Seguimento de Jesus = Esvaziamento do “ego”

“Quem não se desapega de sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26) Para poder entender o sentido do evangelho de hoje é preciso recordar que Jesus está a caminho de Jerusalém. Ele adverte à multidão que o acompanhava sobre as exigências próprias de um autêntico seguimento; para Ele não basta o entusiasmo passageiro e o fervor momentâneo. No fundo, Jesus quer verificar as reais motivações e a sinceridade de atitude daqueles que estão fazendo caminho com Ele. É preciso ter somente um “foco” no caminho do seguimento; há sempre o risco de caminhar em diferentes direções, desviando-se da atenção primeira no caminho de Jesus. Daí a radicalidade das exigências de Jesus: “desapegar-se da família”, “carregar a cruz”, “renunciar a tudo que tem”. As três se resumem numa só: disponibilidade total. Sem ela não pode haver seguimento. O seguimento de Jesus é questão de sedução, de atração, de paixão…; exige um “investimento afetivo” total. O(a) discípulo(a) pela metade não pode fazer caminho com Jesus; não servem as entregas pela metade. Tudo se decide nos afetos. Os afetos podem nos situar no horizonte maior (seguimento) ou podem nos fixar nas mediações (família, apego a si mesmo, às coisas…) atrofiando e esvaziando o impulso do seguimento, travando a liberdade. A afetividade ordenada nos faz livres para viver o seguimento de Jesus com mais leveza. Por isso, é preciso detectar as aderências e fixações afetivas (apegos) que limitam a liberdade e que podem minar o seguimento. Seguir Jesus é deixar de viver para o “eu”, é descentrar-nos, não ser mais o centro de nosso próprio projeto. O seguimento brota, pois, de uma “sintonia profunda” com Ele, esvaziando nosso “eu inflado” para entrar em comunhão com seu modo de viver e com seu Projeto. Jesus é presença sem mescla de “ego”: o centro de sua vida não está em si mesmo, mas na comunhão com a vontade do Pai e na solidariedade com os últimos e sofredores. Diante d’Ele, brota em nós uma “ressonância interior”, absolutamente iluminadora e motivadora, que desperta, ativa e mobiliza a segui-lo, descentrando-nos de nós mesmos. Esta nova experiência modifica a maneira de perceber toda a realidade: a família, os outros, os bens, o nosso próprio eu… A vida mesma é percebida de um modo novo. Este é o caminho do Seguimento. Jesus quer seguidores(as) com liberdade, com decisão e responsabilidade. Para isso é preciso “renunciar a tudo” para ser pessoas, em amor e partilha. “Renunciar a tudo” para que todos possam ter, para que todos possam compartilhar fraternalmente tudo. O que significa “renunciar a tudo” e desapegar-se dos seres mais queridos? Significa sair da visão egocentrada, nascida da crença errônea de que somos o ego. Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado (e fechado na torre) e descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; não vejas nem sequer a tua família a partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contempla-os a partir de tua verdadeira identidade, onde todos sois um, mas sem apego nem comparações”. Não é a renúncia em si que nos salva, mas o desenvolvimento e a expansão da vida em direção à plenitude. A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando se faz por algo melhor. O apego às coisas ou às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o fluxo da vida e o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. Os ensinamentos de Jesus, no evangelho deste domingo, são um chamado ao realismo. Para além das imagens que Ele usa, poderíamos sintetizá-las assim: Até onde estou disposto a ir no seguimento? Estou motivado e decidido a manter o “sim” até o final? Estou pronto para viver a fidelidade à causa do Reino, mesmo correndo o risco de encontrar cruzes? Sabemos que a cruz só tem sentido quando é consequência de uma opção autêntica em favor da vida ou de uma verdade assumida: por exemplo, se sofremos por levar adiante uma causa justa, por defender pessoas, por evitar um mal ou denunciar uma injustiça… Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser fiel até o final à sua mensagem: o amor incondicional de Deus e o compromisso com os excluídos. Cruz, (“staurós” no grego) não significa simplesmente patíbulo, instrumento de tortura imposta pelos romanos àqueles que consideravam transgressores da ordem ou subversivos; significa prontidão, estar preparado, estar de pé, mobilizado, firme, fiel até o fim… Nesse sentido, a “cruz-staurós” é vida aberta, expansiva, oblativa, vida descentrada em favor dos outros; ela é vivida a partir de uma causa: o Reino. A cruz não é um “peso morto” a ser suportado; ela é consequência de uma opção radical em favor da vida; a cruz não significa passividade e resignação, pois ela brota de uma vida plena e transbordante; a cruz resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida na fidelidade ao Pai, que quer que todos vivam intensamente. Existem cruzes que são vazias, sem sentido, insensatas…, pois elas fecham a pessoa em si mesma, no seu sofrimento e angústia; não apontam para o futuro, para a vida. São cruzes que brotam dos fracassos, dos traumas, das rejeições, das experiências frustrantes… e que não foram integradas Tornam-se um “peso morto” pois não abrem um horizonte de sentido; elas se fixam no passado, na mortificação, no ritualismo vazio… com a intenção de agradar a Deus. Fazer o caminho com Jesus, que carrega a cruz da fidelidade, ajuda a romper com as cruzes que afundam no desespero e no fracasso. Assim entendemos a afirmação de Jesus no evangelho deste domingo: “quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Carregar a cruz significa esvaziamento do próprio “ego” para viver em sintonia com a causa de Jesus e a fidelidade no compromisso com os outros. É gratificante trazer à memória tantos homens e mulheres que são presença compassiva e, à maneira de Jesus, arriscam suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas

Revitalizando a Vida Religiosa Consagrada através do Autoconhecimento

Introdução O presente artigo visa refletir sobre a temática do autoconhecimento na Vida Religiosa Consagrada aprofundando elementos que constituem um percurso de entrega radical no serviço ao Reino, isto é, como o consagrado conhece a si mesmo, se aceita e se reconcilia com a sua própria história, reconhecendo o dom de si e orientando-o para à humanidade. Partimos da premissa de que o caminho do conhecimento de si, nem sempre é fácil, e isto é verdade, pois, é um percurso que exige ruptura com uma falsa imagem de si mesmo, no intuito de olhar-se com realismo, o qual, diante de tantos desafios apresentados pelo mundo atual, se faz necessário para todas as pessoas, e mais ainda, se faz imprescindível para aqueles que se sentem chamados à consagração total no seguimento de Cristo[1]. O autoconhecimento é uma passagem basilar para a maturação da própria vocação, para a autoaceitação das próprias emoções e a integração do indivíduo na sua totalidade, sobretudo para se configurar Àquele a quem se segue. Na realidade, a vida consagrada precisa de pessoas que tenham atingido um nível de autoconsciência madura e uma transparência que lhes permitam administrar suas relações interpessoais com uma certa liberdade, de modo a gerar vida e liberdade ao seu redor, como afirma Rulla: “Deus chama a profundidade de nosso ser, nosso coração, à liberdade para a autotranscendência do amor” (1985, p. 256). O autoconhecimento objetivo, coloca cada indivíduo em contato com o profundo mistério de si, com suas lutas, dores, necessidades, suas resistências que dificultam seu crescimento e os desejos que habitam no coração humano. Conhecê-los, aceitá-los e orientá-los para o que se escolheu é um dos principais desafios na formação[2] à vida religiosa consagrada a fim de acolher e compreender a vontade de Deus na própria vida, sem negar a realidade. Comprometer-se com a proposta de Deus requer tempo, vida de oração assídua, discernimento, corresponsabilidade, abertura as mediações, porque esta enfatiza os elementos a serem amadurecidos e purificados no caminho de crescimento vocacional. Sem um verdadeiro e sincero conhecimento de si, a ser desenvolvido face ao ideal e, portanto, aos critérios objetivos do crescimento da própria vocação cristã, seria quase impossível compreender o que há realmente para ser purificado, revitalizado e amadurecido. Portanto,  faz-se indispensável cultivar um profundo e gradual percurso de acompanhamento psicoespiritual. 1 Autoconhecimento como percurso de autoaceitação Amedeo Cencini[3] em seus escritos, destaca que o conhecimento verdadeiro e realista, leva cada indivíduo ao contato com o que se vive no eu atual: limites  e valores. Permite com que reconheça os dons e talentos recebidos de Deus e os seus pontos a serem melhorados; faz com que reconheça a sua própria realidade e negatividade dando-lhe um nome preciso; ajudá-o a compreender onde se é particularmente frágil,  para identificar as áreas da própria escravidão e vulnerabilidades. Finalmente, levá-o a conhecer as suas incoerências e as  áreas da personalidade que estão fechadas à ação do Espírito,  num nível consciente e inconsciente. A partir daí, quanto mais precisa a identificação, mais eficaz pode ser então o trabalho de purificação, conversão, integração para  alcançar essa consciência em viver a verdade, a sinceridade de uma forma autêntica, sem exaltação ou  degradação.  Conforme o autor, o autoconhecimento requer outro passo importante que é a autoaceitação, em outras palavras,  olhar para si próprio com um olhar benevolente, sem a autocondenação. Aceitar-se como se é, com falhas e qualidades, para que  a autoaceitação o ajude a administrar as suas necessidades, a superar seus limites, e acima de tudo não pretendendo eliminar o seu componente negativo, mas reconhecendo-o como um sinal inerente de humanidade. Atualmente, é comum encontrar consagrados incertos da própria identidade, de quem realmente são, ou com a sensação de que a parte mais profunda de si está submersa por uma autoimagem plena de convicções, regras, preconceitos, medos, ansiedades que, realmente nem sequer o conseguem reconhecer. Muitos, às vezes, por falta de tempo, de instrumentos ou até mesmo por  desinteresse nunca tiveram a oportunidade para descobrí-lo. Com o intuito de superar desconfortos, falta de sentido, insatisfações, perda do encanto inicial da própria vocação e bloqueios interiores, faz-se necessário aventurar-se em um  percurso sistemático e perseverante de conhecimento de si, a fim de compreenderem suas limitações e fragilidades, bem como, redescobrir seus talentos e potenciais inexpressivos. Desta forma, e, graças à exploração de sua verdadeira identidade como pessoa, será possível construir uma boa autoestima e sentirem-se realizados, integrados e sobretudo livres nas relações consigo mesmo, com os outros e com Deus. 2 Cultura do acompanhamento psicoespiritual A cultura do acompanhamento psicoespiritual ainda é muito escassa ou quase inexistente na vida religiosa consagrada e comunitária, de um modo geral. Muitos, ainda vivenciam a mentalidade de que um processo psicoterapêutico seria apenas para pessoas “problemáticas” ou que possuem um determinado nível de “patologia”, resultando por viver uma vida medíocre, como fotocópias, inconsistente ou sem uma identidade estruturada no total desconhecimento de si. Certamente, somente após revisitar um passado por vezes desconhecido, mas, que continua muito vivo dentro de cada indivíduo, que desperta a cada vivência de suas memórias afetivas, será possível uma resposta responsável, livre e autêntica em sua opção fundamental. No que diz respeito ao consagrado, além de entrar em um mundo interior para conhecer as suas incongruências, bem como suas potencialidades, o percurso de autoconhecimento faz-se crucial para assimilar os dons recebidos de Cristo, para  identificar-se com Sua vida e ser configurado com Ele. Para além das mãos humanas, o acompanhador com uma particular preparação, embora conduzido pelo Espírito, caminha junto, mas não alcança, pela pessoa,  um verdadeiro e transformante “entrar no próprio mundo interior” sem as mãos de Deus, pois Deus que habita em cada ser, o conhece em profundidade. Neste árduo itinerário, cada passo, cada descoberta, sentimento, incoerência revelada, ferida aberta, são integralmente envolvidos no manto de amor e misericórdia d’Aquele que conhece cada pessoa como nenhum outro e a acolhe, conforta, ilumina, cuida, cura, fortalece, ressignifica, revitaliza e finalmente, faz nova todas as coisas (cf. Ap 21,25). Através de um percurso sistemático poderão dizer como  o salmista, que se maravilhou com o mistério da origem humana e louvou

