo. Quem vive centrado em si mesmo perde a vida; quem vive para o eu não é rico diante de Deus. No percurso da vida humana, surgem oportunidades em que a pessoa abre os olhos e se diz a si mesma, com enorme espanto: “na realidade, não fiz outra coisa que viver para mim mesmo”. Com as riquezas, com os saberes, com os próprios recursos ou o que for, ela se dá conta de que viveu “entesourando para si” e, de repente, essa forma de viver se revela como infecunda e sem sentido. É um momento privilegiado que pode ser muito duro e, ao mesmo tempo, muito fecundo, quando consegue sair dessa “situação viscosa” e centrar sua segurança em deixar-se conduzir pela mão providente de Deus (“ser rico para Deus”). Sentirá a experiência de que foi tirada de sua “pasta egoica” pela mão de Deus e brotará em sua vida uma nova melodia de saída de si em direção à fraternidade, à partilha, ao encontro com o outro… A eterna tentação da cobiça esconde uma necessidade, mais ou menos doentia, de segurança. Dado que o ser humano não pode renunciar à segurança, a questão é saber onde ele coloca sua segurança. Ao longo de nossa existência, é provável que o “lugar” onde a situamos vai se modificando: os pais, os amigos, os grupos, a profissão, a saúde, o dinheiro, as posses, as crenças, o prestígio… O problema não se enraíza no fato de sentir necessidade de segurança, mas na ignorância à hora de querer afirmá-la. Colocar a segurança em qualquer realidade passageira é garantir a decepção, a frustração e o sofrimento. Essa é a primeira ignorância, porque nos faz tomar como “seguro” o que é transitório. No Evangelho deste domingo, Jesus usa a palavra “néscio” para referir-se a quem atua assim. Tal termo vem do verbo latino “nescio”, que significa literalmente “não sei”. “Néscio” é quem confunde o ter com o ser. “Néscio” é aquele que não sabe o que faz, aquele que vive perdido e ofuscado na ignorância e, em último termo, na inconsciência. Isso é viver identificado com o “ego”, na falsa ilusão de que essa é sua verdadeira identidade. Agimos mal, a partir da cobiça, dos apegos a coisas e bens, da segurança em acumular… porque desconhecemos nossa riqueza interior, nossos recursos mais nobres, nossos dons mais originais… Perdemos o caminho do coração e “ajuntamos tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem…”. No fundo, o Evangelho deste domingo nos situa diante do grande dilema do “sentido de nossa existência”: para que vivemos? Sobre que valores queremos construir nossa vida?… O ser humano não é só um “animal racional”,ou um “animal afetivo”,mas é também um “animal de sentido”,o que é uma definição muito mais profunda. Ele precisa de um “sentido” para viver. E precisa disso tanto ou mais que os bens materiais necessários para sua vida. Sem sentido, sua vida se torna simplesmente sofrível, insuportável. Uma pessoa espiritualmente anêmica enche sua existência com coisas e posses, mas isso não faz mais que aumentar sua sensação de vazio existencial. De fato, para viver uma existência verdadeiramente humana, é preciso cumulá-la de sentido,evitando que ela caia no vazio ou no absurdo. O ser humano tem necessidade de uma causa pela qual viver, de canalizar todas as suas forças, seus desejos, energias, impulsos vitais e recursos internos e externos em direção a um horizonte de sentido, no qual acredita intensamente (“ser rico para Deus”), e nele investir tudo o que é e possui, com intensa paixão. Aqueles que são movidos por uma forte paixão, apostam que o ser humano tem potencial criador e foi feito para voar alto, para tentar, mil e uma vezes, alcançar cumes distantes. Todo o percurso dos Evangelhos visa a despertar em nós o “espírito de

