Presença das ONGs e desfechos da COP-27

Em novembro, os olhares atentos de ambientalistas, especialistas e de todos aqueles com a consciência de que nosso planeta foi levado ao limite voltaram-se para acompanhar a realização da COP-27, a 27ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Com o lema “Juntos para a implementação”, a conferência reuniu na cidade do Cairo, Egito, líderes mundiais para analisar medidas de contenção às mudanças climáticas, firmou acordos históricos e provocou muitas reflexões sobre minorias e, claro, sobre o futuro do planeta. Para a maioria dos 190 países, a principal medida do encontro foi a declaração final e o acordo histórico sobre perdas e danos causados por eventos climáticos. O ponto fundamental do acordo prevê a criação de um fundo de compensação de danos climáticos que deve fornecer financiamento para os países mais vulneráveis. Em linguagem diplomática e do ponto de vista de organizações não governamentais, especialmente parceiros da Vivat International, essa decisão foi bastante significativa porque estabeleceu um vínculo bem claro entre causa e consequência: de um lado, quem provoca o aquecimento global e a crise climática (os países emissores); de outro, quem sofre as consequências (países pobres que enfrentam os efeitos mais severos do aquecimento global). Para o padre Paulus Ramath, codiretor da Vivat International, que esteve no Egito representando a organização da qual nós, missionárias servas do Espírito Santo somos membros, a criação do fundo é um marco histórico de mais de 30 anos de grandes esforços da sociedade civil. Ele conta também que o protagonismo das ONGs na decisão histórica da COP-27 foi reconhecido pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmando que “A justiça e a ambição exigem a voz da sociedade civil”. Simon Stiell, secretário executivo de Mudança Climática da ONU, considerou a decisão um avanço significativo. “Determinamos um caminho a seguir em uma conversa de décadas sobre financiamento para perdas e danos, deliberando sobre como lidar com os impactos nas comunidades cujas vidas e meios de subsistência foram arruinados pelos piores impactos da mudança climática”, declarou. A participação do Vaticano como parte formal da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e do Acordo de Paris foi extremamente relevante. O novo status do Vaticano significa que a delegação da Santa Sé, liderada pelo cardeal Pietro Parolin, tem voz e poder de voto nas decisões que exigem unanimidade, conforme regras da ONU. Outra iniciativa que merece destaque é a aliança firmada entre os três países detentores de 52% das florestas tropicais primárias do mundo: Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo. Líderes dessas três nações querem preservar o bioma. Eles entendem que a Cooperação Sul-Sul (cooperação técnica entre países em desenvolvimento no Sul global) é fundamental para o combate às mudanças climáticas e acreditam que, juntos, podem unir forças para tratar da conservação e da recuperação mundial de florestas. “Deixou muito a desejar” A irmã Rosa Martins, missionária scalabriniana e jornalista, questiona os resultados da COP-27. “Pelos desafios impostos à humanidade por meio dos constantes desastres climáticos que têm dizimado principalmente os países em vias de desenvolvimento, isso graças ao descuido de todos com a natureza, pode-se afirmar que a COP-27 deixou muito a desejar”, afirma. Para ela, analistas e observadores do clima entendem que a Conferência de 2022 teve uma agenda de reparação. Ela recorda que, mesmo com importantes passos, a pauta foi “discutir sobre um financiamento às populações que não conseguem mais resistir ou se adaptar aos impactos das transformações do clima e estão em constante sofrimento com eventos climáticos devido ao efeito estufa, como aumento do nível do mar, imigração constante causadas pela intensidade das chuvas”. “Todos ficam com a sensação e a certeza de que COP-27 não deu a resposta que o mundo precisava ter diante da crise climática contemporânea”, resume. Rosa M. Martins Mestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação, com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021. Trabalhou no Dicastério da Comunicação (nos setores Rádio Vaticano, Vaticanews e transmissão televisiva), como jornalista estagiária, em 2023. É assessora executiva da CRB-SP. É ativista dos direitos humanos e assessora de pastorais na Igreja do Brasil.
Somos melhores juntos!

Para fortalecer as ações nos caminhos da educação, a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo promoveu um encontro com a presença das irmãs e representantes das diretorias das unidades. Foram trabalhados os temas sustentabilidade, liderança, eficiência educacional, entre outros. O evento foi realizado no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, entre os dias 17 e 19 de novembro. Foram trocas importantes e valiosos aprofundamentos técnicos. A cada dia, iniciávamos nosso encontro com uma rica reflexão trazida pela Dimensão Missionária, por meio de textos, dinâmicas e músicas. Esses momentos revigoraram nossa espiritualidade, dinamizando ainda mais a interiorização dos valores missionários, os quais são a base para alcançarmos objetivos de um negócio social. Sim, social, pois de que valeriam os conhecimentos, profissionalização, estratégicas se, em cada membro que compõe esta grande Rede chamada Missionárias Servas do Espírito Santo, não estivesse presente o desejo maior de sermos semeadores e divulgadores de uma educação consistente em suas bases pedagógicas, com ações que vão além dos espaços dos colégios, com o olhar da empatia e respeito às diversidades? Foram dias intensos, produtivos e esclarecedores, numa comunhão de ideias, já que temos “tatuado” em nossos corações a certeza de que nossas escolas são vivas, em movimento e, como não poderia deixar de ser, somos # melhores juntos! Sandra DemétrioGestora administrativa do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.