O evangelho dos não convidados

“Quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”(Lucas 14,1.7-14) Jesus é um profundo conhecedor da interioridade humana. Sabe que ali dois dinamismos estão em contínuo conflito: de um lado, o ego farisaico, que aproveita todas as ocasiões para brilhar diante dos outros (cultura da aparência), ser o centro, chamar a atenção sobre si…; do outro, o eu profundo, sábio que, na sua liberdade e espontaneidade, deixa transparecer sua luz no encontro com o diferente. As imagens e as palavras de Jesus no evangelho deste domingo são tremendas. A motivação daqueles que buscam ocupar os “primeiros lugares” é expressão de uma interioridade vazia e estéril; ela é reveladora de uma das necessidades características do ego, que busca “aparecer” diante dos outros, como um modo de autoafirmar-se, de se sentir superior aos outros, humilhando-os e desprezando-os. Quando uma pessoa é escrava de seu próprio ego, não lhe importa que o outro desapareça ou se sinta marginalizado e privado de seus direitos. Vive tão a fundo sua “autoidolatria” que até lhe parece normal continuar agindo assim. A pessoa sábia, no entanto, compreende que tudo o que os outros pensam ou digam a respeito dela não lhe acrescenta nem lhe tira nada de seu valor. Ela não se move a partir da necessidade de agradar ou de “ficar bem” diante dos outros. Vive, simplesmente, na coerência com o que é mais verdadeiro em seu interior, onde o ego não tem predomínio. Da mesma maneira que não busca reconhecimentos nem bajulações, tampouco lhe interessa perseguir os primeiros lugares. Vive com liberdade interior, a partir de sua própria consciência de plenitude. Flui em cada momento com o que é em sua essência; fluidez que brota da compreensão de si mesma, aquela que lhe faz consciente de sua “irmandade” com todos os humanos e todos os seres. Portanto, o sábio não atende aos necessitados – “pobres, aleijados, coxos e cegos” – para receber uma “retribuição” futura, senão porque sabe que são de sua mesma “família”. O comportamento dele – como foi do próprio Jesus – se caracteriza pela gratuidade. Não busca alimentar o interesse egoico, porque não se deixa determinar pela carência. Sua ação é fim em si mesma, porque nasce de uma consciência de plenitude que se transborda. O evangelho deste domingo nos convida a estar com Jesus numa refeição, em casa de um dos chefes dos fariseus. Ele era consciente de que muitos desse grupo religioso estavam contrariados com sua forma de proceder e vigiavam seu modo de falar e agir. Por isso, ali, nessa refeição, Jesus não se sentia à vontade, pois faltava a presença de seus amigos prediletos: os pobres, aleijados, coxos, cegos… A conduta dos convidados e do chefe fariseu são, para Jesus, uma ocasião privilegiada para propor os valores do Reino. Para Ele, no banquete da vida, não basta dar e receber generosamente, mas acolher com gratuidade todo aquele que não pode oferecer nada em troca. A honra não se fundamenta mais no poder e no prestígio, mas na bondade, humildade e hospitalidade. A nova comunidade do Reino é esse banquete no qual todos têm lugar, seja qual for sua origem, crença, situação pessoal; ali todos se sentem convidados, sem merecimentos exclusivos nem dignidades adquiridas. O relato deste dia não só recorda o modo original de Jesus agir, senão que é um chamado à comunidade cristã para que seja comunidade inclusiva e aberta, na qual se respeitem as diferenças, se construam espaços de igualdade, onde se proclame um Deus gratuito e cheio de amor e perdão. Nela não haverá estrangeiros nem imigrantes, não haverá primeiros nem últimos, não haverá resquícios de gênero nem poderes que excluem. Se não nos assentamos à mesa com o outro, estamos perdendo a possibilidade de saborear os alimentos humanizadores: encontro, alegria, partilha, hospitalidade, festa, vida… Tudo aquilo que acontece na alegria, tudo aquilo que é distribuído com vida, com sentido e sentimento, alimenta algo em nós, ou alguém fora de nós. Multiplica-se, triplicam-se os cestos de pão. Na mesa, “cristificamos” e “sacralizamos” os frutos da terra e do trabalho humano. Por isso, os alimentos fornecidos pela natureza e dela extraídos pelo trabalho do ser humano vêm carregados de tão rico simbolismo: quando postos à mesa, significam a mãe natureza dadivosa e boa, criada por Deus, e o trabalho do ser humano, que na mesa vem se alimentar para continuar a viver. A relação de alteridade à mesa tem o poder de reconstruir laços quebrados, perdidos em nosso passado (mesa, lugar da memória); ela tem a força de reavivar os sentimentos soterrados pelos afazeres diários. A presença provocante do encontro com o outro desperta em nós o “dinamismo conspiratório”, ou seja, respiramos juntos o mesmo ar, compartilhamos o mesmo sonho, a mesma missão… Um caminho “mistagógico”, que é pura acolhida do Mistério revelado na mística da mesa. Esse caminho é busca, encontro e acolhida. Podemos ler o evangelho deste domingo também em chave de interioridade: no nosso eu mais profundo, há uma mesa pronta para a refeição; geralmente é o “fariseu” que nos habita o controlador desta mesa; é o nosso ego inflado, perfeccionista, legalista, dominador que não admite a presença de nossos pobres, aleijados, coxos, cegos, enfim, todas as dimensões de nossa vida que foram excluídas, reprimidas e marginalizadas. O evangelho nos revela que, em nossa interioridade, há muitas vivências, experiências, feridas, fragilidades, fracassos, crises… que não foram acolhidas nem integradas, e que clamam por um lugar à mesa do coração; “multidões” nos habitam e querem compartilhar a mesa da vida. O nosso fariseu interior também convida Jesus para participar da sua ceia; e Jesus é aquele que acolhe o convite, mas não se sente bem à mesa do fariseu, pois nota a falta dos seus amigos pobres. Ele tem liberdade de transitar pelo nosso interior e de acolher tudo o que foi reprimido e excluído. São justamente nossas feridas as portas e janelas abertas por onde entra a mensagem inovadora de Jesus. O “fariseu” já está formatado, petrificado, refratário

