Envelhecimento saudável versus envelhecimento melancólico

A vida, o envelhecimento, é comparável a uma grande viagem. Se nos prepararmos, teremos uma chegada tranquila e poderemos desfrutar da estada final. Se, porém, viajarmos de qualquer jeito, teremos de aceitar o que encontrarmos e até poderemos ficar frustrados e arrependidos de não termos nos preparado devidamente. Então, a canção-tema de nossa viagem para a velhice poderá ser: Devia ter amado mais,ter chorado mais,ter visto o sol nascer.Devia ter arriscado mais e até errado mais,ter feito o que eu queria fazer. […]Queria ter aceitado a vida como ela é.A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier” (Titãs, Epitáfio, composição de Sérgio Britto). Nesse sentido, a Psicologia diferencia dois tipos de envelhecimento: o saudável e o melancólico. O envelhecimento saudável é marcado por sentimentos de gratidão e de realização pela vida pessoal, afetiva, familiar, social e profissional. Idosos saudáveis são aqueles que têm um projeto de vida para executar após a aposentadoria; têm apoio da família; têm uma rede de amigos; retomam contatos antigos; viajam; participam de clubes para a terceira idade; estão bem com o corpo, aceitam as perdas, fazem curso, etc. Já o envelhecimento melancólico é marcado pela presença do luto, ansiedade, depressão, suicídio, suicídio lento, apego à doença, solidão, inveja da juventude, lamentações, entre outros sentimentos melancólicos. Desde nossa juventude, é necessário discutir e planejar a fase da velhice, para que o envelhecimento seja vivido de uma maneira saudável. No âmbito socioprofissional, percebe-se a falta de preparação por parte das empresas e do próprio indivíduo para a vivência do momento da aposentadoria. Constata-se: A velhice é um território desconhecido e particular a cada um. O homem vivencia a passagem do tempo com espanto, surpresa, desconcerto. […] Ele não reconhece em si as metamorfoses advindas, passo a passo, com a senescência. Reconhece-as no outro, é o outro que envelhece. Mas, com surpresa, não mais que de repente, ele vê sua velhice no olhar do outro, que tal como um espelho lhe retorna aquele “estrangeiro” em que se tornou (Peres, 2004, apud Candice Roque, 2017). A fase da velhice é uma fase de colheita de frutos do que se plantou na juventude e na adolescência. Para a psicanálise, é um tempo de acertar as contas com o passado, especialmente com a infância. É um tempo de superação, de elaborações e de adaptações. Pesquisas mostram que o tema não é atraente nas discussões cotidianas nem mesmo nas acadêmicas. Nossa cultura ocidental, muito ao contrário da cultura oriental, não dá o valor merecido para as pessoas que estão nessa última fase do desenvolvido. Os idosos sofrem preconceitos. Foi necessário, inclusive, criar um estatuto do idoso para garantir seus direitos. A mídia supervaloriza a juventude, alvo predileto do capitalismo, com o seu consumismo. Ainda estamos muito distantes da cultura indígena, africana e asiática. “A vida é uma peça teatral com um último ato muito mal escrito” (Cícero). Para saber maisROQUE, Candice. A Psicologia pensando o envelhecimento. 2017. 52 f. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Psicologia) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) – Santa Rosa, 2017. Disponível em: https://bibliodigital.unijui.edu.br:8443/xmlui/bitstream/handle/123456789/4931/Candice%20Roque.pdf?sequence=1 Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDCRP 08/149Tel.: (93) 99128-3042
O cuidado efetivo da casa comum exige mudar nosso estilo de vida

Cuidar é envolver-se afetivamente com algo que vai além de nós, abarcando as dimensões da esfera pessoal, social, ecológica e espiritual. O ser humano é o único ser que necessita do cuidado do outro, desde o início de sua vida até seu último suspiro [1]. Na mitologia greco-romana, o Mito do Cuidado já nos apontava isso: “Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura (ser humano), ficará sob seus cuidados enquanto ela viver”. O cuidado é um parâmetro para se compreender o que é humano. O ato de cuidar é um aprendizado contínuo. Seguindo esse mesmo caminho do cuidado como balizador de nossas atitudes, no ano de 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato si’,que, a meu ver, é a mais icônica dos últimos tempos. Nela Francisco entrega a todos o coração do seu pontificado: a ecologia integral, o cuidado da casa comum. Ecologia integral não se refere apenas ao meio ambiente, mas inclui aquelas dimensões já mencionadas no início de nosso texto: pessoal, social, ecológica e espiritual. Para Francisco, tudo está interligado e, assim sendo, propõe a nós uma nova maneira de entender esse entrelaçar de vidas de todas as criaturas do planeta. A proposta do Papa Francisco se aproxima muito da filosofia do bem viver, presente na vida dos povos originários da América Latina: a reciprocidade entre as pessoas, a amizade fraterna, a convivência com os outros seres da natureza e o profundo respeito pela terra [2]. Francisco resgata essa herança que nós, latino-americanos, recebemos dos povos indígenas e a reelabora escrevendo a chamada “Encíclica Verde”. Três anos após publicar a Laudato si’, Francisco lança a encíclica Fratelli tutti, que fala sobre a fraternidade e a amizade social, indicando que primeiro precisamos nos entender como irmãos, habitantes de uma casa comum para, aí sim, trabalharmos juntos e eficazmente pelo bem de todos. E, como já era de se esperar, como um bom jesuíta que é, assumiu e convidou todos nós a abraçar o Pacto Educativo Global, que não é a solução dos nossos problemas, mas é o caminho. Como ele mesmo fala: “Porque toda mudança precisa de um caminho educativo para fazer surgir uma nova solidariedade universal e uma sociedade acolhedora” [3]. A educação é o caminho. Somos chamados a educar