Sete considerações sobre o dom da acolhida

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (Lucas 9,11b). Assim começa a passagem da “multiplicação” dos pães, uma das mais notáveis catequeses eucarísticas do Evangelho. Tudo começa com o Mestre a receber as pessoas, um gesto sacramental a ser praticado também em nosso tempo. A pandemia de covid-19 acabou dando destaque a duas pastorais que, em muitas comunidades, tiveram de ser criadas ou reforçadas às pressas. No isolamento sanitário mais rígido, a Pastoral da Comunicação (a querida “Pascom”) fez chegar a muitos lares as celebrações ou, pelo menos, uma palavra dos evangelizadores a seus irmãos e irmãs. Quando a participação do povo começou aos poucos a ser permitida, foi a vez de a “Pastoral” da Acolhida agir para receber bem e dar segurança a quem chegava, seguindo os protocolos sanitários. Como ocorreu em outros contextos da Igreja, a pandemia revelou algumas coisas soterradas pela poeira da rotina. Em minhas andanças pelas comunidades de fé, noto deficiências importantes quanto à acolhida. Isso tanto da equipe responsável por receber aqueles que se constituirão em assembleia litúrgica, o Corpo Místico de Cristo, quanto de outros servidores e servidoras. Proponho sete considerações sobre esse essencial gesto cristão. 1 – Quem acolhe também celebra Vez ou outra, ouço alguém reclamar não se sentir presente de fato na liturgia logo porque exerceu nela alguma função. Participa, sim, quem fica responsável por higienizar, distribuir algum subsídio, providenciar assentos aos idosos, anotar os pedidos de oração, cantar, organizar o som, a luz e as flores, e muito mais. A palavra “liturgia” indica algo semelhante a “serviço público”, “mutirão”. Pressupõe ação de cada um, conforme o que lhe couber. Assim, não é necessário ir a outra celebração “para valer”. 2 – Acolher é missão de todos A responsabilidade pela acolhida não é apenas dos ministros e ministras encarregados de receber as pessoas. Todos os que se unem para celebrar são sinais do Cristo acolhedor das multidões. Como é incoerente estar de cara fechada logo na hora de celebrar a vitória da vida sobre a morte! Não é preciso ficar “mostrando os dentes” em sorrisos falsos, mas, pelo menos, dar e responder, com delicadeza, a um simples cumprimento. 3 – Curar feridas Tempos atrás, antes de uma celebração dominical, um coroinha advertiu-me que uma senhora, sentada no fundo da igreja, estava em prantos, muito abalada. Recomendou-me ir ver aquela irmã. Assim o fiz. Fiquei muito impressionado ao saber que ela estava ali com seu resto de ânimo. A mulher se culpava dolorosamente, pois, por ter desrespeitado regras sanitárias, afirmava ter contaminado e matado de covid-19 os tios e irmãos. Mesmo com o pouco tempo para o início da liturgia, consegui ouvi-la. Prometi rezarmos por ela e, com convicção, com base no bom exemplo do coroinha, disse-lhe que ela poderia contar conosco. Aquele servidor adolescente teve grande sensibilidade e bendigo a Deus por ele. Aqui também lastimo não existir um serviço de escuta sistematizado (e, se necessário, aconselhamento) em todas as paróquias (todas!). 4 – Contar até dez Um cristão acolhe porque Jesus o fazia. Não é para ganhar, satisfazer ou “fidelizar clientes”, mas porque todo ser humano é precioso. Cada irmão ou irmã é membro importante do Corpo de Cristo. Neles, pelo batismo, há o divino e o humano do Senhor. Isso vale para os mais assíduos, os visitantes, os “fichas-sujas” e mal-afamados, os curiosos, os profissionais que atuam em cerimônias, os pseudoiniciados, os frequentadores eventuais de sétimo dia, formatura, casamento e batismo, etc. Acolher dá trabalho e exige muitas contagens até dez antes de reagir a qualquer coisa. Às vezes, pede inclusive alguma misericordiosa “vista grossa” para os mascadores de chicletes e trajados com deficiente decoro. Com certeza, a rispidez não resolverá esses problemas. Vale a correção fraternal e discreta na hora oportuna. 5 – Acolher quem acolhe Quem não gosta de gente não deveria se candidatar a qualquer ministério eclesial, seja laico, seja consagrado ou ordenado. A palavra Igreja já pressupõe plural. É impossível ser cristão sozinho. Se Deus quisesse que as coisas fossem quase perfeitas, Ele chamaria seus próprios anjos para servir. O Senhor, contudo, entende que temos nossas limitações, e nós já deveríamos saber disso. Como é constrangedor (no mínimo) ver algum servidor, servidora chorando porque tomaram um “pito” de alguma liderança! É preciso acolher a humanidade do outro, corrigindo fraternalmente. Numa celebração da vida, não há espaço para diminuir seja lá quem for. 6 – “Mais água no feijão” Podemos cair na tentação de praticar a “falsa acolhida”, aquela que, no fundo, impede o Espírito Santo de agir. Por exemplo, uma paróquia organiza um almoço na festa do padroeiro vende todos os convites, mas não deixa uma “reserva de coração” para quem não frequenta a comunidade. Ou um evento para jovens ou casais o qual tem regras engessadas e não prevê a chegada “de surpresa” dos tocados e enviados de última hora pelo Senhor. “Pôr mais água no feijão” faz parte do acolher em Cristo. 7 – Coração aberto Para se falar em acolhida, o primeiro requisito, claro, é ter o coração aberto. E isso vale para todos os contextos. Diante de tanta intolerância, “bolhas” sociais e desconhecimento da riqueza da diversidade humana, é preciso aqui reafirmar o óbvio: não somos iguais. Quando nos abrimos a conhecer, a dialogar, a buscar compreender respeitosamente diferentes culturas, jeitos de lidar como o Sagrado, de conviver, começamos a praticar a acolhida. Em troca, crescemos como seres humanos, cidadãos, batizados e batizadas. Isso compõe a legítima evangelização. Ouvir mais do que falar é um bom começo. Admitir o próximo é um valor humano-divino muito prezado por Jesus, a quem seguimos. Acolher, portanto, é mais do que jogar álcool na mão de quem chega ou aferir temperatura. Possam nossas comunidades de fé de fato abraçar, iluminar a vida e curar as feridas de irmãos e irmãs. Receber bem, em todos os sentidos, é um dom, e este já nos foi dado pelo Mestre. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de

