Emerson Pataxó – Recado

Emerson Pataxó, jovem indígena da comunidade dos pataxós, do Sul da Bahia, reforça que a proteção do meio ambiente está ao alcance de todos. Mesmo nas simples atitudes do cotidiano, cada um tem a oportunidade de cuidar de nossa Casa Comum. Assista!

Ter compaixão é abrir portas, da casa e do coração

“Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico” (Lc 16,20) O Evangelho deste domingo nos traz, mais uma vez, uma parábola escandalosa e provocativa. O que Jesus quer nos comunicar através desta parábola que desperta tanto incômodo? A parábola do rico “epulón” e do pobre Lázaro nos inquieta e é inquietante, pois nos situa de novo diante da exigência do amor concreto e comprometido, como serviço ao próximo. Na primeira parte do relato a ideia prevalente é que tudo o que fazemos repercute nos outros: a situação de Lázaro é consequência do mal proceder daqueles que apodrecem em suas riquezas. Os pobres não existem “porque sim”, mas por uma deficiente partilha dos bens e de uma insensibilidade diante de quem é vítima de uma estrutura social e econômica perversa. A cena revela-se ainda mais dramática, quando se considera que o pobre se chama Lázaro, um nome muito promissor pois significa, literalmente, «Deus ajuda». Não se trata de uma pessoa anónima; antes, tem traços muito concretos e aparece como um indivíduo a quem podemos atribuir uma história pessoal. Enquanto Lázaro é como que invisível para o rico, a nossos olhos aparece como um ser conhecido e quase familiar, torna-se um rosto; e, como tal, é um dom, uma riqueza inestimável, um ser querido, amado, recordado por Deus, apesar da sua condição concreta ser a de um descarte humano. A parábola põe em evidência, sem piedade, as contradições em que vive o rico. Este personagem, ao contrário do pobre Lázaro, não tem um nome, é qualificado apenas como «rico». A sua opulência manifesta-se nas roupas, de um luxo exagerado, que usa. De fato, a púrpura era muito apreciada, mais do que a prata e o ouro, e por isso se reservava para os deuses. Assim, a riqueza deste homem é ofensiva, inclusive porque exibida habitualmente: “Fazia todos os dias esplêndidos banquetes” A sua personalidade vive de aparências, fazendo ver aos outros aquilo que se pode permitir. Mas a aparência serve de máscara para o seu vazio interior. A sua vida está prisioneira da exterioridade, da dimensão mais superficial e passageira da existência. Para o homem corrompido pelo amor das riquezas, nada mais existe além do próprio ego e, por isso, as pessoas que o rodeiam tornam-se invisíveis; seu olhar não as alcança. Assim, o fruto do apego ao dinheiro é uma espécie de cegueira: o rico não vê o pobre esfomeado, chagado e prostrado na sua humilhação. Ao ler ou escutar a parábola temos uma primeira impressão de que ela vai contra o evangelho, pois o rico é condenado por ser rico, por puro pecado de omissão. Pensamos que esta é uma parábola sem misericórdia: nem Deus escuta o lamento do condenado que pede somente umas gotas de água. Por que não se compadece do condenado? Mas, lendo o texto com atenção e cuidado, como parábola-advertência, sentimos por dentro que é verdade o que diz: esta é uma parábola provocativa de Jesus, uma advertência profunda para aqueles que, petrificados pela riqueza, acabam correndo o risco de converter a terra em um inferno. Esta parábola nos fala mais do presente que do “mais além”; fala de tudo o que podemos mudar desde agora para ter um futuro melhor: um verdadeiro banquete, onde a única riqueza seja o amor compartilhado. A parábola denuncia o abismo vergonhoso entre os próprios seres humanos; o que essa imagem nos revela é a ruptura que nossa indiferença constantemente produz, à qual, no entanto, não costumamos prestar atenção. Contra ela, já advertia Martin Luther King: “Quando refletimos sobre nosso século XX, o mais grave não parece ser as ações dos maus, mas o escandaloso silêncio dos bons”. Por que caímos tão facilmente na indiferença? Sem dúvida, frente aos outros e frente ao mundo, ela esconde uma maior ou menor insensibilidade que, bloqueada ou endurecida, isola a pessoa em um caracol egocêntrico e a instala numa atitude indiferente – oposta à compaixão -, que está na origem das injustiças e violências que diariamente vemos em nosso mundo. Em sua redoma protetora, o rico não vê os outros a não ser quando necessita deles, considerando-os como se fossem “objetos” a seu serviço; sua capacidade de amar fica bloqueada. O abismo que causa a dor de Lázaro é também o abismo que provoca a dor do rico. Nos dois “quadros” da parábola – simbolizados no antes e no depois da morte -, destaca-se com intensidade a ruptura como o motivo do mal. Pois bem, esta ruptura não é casual, nem é provocada por Deus, que castigaria o rico por toda a eternidade. É causada pela indiferença do próprio rico que, em sua cegueira, não “vê” o pobre jogado ao chão, à sua porta. Em seu processo de desumanização o rico “epulón” fez das riquezas seu “deus”. Este “deus” matou seu coração, sua sensibilidade e sua humanidade; ficou sem entranhas de compaixão, pois ao seu redor já não existiam outras pessoas a não ser o seu ego fechado, isolado… Como poderia ver aquele pobre homem desprezado ou chegar a saber seu nome, caído à porta de seu palácio esperando algumas sobras para comer? Lázaro tornou-se “invisível” para aquele que ficara cego por causa de suas riquezas. O pobre está fora da porta, rodeado de cães da rua. O homem rico se encontra dentro de casa. Não acontece nenhuma forma de comunicação entre eles. Na primeira parte, ambos se encontravam próximos um do outro; o texto realça a distância espacial que os separa (“um grande abismo”), mas, apesar da distância eles podem se ver e escutar um ao outro. É só abrir a porta. O destino do rico “epulón” é o melhor espelho para ver a realidade tal qual ela é, essa que o mundo nos impede reconhecer: que o autêntico mendigo e indigente era ele, e que a solidão lhe oprimia em meio ao esbanjamento mais agressivo. Muitas vezes, as portas protegem do encontro com o diferente, blindam a individualidade e parecem ser itens indispensáveis à