o pensar, educar o olhar, educar o sentir, educar o ouvir, educar o falar… Tudo em nós precisa ser educado para podermos atingir a plenitude a que somos chamados. Entre tantos significados sobre educar que encontramos, cito este: “dar (a alguém) todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento da sua personalidade”. Com o Pacto Educativo Global, o Papa Francisco nos aponta um caminho para que possamos cuidar da educação e passemos a agir. Ele nos convida a uma verdadeira conversão, no sentido mais estrito da palavra, metanoia, mudança de pensamento, de sentimento que leva a uma verdadeira mudança de atitude. Conforme educamos e somos educados, vamos adquirindo novos hábitos, refletindo nossas atitudes e, quando percebemos, estamos mudando nosso estilo de vida. Finalizo com o pensamento de Hannah Arendt sobre a educação: “A educação é o momento que decide se nós amamos suficientemente o mundo para assumir a responsabilidade e assim salvá-lo da ruína, que é inevitável sem a renovação, sem a chegada de novos seres, de jovens. Na educação decide-se também se nós amamos tanto os nossos filhos a ponto de não os desalojar do nosso mundo, deixando-os à mercê de si mesmos, a ponto de não arrebatar de suas mãos a possibilidade de realizar algo novo, algo de imprevisível para nós, e prepará-los, em vez disso, para a tarefa de renovar um mundo que será comum a todos”. Referências[1] Ruth Cavalcante. O afeto e a arte de cuidar.[2] Disponível em: https://cimi.org.br/o-bem-viver-indigena-e-o-futuro-da-humanidade/[3] Mensagem do Papa Francisco para o lançamento do pacto educativo. Alexandre BrittoCoordenador missionário do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ.
Santos(as) sem altares, nem devotos

“Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se… e começou a ensiná-los” (Mt 5,1-2) No próximo domingo celebraremos a festa de Todos os Santos e Santas, ou seja, todos aqueles(as) que, sem exceção, estão na Memória, na Entranha, no Consolo de Deus, na eterna Compaixão que regenera, na Grande Comunhão que é o coração do próprio Deus. Ela nos recorda ainda que esta é a vocação fundamental à qual somos todos chamados, enquanto seguidores de Jesus Cristo. A santidade de Deus é a vocação universal de todos, cada um à sua maneira. Todos os santos e santas estão no coração do mundo pois são plenamente em Deus. Todos são santos(as), porque já vivem a Vida Eterna e dão alento ao coração do nosso tempo e do nosso mundo. Nossa vocação é a santidade da Vida para além de todo sistema moral, para além de toda crença, para além de toda religião, porque fora da Igreja há salvação ou santidade. Mais ainda. A santidade é nossa verdade mais íntima e universal. Somos santos(as). Não somos santos(as) porque somos irrepreensíveis, senão simplesmente porque somos, e vivemos, nos movemos e somos sempre em Deus e Deus em nós, também quando nos sentimos medíocres e inclusive fracassados(as). Ainda não temos encontrado nossa plenitude, não temos realizado nosso ser verdadeiro, mas para esse horizonte caminhamos na santa comunhão de tudo quanto é. Somos um tesouro em vasos de argila em formação, e Deus é o paciente oleiro na sombra mais profunda de nosso barro. O Evangelho que nos foi confiado é um programa para alcançar a felicidade, a vida ditosa, prazerosa, bem-aventurada. Na boca de Jesus brilha sempre a palavra-chave: Felizes. A felicidade, proclamada por Ele no evangelho deste domingo, é já uma realidade presente na Sua pessoa e na Sua missão. Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da pessoa de Jesus e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério. Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o auto-retrato de Jesus. Elas são o compêndio do seu ministério. Não é lei que se impõe por si mesma; é confissão: o Reino chegou. A primeira “canonização”, pois, teve lugar quando Jesus, num determinado dia, subiu à montanha e com grande solenidade declarou felizes os pobres, os aflitos por causa do Reino, os mansos que não recorrem à violência, os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os que não tem segundas-intenções no coração, os que trabalham em favor da paz, os perseguidos por causa da justiça. Todos eles(as) são declarados felizes porque são os que mais se parecem com Deus, ou seja, deixam transparecer em suas vidas a santidade d’Ele. E a felicidade está justamente na vivência do chamado universal à santidade. As Bem-aventuranças não, portanto, são uma doutrina, mas um estilo de vida, um modo de proceder. Jesus não prega diretamente uma moral. Proclama a irrupção da graça, do amor, da misericórdia, da santidade de Deus na história da humanidade. Porque tem a certeza de que chegou a hora de Deus intervir na história, Jesus fica feliz e proclama felizes os até agora indefesos, oprimidos e marginalizados, mas que mantiveram viva a confiança em Deus. Jesus fala da felicidade não no singular, mas no plural. Em outras palavras, o que Ele afirma é que a felicidade de cada um está em íntima relação com a felicidade dos outros, com quem cada um convive. As bem-aventuranças compartilham uma mesma visão “macro-ecumêmica”: valem para todos os seres humanos. O Deus que nelas aparece não é “confessional”, não é “patrimônio” de uma religião específica; não exige nenhum ritual de nenhuma religião, senão o “rito” da simples religião humana: a pobreza, a opção pelos pobres, a transparência de coração, a fome e sede de justiça, a luta pela paz, a perseguição como consequência do empenho em favor da Causa do Reino… Essa “religião humana básica fundamental” é a que Jesus proclama como código de santidade universal, para todos os santos e santas, os de casa e os de fora, os do mundo “católico” e os de outras expressões religiosas… Nesse sentido, a liturgia da festa de Todos os Santos e Santas vem nos indicar