Uma oração revolucionária

“Quando rezardes, dizei: ‘Abba’”Lucas 11,1-13 Os evangelhos nos revelam que Jesus, em muitas ocasiões, se afastava de seus discípulos, do povo, dos espaços habituais, das atividades missionárias… para orar, sem se deixar prender pelas necessidades urgentes, pelas expectativas de seus amigos e pelas ameaças de seus inimigos. Essa distância, que o fazia entrar em intimidade o Pai, ia gerando nele uma nova sensibilidade para perceber os acontecimentos e a ação do Pai no centro da realidade, e assim poder anunciar a surpreendente notícia do Reino. Sabemos que Jesus vivia uma profunda sintonia com o Pai; e essa sintonia se manifestava no seu modo de orar: Ele orava nos momentos difíceis; dava graças ao Pai e o louvava por ter revelado os mistérios do Reino aos pequenos; orava solicitando o perdão na Cruz para aqueles que o crucificavam; rezava nos momentos decisivos da missão: batismo, pregação, eleição dos discípulos, transfiguração… Sua oração contagiava, despertava interesse nos outros até o ponto de seus amigos lhe pedirem que lhes ensinassem a orar, porque viam que Ele tinha outra profundidade e superava os formalismos e as orações recitadas de memória. O que é mais original e revolucionário em Jesus é a atitude de dirigir-se abertamente ao Pai com palavras simples e emotivas, na linguagem de todos os dias. Na sua oração, Jesus revela um Deus Pai-Mãe, cheio de ternura e compaixão, que toma iniciativa e rompe as distâncias, entrando em comunhão com seus filhos e filhas. Por isso, a primeira palavra da oração de Jesus expressa um grito que ecoa além dos limites do espaço e do tempo. Jesus não disse “Deus nosso que estais no céu”, ou “Criador nosso”, ou “Todo-poderoso nosso”. É significativo que tenha dito “Abba”. Uma característica comum na construção da “imagem” de Deus em todas as religiões é que Ele é intocável, incompreensível, todo-poderoso, transcendente… A oração de Jesus deixa transparecer não o Deus todo-poderoso, onipotente e onipresente, mas o Deus desejoso de interagir com seus filhos e construir uma rede de relações. A oração de Jesus mostra um Deus que possui uma enorme sede de relacionamentos; Ele é um Pai que deseja entrar em diálogo com todos. É significativo que Jesus comece a falar de um Pai que quer se aproximar de todos, sem barreiras e preconceitos. Fixando-nos em Jesus, os nossos olhos e o nosso coração aprendem, na graça do Espírito Santo, o caminho para o Pai. No nosso interior, devemos sentir que rezamos continuamente. Na oração de Jesus, nenhum ser humano foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nenhum sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida… Sua oração é instigante e provocativa, que nos liberta do cárcere da rotina, resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez: a consciência de que somos conduzidos por uma presença amorosa. Não se pode rezar de qualquer jeito e com qualquer disposição a oração que o Senhor nos ensinou. Para Jesus de Nazaré, Deus não quer que os seres humanos tremam em sua presença, mas que tenham intimidade com ele; não quer demonstrar poder que desperta medo, mas sensibilidade que alimenta proximidade; não quer controlá-los, mas fomentar sua liberdade. Segundo Jesus, o Deus que se esconde atrás da cortina do tempo e do espaço não é um Deus juiz a ser temido, mas um Pai sensível, providente, cuidadoso, que quebra distâncias e se aproxima de todos. Aproximando-nos da oração de Jesus, percebemos que tudo se concentra em torno à expressão vocativa que abre a oração: “Abba!”. É sempre em torno da descoberta do Pai que nos situamos. Mais do que rogar por esta ou por aquela necessidade ou interceder pela satisfação de qualquer carência, o que se pede a Deus é que Ele seja “Pai”. Segundo o cardeal José Tolentino, “Pai!” é um grito íntimo e aberto de fé, de alegria, esperança e amor; um canto de reconhecimento pelo fato de sermos verdadeiros(as) filhos(as) de Deus. Mas é também uma súplica, um gemido, que brota do nosso ser mais profundo, reconhecendo a nossa distância, a nossa pequenez, a nossa fragilidade… Através de sua oração, Jesus comunica aos seus discípulos e a todos nós o direito de também dizer “Abba”. Ele ativa em todos nós a participação na sua condição de Filho e, porque somos seus discípulos(as), abre a oportunidade de nos dirigir ao Pai celeste com a confiança de uma criança. Aqui, o nosso desejo se orienta fraternalmente em direção ao próprio desejo de Jesus. Temos a mesma Origem, a mesma Fonte que Jesus: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30); essa é uma frase que nós também podemos repetir. Porque, neste momento, a vida que respira em nossos pulmões, que pulsa em nossos corações, não está separada da Fonte da Vida. É preciso, pois, tomar consciência dessa relação com a Fonte do Ser que Jesus chama “Abba”,que é seu Pai e nosso Pai, é sua Origem e nossa origem, e também origem do mundo. O coração do ser humano é este lugar onde o universo inteiro clama: “Abba, Pai-Mãe”. Um monge do monte Athos dizia: “Quando eu digo ‘Abba’, o mundo inteiro está presente”. A oração revolucionária de Jesus, portanto, nos descentra e nos move em duas direções: na primeira, nosso olhar e nosso coração se dirigem ao Pai (santificação do seu Nome, vinda do seu Reino). Na segunda, movidos por uma atitude filial, nos dirigimos às nossas necessidades (o pão, o perdão, a força contra a tentação). Essas duas dimensões não devem jamais ser separadas, porque o Senhor as uniu em sua oração. Invocar Deus como “Abba” nos irmana a todos, reforça nossos vínculos e nos expande a viver a comunhão com todos. Por isso, a invocação do “pão de cada dia” é um ato de fé e de abandono ao Pai celeste, o qual “bem sabe que precisais de tudo isto” e nos alimenta (Mt 6,28-32). É necessário pedir o pão, reconhecendo a nossa dependência para com a divina Providência. O fato de que Deus cuida de cada um de nós não