Colégio Stella Matutina celebra 120 anos de história

A história do Colégio Stella Matutina tem início em 8 de setembro de 1902. Nessa data, as primeiras missionárias servas do Espírito Santo se estabeleceram em Juiz de Fora-MG, dando origem à Província Stella Matutina. E foi assim que, há 120 anos, surgiu o Colégio Stella Matutina. Na história de Juiz de Fora, a escola foi um marco da educação feminina, valorizando-a e abrindo espaço para a mulher no contexto social da época. Somente na década de 1970, o colégio passou a ser misto. Nessa mesma época, as novas instalações do Stella Matutina foram inauguradas na Avenida Independência, atual Avenida Presidente Itamar Franco, permanecendo nesse local até hoje. Com entusiasmo, as irmãs que chegaram ao Brasil tinham o propósito de escrever uma história que gerasse orgulho para muitas gerações, e assim tem sido. Muitas pessoas guardam com carinho as lembranças de quando estudaram no colégio. Os alunos de hoje podem contar com um ensino atualizado, que engloba o que é necessário para o comprometimento de uma educação integral. A escola conta com profissionais competentes que trazem no coração o prazer de educar. Durante estes anos, o colégio passou por muitas transformações, tanto nas melhorias estruturais quanto no projeto político-pedagógico. Todo o esforço busca auxiliar os alunos na construção do conhecimento, no desenvolvimento de habilidades e competências, formando cidadãos comprometidos com a transformação social, aliado à modernidade e à tradição construída ao longo de 12 décadas. Em conjunto com as famílias, a instituição busca o incentivo ao espírito crítico, inovador e cooperativista no trabalho pessoal e nas relações interpessoais mediadas pelo compromisso com a espiritualidade e a fé. Celebração eucarística No dia 8 de setembro, a escola acolheu a missa que marcou a comemoração pelos 120 de história. A liturgia, realizada na quadra da escola, foi presidida pelo arcebispo metropolitano de Juiz de Fora, Dom Gil Antônio Moreira. Também participaram o Pe. Expedito Lopes de Castro, membro da Pastoral do Colégio, e o Pe. Carlos Vieira Lima, missionário do Verbo Divino e superior da Província Brasil Norte, além de educadores, alunos, familiares e amigos do Stella Matutina. Veja algumas imagens da celebração.