este caminho, ao apresentar o texto das Bem-aventuranças como um programa para viver a felicidade; e o motivo primeiro é porque todas elas são, na verdade, o caminho da santidade universal (acima e além de toda religião, pois elas são simples e profundamente humanas). As Bem-aventuranças são como o mapa de navegação para nossa vida; são o horizonte de sentido e o ambiente favorável para nossa santificação, entendida como empenho para viver com mais plenitude, segundo o querer de Deus. Santos e santas são todos aqueles e aquelas que vivem com sentido e inspiração a vida de cada dia, deixando transparecer a “faísca de santidade” que o Deus Santo colocou no coração de cada um. A santidade é, pois, um dom recebido de Deus, que alimenta na pessoa o desejo e a disposição de “sair de si mesma” para viver a experiência do amor na relação com o mesmo Deus, no encontro com os outros e no cuidado e proteção da Criação. Viver a partir da santidade de Deus representa a melhor definição da santidade cristã: reconhecer-nos como quem recebe tudo de Deus, deixar-nos amar e guiar por Ele, assemelhar-nos a Ele para tornar carne viva em nós os sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem com as pessoas. O Evangelho nos propõe um modelo de santidade muito mais dinâmico e próximo da vida cotidiana, com seus altos e baixos, alegrias e dores. Ele revela uma nova forma de santidade: a santidade da vidacomum, da resposta à Providência divina em meio às rotinas do tempo, uma caridade tecida nos pequenos gestos cotidianos. O(a) santo(a) faz as coisas que todo mundo faz, mas faz de maneira diferente. Há um “mais” qualitativo. Há algo na conduta, no brilho do olhar, na bondade do gesto, na
Pôr os pés para fora da cama

Todos os dias, quando nos levantamos da cama em que dormimos, tiramos nossos pés dela e projetamos o corpo para fora. Começamos uma nova jornada. Podemos dizer que ressuscitamos de novo, para um novo dia cheio de atividades. Esse ato tão cotidiano e repetitivo de nossa rotina diária pode ser tomado como simbólico de muita coisa que acontece em nossa vida. Por exemplo, quando passamos por uma grande dificuldade que nos expõe diante de nossos limites, chegando à prostração; se lutamos para superar tal situação, temos a sensação de reviver ou ocasião para “respirar” de novo. Passa o sufoco. É como acordar de novo e retomar a luta. Se olharmos bem, são frequentes situações em que temos de acordar e pôr os pés no chão da vida. Há, porém, pessoas que, por sua postura, parecem continuar permanentemente deitados em “berço esplêndido”, desejando que seja sempre hora de dormir, pois têm preguiça de acordar para a vida e enfrentar, de cabeça erguida, os problemas. Não se preocupam com a luta que exige posturas mais altaneiras. Se é verdade que há pessoas assim, é verdade também que a maioria não é assim e aceita a condição que obriga a pôr os pés para fora da cama. A atitude de recomeçar faz parte de nosso existir, quer queiramos ou não. Ressuscitar para o dia a dia é uma espécie de “treino” para o último ato que pertence a Deus, de nos “levantar” na ressurreição dos mortos, o que professamos na fé cristã. Na verdade, a cada dia que levantamos de nosso leito, fazemos um exercício de fé, mesmo que de modo inconsciente, pois damos como pressuposto que ele vai transcorrer bem, segundo nossas expectativas. Nem precisa pensar muito, o hábito nos condiciona a ligar o “piloto automático” e percorrer as horas segundo programadas em nossos rituais e afazeres, até chegar a hora de ir para a cama novamente, para, na manhã seguinte, pôr de novo os pés para fora dela e reiniciar tudo. A rotina da vida exige de nós “pôr os pés no chão” e encarar a realidade com realismo, sem fantasia demasiada. Sair da nostalgia e abraçar os desafios é a missão de cada um que deseja progredir e viver a vida como ela se apresenta. Ficar em atitude passiva, esperando que as coisas aconteçam ou caiam prontas do céu, é permanecer na “cama”, dormindo, enquanto a vida passa. É necessário “fazer por merecer” o que se deseja, sonhar só não basta; pôr a mão na massa se quiser ver a “construção subir”. Há pessoas sufocadas por problemas e que perdem o ânimo de viver, prostram-se diante deles, e a depressão chega para mantê-las para “baixo”, inclinadas em seu desamparo, num leito de dor. Como em todas as manhãs, é preciso pôr os pés para fora da cama e projetar o corpo para frente. É necessário ressuscitar diante das cruzes e acreditar que sempre é possível seguir em frente, mesmo quando a fragilidade parece ser maior que as forças para superá-la. Acreditar na vida é condição para vivê-la e desfrutar daquilo que ela oferece. Deitar-se, mesmo que seja em “berço esplêndido”, sonhar um pouco para respirar pode ser útil, mas permanecer assim o tempo todo é viver fora da realidade e não saborear o gosto das conquistas avinda da luta que os passos dados realizaram. Jesus, diante de pessoas prostradas que lhe pediam ajuda, dizia-lhes: “Levanta-te, toma teu leito e caminha”. Nunca as aconselhou a ficar se lamentando do passado difícil e sim a retomar o caminho. “Não voltes a teu passado” (não peques mais). Ficar de pé cada manhã é sinal de esperança. É gesto que nos põe em movimento, andando para frente e caminhando para o futuro. Por isso continuemos “pondo nossos pés para fora da cama”. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Todos querem a paz de volta