Somos todos condutores

Bastaria um dado estatístico: em 2021, 32 pessoas, a cada dia, perderam a vida em acidentes no trânsito, no Brasil. Uma antiga máxima educativa sempre nos alertou para essa situação caótica e problemática: “Somos todos pedestres”. A condição de pedestre como um campo de intercessão que une as recomendações de zelo e segurança no trânsito de toda a população sempre foi e continuará sendo enfática e contundente. Quero propor, todavia, uma nova provocação pedagógica: na condição de pedestre, ciclista, motociclista, motorista… somos todos condutores. Conduzindo guidão, volante ou nossos próprios pés e rodas, fazemos escolhas a cada instante. E é exatamente esse “detalhe” que vem ao caso. Conduzindo nossas escolhas e carregando a própria vida e a de outras pessoas, nossas opções podem ser sinal de vida ou de morte. É aquele instante, aquela fração de segundo que a conduta de cada um e de todos os envolvidos no trânsito e no transitar pode preservar, causar sequelas, salvar ou ceifar vidas. Mortes e sequelas evitáveis dizem de nossa incompletude humana. Trânsito deve ser lócus de cidadania, cooperação e de conduta zelosa pela preservação da vida. Como condutores de vida, precisamos ressignificar os códigos vigentes relacionados a velocidade, mobilidade, seta, faixa de pedestres, compartilhamento, fazendo um uso digno de nossa autonomia na condução pela preservação da vida. Sem querer aprisionar a questão do trânsito na dimensão pessoal, precisamos reconhecer a necessidade de melhorar a conduta também com relação a políticas públicas, mobilidade urbana, transporte público, acidentes de trânsito, modais sustentáveis. Na Física, condutor se diz o corpo suscetível de transmitir o calor, a eletricidade… Na vida, condutores que somos, diria que devemos ser corpos suscetíveis de transmitir uma atitude que contribua para preservação da vida. Vestir nossa incompletude e fragilidade humana e nos deixar conduzir por atitudes conscientes que preconizem a defesa da vida no trânsito pode mudar essa alarmante estatística. Para saber mais: https://www.sbtnews.com.br/noticia/brasil/194388-no-brasil–cerca-de-32-pessoas-morrem-por-dia-em-acidentes-de-transito https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2022/04/21/quem-mais-morre-no-transito-do-brasil.htm https://www.dicio.com.br/condutor/ Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