ADVENTO: UM BRADO DE ESPERANÇA

“…ficai preparados! Porque na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá” (Mt 24,44) Estamos no primeiro dia do Novo Ano litúrgico. Começamos com o Advento, que não é somente um tempo litúrgico, mas um modo de viver. Trata-se de uma atitude vital que precisa atravessar toda nossa existência. Não teremos entendido nada da mensagem de Jesus se ela não nos inspira a viver em constante busca daquilo que já está presente em nosso interior. O importante não é recordar a primeira vinda de Jesus; isso é só o pretexto para descobrir que Ele já está presente em nós e na nossa realidade. Também não se trata de nos preparar para a última vinda, que é só uma grande metáfora. O importante é descobrir que Ele está vindo neste instante. É preciso re-acender o espírito do Advento, porque estamos adormecidos ou sonhando com conquistas superficiais, e não assumimos a existência com a devida seriedade. Tudo o que esperamos de Deus, já o temos dentro de nós. “Vigiai”, “estai despertos”, “ficai atentos”: são apelos que ressoarão em nosso interior durante a travessia do Advento. Para ver, é preciso não só ter os olhos abertos, mas também luz. Não se trata de contra-atacar o repentino e nefasto ataque de um ladrão. É preciso estar desperto para assumir a vida com uma consciência lúcida. Trata-se de viver intensamente, para que a vida não transcorra na esterilidade e no vazio. Se permanecemos adormecidos, não acontecerá nada. Isto é o que pode nos causar medo: transcorrer nossa existência sem desatar as ricas possibilidades de plenitude que nos foram confiadas. A alternativa não é salvação ou condenação. Ninguém vai nos condenar. A alternativa é: viver com mais sentido e sabor ou simplesmente vegetar. O Advento é tempo para dispor-nos a algo surpreendente. O que estamos esperando é alucinante, imenso, fora do nosso tempo rotineiro. Intuímos que nossos olhos foram criados para uma visão mais profunda, mais humana, mais plena; desejamos ser um pouco mais lúcidos, mais sensíveis, muito mais corajosos para descobrir a profundidade e a riqueza de tudo o que acontece ao nosso redor e dentro de nós. Eis o mistério: o Esperado traz uma novidade que nos mobiliza e que se revela em cada gesto de humanidade e em cada fragmento de tempo, deste kairós colocado em nossas mãos. Tudo na vida requer preparo, e toda preparação exige empenho e mudança…, envolve uma espera. Somos feitos disso: desejo, súplica, anseio, busca, esperança… No mais profundo de cada um brota um desejo que nos faz bradar ao Eterno, pedindo ajuda: “Vem, Senhor, nos salvar! Vem sem demora nos dar a paz!” Tudo aponta para o vazio infinito dentro de nós, ressoando uma certeza: Ele vem! Ele está vindo em nossa direção! O texto do evangelho deste primeiro domingo de Advento pertence ao chamado gênero apocalíptico. Este gênero literário, recorrendo às imagens e palavras que parecem catastróficas, se utiliza delas para falar de um futuro que se revela como novidade radical. Para acolher Aquele que vem ao nosso encontro é preciso romper os espaços estreitos de nossa vida, alargar o coração, expandir os sentimentos… Para além das imagens utilizadas, a intenção parece clara: é um chamado a “despertar”, “a estar vigilantes”, “a estar preparados”… Dentro do mal-estar social persistente que estamos vivendo, há algo muito saldável: nosso desejo de viver de uma maneira mais propositiva e menos deprimida, mais digna e menos superficial. O que precisamos é re-orientar nossa vida. Não se trata de corrigir um aspecto ou outro de nossa pessoa. Agora o importante é ir ao essencial, encontrar a fonte de vida e salvação. Não podemos deixar que o desespero e o desânimo destruam em nós o dinamismo e o desejo de continuar caminhando dia-a-dia, cheios de vida; não podemos deixar que a esperança vá se diluindo em nós quase sempre de maneira silenciosa e imperceptível; não podemos deixar que, sem nos dar conta, nossa vida vá perdendo cor e intensidade; quando parece que tudo começa a ser pesado e cansativo, a verdadeira alegria vai desaparecendo de nosso coração e já não somos mais capazes de saborear o bom, o belo e o verdadeiro que há na nossa vida. Apesar das sombras e sofrimentos causados pela violência social, política e religiosa que estamos vivendo, o Advento vem des-velar (tirar o véu) e ativar os dinamismos de solidariedade, compaixão, gratuidade… presentes no coração de cada um. A bondade nos constitui, é da nossa essência O ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus-Amor, amor incondicional e misericórdia sem limites. O bem e o amor em nós, são mais fortes que o mal e o ódio. O que de Deus há em nós é maior