Depois de tantas polêmicas e confusões nas disputas eleitorais que se deram no País, gerando um nível de estresse nunca visto, todos estão ávidos por dias de paz. Houve ganhadores e perdedores. A maioria venceu e agora é esperar que os eleitos façam bom governo, cumpram o que prometeram. Queremos paz! Este nosso mundo conturbado não somente pelas eleições como também pela guerra que se trava entre Rússia e Ucrânia, e outras mais, gerou um clima de “quase desespero” entre as pessoas de bem. Quantas perguntas foram feitas em busca de respostas para situações tão conflitantes? O nível de saturação emocional chegou ao limite, e muitas pessoas não o suportaram e ficaram doentes. O ideal proclamado em revoluções por liberdade e paz ficou à mercê de muitas confusões e ideologias. Há no ar um pedido de socorro mudo que se reflete nos rostos angustiados. Quanta gente desnorteada, enganada por fake news e mídias tendenciosas que geram confusão mental e levam a situações extremas. Há uma busca por “salvadores da pátria”, pouco disponíveis nos grupos políticos, que estão sem credibilidade, ou nas múltiplas igrejas que propagam um deus segundo seus interesses, que, na verdade, desvirtuam o Deus revelado na Sagrada Escritura. Deus se tornou um fantoche que se presta para justificar posições antagônicas e anacrônicas. Nunca se falou tanto de Deus, infelizmente desfigurado, exigindo desse falso deus milagres que resolvam problemas muitas vezes mesquinhos e satisfaça interesses poucos altruístas. No meio de tantos conflitos, o coração humano geme por um pouco de paz. Queremos paz, chega de problemas, de disque-disque. Queremos respirar um tempo novo de paz e harmonia. A paz desejada não é aquela que se obtém por “tratados” entre guerreadores, mas aquela que acalma o espírito e lhe dá sossego. Queremos o shalom de Deus, aquela paz que traz os bens celestes que reacendem no peito o eco do verdadeiro amor. Queremos rezar com o salmista quando diz “Tu és o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio” (Salmo 91), ou ainda com o Salmo 121: “O senhor me guardará de todo o mal, Ele guardará a minha vida”. Na verdade, essa situação toda escondeu o amor de Deus por nós. Ele sempre esteve a nosso alcance, mas nossas perturbações nos desviaram dele e ficamos acéfalos, perdidos em nossas doideiras, distantes do verdadeiro discernimento. Queremos paz. Paz, paz de espírito, paz que revigore nossa mente e coração e nos faça voltar à harmonia e ao convívio social, sem brigas, sem ódios, sem rancores. Precisamos de paz e é nisso que vamos agora nos concentrar. Você que é pessoa de bem, una-se às demais pessoas de bem e, juntos, reconstruamos os vínculos desfeitos e reacendamos nossa esperança. Lutemos por um mundo melhor. Deixemos nossas preferências políticas e busquemos o bem maior que nos une a todos, formando a corrente do bem. Penitenciemo-nos dos males que provocamos e acreditemos no bem que somos capazes de realizar, convivendo pacificamente com os que pensam diferente, mas têm os mesmos desejos de paz e harmonia. Sejamos construtores da paz, divulgadores do shalom de Deus. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Planeta Terra: nossa casa

“Que tipo de mundo queremos transmitir às gerações vindouras, às crianças que estão nascendo?” (Papa Francisco, Laudato si’, 160). A Terra está sendo cada dia mais explorada pelas ações humanas. As pessoas, ao priorizarem as próprias necessidades, lucros e benefícios, acabam esquecendo que sua própria sobrevivência depende do bem-estar do planeta. A comunidade humana precisa ter consciência de que faz parte do meio ambiente: nós somos o meio ambiente. Sem a natureza em equilíbrio, não temos condições de sobrevivência. Então temos de nos preocupar com as gerações futuras e também com nossa própria geração. Nós, professores do Colégio Santa Maria (Cascavel–PR), buscamos levar nossos alunos a entenderem essa ideia de que precisamos cuidar de nosso planeta. Esse trabalho de conscientização é feito por meio de vários projetos realizados no colégio, pelos quais se enfatizam os cuidados com o planeta Terra. Entre as várias iniciativas, escolhi uma para apresentar neste artigo. O projeto sobre sustentabilidade, intitulado “Uma vida sustentável é possível”, levou alunos das turmas do 6º ano para passar uma manhã em um “sítio-escola sustentável”. A família que vive no lugar visa à sustentabilidade. Os alunos perceberam esse fato no cultivo das plantas, na manutenção da casa, nas estruturas de banheiros e nos demais ambientes do local. As construções são de barro, num sistema chamado “adobe” (tijolo de barro). As plantações, que são orgânicas, alimentam a família e são comercializadas por ela. Os estudantes aprenderam a fazer o tijolo, trataram os animais, alimentaram-se de comidas saudáveis, participaram de várias atividades lúdicas que tinham como objetivo instigá-los a terem a convicção de que podemos viver com o que a natureza nos oferece. Toda a tecnologia é importante, porém nada existiria sem a natureza. Na conclusão das atividades, os alunos conseguiram compreender que dependemos da natureza para sobreviver e que precisamos mudar alguns hábitos para garantir uma vida com mais qualidade para as gerações futuras. Precisamos “descascar mais e desembalar menos”, dar destino adequado para os resíduos que produzimos, reaproveitar, sempre que possível, objetos que utilizamos, dar um destino correto àquele equipamento que não serve mais, ou seja, diminuir o consumo. Assim, podemos reduzir muito os impactos gerados pelas indústrias. Dessa forma, concluo dizendo que, no momento em que nós, seres humanos, entendermos que somos o meio ambiente e que, sem a natureza, não existiríamos, conseguiremos cuidar do nosso planeta, assim como está pedindo o 15º Capítulo-Geral das Irmãs Servas do Espírito Santo e o Papa Francisco, com a frase citada no início do texto. “Despertadas pelo grito da Trindade através da dor e do sofrimento da Mãe Terra e de nossos irmãos e irmãs à margem, a conversão ecológica e a vida sustentável se tornam um compromisso ético inalienável” (15º Capítulo-Geral das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo, 2022). Simone LazzarottoProfessora de Biologia no Colégio Santa Maria, Cascavel-PR.