O ativismo trava a mística do encontro

“Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas”Lucas 10,18-42 No Evangelho de Lucas, o caminho de Jesus a Jerusalém marca uma progressiva manifestação do Reino. À medida que avança em seu percurso, Ele vai despertando e preparando seus(suas) seguidores(as) a viver as atitudes indispensáveis de um(a) verdadeiro(a) discípulo(a): a presença compassiva, o espírito de acolhida, o abandono das pretensões de poder, a escuta de sua Palavra… Tais atitudes exigem romper com o ritmo estressante da vida para que todos se coloquem, serena e atentamente, aos pés do Mestre. Essa eleição, que, aos olhos da eficiência, pode parecer superficial e inútil, é uma condição fundamental para chegar a ser um(a) autêntico(a) discípulo(a). No seu caminho em direção a Jerusalém, o Evangelho deste domingo nos revela que Jesus é recebido por duas irmãs, numa casa de família. Esse episódio é algo surpreendente. Os discípulos que acompanham Jesus desaparecem da cena. Lázaro, o irmão de Marta e Maria, está ausente. Na casa da pequena aldeia de Betânia, Jesus se encontra a sós com duas mulheres; ao hospedarem Jesus, o cotidiano de Marta e Maria se altera por completo; elas precisam modificar os próprios hábitos, os próprios ritmos, reordenar as próprias atenções e ocupações. Com o “Senhor” em casa, tudo muda; graças a Ele, tudo deve encontrar uma nova “ordem”.Jesus, o peregrino sem casa, está no centro de todas as atenções que uma verdadeira hospitalidade exige. No entanto, Marta e Maria reagem de maneira diferente no encontro com o Mestre ilustre. Aqui nos deparamos com duas atitudes diferentes. Uma, de total atenção e escuta; outra, de ansiedade, devido aos afazeres habituais e distração. Maria, sentada aos pés de Jesus, põe-se à escuta das suas palavras; Marta, ao invés, fica totalmente tomada pelas tarefas e preocupações. Acolhendo-o e escutando-o, Maria encontra paz, serenidade, tempo, expectativa; Marta, ao contrário, não consegue encontrar a paz;agita-se, preocupa-se, fica insatisfeita, desconcentrada, em contínua ação. Ativismo sem sentido, sem intenção, sem motivação… O ritmo da vida cotidiana tinha aprisionado a Marta, tornando-a surda à escuta da Palavra. Ela recebe Jesus, mas não o escuta. Embora Jesus entre em sua casa, ela o deixa à porta. Maria, ao contrário, compreende bem o projeto de Jesus e rompe com os preconceitos culturais de sua época. Sua atitude é surpreendente, pois está ocupando o lugar próprio de um “discípulo”, que só correspondia aos homens. Em lugar de andar atarefada com as atividades domésticas “próprias das mulheres”, “sentou-se aos pés do Senhor e escutava sua palavra”. Esse gesto, reservado culturalmente aos discípulos varões, a confirma como discípula. De fato, Maria fez a melhor opção: decidiu aprender a escutar a Palavra e se deixa interpelar pela presença do Mestre. Marta, ao fadigar-se com o interminável trabalho da casa, questiona a contraditória atitude de Maria e interpela o Mestre para que sua irmã, como mulher, se “coloque no seu devido lugar”. No fundo, o que ela pede a Jesus é que mande sua irmã voltar às tarefas próprias de toda mulher e deixe de ocupar o lugar reservado aos discípulos varões. Jesus lhe dá uma resposta inesperada: felicita Maria porque acertou em sua eleição e repreende Marta por deixar-se envolver pelas preocupações cotidianas, sem atender ao que é mais importante. Em nenhum momento, Jesus critica Marta por sua atitude de serviço, tarefa fundamental em todo seguimento dele, mas a convida a não se deixar absorver por seu trabalho a ponto de perder a paz. E recorda que a escuta de sua Palavra deve ser prioritária para todos, também para as mulheres, e não uma espécie de privilégio dos varões. Jesus não despreza a acolhida de Marta, mas seu modo de trabalhar, nervosa, sob a pressão de muitas ocupações. Ele a alerta, e a todos nós, do perigo de viver absorvidos pelo excesso de atividades, apagando em nós a paz, contagiando nervosismo e cansaço e esvaziando a mística da acolhida. Tem sido frequente ler este texto em chave dualista, reforçando a superioridade da “vida contemplativa” sobre a “vida ativa”.No entanto, o sentido original do texto está no fato de afirmar a primazia do discipulado acima de qualquer outra atividade. Com efeito, a expressão “estar sentado(a) aos pés de Jesus” constitui a atitude fundamental do “ser discípulo(a)”. O texto imediatamente anterior, onde o bom samaritano aparece como um modelo por sua ação solidária, impede interpretar a cena de Betânia como uma desqualificação da ação em favor da contemplação; o contexto chama a atenção diante de uma maneira de agir que não nasce da escuta da Palavra, mas do próprio ativismo compulsivo. A escuta da Palavra inspira e dá sentido a toda ação. Ativismo ou ação insensata (sem sentido) revela autocentramento, comparação, competição, queixa… Marta se precipita em “fazer”, e esse “fazer” não nasce de uma escuta atenta da palavra de Jesus, correndo o perigo de se converter em um estéril girar sobre si mesma. Ela se limita, apesar de sua boa intenção, a acolher Jesus em sua casa. Maria, no entanto, o acolhe “dentro de si mesma”, oferece-lhe hospitalidade naquele espaço interior, secreto, e que está reservado só para Ele. Marta oferece “coisas” a Jesus; Maria oferece a si mesma; ela elegeu a “melhor parte”. Marta, ao querer que não faltasse nada ao hóspede importante, acaba deixando passar clamorosamente por alto “a única coisa necessária”. Podemos pensar que Marta e Maria, mais que duas pessoas, são duas atitudes, duas tendências que todos temos e somos na vida. Muitas vezes vivemos num ativismo desenfreado e acabamos perdendo o fluxo de uma vida mais harmoniosa, integrada e pacificada. Somos seres de ação, mas também somos seres necessitados de calma, serenidade, contemplação… Como integrar Marta e Maria, como harmonizar ação e contemplação? Eis a questão! Segundo o místico Eckhart, trata-se de deixar subir o que vem do fundo, de executar ações assinaladas pelo selo da interioridade e da profundidade. “Vai para o teu próprio fundo e lá age! Com efeito, todas as obras que aí executas, vivem!” Não se trata, portanto, de qualquer ação, mas daquela que vem das