que nossa miséria e limites. Nosso verdadeiro ser é bondoso. Fomos feitos de amor e para o amor. Se vivemos isso, de verdade podemos ser sal, luz e força, uns para com os outros, como nos ensina Jesus. Com a mente bem aberta, atenta, podemos e temos de analisar o que está acontecendo conosco, descobrir e compreender suas causas e comprometer-nos com as mudanças necessárias. Inspirados(as) com a força do Espírito podemos levar adiante as transformações que se fazem necessárias. Assim, o percurso do Advento vem despertar aquela “virtude teologal” tão ausente no atual contexto social e religioso: a esperança; ela é o recurso secreto do ser humano itinerante. Somos abertura e, portanto, estamos sujeitos à mudança. A esperança é a guia que nos orienta na mudança. Esperar é ousar re-nascer, advir, vir-de-novo, re-começar… na fulgurante arte de tecer a vida nisso que ela tem de mais íntimo e cotidiano. Um canto de fé e de esperança segura: esse é o sentido da existência cristã. Movidos por essa esperança, podemos dar sabor à nossa vida, muitas vezes modesta e simples. Ter esperança é, essencialmente, busca incessante, luta por aquilo que não tem lugar agora, mas, acredita-se, terá um dia. A esperança tem suas raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos pequenos gestos
Sobre “agradeSER”

Por toda flor que brotou em meu caminho Por todas as vezes em que eu nunca me senti só Pelas vezes em que tropecei e não caí… Pelas vezes em que caí e me levantei Pelo abraço inesperado e gargalhadas sem fim Pela luz que ilumina cantos obscuros e pelo Sol que nasce iluminando a solidão Pelo rio que corre para o mar e por toda estrela que se apaga Por todas as vezes em que o ciclo da Lua se completa Pelas voltas que o mundo dá Pelas brincadeiras que aprendi Por todo acorde de música que fez meu coração pulsar lentamente Pela saúde que permite meu corpo se recuperar da exaustão Pelo dom de Deus que se expressa em sinfonias, soluções tecnológicas e descobertas científicas Por toda vez que soubemos economizar, num gesto de humildade dos que têm muito mais do que precisam Pelas mãos que ajudam a levantar Pelo amor que não se cansa de enfrentar tanta violência Pela coragem de me calar diante do que não é essencial e de gritar sempre que a vida se encontra ameaçada Pela esperança que me leva para dormir e acorda comigo Pela capacidade de sonhar e pelos sonhos realizados Pelo milagre da vida Por ter vivido amores desfeitos Por viver amores feito infinito Por toda criança que nasce e vence a batalha que é (re)nascer o tempo todo Por todo fio de cabelo branco que vira memória e sabedoria Pelo vivido… Por ser e viver, gratidão! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Caminho para um novo ser humano

Vivemos hoje imersos em um mundo que nos desconecta da vida natural e tranquila que o Universo nos oferece. As pessoas se “perdem” nelas mesmas e andam cabisbaixas, envoltas em suas realidades superficiais. Abandonou-se o olhar e o contemplar das grandezas que nos vêm do alto. Nós nos acostumamos e acreditamos que somos apenas um ser humano, cheio de defeitos, inacabado, com anseio de ser feliz. As tecnologias são um oásis em meio a tantos afazeres diários e nos conectamos a elas vinte quatro horas. A essência mais profunda do ser humano, contudo, reclama e pergunta: a vida se resume a isso, a fazer e a deixar de fazer coisas? A fazer de conta que se ama e se é amado? E a crise vem como sinal de alerta para mostrar que o ser humano se desviou do caminho pleno da vida. Sua vida “eclipsou-se” em meio a tantas tarefas, esvaziou-se de sentido, e o gatilho disparou, disfarçado de depressão, tristeza, ansiedade, fobias e inseguranças. A “pressão” da falta de sentido fez surgir o que estava escondido nas profundezas do chamado subconsciente. Não se reconhecendo, mas se percebendo um “estranho” dentro de um corpo que deve fazer coisas. A Parapsicologia Sistema Grisa, cientificamente comprovada e aplicada na vida das pessoas, é instrumento efetivo e dinâmico, capaz de reconectar e devolver ao ser humano seu aspecto mais peculiar e exclusivo, o de ser simplesmente humano/espiritual. Doutor Pedro Antônio Grisa, precursor da Parapsicologia Científica Independente, deixou-nos um legado extraordinário que possibilita a milhares de pessoas recuperarem-se dos transtornos mentais, emocionais e físicos, empregando a orientação parapsicológica e a hipnoterapia. A bela missão do parapsicólogo é regatar a essência do ser humano, devolvendo-lhe a capacidade de estar conscientemente conectado com as leis cósmicas (harmonia, evolução, vibração e ser feliz). Irmã Inês MathiasParapsicóloga, reikiana, barras de access.