Zaqueu, “o homem que transitava pelos galhos”

“Então, ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali” (Lc 19,4) O Evangelho revela um mundo povoado por encontros e desencontros, numa rica variedade. Jesus se encontra com amigos e opositores, ricos e pobres, homens e mulheres, indivíduos, grupos e multidões, Deus, seu Pai. Algumas vezes é Ele quem toma a iniciativa para o encontro, e outras vezes são os outros que o encontram, pois já o estavam buscando ou se cruzam com ele casualmente. Seus encontros e desencontros tem lugar no interior das casas, nas sinagogas e inclusive no templo, mas também no caminho e ao ar livre, no campo e à beira-mar, andando, sentado, de pé, numa barca ou num monte. O lugar de encontros e desencontros acaba sendo a vida, e nenhum de seus espaços fica à margem. Jesus se encontra e se deixa encontrar a partir de carências humanas, necessidades e desejos, insatisfações, marginalizações e irregularidades. Jesus, com sua presença inspiradora e provocativa, transforma os espaços de encontro, mudando seu sentido, de forma que qualquer lugar é lugar adequado para estar com Ele, ao seu lado ou à sua frente. Os encontros, além disso, são progressivamente inclusivos e reveladores do ser humano: quem se encontra com Jesus ou é encontrado por Ele fica a descoberto, desvela seu interior e mostra quem é no fundo de si mesmo. Por outro lado, os encontros contribuem também para clarificar a identidade de Jesus. Revelam quem e como é Jesus. E desvelam quem é e como é cada um. Essa é a nossa vocação enquanto seguidores(as) de Jesus: converter a “indiferença” em “encontro”, o diferente em convidado, o estranho em amigo, e criar o espaço livre e sem medo, no qual a fraternidade pode ser experimentada em plenitude. Na realidade, aqui se trata de um movimento expansivo onde se dá a travessia da indiferença ao encontro. Tal passagem é repleta de dificuldades: nossa sociedade é marcada pela presença de pessoas temerosas, defensivas e agressivas, agarrando-se ansiosamente ao seu modo fechado de viver, inclinadas a olhar ao redor com suspeitas, sempre à espera de que um inimigo apareça de repente e cause algum dano. A indiferença e a hostilidade campeiam nas redes sociais e a xenofobia circula como um veneno: daí a agressividade preconceituosa no campo político-social-religioso-racial-sexual… De fato, ultimamente, os “estranhos” e “diferentes” tornaram-se mais sujeitos à hostilidade do que à hospitalidade: protegemos nossas casas com cães e trancas duplas, nossos edifícios com vigilantes, nossos colégios com guardas, nossas estradas com policiais, nossos aeroportos com seguranças, nossas cidades com polícia armada… Nosso coração pode querer ajudar os outros e mostrar simpatia para com os pobres, solitários, rejeitados, minoritários…: no entanto, rodeamo-nos com um muro de medo e de sentimentos hostis, evitando instintivamente pessoas e lugares que possam nos lembrar de nossas boas intenções. Em um mundo tão competitivo, mesmo pessoas próximas, como colegas de classe, de equipe, de trabalho, todos podem ficar infectados pelo ódio e pela hostilidade quando sentem o outro como uma ameaça à sua segurança pessoal. Muitas vezes, instituições criadas para oferecer espaço e tempo propícios para o desenvolvimento dos encontros hospitaleiros (família, escola, religião…), tornam-se tão dominadas pelo “defensismo” hostil que acabam atrofiando e bloqueando o melhor que cada pessoa traz em seu coração. Encontro hospitaleiro não é mudar as pessoas, mas oferecer a elas um espaço no qual a mudança pode acontecer. Não é trazer homens e mulheres para o nosso círculo, mas oferecer uma liberdade sem as amarras de linhas divisórias. A hospitalidade não é um convite sutil para adotar o estilo de vida do anfitrião, mas a dádiva de uma chance para que o hóspede descubra o seu próprio estilo. Vamos contemplar uma cena típica de encontro, no evangelho de Lucas deste domingo. Os protagonistas da cena, Jesus e Zaqueu, são duas pessoas completamente diferentes entre si, diametralmente opostas; porém, procuram-se mutuamente. O encontro de ambos acontece na estrada, onde caminham, onde ocorrem os acontecimentos do dia a dia, onde a vida transcorre, onde passam os dias e os anos. A agitação, a pressa e o entusiasmo, com os quais se pôs à procura do Mestre, eram a clara demonstração de que surgira em Zaqueu uma estranha inquietude. O nome e a pessoa de Jesus tiraram o véu que encobria o vazio de seu coração, a solidão na qual se encontrava, a insignificância de seus próprios dias. Para saber “quem é Ele” é preciso sair da multidão; Zaqueu não fica constrangido em subir nos galhos de uma árvore e aguardar; este seu gesto abre possibilidade para que Jesus o veja, o chame pelo nome e o convide a descer depressa, pois deseja ficar em sua casa. Situar-se sobre os galhos pode ser um bom ponto de partida para iniciar um encontro. Mas, Zaqueu não pode permanecer aí; é como se Jesus dissesse: “Não fique aí, acima dos outros, no alto de sua vaidade! desça até às raízes de sua vida! o decisivo acontece nas profundezas de sua casa interior; descerei com você para cearmos juntos”. Um convite que desfaz os medos e as culpas de quem se