Ponte para que diferentes mundos se encontrem

Juan Tapia Contreras é um jovem chileno, missionário do Verbo Divino (verbita). A congregação, conhecida pela sigla SVD, é um dos ramos da Família Arnaldina, a primeira a ser fundada por Santo Arnaldo Janssen. Atualmente, João, como quis ser chamado no Brasil, estuda filosofia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), em Belo Horizonte-MG. Apoia os trabalhos das Casas do Homem de Nazaré e, nos fins de semana, colabora com a pastoral na Paróquia São Gabriel, no bairro Taquaril, na capital mineira. Na entrevista concedida ao também verbita Pe. Arlindo Pereira Dias, da Rede Rua, o missionário partilha um pouco de sua experiência junto ao povo da rua, em 2021. João participou em um projeto de distribuição de alimentos realizado em São Paulo-SP, durante a pandemia de covid-19, coordenado pela Rede Rua. Rede Rua: Quem é Juan René Tapia Contreras? João: Chegando aqui no Brasil, eu quis ser conhecido como João, para facilitar um pouco a vida de todos e também a minha. Percebi que ajudaria no nosso relacionamento. Eu acredito profundamente que, quanto mais familiar e mais próximo eu estiver das pessoas, mais ajudará minha vida pastoral, minha caminhada. Falo assim porque eu sou um religioso da Congregação do Verbo Divino. Sou chileno e estou aqui no Brasil há quase quatro anos. Cheguei em 2019, para fazer uma etapa que nós chamamos de noviciado. Depois de um ano de experiência muito profunda na oração, na contemplação e no conhecimento da Congregação do Verbo Divino, comecei a estudar Teologia em São Paulo. Nessa caminhada, na Teologia, pude também conhecer as pessoas em situação de rua. Então comecei a fazer uma pastoral muito bonita nessa área. Rede Rua: Por que você decidiu continuar no Brasil? João: Eu fiquei no Brasil, depois do noviciado, por uma razão muito prática, e que também tem raízes bem profundas. Na prática, é que, no Chile, eu não tinha mais a possibilidade de estudar Teologia. A nossa Congregação estava para fechar a casa de Teologia. Portanto eu não teria condições para voltar para o Chile. Diante dessa situação, eu fiquei como “sem-casa”, sem pátria para poder continuar minha formação. Mas aí eu vi também a vontade de Deus em poder decidir livremente o lugar que eu poderia ficar. Na verdade, eu tinha opções, porém eu decidi pelo Brasil devido à necessidade de continuar uma busca que eu tinha iniciado lá no noviciado. A busca de estar ao lado, de estar junto aos menos favorecidos da sociedade. Vi essa possibilidade aqui no Brasil, como poderia ser em qualquer parte do mundo, mas eu tinha tido a experiência aqui no Brasil, a qual era muito mais forte e muito mais dilacerante em relação à realidade do povo. Por isso eu decidi fazer minha formação aqui, transformando em prática o que entendia por Teologia. Rede Rua: Como você foi ao encontro do povo da rua? João: Conhecer as pessoas em situação de rua, o povo da rua, era um anseio bem profundo que começou a surgir na mesma época do noviciado. No Chile, eu morava em Santiago e, durante minha formação, havia muitas pessoas em situação de rua, que sofriam bastante. Mas, para mim, isso era uma realidade paralela, uma realidade que não me tocava. A partir da experiência que eu vivi no meu primeiro ano aqui no Brasil, isso me transformou. Era uma experiência espiritual que tinha que se concretizar. Uma experiência que surgiu da oração e tinha que se fazer ação, que tinha que se fazer vida. Eu me lembro de que a experiência mais marcante para chegar à rua, depois dessa experiência de oração, experiência mística, foi conhecer um casal na rua, que se aproximou de mim. Eu mal falava o português e, pior ainda, não entendia quando eles me falavam. Porém eu tive uma atitude de escuta para com esse casal que encontrei na Chapelaria Social da Rede Rua, em 2019. Eles estavam passando e, por acaso, a mulher começou a contar um pouco da vida dela, das perdas que teve, dos filhos e de como chegou à rua. Isso me tocou tanto que, mesmo não compreendendo tudo o que ela me falou, ficou em minha memória e coração. Quando a gente se despediu, foi com um abraço. Ela falou que iria orar por mim, ele também. Isso me marcou bastante, porque, apesar de não nos conhecermos, não ter entendido muito do que eles me falaram, eu tive uma atitude de abertura para com eles. Eu senti que eles também se entregaram para mim. Isso mudou a minha compreensão das pessoas e do mundo daqueles que vivem em situação de rua. Rede Rua: A pandemia o aproximou da população de rua? Como? João: A pandemia, para todos, foi uma situação bem complexa e bem difícil, que nos levou a entrar em nós mesmos. No meu caso, a pandemia me ajudou a pensar mais em mim, coisa que eu normalmente não fazia. Isso teve um efeito contrário. Eu entrei e comecei a pensar mais em mim, comecei a me preocupar mais comigo. Lá dentro, eu percebi que eu tinha que sair de mim mesmo. É interessante, porque, antes da pandemia, eu fazia muita atividade, muita ação social. Mas hoje, olhando para trás, eu vejo que tudo isso é ativismo, que faz bem para muitas pessoas, que são ajudadas, mas, para mim, não era o melhor. Então, quando veio a pandemia, fiquei muitos meses fechado, trancado em casa. Eu percebi que eu precisava sair de mim mesmo. Então foi um duplo movimento: um de entrada e um de saída de mim. Nesse movimento de saída, eu percebi que muitas pessoas precisavam de alguém que as escutasse, de alguém que estivesse perto. Eu sabia que, entrando na rua, chegando à rua, eu não iria mudar a vida ou a realidade que eles estavam vivendo, e que ainda continuam vivendo. No entanto, eu sabia que, pelo menos, iria tocar ou atingir o coração de uma pessoa, ou de algumas pessoas. Isso me motivou, no contexto da pandemia, a