Um Rei em “más companhias”

“Jesus, lembra-te de mim, quando entrares em teu reinado” (Lc 23,42) Rei, não há outra palavra menos apropriada para Jesus. Jesus, rei atípico. Os reis deste mundo vivem às custas de seus súditos: explorando, dominando… Jesus, no entanto, reina perdoando, amando e comunicando vida a partir de uma situação de humilhação e impotência extremas. Um rei crucificado é uma contradição e um escândalo. Lucas nos diz onde e como Jesus ganha este título de rei: na entrega de sua vida até à morte. Seu senhorio é de amor incondicional, de compromisso com os pobres e excluídos, de liberdade e justiça, de solidariedade e de misericórdia. O título de Cristo Rei corre o risco de ser utilizado de uma forma pagã, como uma pura imitação dos reis deste mundo. O triunfalismo religioso e político tem utilizado este título para defender ideias dominadoras, triunfalistas e conservadoras. Esse é a maior contradição da história humana: o Crucificado é esperança dos pobres, dos pecadores e de todos os sofredores. Jesus é Rei dessa forma e não da forma triunfalista como querem os cristãos “gloriosos”. Um rei que toca leprosos, que prefere a companhia dos excluídos e não dos poderosos deste mundo. Um rei que lava os pés dos seus, um rei que não tem dinheiro e que não pode defender-se, que não tem exército… Um rei sem trono, sem palácio, sem pompas, sem poder. Jesus crucificado é um estranho rei: seu trono é a Cruz, sua coroa é de espinhos. Não tem manto, está desnudo. Até os seus o abandonaram. Pobre rei! Por isso, para poder aplicar a Jesus o título de “rei”, devemos despojá-lo de toda conotação de poder, força ou dominação. Jesus sempre se manifestou contrário a todo tipo de poder, sobretudo do poder religioso, o mais nefasto. E não só condenou aqueles que dominam como também condenou, com a mesma veemência, aqueles que se deixam dominar. Jesus quer seres humanos completos, isto é, livres. Ele quer seres humanos ungidos pelo Espírito de Deus, que sejam capazes de manifestar o divino através de sua humanidade. Tanto o que escraviza como o que se deixa escravizar, deixa de ser humano e se afasta do divino. Jesus quer que todos sejamos “reis” ou “rainhas”, ou seja, que não nos deixemos escravizar por nada nem por ninguém. Quando responde a Pilatos, não diz “sou o rei”, mas “sou rei”; com isso, está demonstrando que não é o único, que qualquer um pode descobrir seu verdadeiro ser e agir segundo esta exigência. Há uma nobreza presente em nosso interior e que é ativada no encontro com o outro, através da compaixão, do serviço, do amor solidário… Devemos estar conscientes de que o sentido que queremos dar a esta festa não é aquele dado pelo papa Pio XI, há quase 100 anos, e nem mesmo aquele sentido que é dado pela maioria dos cristãos. Devemos conservar o título, mas mudar a maneira de entendê-lo, ou seja, com o Evangelho na mão podemos continuar falando de “Jesus rei do universo”. Jesus será “Reino do Universo” quando a paz, o amor e a justiça reinarem em todos os rincões da terra, quando todos forem testemunhas da verdade, quando em todos os ambientes a mesa do Reino se tornar mesa de inclusão e de acolhida… Jesus será Rei quando estivermos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. E são tantos os crucificados no nosso contexto social e religioso! O Evangelho da festa de hoje faz parte da narração da Paixão de Jesus. Fixemos nosso olhar nos persona-gens que assistem ao tremendo espetáculo da crucifixão. O povo estava ali olhando. Não é a multidão que habitualmente O segue, mas pessoas que assistem com curiosidade zombadora. Os chefes, as autoridades religiosas escarneciam de Jesus. Eles conservavam a ideia de um Messias triunfal. Tem um Deus feito à medida de seus interesses. A mensagem de Jesus não os afetou. Julgavam-se em posse da verdade. Os soldados também lhe zombavam. Aproximavam-se dele para dar-lhe vinagre. Os executores da violência do poder romano não podiam entender um rei que não fazia nada para defender-se. O letreiro também indicava ironia: “Este é o rei dos judeus”. Um dos ladrões o insultava: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Ninguém parece ter entendido Sua vida e Sua mensagem. Ninguém compreendeu seu perdão aos algozes. Ninguém viu em seu rosto o olhar compassivo do Pai. Ninguém percebeu que, pendente da Cruz, Jesus se unia para sempre a todos os crucificados e sofredores da história. Mas, a grande surpresa está reservada para o final da cena: aquele homem impotente, que agonizava na Cruz, promete o paraíso a outro condenado à morte e que se dirigira a Ele assim: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares em teu reinado”. É o único personagem em todo o Evangelho que se dirige a Jesus chamando-o simplesmente por seu nome, sem acrescentar nenhum outro título como Senhor, Mestre, Filho de Davi ou Messias. Sem saber, ele estava em profunda sintonia com o sentido da missão daquele Homem crucificado, a quem o invocava: aproximar-se, encurtar distâncias, viver entre nós como um entre tantos, entregar-nos seu nome e sua amizade, compartilhar de nossa fragilidade, estar tão perto a ponto de escutar o sussurro de todos aqueles que, sem alento, morrem ao seu lado… O bom ladrão reconhece a Jesus na cruz como rei, um rei que morre na fidelidade à sua missão de mensageiro de um projeto de vida diferente, de um Reino de misericórdia aberto a todos, também ao pior dos malfeitores, e que oferece sua vida para indicar o caminho da verdadeira vida que vence a morte: o amor até o extremo. E nisso consistiu sua glória, sua realeza e seu triunfo. Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois ladrões. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre os outros, mas oferece uma nova chance de salvação. Ele é o moribundo que dá vida: presença solidária, que, mesmo