sabe pecador e que abre um espaço de esperança, permitindo-lhe uma mudança de vida. Não há no relato nenhuma palavra de condenação e sim uma certa urgência em “descer depressa”. Jesus não quer desperdiçar a oportunidade de viver um encontro com aquele que não podia encontrar-se com ninguém, pois era um explorador. Também Zaqueu não desperdiçou a oportunidade e recebeu Jesus com alegria em sua casa. Em Zaqueu aconteceu uma mudança de perspectiva decisiva, radical. Anteriormente contemplava os outros a partir dos galhos do próprio ego. Agora ele não está mais sozinho e não se sente mais uma pessoa insignificante. O olhar do Mestre de Nazaré encheu-lhe o coração; a sua casa não está mais vazia; a tristeza não o sufoca mais. Finalmente, ele descobriu a luz de um olhar e experimentou a ternura de ser procurado e amado. Não foi preciso que Jesus dissesse muitas coisas
Ecumenismo raiz

O almoço estava quase pronto quando Dona Aurora escutou o filho sentando-se no banquinho próximo ao fogão a lenha. Ele tirou os fones de ouvido e começou a contar: — Sabia que eu tirei total na prova de redação lá da escola, no simulado do ENEM? — Que bênção, filho! Orgulhosa de você, pois eu nunca consegui desembaralhar as vistas para escrever direito. — Mas foi por sua causa que eu fechei a prova. — Como assim? – disse a mãe, de forma espantada e curiosa, deixando de lado as panelas – Logo eu que nada sei? — O tema era ecumenismo. A professora deu as explicações gerais, falando que era a unidade de todos os povos, um movimento favorável à união de todas as igrejas cristãs. — Vixe, filho! É uma palavra muito difícil: ecumenismo… — Então, mãe, eu me inspirei em sua vida de fé para escrever. Você é ministra da comunhão, é da Pastoral da Saúde e tem amiga de outras religiões, celebram juntas na Campanha da Fraternidade, fazem coisas em comum pelo bem da comunidade. Comunicam entre vocês, de forma respeitosa, qualquer assunto que é interpretado de modo diferente pelas diversas religiões e igrejas aqui em nossa comunidade, mas isso não vira motivo de briga nem de discussão. Cada um “sabe do seu quadrado”, mas estão lado a lado, como se fosse uma engrenagem da minha bicicleta, que funciona em várias marchas. Eu sei disso porque eu fico de fone o tempo todo, mas abaixo o som quando vocês fazem encontros aqui em casa – disse ele, meio envergonhado. — Que belas palavras filho! Por isso ganhou nota total. Mas é isso mesmo! Somos todos irmãos. A gente reza a vida, por isso, aqui na comunidade, a gente não deixa acontecer a guerra de fé que existe em tantos locais! A gente vai caminhando e encontrando os caminhos. É caminho de comunhão. — Na redação, contei também sobre sua emoção quando foi levar comunhão para Dona Maria e o fez ao som dos tambores do filho dela, que soavam como expressão de outro jeito de experimentar a fé. Sabia que o nome disso é diálogo inter-religioso? Aprendi hoje. — Não sabia, mas meu respeito eu sei que abre portas para o diálogo… Isso eu sei. E eu gosto de conversar, viu! — Eu terminei a redação falando que toda mudança sempre vem das sementes, que viram raízes, das bases, das experiências cotidianas que vão criando atalhos até que ganham força para apontar caminhos para que as autoridades, lideranças, responsáveis, legisladores, teólogos, estudiosos possam aprofundar no assunto e encontrar soluções, e criar uma estrada mais segura para o povo caminhar. Essa história aqui imaginada é para nos aproximar da simplicidade quando estamos diante da complexidade. A raiz do ecumenismo é fortalecer a comunhão para anunciar com mais força e alcance. O Papa Francisco já fez seu apelo: “Encontrar-nos, olhar o rosto um do outro, trocar o abraço de paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão para a qual tendemos”. Vamos fazer eco às provocações do Papa, que o caminho ecumênico não é uma escolha, é “uma exigência essencial” de nossa fé, um “requisito” que vem do fato de sermos discípulos de Cristo. De volta à casa de Dona Aurora, a conversa segue, agora com o prato de comida à mesa, como fazem todo dia… — Mas filho, conte-me qual vai ser o próximo assunto de sua redação. — Família no século XXI. Os dois se entreolharam e sorriram discretamente. Vinha ali uma redação forte e incrível! Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Política e violência no Brasil

Estamos em ano de eleições neste 2022. Muitos brasileiros dizem não gostar de política ou não quererem se envolver. Porém o que é política? A palavra “política”, no grego antigo politikós (pólis + ethos) quer dizer “conduta da cidade”, comunidade de vida, dos cidadãos. Alguns exemplos: Petrópolis (cidade de Pedro), Fernandópolis (cidade de Fernando), Rondonópolis (cidade de Rondon), megalópoles (cidade grande). No Período Romano, a palavra “política” passou a equivaler à palavra “cidadania”, do latim antigo (civitas). Portanto as palavras “política” e “cidadania”, em suas origens, querem dizer a mesma coisa. Nesse sentido, desde os tempos da Grécia Antiga, o pensador Aristóteles (século IV a.C.) definiu política como a ciência de bem governar, administrar os conflitos e as necessidades para o bem comum, o que diz respeito aos cidadãos e ao governo de