Santa Maria do Céu e da Terra

“… conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência para sempre”(Lucas 1,39-56) Neste domingo celebramos a festa da Assunção de Maria. Normalmente, quando pensamos na Assunção, vêm à nossa mente muitas imagens de Maria olhando para o alto, com as mãos juntas, rodeada de anjos, sobre nuvens que indicam que é elevada ao céu. É uma festa que nos fala da santidade e da plenitude daquela que mais amou, conheceu e seguiu seu Filho. Mas, se ficarmos só com as imagens tradicionais da elevação de Maria, não dizem muito para nós, porque nossa própria experiência tem pouco a ver com elas. O próprio Evangelho deste domingo nos ajuda a tomar distância das imagens tradicionais da Assunção e nos apresenta Maria com os pés na terra. Ela foi “assumida” por Deus porque “desceu” ao mais profundo da história humana, fazendo-se solidária e servidora em favor de seus filhos e filhas. É na vivência de “saídas” e “encontros” que Maria se revela próxima de todos nós; continuamente, somos chamados a viver a “cultura do encontro” e do deslocamento solidário, sobretudo com os mais pobres e excluídos. O evangelho da Visitação nos revela o encontro de duas mulheres grávidas. Maria e Isabel são o ícone do verdadeiro “encontro”, carregado de hospitalidade, alegria e serviço; ambas, em idades diferentes, se acolhem, se entendem e se ajudam mutuamente, pois compartilham o mistério da vida que cada uma carrega em seu ventre. É como se uma dissesse à outra: “isto que está acontecendo em seu ventre é coisa de Deus, os homens não compreendem!”. Segundo Lucas, Maria, depois de receber a notícia de que seria a mãe do Messias, “pôs-se a caminho” com “prontidão”, que também pode ser traduzido “com diligência, com empenho, com cuidado…”. Trata-se de uma decisão que brotou de sua nova condição de futura mãe, de sentir que em suas entranhas crescia a nova Vida que vem de Deus. Deus saiu ao encontro de Maria e esta vai ao encontro de Isabel. São duas gestações que nos convidam a contemplá-las à luz da fé, porque acontecem em circunstâncias que humanamente são impossíveis. No caso de Maria, porque “não conhece homem algum” e, no de Isabel, porque é anciã, “concebeu na velhice”.A vida que nasce de Deus rompe todas as normas, supera nossos cálculos, nos surpreende, irrompendo com força ali onde nós não vemos possibilidades. Essa experiência de que para Deus “nada é impossível”, de que Ele sai ao encontro e faz surgir vida em duas mulheres simples, como entre tantos pobres e humildes, é uma realidade vivida pelas primeiras comunidades cristãs, pobres, pequenas e perseguidas. É também a experiência nossa, tanto no nível pessoal como comunitário. São muitos(as) que, às vezes, se sentem como Isabel: idosas e cansadas para algo novo, ou muito sós e cheios(as) de dificuldades para acolher as surpresas de Deus. Duas mulheres grávidas, que se encontram; de que falam? Sem dúvida, da “novidade” de seus ventres, de sua alegria, do futuro… Nesse caso, nos diz o evangelho, que a alegria é transbordante e contagiosa, tão profunda e intensa que “o menino salta no ventre de Isabel” e esta se enche do Espírito de Deus. E a partir desse Espírito, falam de um futuro que as transcende, que não é só o futuro de seus filhos, é o futuro de todo o povo, de toda a humanidade. A profundidade da alegria e da fé faz com que este encontro adquira outra dimensão: do encontro de duas mulheres passa a ser o encontro definitivo e permanente de Deus e nosso mundo, seu mundo. Assim, Maria se põe a cantar ao Deus da vida e ao mundo novo que Ele torna possível; ela, consciente do que está vivendo, deixa jorrar de seu interior um ousado cântico que expressa uma das imagens de Deus mais inspiradoras e carregadas de esperança do Novo Testamento. Maria expande sua consciência, maravilhada da ação de Deus nela e para além dela; em Deus, ela se sente em sintonia com a história de seu povo e da humanidade inteira. Descobre que Deus é grande porque entra na história a partir dos últimos, dos pobres e deslocados. E afirma com contundência que é a ela, humilde mulher nazarena, a quem todas as gerações chamarão bem-aventurada. E essa experiência de que Deus “faz maravilhas nela” é a razão pela qual afirma que Ele é misericordioso e que esta misericórdia, realizada nela, se estende, de geração em geração, sobre aqueles que o temem, sobre aqueles que creem nele e o amam. Sua experiência pessoal é a que lhe faz descobrir como Deus atua no mundo e como está disposto a fazer novo nosso futuro, com ações desestabilizadoras em favor dos pequenos, dos necessitados. Aclamar e celebrar hoje Maria, que é levada ao encontro definitivo com Deus, nos compromete a viver, como ela, os outros encontros transformadores nos quais partilhamos e cantamos a vida que Deus, por sua misericórdia, derrama em nós, em nossa pobre realidade. No Magnificat, Maria canta a sua própria história e “faz memória” da história de seu povo. E isso nos desafia a fazer o mesmo. Ninguém vive uma vida espiritual fecunda enquanto não for capaz de assumir aquilo que “é” na sua originalidade, se não for capaz de construir a relação com Deus como um diálogo vivo entre um “eu” e um “tu”. A oração de Maria não é feita de fórmulas. Ela expõe a sua vida naquilo que diz. À luz do Magnificat, a história não se reduz a eventos opacos, vazios, tristes… Com o cântico de Maria, a história se ilumina, se transfigura e nos desafia. A ação providente de Deus na história plenifica, dá sentido e costura os eventos, constituindo-se em “História de Salvação”. O Magnificat nos faz ver o que todo mundo vê, mas de um “modo” diferente: vemos mais longe, vemos além, vemos mais fundo… O encontro com a História Sagrada nos ajuda a ler nossa história sob nova perspectiva: a da salvação. Deus desce à