Ser negra no Brasil

Em 20 de novembro, o Brasil comemora o Dia da Consciência Negra. Para marcar a data, nosso blog apresenta algumas reflexões partilhadas por religiosas consagradas. Hoje a apresentamos as contribuições da irmã Maria Luíza da Silva, religiosa da Sagrada Família, e da irmã Nadir Vieira Pereira, missionária serva do Espírito Santo. Desafio diário e sinal de resistência Ser negra no Brasil é um desafio diário. É sentir o racismo explícito e implícito junto à sociedade. É conviver com violência, injustiça e exclusão. É ser tratada com discriminação e inferioridade. Mas, ao mesmo tempo, ser negra no Brasil é ser sinal de resistência, resiliência e alegria. Exemplo de força e cidadania. Diversidade, interculturalidade e espiritualidade. Todas as vezes em que reclamamos da violência, da injustiça, da discriminação contra os pretos, as pretas, parte considerável da população brasileira afirma que é vitimismo. É fato que as mulheres negras sofrem muito mais com a violência doméstica do que as brancas, os jovens pretos correm mais risco de assassinato do que os jovens brancos, os trabalhadores e as trabalhadoras pretos e pretas têm uma remuneração inferior à dos brancos, brancas. A Conferência dos Religiosos e Religiosas do Brasil (CRB) tem procurado resgatar a cultura e a espiritualidade afro-indígena. Não é uma tarefa fácil, porque boa parte dos religiosos e religiosas negros, pretos e indígenas têm dificuldade para aceitar sua origem. Cresceram sofrendo a discriminação e a rejeição. Ao ingressar na vida religiosa consagrada, o religioso, a religiosa sofre um racismo menos impactante, camuflado, implícito, por isso não sente motivação para assumir a luta social contra o racismo. Ser negra é lutar contra termos pejorativos que associam o negro, a negra a coisas ruins, por exemplo: “ovelha negra”, “câmbio negro”, “a coisa está preta”, “peste negra”, “denegrir”, mesmo que a sociedade considere essa luta uma bobagem, perda de tempo. Sabemos que a palavra denegrir significa tornar escuro, fazer ficar negro… Por que não substituir “denegrir” por “difamar”? Por que temos de atribuir ao preto, à preta aquilo que não é bom? Por que não falamos da beleza da cultura negra e da grande contribuição desse povo à culinária, arte, ciência, religiosidade e história do Brasil? Ficaria evidente que do negro, da negra, do preto, da preta provém o que é bom, belo e necessário para o desenvolvimento saudável da coletividade. Todo cristão, toda cristã deveria ter a consciência de que o racismo é um pecado grave, pois, se somos criados à imagem e semelhança de Deus, não podemos ser considerados seres inferiores pela cor de nossa pele. Chamar uma pessoa preta de “macaco”, “imundo”, “nojento”, “bandido”, “criminoso” é agredir a criação divina, portanto blasfemar contra o próprio Deus que nos criou à sua imagem e semelhança. O Documento de Aparecida reconhece a legitimidade das reivindicações dos povos afro e indígena: Os indígenas e afro-americanos emergem agora na sociedade e na Igreja. Este é um “kairós” para aprofundar o encontro da Igreja com estes setores humanos que reivindicam o reconhecimento pleno de seus direitos individuais e coletivos, serem levados em consideração na catolicidade com sua cosmovisão, seus valores e suas identidades particulares, para viver um novo Pentecostes eclesial (n. 91). Ser negra é cultivar uma espiritualidade que reverencia a ancestralidade e reconhece o divino em cada ser criado por Deus. Oxalá que nossas congregações sejam instrumentos de combate a toda forma de racismo e discriminação, proporcionando aos religiosos, às religiosas uma maior aceitação de sua identidade. Irmã Maria Luíza da Silva, RSFReligiosa da Sagrada Família, advogada militante desde 2013, assessora executiva da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) desde 2018, pós-graduada em Missiologia pela Fateo (Faculdade de Teologia da Arquidiocese de Brasília), membro do Observatório Racial Dom José Maria Pires. O negro questiona por seu jeito Ser negro no Brasil hoje é ser uma pessoa resistente, decidida. O negro sempre incomoda, questiona por meio de seu jeito de ser, falar, vestir, pentear. É um “lutar” contra o preconceito e, a cada dia, manter-se consciente da inclusão social. O maior desafio do negro é realmente viver o dia a dia, acreditando que seu direito seja respeitado, buscando vida igualitária diante de todas as pessoas, pois a desigualdade social está infelizmente enraizada no ser humano Irmã Nadir Vieira Pereira, SSpSMissionária serva do Espírito Santo, originária de Nhunguara, uma comunidade remanescente de quilombo no Município de Eldorado-SP.