uma cidade. No regime democrático, como acontece no Brasil, os cidadãos capazes participam e tomam decisões nos negócios públicos por meio do voto. Infelizmente, muitos cidadãos brasileiros confundem “política” com “politicagem”, que significa, segundo o dicionário Aurélio, “política mesquinha, de interesses pessoais, desonesta”. Quando ouvimos alguém dizer que dá seu voto a um candidato em troca de cem reais, porque assim ele vai poder comprar dois quilos de carne, isso é politicagem, pois essa pessoa não está pensando na coletividade, na verdadeira política, mas só nela ou só na família dela, em vez de pensar no bem comum. Trocar o voto por um favor (cargos, emprego, dentadura, saco de cimento, etc.) não é correto. Por isso o cidadão deve ser ético, que é a virtude fundamental para combater a corrupção no governo. Cidadão é aquele que cumpre com os deveres e garante seus direitos para com o Estado. O governo, conjunto dos representantes, cobra tributos para o Estado atender às necessidades de sua população. Devemos fiscalizar, no entanto, para onde vai o dinheiro arrecado dos impostos (IPTU, IPVA, IR, ICMS, etc.). Assim, a política tem dimensões: territorial (refere-se ao espaço em que vivemos), social (diz respeito à educação, à saúde, ao transporte, às aposentadorias e outros), econômica (atividades em relação ao trabalho humano), ideológica (abrange o capitalismo e o socialismo) e a partidária (quais partidos representam os grupos da população). Quando o cidadão entende bem o que é política, ele participa, vota conscientemente, acompanha os representantes eleitos do povo e cobra deles posturas diante de reivindicações justas para todos. Daí a necessidade de debates para se conhecerem os projetos de lei apresentados em plenárias, tanto nas câmaras municipais quanto nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Pode-se participar enviando e-mails ou pelas redes sociais, pelos canais de tevê (Senado, Câmara, Justiça), ou presencialmente. E devem-se denunciar os atos arbitrários à cidadania. Em 2023, muitos representantes do povo, no Poder Legislativo, ocuparão o Congresso Nacional e as assembleias legislativas para elaborarem e votarem projetos de leis que devem ser em benefício de todos os cidadãos, além de fiscalizarem o Poder Executivo. Ainda, há alguns Estados da Federação (governadores) que não foram definidos, e a disputa pela Presidência. Esse Poder tem como função executar o que está previsto em lei e representar o Estado ou o País por quatro anos. Constatamos, todavia, que a política envolve relação de poder. Desde tempos remotos, o fenômeno “poder” está enraizado na natureza do ser humano. Se, por um lado, aparentemente trouxe benefício para uns, por outro, causou e tem causado sequelas para a grande maioria da humanidade, como a miséria. Se o governo não for democrático, volta às ditaduras, aos imperialismos, à exploração dos mais necessitados, causando violência; esta gerada pelas “legitimidades” outorgadas ou promulgadas no discurso dos “direitos”. Quando o filósofo Aristóteles afirmou que o “ser humano é um animal racional, social e político”, percebeu que fazer política exige persuasão, convencimento, saber falar. O ser humano é o único animal que tem como característica a capacidade de distinguir o justo do injusto, o certo do errado, o bem do mal. No Brasil, porém, desde o Período Colonial, segundo o linguista Alfredo Bosi, a linguagem tem sido usada para violentar as mentes dos povos tradicionais, causando o etnocentrismo, a violência dos costumes. Até hoje, são violentados em suas aldeias pelo desmatamento das florestas, pela não demarcação de suas terras, pelo avanço do garimpo e das madeireiras. De acordo também com o pensador Assaman, a linguagem foi e tem sido uma forma de apagar a “memória” de grupos ou do povo. Constatamos isso nos livros de História do Brasil, nos quais não se falava dos heróis e heroínas ameríndios e afrodescendentes de nosso povo, mas somente dos vencedores europeus. A violência econômica, gerada pelo capitalismo, perpassa pela globalização produzida pela mídia, conforme outros estudiosos do assunto, atingindo não apenas a violência física, mas também psicológica diante do bombardeio tecnológico, agora informatizada, tendo os indivíduos de enfrentar problemas político-econômico e religiosos, como já alertava Freud em O mal-estar na civilização. A violência às crenças dos indivíduos, à sexualidade, atualmente controlada pela tecnologia do “metaverso”, dos robôs mal-intencionados é um desafio para a sociedade brasileira, que busca livrar-se da politicagem do egoísmo. É necessário abordar a diversidade, exercer o poder popular por meio do voto consciente, em busca de uma política do convívio social tolerante, justo e fraterno, pela qual todos possam, de fato, gozar dos direitos, sem violência, e o poder ser exercido em favor da vida. Ser cidadão é ser político. Participe conscientemente de seu dever e garanta a vida para todos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia (Mater Ecclesiae); filiada à ABA, APEOESP, SBPC; professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC; membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).