A compaixão nos desloca para a margem

“Mas um samaritano que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão”Lucas 10,25-37 O cristão é um pobre que ama e cuida de outros pobres, um ferido que se faz presente junto a outros feridos. Há um ponto de partida comum: a experiência da pobreza radical de todos os que se encontram. Somos seres de relação; é a nossa essência. Nós nos definimos pela maneira como nos fazemos próximos junto aos outros. Essa relação essencial se manifesta como presença que acolhe, cuida, reforça laços, alimenta a comunhão… Há presenças impositivas, indiferentes, manipuladoras e geradoras de conflitos. E há presenças “cristificadas”, carregadas de compaixão. Uma das páginas mais belas e provocativas do Evangelho é a parábola do “bom samaritano”. Um desconhecido exemplar que nos oferece algumas chaves interessantes de leitura sobre o que significa atender as pessoas que estão em situação de exclusão e dor. Nessa parábola, Jesus destaca uma imagem que deve inspirar uma presença comprometida de todo(a) seguidor(a) seu(sua). O relato começa com uma situação dramática: um homem “ferido de morte” à beira de um caminho. Várias pessoas passam por ele: um sacerdote, “ponte” entre os homens e Deus, e um levita, dedicado ao serviço do Templo. São incapazes de atendê-lo. Dão meia-volta e se vão. Por profissão, ambos conheciam bem a Lei de Deus, a cujo serviço estavam. E, nela, está contida a exigência de humanidade no trato com o semelhante. Nada disso os moveu a vir em socorro do homem semimorto, caído no caminho. O encontro com Deus no Templo não os movia à comunhão com o semelhante em extrema necessidade. Daí terem se desviado do homem semimorto, passando pelo outro lado do caminho. Fugir do sofrimento é, certamente, quase um ato reflexo em todos nós. Mas o samaritano, pelo contrário, se deteve, talvez porque sabia o que era ser desprezado (em seu caso, por ser estrangeiro e herege). A experiência da própria dor desperta nele uma grande sensibilidade, ativa um “radar” especial que detecta a dor alheia e o anima a “inclinar-se”, de maneira quase “natural”, para o mais necessitado. Era um dos seus. A redação de Lucas reforça insistentemente os verbos “viu”, “sentiu compaixão” e “cuidou dele”. Foi suficiente ver o ferido para que se reacendesse a sua compaixão, ou seja, se enternecesse diante da triste situação daquele homem ferido, à beira da estrada. Essa comoção primeira é decisiva porque desperta o desejo de atuar. O que se revela realmente pernicioso é a indiferença, a frieza, e não o sentimento de tristeza e empatia que faz emergir uma corrente de afeto para com o sofredor. O samaritano ficou “afetado” ao contemplar o drama do outro. A sequência na maneira de agir do samaritano é preciosa e fica perfeitamente refletida na narração através dos verbos: olhar, aproximar-se, enfaixar as feridas, colocar o ferido sobre sua cavalgadura, levar, cuidar, retornar. Uma progressiva implicação que termina alterando seu caminho e sua vida. Seus planos foram mudados. Alguém ferido cruzou seu caminho e já não pode viver à margem desse encontro. Por isso, depois de cumprir com suas obrigações, retorna. Esse homem ferido “permanece” em seu coração. As vítimas da injustiça estão clamando a nós a “responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam” (J. Saramago). Trata-se de educar o olhar que “des-vela” a mentira da realidade e, ao mesmo tempo, “re-vela” suas oportunidades históricas. Educar a visão é deixar-nos olhar pelo outro, pelo pobre, pela vítima do sistema. A honestidade com a realidade reclama de nós uma alteração de nossa visão, um movimento sutil de nossos olhos que nos conduzem a nos colocar “na mira do outro”. Mais ainda, o olhar do outro manifesta que, “fora dos pobres, não há salvação”. “Há um corpo caído no chão”: todo corpo é lugar de comunicação, de comunhão, é apelo à proximidade e ternura. Dele brota uma voz provocativa que, quando acolhida, nos introduz na trilha da “vida eterna”, do horizonte do Sentido; ao passo que, se rejeitada, como aconteceu ao sacerdote e ao levita, os exclui do espaço da vida. Mas, não basta o olhar;é preciso a “conversão das mãos”. Foi preciso mais que uma mão. Também o dono da hospedaria, possivelmente um judeu, também foi desafiado a superar o preconceito, acreditar no samaritano e aceitar colaborar com ele. O samaritano conta com a ajuda do dono da hospedaria. Este se torna parceiro na solidariedade quando aceita fazer o que lhe fora pedido. Ele prolonga os gestos humanizadores do samaritano, manifestando seu compromisso com a vida frente o ferido que aparece inesperadamente em sua pensão. Depois de apresentada a situação concreta, através de uma parábola, Jesus relança a questão para o mestre da Lei: “Qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. A resposta brota límpida: não é possível escolher o próximo. Este, na perspectiva de Jesus, irrompe no caminho das pessoas, sem aviso prévio, na condição de vítima, do outro sofredor, carente de socorro. Quem é capaz de romper esquemas e se transformar em servidor, com total generosidade, faz a experiência de “próximo”,no sentido do discipulado cristão. Por conseguinte, “próximo” tem um sentido bem preciso. Não é qualquer pessoa! É o outro necessitado de ajuda. Por outro lado, só quem tem uma correta imagem de Deus terá uma correta imagem de próximo. A indiferença do sacerdote e do levita deveu-se a uma falsa concepção de Deus, separado dos seus prediletos. Já o samaritano foi aquele que possuía uma fé verdadeira, expressa em atitudes de elevado padrão de misericórdia. O verdadeiro seguimento de Jesus nos faz “virar a cabeça” e dirigir nosso olhar para as “margens”, para as “periferias” da história… comprometendo-nos com os prediletos de Deus. Para Jesus, o centro está nas margens; os marginalizados e excluídos são trazidos por Ele ao centro. Por isso, Jesus derruba as barreiras de religião e raça. Para Ele, o verdadeiro culto a Deus acontece nas “margens” e não nos templos. Na perspectiva cristã, a opção pelos pobres não está vinculada a um voluntarismo ascético-moral,