A família é indispensável no processo de formação integral do ser humano

Que a família é o pilar da sociedade nós já sabemos. Que ela é a base e a primeira escola na vida de qualquer ser humano, também. Mas por que a família é tão importante para a formação de crianças e adolescentes? A família é a cellula mater responsável pela educação das crianças. Assim, assume relevante função na formação integral do ser humano, pois é seu primeiro espaço de convivência. É a primeira escola que proporciona grandes aprendizados, sendo um referencial de extrema importância para as crianças, na qual são experimentadas as afetividades, juízos e esperança. No mundo em que vivemos, família e escola são os dois pilares na formação do ser humano. Desse modo, a família favorece a educação informal (não sistematizada), também conhecida como socialização primária, que forma a base do indivíduo, que se inicia no nascimento, no lar. A educação formal (secundária) é a ofertada pela escola, onde se aprendem outras culturas e conhecimentos. Ao compreendermos que a criança está apta a aprender a todo instante, nos distintos âmbitos que a vida lhe oportuniza, percebemos que a família desempenha função primordial de mostrar os caminhos da vida, dar suporte nos momentos de necessidade, orientando sobre vivência no mundo, que, a cada instante, muda, renova-se. As conexões familiares são razões significativas para o aprimoramento da criança. Porém a inclusão da criança no universo escolar, com a socialização com outras crianças, professores, demais pessoas que compõem a comunidade escolar e acesso aos conteúdos acadêmicos, focados no aprimoramento das variadas áreas de conhecimento, consiste numa causa para a formação global da criança. Desse modo, tanto a família quanto a escola desempenham papéis fundamentais nos aspectos cognitivos, afetivos e sociais dos indivíduos. Assim, são necessários e fundamentais, na educação integral, a cooperação, a divisão de responsabilidades e o compartilhamento de experiências nas ações educativas e formativas dos educandos. Conforme é explicitado na introdução da BNCC (Base Nacional Comum Curricular): Este documento normativo aplica-se exclusivamente à educação escolar, tal como a define o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), e está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. No momento em que essa parceria é fortalecida, alcança-se o significado de que, juntas, escola e família, formarão indivíduos mais responsáveis, sensatos, espiritualizados e conscientes de sua missão no mundo. O Papa Francisco, de uma forma bem clara, valida esse pensamento: Uma das formas fundamentais para melhorar a qualidade da educação a nível escolar é alcançar uma maior participação das famílias e das comunidades locais nos projetos educativos. Elas fazem parte desta educação integral, oportuna e universal (discurso do Papa Francisco aos participantes do seminário com o tema “Education: The Global Compact”, promovido pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em 7 de fevereiro de 2020). Durante o lançamento do “Pacto Educativo”, o Papa Francisco fez a seguinte assertiva: “Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla aliança educativa”. Diante dessa afirmação do Pontífice, é imperioso que se restaure o “Pacto Educativo” entre a família e a escola. Ao implementar essa ação, tendo a efetiva participação da família na rotina escolar, respeitadas todas as possibilidades de ensino ofertadas pela escola, fica claro o importante papel desempenhado pela família na formação integral do indivíduo. Compreende-se como essencial, portanto, o papel da família e da escola na estruturação educacional do ser humano. Para que isso ocorra de fato, é necessário que as duas instituições se complementem, priorizando sempre o aluno. Ambas têm seu dever no processo educativo, cada uma com suas atribuições, observado suas particularidades, contudo carecem uma da outra. Desse modo, a família desempenha um papel intransferível de formação, pois no seio da família é que crianças e adolescentes realizam suas primeiras conexões e continuam a fortalecê-las, o que definirá seu desenvolvimento no futuro. Adriane Gonçalves GuedesPedagoga, psicopedagoga e coordenadora pedagógica do ensino fundamental, anos finais, no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG.

Que fogo nos consome? Que paz buscamos?

“Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!”(Lucas 12,49-53) À primeira vista, o evangelho deste domingo pode provocar um certo mal-estar e nos deixar com um sabor amargo; dá a sensação de que Jesus veio para trazer fogo (um incêndio provocado) e divisão. Isso seria incoerente com seu modo de viver e sua mensagem. Em primeiro lugar, é preciso nos conectar com o evangelho do domingo anterior, onde Jesus afirmava que “foi do agrado do Pai nos confiar o Reino”. Se compreendemos bem tal afirmação, que implicações e exigências têm para nós, seus(suas) seguidores(as)? Fazer caminho com Jesus não é para as pessoas “frias” ou “mornas” em seu modo de viver. Seguimento implica calor humano, paixão, emoção…; seguir é ser fogo, reavivar o fogo interior, iluminar, dar calor… Jesus não veio provocar um incêndio destruidor. Ele nos fala da imagem do fogo como elemento que limpa e purifica, usado tanto pelos camponeses (“limpará completamente sua eira; recolherá seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” – Mt 3,12), como por aquele que busca purificar o ouro, “que é provado no fogo” (1Pd 1,7). Em qualquer caso, a imagem do fogo era muito eloquente para os primeiros cristãos, também provados no fogo da perseguição, que deixava a descoberto a pureza e solidez de sua fé. João Batista também fala de Jesus como aquele que “batizará com Espírito Santo e fogo” (Mt 3,11). E essa promessa se cumpre em Pentecostes: “Apareceram línguas como de fogo… Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2,3). Também os discípulos de Emaús sentiram arder seus corações quando escutavam as palavras do Ressuscitado, que caminhava junto deles. Santa Teresa de Jesus entendeu isso bem quando fala da “alma” como uma mariposa que se aproxima do Fogo, até ficar transformada, ela mesma, em fogo. A imagem do “fogo” nos desafia a nos aproximar da pessoa de Jesus e viver o seguimento de maneira mais ardente e apaixonada. Pois seguir Jesus não é questão de razão, mas de afeto, de atração, de sedução… O fogo que ardia no interior de Jesus era a paixão pelo Reinado do Pai e a compaixão pelos que sofriam. Jamais poderá ser desvelado esse amor insondável que o animava e o fazia arder em seu compromisso com a vida. O mistério de sua vida nunca poderá ficar contido em fórmulas dogmáticas nem em livros de sábios teólogos. Jesus atraía e queimava, perturbava e purificava. Ninguém podia segui-lo com o coração apagado ou com uma piedade estéril. Sua palavra, sua liberdade, seu estilo de vida… fez arder os corações de todos aqueles que dele se aproximaram: revelou sua presença amistosa junto aos mais excluídos, despertou a esperança e a confiança nos pecadores mais desprezados, lutou contra tudo aquilo que violentava o ser humano, combateu os formalismos religiosos, os rigorismos desumanos e as interpretações estreitas da lei. Nada nem ninguém podia bloquear sua liberdade e impedi-lo de fazer o bem. Nunca poderemos segui-lo vivendo na rotina das práticas religiosas ou no convencionalismo do “politicamente correto”. Nenhuma religião nos protegerá de seu olhar provocante. Nenhuma doutrina nos livrará de seu desafio. Jesus está nos chamando a viver na verdade e amar sem reservas. Isso queima! A maneira livre de Jesus viver, junto com a fidelidade à missão confiada pelo Pai, fez com que sua vida se tornasse questionadora, inclusive provocativa, para aqueles que se encontravam instalados em posições de poder e que não estavam dispostos a modificar. Por esse motivo, a atitude e o comportamento de Jesus sempre foram fonte de tensão, conflito ou divisão. E assim deve ser entendida toda sua vida. Jesus, com o seu modo original de ser e viver, acendia os conflitos, não os apagava. Não veio trazer falsa tranquilidade, mas tensões, enfrentamentos e divisões. Na realidade, Ele introduziu o conflito no próprio coração do ser humano. E isso comprometia inclusive a vida e a unidade das famílias. Até ali chegou a radicalidade da mensagem de Jesus, pois Ele mesmo foi incompreendido pelos seus próprios familiares, foi desprezado, traído e crucificado pelo seu povo. Há um traço na personalidade de Jesus que os Evangelhos destacam: Ele era um “transgressor”. Sua transgressão decorria da percepção de situações extremamente injustas vigentes na sociedade e das quais as primeiras vítimas eram os excluídos. Jesus optou por ficar do lado das vítimas. Jesus se tornou um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai, e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho. Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de amor e fraternidade), mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana. Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da sua fidelidade. O que tem valor em sua vida é seu Amor fiel e não os conflitos em si mesmos. A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus é o resultado do confronto entre sua missão (que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças) e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. A conflituosidade na vida de Jesus proveio do choque entre as exigências do Amor e a realidade injusta e pecadora. Jesus não cria conflitos; Ele os constata ao dar testemunho das exigências do Amor. Evidentemente, as palavras e a vida de Jesus nos mostram que Ele foi portador de paz, mas não uma paz sem conflito. Muitas vezes, Ele nos recorda que trabalhar pelo Reino é um processo transformador que exige passar pela porta estreita, deixar-nos refazer até nascer de novo; nesse caso, a paz não é comodidade, não é deixar as coisas como estão, mas viver um processo de transformação profunda, que costuma incluir despojamento e sofrimento. O conflito também perpassa nossa vida pessoal, familiar e comunitária; não é acidente de percurso, é permanente: conflitos no interior da Igreja, no interior das comunidades; conflitos de