“Primaverize-se”

Aqui em Minas Gerais, a gente nasce e cresce embalada por esta convicção, escrita por Beto Guedes e Ronaldo Bastos, e cantada por Milton Nascimento: “Tudo que move é sagrado…”. O imperceptível se faz mistério e poesia. Algumas pessoas vivem o divino mistério cotidiano de conviver com pássaros a cantarolar, gatos pelos telhados, frutas no pé, flores no caminho, sol batendo à porta, água limpa da mina, lua iluminando o caminho, comida sem agrotóxicos à mesa, chuva que faz germinar, abelhas, joaninhas, hortas, pomares, criações de animais, compotas, colheitas, plantios, fogão a lenha… Para essas pessoas, a primavera chega sem avisar, sem fazer alarde; devagarzinho, vai dando sinais de que o inverno está indo embora. É um movimento sagrado, como nos canta Milton, esse carioca que se fez mineiro. Na cena urbana, essa cadência de mudança de estação salta aos olhos só de quem se deixa contagiar pelos pequenos sinais espalhados pelo caminho. Flores caídas no chão… Dias mais claros para quem madruga… Ventos e chuva anunciando a mudança da estação… Feito mistério e poesia, brota uma calmaria para os que se deixam abraçar pelos ipês-amarelos, e nosso coração se alegra ao ouvirmos a cantoria dos pássaros. O dom da espiritualidade nos enche de fé, mas a magia da natureza nos aproxima de Deus, do divino. A primavera profetiza, anuncia que é possível renovar a vida, fazer novas moradas, construir ninhos, reproduzir, buscar florescer em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Feito profecia, a primavera anuncia tempos mais amenos e férteis. Primavera também é efervescência, ruptura e transformação ao longo da história. Esta estação que vem nos anunciar que outros verões virão está magistralmente a serviço do que virá, explodindo em cores, sabores, biodiversidade, polinização e fertilidade. É tempo de reconhecer luzes e sombras em nossas vidas, como nos ensina o equinócio da primavera. Tempo de transformar o que precisa ser transformado, de abandonar o que vem nos fazendo mal, de aprofundar raízes, de expandir, de florir, de colorir nossos caminhos. Ande descalço… Nade num rio… Colha frutas… Beba água fresca… Passeie numa praça… Visite um parque… Leve flores para uma pessoa que anda sumida… Plante árvores… Primaverize-se! Em tempo: vote pensando no que queremos (vi)ver no verão que virá! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

A floresta como símbolo: reverência à vida ou ao capital?

Moro no Sul do Brasil. No dia 9 de setembro de 2022, a cidade amanheceu cinzenta e, à noite, a lua estava escondida atrás de um véu. Chegava a fumaça das queimadas no Norte do País. Quatro dias antes, no episódio Agosto incendiário na Amazônia, do podcast Assunto, a jornalista Renata Lo Prete recebeu a geógrafa Ane Alencar e o jornalista Alexandre Hisayasu para escutá-los sobre a relação entre as árvores derrubadas, o fogo e a fumaça. Alexandre destacou o modo destemido, de total impunidade, em que se encontravam os autores dos incêndios. Ane observou que agosto e setembro são, historicamente, meses incendiários, mas que a média de 2022 está acima da curva. A geógrafa previu que setembro seria tão ou mais incendiário que agosto por causa do volume de mata no chão. Em seguida, analisaram causas e motivações. Em uma perspectiva de processo, a fumaça que escurece o dia e o fogo que clareia a noite se constituem na última etapa da floresta devastada. A jornada do fogo que extingue a vida dos seres se inicia com a abertura de estradas ilegais em reservas ou florestas públicas não destinadas e passa pela extração de madeira. Em cinzas, essas áreas são transformadas em pastos para a “produção de proteína animal”, sendo assim uma lógica sistematizada de ocupação de terras. Se o fogo e a fumaça são indícios desse processo, metade das ocorrências acontece em terras públicas constituídas de áreas indígenas, unidades de conservação, áreas e florestas públicas não destinadas. As últimas representam 30% do desmatamento na região, o que pressupõe a usurpação de terras públicas. Essa situação deve ser respondida não com omissão, mas com ação. Assim como Renata, Ane e Alexandre se engajam para investigar, analisar, compreender, documentar e publicar informações, há outras iniciativas que podem ilustrar o movimento requerido. Uma delas é a plataforma Sumaúma, idealizada pela escritora Eliane Brum e o jornalista Johnathan Watts. A intenção é fazer uma cobertura centrada na Amazônia a partir de um dos epicentros da crise: Altamira, no Pará. O conselho editorial conta com lideranças da floresta e seu propósito é a “defesa da natureza, da democracia e da vida”. O outro chamado para ação está muito mais próximo de nós e está descrito no 15º Capítulo-Geral – Direções Congregacionais, que orienta, pelos próximos seis anos, a Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo. A direção que nos interessa destacar aqui e trazer para nossa discussão é a de número 2, que prescreve: “Despertadas pelo grito da Trindade, através da dor e do sofrimento da Mãe Terra e de nossos irmãos e irmãs à margem, a conversão ecológica e a vida sustentável se tornam um compromisso ético inalienável”. Esse chamado para a ação que ecoa das árvores no chão transformadas em cinzas, esse grito dos habitantes da floresta precisa ressoar no divino que habita em nós e despertar compromisso ético para com a vida antes dos imperativos econômicos. A árvore no chão ou em floresta (de pé) também é dotada de um aspecto simbólico das escolhas que fazemos: de reverência ao capital ou à vida. Referências LO PRETE, Renata; ALENCAR, Ane; HISAYASU, Alexandre. Agosto incendiário na Amazônia. Assunto [podcast], 5 set. 2022. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/3YjWXcVs0jrzCkok1nShqp?si=2w4he_HbQdeusNlyelAwyQ&utm_source=whatsapp. Acesso em: 13 set. 2022. MISSIONÁRIA SERVAS DO ESPÍRITO SANTO. Meio ambiente e XV Capítulo-Geral das SSpS. Disponível em: https://www.mssps.org.br/single-post/meio-ambiente-e-xv-cap%C3%ADtulo-geral-das-mission%C3%A1rias-servas-do-esp%C3%ADrito-santo-ssps. Acesso em: 19 set. 2022. SUMAÚMA. Sumaúma: jornalismo do centro do mundo. Disponível em: https://sumauma.com/. Acesso em: 13 set. 2022. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille. Coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica. Colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