A pessoa e a educação, uma relação profundamente cristã

Ao refletirmos sobre o processo educativo, nossa mente será levada a lembranças de nosso tempo escolar, amizades e tantas aventuras vividas. Não há problema algum em trazer à memória essas lembranças. Estas podem apresentar-se como brecha para refletirmos sobre a relação entre educação e pessoa. Somos seres de relação e construção de cultura, somos seres dependentes e independentes em nossa forma de pensar e existir, e, para que tudo isso tenha sentido, a “educação” tem papel fundamental. Segundo o dicionário Michaelis, educação define-se por ato ou processo de educar(-se), e no caso de uma escola missionária, afirmamos que educar é um ato ou processo de educar a partir de três palavras: escuta, mediação e compreensão. Somos uma instituição que “educa”, não de modo aleatório, mas a partir do Evangelho e de um projeto que tem a pessoa humana no centro. Valorizamos tanto suas potencialidades como suas fragilidades. Nesse processo educativo, faz-se importante “ir além dos muros da instituição de ensino e experienciar as diversas oportunidades presentes no desenho dos territórios educativos em um contexto de crescente singularidade de grupos populacionais de convivência, acelerado pelos processos de globalização, das mobilidades e geridos pelo diálogo multicultural” (Texto-Base da CF 2022, n. 137). Buscamos ensinar de modo a libertar a mente a uma reflexão humanizada, crítica e responsável. O ensino de Jesus é libertador. […] De alguma forma, ele libertou a todos com sua sabedoria e seu amor. Libertou os acusadores de matar aquela mulher e, ao lhes tocar a consciência, ocasionou a consequente revisão da própria vida. Libertou a mulher de ser apedrejada e abriu-lhe nova oportunidade de vida. Partindo de perguntas ao redor de um fato, Jesus ilumina também, com a verdade da misericórdia e do valor da pessoa humana, os membros do povo que ali estavam e assistiam à cena. Tudo nos leva a concluir que ensinar é libertar o ser humano das muitas amarras impostas pelo pecado, pelo legalismo, pela insensatez, pelo ódio, pela falta da fraternidade (Dom João Justino Silva, 2022). Portanto, nós nos perguntamos: como, porém, pensar a humanidade? Pensar a humanidade a partir da educação, a partir da experiência, a partir da solidariedade. Pensar uma nova humanidade que educa olhando para o outro, que estabelece parâmetros de justiça, paz e fraternidade. “Essa é a chave. O novo humanismo deve principiar na ‘relação’, no ‘jogo’ do ser humano com seus iguais, com a natureza e com Deus” (Ercilia Magaldi, 2022). Referências CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2022: Fraternidade e Educação: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26): texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2022. MAGALDI, Ercilia Simone D. A pandemia e um novo humanismo. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 345, p. 36-43, maio/jun. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/a-pandemia-e-um-novo-humanismo/. Acesso em 13 jun. 2022. SILVA, João Justino de Medeiros. Fraternidade e educação. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 344, p. 4-11, mar./abr. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/fraternidade-e-educacao/. Acesso em 13 jun. 2022. Lucas Fortunato Carneiro é professor de Ensino Religioso e coordenador da Dimensão Missionária no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.