“A única coisa perfeita do ser humano é a sua imperfeição”(Isaac Rubin)

“O publicano voltou para sua casa justificado” (Lc 18,14) Se algo fica patente no Evangelho deste domingo é a denúncia, por parte de Jesus, do perfeccionismo farisaico. Fariseus de ontem e de hoje. O tão proclamado ideal de perfeição chega a enraizar-se tão profundamente na vivência religiosa que acaba produzindo consequências desastrosas para as pessoas. A busca de perfeição torna-as rígidas, legalistas e intolerantes; seu deus é pura projeção de sua rigidez e moralismo: um “deus desumano” que cobra até o último centavo e ameaça sempre com o “inferno”. A Bíblia nunca nos apresenta, como modelos de fé, pessoas perfeitas e sem falhas, mas sim, justamente pessoas marcadas pela fragilidade e fracasso e que colocaram sua esperança unicamente em Deus, ao invocarem-no do fundo do abismo. Jesus, através de uma simples parábola, desmascara uma religião centrada no moralismo e no julgamento dos outros. Nesta parábola, Jesus contrapõe os dois extremos da sociedade judaica daquele tempo: o fariseu, expressão máxima da piedade e da moralidade, e o publicano, que por sua profissão, era a expressão máxima do pecador, distante dos ideais religiosos. Ambos vão ao templo e, na oração, cada um deles revela sua vida e seus sentimentos. De fato, é na oração que o ser humano exprime aquilo que é mais íntimo e mostra como ele se relaciona com os outros e com Deus. O risco do farisaísmo é subir o pedestal da perfeição e do legalismo, distanciando-se do amor e da misericórdia de Deus; com isso, cai no orgulho religioso e é incapaz de converter-se a Deus no seu íntimo. Na prática, a oração do fariseu significa submeter Deus a si mesmo, cobrando o prêmio pelas boas ações. Agradece porque é sem vícios, não porque se sinta amado por Deus. Seu louvor e agradecimento é apenas um pretexto para louvar a si próprio, inflar o próprio ego. Ele tem méritos e nada deve a Deus; ao contrário, Deus é quem lhe deve: a enumeração de suas boas obras implica a pretensão de uma recompensa; ele acha que pode impressionar Deus com suas qualidades aparentes, seus sacrifícios e boas obras puramente formais, sem extirpar de seu coração o orgulho e o desprezo pelos outros. A salvação que esperamos não é fruto de nosso trabalho e penitência, de nossa prática legal e de nossas virtudes. Ela é puro dom de Deus, divino presente de seu coração de Pai. Só nos resta acolhê-la em atitude de humilde gratidão. Na sua auto-suficiência e com sua oração um tanto blasfema, o fariseu está aí, de pé, para dar espetáculo, aguardando o aplauso da plateia. O publicano, no entanto, nos revela que basta redescobrir o caminho da humildade (do húmus), bem no fundo de nós mesmos: este é o lugar da oração. Esta humildade é a porta de abertura para sair de um coração fechado em si mesmo, de um coração auto-suficiente e perfeccionista, onde tudo gira em torno do próprio eu, onde não há espaço para o Outro e os outros, onde a Misericórdia não tem como agir para poder transformar a pessoa. A palavra latina humilitas está relacionada com húmus, com terra. Ser humano é reconhecer-se terroso, argiloso; é por essa razão que somos todos irmãos já que somos todos feitos de argila. Somos argilae devemos cuidá-la, cultivá-la e fornecer-lhe as condições para mantê-la aberta ao Transcendente. A humildade é a própria essência do ser humano; ela é a própria condição para ser aquilo que se é: para ser humano. Essa é a verdade de nossa humanidade. Somente o humilde, que está preparado para abraçar seu húmus, sua humanidade, sua fragilidade, sua sombra, experimentará o Deus verdadeiro. Só a aceitação de sua verdade completa conduzi-lo-á no caminho da libertação. E a verdade é que em cada um jazem unidas a luz e a sombra. Em cada santo dorme um pecador, e não reconhecer isso conduz ao farisaísmo e ao moralismo; mas em todo pecador dorme também um santo, e não o perceber supõe um empobrecimento humano, desesperança e vazio. Numa espiritualidade perfeccionista, o ideal é o ser humano puro, sem defeitos nem fraquezas. Mas isso leva a um rigorismo moral, contra quem se dirige a parábola do publicano e do fariseu. Aqui está a aparente contradição da espiritualidade cristã: nós “subimos” para Deus precisamente quando descemos à nossa realidade humana. Nesse sentido, o caminho para Deus não é visto como uma estrada de mão única que nos leva sempre para o alto, em direção às virtudes e à perfeição. Pelo contrário, o caminho para Deus passa pela limitação e fragilidade, pelos erros e desvios enganosos, pelo fracasso e pela decepção consigo mesmo. Quem se identifica com ideais muito elevados, quem se exalta a si mesmo na busca da perfeição, mais cedo ou mais tarde terá de confrontar-se com suas sombras, será forçado a tomar consciência de sua condição humana e terrena, de seu húmus. Quem desce até sua própria realidade, até os abismos do inconsciente, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está subindo para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus verdadeiro. Na parábola acima mencionada, os dois personagens correspondem a dois aspectos de nossa própria pessoa. Vive em cada um de nós um eu prepotente, que se considera justo e rejeita todo o imperfeito; é o eu rígido, fruto da super-exigência, que se identifica com a imagem idealizada de nós mesmos e se alimenta do orgulho. Mas junto a ele, e com frequência sufocado, vive outro eu que teve de esconder-se porque não se sentiu reconhecido em sua verdade nem aceito em seus limites. A parábola revela-nos que a reconciliação virá por esse lado. Precisamos abraçar toda a nossa frágil realidade, em toda a sua verdade e, a partir dessa humildade, começar a viver em gratuidade e em gratidão. A parábola nos fala da necessidade de acolher o desprezível que descobrimos em nós, de receber amorosamente em