Viver a “santa astúcia” no serviço do Reino

“Os filhos deste mundo são mais astutos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8) O Evangelho deste domingo nos situa diante de mais uma parábola “escandalosa” de Jesus, ou seja, um relato impactante e provocativo, que ajuda a “despertar” o ouvinte ou o leitor. Mas o que se trata na parábola não é da injustiça cometida nem da desonestidade do administrador, senão de sua astúcia. O objeto de louvor por parte de Jesus é a esperteza, a audácia e o empenho com que o administrador tira partido de uma situação presente tendo em vista garantir o futuro; Jesus elogia o admi-nistrador não porque roubou, mas porque teve presença de espírito, soube calcular bem as coisas e encon-trar uma saída honrosa, enquanto havia tempo. E a “saída” do administrador, ameaçado de desemprego, foi fazer “amigos” para depois. A parábola, apesar das aparências, não está centrada no dinheiro, mas na “astúcia” do administrador. E é então quando a parábola dá o salto “dos filhos das trevas” aos “filhos da luz”, tomando forma de denúncia ou alerta: todos somos “astutos” quando manejamos os assuntos do nosso ego, naquilo que tem a ver com seus interesses. Não aplicamos a mesma inteligência para aquilo que tem a ver com nossa verdade profunda. Precisamos estar atentos para viver coerentemente com o que realmente somos. Em uma palavra: vivemos nas “trevas” ou na “luz”? Quanto investimos no mal e como somos preguiçosos e sem criatividade na vivência do bem! Não podemos continuar lamentando o mau que os outros fazem; devemos lamentar o bem que deixamos de fazer; não queixemos do mal que está no mundo; lamentemos daquilo que nós, seguidores(as) de Jesus, não fazemos para que nosso mundo esteja melhor. Não lamentemos dos maus, mas dos inúteis que os bons costumam ser. A comunidade cristã não anda mal pelos pecados que há nela. Anda mal pelo fato de sermos poucos criativos e o pouco que os bons fazem por ela. Jesus reconhece a esperteza dos filhos deste mundo utilizada para cometer delitos, enganar, roubar ou levar uma vida corrupta, e realça o modo de proceder daqueles que o seguem, ou seja, a necessidade de serem também astutos para fazer o bem e lutar pela justiça. Ele quer que os “filhos da luz” sejam criativos em favor do Reino: estejam atentos, sejam hábeis e permaneçam despertos e ativos para livrar-se do complicado e sutil combate contra os mecanismos do mal; neste caso, o que gera a ambição do dinheiro. Não devemos imitar a injustiça que o administrador infiel está cometendo, mas utilizar a astúcia e a prontidão com que atua; ele é um filho deste mundo; é sagaz porque, em meio à situação desesperada de ser despedido do emprego, soube aproveitar da situação para preservar seus interesses. Com esperteza, com decisão e sem escrúpulos, aproveita o que lhe pode proporcionar vantagem para garantir sua vida futura. E é aqui onde encontramos a chave de compreensão do relato: como “filhos da luz” precisamos agir de um modo inteligente, utilizando todos os recursos em favor da vida. Quem são nossos “amigos para depois”? São os cegos, os excluídos, os pobres em geral. Temos amplas oportunidades de usar o “vil dinheiro” para conquistar estes amigos.  Essa Vida não é outra coisa que as “moradas eternas” de que fala o texto. A mensagem do Evangelho deste domingo não só nos instiga a sermos mais astutos com os valores do Reino, mas também nos alerta para o perigo de afeição desordenada com relação ao ídolo dinheiro. O dinheiro pode ser mediação para ajudar às pessoas, mas também pode se tornar o “absoluto” da existência. No fundo, o evangelho de hoje nos situa diante do maior dilema de nossa vida, diante da única pergunta na qual investimos tudo: quem é o “senhor” que determina nossa vida? Na prática, segundo a resposta que lhe demos, viveremos “para o dinheiro” (nas “trevas”) ou “para Deus” (na “luz). Na perspectiva bíblica, há uma incompatibilidade radical entre a paixão pelo dinheiro (e outros afetos desordenados) e a paixão pelo Reino. “Ninguém pode servir a dois senhores”. Há uma incompatibilidade de ordem religiosa, porque a fé no Deus único impede a idolatria; uma incompatibilidade de ordem moral: não se pode servir, ao mesmo tempo, ao amor e ao egoísmo; e também uma incompatibilidade de ordem psíquica, porque não é possível experimentar a paixão pelo Reino e pelo dinheiro, ao mesmo tempo, sem divisão para o indivíduo. Para os seguidores de Jesus, o amor não é apenas um preceito, é uma atitude de vida, que pede um total investimento afetivo. Por isso, o “afeto desordenado” ao dinheiro, como fonte de desamor, se apresenta não somente como problema ético, mas também como problema de crença, de fé. A fidelidade ao Deus único fica interditada. E o caráter idolátrico que o dinheiro possui é ressaltado nos Evangelhos mediante o uso do termo “mamon” – a etimologia desta palavra parece referir-se à idéia de “depósito”, “provisão; mas na boca de Jesus parece adquirir um caráter de idolatria, na medida em que remete a um lugar que fornece “segurança” à existência. Como todo ídolo, o dinheiro provoca o fascínio, a adoração e as identificações mais perniciosas. De fato, a tentação do dinheiro tem suas raízes fundadas no pânico produzido pela insegurança. O dinheiro, os bens, as posses apresentam-se, então, como solo firme sob nossos pés. Mais ainda: o dinheiro é algo mais do que solo firme e apoio; é carapaça protetora, é um objeto interno, corpo do corpo, ou coisa com a “qualidade do eu”. A dinâmica acumulativa, retentiva, própria da posse do dinheiro, possui toda a força do narcisismo e da autoafirmação infantil. Sabemos da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como “verdade” – de solucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Há coisas que são mentira, mas que aparecem como verdade; aí se enraíza seuatrativo. Temos medo de “perder pé”; por

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”

O provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” é bem conhecido. O que realmente, no entanto, pode se aplicar dessa afirmação em nosso contexto educacional? Faz parte do senso comum a afirmação de que a formação das crianças e jovens é extremamente importante para a sociedade e que, por isso, a educação deve ser valorizada. Porém as práticas escolares pedagógicas dentro dos “muros” da escola e a educação que “vem de casa”, ou seja, o que é compartilhado no ambiente familiar, bastam para o processo de formação integral de nossas crianças? Para responder a essas questões, precisamos entender as transformações pelas quais a sociedade passou e como ela se encontra, hoje, no século XXI. As exigências econômicas e de trabalho carecem, cada vez mais, da força de trabalho dos adultos das famílias, e, com isso, o envolvimento entre família, escola e comunidade se torna cada vez mais urgente. O ambiente da sala de aula já é, hoje, insuficiente para dar conta das demandas das crianças e adolescentes que já têm acesso ao mundo a partir de um clique. Educar no mundo contemporâneo é uma tarefa que deve ser abordada de modo amplo e irrestrito. O entendimento de maneira fragmentada do ser humano é ultrapassado, e a escola não pode ser apenas o espaço para ensinar os conteúdos pedagógicos. Dessa forma, entendemos e nos posicionamos, como escola viva, como espaço que, em parceria com a família e com a comunidade, favoreça experiências que contribuam com a forma como nossos alunos vão se posicionar no mundo. Assumir a responsabilidade de garantir às nossas crianças ambientes acolhedores, que permitam, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da autonomia e facilitem vínculos afetivos é imprescindível para formar indivíduos que sabem se colocar no mundo, conscientes de suas responsabilidades sociais. Para as crianças e adolescentes, é fundamental a convivência com seus pares e também com adultos, e a escola favorece esses relacionamentos. Além disso, é importante que a escola favoreça e estimule o contato e envolvimento social para além de seu espaço físico. Em nossas escolas, incentivamos momentos que possibilitam o contato de nossos alunos com pessoas diferentes de seu convívio familiar e escolar, tais como estudos do meio, palestras com profissionais de diferentes áreas para conversar sobre as relações de trabalho e diferentes carreiras a serem seguidas para os alunos do terceiro ano do ensino médio; trabalho da pastoral com a participação dos alunos em serviço às pessoas em situação de vulnerabilidade; entre tantas outras ações. Entendemos que expandir as trocas sociais e fornecer experiências como as citadas acima traz sentido para o provérbio que mencionamos no início deste texto e permite um olhar sensível para a educação e, principalmente, para os educandos. Sim, somos seres relacionais, e a alteridade nos é intrínseca. Portanto, hoje, mais do que nunca, é preciso de uma aldeia inteira para educarmos nossas crianças e fazemos isso em parceria: escola, família e comunidade. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.

Emerson Pataxó – Os povos originários e a ecologia

Emerson Pataxó, da comunidade dos pataxós do Sul da Bahia, fala sobre a importância da proteção do meio ambiente. Denuncia políticas que levam a devastação à Amazônia, mas recorda que, no Brasil, há outras áreas que também merecem nossa atenção. Assista!