Do ser negro à consciência negra no Brasil

Como preâmbulo desta reflexão sobre a temática do negro na sociedade contemporânea e os desafios que dela fazem parte, gostaria de acenar o primeiro passo para que o negro possa ocupar seu lugar na sociedade brasileira, como qualquer outro ser humano ou qualquer outra cultura: é necessário que o Brasil se reconheça como um país racista. Sem esse passo fundamental, falaremos e agiremos às apalpadelas, impossibilitados de encontrar nenhuma luz ao fim do túnel. Por que o Brasil é um país racista? As raízes do racismo se encontram cravadas no colonialismo que implantou a escravidão negra no Brasil. Nele se origina a não aceitação do negro como pessoa, explicitada e confirmada pelos atos macabros de inferiorização do negro, reduzindo-o a animal sem razão, impondo-lhe cabrestos, imobilizando-o em troncos, metendo-lhe garganta abaixo litros e litros de água fervente. Recordemos o que nos registrou a história da escravidão no Brasil, história negada nos livros, desde a educação infantil à universidade: após a independência de Portugal, em 1822, uma das primeiras medidas do governo brasileiro foi proibir que alunos negros frequentassem as mesmas escolas que os brancos. Um dos motivos apontados era o temor de que eles pudessem transmitir doenças contagiosas. A lista das origens do racismo no Brasil advindas do colonialismo é quilométrica. Porém, a sociedade brasileira, longe de uma compreensão clara da história, porque negada, mantém atitudes veladas ou claras de não aceitação do negro, impossibilitando-o de uma ascensão, intimando-o a uma condição se subalternidade, relegando-o à marginalidade. Onde está o negro, a negra na sociedade brasileira? Essa é a pergunta que constantemente me faço quando entro nas escolas e universidades particulares, nos restaurantes da classe média e nos cinemas. Eles não se encontram ali. Onde se encontram? Escondidos nos serviços desses mesmos estabelecimentos, lavando, limpando, cozinhando. Invisíveis. Aliás, visíveis de acordo com a conveniência do sistema. Explico-me: almoçando com uns amigos nas redondezas de Perdizes, bairro nobre de São Paulo, de dentro das dependências, assistíamos a uma cena de discriminação da polícia com um motoboy que entrou na contramão. Em um minuto, apareceram cinco viaturas para gerar uma multa a um pobre trabalhador negro que entrou por engano no contrafluxo. Ao ser liberado e enviesado pelos olhares que saíam do restaurante, seu semblante triste e humilhado me partiu o coração. Era conveniente para a polícia mostrar à elite que estava trabalhando, escorraçando com negros trabalhadores, para manter a pose da elite paulista. Sentada ali, juntos aos brancos, perguntando-me onde estariam, naquele momento, meus irmãos e irmãs negras, os olhares que vão e vem me informavam que eu não deveria estar ali. E me impondo, respondi com meu olhar resistente que ali era que todos deveríamos estar, juntos, numa festa de cores, ao verdadeiro molde de Brasil, como de fato é: um país rico em cores, em diversidade cultural. Eu conceituo o racismo à brasileira, o pior que possa existir. Velado, dia a dia, mina a autoafirmação do negro, sobre o que falaremos mais adiante. Para o jornalista do Portal Senado, Ricardo Westin, o racismo é desastroso para as populações negras. Ele vai muito além do fato narrado acima. Ele se manifesta de formas menos gritantes, mas produz efeitos devastadores na vida do negro. “Em qualquer aspecto da vida, os pretos e os pardos (grupos que o IBGE classifica como negros) estão sempre em franca desvantagem na comparação com os brancos”, considera. “No Brasil, ser negro significa ser mais pobre do que o branco, ter menos escolaridade, receber salário menor, ser mais rejeitado pelo mercado de trabalho, ter menos oportunidades de ascensão profissional e social, dificilmente chegar à cúpula do Poder Público e aos postos de comando da iniciativa privada, estar entre os principais ocupantes dos subempregos, ter menos acesso aos serviços de saúde, ser vítima preferencial da violência urbana, ter mais chances de ir para a prisão, morrer mais cedo”, afirma. Como enfrentar o racismo à brasileira? Aqui, deixo preciosa colaboração do psiquiatra negro, martinicano, Frantz Fanon, para a resposta cotidiana, eficiente e eficaz que o negro deve dar para enfrentar e lutar contra o racismo. Fanon (lê-se Fênon) foi um pensador, filósofo e psiquiatra negro nascido em Martinica. Ao viajar à França pela primeira vez, levou um choque de realidade. Considerando-se francês, ou ao menos à altura destes, por suas possibilidades e oportunidades, deparou-se com uma cena que colocou seus pés no chão. Uma criança, ao vê-lo nas ruas de Paris, gritou de medo: “Mamãe, olhe o negro, estou com medo, mamãe…”. A partir daquele momento, a vida de Fanon virou do avesso. Dedicou o resto de sua vida a compreender os efeitos do colonialismo na vida das pessoas negras. Faleceu aos 36 anos, deixando obras preciosíssimas como “Os condenados da terra”, “Pele negra, máscaras brancas”, “Alienação e liberdade”, “Revolução