Pedro e Paulo: duas colunas e uma pedra angular

“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”Mateus 16,13-19 O evangelho indicado para a festa de São Pedro e São Paulo nos situa diante de uma pergunta provocativa de Jesus: “e vós quem dizeis que eu sou”. Tal pergunta, dirigida aos discípulos e a cada um de nós, não só ajuda a “des-velar” (tirar o véu) a verdadeira identidade de Jesus como também nossa identidade original. Pedro, ao responder − “Tu és o Messias…” − no fundo, estava também deixando transparecer sua própria nobreza interior, aquilo que é o fundamento e sobre a qual se pode construir toda uma vida. E Jesus, como verdadeiro “pedagogo”, explicita o que estava escondido nas profundezas do coração de Pedro. “Tu és ‘petra’ (rocha, base sólida)”. Essa é a verdadeira identidade de Pedro. Ressoa no interior de cada um de nós esta mesma voz: “Tu és rocha…”. O coração de cada um está habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; sente-se seduzido pelo que é verdadeiro, bom e belo; busca ardentemente a pacificação, a unificação interior, a harmonia com tudo e com todos…; sente ressoar o chamado da verdade, o magnetismo do amor, da plenitude; sente-se atraído por um desejo irreprimível de autotranscendência, de crescimento, de maturidade. Só a partir da vivência e da solidez interior poderemos descobrir o que significa Jesus como “Messias, o Filho do Deus vivo”. Só a partir da identificação com Ele é que poderemos também descobrir nossa original filiação, fundamento de nossa vida: “somos filhos e filhas do Deus vivo”. A filiação é a solidez que nos unifica a todos; ela é a base que sustenta nossa identificação com Jesus Cristo. Não é fácil tentar responder com sinceridade à pergunta de Jesus: “Quem dizeis que eu sou?”. Na realidade, “quem é Jesus para nós?”. Sua pessoa, seu modo original de ser e viver, chega a nós através de vinte séculos de imagens, fórmulas, devoções, experiências, interpretações culturais… que vão desvelando e velando ao mesmo tempo sua riqueza insondável. Mas, além disso, cada um de nós vai revestindo a Jesus com aquilo que nós somos. E acabamos projetando n’Ele nossos desejos, aspirações, interesses e limitações. E, quase sem nos dar conta, O apequenamos e O desfiguramos, mesmo quando queremos exaltá-lo. Mas Jesus continua vivo, e sua presença, na história da humanidade, sempre se revela provocativa e surpreendente. Na realidade, o que notamos é que grande parte dos cristãos não seguem e não se identificam com a Pessoa de Jesus; seguem doutrinas, ritos, algumas obrigações legais… que não têm impacto no modo de viver de cada um. Mas Jesus não se deixa etiquetar nem se deixa reduzir a alguns ritos, algumas fórmulas ou alguns costumes. Jesus sempre desconcerta a quem se aproxima d’Ele com atitude aberta e sincera. Ele se revela sempre diferente daquilo que pensamos e esperamos. Sempre abre novas brechas em nossa vida, rompe nossos esquemas e nos atrai a uma vida nova. Quanto mais O conhecemos, mais sabemos que ainda estamos começando a descobri-lo. Responder à pergunta − “quem dizeis que eu sou?” − é “perigoso” porque nos compromete com o modo de viver de Jesus: sua liberdade perante as tradições religiosas, sua relação com os mais pobres, sua opção clara em favor de uma causa humanizadora (Reino), a vivência dos valores presentes nas Bem-aventuranças, a visibilização do mandamento do Amor… Literalmente falando, Jesus é um “subversivo”, pois “sub-verte” nosso modo fechado de viver e de nos relacionar com os outros. Percebemos nele uma entrega livre que desmascara nosso egoísmo; Ele revela uma paixão pela justiça que sacode nossas seguranças, privilégios e busca de poder; transparece n’Ele uma ternura que deixa descoberto nossa mesquinhez, uma liberdade que põe às claras nossos apegos e dependências. E, sobretudo, vemos n’Ele um mistério de abertura, proximidade e intimidade com o Deus da Vida, que nos atrai e nos convida também a abrir nossa existência à intimidade com Ele. Só iremos conhecendo Jesus na medida em que nos identificamos com Ele e nos revestimos de seus sentimentos, valores, critérios… Só há um caminho para aprofundar em seu mistério: segui-Lo; seguir humildemente seus passos, abrir-nos com Ele ao Pai, prolongar seus gestos de amor e ternura para com todos, olhar a vida com seus olhos, compartilhar sua fidelidade à causa do Reino… São Pedro e São Paulo viveram, por caminhos diferentes, um original encontro com o Mestre da Galileia. Encontro que “des-velou” e extraiu o que havia de mais nobre e humano no coração de cada um deles (“tu és rocha” – “tu és paulo”). Foi essa solidez interior, que se visibilizou na maneira original de cada um seguir Jesus Cristo, que os transformou em colunas da Nova Comunidade dos seguidores do Nazareno. A eles foi conferida uma “autoridade” como caminho para o serviço e a promoção da vida. Jesus compartilha com eles sua mesma “autoridade”, que não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe. Jesus tem “autoridade” porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir. A expressão “autoridade” vem do verbo latino “augere”,que significa literalmente: aumentar, acrescentar, fazer crescer, dar vigor, robustecer, sustentar, elevar, levantar o outro, colocá-lo de pé, impulsioná-lo para frente… É a qualidade, a virtude e a força que serve para apoiar, para alentar, para ajudar as pessoas a serem elas mesmas, para fazê-las crescer, desenvolvendo suas próprias potencialidades. “Autoridade” significa recuperar a autoria, ativar a autonomia àquele que está impedido de optar e de fazer seu caminho. Nesse sentido, a autoridade nunca é perigosa para a pessoa, jamais é imposição ou atentado contra sua legítima autonomia ou liberdade. A autoridade é essencialmente amor. Também o exercício da autoridade deve ser medido pela palavra e pela obra de Jesus Cristo. E não pode ser de outra maneira, já que, se a origem da autoridade na Igreja é divina, também deveria ser “divina” o modo de exercê-la. Se toda autoridade provém de Jesus, deveria ser exercida à maneira como Jesus a exerceu, e isso vale tanto

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