Os “perdidos” em nosso interior

O cap. 15 do evangelho de Lucas é conhecido como o “Evangelho dos perdidos”. A experiência de perda marca a nossa existência de várias formas. Perdemo-nos do Pai e da casa paterna; perdemo-nos na fraternidade; perdemo-nos no tempo e nas decisões da vida… As parábolas dos perdidos colocam nossa vida em questão. Na verdade, dentro de nós não existem só coisas belas, harmoniosas e resolvidas. Dentro de nós há sentimentos sufocados, muita matéria por esclarecer, patologias, repressões…; há feridas para serem curadas, dimensões por reconciliar, memórias dolorosas que precisam ser relidas sob outra luz; fracassos que pesam e alimentam culpas… Uma multidão de “perdidos” nos habita, esperando uma ocasião para serem acolhidos e integrados. As parábolas do evangelho deste dia nos colocam diante desta pergunta: “o que está perdido em mim?” É preciso tomar consciência da ovelha, da moeda e do filho perdidos em nosso interior. São símbolos de nossa fragilidade, vulnerabilidade, pobreza…, enfim, expressão de nossa condição humana. Cada um dos perdidos pode revelar recursos, dons… que não foram valorizados. A moeda significa riqueza, mas que está perdida em nossa própria casa; o filho, revela a continuidade da descendência, mas que está afastado. É preciso redescobrir (desvelar), no próprio interior, a presença do pastor, da mulher e do pai. Eles são como que os pontos nutrientes, iluminantes e terapêuticos encontrados em nosso “eu profundo”. Cada um deles revela uma presença diferenciada em relação ao que está perdido. O pastor deixa transparecer o seu cuidado e a iniciativa de sair do próprio redil para ir em busca da ovelha perdida. A mulher revela desvelo no cuidado da própria casa para encontrar a moeda. O pai misericordioso revela paciência e espera o retorno do filho que se perdera, acolhendo-o e integrando-o à família. Por outro lado, habitam também no nosso interior os fariseus e mestres da lei que, tendo a lei na mão, emitem juízos, não acolhem as ovelhas, as moedas e o filho perdido de nossas vidas. Não abrem espaço para a misericórdia. São inquisidores porque perfeccionistas, e não conseguem integrar os limites e fragilidades de nossa vida. Isso requer “humildade” para sair da segurança do redil e ir atrás de tudo aquilo que foi excluído de nossa vida, devido a uma cobrança interior de perfeição. Quando alguém desce em direção à sua “condição humana”, tudo acolhe e tudo integra, vive um processo de humanização plenificante. Nesta perspectiva, o desgarrado e o perdido desvelam a realidade onde Deus atua e revela seu rosto misericordioso. Exatamente onde existe fraqueza, perda, vulnerabilidade, talvez seja o “lugar mais sagrado”, aquele que exige mais acolhida e cuidado, para ser transformado pela misericórdia. A tradição moralista e legalista nos ensinou a alimentar um conflito entre o pastor e a ovelha que se perdera; do mesmo modo, conflito entre a mulher e a moeda; ou, conflito entre o pai e o filho que se afastara. Tal tradição moralista deu peso maior às limitações e fragilidades, alimentando culpa, remorso…, esquecendo-se de despertar nossa atenção para as dimensões mais ricas do nosso interior: o pastor cuidadoso, a