Ser estudante em meio a diversidade

O dia 11 de agosto, no Brasil, é considerado o Dia Nacional do Estudante. Foi a partir de 1927 que essa data passou a ser significativa por comemorar dois cursos implantados por D. Pedro II, cem anos antes. O que seria de um país se não tivesse estudantes? Ser estudante, naquela época, era para poucos. Hoje é uma forma de comemorar o direito e a importância da formação do cidadão. Nessa mesma data, dez anos depois, em 1937, foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade que serve para proteger e garantir os direitos dos estudantes. Em 20 de novembro de 1959, a UNICEF promulgou a Declaração Universal dos Direitos da Criança, em que destaca a necessidade da Educação, independentemente da cor, da raça, do sexo, da religião, e os cuidados com sua capacidade intelectual (princípios V e VII). No Brasil, em 13 de julho de 1990, entrou em vigor a Lei nº 8.069, conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cujo artigo 4º estabelece a prioridade à educação, além de outros direitos fundamentais. Em 2013, a Lei de nº 12.852, o Estatuto da Juventude, reforça os direitos e as condições necessárias para o estudante continuar seus estudos. Documentos que priorizam a educação. Ser estudante hoje, portanto, é uma conquista relevante para uma sociedade democrática, de direitos, para ambos os sexos, pois em épocas remotas, esse direito era somente para o sexo masculino. Em tempos normais, não é fácil estudar. Com a pandemia, esse ato tão valoroso ficou mais complicado para os estudantes de baixa renda. Antes, dependendo de onde moram, é preciso tomar uma condução ou andar muito a pé. Se tiverem um dinheirinho, comprarão um lanche; caso contrário, levam-no de casa. E quando não têm nada em casa, passam vontade. Há alguns privilegiados que os pais transportam de carro ou pagam para uma van pegar e levar, e têm dinheiro para gastar na cantina. Os jovens universitários têm de gastar muito com transporte ou combustível. Enfim, ser estudante em um país cheio de desigualdades é desafiador. Além das dificuldades pessoais e financeiras, há vários tipos de situação que os estudantes enfrentam, como o preconceito racial ou de gênero, ou social, entre outros. É preciso saber lidar com a diversidade de sotaques, de etnias, de estilos, de crenças e costumes. As diferenças somente enriquecem nossa cultura e nossa humanidade. A questão das cotas é uma das ações afirmativas que buscam reparar a desigualdade que ainda existe na educação brasileira, entre escolas públicas e privadas, urbanas e rurais. Ser estudante é aprender, é ser atento, é ser curioso, além de ser empático com os demais colegas. O que une todo estudante é o conhecimento. A educação autêntica tem como objetivo fazer todos se autoconhecerem e transformarem o mundo a seu redor, para percebermos que somos essencialmente iguais. Talvez por isso há grupos na sociedade que não investem na qualidade do ensino para todos, como se deveria, mas criam mecanismos meramente tecnicistas, sem a preocupação de uma educação realmente integrada do ser com o fazer. Assim, o desafio do estudante é ser perseverante, ser criativo, solidário, além de disciplinado. Ser estudante é ocupar seu espaço mental, social e profissional, demonstrando suas habilidades e capacidade de servir a sociedade e transformar o mundo para melhor, renovando ideias e desenvolvendo uma nova forma de se viver. Sejamos todos eternos aprendizes. Ser estudante é sempre aprofundar o que se sabe e buscar novos conhecimentos. Feliz Dia do Estudante! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia pelo Mater Ecclesiae; filiada à ABA, APEOESP e SBPC; atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura, pela ALESC; voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC.