africana, dentre outros”. Fanon sugere que, para vencer o racismo, faz-se necessário tirar as máscaras brancas que o negro sempre usou diante do branco. Como? Assumindo-se, autoafirmando-se. Essa sugestão eu a traduzo assim: mostre seu cabelo, seu penteado africano. Seja você, orgulhe-se de si mesmo. Estude. Empodere-se. Afirme e confirme a cor de sua pele. Trate bem sua pele. Mostre-a linda e saudável. Cuide-se. Imponha-se. Sem dúvida, não se vencerá o racismo apenas com essas atitudes, mas elas são o começo de uma nova história. O governo, o país todo precisa entender-se como racista para mudar. A negação, ressalta Westin, “É essencial para a continuidade do racismo”, porque somente assim ele conseguirá se reproduzir e permanecer, como também continuar a ser naturalizado e incorporado no dia a dia. Por isso o Dia da Consciência Negra (celebrado no dia em que se comemora a morte de Zumbi dos Palmares, data tão mal compreendida por aqueles que se dizem não racistas), quer ser, exatamente uma oportunidade para o Brasil olhar para si mesmo, perceber sua verdadeira face e buscar um caminho novo em relação à maioria da população brasileira, 53% dela negros e negras. Um dia que precisa ser compreendido como necessário para exterminar de vez esse mal que continua
Como construir uma República virtuosa

“Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós. / Das lutas na tempestade, / dá que ouçamos tua voz.” Quem hoje canta ou se lembra do refrão do Hino da Proclamação da República do Brasil, composto por Leopoldo Miquez (1850-1902) e Medeiros e Albuquerque (1867-1934) um ano depois da queda da Monarquia de Dom Pedro II? Como o Brasil se tornou República depois de 389 anos de regime imperial, em que houve lutas pela liberdade? Depois de quase quatro séculos de exploração e escravidão indígena e negra, em 15 de novembro de 1889, ocorreu a Proclamação da República. O evento foi retratado na segunda estrofe do mesmo Hino, que diz: “Nós nem cremos que escravos outrora / tenha havido em tão nobre país. / Hoje o rubro lampejo da aurora / acha irmãos, não tiranos hostis”. Infelizmente, essa realidade ainda não vivenciamos desde a Abolição da Escravatura (1888), pois encontramos vários fatos de preconceito étnico até hoje. Há muitos séculos, o Brasil tenta passar uma imagem de uma democracia racial, sendo que a maioria da população brasileira é negra/parda, mas é o segundo país em negritude que mais mata ou comete injustiças contra os afrodescendentes. No entanto, “o rubro lampejo da aurora” traz a esperança da fraternidade em uma democracia a engatinhar. “Somos todos iguais! / Ao futuro saberemos, unidos, levar / nosso augusto estandarte que, puro, / brilha, ovante, da Pátria no altar.” Esse verso do Hino da Proclamação da República, publicado em 21 de janeiro de 1890, não condiz, ainda, com a realidade. Mais uma vez, podemos constatar que a igualdade na sociedade brasileira é um objetivo a ser atingido. A quem cabe promover uma Pátria igualitária? Como construir uma República justa e solidária? Quando se pensou a primeira vez em uma república, na Grécia antiga, a educação passou a ser a base para construí-la. Os cidadãos deveriam e devem ser educados para a virtude, pois esta é o fundamento para combater a corrupção do Estado. A virtude da coragem, da sabedoria, da justiça. Para isso, é necessário desenvolver o pensar desde a infância. Com a educação cidadã, o indivíduo aprende a respeitar o outro, a exercer sua liberdade civil sem prejudicar a de outrem. Ao longo dos séculos, no Estado republicano, desde Platão até Rousseau, a figura do cidadão é vista como virtuosa. Mesmo o Estado de teorias socialistas tem como fundamento o indivíduo prudente capaz de usar a razão sempre para o bem comum. Assim, a importância do ensino da Filosofia nas escolas, que deveria ser desde o início do ensino fundamental, pois é urgente, em nosso País, como República Federativa do Brasil, conhecer seus deveres e direitos, crescer com uma consciência política como exigência da democracia. Nesse sentido, a primeira estrofe do Hino da Proclamação da República anima todos os brasileiros: “Seja um pálio de luz desdobrado / sob a larga amplidão destes céus. / Este canto rebel, que o passado / vem remir dos mais torpes labéus!”. É nosso desafio ser luz numa nação que ainda tem muitos analfabetos, milhões de famílias abaixo da linha da pobreza, crianças desnutridas, desemprego, dependentes químicos. Liberdade, abaixo a má distribuição de renda, causadora de desigualdade social. Abramos nossas mentes para construirmos uma sociedade emancipadora, ouçamos os apelos de justiça para alcançarmos a paz. Que as crianças, os jovens, as mulheres, os homens, inatos e estrangeiros de qualquer etnia ou religião, vivam a República do Brasil. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae. Filiada à ABA, APEOESP, SBPC, SINTRAN e membro da APROFFIB. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC), na Pastoral da Pessoa Idosa (Arquidiocese de Florianópolis) e, recentemente, da AVCC de Jales-SP.