mulher zelosa, o pai festeiro. Nesse contexto, queremos dar um destaque às duas pequenas parábolas do evangelho de hoje, pois elas têm um sabor todo especial. Diferentemente das outras, elas falam de uma perda interior, quase íntima: há uma parte do tesouro que se perde dentro da própria casa. Prestemos atenção: a mulher não perdeu tudo, nem a maior parte sequer; de dez moedas, ela perdeu uma; o pastor não perdeu tudo, apenas uma ovelha. Mas quem vive essa perda percebe o que isso representa: um esfriamento, um abrandamento, uma quebra na inteireza de vida, na unidade ampla do sim de amor que nos constitui. Tendo perdido uma ovelha, uma moeda, a vida continua, mas não da mesma maneira. A mulher que perdera uma moeda, no entanto, não se acomodou, pensando que ainda ficaria com nove moedas: decidiu procurar a parte perdida do seu tesouro. Ela não culpou ninguém pela perda, não ficou de mau humor, nem deprimida…, mas também não se deixou ficar de braços cruzados. Não se lamentou pelo acontecido, mas tomou a iniciativa de acender a luz, varrer, limpar, aclarar… “Buscar cuidadosamente”, ensina a mulher da parábola. Nós também temos de ir ao fundo e procurar a raiz daquilo que tira nossa vitalidade espiritual; talvez um medo terrível, uma insegurança fundamental, uma falta de confiança, uma perda de sentido… A mulher e o pastor das parábolas não ficam lamentando a “perda” da moeda ou da ovelha. A perda pode ser ocasião para um novo movimento, para conhecer outras dimensões da casa ou dos prados. O Evangelho deixa claro: é “proibido queixar-se”. A vida não é lamento, é expressão de nossas melhores qualidades, de nossos recursos internos. A queixa bloqueia nossa potencialidade e não deixa emergir o melhor que há em nós. A atitude é rebaixada durante a queixa, o tórax se comprime e o coração se encolhe. Isso é morte, não é vida. A vida, no entanto, é abertura, aventura, encontro, é possibilidade, é vontade de estar bem. A queixa torna a vida pesada e difícil; ela é inútil pois trava os melhores recursos vitais. É preciso passar da queixa à solução, do lamento à busca de uma nova possibilidade. Cada dia, a vida traz sua surpresa; cada dia amanhece um novo sol. A espiritualidade cristã alimenta uma integração entre as duas dimensões: pastor e ovelha, mulher e moeda, pai e filho. São dimensões encontradas em nosso próprio interior. A espiritualidade não significa alimentar um combate que desgasta, mas possibilitar um encontro entre as duas realidades. Nada se perde, tudo se pacifica e tudo desemboca na alegria festiva. Há sempre uma nova aprendizagem que brota do encontro com o que está mais frágil. O pastor também aprende ao acolher a ovelha perdida, pois é no encontro com ela que desperta o seu ser cuidadoso. A mulher aprende ao encontrar a moeda perdida, pois passa a tomar consciência mais profunda da sua própria casa; ao varrê-la, vai conhecendo

Emerson Pataxó – Conto indígena

Emerson Pataxó, um jovem indígena da comunidade dos pataxós do Sul da Bahia, narra um dos contos da rica cultura de seu povo. Ele fala de Txopai, o protetor das águas, e a criação do ser humano segundo a visão desses brasileiros. Assista!

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