Amor-doação: o testemunho de dois pais

A experiência da paternidade é dom e talento ao mesmo tempo. Nela se encontram as alegrias e os desafios de uma missão que é necessariamente vocação e doação. Ao nos aproximarmos do dia dedicado aos pais, trazemos aqui o depoimento de dois “super-homens” que abraçaram essa missão. É na fala de Eduardo Villalpando, pai de Antônio, e de Anderson Raiça Silva, pai de Miguel, Maria Clara e Mateus, que sentiremos a emoção dessa dádiva. Amor através dos tempos “Uma impressão digital cujos veios vão sendo desenhados pelo amor que nasce e cresce em dois corações, a cada instante em que interagimos ao longo da vida. Não há definição mais próxima que consigo imaginar agora que procuro traduzir em palavras o que é ser pai para mim. Uma emoção indescritível me invade a cada vez que olho para meu filho e reflito sobre o sentimento que nos une. É como se nele se realizasse o milagre de eu me propagar; além de mim mesmo, além do tempo em que ainda estarei por aqui. Ao mesmo tempo em que vejo muito de mim nele, sinto muito dele em mim… Observo seus gestos, suas preocupações, seu modo de falar, suas dúvidas, anseios, desejos, curiosidades, mudanças… Viajo no tempo lembrando coisas que vivi e sentindo preocupação sobre que escolhas ele fará, de que forma ele vai encarar os desafios, superar as dificuldades, relacionar-se com as pessoas… Ser pai é educar, aconselhar, oferecer oportunidades de crescimento, diversão, lazer, aprendizado, convivência com família e amigos, incentivar a lutar por seus sonhos, a ajudar e respeitar as outras pessoas, mas, acima de tudo, ser exemplo e referência; grande responsabilidade. Ser pai é também saber pedir desculpas quando errar, ensinar que ninguém é perfeito, mas que sempre podemos melhorar. Sei que, além de parecenças, temos diferenças, e elas possibilitam que eu também aprenda muito com ele. Vivendo essa emoção da troca e superando os conflitos, assim vamos construindo uma parceria de vida e aprendendo com as adversidades, pois são elas que nos inspiram a buscar e encontrar nosso ponto de equilíbrio. Que meu filho se lembre de mim como eu me lembro de meu pai, e que seus filhos possam se lembrar da mesma forma dele, sinal de que o amor prosseguirá através dos tempos, através da vida. E que o amor do Pai nos envolva em toda sua plenitude.” Eduardo Villalpando é pai do aluno Antônio Carlos Villalpando, estudante do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. “Mostrar o caminho” “Ser pai é deixar a zona de conforto. Levantar à noite quando o filho chora, segurar a mão quando ele cai, mostrar o caminho quando estiver perdido, puxar conversa quando estiver calado, ouvir quando quiser falar. Ser pai é mostrar os valores e princípios em que acreditamos, orientar, educar, falhar e aprender com erros, mostrar que, na vida, somos eternos aprendizes. Ser pai é, acima de tudo, amar; muitas vezes, agir contra suas vontades, parecer irracional, superar suas barreiras em razão dos filhos, tendo como recompensa simplesmente um sorriso, um abraço, um papai, um ‘eu te amo’. Criar e educar três filhos é desafiador, ainda mais quando se tem a surpresa de ter gêmeos. Digo sempre que é intenso. São idas e vindas, altos e baixos, muitas responsabilidades e, no fim do dia, exausto e satisfeito, agradecer a Deus a dádiva e a alegria de ser pai. Como ser pai? Não há uma regra, não há uma graduação. Ser pai é uma missão, uma responsabilidade, uma realização pessoal em deixar um legado para as próximas gerações.” Anderson Raiça Silva é pai de Miguel e dos gêmeos Maria Clara e Mateus, estudantes do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Feliz Dia dos Pais!

O olhar da “Lei Maria da Penha” sobre as crianças e adolescentes

No dia 7 de agosto de 2022, a “Lei Maria da Penha” (Lei nº 11.340/2006) completa 16 anos. A norma é um marco importante e histórico para nós, brasileiras e brasileiros. Até sua instituição, em 2006, o Brasil não dispunha de uma legislação específica que coibisse a violência doméstica. As ocorrências eram encaminhadas para o famigerado “Juizado de Pequenas Causas”, local não apropriado para a reconhecida gravidade de muitos episódios, além da falta de um tratamento humanizado e específico para a questão. A lei é fruto de uma denúncia feita contra o Brasil nos órgãos internacionais: OEA (Organização dos Estados Americanos) e, depois, no CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), com base no descaso, “omissão, negligência e tolerância” aos fatos sofridos contra a farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes. A mulher, que sofreu mais de 20 anos de violência doméstica e tentativa de homicídio, deu nome à lei. Infelizmente, ela é uma entre as muitas vítimas brasileiras. Após a condenação do Brasil nos órgãos internacionais, e tão somente após esta, foi organizada uma comissão interministerial pelo governo federal. Várias audiências ocorreram nas cinco regiões do País e analisaram o projeto que criaria uma legislação específica sobre o assunto. Após mais de um ano de discussões, a lei foi aprovada, tendo como objetivo precípuo a “criação de mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher”, promovendo a alteração das leis penais e propondo a criação de um órgão específico para o tratamento dos casos. É importante perceber que se trata de uma lei de gênero, ou seja, a norma busca proteger a mulher. No tocante aos adolescentes e às crianças, que, muitas vezes, são o elo ainda mais frágil desses problemas e transtornos domésticos e, ou, familiares, a lei é bem sucinta. Os artigos 29 e 30, contudo, deixam claro que os atendimentos serão feitos por profissionais especializados nas áreas psicossocial, jurídica e da saúde, de forma que a abordagem seja multidisciplinar e sanadas as demandas. Além disso, nos casos envolvendo violência doméstica e familiar, normalmente se estabelece uma “rede de apoio” que envolve as polícias civil, militar e o braço PDV (patrulha da violência doméstica), que realiza visitas apaziguadoras e acompanhamento de alguns casos específicos. Também estão nessa rede o Conselho Tutelar, o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), a Defensoria Pública, o Ministério Público e o Poder Judiciário. A verdade é que a “Lei Maria da Penha” apenas tangencia quando o assunto é crianças e mulheres adolescentes. Essa não é uma lei voltada para elas especificamente, mas isso não quer dizer que não haja aporte legal para as demandas das crianças, mas estas são geralmente supridas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei nº 8.069/1990) ou mesmo pelo Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940). No caso dos adolescentes, o mesmo se verifica, mas em relação às mulheres adolescentes vítimas de violência física, sexual, patrimonial, moral, etc., haverá respaldo legal em razão do gênero mulher e não pelo fato de serem adolescentes. Todos os esforços são feitos para tentar minimizar um processo dolorido e traumático que é “colocar a colher em relação de marido e mulher” e relações afetivas, incorporadas de múltiplos vínculos. A lei é, de certa forma, recente, mas esperamos que haja o amadurecimento da população e o fortalecimento, a cada dia, da legislação para que os seus objetivos sejam cada vez mais efetivados. Tânia Cecília Cardoso de Oliveira MarquesBacharela em Direito e servidora no Ministério Público de Minas Gerais.

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