MUITAS PEDRAS, VIDA ASFIXIADA

“Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (Lc 21,6) A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas… exige de nós que, de tempos em tempos, revisemos nossas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver… que impedem a entrada do sol e da brisa da manhã. São muitas “pedras”, pessoais-sociais-religiosas, que criam muralhas e que precisam ser destruídas: ódio, intolerância, violência… Coração rígido que se visibiliza na petrificação das relações; rompe-se a cultura do encontro para alimentar a cultura da indiferença; trava-se a abertura ao novo para fechar-se no conservadorismo mais agressivo; bloqueia-se toda possibilidade de racionalidade para cair nas atitudes mais arcaicas e medievais… Há em todo ser humano uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção, a fechar-se em guetos. Nada mais contrário ao Seguimento de Jesus que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores… Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura. Se quisermos que a nossa vida cristã tenha a marca da adesão a Jesus, é necessário compreender que somos chamados a um compromisso diferente e mais profundo: sair da reclusão de nosso mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; desnudar-nos de ilusões egocêntricas; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade… As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios. Não há razão para permanecer nos castelos e templos quando todas as circunstâncias mudaram. É muito tarde para reconstruir nossas vidas utilizando moldes antigos. Estamos vivendo um tempo de mudança, mas também tempo emocionante e santo. Há um poderoso fogo sob as cinzas. Precisamos avivar a chama, acolhendo o momento presente e vivê-lo até suas últimas consequências. “Este é o tempo de graça, o tempo de salvação”. Vivemos um momento de densidade única; participamos de uma sociedade rica pela diversidade e pelo pluralismo. No entanto, não teremos nada que oferecer a ela se não nos deixarmos “empapar” pela experiência do discipulado. Com a vida cristificada seremos impulsionados a inventar constantemente, a ousar sem medo, a “deslocar-nos” sem cessar, na busca de um “novo começo” … A possibilidade de romper com hábitos que nos atrofiam ou com padrões conservadores que travam o fluir de nossas vidas é a marca do Evangelho deste domingo. A primeira atitude é reconhecer que nossa vida está “estreita”, cercada por pedras e muralhas, e que precisamos nos colocar num horizonte diferente. A lucidez do seguimento nos revela que a utopia de Jesus é possível. N’Ele acontece algo totalmente novo, é Ele que nos revela uma nova maneira de viver que não cabe nos nossos esquemas. O Seguimento é uma novidade que rompe velhos barris. “Vinho novo em odres novos”. Sentimentos novos em um coração ardente; visão nova em olhos ousados; razões inspiradas em uma mente aberta. Para encontrar Jesus Cristo é preciso “sair”; é inútil permanecer nos “templos” e “bloqueados” nos guetos de fanáticos. É preciso caminhar em direção às “periferias existenciais”, o Grande Templo onde o Vivente se deixa encontrar; vivemos mergulhados na magia do discipulado; esta é a paixão que não nos dá repouso. Mais uma vez, e evangelho deste domingo nos situa diante de Jesus, homem livre e transparente, que não se deixou “formatar” pelas estruturas sociais e religiosas desumanizadoras de seu tempo. Ele não quis purificar o Templo para reformulá-lo, mas quis destruí-lo para que pudesse surgir um santuário diferente, “não feito por mãos humanas”. As coisas que o ser humano “fábrica” são “ídolos”, algo que pode pôr-se e se põe a serviço do poder e do domínio de uns sobre os outros. Contra isso, o verdadeiro templo deve identificar-se com a humanidade reconciliada, que é o Reino de Deus. Quem segue Jesus, aos poucos vai descobrindo que permanecem ainda muitos muros por derrubar; é preciso entrelaçar mãos que construam pontes de reconciliação e não de divisão; essas mesmas mãos que, em lugar de empunhar armas, devem pegar em martelos e malhos para derrubar as paredes do ódio e da intolerância. Não esqueçamos esta dura realidade: também aqueles que constroem muralhas acabam se tornando vítimas de sua sandice; tornam-se prisioneiros das fortalezas que edificam, vítimas do próprio veneno da soberba e da crença de que são “donos” da verdade. Tudo isso é expressão de um coração petrificando. Na vida, nem sempre é questão de construir. Também, às vezes, é preciso destruir. De fato, a vida e a mensagem de Jesus revelaram uma novidade de tal magnitude que gerou uma radical conflitividade com as estruturas desumanizadoras de seu tempo. Com a presença de Jesus, chega também para nós a “Boa Nova”, não precisamente para pôr remendos no tradicionalismo, moralismo e legalismo, mas para anunciar a possibilidade de uma nova maneira de viver, uma nova atitude que deixa transparecer as “beatitudes originais” e que habitam nosso coração: compaixão, mansidão, paz, busca da justiça, partilha… Precisamos profetas que vão derrubando nossos muros de ignorância e de resistência à novidade do Espírito e que saibam apresentar respostas criativas aos problemas que a humanidade tanto padece. Mais cedo ou mais tarde, a vida mesma se encarrega de derrubar muitos desses muros que nos impedem ver a realidade externa com mais claridade. Quando vemos tudo escuro, é sinal de que há algum muro que impede a entrada da luz do discernimento em nossas vidas. “Constrói pontes em lugar de muralhas, e terás amigos”: pontes de diálogo humanizador, onde o outro possa ser respeitado na sua diversidade, no seu modo de pensar, de ser, de amar; também o outro diferente é possuidor de fragmentos da verdade que podem se integrar